domingo, janeiro 27, 2013
O efémero das coisas mais importantes
Mete medo a ligeireza das coisas, a forma como as coisas e as relações mais importantes se podem desvanecer e substituir com tanta facilidade. Tudo parece incrivelmente precário, fugaz. Vive-se uma vida inteira ao lado de alguém, partilha-se tudo ou quase tudo com essa pessoa. Um dia, ela desaparece para sempre. A dor pode ser enorme, mas é momentânea, passageira, redentora. Porque a vida (a nossa vida) tem obviamente de continuar. Temos de sobreviver, ou seja, resistir à ausência, continuar neste caminho das pedras que é a vida, à procura de outras motivações e de outros afectos. Até ao dia em que o negro da nossa própria ausência se apresentará como algo de misteriosamente definitivo, a que não resistiremos, a que os outros resistirão. Obviamente. Mas – repito – é impressionante a capacidade das pessoas de desdramatizar as maiores perdas, de achar efémero o que ainda ontem era vital, coisa de vida ou de morte. A vida prevalece sempre, salvo a nossa própria vida quando nos deixa, sem alternativa nem explicação. Deixa-nos no Nada que nunca ninguém contou e que a religião tenta preencher com narrativas mais ou menos fantasiosas.
sexta-feira, janeiro 25, 2013
A genética hipocrisia do poder
Não há nenhum director, presidente ou chefe de qualquer estirpe ou denominação que diga mal da sua organização, por pior que ela esteja, por maior que seja o mal-estar dos subordinados, por mais ameaçador que seja (ou pareça) o futuro. O poder tem sempre de se auto-legitimar, de dizer bem de si próprio, de exaltar as suas qualidades, mesmo que isso leve à negação mais descarada da realidade. Até ao ponto em que não lhe resta outra hipótese senão demitir-se. Este axioma a que se poderia chamar “genética hipocrisia do poder” aplica-se também ao governo das nações.
quinta-feira, janeiro 24, 2013
O regresso aos mercados...
O "sucesso" da emissão de dívida do Estado a 5 anos no mercado internacional de capitais é melhor do que um falhanço.
Não quer dizer grande coisa para os portugueses no imediato.
Faz parte de um processo longo, cheio de dificuldades, no sentido da estabilização das condições de financiamento externo da nossa economia.
Esse "sucesso" é devido a três factores: promessa do BCE de comprar dívida dos Estados que cumpram planos de ajustamento; apetite dos investidores por titulos de rendimento elevado; percepção de uma execução diligente do acordo assinado com a Troika.
A economia é feita de expectativas, pelo que, deste "sucesso" pode resultar algum optimismo dos agentes económicos, favorecendo as decisões de investimento.
Esta situação não deve recolocar em marcha um processo semelhante ao que nos trouxe aqui: endividamento estúpido. O objectivo deve continuar a ser o de reduzir a dívida para ter dinheiro para pagar outras coisas para além de juros. Acesso ao mercado deve, portanto, permitir maior autonomia e condições mais razoáveis de refinanciamento, sem depender das ordens de nenhuma Troika. Não deve servir para recomeçar a aumentar dívida.
Não se deve esquecer que a indústria financeira é estúpida, sem memória e pró-cíclica, o que não lhe impede de ganhar dinheiro, com lucros privados e perdas públicas.
Não quer dizer grande coisa para os portugueses no imediato.
Faz parte de um processo longo, cheio de dificuldades, no sentido da estabilização das condições de financiamento externo da nossa economia.
Esse "sucesso" é devido a três factores: promessa do BCE de comprar dívida dos Estados que cumpram planos de ajustamento; apetite dos investidores por titulos de rendimento elevado; percepção de uma execução diligente do acordo assinado com a Troika.
A economia é feita de expectativas, pelo que, deste "sucesso" pode resultar algum optimismo dos agentes económicos, favorecendo as decisões de investimento.
Esta situação não deve recolocar em marcha um processo semelhante ao que nos trouxe aqui: endividamento estúpido. O objectivo deve continuar a ser o de reduzir a dívida para ter dinheiro para pagar outras coisas para além de juros. Acesso ao mercado deve, portanto, permitir maior autonomia e condições mais razoáveis de refinanciamento, sem depender das ordens de nenhuma Troika. Não deve servir para recomeçar a aumentar dívida.
