sexta-feira, janeiro 06, 2012

The right attitude

Conjuntura ou estrutura?

Ou tudo isto não passa do estúpido ciclo económico, com a maioria a sofrer as consequências da fase de recessão, ou estamos perante uma mudança de estrutura à escala europeia e provavelmente mundial.

No primeiro caso, bastará baixar-se e deixar que passe, com mais ou menos protestos, com mais ou menos raiva pelos que escapam à recessão (incluindo para a Holanda), com mais ou menos sofrimento. O estúpido ciclo económico inverter-se-à, os activos ficarão tão baratos que toda a gente pensará que só podem valorizar-se e as compras recomeçam, as expectativas melhoram, o investimento volta a animar-se, etc.

No segundo caso, porém, temo que estaremos condenados a mais e mais prolongado sofrimento e a mudanças que se torna extremamente difícil de prever nos campos económico, social, político e militar. O que irão produzir os países até aqui mais ricos? Como irão produzir? A quem irão vender? Qual será o futuro modelo de consumo? O que será feito da mobilidade social no espaço e no tempo? Qual será o paradigma de desenvolvimento alternativo ao que se tem vindo a esgotar perante a ascensão dos chamados países emergentes? Quem terá hegemonia global?

Descobridores de alterações de época e anunciadores do fim dos impérios e do apocalipse há por aí muitos, mas temo que estejamos mais próximos da segunda hipótese.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

No comboio a passar ao lado do mar em Espinho

Adoro o vento a despentear o mar
Velho como o branco da espuma
De ondas que resistem ao tempo
Que se rendem na praia para renascer logo a seguir
Na barriga de um infinito próximo
A vontade dilui-se nessa imensidão
Hesito entre tudo e o possível
Dilema trivial em que se resolve o bom senso

E o comboio avança, tremendo em direcção a Gaia,
Antecâmara de um Douro sentido, antes da queda num depois vazio

domingo, janeiro 01, 2012

Feliz Ano Novo

Não faço ideia de como vai ser 2012. Obviamente! Sei apenas que as nuvens são espessas e escuras. Mais do que noutros anos. Por razões gerais bem conhecidas. Depois, cada um de nós tem diferentes razões particulares para ser optimista ou pessimista, para ter medo ou confiança, para olhar para a frente com um sorriso ou com um esgar de preocupação. Só uma coisa é certa: a maneira como as coisas se vão passar dependerá também (ou sobretudo) de nós próprios, das nossas decisões. Esperemos que, sendo certas, essas decisões não sejam esmagadas por coisas que não controlamos. E não esqueçamos também que não estamos sózinhos no mundo. Quando o que não controlamos complica especialmente a nossa existência e põe em causa valores essenciais como a dignidade e a integridade, a amizade, a família e a solidariedade tornam-se especialmente importantes. Mas devem ser pontes oportunas e sólidas - não estradas cómodas e intermináveis que nos distanciam da responsabilidade.


sexta-feira, dezembro 30, 2011

Poema em linha reta - Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Morrer do mar é morrer do que não conheço
O que do mar conheço é apenas a ideia que dele faço

