Ouvi dizer que os centros de emprego estão a oferecer a desempregados cursos gratuitos de alemão, incluindo a desempregados de longa duração, alguns com mais de 50 anos. Como se o único futuro dos portugueses (dos europeus) fosse tornarem-se todos diligentes e obedientes alemães. Portugal será quando muito uma coutada, um imenso campo de golfe ou uma clínica ensolarada para idosos. Com alguma sorte seguirá a jangada de Saramago, isto é, será um rectângulo de terra que se despega da Europa para errar nos oceanos à procura de um lugar tranquilo, próximo de uma qualquer Atlântida.
Se não se conseguir a convergência na Europa pelo capital e pelas mercadorias, conseguir-se-à pelo trabalho, transportando as pessoas para onde o contexto seja mais favorável à sua produtividade e ademais permitindo um alinhamento mais suave e generalizado do poder de compra dos salários europeus com os padrões médios mundiais. Essencialmente, importando mão-de-obra dos países do sul da Europa a Alemanha está a repetir a experiência da integração da Alemanha de Leste nos anos 1990.
domingo, março 24, 2013
sábado, março 23, 2013
A coisa mais importante
Leiam a legenda
que acompanha cada uma destas 28 fotos. Na próxima vez que me der para me queixar ou
refilar sobre as injustiças da vida, vou fazer um esforço para me lembrar disto:
http://www.aljazeera.com/indepth/inpictures/2013/03/201336144254405970.html
http://www.flickr.com/photos/unhcr/7949331070/in/set-72157631450528344/
I couldn’t read everything in one shot. It’s beyond my comprehension
how one human being can do this to another. I get angry. Very angry.
Vitor´s views
Conclusões de um artigo recentemente publicado por Vitor Gaspar no site do Ministério das Finanças alemão:
The evolution of the Portuguese economy in the first decade of the 21st century demonstrates that excess demand does not lead to sustainable growth. Moreover, the judgment that the developments of 2008, 2009 and 2010 were caused by a shortage of demand motivated expansionary fiscal policy. That error in judgment proved to be fatal as it eventually led to a sudden stop in international private financing.
Overall, it is now clear that Portugal did not adapt its institutions to fit the requirements of euro area participation. Better financing conditions should have triggered real convergence to the core countries in the European Union. Instead, the final result was the accumulation of macroeconomic and financial imbalances. The postponement of their correction led to vulnerability which revealed itself in the context of the global crisis. In April 2011, the request for international financial assistance was unavoidable. This time, adjustment was not only urgent – it was compulsory.
In the early stages of the Economic Adjustment Program, the priority was to correct the most pressing imbalances. Budgetary consolidation was of the utmost importance as it allowed for the accumulation of confidence and credibility at an international level and for the reverse in the long run trend of external deficits. Important progress was also achieved in the two other dimensions of the Program. In the financial sector, the main objective was to preserve stability in the banking system. As for the structural transformation agenda, the main reforms were launched and the privatization program was set in motion. Halfway into the Program, progress has been recorded. As the balance between internal demand and supply was restored in 2012, a new stage in the adjustment process can begin. It is now crucial to consider the transition to economic recovery, so as to successfully complete the Program. The priority is to lay the ground for sustainable growth leading to substantial job creation.
In Portugal, adjustment has come at high social cost. That is clear from the rise in the unemployment rate much above original forecasts. According to the initial projections in May 2011, the unemployment rate would reach 12.1% in 2011 and 13.4% in 2012, initiating a downward trend already in 2013. However, the unemployment rate in 2012 averaged 15.7%. In the fourth quarter of the year, 923 thousand people were unemployed. The unemployment rate stood at the unprecedented level of 16.9%.
Unemployment is the most pressing concern in Portugal. The social and economic repercussions are dramatic. Hence, the main priority in this new stage of the Economic Adjustment Program is to create conditions for private investment to contribute to growth. Only productive investment will allow for economic recovery and subsequently job creation. These are the foundations for sustainable growth and successful adjustment in the euro area. They will pave the way for an open, stable and competitive Portuguese economy.
quinta-feira, março 21, 2013
O refinanciador (venham os chineses...)
Quanto à existência de um país ou entidade supra-nacional que desempenhe o papel de refinanciador (ou de prestamista em última instância) no contexto de uma união monetária em processo de divergência, chamo a atenção para duas questões relacionadas: 1) o “poder de fogo” necessário para que essa função seja efectivamente desempenhada perante a grandeza dos problemas existentes e a contabilidade a curto e a longo prazo que o eventual candidato a essa função irá fazer, entre perdas e ganhos financeiros e geo-estratégicos; 2) o “moral hazard” que tal pode provocar e a necessidade de não descurar os desequilíbrios económicos fundamentais no meio de uma contínua urgência financeira.