Não se deve esquecer que a indústria financeira é estúpida, sem memória e pró-cíclica, o que não lhe impede de ganhar dinheiro, com lucros privados e perdas públicas.
domingo, janeiro 20, 2013
Conclusões a partir do último relatório do FMI
# Um retorno à tendência de crescimento anual médio dos anos 1970 a 1990, próxima de 3,5%, não é previsível nos próximos 20 anos
# Um desemprego estrutural elevado veio para ficar, o que deve ser adicionado ao problema da tendência para o envelhecimento populacional (em que o rácio de dependência dos cidadãos com mais de 65 anos em relação aos em idade de trabalhar vai subir de 26,9% para 38,3% no espaço de vinte anos)
# Mesmo num cenário "otimista", a produtividade total da economia não crescerá em média sequer ao mesmo nível do período logo a seguir à adesão de Portugal à CEE
# Há um problema no capital humano que se reflete na produtividade do trabalho (e na própria capacidade de gestão, de que esta parte do relatório não fala), apesar da nova geração ter um nível educacional comparável ao dos países desenvolvidos; o fosso nesta área com a média da OCDE é mais importante do que as deficiências no mercado laboral e no mercado de bens e serviços; a manter-se uma trajetória de aumento da emigração este problema estrutural poderá agravar-se
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/os-4-cenarios-do-fmi-para-portugal=f780642#ixzz2IVlX9MVx
sábado, janeiro 19, 2013
Vencedores a todo o custo
http://expresso.sapo.pt/armstrong-dopei-me-porque-queria-ganhar-fosse-como-fosse=f780321))
A história de Lance Armstrong é notável por várias razões. Sobretudo, porque hiperboliza o que se passa com tantas outras pessoas e famílias: o deslumbramento (da aparência) do êxito e a disponibilidade para fazer tudo o que for preciso para lá chegar, incluindo a mentira e, no limite, o crime. Também levanta a velha questão da responsabilidade individual face às pressões sociais para ser e parecer de uma certa maneira bem sucedida, de acordo com os cânones do sistema. É triste que haja tantos Lance Armstrong de cordel, que não são entrevistados por Oprahs e que andam por aí a fazer de conta, até ao dia em que lhes executam as hipotecas e os metem na cadeia. O caso recente do burlão bem falante das televisões, jornais e grémios literários é só mais um episódio dessas mentiras.
A história de Lance Armstrong é notável por várias razões. Sobretudo, porque hiperboliza o que se passa com tantas outras pessoas e famílias: o deslumbramento (da aparência) do êxito e a disponibilidade para fazer tudo o que for preciso para lá chegar, incluindo a mentira e, no limite, o crime. Também levanta a velha questão da responsabilidade individual face às pressões sociais para ser e parecer de uma certa maneira bem sucedida, de acordo com os cânones do sistema. É triste que haja tantos Lance Armstrong de cordel, que não são entrevistados por Oprahs e que andam por aí a fazer de conta, até ao dia em que lhes executam as hipotecas e os metem na cadeia. O caso recente do burlão bem falante das televisões, jornais e grémios literários é só mais um episódio dessas mentiras.
terça-feira, janeiro 15, 2013
Estupidez funcional, idiotas úteis, incompetência qualificada
"If you’re still wondering what inflated the dotcom bubble, inflamed the financial crisis and ignited a series of recent corporate disasters, the answer is staring you in the face: it’s the stupidity, stupid.
Failure to step back and question flawed assumptions and established working practices condemned internet start-ups, international banks and parts of the world economy to oblivion at worst, or at best, years of painful rehabilitation.
“Functional stupidity” is the latest theory, conceived by Mats Alvesson and André Spicer, to describe the perilously bovine state into which many large organisations can easily sink. It is not the first contradiction in terms applied to such problems.
During the cold war, western apologists for the Soviet Union, unknowingly doing the bidding of their cynical Moscow masters, were described as “useful idiots”. In 1986, Chris Argyris wrote how otherwise proficient managers could unintentionally contribute to a regime of “skilled incompetence”, by adeptly avoiding pressing questions. Latterly, Margaret Heffernan has blamed “wilful blindness” for the catastrophes that befell Lehman Brothers, Bernard Madoff’s investors and Rupert Murdoch’s UK newspapers.
What intrigues me is the insight that stupidity is essential. Managers need to instil a little stupor into their staff (and imbibe some themselves) for big companies to operate at all. The “functional” part of stupidity lubricates the work process and fosters greater certainty and a happier atmosphere. If you don’t believe there’s a place for stupidity, picture the opposite – an atmosphere of “dysfunctional smartness”, in which bright professionals run amok, questioning everything. Would the gains in terms of corporate self-awareness really be worth the total sacrifice of cohesion and efficiency?"