Ficará certamente o vento depois das tempestades

domingo, dezembro 25, 2011

Ala que se faz tarde

O Manel foi durante muito tempo um herói do trapézio do desenrascanço. Conseguia copiar nos testes melhor do que ninguém, subornava o contínuo para podermos jogar no terreiro da escola em períodos interditos ao comum dos mortais, jogava à lerpa com a perícia de um batoteiro de Las Vegas, era um sedutor de grande calíbre. O Manel saiu do liceu pela porta pequena das classificações mas pela porta grande da lenda. Montou um negócio de comércio de materiais de construção e, mais uma vez, safou-se, manobrando clientes e fornecedores, manipulando empregados, fugindo aos impostos como é apanágio dos cidadãos argutos. Aos 30 anos tinha Mercedes, vivenda com jardim, piscina, lobo da Alsácia e leão de pata no ar a meter respeito (porque é sportinguista empedernido). O Manel tinha esposa, filhos e amantes, casa de praia e férias marcadas para o Brasil. Tudo corria pelo melhor. Até conseguiu ganhar a presidência da Câmara Municipal na lista de um dos partidos do sucesso, o que lhe aumentou as possibilidades de traficar tijolos e influências. Dali até ao negócio imobiliário foi só um pulinho e os projectos (tempestivamente aprovados pelos serviços da Câmara) nasceram como cogumelos. O Manel passou a dar Mercedes às amantes, aos filhos, aos empreiteiros e a todos os “colaboradores”. A equipa de futebol da terra subiu 3 vezes de divisão em 3 anos seguidos porque os árbitros simpatizavam com o Manel e os jogadores sentiam-se especialmente motivados pelo amor à conta bancária.

Um dia, chegou um fiscal das Finanças, mandado seguramente por invejosos incontinentes. Os juros aumentaram e as pessoas passaram a comprar menos casas que o Manel continuava a construir como cogumelos. O dinheiro começou a ser menos caudaloso nos bancos e os gestores de conta (jovens recém-licenciados cheios de manias) começaram a fazer perguntas incómodas e a pedir garantias, à revelia da simpatia dos directores das agências. As amantes começaram a protestar porque as prendas faziam-se cada vez mais raras e fuinhas. E até os Mercedes tinham problemas de travões e suspensão. O clube da terra desceu de divisão e puseram o Manel em Tribunal por causa de uns pagamentos estranhos. O Manel começou a ver a coisa a andar para trás e a sua proverbial esperteza parecia pouca para tanta contrariedade. As amantes escreviam cartas anónimas, a mulher (coitada) chorava pelos cantos e até o leão à porta de casa apareceu com a perna de cimento partida.

Um dia recebeu uma carta para comparecer na esquadra para “tratar de assuntos do seu interesse”. O Manel sentiu cheiro a queimado e percebeu que teria pouca eloquência para convencer os investigadores de que era um cidadão exemplar, acima de qualquer suspeita, vítima de conspiração por pessoas com dor de cotovelo e de mau perder. Fez umas transferências bancárias, levantou uns milhares de euros em notas, pediu à mulher para fazer as malas, telefonou aos filhos que estavam a estudar em Lisboa para lhes dizer que nada lhes faltaria, pegou no Mercedes com menos problemas de travões e suspensão e zarpou, primeiro para Espanha e depois para Angola, onde não lhe faltariam amigos na construção civil...

O que mais chateava o Manel, nem era os gajos da polícia e dos tribunais – eram estes tipos engravatados e arrogantes da Troika a dizer que é preciso meter o país na ordem, cortar nas despesas, pôr os indigenas a pagar impostos e eliminar privilégios. Puta que os pariu! Ala que se faz tarde.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Os campos verdes e húmidos lá ao fundo, estreitos como o egoísmo, deitados na várzea, parecem tapetes do meu passado, ordenados, lavrados como cabelo com riscos de brilhantina. Está frio como naqueles Invernos em que olhava de criança para esses campos enlameados, compridos até ao rio. É um frio que se sente no queixo, nas orelhas e na espinha, que se instala no coração por causa do passado desarrumado. E chega também o cheiro a fumo de quem se aquece com a carne a assar e o pão a crescer no forno. Dá-me vontade de sair dali a correr, acelerador a fundo, de cortar com essas memórias sem me sentir culpado, sem perder nada de fundamental, sem fazer mal a ninguém, vivo ou morto, sem frio, sem medo de voltar.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

O que há de comum entre o dinheiro e os amigos? Ambos se ganham e se perdem!

terça-feira, dezembro 13, 2011

Força BRIOSA

Vitória ontem por 2-0 em Olhão. Em 6° lugar com 16 pontos, à 12a. jornada (o campeonato tem 30 jornadas). São precisos 30 pontos para não descer... A partir daí o que vier à rede é peixe. No domingo contra o Sporting em Coimbra. Era bonito ganhar. Muito mais do que bonito: fim de ano em beleza! [Que me perdoem a melga do lado, o meu pai e o meu sobrinho. Ninguém é perfeito, n'est-ce pas?] E estamos nos quartos de final da Taça. Era bonito chegar ao Jamor. Muito mais do que bonito: reeditar 1939 (vencedor), 1951, 1967 e 1969.

