sexta-feira, dezembro 30, 2011
Poema em linha reta - Álvaro de Campos
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
terça-feira, dezembro 27, 2011
domingo, dezembro 25, 2011
Ala que se faz tarde
Um dia, chegou um fiscal das Finanças, mandado seguramente por invejosos incontinentes. Os juros aumentaram e as pessoas passaram a comprar menos casas que o Manel continuava a construir como cogumelos. O dinheiro começou a ser menos caudaloso nos bancos e os gestores de conta (jovens recém-licenciados cheios de manias) começaram a fazer perguntas incómodas e a pedir garantias, à revelia da simpatia dos directores das agências. As amantes começaram a protestar porque as prendas faziam-se cada vez mais raras e fuinhas. E até os Mercedes tinham problemas de travões e suspensão. O clube da terra desceu de divisão e puseram o Manel em Tribunal por causa de uns pagamentos estranhos. O Manel começou a ver a coisa a andar para trás e a sua proverbial esperteza parecia pouca para tanta contrariedade. As amantes escreviam cartas anónimas, a mulher (coitada) chorava pelos cantos e até o leão à porta de casa apareceu com a perna de cimento partida.
Um dia recebeu uma carta para comparecer na esquadra para “tratar de assuntos do seu interesse”. O Manel sentiu cheiro a queimado e percebeu que teria pouca eloquência para convencer os investigadores de que era um cidadão exemplar, acima de qualquer suspeita, vítima de conspiração por pessoas com dor de cotovelo e de mau perder. Fez umas transferências bancárias, levantou uns milhares de euros em notas, pediu à mulher para fazer as malas, telefonou aos filhos que estavam a estudar em Lisboa para lhes dizer que nada lhes faltaria, pegou no Mercedes com menos problemas de travões e suspensão e zarpou, primeiro para Espanha e depois para Angola, onde não lhe faltariam amigos na construção civil...
O que mais chateava o Manel, nem era os gajos da polícia e dos tribunais – eram estes tipos engravatados e arrogantes da Troika a dizer que é preciso meter o país na ordem, cortar nas despesas, pôr os indigenas a pagar impostos e eliminar privilégios. Puta que os pariu! Ala que se faz tarde.
sexta-feira, dezembro 23, 2011
quarta-feira, dezembro 14, 2011
terça-feira, dezembro 13, 2011
Força BRIOSA
Vitória ontem por 2-0 em Olhão. Em 6° lugar com 16 pontos, à 12a. jornada (o campeonato tem 30 jornadas). São precisos 30 pontos para não descer... A partir daí o que vier à rede é peixe. No domingo contra o Sporting em Coimbra. Era bonito ganhar. Muito mais do que bonito: fim de ano em beleza! [Que me perdoem a melga do lado, o meu pai e o meu sobrinho. Ninguém é perfeito, n'est-ce pas?] E estamos nos quartos de final da Taça. Era bonito chegar ao Jamor. Muito mais do que bonito: reeditar 1939 (vencedor), 1951, 1967 e 1969.
Eugénio de Andrade
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
domingo, dezembro 11, 2011
quarta-feira, dezembro 07, 2011
Crédito e política
No fim de contas, a decisão da S&P de colocar em perspectiva negativa o rating de todos os países da zona euro ao mesmo tempo tem sentido e revela grande argúcia. Os comentários citados no post anterior em relação a Portugal são idênticos aos que foram produzidos por aquela agência em relação a cada um dos outros países da zona euro. Senão vejamos:
- A S&P antecipou-se às concorrentes Moody´s e Fitch.
- Coloca em evidência um problema sistémico de governação de uma zona monetária que atinge todos e cada um dos seus membros, mais do que problemas específicos de cada país. O que põe em causa é a capacidade dessa zona monetária de tomar decisões, rapidamente e correctamente, para assegurar a sua sobrevivência.
- Assegura a paridade (por enquanto) entre a Alemanha e a França.
- Acautela os interesses dos detentores de dívida dos países que foram avaliados; os ratings não servem para outra coisa: medir risco de crédito; e esse risco aumenta com as sucessivas provas de incapacidade de decisão.
