segunda-feira, novembro 07, 2011

In Diário de Coimbra

Conimbriga

Escavações vão pôr a descoberto anfiteatro romano único no país


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Intervenção planeada, para 2012/13, pelo Museu Monográfico de Conímbriga vai permitir visitar o que era um espaço com capacidade para 4500 a 5000 espectadores

As escavações no anfiteatro da antiga cidade romana de Conímbriga deverão começar em 2012/2013, no âmbito de uma intervenção que vai pôr a descoberto este «edifício único no país» e «dos poucos» da Península Ibérica. Com cerca de dois mil anos, o anfiteatro é «um caso único no país em termos de estado de conservação» e a intervenção planeada pelo Museu Monográfico de Conímbriga vai permitir visitar e conhecer o que, no mundo romano, era um espaço com capacidade para 4500 a 5000 espectadores.

Governo admite estender o metro até Condeixa

Com o projecto do Metro Mondego em avaliação, secretário de Estado das Obras Públicas adianta que será realizado um estudo de mercado para verificar interesse dos privados na exploração da concessão

O projecto do Metro Mondego está suspenso e em fase de avaliação, mas o Governo mantém em aberto um conjunto de soluções, que passa inclusive pela extensão até Condeixa. «Gostávamos, no futuro, de poder pensar também na região de Condeixa, que tem um tráfico sub-urbano pendular muito grande para Coimbra e que, neste momento, não estava originalmente servida por estes projecto», revelou à estação de televisão SIC o secretário de Estado das Obras Públicas, acrescentando que o primeiro objectivo é «diminuir» o valor do investimento, incluindo os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC).

domingo, novembro 06, 2011

Acorda Itália


"A Itália não sente a crise", disse o Sr. Berlusconi depois da cimeira do G20 em Cannes. Descreveu a pressão sobre a dívida italiana como uma "moda que passa", acrescentando: "os restaurantes estão cheios, as reservas dos aviões estão completas e o mesmo acontece com os hotéis".

quarta-feira, novembro 02, 2011

Referendos e realidade

A convocatória de um referendo pelo PM da Grécia suscita-me as seguintes observações:

Ficou-lhe mal fazer tal anúncio de forma inesperada, apenas alguns dias após a cimeira em que se decidiram as linhas gerais de um novo pacote para salvar a Grécia de uma bancarrota caótica… a não ser que (a) se trate de uma estratégia pérfida para melhorar a sua posição negocial quanto aos detalhes de tal pacote que se traduzirão seguramente em (ainda mais) austeridade ou (b) ao regressar a Atenas, tivesse tido conhecimento de circunstâncias novas (fala-se da iminência de um golpe de Estado…) que exigiriam uma tal tomada de posição de emergência. Seja como for, quem ficou seguramente mal na fotografia foram os outros líderes europeus, sobretudo, os que mais se dispuseram a pagar para “salvar” o que resta da Grécia e dos bancos que lhe emprestaram tanto dinheiro de forma tão insensata. Há um problema cada vez maior de confiança e de credibilidade em relação a tudo o que vem da Grécia, buraco negro trágico e infindável.

Por outro lado, é verdade que o PM de um qualquer governo, por maior que seja o seu apoio parlamentar, chega a determinado ponto em que as decisões se revestem de tal importância para o destino colectivo e para o que resta de soberania nacional que precisa de interpelar o povo especificamente sobre tais matérias. Trata-se de uma questão de legitimidade. Trata-se de situações não cobertas pelo mandato de anteriores eleições gerais e que, portanto, justificam uma decisão popular concreta.

Se o referendo se realizar (imagino que as pressões sejam mais do que muitas para o abortar…) e se a resposta dos gregos for positiva quanto aos termos de mais este pacote, o governo terá toda a legitimidade e força para o executar (não obstante o mau desempenho até agora!), mesmo que isso signifique a prostração completa da sociedade grega... que os próprios gregos teriam avalizado... por falta de outras alternativas... Uma espécie de hara-kiri colectivo. Se a resposta for negativa, os outros Estados da UE e os financiadores internacionais (i) terão de aceitar a continuação da subsidiação da Grécia em condições mais generosas do que em princípio estavam dispostos a aceitar ou (ii) simplesmente deixam cair tudo e a Grécia passará a ser a Argentina da Europa (regresso à dracma, leilão das dívidas no Clube de Paris, desemprego em massa, corrida aos depósitos, quebra ainda maior do preço dos activos, etc.). Neste último caso, a UE deverá apenas tentar circunscrever o problema e evitar o contágio a outros países, o que se afigura extremamente difícil, principalmente por causa da fragilidade de colossos como a Itália e a Espanha. Ou seja, estar-se-ia mesmo à beira do colapso do euro e da UE. Mesmo a solução (i) abriria um precedente perigoso que poderiam reivindicar outros países em idênticas circunstâncias, pese embora a especificidade e a diferente escala dos problemas de cada um...

