domingo, janeiro 29, 2012

Nos amis allemands

Vi esta noite a entrevista de Nicolas Sarkozy à televisão francesa. Cerca de uma hora de cansaço, de ressentimento, de enfado e de obsessão pelo exemplo alemão. A França quer ser como a Alemanha, exemplo de máxima virtude. A França perece ter-se rendido à superioridade do modelo alemão e não quer originalidade. Apenas não descolar ainda mais de “nos amis Allemands”, eufemismo repetido vezes sem conta, carregado de ironia e de hipocrisia que esconde uma enorme rivalidade, para não lhe chamar medo ou inveja. Tenho pena da França que está claramente a perder protagonismo e centralidade nesta Europa fracturada e cada vez mais tutelada pela Alemanha.

Dois poemas (contraditórios?) de Eugénio de Andrade


Sê paciente; espera

que a palavra amadureça

e se desprenda como um fruto

ao passar o vento que a mereça.

xxx

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.


É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

Eurozona, fábrica de medo

Tirado daqui:

"O la zona euro se parte, expulsando de su núcleo duro a los menos competitivos, o se crea la unión de transferencias que los alemanes rechazan una y otra vez. No hay tercera vía. La comunidad internacional parece dispuesta a echar una mano a Europa si Europa se ayuda a sí misma, en vez de seguir peleándose. La ayuda más importante es que tome una decisión, rápida, drástica, ya. Sin decisión, caerá el euro, caerá Europa y caerá la economía global."

sábado, janeiro 28, 2012

O mito do super-homem

Às vezes fico espantado com a capacidade que certas pessoas têm em fingir que são super-homens ou super-mulheres. Pode ver-se que estão a atravessar momentos difíceis, que as adversidades se acumulam, que as escolhas que fazem implicam tantos sacríficios, para si próprios e para outras pessoas, que mordem os lábios para não cair. Pode pressentir-se os conflitos que enfrentam, os impasses em que se encontram, os ressentimentos que estão a fabricar, os dramas que estão a urdir e que explodirão mais tarde ou mais cedo. Mas, "em público", mostram um heroismo fantástico, um sorriso de combatente, uma serenidade nada convincente. E mesmo que se apercebam que há pouca gente que acredite em tal cinema, persistem no desempenho do papel. Talvez porque os outros, o público, não mereçam outro espetáculo, o da autenticidade, o da fraqueza. Essas coisas apenas se mostram ao espelho ou, em último recurso, a quem está muito perto e em quem se confia. Confessar fraqueza é expor-se à comiseração, ao “coitadinho” que encrava ainda mais, que enrola a vontade na pena de si próprio.

Vivemos num mundo em que a fraqueza é considerada quase uma doença. E um dia os super-homens e as super-mulheres são apenas humanos e, portanto, fracos. E caem, finalmente. Admitem cair, rendem-se. Essa é uma oportunidade suprema para falar verdade consigo próprio, para se aceitar como humano e para se levantar a seguir, vendo as coisas e as pessoas como são e não como atletas de alta prestação. Essa é a maior força, a do conhecimento de si mesmo que leva à vontade para além dos valores dominantes e de ficções de força ou de sucesso.

A maior força é a de se saber fraco e ser feliz assim, apesar disso, com isso mesmo, com a realidade e não com a ilusão de que se alimenta a boa opinião dos outros.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Contágio

Tirado daqui

Portugal’s borrowing costs leapt to fresh euro-era highs on Wednesday amid growing worries that Lisbon could eventually default on its debt commitments. One banker said: “Greece will default. The market is convinced of that. But now Portugal is increasingly being considered as likely to follow. There is not enough time for the country to bring its economy round and bring government bond yields back to sustainable levels.”

segunda-feira, janeiro 16, 2012

O downgrading de Portugal pela S&P

Extratos do relatório da Standard & Poor's que baixou o rating de Portugal a BB (11 níveis abaixo do máximo e 10 níveis acima de "default"):

“The downgrade reflects our opinion of the impact of deepening political, financial, and monetary problems within the eurozone, with which Portugal is closely integrated.”

Parece-me pacífico; portanto, a solução tem de vir também da zona euro, noutros termos, de decisões judiciosas ao nível da UE.

“(…) the political agreement [EU summit on Dec. 9, 2011] does not supply sufficient additional resources or operational flexibility to bolster European rescue operations, or extend enough support for those eurozone sovereigns subjected to heightened market pressures.”