Extractos de um artigo de Andrew Hill publicado ontem em FTimes on-line.
segunda-feira, janeiro 14, 2013
O meu Beatle favorito a cantar uma das minhas canções favoritas:
“all things must pass, none of life’s dreams can last, so I must be on my way to face another day”
Distâncias Higiénicas
Depois de mais de cinco décadas por esta terra, cheguei finalmente à
conclusão (espero que de uma vez por todas) de que a melhor maneira de evitar a
dor emocional é manter todas as relações interpessoais a pelo menos um braço bem estendido de distância. Mais vale tarde do que
nunca.
O que me leva para aqueles
“pensamentos positivos” que tanto gostamos de desejar uns
aos outros mas que, frequentemente, traduzem para “wishful thinking”, para ilusões,
equivalente a atirar areia para os olhos – et de là vient tout le problème. Atravessar a vida (de uma ponta à outra) sem esperança é muito mais
seguro; quanto mais for a esperança, maior será a queda. Pode-se tratar de uma
fase ou uma crise de meia-idade, pode ser que não. Vou fazer um esforço para
que não seja. Tenho que desenterrar o escudo que tanto me protegeu durante
aqueles anos difíceis (e longínquos) da adolescência e que por vezes me valeu a
alcunha de “enigmática.”
Não quero com isto dizer que recomendo esta atitude aos
estimados leitores. Trata-se apenas de um desabafo “cibernético”, para mim uma mera
“técnica de sobrevivência.” Assim é mais fácil.
Dito isto, desejo a todos muita felicidade e
pensamentos positivos.
LIFE
domingo, janeiro 13, 2013
"I'm shutting your butt down!"
Este senhor ficou furioso quando lhe perguntaram se existe alguma relação entre gostar da violência nos filmes e gostar da violência na realidade. Ver especialmente a partir de 4m30''.
sexta-feira, janeiro 11, 2013
Abençoada estupidez dos mercados
A economia vai mal, cada vez pior. Mas, as taxas de juro pagas pelo Estado, pelos bancos e pelas grandes empresas portuguesas nos mercados internacionais de capitais baixam. Isto é, os credores estrangeiros parecem satisfeitos com taxas mais baixas para assumir risco português, parece não terem tantas dúvidas, como há 6 meses ou 1 ano, sobre a capacidade de pagamento dos devedores portugueses. Só um exemplo: há um ano, a taxa que o Estado teria de pagar para pedir emprestado a 10 anos era da ordem de 10-12%; hoje é de pouco mais de 6%, menos do que se pagava no momento em que se aceitou o resgate da Troika em Maio de 2011.
Como explicar este paradoxo?
Devo confessar alguma dificuldade. Passando além do argumento da irracionalidade dos mercados financeiros e do chamado efeito de carneirada que os caracteriza, uma explicação pode residir na fome de rendimento dos gestores de carteiras de activos. Os fundos de pensões, os fundos soberanos, as companhias de seguro, os bancos precisam de uma rendibilidade mínima dos seus investmentos financeiros. Ora, nos últimos meses/anos, com a queda da inflação e a aversão ao risco, as taxas de rendibilidade cairam consideravelmente. Os investidores estiveram na defensiva à espera que a poeira assentasse, à custa das suas metas de rendibilidade. No momento em que se vislumbra um certo alívio do risco global e se gera um “momentum” favorável, eufemismo para designar uma “carneirada em alta” ou o regresso dos “bulls” em contraposição aos “bears”, os gestores de fundos precipitam-se sobre os activos com rendimento comparativamente mais elevado. Assim, esta semana, a dívida da Colômbia vendeu-se tão bem quanto as obrigações hipotecárias da Caixa Geral de Depósitos, provocando uma baixa das taxas efectivas de remuneração desses títulos.
Janela de oportunidade a aproveitar pelos emitentes de dívida portuguesa tão depressa quanto possível. Porque a estupidez dos mercados pode funcionar ao contrário com a mesma rapidez...
