domingo, abril 29, 2012

Financiamento ou investimento?

Há pessoas com responsabilidade nos meios político e económico que dizem faltar financiamento para, finalmente, promover o crescimento. Os bancos continuam a obter liquidez através de depósitos, das operações de desconto junto do BCE e da venda de activos ao Estado (fundos de pensões, créditos municipais e outros). Esse dinheiro, porém, não seria destinado a financiar a economia mas, em vez disso, seria colocado junto do próprio BCE ou na compra de títulos de dívida pública a taxas suculentas. Os bancos teriam um excesso de zelo na gestão do risco de liquidez, mantendo montantes avultados de dinheiro, mais ou menos esterilizado, na expectativa de uma deterioração ainda mais acentuada das condições macro-económicas.

Este raciocínio parece-me só parcialmente correcto. Em primeiro lugar, porque um dos principais problemas da economia portuguesa é o endividamento excessivo, o qual, tautologicamente, não se resolve voltando a aumentar as dívidas dos agentes económicos... Estamos numa fase de desendividamento o que quer dizer poupar mais para reembolsar passivos do passado. Tão simples como isso! E pena é que tal se traduza em contracção da actividade económica. Idealmente o tal aumento da poupança deveria resultar de um aumento da produção doméstica mais do que proporcional ao aumento da despesa doméstica. Mas, não é isso que se passa. Está-se a tentar poupar reduzindo a despesa mais do que proporcionalmente à redução da produção...

Em segundo lugar, seria óptimo promover a produção através de financiamento de projectos sólidos dos pontos de vista económico e financeiro. Mas, onde se encontram tais projectos? Realizados por quem? Pelo sector público não seguramente, que não pode aumentar a dívida no imediato, nem tem uma estratégia coerente de investimento. Pelo sector privado, também não vislumbro iniciativas dignas de nota. As famosas PME que salvariam o país do desemprego e que aumentariam as exportações e substituiram as importações estão asfixiadas em dívidas e enfermam de proverbiais fraquezas estruturais que não se resolvem nalguns meses.
Acrescem a tudo isto duas circunstâncias de gestão igualmente difícil, se de todo possivel, ao nivel nacional: (a) contexto internacional que determina a procura externa dos bens e serviços domésticos e o comportamento dos mercados de capitais onde se decide a possibilidade e as condições de um regresso luso ao financiamento privado externo; (b) expectativas (ou confiança) dos agentes económicos (sobretudo dos investidores), porque a economia funciona muito na base de “animal spirits” (sempre Keynes...) ou intuição.

quarta-feira, abril 25, 2012

Há 38 anos...

Entretanto, acabou-se a ingenuidade...

terça-feira, abril 24, 2012

Miguel Portas


Não conhecia bem Miguel Portas. Só o vi algumas vezes na televisão. Li alguns artigos seus. De longe, fiquei com a impressão de ser boa pessoa, íntegro, bem intencionado, visionário, com uma rara inocência na selva da politica. Era evidente a sua diferença, positiva, em relação a figurões como o meio-irmão Paulo ou o lider viperino e hiper-demagógico do Bloco, Francisco Louçã. Miguel Portas apresentava uma pureza anómala nos tempos que correm. Tenho muita pena dele, estimo a sua dignidade e a austeridade da sua dor, até ao fim, devorado pela doença de merda que por aí anda. Simbólico que desapareça na véspera do 25 de Abril, no meio de homenagens de circunstância, pela sua morte e pelo 25 de Abril. Na prática, homenagens na morte lenta e inexorável do 25 de Abril...

