domingo, outubro 23, 2011

Incerteza e contrato social

Citado daqui:

"Así que la gran decepción de nuestros días ha consistido en descubrir que los promotores de esta doctrina de la incertidumbre gloriosa, los propagandistas de la ilimitada flexibilidad de nuestras vidas, de nuestras moradas, de nuestros empleos, de nuestras familias y de nuestras propiedades, tenían una agenda oculta y un as en la manga: con toda esa defensa de la inconsistencia, de la variabilidad, no buscaban en el fondo más que una sola cosa: seguridad absoluta para sus beneficios. Pero su búsqueda ha sido tan afanosa y desmedida, tan irrestricta, que ha acabado por erosionar aquello mismo que, como ya sabía Hobbes, es la fuente principal de las seguridades humanas -incluida la del retorno de las ganancias esperadas-: el contrato social que nos hacía preferible vivir políticamente vinculados a nuestros semejantes que hacerlo en estado de guerra de todos contra todos. Ahora va a resultar muy difícil convencernos de que renunciemos a nuestros apetitos, porque ellos se han puesto por encima de cualquier otro compromiso moral y civil, incluido el que los gobiernos democráticamente elegidos tenían con sus soberanos legítimos, los ciudadanos."

sábado, outubro 22, 2011

Porque será?

Porque será que os Ministros das pastas mais escaldantes (Finanças, Economia, Saúde, Educação) não são militantes dos partidos da coligação?

Porque será que os Ministros que pertencem aos partidos andam super-discretos (Defesa, Assuntos Sociais, Negócios Estrangeiros, Agricultura)?

Quem não se consegue safar de incomóda exposição mediática é o Ministro dos Ministros, o Primeiro-ministro. Também era o que faltava...

quinta-feira, outubro 20, 2011

Governos ou repartições?

A ultrapassagem do poder político democrático pelos poderes económicos é uma das maiores anomalias actuais dos países desenvolvidos. Os políticos deixaram de ter margem de manobra, sobretudo quando as coisas correm mal, face à pressão dos poderes económicos. E o maior drama é que as coisas correm mal por causa dos políticos e da sua permissividade relativamente aos poderes económicos quando as coisas parecem correr bem, gerando os germes das crises subsequentes. A legitimidade popular da política, a natural utopia dos políticos rendem-se ao pragmatismo, à força da gravidade dos interesses económicos. E contra factos não há visão que resista. Os projectos de sociedade vergam-se perante o esmagamento dos números. A política rendeu-se ao dinheiro que se comporta de forma cada vez mais organizada e global. Ou seja: a política perdeu poder. Assistimos à eutanásia da política. Que é como quem diz: os cidadãos comuns perderam o protagonismo que deveriam ter, designadamente, através dos seus representantes eleitos democráticamente. As decisões mais importantes são tomadas sob a pressão de irremediáveis urgências, são guiadas por corporações cuja única legitimidade é o dinheiro. E tudo isto desequlibra a repartição dos custos e dos benefícios. A lógica da sustentabilidade do sistema entra em clamorosa contradição com qualquer vontade de mudança ou de restabelecimento de justiça.

Dito isto, o poder político nunca é virgem em relação aos poderes económicos. A total autonomia da política em relação ao dinheiro é uma ficção. A politica representa sempre interesses, serve-se deles para executar determinados projectos. Contudo, normalmente, deverá preservar a sua proeminência, isto é, deverá manter o poder de dizer não em última instância, de impor a sua vontade em nome de determinada legitimidade (por exemplo, do povo em democracia, do nascimento em monarquia). Os franceses falam de “droits régaliens”. Ora, o que se passa nos últimos tempos é uma inversão deste modelo em que a última palavra pertence aos detentores do poder económico, em que o poder político se limita a executar técnicas (ditadas pelos grandes interesses) mais do que políticas.