domingo, janeiro 06, 2013
O conceito de "financiável"
Uma das doutrinas de Vitor Constâncio que, aliás, legitimou o despesismo dos governos de Sócrates, prescreve que numa união monetária os saldos das balanças correntes entre os estados membros não têm qualquer importância porque serão sempre "financiáveis". Portanto, a preocupação deve ser o emprego e não o combate aos défices que gera austeridade e espiral recessiva. Não posso estar mais de acordo em relação à necessidade de adoptar políticas que esconjurem esse flagelo que é o desemprego, mas tenho alguma dificuldade em aceitar o argumento de que os saldos das balanças correntes não contam numa união monetária como a que se criou na Europa. Senão vejamos: um certo país entra numa situação de permanente excesso de importações em relação às suas exportações de bens e serviços. Isso pode dever-se a politicas orçamentais expansionistas, a falta de competitividade da produção desse país ou a uma conjugação desses factores. Com moeda única não haverá possibilidade de ajustamento cambial. Além disso, taxas de juro determinadas centralmente ao nível médio da união monetária favorecerão o endividamento. Por definição, a balança de pagamentos estará sempre equilibrada, pelo que, o défice da balança de transações correntes terá como reverso um superavit da balança de capitais. Mas isso supõe que haja outros membros da união (os exportadores líquidos) que estejam dispostos a continuar a vender a crédito aos importadores líquidos. É nesse sentido que os défices poderão ser sempre "financiáveis"... até ao ponto em que os exportadores se apercebem de que o crescimento da dívida dos importadores não tem fim, de que essa dívida não é sustentável, que é como quem diz, reembolsável em condições razoáveis para os credores, isto é, sem perdas. Se for essa a conclusão, apesar de tudo, o défice dos importadores será concebível desde que financiado, não por dívida, mas por subsídios... Esses, de facto, não são reembolsáveis! Mas, aí entra-se no terreno de uma troca desigual, porventura virtuosa para os mais fracos, implicando uma contribuição generosa dos mais competitivos para o bem-estar e emprego dos menos competitivos. Porque não? Porém, a não ser que haja fundadas razões para tal, solidariedade permanentemente num único sentido chama-se outra coisa: assistencialismo.
Naturalmente, há outro argumento a debater: o das políticas mercantilistas adoptadas unilateralmente por determinados estados membros para conquistar competitividade e melhorar a própria balança corrente em detrimento doutros estados. Talvez o dito assistencialismo se possa justificar como compensação pelos danos causados por essas políticas...
Anna Karenina
http://focusfeatures.com/anna_karenina/overview
Anna Karenina é um bom filme, sobretudo pela coreografia (de Sidi Larbi Cherkaoui) que dá uma dimensão fortemente teatral ao filme, enfatizando o lado dramático e passional da história. Portanto, ressalvando o facto de não ter lido o romance (o que não é coisa pouca para o argumento...) não estou de acordo com a critica que se segue (salvo quanto aos comentários sobre as interpretações de Jude Law e Keira Knightley)...
http://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2012/12/anna-karenina-read-the-book-skip-the-movie/266614/
Anna Karenina é um bom filme, sobretudo pela coreografia (de Sidi Larbi Cherkaoui) que dá uma dimensão fortemente teatral ao filme, enfatizando o lado dramático e passional da história. Portanto, ressalvando o facto de não ter lido o romance (o que não é coisa pouca para o argumento...) não estou de acordo com a critica que se segue (salvo quanto aos comentários sobre as interpretações de Jude Law e Keira Knightley)...
http://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2012/12/anna-karenina-read-the-book-skip-the-movie/266614/
sexta-feira, janeiro 04, 2013
quinta-feira, janeiro 03, 2013
quarta-feira, janeiro 02, 2013
Pequenas e grandes guerras
Vivemos numa época de “ego a mais” e de "outro a menos”. As pessoas consideram-se mais do que nunca o umbigo do universo. Dir-se-à que essa hegemonia do individualismo é uma conquista da Humanidade contra o obscurantismo e as ditaduras de todo o tipo (religioso, político, moral) que aniquilavam as pessoas. Na Idade Média, a religião, as crenças, os preconceitos, a ignorância deixavam pouco espaço ao indivíduo. Dominava a comunidade, comandada por autocráticos chefes do corpo e da alma, padres ou senhores feudais. Um deus tutelar guiava as vontades e a leitura canónica do mundo. O Homem libertou-se de deus mas tornou-se prisioneiro de si mesmo, obcecado pelo poder da propriedade, da razão e do conhecimento, orgulhoso da sua liberdade. O problema é que homens e mulheres atomizados, auto-suficientes, enfartados de tecnologia e meios de comunicação que tornam dispensável o contacto físico, homens e mulheres assim, não formam uma sociedade, ou seja, um grupo com valores e missão comuns, com um sentido de pertença e de solidariedade. De facto, a solidariedade torna-se um empecilho à expressão mais "eficiente" do individualismo. O individualismo triunfante conduz à solidão (iludida por coisas como a hiper-comunicação das redes sociais) e à falta de empatia que provoca ou tolera a violência e o crime. Assim, ridicularizando a caridade e a compaixão, rejeitando o temor a deus, as pessoas formam grupos sem escrúpulos, hiper-competitivos, impiedosos em nome da supremacia da liberdade individual.