Eugénio de Andrade

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

domingo, dezembro 11, 2011

Às vezes tenho a impressão de que o destino deste país se joga entre os medíocres e as aves de rapina...

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Crédito e política

No fim de contas, a decisão da S&P de colocar em perspectiva negativa o rating de todos os países da zona euro ao mesmo tempo tem sentido e revela grande argúcia. Os comentários citados no post anterior em relação a Portugal são idênticos aos que foram produzidos por aquela agência em relação a cada um dos outros países da zona euro. Senão vejamos:

  1. A S&P antecipou-se às concorrentes Moody´s e Fitch.
  2. Coloca em evidência um problema sistémico de governação de uma zona monetária que atinge todos e cada um dos seus membros, mais do que problemas específicos de cada país. O que põe em causa é a capacidade dessa zona monetária de tomar decisões, rapidamente e correctamente, para assegurar a sua sobrevivência.
  3. Assegura a paridade (por enquanto) entre a Alemanha e a França.
  4. Acautela os interesses dos detentores de dívida dos países que foram avaliados; os ratings não servem para outra coisa: medir risco de crédito; e esse risco aumenta com as sucessivas provas de incapacidade de decisão.
  5. Precede de alguns dias uma cimeira onde se podem finalmente remover essas preocupações, isto é, pressiona os decisores a agir num sentido favoravel aos credores e, portanto, se assim for poderá permitir a eliminação dessa perspectiva negativa.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Se isto não é politica...

No mesmo dia em que foi tomada semelhante decisão pela mesma agência de rating em relação a todos os países da zona euro:

LONDON (Standard & Poor's) Dec. 5, 2011--Standard & Poor's Ratings Services
today placed its 'BBB-/A-3' long- and short-term sovereign credit ratings on
the Republic of Portugal on CreditWatch with negative implications.

RATIONALE
The CreditWatch placement is prompted by our concerns about the potential
impact on Portugal of what we view as deepening political, financial, and
monetary problems within the eurozone. To the extent that these eurozone-wide
issues permanently constrain the availability of credit to the economy,
Portugal's economic growth outlook--and therefore the prospects for a
sustained reduction of its public debt ratio--could be affected. Further, it
is our opinion that the lack of progress the European policymakers have made
so far in controlling the spread of the financial crisis may reflect
structural weaknesses in the decision-making process within the eurozone and
European Union. This, in turn, informs our view about the ability of European
policymakers to take the proactive and resolute measures needed in times of
financial stress. We are therefore reassessing the eurozone's record of
debt-crisis management and its implications for our view on the effectiveness
of policymaking in Portugal.

domingo, dezembro 04, 2011

Jogo de poker

Tirado daqui:

“Merkel está apretando el acelerador hasta llevarnos a todos al borde del abismo para que aceptemos sus condiciones. Es como una arriesgada jugada de póquer, a ver quién aguanta más”, señala un alto funcionario comunitario. ¿Qué pide Merkel? La canciller propugna una unión fiscal de la zona euro. Sustancialmente, se trata de crear una autoridad fiscal europea, ya sea un ministro de Economía de la zona euro o un supercomisario, como el recientemente nombrado Olli Rehn, pero con los máximos poderes, especialmente para controlar e intervenir en los Presupuestos de los Estados miembros, endurecer las sanciones de los infractores de los límites de déficit y deuda, con la posibilidad de privarles del derecho de voto y retirarles los fondos comunitarios. Para Merkel es fundamental que los países que incumplan las normas de déficit y deuda establecidas en el Pacto de Estabilidad puedan ser llevados ante el Tribunal de la Unión Europea. También exige que los Estados inscriban en su legislación la regla de oro de lograr el equilibrio presupuestario.