Em qualquer caso, o período entre o anúncio do referendo e a sua possível realização (ou o período até eleições antecipadas que, para todos os efeitos, serão equivalentes a um referendo aos pacotes de assistência à Grécia) será de extrema incerteza. Mais uma vez, se exacerbam a volatilidade e a falta de previsibilidade que matam ainda mais a confiança. Porque a complexidade dos problemas e do processo de decisão para a sua solução cria uma espiral de pessimismo e de receio que tolhem as acções de consumidores, aforradores e investidores.

terça-feira, novembro 01, 2011

Tectónica de crescimento

O que se está a passar são apenas epifenómenos. O problema essencial é outro e muito mais complicado e tem a ver com a redistribuição do poder no mundo, finalmente, com o acesso à riqueza (principalmente através da industrialização) de países até há pouco tempo fornecedores passivos de matérias-primas necessárias ao funcionamento das economias desenvolvidas. A reacção tem sido uma crescente terciarização (em que o sector financeiro tem um papel cada vez maior), a tentativa de subida dessas economias na escala do valor e a compensação da perda tendencial de emprego pelo engrandecimento dos Estados. Só que todas essas respostas, no sentido de preservar as condições de vida das populações dos países do centro, têm limites que se aproximam vertiginosamente do paroxismo. Não me parece possível estancar o inelutável processo de convergência dos rendimentos das populações dos países mais pobres e mais ricos. E isso, infelizmente, pode não querer dizer que ambos crescem, com os países mais pobres a crescer mais rapidamente, mas sim que os mais pobres crescem enquanto os mais ricos estagnam ou definham.

sábado, outubro 29, 2011

Parabéns!


Faz hoje 6 anos que o primeiro post do Fantástico Melga foi publicado. Aqui está.

Já lá vão mais de 120000 visitas a textos e imagens de maior ou menor inspiração.

A "aventura" vai continuar, sabe-se lá até quando. Obrigado aos nossos seguidores.

sexta-feira, outubro 28, 2011

Cansaço

Há momentos em que nos sentimos assim, partidos, desossados, exaustos, com vontade de não querer coisa alguma, de não pensar. Só deixar passar o cansaço no meio do apagamento dos sentidos. De preferência, num sono profundo. Não estou a falar de mim numa Sexta-feira à noite depois de uma semana do caraças, com problemas uns atrás dos outros. Isso seria já muito chato, mas nada que se compare com aquilo de que estou a falar: do estado dos cidadãos portugueses.

Há-de passar...

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O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Alvaro de Campos

segunda-feira, outubro 24, 2011

domingo, outubro 23, 2011

Metro do Mondego no Plano Estratégico de Transportes


"O projecto do Metro do Mondego nasceu nos anos 90, com uma estimativa original de
investimento de cerca de 55 milhões de euros. Porém, sucessivas alterações ao
âmbito do projecto conduziram à sua versão actual, orçada em perto de 450 milhões
de euros.

Os estudos de procura que estiveram na base das decisões relativas ao actual
projecto, apontavam para uma procura do Metro do Mondego de cerca de 65.000
passageiros por dia útil. Porém, os estudos mais completos e realizados mais
recentemente, indicam que aquele valor estará, afinal, sobrestimado.

Por outro lado, pese embora a empresa Metro do Mondego, SA ter uma estrutura
accionista constituída pelo Estado Português (53%), as Câmaras Municipais de
Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã (com um total de 42%), a REFER (2,5%) e a CP
(2,5%), o modelo de financiamento previsto para este projecto atribui a
responsabilidade pela execução das obras de construção da rede e a responsabilidade
pela aquisição do material circulante necessário aos seus accionistas minoritários,
respectivamente a REFER e a CP, através, mais uma vez, do recurso ao
endividamento bancário, agravando ainda mais as suas já criticas situações
financeiras.

