Como já devem ter
reparado, decidi aceitar o convite do Miguel para participar como escritora
neste blog (ver os comentários ao post Mourinhos e Ronaldos de 5 de Maio). Acho
que vai ser um desafio interessante e espero não contribuir para o declínio
deste excelente blog. Obrigada, Miguel, por uma oportunidade que nunca me tinha
passado pela cabeça e que há uma semana atrás me deixou aterrorizada mas que,
agora, até acho gira.
domingo, maio 20, 2012
BRIOSA: Campeões de Portugal
A vitória de hoje na Taça de Portugal encheu-me de emoção. Não é apenas a vitória de uma equipa de futebol. É a vitória de uma história, de uma cidade, de uma universidade, de um percurso de resistência, de sensibilidade a causas colectivas. Que outra equipa levaria ao estádio nacional enormes bandas a dizer: "Mãe estou desempregado" ou "Menos 11000 bolsas de estudo"? É a consagração de múltiplas memórias, minhas seguramente, de quando ía à bola todos os domingos com o meu pai ver jogar glórias do futebol português como Gervásio, Vitor Campos, Mário Campos, Alhinho, Rui Rodrigues, Maló, Artur Jorge, Toni e tantos outros. De memórias e de um presente de quem passa por Coimbra e de quem vive em Coimbra, de quem nasceu em Coimbra, cresceu em Coimbra ou foi adoptado por Coimbra.Depois, por detrás deste meu romantismo, também estão jogadores emprestados, comprados, vendidos, hipotecados, orçamentos mais ou menos desequilibrados, dívidas que vão sendo sustentáveis ou sustentadas, etc. Estão seguramente interesses menos platónicos. Mas, se a essas lógicas, a que não resiste o actual futebol de alta competição, se acrescenta um certo pudor e muita paixão para fazer da Académica um estandarte de uma cidade e de uma cultura, teremos talvez de vergar-nos a alguma falta de virgindade.
Depois de tanta racionalização, tenho de confessar que a minha paixão pela Académica é simplesmente isso mesmo: paixão. Nada tem de racional. É tudo emoção. Como deve ser. Talvez também identidade...
GRANDE BRIOSA PARA SEMPRE.
sábado, maio 19, 2012
Nunca Subestimem O Poder De Um Blog
"The sad truth is that stories like this are no longer news. But in this particular case, it is -- because of what happened next." Tirado daqui: Uma Historia Triste com Um Final Feliz
sexta-feira, maio 18, 2012
Seasons In The Sun
God, this
brings back memories!
Outro tempo, outra vida, outra cidade, outro país, outro continente!...
Por ser fácil de entender, aprendi muito vocabulário com esta canção que estava constantemente a passar na rádio - sabia melhor a letra aos 13/14 anos do que agora...
("We had joy, we had fun, we had seasons in the sun, but the wine and the song, like the seasons have all gone")
Outro tempo, outra vida, outra cidade, outro país, outro continente!...
Por ser fácil de entender, aprendi muito vocabulário com esta canção que estava constantemente a passar na rádio - sabia melhor a letra aos 13/14 anos do que agora...
("We had joy, we had fun, we had seasons in the sun, but the wine and the song, like the seasons have all gone")
quinta-feira, maio 17, 2012
A relva do meu jardim
O meu passatempo favorito? Nada do que se possa pensar... Simplesmente ver a relva do meu jardim crescer. Estender os olhos pelos poucos metros quadrados de verde à frente da porta da minha sala e achar que são um país, um continente, um planeta. Observar os movimentos de pássaros e gatos que aparecem sem convite e que lentamente passeiam pelo pequeno relvado à procura de um insecto suculento ou simplesmente em trânsito para outros planetas.
Deixar os sentidos descansar, parados no verde escasso, escapar à pressa dos dias, à gravidade dos problemas, mandar as ameaças e as crises à merda, desviar o pensamento para o verde da relva do meu minúsculo jardim elevado à categoria de calmante com efeitos imbatíveis.