El debate de fondo es corregir los fallos fundacionales del euro que establecieron un sistema con una sola pata, la monetaria, pero sin la necesaria política fiscal que la equilibrara. Pero Francia mantiene sus reservas, sobre quién debe tener la última palabra sobre la decisión de las sanciones. Berlín propone que sea la Comisión Europea, mientras que París no quiere ceder esta parcela de soberanía.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Nostalgia

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que pelas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca

Conflitos

O mundo parece demasiado pequeno dentro do rectângulo da televisão.

Desfilam imagens de conflitos em diferentes regiões, linguas, côres, credos, raças, politicas. Simplesmente porque as pessoas, os grupos sociais, as nações têm interesses divergentes, porque a contradição é inseparável da vida. Porque a razão se mistura com a emoção, por vezes, com o fanatismo. A cegueira simplifica a realidade, por natureza, complexa.

A Europa parece uma panela de pressão sem válvula de escape. Ou se abre ou explode. A Europa atingiu uma maturidade insustentável, uma estabilidade decadente. São precisos rupturas, saltos em frente. Isso pode querer dizer guerra. Mas pode (e deve) também querer dizer discussão franca, sem tabús nem reservas. Como nas famílias, nos casais, entre amigos que falam tempo demais de trivialidades para evitar silêncios pesados ou disputas esclarecedoras. Melhor assumir os conflitos, falar deles de forma aberta para purificar as relações, eliminar mal-entendidos, denunciar interesses indevidos e regular interesses legitimos. Os antagonismos talvez ainda não tenham ultrapassado o limite do diálogo e da negociação, antes de se chegar à guerra. As cedências ainda parecem possiveis sem ameaçar coisas vitais.

Apesar de tanta boa intenção, a verdade é que o nacionalismo cresce e a solidariedade suscita condescendência, senão mesmo desprezo. As identidades nacionais, culturais, linguisticas fomentam o sectarismo e a intolerância. A defesa de interesses parciais atinge o paroxismo e põe em causa a cooperação necessária para manter projectos comuns.

De forma bem cínica: as pessoas, os grupos e as nações só cooperam, só cedem nalguns interesses quando ganham ou esperam ganhar globalmente, mais cedo ou mais tarde.

Talvez não fosse má ideia avançar no sentido dum "óptimo de Pareto" o qual corresponde a uma afectação de recursos a partir da qual não existe nenhuma reafectação possível que seja preferida por um grupo e não implique a perda de bem-estar de um outro. Assim sendo, a afectação de recursos correspondente a um óptimo de Pareto é aquela a partir da qual deslocações mutuamente benéficas não são possíveis, pelo que, não é possível melhorar a situação de um grupo sem prejudicar a situação de outro.

domingo, novembro 27, 2011

O mito Merkel

Citado daqui:

"Las puertas que a otros les abrieron el atractivo físico o el carisma, a Angela Merkel se las han abierto cualidades adquiridas por la vía de una educación estricta, en la onda severa de su religión, la luterana. Nos referimos al trabajo constante, al afán de superación, a la paciencia, al cálculo, al espíritu de sacrificio. Todo ello se une en su caso a una discreción absoluta y a un mal disimulado desdén por las actitudes hedonistas."

O Natal e os cavalos...