Em face destas questões, e sem prejuízo da necessidade de ser assegurada a
mobilidade das populações, o Governo irá rever os pressupostos que estiveram na
base das decisões relativas a este projecto, adequando o seu âmbito às possibilidades
do país decorrentes da actual conjuntura económico-financeira, no quadro de uma
definição clara de partilhas de responsabilidades entre os accionistas da sociedade
Metro do Mondego, SA."

Aconselho a ler todo o documento aqui.

Incerteza e contrato social

Citado daqui:

"Así que la gran decepción de nuestros días ha consistido en descubrir que los promotores de esta doctrina de la incertidumbre gloriosa, los propagandistas de la ilimitada flexibilidad de nuestras vidas, de nuestras moradas, de nuestros empleos, de nuestras familias y de nuestras propiedades, tenían una agenda oculta y un as en la manga: con toda esa defensa de la inconsistencia, de la variabilidad, no buscaban en el fondo más que una sola cosa: seguridad absoluta para sus beneficios. Pero su búsqueda ha sido tan afanosa y desmedida, tan irrestricta, que ha acabado por erosionar aquello mismo que, como ya sabía Hobbes, es la fuente principal de las seguridades humanas -incluida la del retorno de las ganancias esperadas-: el contrato social que nos hacía preferible vivir políticamente vinculados a nuestros semejantes que hacerlo en estado de guerra de todos contra todos. Ahora va a resultar muy difícil convencernos de que renunciemos a nuestros apetitos, porque ellos se han puesto por encima de cualquier otro compromiso moral y civil, incluido el que los gobiernos democráticamente elegidos tenían con sus soberanos legítimos, los ciudadanos."

sábado, outubro 22, 2011

Porque será?

Porque será que os Ministros das pastas mais escaldantes (Finanças, Economia, Saúde, Educação) não são militantes dos partidos da coligação?

Porque será que os Ministros que pertencem aos partidos andam super-discretos (Defesa, Assuntos Sociais, Negócios Estrangeiros, Agricultura)?

Quem não se consegue safar de incomóda exposição mediática é o Ministro dos Ministros, o Primeiro-ministro. Também era o que faltava...

quinta-feira, outubro 20, 2011

Governos ou repartições?

A ultrapassagem do poder político democrático pelos poderes económicos é uma das maiores anomalias actuais dos países desenvolvidos. Os políticos deixaram de ter margem de manobra, sobretudo quando as coisas correm mal, face à pressão dos poderes económicos. E o maior drama é que as coisas correm mal por causa dos políticos e da sua permissividade relativamente aos poderes económicos quando as coisas parecem correr bem, gerando os germes das crises subsequentes. A legitimidade popular da política, a natural utopia dos políticos rendem-se ao pragmatismo, à força da gravidade dos interesses económicos. E contra factos não há visão que resista. Os projectos de sociedade vergam-se perante o esmagamento dos números. A política rendeu-se ao dinheiro que se comporta de forma cada vez mais organizada e global. Ou seja: a política perdeu poder. Assistimos à eutanásia da política. Que é como quem diz: os cidadãos comuns perderam o protagonismo que deveriam ter, designadamente, através dos seus representantes eleitos democráticamente. As decisões mais importantes são tomadas sob a pressão de irremediáveis urgências, são guiadas por corporações cuja única legitimidade é o dinheiro. E tudo isto desequlibra a repartição dos custos e dos benefícios. A lógica da sustentabilidade do sistema entra em clamorosa contradição com qualquer vontade de mudança ou de restabelecimento de justiça.

Dito isto, o poder político nunca é virgem em relação aos poderes económicos. A total autonomia da política em relação ao dinheiro é uma ficção. A politica representa sempre interesses, serve-se deles para executar determinados projectos. Contudo, normalmente, deverá preservar a sua proeminência, isto é, deverá manter o poder de dizer não em última instância, de impor a sua vontade em nome de determinada legitimidade (por exemplo, do povo em democracia, do nascimento em monarquia). Os franceses falam de “droits régaliens”. Ora, o que se passa nos últimos tempos é uma inversão deste modelo em que a última palavra pertence aos detentores do poder económico, em que o poder político se limita a executar técnicas (ditadas pelos grandes interesses) mais do que políticas.