A relva do meu jardim cresce silenciosamente, discretamente, seguramente, sem fazer mal a ninguém, sem disputar mais do que o meu esforço duas vezes por mês para a cortar. O que não è pouco, sobretudo quando chove e está calor, ingredientes de um crescimento mais vigoroso. O inverno inibe a exuberância do meu irrisório jardim. Não è preciso cortar a relva que fica petrificada e estáctica, rendida aos argumentos da geada e da neve.
“Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.” Fernando Pessoa
Deixar os sentidos descansar, parados no verde escasso, escapar à pressa dos dias, à gravidade dos problemas, mandar as ameaças e as crises à merda, desviar o pensamento para o verde da relva do meu minúsculo jardim elevado à categoria de calmante com efeitos imbatíveis.
A relva do meu jardim cresce silenciosamente, discretamente, seguramente, sem fazer mal a ninguém, sem disputar mais do que o meu esforço duas vezes por mês para a cortar. O que não è pouco, sobretudo quando chove e está calor, ingredientes de um crescimento mais vigoroso. O inverno inibe a exuberância do meu irrisório jardim. Não è preciso cortar a relva que fica petrificada e estáctica, rendida aos argumentos da geada e da neve.
“Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.” Fernando Pessoa
terça-feira, maio 15, 2012
Não acredito em bruxas, mas que as há, há!
L'avion qui emmenait François Hollande à Berlin pour un dîner avec la chancelière allemande Angela Merkel a été touché par la foudre et a dû regagner Paris, selon l'Elysée. Le président français a décollé peu après à destination de la capitale allemande à bord d'un autre avion. (Reuters)
domingo, maio 13, 2012
Há maneiras simples e quase incompreensíveis de fazer um homem feliz: esse é o caso de o seu clube do coração conseguir safar-se à descida de divisão na última jornada do campeonato. Deu para estar lá a vibrar na penúltima jornada com uma vitória preciosa por 1-0 sobre o V. Setúbal. Ontem, vitória fora sobre o V. Guimarães por 2-1. Nos dois últimos jogos, conseguiram o milagre de ganhar, o que não acontecia há 15 0u 16 jogos... E pronto, quando o desastre parecia iminente, conseguiram manter-se na Primeira. Vai sendo assim quase todos os anos. E esse sofrimento, essa tragédia faz parte da mística, da glória de não perder, mais do que da de ganhar. Segue-se a final da Taça contra o Sporting no Jamor no próximo domingo. Era bonito trazer a taça de novo para Coimbra depois de tantos anos. Força BRIOSA !...
sábado, maio 05, 2012
Mourinhos e Ronaldos
Nos últimos dias, um grupo de notáveis portugueses juntou-se sob a égide de uma inefável instituição de seu nome COTEC para “puxar pela malta”, para instilar optimismo e confiança num tecido social à beira de um ataque de nervos. Entre os peregrinos entusiastas figuravam criaturas de irrefutável sucesso, doméstico e internacional, como Durão Barroso e Cavaco Silva que, de colarinho desapertado, disseram que a chave da recuperação reside na inovação, no empreendorismo (palavra horrível…) e na criatividade. O super confiante Durão Barroso disse que os portugueses até são bons, mas falta-lhes auto-estima e espírito positivo, e são demasiado discretos, como se tivessem vergonha de ser tão fantásticos. Que devíamos todos pôr os olhos no Mourinho e no Ronaldo, paradigmas do portuguesismo triunfante, nessa arte superior de dar o pontapé na bola.
Lá sermos todos Mourinho ou Ronaldo, sobretudo noutras artes, ainda vá que não vá. Mas ser criaturas de sucesso como Durão Barroso, enfin, ça se discute…
Lá sermos todos Mourinho ou Ronaldo, sobretudo noutras artes, ainda vá que não vá. Mas ser criaturas de sucesso como Durão Barroso, enfin, ça se discute…
Pingo Amargo

Já muito se discorreu sobre o binómio Pingo Doce / 1° de Maio. Não quero chover no molhado. Reconheço-me, aliás, em muito do que disse e escreveu Pacheco Pereira (v. o seu artigo na página 54 do “Público” de hoje). Quero apenas deixar um singelo comentário adicional.