Num jantar de fim de ano, Natal, etc. - um daqueles rituais organizados pelo chefe onde se vai por gosto, dever, etc. e, sobretudo, porque sim. À mesa fala-se obviamente da crise, de spreads, do fim do euro, destas coisas para que se é arrastado entre colegas, mesmo que o evento se destine a outra coisa, como por exemplo, confraternizar ou simplesmente comer e beber bem. Para passar a assuntos mais ligeiros pergunto ingenuamente pelos planos da pessoa ao meu lado para a pausa de Natal que se avizinha. O que é que fui dizer! Com os braços no ar, a voz a trovejar e um riso ameaçador, responde-me: "Oh não... Isso ainda é pior do que a crise ou o fim do euro... Odeio o Natal". E passámos a falar de cavalos, paixão inequivoca do meu comensal.

sábado, novembro 26, 2011

Frases de Fernando Pessoa


Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.

A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.

Para viajar basta existir.

Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.

Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?

Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.

Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.

Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).

Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria.

Estado de excepção económica permanente


Tirado daqui:

"Las recientes elecciones en España han concedido una amplia mayoría al Partido Popular, que controla, además, la práctica totalidad de las Autonomías y de los Ayuntamientos de las grandes ciudades. La legitimidad democrática que le otorgan estos resultados es más que suficiente para enfrentarse a la crisis económica, y así lo ha reconocido su propio líder, Mariano Rajoy, ya presidente electo, al declararse abiertamente en contra de la formación de un Gobierno tecnocrático. Pero el peligro en estos momentos no es solo que se imponga esa fórmula como en Grecia e Italia, sino también que los Gobiernos democráticos actúen o se vean obligados a actuar como si fueran tecnocráticos. Lo harían si olvidasen que su acción debe estar inspirada, ahora más que nunca, ahora más, mucho más que en los tiempos de prosperidad, por el objetivo de arbitrar intereses sociales diferentes y legítimos, no por un saber, por una ciencia que solo obedece a sus propias leyes y que exige esfuerzos sobrehumanos y justifica todos los sacrificios.

La política económica de cortos vuelos impuesta por la Unión Europea a los países más expuestos a la crisis del euro y la deuda soberana está obligando, en último extremo, a que los Gobiernos democráticos actúen como si fueran tecnocráticos y, en definitiva, a que en Europa se establezca, con o sin declaración expresa, un estado de excepción económica permanente. A juzgar por los resultados obtenidos hasta el momento, no parece que esa política esté conduciendo a la salida de la crisis del euro y de la deuda soberana. Más parece estar degradando las instituciones democráticas de los países más expuestos, humillando a los diversos Gobiernos nacionales salidos de las urnas y haciendo de la Unión un monstruo político que genera sufrimiento y desafección, no prosperidad y libertades. De persistir en la misma dirección, el fantasma de la tecnocracia que ha empezado a recorrer Europa podría tener efectos tan amargos, tan devastadores como los demás fantasmas que le precedieron."

sexta-feira, novembro 25, 2011

La City ya prepara la ruptura del euro

25 November 2011
ABC
© 2011 ABC

Los bancos británicos están empezando a trazar planes de contingencia para hacer frente a la ruptura de la zona euro, o a una salida desordenada de varios de sus países miembros, según ha revelado Andrew Bailey, un jefe de área del Banco de Inglaterra. «Les estamos diciendo a los bancos que un manejo adecuado de los riesgos consiste en hacer planes para los escenarios más extremos aunque sean poco probables, lo que significa que no podemos ignorar la posibilidad de una salida desordenada de varios países de la zona euro». Según Bailey «eso no quiere decir que yo crea que eso va a suceder, sino que debe estar en los planes de emergencia». Según una encuesta realizada entre los clientes de Barclays Capital, la mitad creen que al menos un país saldrá de la moneda única durante el año 2012, el doble de los que lo pensaban hace un año.