A situação é ainda mais dramática no caso de pequenos países no âmbito de uma união económica e monetária. Porque, principalmente em situação de crise, perdem soberania para os grandes países que, por sua vez, a perdem para os grandes interesses económicos. Ou seja: o poder político dos pequenos países subordina-se ao poder económico desses mesmos países, ao poder político dos grandes países e, portanto, ao poder económico que também influencia estes últimos. Não se trata de governos mas de repartições... para desgraça dos respectivos cidadãos, entalados numa teia de interesses superiores, mais ou menos escondidos e impiedosos.

domingo, outubro 16, 2011

Filme mais recente de Lars von Trier

Filme intrigante (clicar no título para aceder ao site oficial). As primeiras imagens fazem lembrar "A Árvore da Vida"... À medida que a história se vai desenvolvendo percebe-se a lógica dessa sucessão inicial de imagens cósmicas, fantásticas, pausadas, sublinhadas por trechos magníficos de música clássica ("Tristão e Isolda" de Richard Wagner) que se repetem ao longo do filme.

Um thriller familiar em que, à boa maneira de Lars von Trier, se cruzam diferentes traumas, um passado cheio de zonas obscuras no meio de elegância e conforto. O bom gosto mistura-se com a tortura psicológica que se disfarça até ao limite da resistência física e da (boa) educação burguesa. A explosão desse mal-estar, porém, pode ser devastadora, insultuosa, obscena. O planeta da melancolia acaba por embater inexoravelmente, estrondosamente em vidas cheias de angústia e de uma vontade derrotada de felicidade.

sexta-feira, outubro 14, 2011

À volta do Orçamento do Estado para 2012

O Governo está desesperadamente a correr atrás de uma crise que se reproduz de forma amplificada, tentando mostrar obediência às regras impostas para continuar a aceder a financiamento externo, sem o qual o Estado entrará em colapso.

As medidas vão sempre no mesmo sentido: reduzir o défice público e transferir o máximo de recursos para o sector privado exportador, comprimindo ao máximo as importações (através da contracção do consumo e do investimento). O aumento do tempo de trabalho a salário constante e o aumento do IVA são medidas equivalentes à desvalorização cambial que não se pode fazer por causa do espartilho do euro. A ideia de redução da TSU (financiada com aumentos de IVA) ía no mesmo sentido, quer dizer: reduzir os custos unitários do trabalho para, alegadamente, melhorar a competitividade das exportações.

O problema é que a quebra da procura interna e externa provoca uma espiral recessiva acentuada por problemas de financiamento da economia. As virtuosas empresas exportadoras não conseguem crédito. E não existem outros meios de financiamento… não obstante os apelos de governantes para que as empresas recorram ao mercado de capitais.

Os bancos - ciosos de manterem o controlo das suas operações - tentam convencer o Estado a pagar o que lhes deve como alternativa a uma sua entrada no capital. Porque o problema dos bancos seria, não de falta de capital, mas de falta de liquidez. E ainda bem que os depósitos não fogem… Só as empresas do sector empresarial do Estado devem aos bancos qualquer coisa como 17000 milhões de euros. E os bancos prometem que tal dinheiro seria injectado no sector privado da economia…

O que acontece é um círculo vicioso que empurra a economia para o abismo: défice e dívida => cortes na despesa e subida de impostos => contracção da procura => contracção da oferta => menor capacidade de pagar dívidas e impostos => agravamento do défice e da dívida => mais cortes na despesa e subida dos impostos…

Até porque a eficácia marginal dessas medidas é decrescente!!!

O que há a fazer é:

- pôr em prática ao nível europeu um pacote de saneamento financeiro de emergência para evitar ruptura de liquidez em pontos nevrálgicos do sistema que possa produzir efeitos de contágio incontroláveis;
- estimular a procura, mais uma vez ao nível europeu, ou seja: fazer o oposto das medidas de austeridade em vigor.

O problema fundamental é que tudo isso supõe acelerar o federalismo o que implica, actualmente, pôr Alemães, Holandeses e quejandos a assumir despesas, perdas ou riscos doutros países. E só o farão se lhes custar mais (no imediato ou no futuro) não o fazer…

domingo, outubro 09, 2011

Sempre más notícias...