Vivemos num mundo perigoso, cheio de cinismo e insensibilidade relativamente ao que não contribui para o bem-estar individual, medido por padrões homologados, um mundo parado num presente hiperbólico, receoso do futuro e desdenhoso do passado. A banalização do sofrimento dos outros a par da dramatização patética do próprio sofrimento, a incapacidade de lidar com a dor e com a morte, a obsessão pela juventude e pela beleza, a sub-contratação a instituições públicas ou privadas dos cuidados aos mais frágeis, a consideração dos outros como utensílios da realização dos próprios fins e desejos, tudo isso são sintomas de disfunção das sociedades ocidentais contemporâneas.
Um destes dias, um amigo dizia-me que tudo isto prefigura a guerra. E acrescentou que a situação a que chegámos talvez seja a consequência de falta de guerra durante tantos anos. As grandes guerras (porque pequenas temos todos os dias, cada vez mais dolorosas) destapam as panelas de pressão em que se cozinham as contradições e os conflitos que, atingindo certas proporções, tornam as grandes guerras inevitáveis... e úteis. Pena que os indivíduos se apercebam finalmente da sua fraqueza, que deixem de se considerar deuses só quando o mundo começar a cair literalmente à sua volta, quando a destruição, a morte e o sofrimento lhes bater à porta.
Como dizia também uma “melga escritora” há alguns dias, talvez seja necessário reinventar a Fé, porque a Fé liberta enquanto a religião oprime e as pessoas devem recuperar a humildade da sua natureza humana em vez de se colocarem numa falsa e arrogante posição divina, sem renunciar por completo à sua individualidade porque a verdadeira Fé só pode ser individual.
Vivemos num mundo perigoso, cheio de cinismo e insensibilidade relativamente ao que não contribui para o bem-estar individual, medido por padrões homologados, um mundo parado num presente hiperbólico, receoso do futuro e desdenhoso do passado. A banalização do sofrimento dos outros a par da dramatização patética do próprio sofrimento, a incapacidade de lidar com a dor e com a morte, a obsessão pela juventude e pela beleza, a sub-contratação a instituições públicas ou privadas dos cuidados aos mais frágeis, a consideração dos outros como utensílios da realização dos próprios fins e desejos, tudo isso são sintomas de disfunção das sociedades ocidentais contemporâneas.
Um destes dias, um amigo dizia-me que tudo isto prefigura a guerra. E acrescentou que a situação a que chegámos talvez seja a consequência de falta de guerra durante tantos anos. As grandes guerras (porque pequenas temos todos os dias, cada vez mais dolorosas) destapam as panelas de pressão em que se cozinham as contradições e os conflitos que, atingindo certas proporções, tornam as grandes guerras inevitáveis... e úteis. Pena que os indivíduos se apercebam finalmente da sua fraqueza, que deixem de se considerar deuses só quando o mundo começar a cair literalmente à sua volta, quando a destruição, a morte e o sofrimento lhes bater à porta.
Como dizia também uma “melga escritora” há alguns dias, talvez seja necessário reinventar a Fé, porque a Fé liberta enquanto a religião oprime e as pessoas devem recuperar a humildade da sua natureza humana em vez de se colocarem numa falsa e arrogante posição divina, sem renunciar por completo à sua individualidade porque a verdadeira Fé só pode ser individual.
domingo, dezembro 30, 2012
Um chip do conhecimento...
Acho que as pessoas deviam nascer com um chip com uma memória da Humanidade, pelo
menos, um arquivo dos factos e realizações mais importantes. Uma espécie de ponto de partida universal e consensual a que todos teriam acesso independentemente da sua condição social, económica ou política, raça, credo ou religião. Bem sei que nestas coisas há bem pouco de consensual, mas qualquer coisa como umas "nações unidas do conhecimento" poderia fazer um esforço para criar essa história comum.
Qual o objectivo de tão peregrino projecto? Simplesmente, assegurar um mínimo de igualdade relativamente ao conhecimento e poupar tempo e energia aos seres humanos que passam a maior parte da vida a chegar às mesmas conclusões dos seus antepassados, a "(re)inventar a roda", a reinterpretar coisas bem conhecidas, a assimilar coisas triviais. Dir-se-à que desse processo de continua elaboração do que já é conhecido resultam novas nuances, perspectivas inovadoras, numa palavra, criação. Dir-se-à que o conhecimento é, por natureza, limitado e subjectivo, que não se pode pôr um ponto final em coisa alguma. Que o conhecido só é parcialmente conhecido e, portanto, pôr milhões de pessoas em cada geração a reflectir sobre o que a humanidade já conhece só pode enriquecer o conhecimento, descobrir falhas ou novas dimensões do que se conhecia.