A situação é ainda mais dramática no caso de pequenos países no âmbito de uma união económica e monetária. Porque, principalmente em situação de crise, perdem soberania para os grandes países que, por sua vez, a perdem para os grandes interesses económicos. Ou seja: o poder político dos pequenos países subordina-se ao poder económico desses mesmos países, ao poder político dos grandes países e, portanto, ao poder económico que também influencia estes últimos. Não se trata de governos mas de repartições... para desgraça dos respectivos cidadãos, entalados numa teia de interesses superiores, mais ou menos escondidos e impiedosos.

domingo, outubro 16, 2011

Filme mais recente de Lars von Trier

Filme intrigante (clicar no título para aceder ao site oficial). As primeiras imagens fazem lembrar "A Árvore da Vida"... À medida que a história se vai desenvolvendo percebe-se a lógica dessa sucessão inicial de imagens cósmicas, fantásticas, pausadas, sublinhadas por trechos magníficos de música clássica ("Tristão e Isolda" de Richard Wagner) que se repetem ao longo do filme.

Um thriller familiar em que, à boa maneira de Lars von Trier, se cruzam diferentes traumas, um passado cheio de zonas obscuras no meio de elegância e conforto. O bom gosto mistura-se com a tortura psicológica que se disfarça até ao limite da resistência física e da (boa) educação burguesa. A explosão desse mal-estar, porém, pode ser devastadora, insultuosa, obscena. O planeta da melancolia acaba por embater inexoravelmente, estrondosamente em vidas cheias de angústia e de uma vontade derrotada de felicidade.

sexta-feira, outubro 14, 2011

À volta do Orçamento do Estado para 2012

O Governo está desesperadamente a correr atrás de uma crise que se reproduz de forma amplificada, tentando mostrar obediência às regras impostas para continuar a aceder a financiamento externo, sem o qual o Estado entrará em colapso.

As medidas vão sempre no mesmo sentido: reduzir o défice público e transferir o máximo de recursos para o sector privado exportador, comprimindo ao máximo as importações (através da contracção do consumo e do investimento). O aumento do tempo de trabalho a salário constante e o aumento do IVA são medidas equivalentes à desvalorização cambial que não se pode fazer por causa do espartilho do euro. A ideia de redução da TSU (financiada com aumentos de IVA) ía no mesmo sentido, quer dizer: reduzir os custos unitários do trabalho para, alegadamente, melhorar a competitividade das exportações.

O problema é que a quebra da procura interna e externa provoca uma espiral recessiva acentuada por problemas de financiamento da economia. As virtuosas empresas exportadoras não conseguem crédito. E não existem outros meios de financiamento… não obstante os apelos de governantes para que as empresas recorram ao mercado de capitais.

Os bancos - ciosos de manterem o controlo das suas operações - tentam convencer o Estado a pagar o que lhes deve como alternativa a uma sua entrada no capital. Porque o problema dos bancos seria, não de falta de capital, mas de falta de liquidez. E ainda bem que os depósitos não fogem… Só as empresas do sector empresarial do Estado devem aos bancos qualquer coisa como 17000 milhões de euros. E os bancos prometem que tal dinheiro seria injectado no sector privado da economia…

O que acontece é um círculo vicioso que empurra a economia para o abismo: défice e dívida => cortes na despesa e subida de impostos => contracção da procura => contracção da oferta => menor capacidade de pagar dívidas e impostos => agravamento do défice e da dívida => mais cortes na despesa e subida dos impostos…

Até porque a eficácia marginal dessas medidas é decrescente!!!

O que há a fazer é:

- pôr em prática ao nível europeu um pacote de saneamento financeiro de emergência para evitar ruptura de liquidez em pontos nevrálgicos do sistema que possa produzir efeitos de contágio incontroláveis;
- estimular a procura, mais uma vez ao nível europeu, ou seja: fazer o oposto das medidas de austeridade em vigor.

O problema fundamental é que tudo isso supõe acelerar o federalismo o que implica, actualmente, pôr Alemães, Holandeses e quejandos a assumir despesas, perdas ou riscos doutros países. E só o farão se lhes custar mais (no imediato ou no futuro) não o fazer…

domingo, outubro 09, 2011

Sempre más notícias...