Agarrando sumariamente (porque teriamos pano para mangas) em cada um desses pontos:
1) Na UE, metendo de lado por um momento o orçamento de estado alemão ou o próprio banco central alemão, a unica entidade que teria esse “poder de fogo” seria o BCE. Mas, isso significaria ultrapassar o dogma anti-inflacionista para poder actuar massivamente antes que seja tarde demais. Outro candidato seria o banco central chinês que tem vindo a acumular reservas formidáveis que não são outra coisa do que o reverso de uma moeda nacional persistentemente subavaliada. O governo chinês tem demonstrado interesse em aumentar os seus interesses económicos (tambèm) na Europa. A participação em processos de privatização (em Portugal, EDP e REN) e a compra de títulos de dívida pública são provas disso mesmo. O sonho em fazer do yuan uma moeda de reserva (como tem sido o dolar) faz parte da estratégia expansionista chinesa. Não creio que a Reserva Federal Americana tenha neste momento “pulmão” ou genuino interesse em desempenhar a função de credor em última instância da Europa, apesar de poder sofrer significativamente do seu colapso (mas que parte do mundo não sofrerá?). Quanto à Alemanha, tudo depende de quanto tiver a perder não fazendo outra coisa senão apelar a mais austeridade, versus o custo do desempenho dessa função que, em termos muito simples, passaria por assumir o risco de pagar as dívidas dos países insolventes. Não se pode esquecer que, em muitos casos, a ajuda a esses países não é outra coisa senão ajuda aos seus próprios bancos e empresas exportadoras. Ou seja, tratar-se-ia de transformar vendas de bens e serviços em doações, sendo que, no entretanto, essas exportações multiplicaram emprego e produção na própria Alemanha. Quanto ao BCE, tendo o poder de criar moeda, estará a ajudar a pagar dívidas com inflação, o que arrastará múltiplos efeitos (também na esfera cambial), no interior da união monetária bem como na sua relação com o resto do mundo. Dados os seus benefícios resultantes de um forçado “status quo” da união monetária, a par das suas próprias políticas (mercantilistas) de contenção salarial e de ganhos de produtividade, é compreensível a resistência da Alemanha a essa “solução”.
2) Criar uma rede permanente e incondicional conduz à displicência, ao risco moral. Ou seja, os comportamentos podem continuar a ser enviezados do lado da despesa e da ineficiência porque haverá sempre uma entidade terceira a pagar as consequências. Como quando se tem um seguro relativamente barato. Uma das coisas essencias na governação de um sistema de economia capitalista é o mecanismo de incentivos. Os agentes têm de se sujeitar a prémios e penalidades correctos para se atingir determinados fins politicamente definidos. De outra maneira, geram-se anomalias e rendas que se traduzem em situações de desperdício e de injustiça. Isto funciona no seio de uma economia nacional e, talvez por maioria de razão, no seio de uma união monetária, sendo que o risco de os dados estarem viciados à partida é grande quando não existe um mínimo de homogeneidade entre os estados-membros ou medidas comuns eficazes para assegurar uma convergência para tal homogeneidade. A coisa complica-se sobremaneira quando falamos de estruturas sociais e políticas, de culturas, de histórias, de linguas, de leis muito diferentes. O elogio da diversidade pode esvair-se perante a constatação da força dos interesses nacionais num contexto de crise aguda como aquela que estamos vivendo. O desempenho da função de prestamista de último recurso não pode ser um paliativo para debilidades estruturais. O socorro em situações de ruptura financeira não deve adiar “ad infinitum” as reformas de fundo para restabelecer a competitividade. Cancros não se curam com pensos rápidos. Ou, em alternativa, sai-se da união monetária, se possivel de forma ordeira, e fazem-se as reformas possiveis, com calma, para ter o nível de vida possivel. Não se pode pedir aos Povos mais do que podem dar. Não se pode prometer aos Povos menos do que podem alcançar. Mas, cada um deve ser considerado, não como uma folha de papel quadriculado, perfeitamente lisa, mas como uma realidade complexa, social e historicamente determinada.
Agarrando sumariamente (porque teriamos pano para mangas) em cada um desses pontos:
1) Na UE, metendo de lado por um momento o orçamento de estado alemão ou o próprio banco central alemão, a unica entidade que teria esse “poder de fogo” seria o BCE. Mas, isso significaria ultrapassar o dogma anti-inflacionista para poder actuar massivamente antes que seja tarde demais. Outro candidato seria o banco central chinês que tem vindo a acumular reservas formidáveis que não são outra coisa do que o reverso de uma moeda nacional persistentemente subavaliada. O governo chinês tem demonstrado interesse em aumentar os seus interesses económicos (tambèm) na Europa. A participação em processos de privatização (em Portugal, EDP e REN) e a compra de títulos de dívida pública são provas disso mesmo. O sonho em fazer do yuan uma moeda de reserva (como tem sido o dolar) faz parte da estratégia expansionista chinesa. Não creio que a Reserva Federal Americana tenha neste momento “pulmão” ou genuino interesse em desempenhar a função de credor em última instância da Europa, apesar de poder sofrer significativamente do seu colapso (mas que parte do mundo não sofrerá?). Quanto à Alemanha, tudo depende de quanto tiver a perder não fazendo outra coisa senão apelar a mais austeridade, versus o custo do desempenho dessa função que, em termos muito simples, passaria por assumir o risco de pagar as dívidas dos países insolventes. Não se pode esquecer que, em muitos casos, a ajuda a esses países não é outra coisa senão ajuda aos seus próprios bancos e empresas exportadoras. Ou seja, tratar-se-ia de transformar vendas de bens e serviços em doações, sendo que, no entretanto, essas exportações multiplicaram emprego e produção na própria Alemanha. Quanto ao BCE, tendo o poder de criar moeda, estará a ajudar a pagar dívidas com inflação, o que arrastará múltiplos efeitos (também na esfera cambial), no interior da união monetária bem como na sua relação com o resto do mundo. Dados os seus benefícios resultantes de um forçado “status quo” da união monetária, a par das suas próprias políticas (mercantilistas) de contenção salarial e de ganhos de produtividade, é compreensível a resistência da Alemanha a essa “solução”.