Bem sei que o meu projecto é pura ficção científica, uma alucinação, um shortcut típico de uma era que se julga omnisciente. Mas, imaginemos por um segundo que não teríamos de "perder tempo" a chegar às mesmas básicas conclusões dos nossos antepassados. Quereria dizer que, a partir do tal chip integrado nas nossas "fisiológicas" faculdades, podíamos dedicar todo o nosso tempo e inteligência a descobrir coisas novas, a criar verdadeiramente, a fazer avançar o mundo mais depressa e melhor, sobretudo, evitando os disparates e atrocidades do passado.
Eu sei. Tudo isto pode parecer um exercício patético, tipo guião de um novo Matrix. Eu sei que a sobranceria científica e tecnológica, que a obsessão da racionalidade esquece uma vertente essencial das decisões e da história da Humanidade: as emoções. E para essas não há chip que valha... Emoções são matéria de arte, não de ciência.
Qual o objectivo de tão peregrino projecto? Simplesmente, assegurar um mínimo de igualdade relativamente ao conhecimento e poupar tempo e energia aos seres humanos que passam a maior parte da vida a chegar às mesmas conclusões dos seus antepassados, a "(re)inventar a roda", a reinterpretar coisas bem conhecidas, a assimilar coisas triviais. Dir-se-à que desse processo de continua elaboração do que já é conhecido resultam novas nuances, perspectivas inovadoras, numa palavra, criação. Dir-se-à que o conhecimento é, por natureza, limitado e subjectivo, que não se pode pôr um ponto final em coisa alguma. Que o conhecido só é parcialmente conhecido e, portanto, pôr milhões de pessoas em cada geração a reflectir sobre o que a humanidade já conhece só pode enriquecer o conhecimento, descobrir falhas ou novas dimensões do que se conhecia.
Bem sei que o meu projecto é pura ficção científica, uma alucinação, um shortcut típico de uma era que se julga omnisciente. Mas, imaginemos por um segundo que não teríamos de "perder tempo" a chegar às mesmas básicas conclusões dos nossos antepassados. Quereria dizer que, a partir do tal chip integrado nas nossas "fisiológicas" faculdades, podíamos dedicar todo o nosso tempo e inteligência a descobrir coisas novas, a criar verdadeiramente, a fazer avançar o mundo mais depressa e melhor, sobretudo, evitando os disparates e atrocidades do passado.
Eu sei. Tudo isto pode parecer um exercício patético, tipo guião de um novo Matrix. Eu sei que a sobranceria científica e tecnológica, que a obsessão da racionalidade esquece uma vertente essencial das decisões e da história da Humanidade: as emoções. E para essas não há chip que valha... Emoções são matéria de arte, não de ciência.
quarta-feira, dezembro 26, 2012
Natal
O Natal passou. Numa euforia consumista mais moderada. Mas os centros comerciais continuaram cheios e frenéticos como ovos, sobretudo nos últimos dias. Andaram a queimar os últimos cartuchos antes da execução do orçamento de 2013. Ao longo dos últimos 20-30 anos, os portugueses alimentaram a ilusão de poder consumir à tripa forra como se fossem ricos. Muitos fizeram-no - porque os vizinhos também o faziam - à custa de subsídios e empréstimos, truques e manias, chico-espertices de que a malta é perita. E enfrascaram-se numa percepção de bem-estar que se materializa em coisas e hábitos que se tornaram indispensáveis. O modelo de consumo, o estilo de vida dos centros comerciais, dos bens de luxo (ou a parecer de luxo) e dos automóveis reluzentes inscreveu-se nos genes de muitos portugueses. Quando o rendimento cresceu as pessoas ajustaram depressa de mais os seus hábitos de consumo e queimaram uma margem saudável de poupança porque o futuro era “já” e a prosperidade só podia continuar. Quando a crise eclodiu (por culpa dos outros, essa entidade esquisita que dá jeito nos momentos de incompreensão ou de reclamação de inocência), quando os impostos subiram, os empregos se esfumaram, os subsídios baixaram e o crédito se fez mais raro, foi uma chatice. Porque custa perder uma certa sensação de conforto e de sucesso. É penoso cortar naquelas redundantes rotinas que se tinham tornado imprescindíveis, os carros substituídos mais raramente, os electrodomésticos que vão à reparação para obter vidas ulteriores, a casa própria substituída pela arrendada, os miúdos que passam para a escola pública, as auto-estradas substituídas por estradas secundárias cada vez mais apinhadas, etc, etc. Porque é preciso resistir, sobreviver, nalguns casos, salvar as aparências. Também há muitos casais jovens a viver de pensões de reforma e a pedir heranças antecipadas e os velhotes que julgavam já ter visto tudo e ainda a missa vai no adro até serem acolhidos na graça do Senhor. E há uns tipos a tresandar a perfume caro, com sapato bicudo, gelatina no cabelo e blusão de cabedal de marca “comme il faut” a passear arrogância e desprezo pelos pobres e falhados.