Já não vejo telejornais, já não leio jornais, já não ouço o noticiário da rádio. Fartei-me de más notícias. Decidi por algum tempo e para minha própria sanidade fazer como a avestruz. Se levamos tudo à letra e se embarcamos na euforia demolidora dos jornalistas damos em malucos. Bem sei que não se deve matar o mensageiro porque transporta más notícias, mas a gravidade dos acontecimentos também depende da ênfase que se lhes dá para conquistar audiências e vender publicidade. Há meses e meses as notícias só dão para um lado como um martelo pilão: crise, austeridade, cortes, desemprego, reestruturação, dívidas malparadas, etc, etc. De repente, virámos criminosos e agora temos de cumprir uma pena para redimir os nossos pecados. Pecados incompreensíveis, crimes não provados... pelo menos no plano individual. O país andou anos a fio a fazer de conta que era rico (a crédito e com subsídios) e a consumir como louco, alucinado, a construir auto-estradas que nem sequer existem na Alemanha, a conceber comboios e aeroportos de país de 50 milhões de habitantes e com o triplo do tamanho, com um rendimento igual ao dobro do que temos. E agora vem a ressaca que atinge justos e pecadores. Mais os primeiros do que os segundos e aí é que está o drama da injustiça social que se agrava na recessão. Como renunciar a um conforto material que tantos achavam estável e adquirido? Como gerir as expectativas negativas para os próprios filhos? Como continuar de cabeça levantada a fazer sacrifícios sem perspectiva de recuperação?

quarta-feira, outubro 05, 2011

domingo, outubro 02, 2011

Teias de poder

O poder económico e financeiro em Portugal está concentrado num círculo com um raio de 30 km a partir de um centro situado algures entre Lisboa e Cascais. Se a essa precisão geográfica acrescentarmos algumas árvores genealógicas e apelidos de famílias notáveis (que incluem, por exemplo, certa burguesia nortenha) temos a nata do poder em Portugal. Poder que se alimenta de mordomias, ramificações e obediências nos mais variados sectores da sociedade. Há os protagonistas antigos do poder, de famílias clássicas, com pergaminhos, que não precisam de explicar as suas prerrogativas porque vêm essencialmente do nascimento, e há os outros, os "novos-ricos" da democracia, com uma ou duas gerações de sucesso. Nem sempre a convivência entre essas duas categorias é pacífica, os primeiros tendem a tolerar os segundos e estes tendem a bajular os primeiros de forma mais ou menos invejosa ou hipócrita. Seja como for, descodificar as teias de poder é extremamente difícil porque o poder se disfarça ou esconde, porque está associado a situações e métodos inconfessáveis. Esse poder não vai a votos - o seu único controlo é o de uma lei demasiadas vezes tímida, ineficaz ou subserviente. Tudo isto não é uma anomalia portuguesa. Uma história idêntica pode ser contada sobre outras sociedades de idêntico nível de desenvolvimento e que conheceram "recentemente" processos de transição da pobreza ao crescimento, da ditadura à democracia.

sábado, outubro 01, 2011

http://www.vimeo.com/29656943


Posso parecer piegas, nostálgico, paroquial... o que quiserem, mas este vídeo emocionou-me. Emoções fortes ligadas a coisas tão importantes como as raízes, a identidade e a pertença. Não quer dizer que não se possa crescer noutros sítios, abraçar outras paisagens, voar noutros céus em busca de uma perfeição discutível ou impossível. Mas, tudo isso, sem perder referências originais que seguram a nossa construção, que nos dão consistência e porto de abrigo, onde sabe bem voltar, pelo menos, de vez em quando. Senão, ninguém é tanto ao ponto de pertencer a tudo ao mesmo tempo e da mesma maneira. Só mesmo os grandes poetas ou filósofos têm a alma tão grande que precisam do mundo inteiro, e de nenhum sítio em particular, para realizar a missão das suas vidas, para ser felizes à maneira deles...

quinta-feira, setembro 22, 2011

Enésima crónica de crise

As más notícias não param. Já chateia. Até os mais optimistas sucumbem.

A sensação é de arder em lume brando até à incineração inevitável. Ou de resvalar por um plano inclinado, caindo irreversivelmente num grande buraco. E tudo isto sem que se tomem decisões para evitar o fogo final ou a queda letal. Quem tem poder adia o esclarecimento dos interesses. Talvez, mais uma vez, uma não-decisão seja a decisão favoravel aos que têm verdadeiramente mais poder e, portanto, mais a perder ou mais a ganhar.