Também me parece claro e pertinente. Não vai haver dinheiro que chegue para ajudar todos os que dela precisarem (a começar pela Itália).

“(…) the financial problems facing the eurozone are (...) a consequence of rising external imbalances and divergences in competitiveness between the eurozone's core and the so-called "periphery". As such, we believe that a reform process based on a pillar of fiscal austerity alone risks becoming self-defeating (…)”

Não podia estar mais de acordo. O euro nasceu na base de premissas erradas e continuar apenas a cortar não leva a grande coisa salvo a acentuar as putativas razões pelas quais se deveria continuar a cortar.

“(…) continued fiscal austerity without improving growth prospects could result in widespread unemployment, which could negatively affect social cohesion and political support for the EU/IMF program.”

Penso que neste ponto até a CGTP estará de acordo.

domingo, janeiro 15, 2012

sábado, janeiro 14, 2012

A pérfida Albion

O que se está a passar com a redução dos ratings confirma a ideia de que os seres humanos e as instituições se adaptam sempre para preservar a condição essencial de tudo o resto, ou seja, a sobrevivência! Até há algum tempo, dizia-se que a perda de rating de países como os Estados Unidos ou a França provocaria o fim do mundo. Nada disso nos Estados Unidos que até melhorou a criação de emprego recentemente. Quanto à França, dizia-se que se estaria perto do colapso porque tudo o que não fosse AAA, implicaria que um dos principais países do Euro deixava de ter acesso fácil ao mercado internacional da dívida e as necessidades de ajuda poderiam ser tais que os que mantivessem AAA não teriam capacidade de pagar, mesmo que a sua generosidade se tornasse inesperadamente infinita. Ora, há já algum tempo que a França anda a pagar taxas de juro que não são de AAA, mais de 1% acima das taxas da virtuosa Alemanha. Os investidores não precisaram das agências de rating para dizer à França que ter dívida sua não é propriamente a mesma coisa do que ter dívida alemã.

Porquê a importância do AAA? Porque há entidades (como os fundos de pensões, as companhias de seguro, os fundos soberanos) que seguem uma política de investimento que implica a detenção de uma certa percentagem de activos com rating AAA. Portanto, as obrigações francesas (que apesar de tudo se mantém em AA+, a segunda melhor classificação numa escala de 22 níveis) deixaram de ser elegíveis para esses investidores que se concentram no que resta de AAA, cujas taxas de juros são assim cada vez mais baixas, enquanto os ex-AAA pagam cada vez mais porque são objecto de outro tipo de procura. De recordar que a Alemanha pagou uma taxa de juro negativa numa recente emissão de dívida, ou seja, os credores estão preparados a pagar ao devedor para ter um activo cujo capital permaneça alegadamente fora de qualquer risco.

A perda do rating soberano da França é mais um episódio lamentável neste processo de corrosão gradual e penosa da zona euro mas não representa (ainda) o fim da linha. Os bancos e as empresas francesas vão nos próximos dias ser também downgraded, o que implicará maiores dificuldades de financiamento e seguramente taxas mais elevadas.

Por seu lado, as consequências políticas são enormes. Faltam mais ou menos 3 meses para as eleições presidenciais em França e os adversários não tardaram a dizer que isto não é o fracasso da França, mas sim o fracasso do candidato Sarkozy. Mas, a questão complica-se ainda mais para o lado do famigerado eixo franco-alemão. Os interesses dos elementos do binómio tornam-se cada vez mais divergentes. A França afasta-se da “virtude” e torna-se mais próxima dos “criminosos” do Sul. A fratura entre essas duas realidades aumenta e a vontade ou capacidade dos virtuosos (Alemanha, Holanda, Finlândia e Luxemburgo, os únicos ainda com AAA) de ajudar os outros reduz-se a olhos vistos. Assim, os outros só podem contar consigo próprios, prosseguir na “via cruxis” da austeridade (até à derrota final?) ou criar um outro euro, um só deles, bem diferente do euro dos mais fortes que será cada vez mais um marco. Só que, com esse retorno ao marco (mais forte do que a média que representa o actual euro) os próprios alemães terão a perder porque as suas exportações se tornam mais caras e as importações mais baratas e os ganhos de produtividade proverbiais dos alemães têm limites. De resto, um outro efeito interessante é que, por enquanto, quanto pior vão os outros e isso se reflita na quebra do euro (designadamente face ao dolar), melhor para a competitividade dos alemães... Poder-se-ia dizer que esse é um mecanismo automático de regulação cambial de que acabam por beneficiar todos... na condição de lhes sobrar alguma coisa para exportar!