domingo, abril 22, 2012

Um jardim

No meu jardim passeiam gatos que não me pertencem, pousa um melro que também não é meu. E outros pássaros que não conheço. Vão e vêm quando lhes apetece, deixam-se apenas observar fugazmente. Nem sei se dão pela minha curiosidade por trás da janela. Porque a vida deles (e a minha) continua(m) noutros jardins, em frente de outras casas. A erva do meu jardim cresce sem pedir autorização. Na minha opinião cresce depressa demais, regada pela chuva que não pára de cair há vários dias. Fica espessa e hirta, orgulhosa de crescer sem a minha autorização. Tenho de a cortar daqui a pouco. Ao fundo do jardim existem canas da índia que oscilam como bailarinas ao ritmo do vento. De repente, ficam estranhamente imóveis como se parassem para descansar ou para me dizer que sabem que as observo. O meu jardim é pequeno, delimitado por sebes que ocultam o jardim do vizinho e as coisas que por lá se passam. Imagino que sejam semelhantes às do meu jardim. Mas, não sei se o meu vizinho as vê como eu as vejo.

sexta-feira, abril 20, 2012

quarta-feira, abril 18, 2012

Um dia...

Um dia, a crise acabará e voltaremos a sorrir e a comprar casas enormes e carros de alta cilindrada e televisões flat screen e a ir de férias a Fortaleza e a encher o carrinho das compras sem olhar as etiquetas dos preços e a encher a casa de bugigangas porque são giras. Um dia, a crise acabará e acharemos que já somos ricos ou que seremos ricos daqui a nada e os nossos filhos serão ainda mais ricos. Um dia, deixaremos de dar voltas na cama porque a conta terá dinheiro que chegue para pagar todas as despesas. Um dia, voltaremos a ir de avião à Eurodisney com os miúdos e o emprego estará mais seguro do que o nascer do sol todos os dias. E voltará a haver feriados, mesmo aqueles que quase ninguém compreende, mas que são uma delícia, principalmente para fazer pontes mais compridas que a Vasco da Gama. Um dia, os telejornais deixarão de abrir com os números assustadores do desemprego e dos cortes dos salários e das reformas e teremos um ministro das finanças que falará como as pessoas normais, sem se achar um prosélito incompreendido. Um dia, não haverá Troika mas apenas Santíssima Trindade. E passaremos nas auto-estradas com orgulho de sermos europeus e cheios de speed porque mais litro menos litro de gasolina dará no mesmo. E a Europa será porreira e continuará a dar muita massa até para cursos de formação profissional mais ou menos fantasmas em que se ensina aos índigenas que por acaso existem e por esse simples facto merecem um diploma.

terça-feira, abril 17, 2012

Mundo estranho

Toda esta história de Breivik, o carnificina da Noruega, é monstruosa. O país concede a um evidente criminoso, que se declara inocente alegando a culpa das suas vítimas, um tratamento VIP em matéria de julgamento. O tipo apresenta-se em Tribunal mais mimoso, metálico e insolente do que nunca, é cumprimentado cordialmente por várias personagens (presumo, advogados), faz uma saudação provocatória que consiste em fechar o punho, levá-lo ao coração e levantá-lo com orgulho… Tudo amplamente transmitido pelas televisões de todo o mundo que dão a este “ser humano” uma oportunidade única para defender a sua “causa”. Não importa sequer que causa seja essa, mais ou menos hedionda, messiânica, xenófoba, racista, redentora. Nada justifica uma matança tão metódica e requintada que Breivik - disse o próprio hoje durante o julgamento - repetiria. Pelos vistos, há perícias psiquiátricas contraditórias, umas dizendo que o tipo é responsável por ter agido na plenitude das suas faculdades e com perfeito conhecimento das consequências dos seus actos, outras dizendo que poderá ser inimputável por se tratar simplesmente de um demente mental, um psicopata. E o sistema judiciário hesita. E um juiz que tinha ousado afirmar que, neste caso, a pena de morte seria justificada foi retirado do caso pelas autoridades. Naturalmente, toda a gente, incluindo os mais temíveis assassinos, têm direito a defesa e a ser tratado como ser humano, pelos vestígios de humanidade que lhes restam. Mas, um tratamento tão higiénico, respeitoso, garantista faz mal, sobretudo, às famílias das vítimas, consideradas por Breivik como merecedoras da grandiosidade da sua matança. A Noruega parece tratar os seus criminosos melhor do que muitos países tratam os seus heróis. Estranhos países… Estranho mundo. Aguardo com expectativa a sentença e espero que a punição do Sr Breivik não consista em ficar algum tempinho nalgum estabelecimento prisional ou psiquiátrico com melhores condições do que em muitos hotéis de 5 estrelas. E menos ainda que não tenha a possibilidade de continuar a exprimir democraticamente as suas ideias salvíficas.