A sensação, num pequeno país como Portugal, è de impotência. Por mais que se cumpra pode não ser suficiente. Por maior que seja o rigor no respeito dos compromissos internacionais podemos ser esmagados por factores externos incontroláveis e devastadores. Restar-nos-à a clemência de quem decidirá sobre o nosso destino, dado o reconhecimento da nossa obediência e prurido na auto-flagelação.

O que é preciso evitar é a lei da carneirada, o pânico que conduz a comportamentos irracionais que produzem "self-fulfilling profecies". Se toda a gente levantar o dinheiro dos bancos ao mesmo tempo para o colocar debaixo do colchâo ou em supostos paraísos, os bancos colapsam (por mais sólidos que sejam intrinsecamente, porque o sistema bancário mais robusto depende de confiança) e a economia paralisa...

segunda-feira, setembro 12, 2011

An impeccable disaster


http://www.nytimes.com/2011/09/12/opinion/an-impeccable-disaster.html?_r=1&hp

domingo, setembro 11, 2011

11/9


Falta-me conhecimento e inspiração para escrever algo de útil e original sobre o 11 de Setembro de há 10 anos. As análises políticas, religiosas, militares, económicas, sociológicas, psicológicas, etc. sucedem-se a um ritmo vertiginoso, com mais ou menos presunção de lucidez, e podem ler-se em tudo o que é jornal e revista destes dias. Quero apenas dizer que a primeira vez que ouvi falar do que se estava a passar nesse dia nos Estados Unidos foi através da “melga do lado”, por telefone, estava eu em Roma. “Vê o que se está a passar na televisão”, disse-me ela com voz atónita, como se as suas palavras não conseguissem explicar o que até as imagens tornavam inacreditável. Quando olhei para aquilo julguei tratar-se de uma montagem para um de tantos filmes repletos de efeitos especiais que contam os ataques de bárbaros e extra-terrestres contra a “Holly America”. Aquilo era demasiado aterrador para poder ser outra coisa para além de ficção. A fronteira entre a realidade e o pesadelo tinha sido definitivamente ultrapassada. Nesses casos a incredulidade é uma defesa natural. Mesmo muitas pessoas directamente expostas à tragédia ficaram dias, semanas, meses a fio a negar ou a recriar o que tinham vivido. Ainda hoje há gente que adere a teorias conspirativas ou à fantasia mais demente, dizendo, por exemplo, que nenhum avião se despenhou contra os edifícios do Pentágono. Há mesmo vários livros sobre o tema... com tiragens respeitáveis. Quando a realidade se desvia de forma brutal ou inverosímil de uma certa normalidade (mais ou menos tranquilizadora) as pessoas escondem-se como avestruzes até se renderem finalmente à evidência do distúrbio das suas “zonas de conforto”. O próprio Bush, então Presidente, estava na Flórida numa escola primária e tardou a convencer-se de que se tratava mais do que um crash de uma avioneta. Finalmente reagiu e activou os adormecidos ou aturdidos sistemas de defesa dos Estados Unidos. Tarde demais e para nada... O que não o impediu logo a seguir de reagir de maneira altamente discutível, desencadeando guerras que mais não foram do que dispendiosos actos de desespero do declíneo americano.

quarta-feira, setembro 07, 2011

quando a inspiração escasseia vem a raiva de dizer, de exprimir pensamentos-sombra, de preencher vazios que não se podem explicar,
vêm os impasses da vontade e da expressão,
juntam-se fragmentos de impulsos e não aparece conjunto com sentido, apenas oscilações ténues de humor sem consequências
na televisão uma reportagem sobre um 11 de setembro iminente para criar audiências que vendem detergentes para lavar almas desesperadas, desfile de imagens e afirmações para exibir lucidez, música para embalar curiosidades ávidas e dispersas, para encantar emoções generosas
e tudo faz pouco sentido na nebulosa de uma noite de transição entre o verão e o outono, sabendo-se quem ganhará não tarda nada