- Precede de alguns dias uma cimeira onde se podem finalmente remover essas preocupações, isto é, pressiona os decisores a agir num sentido favoravel aos credores e, portanto, se assim for poderá permitir a eliminação dessa perspectiva negativa.
terça-feira, dezembro 06, 2011
Se isto não é politica...
LONDON (Standard & Poor's) Dec. 5, 2011--Standard & Poor's Ratings Services
today placed its 'BBB-/A-3' long- and short-term sovereign credit ratings on
the Republic of Portugal on CreditWatch with negative implications.
RATIONALE
The CreditWatch placement is prompted by our concerns about the potential
impact on Portugal of what we view as deepening political, financial, and
monetary problems within the eurozone. To the extent that these eurozone-wide
issues permanently constrain the availability of credit to the economy,
Portugal's economic growth outlook--and therefore the prospects for a
sustained reduction of its public debt ratio--could be affected. Further, it
is our opinion that the lack of progress the European policymakers have made
so far in controlling the spread of the financial crisis may reflect
structural weaknesses in the decision-making process within the eurozone and
European Union. This, in turn, informs our view about the ability of European
policymakers to take the proactive and resolute measures needed in times of
financial stress. We are therefore reassessing the eurozone's record of
debt-crisis management and its implications for our view on the effectiveness
of policymaking in Portugal.
domingo, dezembro 04, 2011
Jogo de poker
sexta-feira, dezembro 02, 2011
Nostalgia
Conflitos
O mundo parece demasiado pequeno dentro do rectângulo da televisão.
Desfilam imagens de conflitos em diferentes regiões, linguas, côres, credos, raças, politicas. Simplesmente porque as pessoas, os grupos sociais, as nações têm interesses divergentes, porque a contradição é inseparável da vida. Porque a razão se mistura com a emoção, por vezes, com o fanatismo. A cegueira simplifica a realidade, por natureza, complexa.
A Europa parece uma panela de pressão sem válvula de escape. Ou se abre ou explode. A Europa atingiu uma maturidade insustentável, uma estabilidade decadente. São precisos rupturas, saltos em frente. Isso pode querer dizer guerra. Mas pode (e deve) também querer dizer discussão franca, sem tabús nem reservas. Como nas famílias, nos casais, entre amigos que falam tempo demais de trivialidades para evitar silêncios pesados ou disputas esclarecedoras. Melhor assumir os conflitos, falar deles de forma aberta para purificar as relações, eliminar mal-entendidos, denunciar interesses indevidos e regular interesses legitimos. Os antagonismos talvez ainda não tenham ultrapassado o limite do diálogo e da negociação, antes de se chegar à guerra. As cedências ainda parecem possiveis sem ameaçar coisas vitais.
Apesar de tanta boa intenção, a verdade é que o nacionalismo cresce e a solidariedade suscita condescendência, senão mesmo desprezo. As identidades nacionais, culturais, linguisticas fomentam o sectarismo e a intolerância. A defesa de interesses parciais atinge o paroxismo e põe em causa a cooperação necessária para manter projectos comuns.
De forma bem cínica: as pessoas, os grupos e as nações só cooperam, só cedem nalguns interesses quando ganham ou esperam ganhar globalmente, mais cedo ou mais tarde.
Talvez não fosse má ideia avançar no sentido dum "óptimo de Pareto" o qual corresponde a uma afectação de recursos a partir da qual não existe nenhuma reafectação possível que seja preferida por um grupo e não implique a perda de bem-estar de um outro. Assim sendo, a afectação de recursos correspondente a um óptimo de Pareto é aquela a partir da qual deslocações mutuamente benéficas não são possíveis, pelo que, não é possível melhorar a situação de um grupo sem prejudicar a situação de outro.
domingo, novembro 27, 2011
O mito Merkel
O Natal e os cavalos...
sábado, novembro 26, 2011
Frases de Fernando Pessoa
As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.
A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.
Para viajar basta existir.
Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?
Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.
Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.
Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.
Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).
Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria.