Outras situações igualmente (senão mais) preocupantes são as da Espanha e da Itália, sobretudo deste último país, cujo rating passa para BBB+, ou seja, dois níveis acima de lixo e oito abaixo de AAA. Se o Estado tem esse rating, muitos bancos e empresas transalpinas terão ratings de lixo, isto é, inferiores a BBB-. Quando as taxas associadas a esses níveis de rating ultrapassam um determinado limiar (lembram-se dos 7% do Ministro Teixeira dos Santos?) a dívida deixa de ser sustentável, isto é, os países passam a trabalhar quase só para pagar juros e o capital por lá vai ficando em contínua renovação ou aumento, como se fosse equity, o que não agrada nada aos credores que deixam de emprestar e tentam por todos os meios recuperar o que já têm em risco. E aí aparece a Troika a injectar o dinheiro que permite a saída dos outros, na condição de o malogrado país executar políticas que, segundo a mesma Troika, tornem finalmente possivel a redução da dívida. Tudo isso nalguns casos vai a par com reestruturações de dívida, o que quer dizer que os credores actuais têm de aceitar algum sofrimento sob a forma de perdão de parte da dívida, extensão de prazo de pagamento ou alteração das taxas de juro. Pois bem, a Itália está a aproximar-se desse pesadelo bem conhecido de gregos, irlandeses e portugueses. O problema é a dimensão faraónica do problema italiano. Onde é que a Troika vai buscar tanto dinheiro? Tanto mais que o Fundo Europeu de Estabilização (a que aparentemente se seguirá o Mecanismo Europeu de Estabilização com mais dinheiro, daqui a um ano e meio...) tem recursos limitados e o seu acesso ao mercado também é seriamente afectado pela perda de rating dos seus principais patrocinadores...

Enfim, está aqui uma embrulhada dos diabos. Mas, como comecei por dizer, “os seres humanos e as instituições adaptam-se sempre para preservar a condição essencial de tudo o resto, ou seja, a sobrevivência!”. Alguns indígenas chamariam a isso resiliência, palavra odiosa que vem directamente da “resilience” dos pérfidos da Albion...

sexta-feira, janeiro 13, 2012

AAC 1 / Oliveirense 0


Caso de masoquismo virtuoso: a sofrer até sabe melhor...


... e há uma segunda mão em Oliveira de Azemeis. Na Taça tudo é possivel: oportunidade para todos darem nas vistas, incluindo os teoricamente inferiores. Se formos ao Jamor será fantástico. Senão formos, BRIOSA sempreeeeee...

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Todos atletas em vez de cidadãos

Extraído de "El Pais" on-line:

“(…) el tipo de subjetividad activamente fomentado por la gobernanza neoliberal tiene un claro objetivo: transformar al individuo socialmente dependiente -el posible "perdedor"-, inserto en el tejido institucional de la sociedad civil, en el deportista, ese emprendedor nato amante del riesgo y ganador, único responsable de su inversión formativa y "capital humano". Así, el nuevo fitness neoliberal no busca tanto interpelar al parado como al desempleado poco motivado, un ser perezoso a la hora de devenir empresario de sí mismo y maximizar competitivamente su marca personal. Para este neoliberalismo, parafraseando el famoso eslogan de Margaret Thatcher, "no existe eso que se llama la sociedad, sino solo deportistas". Allí donde existía el ciudadano menesteroso, debe advenir una voluntad de hierro.”

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Todo o mundo é composto de mudança

Dá a impressão de que estamos na acalmia antes da tempestade. Estranhamente, as pessoas não se manifestam, não telefonam para protestar, para pedir clemência. O silêncio do telefone e o vazio da Inbox tornam-se suspeitos. Parecem todos cansados, rendem-se, querem sobretudo paz, pedem uma pausa à crise, fazem de conta de que tudo isto não passa de um pesadelo: a normalidade segue dentro de momentos... Mas, estamos aqui porque antes não tinhamos normalidade, mas sim ilusão de bem-estar.