O País está mal, vai para pior antes de eventualmente melhorar. Estamos no terceiro pacote do FMI depois de 1974. Gastámos rios de dinheiro de fundos estruturais e de crédito externo ao preço da chuva. Não vou mais para trás, mas foram raros os períodos da sua história em que Portugal viveu do que produziu. Talvez o Salazarismo tenha tido esse realismo económico, mas o corolário foi a pobreza e a falta de liberdade, como se “portugueses por sua conta” fosse igual a “pobreza”. Conclusão temerária e triste. A culpa é destes meliantes que nos governaram e governam. Claro, a culpa é sempre desses inúteis que quiseram acelerar irresponsavelmente e incompetentemente a nossa chegada a um patamar superior de abastança. Os portugueses, os outros que se limitaram a votar e que não governam mais nada do que a sua casinha, são vítimas incrédulas e indefesas...
Agora esperemos por um novo Natal cheio de prendas da generosidade externa… Porque a alternativa será durante algumas gerações passar Natais "low cost" para pagar o património de interesse duvidoso que se construiu depressa de mais, como auto-estradas vazias e rotundas caleidoscópicas. É claro que sobra sempre a hipótese de ir à procura do leite e do mel lá fora. De resto, era essa também uma importante válvula de escape do Salazarismo.
O País está mal, vai para pior antes de eventualmente melhorar. Estamos no terceiro pacote do FMI depois de 1974. Gastámos rios de dinheiro de fundos estruturais e de crédito externo ao preço da chuva. Não vou mais para trás, mas foram raros os períodos da sua história em que Portugal viveu do que produziu. Talvez o Salazarismo tenha tido esse realismo económico, mas o corolário foi a pobreza e a falta de liberdade, como se “portugueses por sua conta” fosse igual a “pobreza”. Conclusão temerária e triste. A culpa é destes meliantes que nos governaram e governam. Claro, a culpa é sempre desses inúteis que quiseram acelerar irresponsavelmente e incompetentemente a nossa chegada a um patamar superior de abastança. Os portugueses, os outros que se limitaram a votar e que não governam mais nada do que a sua casinha, são vítimas incrédulas e indefesas...
Agora esperemos por um novo Natal cheio de prendas da generosidade externa… Porque a alternativa será durante algumas gerações passar Natais "low cost" para pagar o património de interesse duvidoso que se construiu depressa de mais, como auto-estradas vazias e rotundas caleidoscópicas. É claro que sobra sempre a hipótese de ir à procura do leite e do mel lá fora. De resto, era essa também uma importante válvula de escape do Salazarismo.
quinta-feira, dezembro 20, 2012
Corridas
Corro. Como quem toma vitaminas. Como os miúdos a quem davam óleo de fígado de bacalhau. Corro para manter a forma, espécie de terapia para os músculos, coração e pulmões. Com a ilusão de perder calorias porque acho que estou a engordar, obsessão de cinquentões metódicos e resistentes à velhice. Apesar de tudo, corro menos vezes do que seria aconselhável para atingir os meus saudáveis fins porque a vida me esgota noutras corridas. Os meus percursos preferidos passam por jardins e cemitérios. Adoro desafiar os mortos com a eloquência do meu suor, fazendo-lhes pirraça, mostrando a mim mesmo que estou mais vivo do que nunca porque odeio a morte e os seus rituais e os seus monumentos ridículos. Sair do cemitério é como renascer para entrar na rua cheia de árvores que me leva a casa. No chuveiro, dou por terminado o masoquismo terapêutico.
terça-feira, dezembro 18, 2012
Fim do mundo - 21.12.2012
http://blogs.elpais.com/tuitologia/2012/12/fin-del-mundo-mayor-broma-de-internet.html
Fim do mundo é todos os dias para quem morre...
sábado, dezembro 15, 2012
Parole, parole, parole...