Estado de excepção económica permanente
"Las recientes elecciones en España han concedido una amplia mayoría al Partido Popular, que controla, además, la práctica totalidad de las Autonomías y de los Ayuntamientos de las grandes ciudades. La legitimidad democrática que le otorgan estos resultados es más que suficiente para enfrentarse a la crisis económica, y así lo ha reconocido su propio líder, Mariano Rajoy, ya presidente electo, al declararse abiertamente en contra de la formación de un Gobierno tecnocrático. Pero el peligro en estos momentos no es solo que se imponga esa fórmula como en Grecia e Italia, sino también que los Gobiernos democráticos actúen o se vean obligados a actuar como si fueran tecnocráticos. Lo harían si olvidasen que su acción debe estar inspirada, ahora más que nunca, ahora más, mucho más que en los tiempos de prosperidad, por el objetivo de arbitrar intereses sociales diferentes y legítimos, no por un saber, por una ciencia que solo obedece a sus propias leyes y que exige esfuerzos sobrehumanos y justifica todos los sacrificios.
La política económica de cortos vuelos impuesta por la Unión Europea a los países más expuestos a la crisis del euro y la deuda soberana está obligando, en último extremo, a que los Gobiernos democráticos actúen como si fueran tecnocráticos y, en definitiva, a que en Europa se establezca, con o sin declaración expresa, un estado de excepción económica permanente. A juzgar por los resultados obtenidos hasta el momento, no parece que esa política esté conduciendo a la salida de la crisis del euro y de la deuda soberana. Más parece estar degradando las instituciones democráticas de los países más expuestos, humillando a los diversos Gobiernos nacionales salidos de las urnas y haciendo de la Unión un monstruo político que genera sufrimiento y desafección, no prosperidad y libertades. De persistir en la misma dirección, el fantasma de la tecnocracia que ha empezado a recorrer Europa podría tener efectos tan amargos, tan devastadores como los demás fantasmas que le precedieron."
sexta-feira, novembro 25, 2011
La City ya prepara la ruptura del euro
ABC
© 2011 ABC
Los bancos británicos están empezando a trazar planes de contingencia para hacer frente a la ruptura de la zona euro, o a una salida desordenada de varios de sus países miembros, según ha revelado Andrew Bailey, un jefe de área del Banco de Inglaterra. «Les estamos diciendo a los bancos que un manejo adecuado de los riesgos consiste en hacer planes para los escenarios más extremos aunque sean poco probables, lo que significa que no podemos ignorar la posibilidad de una salida desordenada de varios países de la zona euro». Según Bailey «eso no quiere decir que yo crea que eso va a suceder, sino que debe estar en los planes de emergencia». Según una encuesta realizada entre los clientes de Barclays Capital, la mitad creen que al menos un país saldrá de la moneda única durante el año 2012, el doble de los que lo pensaban hace un año.
O eixo franco-alemão
A França tem um papel central neste xadrez porque se forem a Alemanha e a França a controlar a Europa, a coisa ainda é concebível... Porém, se a fraqueza da França se acentuar, a alternativa será apenas a Alemanha a controlar a Europa, por conseguinte, a controlar também a França, e não estou a ver que isso seja imaginável e ainda menos compatível com os demónios da História recente. Portanto, o futuro do euro passa pela geo-estratégia da velha Europa, por decisões políticas cruciais, pela balança de poder entre países que há menos de 70 anos se matavam e que deixaram de o fazer no quadro da Comunidade Europeia. Se a França perder o rating (em sentido largo do termo, não necessariamente no sentido das famigeradas agências) temo o pior. A França não se pode desligar ainda mais da Alemanha em termos de poder politico e económico. O esforço patético que o pequeno Sarkozi anda a fazer para parecer importante é um acto de desespero porque sabe que não o é e que se arrisca a sê-lo cada vez menos.
Quanto aos outros países... a Inglaterra está-se nas tintas e verdadeiramente nunca participou a sério no jogo continental; os outros dividem-se em dois grupos: o dos que se colam à Alemanha e o dos que lhe obedecem para ter a sua clemência e o seu dinheiro (caso de Portugal).
domingo, novembro 20, 2011
We Need To Talk About Kevin

sábado, novembro 19, 2011
O meu Zé
quarta-feira, novembro 16, 2011
Statement by the EC, ECB, and IMF on the Second Review Mission to Portugal
"(...) the envisaged adjustment program for the troubled autonomous region of Madeira will provide an opportunity to signal that errant fiscal behaviour at the regional and local levels will no longer be tolerated."