domingo, setembro 04, 2011

Nuovo Cinema Paradiso

O jogo da vida que não é jogo do Monopólio

O dinheiro simplifica tudo. Grande novidade!... Mas agora quero falar do dinheiro como unidade de medida das pessoas, não apenas do valor das coisas. Avaliar alguém com base na sua sensibilidade, inteligência, criatividade, sentimentos, honestidade, etc. é muito complicado, subjectivo, implica tempo, certezas e incertezas, erro. Por sua vez, o dinheiro que se tem é um critério único e simples, quantitativo. Se se tem mais do que outra pessoa quer dizer que se teve as qualidades (e defeitos) para obter essa tangível superioridade: astúcia, inteligência, escrúpulos (ou falta deles) para acumular dinheiro, para o disputar aos outros. De acordo com os compêndios de Economia o dinheiro desempenha essencialmente três funções: unidade de medida, meio de troca e instrumento de acumulação. Acrescento outra: simplificador da complexidade humana. Assim funciona o materialismo a que o mundo se submeteu. Mesmo pessoas que se distinguem pela sua cultura, generosidade, espírito artístico e criatividade, pessoas que realizam obras únicas e magníficas, aparentemente longínquas da lógica do dinheiro, parecem estranhas, pouco credíveis se as suas actividades não se traduzirem em mais dinheiro. Porque o dinheiro deve medir a raridade do que se faz, o interesse que desperta nos outros, a utilidade. E no fim de contas, não se percebe se se fazem essas coisas magníficas pelo que intrinsicamente têm de magnífico ou se se fazem pelo dinheiro que permitem obter. O instrumento de medida torna-se muitas vezes o objectivo em si mesmo. História de Bezerros de Ouro a que já a Biblia se referia... História de alienação, de subordinação a uma lógica que o capitalismo impôs a quase todas as sociedades, a um fétiche que reduz a variedade e as subtilezas do mundo a uma referência única, infantilmente intelígivel. A vida como um jogo do Monopólio é pouco de mais. E no entanto é disso que a ideologia dominante tenta convencer todos os dias tantos milhões de pessoas em todo o lado. E as pessoas acreditam nessa história da “criação de valor” e mobilizam todas as suas energias para serem bem sucedidas nesse jogo para crianças e adultos que nunca cresceram e que continuam a confundir um jogo com a realidade e com escolhas fundamentais das suas vidas.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Para ser grande, sê inteiro

Ser autêntico é um privilégio dos fortes. Não tentar ser um outro para funcionar na lógica útil dos outros quer dizer respeitar-se, ousar desiludir, prescindir das mordomias oferecidas de bandeja pelo sistema. É preciso ter a certeza do que se é, das próprias convicções e valores para mandar as expectativas dos outros, decisores, à merda. Sobretudo, é preciso não vender a alma em contrapartida de benefícios espúrios ou ilusórios. Ser fiel apenas a si próprio. Quando se tenta ser um outro eficaz, perde-se o que, de autêntico, se é sem ganhar o que se pretenderia ser. Noutras palavras: nesse caso, um tipo perde-se. Melhor renunciar às loas, à pequena vaidade e permanecer íntegro e inteiro e coerente e gostar do que aparece todas as manhãs ao espelho. Dito isto: o maior sucesso é o que consiste em ser reconhecido sem hipotecar as próprias virtudes e sem disfarçar os próprios defeitos.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

domingo, agosto 28, 2011

sexta-feira, agosto 19, 2011

Eurobonds

Os eurobonds seriam títulos de dívida emitidos por qualquer país da UE contando com a garantia de todos os membros da mesma UE. Não é claro se essa garantia seria apenas pro-rata ou conjunta e solidária. No caso do emitente não conseguir pagar a dívida representada pelos ditos títulos, os credores seriam reembolsados pelos outros países no âmbito da garantia. Para os países com menor rating, tais empréstimos teriam condições (e.g. taxas de juro) mais favoráveis, dado que o risco seria, em última instância, o da execução da garantia. O rating do empréstimo com a garantia seria superior ao rating do mesmo empréstimo sem a garantia, quer dizer, baseado apenas nos méritos do devedor. Compreende-se a reticência de alemães ou holandeses em relação a eurobonds por eles garantidos, a emitir por países com elevado risco de incumprimento. Seria a mutualização de riscos decorrentes de um processo de divergência entre as economias da UE de que os países mais ricos e virtuosos (com ou sem razão) não se consideram responsáveis. Mas, sem dúvida, os eurobonds seriam um instrumento de solidariedade entre países/contribuintes com diferentes trajectórias de crescimento e de equilibrio orçamental no seio de uma União Monetária. O problema é que alguns países/contribuintes - os "mais ricos e virtuosos" - acham essa solidariedade injustificada, injusta ou insustentável. E acrescentam que talvez concordem com os eurobonds quando as economias de todos os potenciais emitentes forem metidas na ordem (quando todas forem "ricas e virtuosas"), isto é: quando a probabilidade de recurso à garantia for praticamente nula, que é o mesmo que dizer: quando a garantia for desnecessária. Mas, talvez não possam continuar a negar outra tese: a de que seja a própria União Monetária "injustificada, injusta ou insustentável"...