As palavras também se mastigam. Quando não saem facilmente da boca ou dos dedos no teclado. Há palavras que começam por não nascer na cabeça, que se escondem com medo de dizer o que não queriam dizer. As palavras são como miúdos traquinas, sempre aos ziguezagues com as regras, metendo-se onde não são chamadas. E há palavras cheias de vaidade e soberba que saem com fleuma, simplesmente para não dizer nada ou para dar a impressão de uma importância que não têm. Aquelas palavras que se repetem como se fossem muletas para amparar o desgraçado do orador, desprovido de imaginação. Há palavras ou expressões que, à primeira vista, parecem horriveis, como por exemplo, “derivado a...” para designar “por causa de”. Até que são recicladas por um noto escritor e – pronto! – ficam na moda. Outras palavras, como “indígena”, para apoucar os trogloditas de certo país, tornam-se hediondas... com o devido respeito pelas criaturas que verdadeiramente merecem tal epíteto. Depois, há aquelas frases que começam sempre por “portanto”, insinuando uma conclusão sem premissas, ou “efectivamente”, para deixar a entender que não pode ser de outra maneira, mesmo antes de se indicar a tese que se pretende defender. E também aquelas palavras que se usam para mostrar que se estudou alguma coisa, nalguma universidade, como “paradigmático”, “conceptual” ou “epistemológico”. Sabe deus o que estará por baixo (ou por cima) de tais enormidades... Mas lá que ficam bem, ficam! É fantástico o que as palavras podem valer para além do que significam.
Há concerteza muitas linguagens, incluindo a do silêncio, da ausência, do olhar, dos gestos, das imagens, etc. Mas, temo que as palavras sejam indispensáveis para exprimir decisões, sentimentos, pensamentos. E elas são o que são. E a capacidade de cada um de nós para as colocar no sítio certo, no momento certo é o que é. E o risco de mal-entendidos ou de interpretações indesejadas não se pode eliminar. A desigualdade também se aplica ao domínio das palavras, à perícia da sua utilização, obviamente relacionada com o grau de literacia de cada um.
As redes sociais ampliaram a comunicação escrita, multiplicaram os escritores de romances ou de monosílabos. Fico espantado como é que essa comunicação pode gerar tanta empatia ou antagonismo. Fico com a impressão de que a comunicação que se esgota na escrita é radical, binária: ou tudo bem, até à fantasia, ou tudo mal, até à cacetada.
Esta pequena crónica é mais uma prova da potência das palavras em si mesmas. Sinceramente, comecei a escrever sobre palavras porque me faltava conteúdo e desaguei num mar inesperado. Mas, por aqui me fico porque cansei e tenho medo de me afogar...
Liberdade para matar
Mais uma tragédia a cerca de 100 km de Nova Iorque. Um tipo assassinou 27 pessoas numa escola primária, entre as quais 20 crianças com idades entre 4 e 10 anos. De caminho matou a mãe. Em 2012, foram assassinadas com armas de fogo mais de 10000 pessoas nos Estados Unidos. Vendem-se quase 17 milhões de armas de fogo por ano naquele país, em perfeita legalidade. Esse comércio tem vindo sempre a crescer. Mais: em sacrossanta conformidade com a famosa segunda emenda da Constituição. É um direito dos cidadãos norte-americanos comprar e utilizar armas de fogo, tão ou mais inalienável do que o direito a respirar... Aparentemente, existe um lobby fortíssimo, liderado pela National Rifle Association, que tem impedido todas as tentativas para rever a Lei. Democratas e Republicanos têm estado refèns desses interesses e valores. Porque de valores anquilosados e pouco humanos se trata.
É preciso revisitar o processo de criação dos Estados Unidos. Um país construido a pulso por pioneiros de variadas proveniências (sobretudo, europeias) que se expunham a todo o tipo de riscos, em paragens hostis e disputando terra e dinheiro sem tréguas, frequentemente chacinando populações indigenas, subordinando os escrupúlos e a Lei ao sucesso material. Um país baseado num individualismo desenfreado, orgulhoso e desconfiado do Estado. Um país que foi forjado na auto-defesa, no esforço hercúleo de individuos ciosos de uma liberdade e iniciativa quase ilimitadas.
Tudo isso são valores do Far West, da fundação dos Estados Unidos, enraizados no imaginário colectivo, transmitidos de geração a geração. Lamentavelmente, valores que continuam a justificar um sistema que facilita a consumação do que de mais hediondo pode ter a natureza humana.
domingo, dezembro 09, 2012
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