Deixem-nos em paz. Deixem-nos estar tranquilos. Não venham com teorias do apocalipse nem de concorrência desenfreada entre indíviduos e nações. Não venham com ameaças insuportáveis que nos fazem olhar para o futuro com uma angústia endémica.

Como era bom há uns anos, sem crises nem bloqueios, numa doce estabilidade.

O problema é que nunca foi assim. Olhemos para os últimos 40 anos: de crise em crise, de sobressalto em sobressalto, de credo em credo: guerra fria, fim do mundo, Vietnam, crise do petróleo, desemprego e inflação, queda do Muro, tatcherismo/reaganismo, terrorismo, bolha da internet, crise da dívida dos chamados países emergentes (México, Argentina, Malásia, Brasil), guerra às portas da Europa (ex-Jugoslávia), bolha imobiliária, crise da dívida privada, crise da dívida pública...

“Todo o mundo é composto de mudança”. O mundo sob hegemonia capitalista é feito de crises. Não é defeito – é feitio! Trata-se de qualquer coisa intrinseca ao sistema, com a qual temos de viver, integrar no nosso quotidiano e nos nossos projectos a longo prazo. Apesar de, a longo prazo, estarmos (obviamente) todos mortos (Keynes dixit).

A alternativa é a Revolução. Mas a multidão já não acredita em causas colectivas. A hegemonia do capitalismo devolveu as pessoas ao bom senso e ao pragmatismo das continhas bem feitas, destruiu as utopias, tornou-as rídiculas face às supremas agruras dos quotidianos individuais, das ambições de consumo. A solidariedade é pelos cães e gatos abandonados, pelas doenças bizarras que atingem crianças distantes, dos outros, pela fome e pelas violações de direitos humanos no Darfur e na India, bem longe do conforto da sala de estar com ecrã de plasma. A solidariedade esgota-se na esmola aos pobrezinhos, com afastamento higiénico.

O capitalismo dos últimos anos des-socializa as pessoas. Os problemas são de cada indivíduo, de cada família, transformados em atletas com diferentes scores na corrida permanente por um sucesso homologado. A prova é que, mesmo nas maiores dificuldades, há quem se safe, quem enriqueça, o que quer dizer que a maioria só tem de esforçar-se para ser um vasto bando de campeões.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades."

Luis Vaz de Camões

sexta-feira, janeiro 06, 2012

The right attitude

Conjuntura ou estrutura?

Ou tudo isto não passa do estúpido ciclo económico, com a maioria a sofrer as consequências da fase de recessão, ou estamos perante uma mudança de estrutura à escala europeia e provavelmente mundial.

No primeiro caso, bastará baixar-se e deixar que passe, com mais ou menos protestos, com mais ou menos raiva pelos que escapam à recessão (incluindo para a Holanda), com mais ou menos sofrimento. O estúpido ciclo económico inverter-se-à, os activos ficarão tão baratos que toda a gente pensará que só podem valorizar-se e as compras recomeçam, as expectativas melhoram, o investimento volta a animar-se, etc.

No segundo caso, porém, temo que estaremos condenados a mais e mais prolongado sofrimento e a mudanças que se torna extremamente difícil de prever nos campos económico, social, político e militar. O que irão produzir os países até aqui mais ricos? Como irão produzir? A quem irão vender? Qual será o futuro modelo de consumo? O que será feito da mobilidade social no espaço e no tempo? Qual será o paradigma de desenvolvimento alternativo ao que se tem vindo a esgotar perante a ascensão dos chamados países emergentes? Quem terá hegemonia global?

Descobridores de alterações de época e anunciadores do fim dos impérios e do apocalipse há por aí muitos, mas temo que estejamos mais próximos da segunda hipótese.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

No comboio a passar ao lado do mar em Espinho

Adoro o vento a despentear o mar
Velho como o branco da espuma
De ondas que resistem ao tempo
Que se rendem na praia para renascer logo a seguir
Na barriga de um infinito próximo
A vontade dilui-se nessa imensidão
Hesito entre tudo e o possível
Dilema trivial em que se resolve o bom senso