A lógica do Pingo Doce terá sido simplesmente a de pretender obter vantagens com a concessão de vantagens aos clientes. Não acredito que haja alguma conspiração ideológica. Contudo, a rede de supermercados deveria ter uma ideia das consequências da enormidade que estava a fazer, tendo em conta, sobretudo, o estado de pobreza e de necessidade em que se encontra o país. O que o Pingo Doce fez não se desvia do que outras empresas, como a Ryanair, fazem, isto é: dou-vos o que precisam ao preço da chuva; em troca, posso tratar-vos como me apetece, se necessário, como pedaços de merda com uma carteira com o pouco dinheiro que serve para pagar a mercadoria que vos vendo. Vender muito barato, tornar acessíveis certos bens e serviços em condições excepcionais, parece dar o direito ao vendedor de ficar com um bocado da dignidade do comprador, no limite, de o humilhar, premeditadamente ou involuntariamente. A obediência à mais primária vantagem económica, em que entre produtores e consumidores vigoram apenas os princípios da utilidade e da maximização de excedentes, baseados num putativo livre-arbítrio, não sobrevive a conceitos como a dignidade ou o respeito. A ficção do “homo economicus” não tem moral – apenas vontade. O Pingo Doce dirá que não obrigou as pessoas a andar à pancada nos seus supermercados, que não é responsável pela gula ou mesquinhez dos clientes. Que se limitou a dar-lhes incentivos. Mas, o mesmo não se pode dizer do estado a que o país chegou e que exorbitou os instintos mais primários dos “consumidores racionais”, transformando socialmente um Pingo Doce num infeliz Pingo Amargo!
segunda-feira, abril 30, 2012
domingo, abril 29, 2012
Financiamento ou investimento?
Há pessoas com responsabilidade nos meios político e
económico que dizem faltar financiamento para, finalmente, promover o
crescimento. Os bancos continuam a obter liquidez através de depósitos, das
operações de desconto junto do BCE e da venda de activos ao Estado (fundos de
pensões, créditos municipais e outros). Esse dinheiro, porém, não seria
destinado a financiar a economia mas, em vez disso, seria colocado junto do
próprio BCE ou na compra de títulos de dívida pública a taxas suculentas. Os
bancos teriam um excesso de zelo na gestão do risco de liquidez, mantendo
montantes avultados de dinheiro, mais ou menos esterilizado, na expectativa de
uma deterioração ainda mais acentuada das condições macro-económicas.
Este raciocínio parece-me só parcialmente correcto. Em
primeiro lugar, porque um dos principais problemas da economia portuguesa é o
endividamento excessivo, o qual, tautologicamente, não se resolve voltando a aumentar
as dívidas dos agentes económicos... Estamos numa fase de desendividamento o
que quer dizer poupar mais para reembolsar passivos do passado. Tão simples
como isso! E pena é que tal se traduza em contracção da actividade económica.
Idealmente o tal aumento da poupança deveria resultar de um aumento da produção
doméstica mais do que proporcional ao aumento da despesa doméstica. Mas, não é
isso que se passa. Está-se a tentar poupar reduzindo a despesa mais do que proporcionalmente
à redução da produção...
Em segundo lugar, seria óptimo promover a produção através
de financiamento de projectos sólidos dos pontos de vista económico e
financeiro. Mas, onde se encontram tais projectos? Realizados por quem? Pelo sector
público não seguramente, que não pode aumentar a dívida no imediato, nem tem uma
estratégia coerente de investimento. Pelo sector privado, também não vislumbro
iniciativas dignas de nota. As famosas PME que salvariam o país do desemprego e
que aumentariam as exportações e substituiram as importações estão asfixiadas
em dívidas e enfermam de proverbiais fraquezas estruturais que não se resolvem
nalguns meses.