segunda-feira, abril 16, 2012

sexta-feira, abril 13, 2012

A propósito de um excelente texto escrito por um bom amigo que não desiste de pensar... "against all odds"

Nos últimos anos, uma certa recuperação meliante de Keynes pretendeu dar verniz intelectual a simples injecção indiscriminada de dinheiro na economia para combater recessões, reais ou aparentes, e financiar projectos de interesse duvidoso para o crescimento e o emprego. O verniz porém estalou e do que se trata verdadeiramente é de fugir a bolhas sucessivas que se foram acumulando desde os anos 70, em simultâneo com a desaceleração da produtividade, criando uma enorme e preocupante bolha (“the ultimate bubble”): a das dívidas públicas que “seguram” lucros privados que, pelo contrário, se deveriam ter desfeito em perdas igualmente privadas. Tal não tem acontecido a pretexto de uma chantagem que dá pelo nome de "impacto sistémico". O que temos na Europa é um gigantesco “State failure” que foi em socorro de putativos “market failures”. Não se trata porém de “market failure” no sentido conceptual da Economia. Trata-se da concentração de poder e rendas em determinadas corporações que prosperaram à sombra da desregulação, da privatização, da financiarização e da especulação, ancorada em mecanismos (públicos) geradores de “moral hazard”. Esta promiscuidade de “failures” é de grande gravidade porque arruína a própria legitimidade da moldura democrática em que as decisões são tomadas, tendo, em última instância, um impacto devastador sobre cidadãos inocentes e ignorantes. E tudo isto se passa numa Europa mais ou menos fossilizada, cercada por um mundo que percorre uma globalização prenhe de desequilíbrios crescentes e de consequências imprevisíveis.

A obsessão pela estabilidade dos preços interessa a quem controla a oferta (os meios de produção) e a quem é titular de rendas, dividendos e juros. Normalmente, os salários defendem-se melhor da inflação (ou ganham mesmo com a inflação). Mas os tempos da omnipotência dos sindicatos já lá vão…

É preciso não descurar o conceito fundamental de “Civilização”. Fundamental porque coloca o debate no âmbito dos fins. Faz a ponte entre a suposta positividade da Economia (que parece bastar-se a si própria, embutida na ficção de ciência exacta) e o sentido da Economia (político, ético e filosófico).

terça-feira, abril 10, 2012

Um Datsun no céu

Sempre me deslumbrou o carinho com que a D. Zulmira tratava o velho Datsun, estimadinho por dentro e por fora, sem o mais pequeno arranhão, luzidio e bem cheiroso. A D. Zulmira sofria de reumatismo, mas nem por isso falhava, ao Sábado de manhã, antes da missa, a limpeza do seu caríssimo Datsun que a levou a sítios inesquecíveis na companhia do seu querido e saudoso Joaquim, que tanta falta lhe fazia. Vergada a limpar os assentos e o tablier e os tapetes era como ir de joelhos até à capelinha das Aparições (que Deus Nosso Senhor me perdoe). Ai se o Datsun falasse... O que se divertiram a D. Zulmira e o seu Joaquim... Um belo dia, estava à frente do aparelho Philips que compraram na loja de electrodomésticos de Campo de Ourique quando apareceu a TV a cores, e o coração não resistiu a um golaço do Yazalde contra o Benfica. Aquilo sim, eram outros tempos. Outros golos, outros Joaquins. Deus nosso senhor de certeza que o guarda em paz porque o Sr. Joaquim não fazia mal a ninguém. Os únicos “excessos” eram o Sporting e as brincadeiras com a D. Zulmira, dentro e fora do Datsun, principalmente à beira do Tejo, à tardinha, para os lados de Alcântara. De resto, ía para a Conservatória do Registo Civil de manhãzinha cedo e regressava sempre à mesma hora para a merenda e para dar de comer ao periquito. Foi pena não poderem ter filhos... Mas foram felizes à maneira deles e sobretudo fiéis ao querido Datsun. Deixei de ver a D. Zulmira. E o Datsun acabou nalgum sucateiro sem alma nem escrúpulos. Tenho a certeza que haverá um Datsun no céu para os passeios da D. Zulmira e do Sr Joaquim. E que por lá haverá também uma Alcântara.