2) Criar uma rede permanente e incondicional conduz à displicência, ao risco moral. Ou seja, os comportamentos podem continuar a ser enviezados do lado da despesa e da ineficiência porque haverá sempre uma entidade terceira a pagar as consequências. Como quando se tem um seguro relativamente barato. Uma das coisas essencias na governação de um sistema de economia capitalista é o mecanismo de incentivos. Os agentes têm de se sujeitar a prémios e penalidades correctos para se atingir determinados fins politicamente definidos. De outra maneira, geram-se anomalias e rendas que se traduzem em situações de desperdício e de injustiça. Isto funciona no seio de uma economia nacional e, talvez por maioria de razão, no seio de uma união monetária, sendo que o risco de os dados estarem viciados à partida é grande quando não existe um mínimo de homogeneidade entre os estados-membros ou medidas comuns eficazes para assegurar uma convergência para tal homogeneidade. A coisa complica-se sobremaneira quando falamos de estruturas sociais e políticas, de culturas, de histórias, de linguas, de leis muito diferentes. O elogio da diversidade pode esvair-se perante a constatação da força dos interesses nacionais num contexto de crise aguda como aquela que estamos vivendo. O desempenho da função de prestamista de último recurso não pode ser um paliativo para debilidades estruturais. O socorro em situações de ruptura financeira não deve adiar “ad infinitum” as reformas de fundo para restabelecer a competitividade. Cancros não se curam com pensos rápidos. Ou, em alternativa, sai-se da união monetária, se possivel de forma ordeira, e fazem-se as reformas possiveis, com calma, para ter o nível de vida possivel. Não se pode pedir aos Povos mais do que podem dar. Não se pode prometer aos Povos menos do que podem alcançar. Mas, cada um deve ser considerado, não como uma folha de papel quadriculado, perfeitamente lisa, mas como uma realidade complexa, social e historicamente determinada.
Resultados de Hermès - nunca esteve tão bem o sector de bens de luxo...
La maison de luxe a conquis de nouveaux sommets en 2012, en inscrivant des records de bénéfices et de marge, supérieurs aux attentes du marché, selon ses résultats publiés jeudi. Le bénéfice net est en hausse de 24,5 % à 740 millions d'euros, là où les analystes attendaient 710 à 720 millions. Le bénéfice opérationnel progresse lui de 26,4 % à 1,12 milliard d'euros, quand le marché attendait 1,09 milliard, et la marge ressort à 32,1 %, à un sommet historique depuis l'introduction en Bourse d'Hermès en 1993. Le célèbre fabricant des carrés de soie et des sacs Kelly et Birkin est tiré par la très forte dynamique de ses ventes en Asie mais aussi par l'évolution positive en Amérique notamment.
quarta-feira, março 20, 2013
A teoria da carneirada
Quanto a pânico... posso assegurar que, mesmo nas instituições financeiras mais respeitáveis e com gente mais qualificada, inspira muitas decisões em momentos críticos. Já assisti a “over-reaction” em várias ocasiões, desde a crise de liquidez do final de 2008 (em que se achava que grandes bancos alemães e franceses estariam à beira do colapso) até ao declínio rápido de certos ratings soberanos (que provocou a suspensão súbita de linhas de crédito de curto prazo a bancos sistémicos desses países), passando pela negociação do “haircut” da Grécia ou mais simplesmente pelos resultados das recentes eleições italianas (levando a uma alteração instintiva dos spreads a pagar pelos devedores dos países periféricos). Os episódios são inúmeros, ilustrando a irracionalidade que acompanha o medo e as estratégias mais infundadas de “salve-se quem puder”. Em situações de grande instabilidade, de excepção ou de rumores catastróficos ou eufóricos, os mercados são essencialmente binários, comportando-se numa única direcção i.e. comprando apenas ou vendendo apenas, dessa maneira hiperbolizando as tendências, criando bolhas ou espirais descendentes. Os mercados reais (por oposição aos estilizados nos compêndios) são estúpidos. Perante uma crescente instabilidade e incerteza, os modelos de mercado estlizados tornam-se obsoletos, fintando uma regulação cada vez menos convicta. Com a maravilha de, apesar disso, permitirem lucros ou perdas fabulosos. Como nos casinos. Por trás dos mercados não estão apenas máquinas ou modelos. Estão operadores que são humanos e, portanto, cuja racionalidade é afectada pela psicologia individual e de massa, pelo medo, pela dúvida, pela ansiedade, pelo entusiasmo, pela fantasia. Não há modelo matemático, por mais sofisticado que seja, que resista a isso. E não é essa natureza humana dos mercados que nos deve impedir de tentar compreender o seu modo de funcionamento, de tentar capturar padrões de comportamento. Dito isto, há uns anos li um estudo do banco central francês que procurava explicar os movimentos a curto e médio prazo das taxas de câmbio. Depois de se render à evidência de que teorias convencionais, como a da paridade de poder de compra, não chegavam, o dito estudo concluia que a teoria com maior capacidade explicativa era, nem mais nem menos, do que “la théorie de la moutonnerie”...
segunda-feira, março 18, 2013
O caso de Chipre
Através de segredo bancário e de taxas de imposto
extremamente baixas (da ordem dos 10%) o Chipre atraiu durante vários anos
capitais estrangeiros (incluindo russos, representando actualmente cerca de 30%
do total dos depósitos) à procura de esconderijo. Esse dinheiro de proveniência
suspeita foi aplicado pelos bancos em investimentos que se revelaram ruinosos.
As relações estreitas com a Grécia não ajudaram. O total de activos dos bancos
chega a 7-8x o PIB cipriota… Com vencimentos e remunerações certos do lado do
passivo e retornos negativos do lado do activo está fácil de ver que o buraco
cresceu. E cresceu a tal ponto que os bancos entrariam em ruptura de tesouraria
na ausência de apoio externo excepcional. Sendo país da zona euro, apareceram
os do costume (da Troika) e meteram em cima da mesa EUR 10bn de crédito a longo
prazo desde que cerca de EUR 5-6bn viessem de “esforço doméstico”, ou seja, dos
depositantes. Chama-se a isto condicionalidade. As taxas de que se tem falado
(conforme o valor dos depósitos) podem considerar-se um imposto extraordinário
sobre o património. As últimas informações apontam para a possibilidade de os
depósitos de valor inferior a 25000 euros serem isentos de qualquer imposto
enquanto depósitos de valor superior a meio milhão de euros terem uma taxa da
ordem dos 40% ou mais, com taxas mais baixas para escalões intermédios. Pode
perceber-se que seria injusto serem os contribuintes, em geral, ou os novos
credores externos, em particular, a salvar os depósitos de valor muito elevado
dos oligarcas russos. Curioso que, de repente, o próprio governo russo se
disponibilize a ajudar caso receba informações detalhadas sobre os depositantes
russos envolvidos... De qualquer maneira, não me parece que o governo cipriota
esteja em condições de preservar o paraíso fiscal em que transformou o país.