Acrescem a tudo isto duas circunstâncias de gestão igualmente
difícil, se de todo possivel, ao nivel nacional: (a) contexto internacional que
determina a procura externa dos bens e serviços domésticos e o comportamento
dos mercados de capitais onde se decide a possibilidade e as condições de um regresso
luso ao financiamento privado externo; (b) expectativas (ou confiança) dos
agentes económicos (sobretudo dos investidores), porque a economia funciona
muito na base de “animal spirits” (sempre Keynes...) ou intuição.
sábado, abril 28, 2012
quarta-feira, abril 25, 2012
terça-feira, abril 24, 2012
Miguel Portas
Não conhecia bem Miguel Portas. Só o vi algumas vezes na televisão. Li alguns artigos seus. De longe, fiquei com a impressão de ser boa pessoa, íntegro, bem intencionado, visionário, com uma rara inocência na selva da politica. Era evidente a sua diferença, positiva, em relação a figurões como o meio-irmão Paulo ou o lider viperino e hiper-demagógico do Bloco, Francisco Louçã. Miguel Portas apresentava uma pureza anómala nos tempos que correm. Tenho muita pena dele, estimo a sua dignidade e a austeridade da sua dor, até ao fim, devorado pela doença de merda que por aí anda. Simbólico que desapareça na véspera do 25 de Abril, no meio de homenagens de circunstância, pela sua morte e pelo 25 de Abril. Na prática, homenagens na morte lenta e inexorável do 25 de Abril...
domingo, abril 22, 2012
Um jardim
No meu
jardim passeiam gatos que não me pertencem, pousa um melro que também não é
meu. E outros pássaros que não conheço. Vão e vêm quando lhes apetece,
deixam-se apenas observar fugazmente. Nem sei se dão pela minha curiosidade por
trás da janela. Porque a vida deles (e a minha) continua(m) noutros jardins, em
frente de outras casas. A erva do meu jardim cresce sem pedir autorização. Na
minha opinião cresce depressa demais, regada pela chuva que não pára de cair há
vários dias. Fica espessa e hirta, orgulhosa de crescer sem a minha
autorização. Tenho de a cortar daqui a pouco. Ao fundo do jardim existem canas
da índia que oscilam como bailarinas ao ritmo do vento. De repente, ficam estranhamente imóveis como se parassem para descansar ou para me dizer
que sabem que as observo. O meu jardim é pequeno, delimitado por sebes que
ocultam o jardim do vizinho e as coisas que por lá se passam. Imagino que sejam
semelhantes às do meu jardim. Mas, não sei se o meu vizinho as vê como eu as
vejo.
sexta-feira, abril 20, 2012
quarta-feira, abril 18, 2012
Um dia...
Um dia, a crise acabará e voltaremos a sorrir e a comprar casas enormes e carros de alta cilindrada e televisões flat screen e a ir de férias a Fortaleza e a encher o carrinho das compras sem olhar as etiquetas dos preços e a encher a casa de bugigangas porque são giras. Um dia, a crise acabará e acharemos que já somos ricos ou que seremos ricos daqui a nada e os nossos filhos serão ainda mais ricos. Um dia, deixaremos de dar voltas na cama porque a conta terá dinheiro que chegue para pagar todas as despesas. Um dia, voltaremos a ir de avião à Eurodisney com os miúdos e o emprego estará mais seguro do que o nascer do sol todos os dias. E voltará a haver feriados, mesmo aqueles que quase ninguém compreende, mas que são uma delícia, principalmente para fazer pontes mais compridas que a Vasco da Gama. Um dia, os telejornais deixarão de abrir com os números assustadores do desemprego e dos cortes dos salários e das reformas e teremos um ministro das finanças que falará como as pessoas normais, sem se achar um prosélito incompreendido. Um dia, não haverá Troika mas apenas Santíssima Trindade. E passaremos nas auto-estradas com orgulho de sermos europeus e cheios de speed porque mais litro menos litro de gasolina dará no mesmo. E a Europa será porreira e continuará a dar muita massa até para cursos de formação profissional mais ou menos fantasmas em que se ensina aos índigenas que por acaso existem e por esse simples facto merecem um diploma.