quarta-feira, agosto 17, 2011

Agosto

Agosto estranho. De neblina, chuvas inesperadas, doenças, crises, notícias cansadas, ruas vazias, pessoas sozinhas deambulando pela cidade nua à procura de ar, trânsito de fluidez que chateia, pouca gente em esplanadas suspeitas, dançando tango com copos de cerveja morna, matando o tempo. Amanhece cinzento, o dia evolui estrebuchando no cinzento até acabar com um vestígio de sol, como se fosse um pingo. Este Agosto inerte até regressarem oceanos de gente resignada. Daqui a pouco misturam-se cãezinhos de companhia com pessoas de companhia, metem-se óculos de sol para observar as nuvens, perdem-se passos em multidões com medo de não estarem super-ocupadas e nervosas e ambiciosas. E a solidão dilui-se de novo.

domingo, agosto 14, 2011

Economia inteira

Não há crise que resista à vontade das pessoas de manter o seu estilo de vida, as pequenas ou grandes coisas de que se faz o seu bem-estar, real ou aparente. Não há nada pior do que ver a vida a andar para trás, dar aos filhos menos do que se recebeu dos pais, regredir (ou ter a impressão de regredir) na escala social, sobretudo aos olhos de familiares, amigos, vizinhos, conhecidos e que tais. Perder conforto e privilégios, não ter recursos para manter casas, carros, férias, escolas, vestuário, hobbies, para pagar as dívidas. Não ter dinheiro para ser, parecer, fazer ou fazer de conta… Essa terrível descida aos infernos é sempre mal vivida e tem um impacto muito mais do que económico: joga com as percepções de sucesso e de fracasso, melindra a auto-estima e a serenidade, prejudica a imagem que se faz de si próprio (também baseada na imagem que se julga que os outros fazem), desestabiliza sentimentos e convicções, arruína expectativas, agrava conflitos, produz angústia, medo e insegurança.

Tudo isto vem a propósito de dois fenómenos que se estão a desenvolver e que vão ainda piorar antes de se assistir a alguma melhoria: desemprego e despromoção da classe média.

O desemprego é a maior praga das sociedades contemporâneas, não só porque representa um vergonhoso desperdício de recursos, mas também porque violenta as pessoas que dele sofrem e suas famílias também (sobretudo) no plano psicológico. E nem todos nasceram para ser empresários dinâmicos e para aproveitar as fantásticas oportunidades que podem aparecer no meio das adversidades. São os livros de management e de auto-ajuda que estão cheios de histórias de sucesso que dificilmente se encontram na realidade. Infelizmente, os manuais de instruções nestas matérias estão condenados ao fracasso!

O ataque à classe média, nomeadamente através da subida de impostos, fragiliza a sociedade e o próprio Estado, dado o aumento do descontentamento, da frustração e da conflitualidade. A classe média é um pilar de estabilidade e de prosperidade. Mas, sendo a categoria social mais numerosa e, apesar de tudo, a que ainda tem alguma margem para sofrer antes de cair na indigência, é aquela a que as autoridades recorrem para usufruir do efeito dos grandes números e gerar cortes mais amplos nas despesas e aumentos superiores das receitas.