E não se venha com a tese de que assim se viola a regra
sacrossanta de proteger pequenos depositantes com mecanismos de seguro mútuo
apoiados pelos bancos centrais. Não se trataria de um “haircut” mas de um
imposto. Eu sei: entramos no terreno da semântica… Outra coisa mais criticável
é tratar depositantes da mesma maneira (ou pior) do que credores, isto é,
detentores de títulos de dívida dos bancos em causa.
Tudo isto para dizer que se trata de uma situação
excepcional, pedindo medidas excepcionais que, como sempre nestas coisas, terão
alguma coisa de injusto para certos agentes económicos, em princípio, os mais
frágeis e bem-intencionados. Não se trata de ter o melhor de todos os mundos,
mas de ter o menos mau, sendo certo que se trata, de qualquer maneira, de
mundos falidos. Obviamente, deste tipo de medidas pode emergir um efeito de
pânico e de contágio de consequências imprevisíveis, como é sempre o caso dos
comportamentos irracionais.
Portanto, por agora, “stay calm and carry on”. É
preciso que a música continue a tocar no convés de um navio paquidérmico que
continua a meter água.
Questões de Papa
Perdeu-se um Papa sério e pensador. Fartou-se dos vícios terrenos tais como a intriga, a luta pelo poder, a inveja, a concupiscência e caiu nos braços da contemplação e do espírito. As pessoas gostavam pouco dele porque pensava demais e abraçava de menos. A sua extrema lucidez traduziu-se na retirada perante circunstâncias que não podia controlar. O reconhecimento da impotência pode ser um acto extraordinário de inteligência. Assim foi.
Ganhou-se um Papa simpático e acessível. Este parece um Papa que abraça e abraça e abraça. Que dá ao Povo o que o Povo parece precisar: afecto, simplicidade e perdão. Francisco I não pretende demonstrar a importância de Deus através de silogismos, mas através do sorriso e da interpretação concreta da Humanidade de Deus. De certa maneira, o novo Papa é um demagogo. Mas o Povo não desgosta de demagogos, isto é, de quem torna fácil o que é intrinsecamente complicado.
domingo, março 17, 2013
Hegemónica Alemanha
A Alemanha teria o seu Ego inchado se toda a gente
se ajoelhasse, reconhecendo e abençoando a sua Hegemonia. Mas, a
Alemanha simplesmente não quer pagar o esforço da recuperação dos
outros em nome dessa Hegemonia... até ao momento em que concluir
inequivocamente que não o fazer lhe sairá mais caro do que fazê-lo.
Tão simples como isso! Vivemos num contexto de realpolitik, meu caros.
Esqueçam os "voeux pieux" de solidariedade e construção europeia.
Ora, o que é terrivel é que uma tal conclusão não resultará das crises dos
países não-sistémicos. Para essas crises, haverá sempre um Draghi que
colocará uma rede para amortecer a queda, rede gerível (dadas as
dimensões da "coisa") e convincente para os traders. Mas, queda haverá.
Claramente, as crises dos países sistémicos levam a essa conclusão,
mas o preço a pagar é incomportável, até para uma querida e hegemónica
Alemanha. E a rede do BCE não terá uma malha suficientemente apertada
para suster o trambolhão.
Portanto, quando a Alemanha estiver finalmente disposta a pagar, já será tarde demais.
se ajoelhasse, reconhecendo e abençoando a sua Hegemonia. Mas, a
Alemanha simplesmente não quer pagar o esforço da recuperação dos
outros em nome dessa Hegemonia... até ao momento em que concluir
inequivocamente que não o fazer lhe sairá mais caro do que fazê-lo.
Tão simples como isso! Vivemos num contexto de realpolitik, meu caros.
Esqueçam os "voeux pieux" de solidariedade e construção europeia.
Ora, o que é terrivel é que uma tal conclusão não resultará das crises dos
países não-sistémicos. Para essas crises, haverá sempre um Draghi que
colocará uma rede para amortecer a queda, rede gerível (dadas as
dimensões da "coisa") e convincente para os traders. Mas, queda haverá.
Claramente, as crises dos países sistémicos levam a essa conclusão,
mas o preço a pagar é incomportável, até para uma querida e hegemónica
Alemanha. E a rede do BCE não terá uma malha suficientemente apertada
para suster o trambolhão.
Portanto, quando a Alemanha estiver finalmente disposta a pagar, já será tarde demais.
Estado de alma: individual? colectivo?
Sai... mi manca la forza e l´entusiasmo. Forse è la vecchiaia che mi rende più cinico dopo avere perso le utopie e cominciando a guardare la morte negli occhi. Occorre ogni tanto ricaricare la batteria della follia; se no si scivola piano, piano nel vuoto.
Tradução: Sabes... falta-me a força e o entusiasmo. Talvez seja a velhice que me torna mais cínico, depois de ter perdido as utopias e começando a olhar a morte nos olhos. É preciso de vez em quando recarregar a bateria da loucura; senão, escorrega-se lentamente no vazio.
Tradução: Sabes... falta-me a força e o entusiasmo. Talvez seja a velhice que me torna mais cínico, depois de ter perdido as utopias e começando a olhar a morte nos olhos. É preciso de vez em quando recarregar a bateria da loucura; senão, escorrega-se lentamente no vazio.