terça-feira, abril 17, 2012
Mundo estranho
Toda esta história de Breivik, o carnificina da Noruega, é monstruosa. O país concede a um evidente criminoso, que se declara inocente alegando a culpa das suas vítimas, um tratamento VIP em matéria de julgamento. O tipo apresenta-se em Tribunal mais mimoso, metálico e insolente do que nunca, é cumprimentado cordialmente por várias personagens (presumo, advogados), faz uma saudação provocatória que consiste em fechar o punho, levá-lo ao coração e levantá-lo com orgulho… Tudo amplamente transmitido pelas televisões de todo o mundo que dão a este “ser humano” uma oportunidade única para defender a sua “causa”. Não importa sequer que causa seja essa, mais ou menos hedionda, messiânica, xenófoba, racista, redentora. Nada justifica uma matança tão metódica e requintada que Breivik - disse o próprio hoje durante o julgamento - repetiria. Pelos vistos, há perícias psiquiátricas contraditórias, umas dizendo que o tipo é responsável por ter agido na plenitude das suas faculdades e com perfeito conhecimento das consequências dos seus actos, outras dizendo que poderá ser inimputável por se tratar simplesmente de um demente mental, um psicopata. E o sistema judiciário hesita. E um juiz que tinha ousado afirmar que, neste caso, a pena de morte seria justificada foi retirado do caso pelas autoridades. Naturalmente, toda a gente, incluindo os mais temíveis assassinos, têm direito a defesa e a ser tratado como ser humano, pelos vestígios de humanidade que lhes restam. Mas, um tratamento tão higiénico, respeitoso, garantista faz mal, sobretudo, às famílias das vítimas, consideradas por Breivik como merecedoras da grandiosidade da sua matança. A Noruega parece tratar os seus criminosos melhor do que muitos países tratam os seus heróis. Estranhos países… Estranho mundo. Aguardo com expectativa a sentença e espero que a punição do Sr Breivik não consista em ficar algum tempinho nalgum estabelecimento prisional ou psiquiátrico com melhores condições do que em muitos hotéis de 5 estrelas. E menos ainda que não tenha a possibilidade de continuar a exprimir democraticamente as suas ideias salvíficas.
segunda-feira, abril 16, 2012
sexta-feira, abril 13, 2012
A propósito de um excelente texto escrito por um bom amigo que não desiste de pensar... "against all odds"
Nos últimos anos, uma certa recuperação meliante de Keynes pretendeu dar verniz intelectual a simples injecção indiscriminada de dinheiro na economia para combater recessões, reais ou aparentes, e financiar projectos de interesse duvidoso para o crescimento e o emprego. O verniz porém estalou e do que se trata verdadeiramente é de fugir a bolhas sucessivas que se foram acumulando desde os anos 70, em simultâneo com a desaceleração da produtividade, criando uma enorme e preocupante bolha (“the ultimate bubble”): a das dívidas públicas que “seguram” lucros privados que, pelo contrário, se deveriam ter desfeito em perdas igualmente privadas. Tal não tem acontecido a pretexto de uma chantagem que dá pelo nome de "impacto sistémico". O que temos na Europa é um gigantesco “State failure” que foi em socorro de putativos “market failures”. Não se trata porém de “market failure” no sentido conceptual da Economia. Trata-se da concentração de poder e rendas em determinadas corporações que prosperaram à sombra da desregulação, da privatização, da financiarização e da especulação, ancorada em mecanismos (públicos) geradores de “moral hazard”. Esta promiscuidade de “failures” é de grande gravidade porque arruína a própria legitimidade da moldura democrática em que as decisões são tomadas, tendo, em última instância, um impacto devastador sobre cidadãos inocentes e ignorantes. E tudo isto se passa numa Europa mais ou menos fossilizada, cercada por um mundo que percorre uma globalização prenhe de desequilíbrios crescentes e de consequências imprevisíveis.