Já não vejo telejornais, já não leio jornais, já não ouço o noticiário da rádio. Fartei-me de más notícias. Decidi por algum tempo e para minha própria sanidade fazer como a avestruz. Se levamos tudo à letra e se embarcamos na euforia demolidora dos jornalistas damos em malucos. Bem sei que não se deve matar o mensageiro porque transporta más notícias, mas a gravidade dos acontecimentos também depende da ênfase que se lhes dá para conquistar audiências e vender publicidade. Há meses e meses as notícias só dão para um lado como um martelo pilão: crise, austeridade, cortes, desemprego, reestruturação, dívidas malparadas, etc, etc. De repente, virámos criminosos e agora temos de cumprir uma pena para redimir os nossos pecados. Pecados incompreensíveis, crimes não provados... pelo menos no plano individual. O país andou anos a fio a fazer de conta que era rico (a crédito e com subsídios) e a consumir como louco, alucinado, a construir auto-estradas que nem sequer existem na Alemanha, a conceber comboios e aeroportos de país de 50 milhões de habitantes e com o triplo do tamanho, com um rendimento igual ao dobro do que temos. E agora vem a ressaca que atinge justos e pecadores. Mais os primeiros do que os segundos e aí é que está o drama da injustiça social que se agrava na recessão. Como renunciar a um conforto material que tantos achavam estável e adquirido? Como gerir as expectativas negativas para os próprios filhos? Como continuar de cabeça levantada a fazer sacrifícios sem perspectiva de recuperação?

quarta-feira, outubro 05, 2011

domingo, outubro 02, 2011

Teias de poder

O poder económico e financeiro em Portugal está concentrado num círculo com um raio de 30 km a partir de um centro situado algures entre Lisboa e Cascais. Se a essa precisão geográfica acrescentarmos algumas árvores genealógicas e apelidos de famílias notáveis (que incluem, por exemplo, certa burguesia nortenha) temos a nata do poder em Portugal. Poder que se alimenta de mordomias, ramificações e obediências nos mais variados sectores da sociedade. Há os protagonistas antigos do poder, de famílias clássicas, com pergaminhos, que não precisam de explicar as suas prerrogativas porque vêm essencialmente do nascimento, e há os outros, os "novos-ricos" da democracia, com uma ou duas gerações de sucesso. Nem sempre a convivência entre essas duas categorias é pacífica, os primeiros tendem a tolerar os segundos e estes tendem a bajular os primeiros de forma mais ou menos invejosa ou hipócrita. Seja como for, descodificar as teias de poder é extremamente difícil porque o poder se disfarça ou esconde, porque está associado a situações e métodos inconfessáveis. Esse poder não vai a votos - o seu único controlo é o de uma lei demasiadas vezes tímida, ineficaz ou subserviente. Tudo isto não é uma anomalia portuguesa. Uma história idêntica pode ser contada sobre outras sociedades de idêntico nível de desenvolvimento e que conheceram "recentemente" processos de transição da pobreza ao crescimento, da ditadura à democracia.

sábado, outubro 01, 2011

http://www.vimeo.com/29656943


Posso parecer piegas, nostálgico, paroquial... o que quiserem, mas este vídeo emocionou-me. Emoções fortes ligadas a coisas tão importantes como as raízes, a identidade e a pertença. Não quer dizer que não se possa crescer noutros sítios, abraçar outras paisagens, voar noutros céus em busca de uma perfeição discutível ou impossível. Mas, tudo isso, sem perder referências originais que seguram a nossa construção, que nos dão consistência e porto de abrigo, onde sabe bem voltar, pelo menos, de vez em quando. Senão, ninguém é tanto ao ponto de pertencer a tudo ao mesmo tempo e da mesma maneira. Só mesmo os grandes poetas ou filósofos têm a alma tão grande que precisam do mundo inteiro, e de nenhum sítio em particular, para realizar a missão das suas vidas, para ser felizes à maneira deles...

quinta-feira, setembro 22, 2011

Enésima crónica de crise

As más notícias não param. Já chateia. Até os mais optimistas sucumbem.

A sensação é de arder em lume brando até à incineração inevitável. Ou de resvalar por um plano inclinado, caindo irreversivelmente num grande buraco. E tudo isto sem que se tomem decisões para evitar o fogo final ou a queda letal. Quem tem poder adia o esclarecimento dos interesses. Talvez, mais uma vez, uma não-decisão seja a decisão favoravel aos que têm verdadeiramente mais poder e, portanto, mais a perder ou mais a ganhar.

A sensação, num pequeno país como Portugal, è de impotência. Por mais que se cumpra pode não ser suficiente. Por maior que seja o rigor no respeito dos compromissos internacionais podemos ser esmagados por factores externos incontroláveis e devastadores. Restar-nos-à a clemência de quem decidirá sobre o nosso destino, dado o reconhecimento da nossa obediência e prurido na auto-flagelação.