domingo, abril 01, 2012

sábado, março 31, 2012

Assim vão as coisas

De repente o entusiasmo dos aprendizes de boas notícias: os juros da dívida dos Estados estão a baixar. Quer dizer que os investidores parecem mais contentes com o risco e portanto satisfazem-se com taxas de juro mais baixas. Só que o que se está a passar é algo diferente: os bancos vão ao Banco Central Europeu (BCE) buscar quantidades maiores de dinheiro, a prazos mais longos e a taxas reduzidas que depois utilizam em grande medida para emprestar aos Estados a taxas mais altas, embora decrescentes. Quer dizer, na prática o BCE está a emprestar aos Estados por intermédio dos bancos, dando a estes últimos, de caminho, margens simpáticas que atenuam a pressão sobre a rendibilidade.

O BCE tem sido o verdadeiro mecanismo de estabilização financeira tornando redundantes as conversas dos cavalheiros que governam a Europa, cada uma putativamente mais dramática e decisiva do que a precedente... O BCE não tem restrições de financiamento porque cria moeda. Não precisa de pedir emprestado para emprestar. Se a liquidez que injecta na economia não for esterilizada, mais cedo ou mais tarde, a consequência será a inflação. Mas, neste momento, quem se preocupa com inflação quando o desemprego não pára de aumentar e o crescimento patina? O governo alemão (ou pelo menos alguns sectores influentes na Alemanha) parece preocupar-se... até que a recessão atinja igualmente o país... Daí algum mal-estar em relação à política do BCE.

Por outro lado, BCE inesgotável e outras redes de protecção, como o Fundo Europeu de Estabilização Financeira e o futuro Mecanismo de Estabilização Europeu (chamam-lhes "firewall"), para além de suscitarem debate sobre mutualização de perdas ou sacrifícios entre Estados-membros, criam "moral hazard". Quer dizer: os Estados, os bancos, as empresas, as famílias podem continuar a fazer o que lhes apetece (i.e. muitos disparates nos últimos anos) porque os Estados encontrarão sempre maneira de dourar a pilula. Tudo em nome da estabilidade e do interesse sistémico (para evitar hecatombes, claro está...) e sempre à custa dos contribuintes ou, mais precisamente, dos contribuintes com voz menos sonante e menor capacidade de resistir ou de contornar as regras.

De facto, para além da espúria e artificial descida dos juros da dívida dos países gastadores, isto continua muito mal. Os investidores não-europeus continuam a fugir a sete pés e a preparar-se para ganhar rios de dinheiro com as perdas dos outros. As expectativas continuam muito negativas. A Espanha parece cada vez mais juntar-se ao clube dos ansiosos e sofredores. A dimensão do problema espanhol faz medo e, a precipitar-se, esse problema será de gestão muitissimo complexa, se de todo possível, não obstante todos os "firewalls".