A obsessão pela estabilidade dos preços interessa a quem controla a oferta (os meios de produção) e a quem é titular de rendas, dividendos e juros. Normalmente, os salários defendem-se melhor da inflação (ou ganham mesmo com a inflação). Mas os tempos da omnipotência dos sindicatos já lá vão…
É preciso não descurar o conceito fundamental de “Civilização”. Fundamental porque coloca o debate no âmbito dos fins. Faz a ponte entre a suposta positividade da Economia (que parece bastar-se a si própria, embutida na ficção de ciência exacta) e o sentido da Economia (político, ético e filosófico).
A obsessão pela estabilidade dos preços interessa a quem controla a oferta (os meios de produção) e a quem é titular de rendas, dividendos e juros. Normalmente, os salários defendem-se melhor da inflação (ou ganham mesmo com a inflação). Mas os tempos da omnipotência dos sindicatos já lá vão…
É preciso não descurar o conceito fundamental de “Civilização”. Fundamental porque coloca o debate no âmbito dos fins. Faz a ponte entre a suposta positividade da Economia (que parece bastar-se a si própria, embutida na ficção de ciência exacta) e o sentido da Economia (político, ético e filosófico).
terça-feira, abril 10, 2012
Um Datsun no céu
Sempre me deslumbrou o carinho com que a D. Zulmira tratava o velho Datsun, estimadinho por dentro e por fora, sem o mais pequeno arranhão, luzidio e bem cheiroso. A D. Zulmira sofria de reumatismo, mas nem por isso falhava, ao Sábado de manhã, antes da missa, a limpeza do seu caríssimo Datsun que a levou a sítios inesquecíveis na companhia do seu querido e saudoso Joaquim, que tanta falta lhe fazia. Vergada a limpar os assentos e o tablier e os tapetes era como ir de joelhos até à capelinha das Aparições (que Deus Nosso Senhor me perdoe). Ai se o Datsun falasse... O que se divertiram a D. Zulmira e o seu Joaquim... Um belo dia, estava à frente do aparelho Philips que compraram na loja de electrodomésticos de Campo de Ourique quando apareceu a TV a cores, e o coração não resistiu a um golaço do Yazalde contra o Benfica. Aquilo sim, eram outros tempos. Outros golos, outros Joaquins. Deus nosso senhor de certeza que o guarda em paz porque o Sr. Joaquim não fazia mal a ninguém. Os únicos “excessos” eram o Sporting e as brincadeiras com a D. Zulmira, dentro e fora do Datsun, principalmente à beira do Tejo, à tardinha, para os lados de Alcântara. De resto, ía para a Conservatória do Registo Civil de manhãzinha cedo e regressava sempre à mesma hora para a merenda e para dar de comer ao periquito. Foi pena não poderem ter filhos... Mas foram felizes à maneira deles e sobretudo fiéis ao querido Datsun. Deixei de ver a D. Zulmira. E o Datsun acabou nalgum sucateiro sem alma nem escrúpulos. Tenho a certeza que haverá um Datsun no céu para os passeios da D. Zulmira e do Sr Joaquim. E que por lá haverá também uma Alcântara.
domingo, abril 01, 2012
sábado, março 31, 2012
Assim vão as coisas
De repente o entusiasmo dos aprendizes de boas notícias: os juros da dívida dos Estados estão a baixar. Quer dizer que os investidores parecem mais contentes com o risco e portanto satisfazem-se com taxas de juro mais baixas. Só que o que se está a passar é algo diferente: os bancos vão ao Banco Central Europeu (BCE) buscar quantidades maiores de dinheiro, a prazos mais longos e a taxas reduzidas que depois utilizam em grande medida para emprestar aos Estados a taxas mais altas, embora decrescentes. Quer dizer, na prática o BCE está a emprestar aos Estados por intermédio dos bancos, dando a estes últimos, de caminho, margens simpáticas que atenuam a pressão sobre a rendibilidade.