O que é preciso evitar é a lei da carneirada, o pânico que conduz a comportamentos irracionais que produzem "self-fulfilling profecies". Se toda a gente levantar o dinheiro dos bancos ao mesmo tempo para o colocar debaixo do colchâo ou em supostos paraísos, os bancos colapsam (por mais sólidos que sejam intrinsecamente, porque o sistema bancário mais robusto depende de confiança) e a economia paralisa...

segunda-feira, setembro 12, 2011

An impeccable disaster


http://www.nytimes.com/2011/09/12/opinion/an-impeccable-disaster.html?_r=1&hp

domingo, setembro 11, 2011

11/9


Falta-me conhecimento e inspiração para escrever algo de útil e original sobre o 11 de Setembro de há 10 anos. As análises políticas, religiosas, militares, económicas, sociológicas, psicológicas, etc. sucedem-se a um ritmo vertiginoso, com mais ou menos presunção de lucidez, e podem ler-se em tudo o que é jornal e revista destes dias. Quero apenas dizer que a primeira vez que ouvi falar do que se estava a passar nesse dia nos Estados Unidos foi através da “melga do lado”, por telefone, estava eu em Roma. “Vê o que se está a passar na televisão”, disse-me ela com voz atónita, como se as suas palavras não conseguissem explicar o que até as imagens tornavam inacreditável. Quando olhei para aquilo julguei tratar-se de uma montagem para um de tantos filmes repletos de efeitos especiais que contam os ataques de bárbaros e extra-terrestres contra a “Holly America”. Aquilo era demasiado aterrador para poder ser outra coisa para além de ficção. A fronteira entre a realidade e o pesadelo tinha sido definitivamente ultrapassada. Nesses casos a incredulidade é uma defesa natural. Mesmo muitas pessoas directamente expostas à tragédia ficaram dias, semanas, meses a fio a negar ou a recriar o que tinham vivido. Ainda hoje há gente que adere a teorias conspirativas ou à fantasia mais demente, dizendo, por exemplo, que nenhum avião se despenhou contra os edifícios do Pentágono. Há mesmo vários livros sobre o tema... com tiragens respeitáveis. Quando a realidade se desvia de forma brutal ou inverosímil de uma certa normalidade (mais ou menos tranquilizadora) as pessoas escondem-se como avestruzes até se renderem finalmente à evidência do distúrbio das suas “zonas de conforto”. O próprio Bush, então Presidente, estava na Flórida numa escola primária e tardou a convencer-se de que se tratava mais do que um crash de uma avioneta. Finalmente reagiu e activou os adormecidos ou aturdidos sistemas de defesa dos Estados Unidos. Tarde demais e para nada... O que não o impediu logo a seguir de reagir de maneira altamente discutível, desencadeando guerras que mais não foram do que dispendiosos actos de desespero do declíneo americano.

quarta-feira, setembro 07, 2011

quando a inspiração escasseia vem a raiva de dizer, de exprimir pensamentos-sombra, de preencher vazios que não se podem explicar,
vêm os impasses da vontade e da expressão,
juntam-se fragmentos de impulsos e não aparece conjunto com sentido, apenas oscilações ténues de humor sem consequências
na televisão uma reportagem sobre um 11 de setembro iminente para criar audiências que vendem detergentes para lavar almas desesperadas, desfile de imagens e afirmações para exibir lucidez, música para embalar curiosidades ávidas e dispersas, para encantar emoções generosas
e tudo faz pouco sentido na nebulosa de uma noite de transição entre o verão e o outono, sabendo-se quem ganhará não tarda nada