Em Portugal, os devedores continuam a rapar no fundo do tacho e os bancos preparam almofadas para o pior. Esse "pior" que resultaria de problemas importados, porque nós continuamos a fazer as coisas direitinho, até ao limite do cansaço. Parece tudo preso por arames, cada vez mais frágil e efémero. Mas, dadas as nossas virtudes e obediência, poderemos contar com um segundo pacote da Troika que parece cada vez mais ali mesmo ao dobrar da esquina, como prometeu o ministro das finanças alemão ao nosso seráfico Vitor Gaspar em inconfidência mediática, deliciosa contradição nos próprios termos.

domingo, março 18, 2012



Grande Lucio Dalla. Partiu do reino dos mortais há pouco tempo, mas permanecerá no reino dos cantores imortais e no das pessoas dignas e corajosas. Lucio Dalla é de Bolonha e faz parte de um grupo fantástico de cantores italianos que juntaram a popularidade das suas musicas à intervenção politica e social.

terça-feira, março 06, 2012

O sol e a seca

O sol em Portugal persiste, desafiando a crise da tristeza e do pessimismo, espantando nuvens nos olhos, no coração e na carteira. Mas é um sol que provoca seca, uma seca gradual, inexorável, eufemismo da resignação. O sol e a seca são como a pobreza e a esperança que é a última a morrer. É como dizer que sofremos mas, como o sol, continuaremos orgulhosamente portugueses, a cair e a levantar-nos mais uma vez, sempre.

Aproveito para citar uns mimos do último relatório do FMI sobre a execução do programa de assistência financeira da Troika:

The broad political and social consensus that is underpinning the program is a key asset. The recent tri-partite agreement on labor market reforms underscores Portugal’s ability to take bold reform steps in the context of social dialogue.

Tradução: A sofrer mas bem comportados… Agradecidos à UGT. Nem uma palavra acerca do desemprego.

GDP in 2012 is expected to decline by 3¼ percent, following a fall of 1½ percent in 2011. In 2013, a slow recovery should take hold, mainly supported by private investment and exports.

Tradução: Lá para 2013 – se deus quiser! – podemos ter uma “ligeira recuperação”.

Provided the authorities persevere with strict program implementation, the euro area member states have declared they stand ready to support Portugal until market access is regained.

Tradução: Se nos portarmos bem poderemos talvez contar com a clemência dos nossos "parceiros" mais fortes, caso demonstrarmos que as coisas correram mal sem ser por nossa culpa.

domingo, fevereiro 26, 2012

sexta-feira, fevereiro 24, 2012


"Albert Nobbs" é um filme magnífico, emocionante, com uma interpretação soberba de Glenn Close. É um filme que coloca a condição humana acima da condição de ser homem ou mulher. Não recomendado a gente com propensão a lágrimas por bons sentimentos...

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Factos estilizados

Considere-se um mundo tendencialmente de livre câmbio i.e. em que as barreiras à circulação de pessoas, bens e serviços são inexistentes ou moderadas. Noutros termos: imagine-se um mundo essencialmente não-proteccionista.

Países outrora pobres e rurais chegam à industrialização.

A remuneração dos trabalhadores desses países em termos reais e em sentido lato (i.e. incluindo condições de trabalho e direitos sociais) continua muito mais baixa do que nos países de velha industrialização.

O capital move-se muito mais do que o trabalho à procura de lucros mais altos. Ao contrário do salário, a taxa de lucro (incluindo diferentes prémios de risco) tende a igualizar-se mais rapidamente através do mundo. A fluidez do capital é maior no caso de sectores de tecnologia madura e de baixa incorporação de inovação e conhecimento.

Daqui resulta:

- a deslocação de cada vez mais actividades para os países em vias de industrialização;
- o desequilíbrio crescente da balança externa dos países de velha industrialização com menor "competitividade" (conceito vasto que não cabe aqui expandir);
- a pressão ao aumento da produtividade e/ou à redução de salários nos países de velha industrialização, inicialmente nos sectores tradicionais, mas gradualmente em toda a economia;
- enquanto os salários se mantiverem relativamente mais altos nos países de velha industrialização a imigração continuará, mas a ritmo decrescente, dado o aumento progressivo dos salários nos países de origem;
- a tentativa nos países de velha industrialização de "inventar" novas actividades menos expostas à concorrência internacional;
- a tendência ao aumento do proteccionismo.