A obsessão pelo saneamento financeiro e a sua urgência, porém, comprometem tantos outros objectivos e, em última instância, a própria eficácia do saneamento financeiro. Olha-se apenas para o lado da oferta da economia, esquecendo que, cortando nos rendimentos, se corta também na procura e portanto no produto, por conseguinte, nas receitas. Desse modo, se pode entrar numa espiral depressiva. Ao que se contra-argumenta com o facto de, neste momento, a procura relevante não ser a interna mas sim a externa, isto é, as exportações. Ao que se pode responder, no entanto, com o estado lastimável em que se encontram as economias dos principais clientes das nossas exportações (com excepção da Alemanha!). Como vários economistas dos mais díspares quadrantes têm sugerido, será necessário olhar também para o lado da procura e estimular as diferentes economias de uma forma concertada, através de mais despesa pública, rigorosamente o contrário do catecismo que tem sido propalado e aplicado. Mas, para isso é preciso coragem política e coordenação internacional para evitar fenómenos de concorrência fiscal ou cambial.

sábado, agosto 06, 2011

Ventos de séria mudança

Isto está mesmo muito estranho, cada vez mais estranho e perigoso. A agência de rating Standard & Poor’s reduziu durante o fim de semana (para evitar ainda mais sangue imediato nos mercados que terão de esperar até Segunda-feira para reagir) a nota dos EUA em um nível para AA+, o que quer dizer que admite a possibilidade de o país putativamente mais poderoso do mundo não pagar as suas dívidas, pese embora o facto de se considerar (ainda) muito baixa a probabilidade de tal acontecer. A agência baseia essa decisão em considerações de natureza macro-económica e política, dizendo, por exemplo, que o aumento do tecto da dívida necessário para que o país continue a pagar as suas contas a tempo e horas passou a ser objecto de negociação (chantagem), de resultados imprevisíveis, entre Republicanos e Democratas. As agências de rating mais uma vez mostram a ousadia e plenitude do seu poder privado, julgando Estados supostamente soberanos e provocando um impacto enorme sobre o modo como se financiam ou não se financiam. A China imediatamente reagiu, enquanto maior credor, dizendo que os EUA deveriam mudar as suas políticas para reduzir o risco e melhorar o valor da dívida. É provável que se sigam mais reduções de rating de entidades directa ou indirectamente relacionadas com a solvência dos EUA, incluindo outros Estados soberanos e empresas estrangeiras com exposição significativa ao risco americano. Daí resultarão taxas de juro mais altas e desvio de investimentos para outras aplicações (ditas) mais seguras. Neste ponto pergunta-se: quais? Passamos a falar de risco sistémico à escala global num momento em que a crise da dívida soberana também atinge (e como!) a Europa. A chamada “Tempestade Perfeita” agiganta-se, levando ao paroxismo as fraquezas de um modelo económico e de sociedade que tem funcionado praticamente em todo o mundo, desde o colapso do bloco soviético e a emergência de novas potências, de bolha em bolha, de remendo em remendo. É preciso não esquecer que a engorda dos Estados e o seu endividamento exponencial serviram de paliativo para enfrentar os enormes problemas criados pelas sucessivas especulações da chamada “new economy”, das matérias primas, do imobiliário e dos produtos bancários tóxicos. Os grupos privados que beneficiaram dessas ajudas (na prática, nacionalizações de prejuizos) não se queixaram... Essas bolhas sucedem-se cada vez mais frequentemente e com maior amplitude e não há poderes públicos que cheguem para remediar tantos buracos gerados por uma liberalização e desregulação desenfreadas. A isso acrescenta-se o surto de crescimento de economias periféricas ou semi-periféricas que despejam grandes volumes de mercadorias, serviços e capitais nos países do centro tradicional, entrando em concorrência directa com amplos sectores dessas economias que têm de se ajustar/reestruturar rapidamente para alcançar novos factores de competitividade. É neste contexto que se situam as crises da União Europeia, metida numa camisa de forças chamada Euro. Paradoxalmente, no curto prazo, os problemas dos EUA podem, de alguma maneira, aliviar os da Europa, pelo menos, retirar-lhes uma centralidade ou gravidade exclusiva. Nem me admira que o Euro se valorize nos próximos dias, servindo de (precário) refúgio em relação ao dólar. Seja como for, os próximos dias, semanas, meses serão cheios de sobressaltos. Instala-se uma sensação de fim de ciclo global de longo prazo, o que, infelizmente, muitas vezes, leva à guerra antes de se iniciar uma nova época baseada em novos paradigmas e hegemonias.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Manhãs de nevoeiro