O ideal e a náusea do conhecimento
Não resisto a traduzir um excerto de um texto
magnífico publicado no suplemento Babelia do El País de ontem. O texto
intitula-se "Donde està la gran filosofía" e o autor chama-se Javier
Gomá Lanzón.
Aqui vai:
"A consciência faz-nos livres e inteligentes. E
depois? Quem nos dias de hoje faz alarde de resignação costuma receber o
aplauso geral. Que lúcido!, diz-se desse pessimista satisfeito, como se o seu
fatalismo fosse a última palavra sobre o assunto, merecedor de um
"arquivado" com que Mynheer Peperkorn conclui as discussões na
"Montanha Mágica" de Thomas Mann. Mas, o próprio Mann no seu relato
favorito, Tonio Kröger, alerta para os perigos desse excesso de lucidez que
conduz às "náuseas do conhecimento", como as que estragam o gosto
desses espíritos delicados que sabem tanto de Ópera que nunca desfrutam um
espectáculo, por melhor que seja, porque sempre o acham detestavel. A
hipercritica é paralisante se seca as fontes do entusiasmo e fossiliza aquelas
forças criadoras que nos elevam ao melhor. Apenas o ideal promove o progresso
moral colectivo; sem ele estamos condenados a conformar-nos à ordem
estabelecida. Preservar na vida uma certa ingenuidade é uma lição de sabedoria
porque permite sentir o ideal ainda antes de defini-lo.
Se, após estes últimos 30 anos, a filosofia quiser
recuperar-se como grande filosofia, deve encontrar maneira de propor um ideal
cívico para o homem democrático... e fazê-lo, além do mais, com bom estilo.”
quinta-feira, março 14, 2013
Francisco I
La supuesta colaboración del nuevo papa Francisco con la última dictadura de su país, Argentina (1976-1983), constituye el capítulo más oscuro de su vida. Organizaciones de defensa de los derechos humanos lo acusan de haber denunciado a dos sacerdotes de la Compañía de Jesús ante el régimen cuando él era provincial de esa congregación.
Francisco ha sido un prelado muy atento a las vicisitudes de su país, para bien y para mal. Su última intervención lo enfrentó con acritud a la presidenta de la República, Cristina Fernández de Kirchner, por la aprobación de la ley de matrimonio entre personas del mismo sexo. El 9 de julio de 2010, días antes de su aprobación, el cardenal Bergoglio publicó una pastoral calificando como una “guerra de Dios” dicha ley, y alentaba a sus fieles a acompañarle en esa “guerra”. La presidenta le replicó, agriamente, comparando la campaña arzobispal con los “tiempos medievales y de la Inquisición”.
http://internacional.elpais.com/internacional/2013/03/13/actualidad/1363210340_985495.html
Francisco ha sido un prelado muy atento a las vicisitudes de su país, para bien y para mal. Su última intervención lo enfrentó con acritud a la presidenta de la República, Cristina Fernández de Kirchner, por la aprobación de la ley de matrimonio entre personas del mismo sexo. El 9 de julio de 2010, días antes de su aprobación, el cardenal Bergoglio publicó una pastoral calificando como una “guerra de Dios” dicha ley, y alentaba a sus fieles a acompañarle en esa “guerra”. La presidenta le replicó, agriamente, comparando la campaña arzobispal con los “tiempos medievales y de la Inquisición”.
http://internacional.elpais.com/internacional/2013/03/13/actualidad/1363210340_985495.html
terça-feira, março 12, 2013
Realpolitik
Os problemas de Portugal são essencialmente problemas dos portugueses. Os problemas de Espanha ou da Itália são grandes problemas também dos alemães e de toda a zona euro. Quanto aos problemas crescentes de França… nem se fala! Aqui “problemas” quer dizer défice orçamental, dívida pública, recessão, desemprego, défice externo. Há os países sistémicos e os outros. Dos países sistémicos depende a sobrevivência do euro e da própria União Europeia. Por isso têm de ser tratados com luvas de pelica. São sistémicos pelas suas dimensões e pelo seu poder político e económico. O castigo da austeridade (como se fosse receita inevitável) nunca assumirá as mesmas proporções do que se passa nos países não-sistémicos, periféricos. Com o sofrimento dos portugueses podem bem os alemães, holandeses e finlandeses. Será um sofrimento circunscrito, doméstico. Simplesmente, como dizia George Orwel no seu “Animal Farm”, “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”. E o poder é aquele que se tem. E há factores de poder que são inexpugnáveis, tal como ter não sei quantas vezes mais população, território ou dinheiro.
http://en.wikipedia.org/wiki/Realpolitik
http://en.wikipedia.org/wiki/Realpolitik
domingo, março 10, 2013
Puta de vida
Finalmente consegui falar-lhe. Está de cama com uma doença grave. A sua energia emocionou-me. Talvez fosse apenas esforço para desdramatizar a situação em que se encontra. Não conheço os detalhes, mas trata-se de um daqueles casos em que é fácil compôr uma história à medida da nossa compaixão. Seja como for, impressionou-me a normalidade da sua voz e eu procurei estar à altura. Chorei só depois de pousar o auscultador, lembrando as nossas aventuras de jovens universitários que ficaram amigos para sempre, também na distância e no silêncio. E a vida fica cada vez mais presa por um fio, incompreensível.
quinta-feira, março 07, 2013
Maneiras de ser e de estar
Nos negócios não tenho (nem vejo) amigos: apenas interesses pessoais (se os negócios são entre pessoas) ou institucionais (se os negócios são entre instituições). Porque não me agradam as amizades interessadas... Não há nada que me perturbe mais do que a promiscuidade entre os abraços e o dinheiro, entre as benesses e as funções, entre as pertenças e os objectivos. Pessoas independentes podem ter menos vantagens no imediato, mas garantem honestidade e rigor e, no fim de contas, obtém mais poder: o que resulta da credibilidade e da impermeabilidade à chico-espertice e à mediocridade endinheirada que finta o esforço e o mérito e que goza de benefícios frágeis.
terça-feira, março 05, 2013
segunda-feira, março 04, 2013
Manifesto Anti-(novos)Dantas
BASTA PUM BASTA!