De tudo isto pode concluir-se que a fonte estrutural da crise que a Europa atravessa actualmente se encontra na chegada de países outrora pobres e rurais a um estado superior de desenvolvimento. Contudo, como sempre nestas coisas de economia, conclusões demasiado gerais e apressadas arriscam-se a estar erradas. Porque: (a) nem todos os países de velha industrialização são vulneráveis da mesma maneira, dependendo do seu mercado interno e da força dos respectivos sistemas produtivos no mercado mundial; (b) os ditos processos de chegada dos países pobres a patamares superiores de desenvolvimento são tudo menos claros e rápidos.

E o desenvolvimento (como prolongamento do crescimento) é um conceito complexo e abrangente que vai muito para além da economia: liberdade, cidadania, democracia, direitos económicos e sociais.

sábado, fevereiro 18, 2012

Belezas diversas

Não há diferença mais injusta do que a que resulta da beleza exterior. Pela simples razão de que se tem ou não se tem, porque se nasce com ela ou sem ela. Bem, às vezes pode estragar-se aquilo com que se nasceu ou pode-se de alguma maneira melhorar... caso se tenha dinheiro e paciência para fazer cirúrgia plástica. Mas, as pessoas bonitas, em geral, conseguem mais facilmente os seus objectivos, mais depressa e com menos recursos. As pessoas feias têm de se esforçar para fazer valer os outros talentos, construidos, profundos, intangíveis.

Tudo isto tem a ver com a importância dada pela sociedade ao lado cosmético, aparente e efémero das coisas e das pessoas, com o próprio conceito de mérito, com os ingredientes do sucesso (qual sucesso?).

Outras diferenças (religiosas, sociais, políticas) podem provocar injustiças. O impacto negativo de tais diferenças pode eliminar-se ou reduzir-se através de movimentos sociais, revoluções, outras formas de acção política.

Por sua vez, os efeitos perniciosos da fealdade são mais dificeis de combater. Não estou a ver uma revolução dos feios contra os bonitos. Não estou a ver um decreto-lei a estabelecer medidas de discriminação positiva a favor dos feios, para compensar as vantagens inatas dos bonitos.

Obviamente, a situação de injustiça contra os feios resolver-se-ia através de uma mudança de valores que diminuisse a obsessão pela exterioridade e que levasse as pessoas a privilegiar a chamada “beleza interior”. Mas, temo que, em cada contexto social e em cada momento histórico, o bonito será sempre bonito e preferido ao feio que subsistirá feio.

A arte tenderá sempre a procurar o bonito, apesar de ter a impressão de que existe uma certa “arte do feio”, pelo menos, a avaliar por certas exposições de “vanguarda” a que não se consegue escapar ao visitar certos museus peregrinos, cada vez mais numerosos. E as pessoas até se esforçam por gostar do que é manifestamente feio, por encontrar argumentos altamente sofisticados para justificar a estética da treta. Ridículo.

Pessoalmente, não vejo problema nenhum em gostar de coisas e de pessoas bonitas, tratando-se, porém, de conceitos discutíveis e temporais e lamentando o sofrimento de pessoas feias com outros méritos prejudicados pela fealdade. Como dizia um grande amigo que, de filósofo, tem muito pouco: "Não há bonito nem feio, há apenas belezas diversas". Amen.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Pessoalmente falando

Acho uma piada quando alguém diz a outra pessoa com quem está em conflito profissional: “don’t take it personally, please”. Como se os motivos do conflito fossem com uma outra pessoa, como se fosse uma vergonha ou inapropriado assumir-se como pessoa inteira, como se houvesse uma zona de apatia, zona higiénica que tornasse as pessoas imúnes às emoções, autênticos demónios a expurgar das relações de trabalho. A “pessoa profissional” colocaria os valores e as emoções de quarantena, chamaria “argumentos válidos” a ataques pessoais, “pragmatismo” a desonestidade, “força” a poder arbitrário, “prudência” a ocultação da verdade, etc. É óbvio que cada um de nós é um só, sem compartimentos mais ou menos convenientes, sentindo pessoalmente (“personally”) o bem ou o mal que lhe fazem. O que não contradiz ser sensato, ter inteligência social e saber-se comportar, fazendo a distinção entre o que é ou não é importante.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Parabéns Académica: final da Taça de Portugal !