E o comboio avança, tremendo em direcção a Gaia,
Antecâmara de um Douro sentido, antes da queda num depois vazio

domingo, janeiro 01, 2012

Feliz Ano Novo

Não faço ideia de como vai ser 2012. Obviamente! Sei apenas que as nuvens são espessas e escuras. Mais do que noutros anos. Por razões gerais bem conhecidas. Depois, cada um de nós tem diferentes razões particulares para ser optimista ou pessimista, para ter medo ou confiança, para olhar para a frente com um sorriso ou com um esgar de preocupação. Só uma coisa é certa: a maneira como as coisas se vão passar dependerá também (ou sobretudo) de nós próprios, das nossas decisões. Esperemos que, sendo certas, essas decisões não sejam esmagadas por coisas que não controlamos. E não esqueçamos também que não estamos sózinhos no mundo. Quando o que não controlamos complica especialmente a nossa existência e põe em causa valores essenciais como a dignidade e a integridade, a amizade, a família e a solidariedade tornam-se especialmente importantes. Mas devem ser pontes oportunas e sólidas - não estradas cómodas e intermináveis que nos distanciam da responsabilidade.


sexta-feira, dezembro 30, 2011

Poema em linha reta - Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Morrer do mar é morrer do que não conheço
O que do mar conheço é apenas a ideia que dele faço

Ficará certamente o vento depois das tempestades

domingo, dezembro 25, 2011

Ala que se faz tarde

O Manel foi durante muito tempo um herói do trapézio do desenrascanço. Conseguia copiar nos testes melhor do que ninguém, subornava o contínuo para podermos jogar no terreiro da escola em períodos interditos ao comum dos mortais, jogava à lerpa com a perícia de um batoteiro de Las Vegas, era um sedutor de grande calíbre. O Manel saiu do liceu pela porta pequena das classificações mas pela porta grande da lenda. Montou um negócio de comércio de materiais de construção e, mais uma vez, safou-se, manobrando clientes e fornecedores, manipulando empregados, fugindo aos impostos como é apanágio dos cidadãos argutos. Aos 30 anos tinha Mercedes, vivenda com jardim, piscina, lobo da Alsácia e leão de pata no ar a meter respeito (porque é sportinguista empedernido). O Manel tinha esposa, filhos e amantes, casa de praia e férias marcadas para o Brasil. Tudo corria pelo melhor. Até conseguiu ganhar a presidência da Câmara Municipal na lista de um dos partidos do sucesso, o que lhe aumentou as possibilidades de traficar tijolos e influências. Dali até ao negócio imobiliário foi só um pulinho e os projectos (tempestivamente aprovados pelos serviços da Câmara) nasceram como cogumelos. O Manel passou a dar Mercedes às amantes, aos filhos, aos empreiteiros e a todos os “colaboradores”. A equipa de futebol da terra subiu 3 vezes de divisão em 3 anos seguidos porque os árbitros simpatizavam com o Manel e os jogadores sentiam-se especialmente motivados pelo amor à conta bancária.

Um dia, chegou um fiscal das Finanças, mandado seguramente por invejosos incontinentes. Os juros aumentaram e as pessoas passaram a comprar menos casas que o Manel continuava a construir como cogumelos. O dinheiro começou a ser menos caudaloso nos bancos e os gestores de conta (jovens recém-licenciados cheios de manias) começaram a fazer perguntas incómodas e a pedir garantias, à revelia da simpatia dos directores das agências. As amantes começaram a protestar porque as prendas faziam-se cada vez mais raras e fuinhas. E até os Mercedes tinham problemas de travões e suspensão. O clube da terra desceu de divisão e puseram o Manel em Tribunal por causa de uns pagamentos estranhos. O Manel começou a ver a coisa a andar para trás e a sua proverbial esperteza parecia pouca para tanta contrariedade. As amantes escreviam cartas anónimas, a mulher (coitada) chorava pelos cantos e até o leão à porta de casa apareceu com a perna de cimento partida.

Um dia recebeu uma carta para comparecer na esquadra para “tratar de assuntos do seu interesse”. O Manel sentiu cheiro a queimado e percebeu que teria pouca eloquência para convencer os investigadores de que era um cidadão exemplar, acima de qualquer suspeita, vítima de conspiração por pessoas com dor de cotovelo e de mau perder. Fez umas transferências bancárias, levantou uns milhares de euros em notas, pediu à mulher para fazer as malas, telefonou aos filhos que estavam a estudar em Lisboa para lhes dizer que nada lhes faltaria, pegou no Mercedes com menos problemas de travões e suspensão e zarpou, primeiro para Espanha e depois para Angola, onde não lhe faltariam amigos na construção civil...