O BCE tem sido o verdadeiro mecanismo de estabilização financeira tornando redundantes as conversas dos cavalheiros que governam a Europa, cada uma putativamente mais dramática e decisiva do que a precedente... O BCE não tem restrições de financiamento porque cria moeda. Não precisa de pedir emprestado para emprestar. Se a liquidez que injecta na economia não for esterilizada, mais cedo ou mais tarde, a consequência será a inflação. Mas, neste momento, quem se preocupa com inflação quando o desemprego não pára de aumentar e o crescimento patina? O governo alemão (ou pelo menos alguns sectores influentes na Alemanha) parece preocupar-se... até que a recessão atinja igualmente o país... Daí algum mal-estar em relação à política do BCE.
Por outro lado, BCE inesgotável e outras redes de protecção, como o Fundo Europeu de Estabilização Financeira e o futuro Mecanismo de Estabilização Europeu (chamam-lhes "firewall"), para além de suscitarem debate sobre mutualização de perdas ou sacrifícios entre Estados-membros, criam "moral hazard". Quer dizer: os Estados, os bancos, as empresas, as famílias podem continuar a fazer o que lhes apetece (i.e. muitos disparates nos últimos anos) porque os Estados encontrarão sempre maneira de dourar a pilula. Tudo em nome da estabilidade e do interesse sistémico (para evitar hecatombes, claro está...) e sempre à custa dos contribuintes ou, mais precisamente, dos contribuintes com voz menos sonante e menor capacidade de resistir ou de contornar as regras.
De facto, para além da espúria e artificial descida dos juros da dívida dos países gastadores, isto continua muito mal. Os investidores não-europeus continuam a fugir a sete pés e a preparar-se para ganhar rios de dinheiro com as perdas dos outros. As expectativas continuam muito negativas. A Espanha parece cada vez mais juntar-se ao clube dos ansiosos e sofredores. A dimensão do problema espanhol faz medo e, a precipitar-se, esse problema será de gestão muitissimo complexa, se de todo possível, não obstante todos os "firewalls".
Em Portugal, os devedores continuam a rapar no fundo do tacho e os bancos preparam almofadas para o pior. Esse "pior" que resultaria de problemas importados, porque nós continuamos a fazer as coisas direitinho, até ao limite do cansaço. Parece tudo preso por arames, cada vez mais frágil e efémero. Mas, dadas as nossas virtudes e obediência, poderemos contar com um segundo pacote da Troika que parece cada vez mais ali mesmo ao dobrar da esquina, como prometeu o ministro das finanças alemão ao nosso seráfico Vitor Gaspar em inconfidência mediática, deliciosa contradição nos próprios termos.
O BCE tem sido o verdadeiro mecanismo de estabilização financeira tornando redundantes as conversas dos cavalheiros que governam a Europa, cada uma putativamente mais dramática e decisiva do que a precedente... O BCE não tem restrições de financiamento porque cria moeda. Não precisa de pedir emprestado para emprestar. Se a liquidez que injecta na economia não for esterilizada, mais cedo ou mais tarde, a consequência será a inflação. Mas, neste momento, quem se preocupa com inflação quando o desemprego não pára de aumentar e o crescimento patina? O governo alemão (ou pelo menos alguns sectores influentes na Alemanha) parece preocupar-se... até que a recessão atinja igualmente o país... Daí algum mal-estar em relação à política do BCE.
Por outro lado, BCE inesgotável e outras redes de protecção, como o Fundo Europeu de Estabilização Financeira e o futuro Mecanismo de Estabilização Europeu (chamam-lhes "firewall"), para além de suscitarem debate sobre mutualização de perdas ou sacrifícios entre Estados-membros, criam "moral hazard". Quer dizer: os Estados, os bancos, as empresas, as famílias podem continuar a fazer o que lhes apetece (i.e. muitos disparates nos últimos anos) porque os Estados encontrarão sempre maneira de dourar a pilula. Tudo em nome da estabilidade e do interesse sistémico (para evitar hecatombes, claro está...) e sempre à custa dos contribuintes ou, mais precisamente, dos contribuintes com voz menos sonante e menor capacidade de resistir ou de contornar as regras.