Meia-final: empate esta noite 2-2 contra o Oliveirense, após vitória por 1-0 na 1a. mão em Coimbra. A última vez que a Briosa chegou à final foi em 1969 (derrota frente ao Benfica por 2-1). Desta vez será contra o Sporting?... Esperemos pelo resultado da outra meia-final na Madeira Sporting-Nacional...

No meu carro hoje de manhã

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Vira o disco e toca o mesmo

Os bancos vão ao Banco Central Europeu buscar dinheiro a 3 anos, pagando uma taxa da ordem dos 2%. Usam esse dinheiro para comprar Bilhetes do Tesouro a 3 e 6 meses a uma taxa de cerca de 5%, usando esses títulos como garantia junto do BCE. Se fizermos o saldo disso tudo, temos que o Estado se financia indirectamente junto do BCE a uma taxa de 5% por 3-6 meses, dando de caminho uma margem de cerca de 3% aos bancos. E ao mesmo tempo pode dizer que os leilões de dívida pública correram menos mal...

domingo, fevereiro 05, 2012

A canção certa para os portugueses



Mas também posso aconselhar a leitura do "Cândido" de Voltaire, livro a ter sempre à cabeceira.

Em alternativa...


Boa semana ;-)

Os malucos que nos governam

A psicopatia tem a ver com falta de empatia. Os psicopatas näo consideram as consequências dos seus actos, näo medem o mal que podem fazer aos outros, retiram apenas satisfaçäo das atrocidades que cometem, sem ter consciência de que se trata de atrocidades. De facto, näo têm culpa. Portanto, com as devidas cautelas em relaçäo aos diferentes niveis de gravidade e de perigosidade da doença, diria que o mundo está cheio de psicopatas. Tratando-se de gente que manda nos outros, diria mesmo que a proporçäo de psicopatas é esmagadora.

terça-feira, janeiro 31, 2012

segunda-feira, janeiro 30, 2012


http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=534749

A inflação não é o problema, é a solução. Sem inflação, persistir com o euro no seu formato actual exige cortes substanciais de salários nos países da periferia.

Pobrezinhos

Prisões cheias, velhos que apodrecem em casa depois de meses ou anos de abandono e esquecimento, jovens que são convidados a partir, para bem deles e dos poucos que ficam... Isto é uma sociedade que rejeita as pessoas, que as encara como lixo, como distúrbio ou redundância. Isto é um poder que se nega a si próprio porque tenta reduzir o que deveria ser o seu objecto: as pessoas. Talvez seja o reconhecimento puro e simples de impotência perante algum fatalismo da decadência, depois de anos a sonhar alto, a crédito.

Como podemos ser ricos e competitivos com uma produtividade de 67% da média da União Europeia. Como se resolve um problema tão profundo? Não é com austeridade obsessiva seguramente. É mudando de sociedade, de rotinas, de formas de fazer e de pensar. Parece tão dificil com o povo e os dirigentes que temos que a desistência parece a solução mais pragmática. E, salvo melhor opinião, pode mudar-se de governo, mas não se muda de povo nem de país. É o que temos... Falo do Povo, não das excepções positivas ou negativas do Povo. Falo dos grandes números, dessa massa com média e desvio padrão que se move numa determinada direcção colectiva, para a frente ou para trás da História.

De cada vez que tentámos exceder o nosso destino batemos com a cabeça na parede. Povo bipolar. Preparemo-nos, pois, para a tranquila e honesta mediocridade de que se alimentava o salazarismo... pese embora o seu mito colonial, também ele desfeito pela força dos ventos da História. Pobrezinhos mas felizes. E orgulhosamente sós, embrulhados no nosso fado, elevado a Património da Humanidade.