De manhã muito cedo, de óculos muito escuros, cobrindo a maior parte da cara, de fato de treino pelintra, com cães irrisórios à trela, caminhando por ruas vazias … parecem zombies triturando insónias, arrastando solidões e cansaços incuráveis.

quarta-feira, julho 27, 2011

Os livros e nós


Na sequência de uma sugestão do Tony (ou António, pronto!), decidi responder a uma "corrente" engraçada que faz puxar pela memória e pelos momentos que passamos com os livros. As respostas dele estão ali. As minhas estão aqui…

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Várias vezes não digo… Mas gostava de reler “O Diário de Anne Frank”, porque me marcou muito e, sobretudo, porque era muito miúda quando o li e certamente iria interpretá-lo com outra maturidade agora.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, curiosamente um do Jorge Amado, um autor tão fácil e consensual. Foi o “Capitães da Areia”. Talvez por revelar um lado muito particular da realidade brasileira e de usar demasiados “termos técnicos”, tornou-se complicado manter a motivação.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
“O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder. Porque com uma simplicidade fantástica, fala de tudo o que é importante falar e questiona tudo o que importa questionar.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Dois livros: “Cemitério de Pianos”, do José Luís Peixoto e “O Elefante Evapora se” de Haruki Murakami… Mas é uma questão de tempo!

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
“O Perfume” de Patrick Suskind… Só lendo é que se percebe porquê! É um livro que me despertou sensações bastante fortes ao longo da sua leitura, chegando mesmo a fazer-me sentir cheiros, e o seu final, como não podia deixar de ser, provocou um efeito inesquecível.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Tinha. Era uma devoradora de livros, muito mais do que sou agora, infelizmente. Li muita coisa e de muitos autores, mas os que mais me marcaram foram Alice Vieira, Enid Blyton (Os Cinco… Li a colecção toda!), Maria Teresa Gonzalez e Jostein Gaarder.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
“Bases Neurológicas do Comportamento”, de Michel Habib… Acho que a quem me conhece não é preciso explicar porquê! Para quem não me conhece: li até ao fim porque era necessário para uma cadeira da faculdade e foi a maior seca da minha vida porque, embora tenha estudado psicologia, as áreas da psicofisiologia e da neuropsicologia são as que menos me dizem.Acrescento aqui, ainda, “Os Cus de Judas” de António Lobo Antunes. Achei uma grandessíssima seca, mas acabei por ler até ao fim num esforço por gostar do autor, cujas crónicas até me agradam moderadamente.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
“O Enigma e o Espelho” e “O Mundo de Sofia” ambos de Jostein Gaarder, “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera, “O Livro” de José Luís Peixoto, “O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu” de Oliver Sacks e “As Terças com Morrie” de Mitch Albom.

9. Que livro estás a ler?
“The Time Paradox: The New Psychology of Time”, de Philip Zimbardo e John Boyd. (E estou prestes a começar “As Intermitências da Morte” de José Saramago!)

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Em vez de indicar dez amigos, prefiro deixar aqui o desafio a quem quiser responder, que o faça… (Se bem que a outra melga aqui do blog tem a obrigação de responder!) Deixem as vossas respostas na caixa de comentários, ou se o fizerem noutro sítio, deixem pelo menos o link por aqui… Isto é engraçado e até nos faz reviver algumas leituras e momentos! Obrigada ali ao vizinho que fez a sugestão! ;)

segunda-feira, julho 25, 2011

O novo ministro da economia...


Em entrevista ao “El País”, o ministro refere que são tempos de poupar. “Nos primeiros dias estava sempre a apagar luzes. Não havia nenhuma consciência do dinheiro que se gasta desnecessariamente em ar condicionado, luzes. Comecei a instaurar um espírito e um sentimento de rigor”, revelou Álvaro Pereira.

“Temos de nos comportar como se fosse a nossa casa, sem gastar desnecessariamente”, acrescentou o ministro. Esta cultura de rigor começou a traduzir-se em manter os equipamentos de ar condicionado a 25 graus, menos luzes acesas, diminuir o uso dos carros oficiais aos fins-de-semana e reduzir o número de assessores.