De facto, para além da espúria e artificial descida dos juros da dívida dos países gastadores, isto continua muito mal. Os investidores não-europeus continuam a fugir a sete pés e a preparar-se para ganhar rios de dinheiro com as perdas dos outros. As expectativas continuam muito negativas. A Espanha parece cada vez mais juntar-se ao clube dos ansiosos e sofredores. A dimensão do problema espanhol faz medo e, a precipitar-se, esse problema será de gestão muitissimo complexa, se de todo possível, não obstante todos os "firewalls".
Em Portugal, os devedores continuam a rapar no fundo do tacho e os bancos preparam almofadas para o pior. Esse "pior" que resultaria de problemas importados, porque nós continuamos a fazer as coisas direitinho, até ao limite do cansaço. Parece tudo preso por arames, cada vez mais frágil e efémero. Mas, dadas as nossas virtudes e obediência, poderemos contar com um segundo pacote da Troika que parece cada vez mais ali mesmo ao dobrar da esquina, como prometeu o ministro das finanças alemão ao nosso seráfico Vitor Gaspar em inconfidência mediática, deliciosa contradição nos próprios termos.
domingo, março 18, 2012
Grande Lucio Dalla. Partiu do reino dos mortais há pouco tempo, mas permanecerá no reino dos cantores imortais e no das pessoas dignas e corajosas. Lucio Dalla é de Bolonha e faz parte de um grupo fantástico de cantores italianos que juntaram a popularidade das suas musicas à intervenção politica e social.
terça-feira, março 06, 2012
O sol e a seca
O sol em Portugal persiste, desafiando a crise da tristeza e do pessimismo, espantando nuvens nos olhos, no coração e na carteira. Mas é um sol que provoca seca, uma seca gradual, inexorável, eufemismo da resignação. O sol e a seca são como a pobreza e a esperança que é a última a morrer. É como dizer que sofremos mas, como o sol, continuaremos orgulhosamente portugueses, a cair e a levantar-nos mais uma vez, sempre.
Aproveito para citar uns mimos do último relatório do FMI sobre a execução do programa de assistência financeira da Troika:
The broad political and social consensus that is underpinning the program is a key asset. The recent tri-partite agreement on labor market reforms underscores Portugal’s ability to take bold reform steps in the context of social dialogue.
Tradução: A sofrer mas bem comportados… Agradecidos à UGT. Nem uma palavra acerca do desemprego.
GDP in 2012 is expected to decline by 3¼ percent, following a fall of 1½ percent in 2011. In 2013, a slow recovery should take hold, mainly supported by private investment and exports.
Tradução: Lá para 2013 – se deus quiser! – podemos ter uma “ligeira recuperação”.
Provided the authorities persevere with strict program implementation, the euro area member states have declared they stand ready to support Portugal until market access is regained.
Tradução: Se nos portarmos bem poderemos talvez contar com a clemência dos nossos "parceiros" mais fortes, caso demonstrarmos que as coisas correram mal sem ser por nossa culpa.
Aproveito para citar uns mimos do último relatório do FMI sobre a execução do programa de assistência financeira da Troika:
The broad political and social consensus that is underpinning the program is a key asset. The recent tri-partite agreement on labor market reforms underscores Portugal’s ability to take bold reform steps in the context of social dialogue.
Tradução: A sofrer mas bem comportados… Agradecidos à UGT. Nem uma palavra acerca do desemprego.
GDP in 2012 is expected to decline by 3¼ percent, following a fall of 1½ percent in 2011. In 2013, a slow recovery should take hold, mainly supported by private investment and exports.
Tradução: Lá para 2013 – se deus quiser! – podemos ter uma “ligeira recuperação”.
Provided the authorities persevere with strict program implementation, the euro area member states have declared they stand ready to support Portugal until market access is regained.
Tradução: Se nos portarmos bem poderemos talvez contar com a clemência dos nossos "parceiros" mais fortes, caso demonstrarmos que as coisas correram mal sem ser por nossa culpa.
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