"The authorities are putting in place the rules that will regulate the temporary use of public funds for recapitalizing banks. These rules will need to respect the interests of tax payers (...)"
"In order to improve labour cost competitiveness, wages in the private sector should follow the lead taken by the public sector in implementing sustained pay cuts."
"(...) more progress on curbing rent-seeking in sheltered sectors, particularly energy and regulated professions, is needed."
domingo, novembro 13, 2011
E Berlusconi foi-se embora – ainda bem. Será substituido por um tecnocrata – e depois? Os “mercados” – essa entidade estranhamente feita pessoa ou demónio – continuarão insaciáveis, impondo a sua vontade a políticos sem “utopia realista”, rendidos à lei da gravidade.
O orçamento de estado para 2012 foi aprovado na generalidade – não podia nem devia ser de outra maneira – é isso que nos dizem os executores da lei da gravidade, uma lei que aparentemente trata todos da mesma maneira. Mas, não é assim – há quem caia mais baixo e mais depressa, há quem não caia de todo. E a resignação e a impotência instalam-se, esperando que a crise passe ou que nos trate com a clemência possivel e que os potentes da Europa nos olhem com compaixão e que apreciem a nossa capacidade heróica de sofrer para redimir os pecados dos últimos anos, os do despesismo de quem quis deixar de ser pobre, depressa de mais e à maluca.
quarta-feira, novembro 09, 2011
Por uma desintegração inteligente da zona euro
Um primeiro anel incluiria [França, Bélgica e Eslovénia] com um euro2 desvalorizado inicialmente em [5]% relativamente ao euro e com uma margem adicional de flutuação de +/-[5]%.
Um segundo anel incluiria [Chipre, Malta, Eslováquia e Estónia] com um euro3 desvalorizado inicialmente em [10]% relativamente ao euro e com uma margem de flutuação de +/-[10]%.
Um terceiro anel incluiria Espanha e Itália com um euro4 desvalorizado inicialmente em [15]% relativamente ao euro e com uma margem de flutuação de +/-[10]%.
Finalmente, um quarto anel incluiria [Irlanda, Portugal e Grécia] com um euro5 desvalorizado inicialmente em [30]% relativamente ao euro e com uma margem de flutuação de +/-[10]%.
Um esquema deste tipo inspirar-se-ia no Sistema Monetário Europeu fundado em 1979 e que antecedeu a criação do euro, tendo atravessado períodos de diferente estabilidade e turbulência.
Para funcionar, a zona em anéis concêntricos não dispensa mecanismos de apoio monetário e/ou orçamental por parte dos membros do núcleo central e, ainda menos, um ajustamento das economias dos países dos anéis no sentido do equilíbrio das contas do Estado e das contas externas e sobretudo da convergência do crescimento económico.
A beleza da zona em anéis concêntricos consiste em recuperar um instrumento de política (a taxa de câmbio) para evitar a necessidade de fazer recair o esforço de ajustamento macroeconómico exclusivamente sobre variáveis reais num prazo muito curto, o que asfixia o crescimento. Por outro lado, o ganho de competitividade externa e a alteração dos termos de troca resultantes da desvalorização, diluiria o montante de transferências a pagar pelas economias do núcleo para manter as economias dos anéis dentro do euro no seu formato rígido actual. Essas transferências, como sabemos, podem assumir diferentes formas, desde reduções mais ou menos instantâneas de dívida até subsídios ao longo do tempo para assegurar a capacidade de serviço da dívida.
Portanto, muita gente teria a ganhar ou, pelo menos, a perder menos... E nem sequer se pode dizer que o euro acabaria ou que não se poderia um dia regressar a um único euro quando a convergência durável fosse adquirida e a governação macroeconómica da União Europeu fosse aperfeiçoada, incluindo com a introdução de federalismo fiscal e de políticas mais eficazes de promoção da convergência e da competitividade.