Uma geração de jotinhas que consente deixar-se representar por um Passos Coelho é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos. É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Passos Coelho, Morra! PIM!
Um governo com um Passos Coelho a cavalo é um burro impotente!
Um governo com um Passos Coelho à proa é uma canoa em seco!
O Passos Coelho é um imbecil!
O Passos Coelho é meio imbecil!
O Gaspar saberá finança, saberá contabilidade, saberá matemática, saberá fazer folhas excel, saberá tudo menos governar que é a única coisa que ele (acha que) faz!
O Gaspar pesca tanto de desenvolvimento económico que até faz discursos sobre crescimento!
O Gaspar é um habilidoso!
O Gaspar dorme mal!
O Gaspar usa olheiras pesadas!
O Gaspar especula e inocula os números!
O Gaspar é o Gaspar!
O Gaspar é Vitinho!
Morra o Gaspar, Morra! PIM!
O Relvas fez uma licenciatura na Lusófona que tanto o podia ser na Independente, ou na Moderna, ou na Internet, ou na República das Bananas, ou na Farinha Amparo!
E o Relvas teve claque! E o Relvas teve palmas! E o Relvas agradeceu!
O Relvas é um ciganão!
Não é preciso ir p’ró parlamento p’ra se ser um pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se p’ra se ser salteador, basta governar como Relvas! Basta não ter escrúpulos nem morais nem artísticos, nem humanos! Basta censurar as pessoas, as notícias e as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito desafinado e cantar rouco e de olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Relvas!
Morra o Relvas, Morra! Pim!
O Portas nasceu para provar que nem todos os que governam sabem governar!
O Portas é um autómato que deita pr’a fora o que a gente já sabe que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!
O Portas é um ministro dele próprio!
O Portas em génio nunca chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum!
O Portas nú é horroroso!
O Portas cheira mal da boca!
Morra o Portas, Morra! PIM!
O Cavaco é o escárnio da consciência!
Se o Cavaco é Português, eu quero ser Espanhol!
O Cavaco é a vergonha da política portuguesa! O Cavaco é a meta da decadência mental!
E ainda há que não core quando diz admirar o Cavaco!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Cavaco!
E ainda há quem duvide de que o Cavaco não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente nem decente, nem zero!
(…)
E fique sabendo o Relvas que se um dia houver justiça em Portugal, todo o mundo saberá que o autor dos Lusíadas é o Relvas, que n’um rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Passos Coelho que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume a política portuguesa? Não! Mil vezes não!
Temos, além disto o Tozé que já fez cartas p’ra Europa que deixou de ser a derrota do Partido Socialista p’ra ser a derrota da oposição.
E as pinoquices do Cavaco passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Santana Lopes! E o talento insólito de Sócrates Pinto de Sousa! E os golpes do Vítor Constâncio! E as transacções só p’ros amigos do ilustríssimo excelentíssimo senhor Oliveira e Costa! E o Durão Barroso! E o Isaltino Morais de Oeiras! E as imbecilidades do Alberto João Jardim! E mais pedantices do Sócrates! E Ulrich, o Relvas da Banca!
(…)
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Uma Melga Escritora
sábado, março 02, 2013
O mês em revista

Liberdade!

Vaca de Tróia

A política do costume

A gasolina voltou a subir de preço

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Porque vai deixar de haver correio aos sábados

Prioridades (limited resources)

Renascimento


E a luta continua...
L
L!
sexta-feira, março 01, 2013
O empobrecimento inexorável da Europa, a democracia e a Grande Depressão
As pessoas estão fartas do mesmo. Não sabem qual é a saída, sabem apenas que o que está não presta, de facto, ao contrário do que dizia o outro, o que está não se aguenta. Os mesmos políticos, dos mesmos partidos, das mesmas organizações, que têm cada vez menos de representativas, não levam a lado nenhum. Vira o disco e toca o mesmo. O que ontem era um ultraje amanhã torna-se indispensável para o saneamento das contas. Os que disseram ontem vergonha, fazem amanhã exactamente dessa maneira. E depois há os que sempre disseram “não” da mesma maneira e com a mesma falta de resultados concretos. Foi tudo isto que, em Itália, esteve por detrás do sucesso eleitoral de um comediante que passa a vida a gritar que é preciso mandá-los todos para casa. O problema é que a criatura não sabe o que fazer desse capital de protesto e põe-se ostensivamente de fora de qualquer alternativa para a governação do país, criando, na prática, um enorme impasse. Porque gritar é fácil, assumir responsabilidades e sobretudo propor acções concretas para melhorar a vida das pessoas é muito mais difícil e arriscado. Esse capital de protesto pode esfumar-se ainda mais rapidamente do que apareceu e depois o comediante passará a ser apenas comediante de segunda categoria em vez de brincar com os sonhos e com a realidade de milhões de pessoas. Não basta pegar num megafone e adornar problemas com adjectivos hiperbólicos. Os problemas não vão desaparecer apenas com uma vontade sonante de que desapareçam. E o verdadeiro problema é que os problemas são de uma complexidade que torna a sua resolução incompatível com os espaços nacionais e com o curto ou médio prazo.