O eixo franco-alemão

A Alemanha até está preparada a pagar mais para evitar o colapso do euro, mas quer ter uma palavra a dizer sobre como será aplicado o seu dinheiro nos países beneficiários. E aqui o que se joga é soberania. Os países periféricos, carentes de dinheiro pela situação para a qual foram arrastados por governos incompetentes, terão de aceitar que sejam os alemães a dizer qual o tamanho e funções do Estado, quais os investimentos mais ou menos prioritários, quais os direitos de reforma dos cidadãos, etc. Os alemães não vão continuar a passar cheques em branco… Por isso, fazem depender a sua contribuição financeira e tomada de risco, nomeadamente no âmbito dos eurobonds, da prévia alteração dos tratados que, na prática, lhes dê o poder de influenciar os orçamentos nacionais. Os outros países resistem e os alemães não “passam à caixa” e o impasse continua até à derrota final.

A França tem um papel central neste xadrez porque se forem a Alemanha e a França a controlar a Europa, a coisa ainda é concebível... Porém, se a fraqueza da França se acentuar, a alternativa será apenas a Alemanha a controlar a Europa, por conseguinte, a controlar também a França, e não estou a ver que isso seja imaginável e ainda menos compatível com os demónios da História recente. Portanto, o futuro do euro passa pela geo-estratégia da velha Europa, por decisões políticas cruciais, pela balança de poder entre países que há menos de 70 anos se matavam e que deixaram de o fazer no quadro da Comunidade Europeia. Se a França perder o rating (em sentido largo do termo, não necessariamente no sentido das famigeradas agências) temo o pior. A França não se pode desligar ainda mais da Alemanha em termos de poder politico e económico. O esforço patético que o pequeno Sarkozi anda a fazer para parecer importante é um acto de desespero porque sabe que não o é e que se arrisca a sê-lo cada vez menos.

Quanto aos outros países... a Inglaterra está-se nas tintas e verdadeiramente nunca participou a sério no jogo continental; os outros dividem-se em dois grupos: o dos que se colam à Alemanha e o dos que lhe obedecem para ter a sua clemência e o seu dinheiro (caso de Portugal).

domingo, novembro 20, 2011

sábado, novembro 19, 2011

O meu Zé

Regressei das compras de sobrolho carregado. Tanta gente desesperadamente a fazer de conta que não há crise, a comprar mimos e redundâncias, a decorar a auto-estima, a encher o carrinho de coisas obviamente indispensáveis como o chocolatinho para a avózinha ou a velinha barata para dar aconchego na sala. Mas, a carteira sempre mais vazia e a angústia do fim do mês e do Natal que se aproxima a prendas de saldo, compradas na feira dos ciganos ao lado da auto-estrada. E oxalá que o meu Zé não perca o emprego. Tem contrato a prazo, mas agora tudo é a prazo... como a própria vida. E assim como as coisas estão, o patrão não o vai renovar. Como era bom que o meu Zé fosse renovado, novinho em folha, com a força e a vontade doutros tempos. Como nos divertiamos à noite, depois da praia. Jovens, vigorosos, cheios de sal na pele e com sol a sair pelos olhos. Agora o meu Zé chega à cama e faz de conta que adormece. Não há heroismo que resista... Eu sei que as insónias do Zé estão cheias de facturas por pagar, de pequeninos sonhos destroçados. Dá voltas na cama como num carrosel. Coitado do meu Zé e de nós todos que andamos à maluca a fazer gincanas impossiveis na crise. Esta maldita crise que não se percebe. Chegou assim de repente, como um intruso, deixando-nos incrédulos a olhar para estes tipos engravatados que passam na televisão com sorrisos falsamente seguros. Andam à rasca porque não sabem o que fazer para resolver o imbróglio em que nos meteram. Todos perdidos. Num dia disparam com convicção que está tudo sob controlo, no dia seguinte os jornais dizem que a coisa só pode ainda piorar. E nós com a conta a minguar, o depósito do carro sempre no fundo à espera de mais uma gota de geração espontânea, o optimismo tão barato como os produtos brancos a que nos rendemos na prateleira do supermercado. Quem me dera poder dizer ao meu Zé que o pior já passou e que daqui a pouco compramos o novo modelo do Clio para substituir o nosso querido Uno que anda a cair de podre.