O que mais chateava o Manel, nem era os gajos da polícia e dos tribunais – eram estes tipos engravatados e arrogantes da Troika a dizer que é preciso meter o país na ordem, cortar nas despesas, pôr os indigenas a pagar impostos e eliminar privilégios. Puta que os pariu! Ala que se faz tarde.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Os campos verdes e húmidos lá ao fundo, estreitos como o egoísmo, deitados na várzea, parecem tapetes do meu passado, ordenados, lavrados como cabelo com riscos de brilhantina. Está frio como naqueles Invernos em que olhava de criança para esses campos enlameados, compridos até ao rio. É um frio que se sente no queixo, nas orelhas e na espinha, que se instala no coração por causa do passado desarrumado. E chega também o cheiro a fumo de quem se aquece com a carne a assar e o pão a crescer no forno. Dá-me vontade de sair dali a correr, acelerador a fundo, de cortar com essas memórias sem me sentir culpado, sem perder nada de fundamental, sem fazer mal a ninguém, vivo ou morto, sem frio, sem medo de voltar.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

O que há de comum entre o dinheiro e os amigos? Ambos se ganham e se perdem!

terça-feira, dezembro 13, 2011

Força BRIOSA

Vitória ontem por 2-0 em Olhão. Em 6° lugar com 16 pontos, à 12a. jornada (o campeonato tem 30 jornadas). São precisos 30 pontos para não descer... A partir daí o que vier à rede é peixe. No domingo contra o Sporting em Coimbra. Era bonito ganhar. Muito mais do que bonito: fim de ano em beleza! [Que me perdoem a melga do lado, o meu pai e o meu sobrinho. Ninguém é perfeito, n'est-ce pas?] E estamos nos quartos de final da Taça. Era bonito chegar ao Jamor. Muito mais do que bonito: reeditar 1939 (vencedor), 1951, 1967 e 1969.

Eugénio de Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

domingo, dezembro 11, 2011

Às vezes tenho a impressão de que o destino deste país se joga entre os medíocres e as aves de rapina...

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Crédito e política

No fim de contas, a decisão da S&P de colocar em perspectiva negativa o rating de todos os países da zona euro ao mesmo tempo tem sentido e revela grande argúcia. Os comentários citados no post anterior em relação a Portugal são idênticos aos que foram produzidos por aquela agência em relação a cada um dos outros países da zona euro. Senão vejamos:

  1. A S&P antecipou-se às concorrentes Moody´s e Fitch.
  2. Coloca em evidência um problema sistémico de governação de uma zona monetária que atinge todos e cada um dos seus membros, mais do que problemas específicos de cada país. O que põe em causa é a capacidade dessa zona monetária de tomar decisões, rapidamente e correctamente, para assegurar a sua sobrevivência.
  3. Assegura a paridade (por enquanto) entre a Alemanha e a França.
  4. Acautela os interesses dos detentores de dívida dos países que foram avaliados; os ratings não servem para outra coisa: medir risco de crédito; e esse risco aumenta com as sucessivas provas de incapacidade de decisão.
  5. Precede de alguns dias uma cimeira onde se podem finalmente remover essas preocupações, isto é, pressiona os decisores a agir num sentido favoravel aos credores e, portanto, se assim for poderá permitir a eliminação dessa perspectiva negativa.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Se isto não é politica...

No mesmo dia em que foi tomada semelhante decisão pela mesma agência de rating em relação a todos os países da zona euro:

LONDON (Standard & Poor's) Dec. 5, 2011--Standard & Poor's Ratings Services
today placed its 'BBB-/A-3' long- and short-term sovereign credit ratings on
the Republic of Portugal on CreditWatch with negative implications.

RATIONALE
The CreditWatch placement is prompted by our concerns about the potential
impact on Portugal of what we view as deepening political, financial, and
monetary problems within the eurozone. To the extent that these eurozone-wide
issues permanently constrain the availability of credit to the economy,
Portugal's economic growth outlook--and therefore the prospects for a
sustained reduction of its public debt ratio--could be affected. Further, it
is our opinion that the lack of progress the European policymakers have made
so far in controlling the spread of the financial crisis may reflect
structural weaknesses in the decision-making process within the eurozone and
European Union. This, in turn, informs our view about the ability of European
policymakers to take the proactive and resolute measures needed in times of
financial stress. We are therefore reassessing the eurozone's record of
debt-crisis management and its implications for our view on the effectiveness
of policymaking in Portugal.