O padrão de vida a que tantos europeus estão habituados não é sustentável. Os filhos e netos da classe média das últimas décadas não poderão ter os mesmos privilégios. O ascensor social parou. Entrou-se num plano inclinado que puxa para baixo cada vez mais pessoas e grupos. E esse processo ainda apenas começou. As frustrações presentes vão sendo atenuadas com a antecipação das heranças e com o consumo do capital. Mas isso só funciona para quem tenha capital e dura enquanto dura. As convulsões sociais para resistir heroicamente a essas tendências vão agudizar-se. O aumento da desigualdade na distribuição do rendimento que normalmente acompanha as recessões não ajuda e agrava a percepção de injustiça social que, por sua vez, aprofunda os conflitos.
Os sectores de tecnologia convencional ou intermédia que criam os milhões de empregos que são precisos estão debaixo de intensa concorrência das partes do mundo que finalmente chegaram à industrialização. Os sectores de alta tecnologia criam valor encaixado por uma minoria, criam alguns poucos empregos altamente qualificados e proporcionam oportunidades de deslocalização para sectores a jusante.
A democracia permite - e bem - a manifestação das opiniões e da resistência à perda de benefícios. Torna as mudanças mais lentas e suaves porque implica negociação e compromisso. A democracia não rima com mudança radical e favorece a cristalização de alguns interesses. A situação torna-se perigosa quando os desfavorecidos do sistema deixam de acreditar no próprio sistema, por falta da sua eficácia para resolver os problemas, colocando-se então nos braços da demagogia, do populismo e do autoritarismo. De facto, temos muito a aprender com os anos 30 do século passado.
O padrão de vida a que tantos europeus estão habituados não é sustentável. Os filhos e netos da classe média das últimas décadas não poderão ter os mesmos privilégios. O ascensor social parou. Entrou-se num plano inclinado que puxa para baixo cada vez mais pessoas e grupos. E esse processo ainda apenas começou. As frustrações presentes vão sendo atenuadas com a antecipação das heranças e com o consumo do capital. Mas isso só funciona para quem tenha capital e dura enquanto dura. As convulsões sociais para resistir heroicamente a essas tendências vão agudizar-se. O aumento da desigualdade na distribuição do rendimento que normalmente acompanha as recessões não ajuda e agrava a percepção de injustiça social que, por sua vez, aprofunda os conflitos.
Os sectores de tecnologia convencional ou intermédia que criam os milhões de empregos que são precisos estão debaixo de intensa concorrência das partes do mundo que finalmente chegaram à industrialização. Os sectores de alta tecnologia criam valor encaixado por uma minoria, criam alguns poucos empregos altamente qualificados e proporcionam oportunidades de deslocalização para sectores a jusante.
A democracia permite - e bem - a manifestação das opiniões e da resistência à perda de benefícios. Torna as mudanças mais lentas e suaves porque implica negociação e compromisso. A democracia não rima com mudança radical e favorece a cristalização de alguns interesses. A situação torna-se perigosa quando os desfavorecidos do sistema deixam de acreditar no próprio sistema, por falta da sua eficácia para resolver os problemas, colocando-se então nos braços da demagogia, do populismo e do autoritarismo. De facto, temos muito a aprender com os anos 30 do século passado.
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Eleições italianas
A Itália encaminha-se para mais uma anomalia. Anomalias de que é feito o país, praticamente desde a sua fundação no final do século XIX. A anomalia actual consiste em várias anomalias: Berlusconi que ainda consegue quase 30% dos votos, apesar de ser uma gravíssima anedota, uma vergonha de projecção internacional; os partidos da normalidade, de centro esquerda, exaustos, chegam também a cerca de 30%, apesar de terem estado na oposição nos últimos anos; Mario Monti, uma espécie de Troika sem Troika, fez um partido à pressa e conseguiu menos de 10%; “last but not the least”, um tipo chamado Beppe Grillo que cospe discursos anti-sistema e populistas, comediante tipo-Herman José, consegue mais ou menos 25%. Depois, independentemente da expressão da vontade dos cidadãos, desde 2005, a Lei Eleitoral italiana serve para impedir a constituição de maiorias claras. Assim, todos os acólitos da política podem continuar a sugar os recursos públicos. Há muitas clientelas, velhas ou novas, a satisfazer. Em Itália existe Parlamento e Senado. Parece que o centro-esquerda, liderado por Bersani, ganhará o Parlamento, enquanto estará em minoria no Senado, o qual pode boicotar o governo que possa resultar do Parlamento. Ou seja, uma confusão digna de spaghetti. Noutras palavras: um país ingovernável! Com a particularidade de ser “apenas” um dos quatro maiores países da União Europeia, um dos seus fundadores, no meio de uma crise profunda do país e da própria UE. A enorme confusão italiana não ajudará a resolver os problemas crescentes da desintegração europeia. Dito isto, pode dizer-se que, em Itália, tudo isto é “déjà vu”. Itália não é um exemplo de estabilidade política, sobretudo depois da II Guerra Mundial. Talvez seja um dos países do mundo com maior número de mudanças de governo. A Itália tem uma enorme qualidade que também é um grande defeito: sabe auto-governar-se...
segunda-feira, fevereiro 18, 2013
Os talibans da Comissão
Quem manda na Comissão Europeia não são os políticos. Esses – os comissários – até podem ter muito boas intenções para ajudar os países em dificuldade. Mas quem manda são os técnicos, ou melhor, o nível intermédio da tecnoestrutura de Bruxelas que, extremamente cioso dos seus conhecimentos académicos, defende rigidamente soluções técnicas não necessariamente compatíveis com a realidade concreta dos países a que se destinam. A tentativa de exercer pressão política sobre esses miúdos pode até ser perversa porque eles se rebelam e ficam ainda mais assanhados contra o que consideram ser a fisiológica incompetência dos políticos.