domingo, setembro 04, 2011

Nuovo Cinema Paradiso

O jogo da vida que não é jogo do Monopólio

O dinheiro simplifica tudo. Grande novidade!... Mas agora quero falar do dinheiro como unidade de medida das pessoas, não apenas do valor das coisas. Avaliar alguém com base na sua sensibilidade, inteligência, criatividade, sentimentos, honestidade, etc. é muito complicado, subjectivo, implica tempo, certezas e incertezas, erro. Por sua vez, o dinheiro que se tem é um critério único e simples, quantitativo. Se se tem mais do que outra pessoa quer dizer que se teve as qualidades (e defeitos) para obter essa tangível superioridade: astúcia, inteligência, escrúpulos (ou falta deles) para acumular dinheiro, para o disputar aos outros. De acordo com os compêndios de Economia o dinheiro desempenha essencialmente três funções: unidade de medida, meio de troca e instrumento de acumulação. Acrescento outra: simplificador da complexidade humana. Assim funciona o materialismo a que o mundo se submeteu. Mesmo pessoas que se distinguem pela sua cultura, generosidade, espírito artístico e criatividade, pessoas que realizam obras únicas e magníficas, aparentemente longínquas da lógica do dinheiro, parecem estranhas, pouco credíveis se as suas actividades não se traduzirem em mais dinheiro. Porque o dinheiro deve medir a raridade do que se faz, o interesse que desperta nos outros, a utilidade. E no fim de contas, não se percebe se se fazem essas coisas magníficas pelo que intrinsicamente têm de magnífico ou se se fazem pelo dinheiro que permitem obter. O instrumento de medida torna-se muitas vezes o objectivo em si mesmo. História de Bezerros de Ouro a que já a Biblia se referia... História de alienação, de subordinação a uma lógica que o capitalismo impôs a quase todas as sociedades, a um fétiche que reduz a variedade e as subtilezas do mundo a uma referência única, infantilmente intelígivel. A vida como um jogo do Monopólio é pouco de mais. E no entanto é disso que a ideologia dominante tenta convencer todos os dias tantos milhões de pessoas em todo o lado. E as pessoas acreditam nessa história da “criação de valor” e mobilizam todas as suas energias para serem bem sucedidas nesse jogo para crianças e adultos que nunca cresceram e que continuam a confundir um jogo com a realidade e com escolhas fundamentais das suas vidas.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Para ser grande, sê inteiro

Ser autêntico é um privilégio dos fortes. Não tentar ser um outro para funcionar na lógica útil dos outros quer dizer respeitar-se, ousar desiludir, prescindir das mordomias oferecidas de bandeja pelo sistema. É preciso ter a certeza do que se é, das próprias convicções e valores para mandar as expectativas dos outros, decisores, à merda. Sobretudo, é preciso não vender a alma em contrapartida de benefícios espúrios ou ilusórios. Ser fiel apenas a si próprio. Quando se tenta ser um outro eficaz, perde-se o que, de autêntico, se é sem ganhar o que se pretenderia ser. Noutras palavras: nesse caso, um tipo perde-se. Melhor renunciar às loas, à pequena vaidade e permanecer íntegro e inteiro e coerente e gostar do que aparece todas as manhãs ao espelho. Dito isto: o maior sucesso é o que consiste em ser reconhecido sem hipotecar as próprias virtudes e sem disfarçar os próprios defeitos.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

domingo, agosto 28, 2011

sexta-feira, agosto 19, 2011

Eurobonds

Os eurobonds seriam títulos de dívida emitidos por qualquer país da UE contando com a garantia de todos os membros da mesma UE. Não é claro se essa garantia seria apenas pro-rata ou conjunta e solidária. No caso do emitente não conseguir pagar a dívida representada pelos ditos títulos, os credores seriam reembolsados pelos outros países no âmbito da garantia. Para os países com menor rating, tais empréstimos teriam condições (e.g. taxas de juro) mais favoráveis, dado que o risco seria, em última instância, o da execução da garantia. O rating do empréstimo com a garantia seria superior ao rating do mesmo empréstimo sem a garantia, quer dizer, baseado apenas nos méritos do devedor. Compreende-se a reticência de alemães ou holandeses em relação a eurobonds por eles garantidos, a emitir por países com elevado risco de incumprimento. Seria a mutualização de riscos decorrentes de um processo de divergência entre as economias da UE de que os países mais ricos e virtuosos (com ou sem razão) não se consideram responsáveis. Mas, sem dúvida, os eurobonds seriam um instrumento de solidariedade entre países/contribuintes com diferentes trajectórias de crescimento e de equilibrio orçamental no seio de uma União Monetária. O problema é que alguns países/contribuintes - os "mais ricos e virtuosos" - acham essa solidariedade injustificada, injusta ou insustentável. E acrescentam que talvez concordem com os eurobonds quando as economias de todos os potenciais emitentes forem metidas na ordem (quando todas forem "ricas e virtuosas"), isto é: quando a probabilidade de recurso à garantia for praticamente nula, que é o mesmo que dizer: quando a garantia for desnecessária. Mas, talvez não possam continuar a negar outra tese: a de que seja a própria União Monetária "injustificada, injusta ou insustentável"...