Talvez se deva arredondar este argumento porque, na verdade, os miúdos da Comissão, embutidos de diplomas, limitam-se a executar tecnicamente, da melhor maneira, políticas decididas a montante pelos Estados Membros e pelo Parlamento Europeu. Não se pode decidir mal nesses patamares (por exemplo, tomar decisões que, na pratica, conduzem à fractura da Europa entre Norte e Sul) e depois pretender permissividade e entorse relativamente aos detalhes por parte dos técnicos. Percebo que eles mostrem as garras para resistir a tal prostituição.
Talvez se deva arredondar este argumento porque, na verdade, os miúdos da Comissão, embutidos de diplomas, limitam-se a executar tecnicamente, da melhor maneira, políticas decididas a montante pelos Estados Membros e pelo Parlamento Europeu. Não se pode decidir mal nesses patamares (por exemplo, tomar decisões que, na pratica, conduzem à fractura da Europa entre Norte e Sul) e depois pretender permissividade e entorse relativamente aos detalhes por parte dos técnicos. Percebo que eles mostrem as garras para resistir a tal prostituição.
domingo, fevereiro 17, 2013
Os do poleiro e os outros
A resignação da maior parte dos portugueses, a sua
disponibilidade para acreditar na enésima história da carochinha, a forma
saloia como aderem às promessas dos que contribuiram decisivamente para o estado
a que isto chegou, tudo isso nem sequer é surpreendente. É apenas lamentável.
Será falta de alternativas credíveis? Será preguiça em dar a volta por cima
como Povo. Porque os mais desesperados, ousados ou tontos safam-se deixando o
país para trás (ver post anterior sobre a nova emigração).
Se o país sair depressa do pesadelo, depois do Povo ter demonstrado tanto masoquismo, a questão que se coloca é a de saber porque é que essa capacidade colectiva de aguentar não se pode converter em capacidade colectiva de criar, de inovar, de progredir. O problema não pode ser apenas o desgoverno endémico. Porque o desgoverno é provocado por líderes saídos de onde? Escolhidos por quem? A culpa não pode ser sempre dos que estão no poleiro.
Se o país sair depressa do pesadelo, depois do Povo ter demonstrado tanto masoquismo, a questão que se coloca é a de saber porque é que essa capacidade colectiva de aguentar não se pode converter em capacidade colectiva de criar, de inovar, de progredir. O problema não pode ser apenas o desgoverno endémico. Porque o desgoverno é provocado por líderes saídos de onde? Escolhidos por quem? A culpa não pode ser sempre dos que estão no poleiro.
La « stupidité fonctionnelle » à l’origine de la crise financière
Citado de Le Monde:
Les entreprises de services financiers n'encouragent pas leurs employés à utiliser toutes leurs capacités intellectuelles. Pis, ce "management par la stupidité" serait à l'origine de la crise financière de la City, selon une nouvelle étude rédigée par les professeurs Andre Spicer (de la City University de Londres) et Mats Alvesson (de l'université de Lund, en Suède).
Selon cette théorie de la "stupidité fonctionnelle", le monde de la finance serait dicté par le "fais d'abord, réfléchis après". Une attitude qui tend à écarter les questions gênantes, et les longues réflexions sur les actions des salariés – alors même qu'on attend d'eux de grandes compétences.
"De nombreuses entreprises, où l'intelligence des employés est primordiale, telles que les banques et les sociétés de services professionnels, assurent que les compétences sont à la base de leurs activités, écrit Andre Spicer. Cependant, en y regardant de plus près (…, ces entreprises incitent des personnes très intelligentes à ne pas mettre à profit l'ensemble de leurs capacités intellectuelles. Au lieu de cela, les employés sont supposés ne pas trop réfléchir et simplement faire leur travail."
La stupidité fonctionnelle sert en fait à maintenir et renforcer l'ordre dans ces entreprises, ainsi qu'à créer de bons rapports avec les autres salariés en période de croissance. Pas de question, pas de doute : la confiance amène son lot de bienveillance. En cas de crise, en revanche, cette "lobotomisation" empêche le salarié de sortir des sentiers battus. On évite toute confrontation qui pourrait être constructive. L'étude conclut en soulignant à quel point les capacités cognitives des individus sont limitées dès que s'instaurent des relations de domination au lieu de faire appel aux ressources et compétences des individus.
Les entreprises de services financiers n'encouragent pas leurs employés à utiliser toutes leurs capacités intellectuelles. Pis, ce "management par la stupidité" serait à l'origine de la crise financière de la City, selon une nouvelle étude rédigée par les professeurs Andre Spicer (de la City University de Londres) et Mats Alvesson (de l'université de Lund, en Suède).
Selon cette théorie de la "stupidité fonctionnelle", le monde de la finance serait dicté par le "fais d'abord, réfléchis après". Une attitude qui tend à écarter les questions gênantes, et les longues réflexions sur les actions des salariés – alors même qu'on attend d'eux de grandes compétences.
"De nombreuses entreprises, où l'intelligence des employés est primordiale, telles que les banques et les sociétés de services professionnels, assurent que les compétences sont à la base de leurs activités, écrit Andre Spicer. Cependant, en y regardant de plus près (…, ces entreprises incitent des personnes très intelligentes à ne pas mettre à profit l'ensemble de leurs capacités intellectuelles. Au lieu de cela, les employés sont supposés ne pas trop réfléchir et simplement faire leur travail."
La stupidité fonctionnelle sert en fait à maintenir et renforcer l'ordre dans ces entreprises, ainsi qu'à créer de bons rapports avec les autres salariés en période de croissance. Pas de question, pas de doute : la confiance amène son lot de bienveillance. En cas de crise, en revanche, cette "lobotomisation" empêche le salarié de sortir des sentiers battus. On évite toute confrontation qui pourrait être constructive. L'étude conclut en soulignant à quel point les capacités cognitives des individus sont limitées dès que s'instaurent des relations de domination au lieu de faire appel aux ressources et compétences des individus.
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