quarta-feira, agosto 17, 2011

Agosto

Agosto estranho. De neblina, chuvas inesperadas, doenças, crises, notícias cansadas, ruas vazias, pessoas sozinhas deambulando pela cidade nua à procura de ar, trânsito de fluidez que chateia, pouca gente em esplanadas suspeitas, dançando tango com copos de cerveja morna, matando o tempo. Amanhece cinzento, o dia evolui estrebuchando no cinzento até acabar com um vestígio de sol, como se fosse um pingo. Este Agosto inerte até regressarem oceanos de gente resignada. Daqui a pouco misturam-se cãezinhos de companhia com pessoas de companhia, metem-se óculos de sol para observar as nuvens, perdem-se passos em multidões com medo de não estarem super-ocupadas e nervosas e ambiciosas. E a solidão dilui-se de novo.

domingo, agosto 14, 2011

Economia inteira

Não há crise que resista à vontade das pessoas de manter o seu estilo de vida, as pequenas ou grandes coisas de que se faz o seu bem-estar, real ou aparente. Não há nada pior do que ver a vida a andar para trás, dar aos filhos menos do que se recebeu dos pais, regredir (ou ter a impressão de regredir) na escala social, sobretudo aos olhos de familiares, amigos, vizinhos, conhecidos e que tais. Perder conforto e privilégios, não ter recursos para manter casas, carros, férias, escolas, vestuário, hobbies, para pagar as dívidas. Não ter dinheiro para ser, parecer, fazer ou fazer de conta… Essa terrível descida aos infernos é sempre mal vivida e tem um impacto muito mais do que económico: joga com as percepções de sucesso e de fracasso, melindra a auto-estima e a serenidade, prejudica a imagem que se faz de si próprio (também baseada na imagem que se julga que os outros fazem), desestabiliza sentimentos e convicções, arruína expectativas, agrava conflitos, produz angústia, medo e insegurança.

Tudo isto vem a propósito de dois fenómenos que se estão a desenvolver e que vão ainda piorar antes de se assistir a alguma melhoria: desemprego e despromoção da classe média.

O desemprego é a maior praga das sociedades contemporâneas, não só porque representa um vergonhoso desperdício de recursos, mas também porque violenta as pessoas que dele sofrem e suas famílias também (sobretudo) no plano psicológico. E nem todos nasceram para ser empresários dinâmicos e para aproveitar as fantásticas oportunidades que podem aparecer no meio das adversidades. São os livros de management e de auto-ajuda que estão cheios de histórias de sucesso que dificilmente se encontram na realidade. Infelizmente, os manuais de instruções nestas matérias estão condenados ao fracasso!

O ataque à classe média, nomeadamente através da subida de impostos, fragiliza a sociedade e o próprio Estado, dado o aumento do descontentamento, da frustração e da conflitualidade. A classe média é um pilar de estabilidade e de prosperidade. Mas, sendo a categoria social mais numerosa e, apesar de tudo, a que ainda tem alguma margem para sofrer antes de cair na indigência, é aquela a que as autoridades recorrem para usufruir do efeito dos grandes números e gerar cortes mais amplos nas despesas e aumentos superiores das receitas.

A obsessão pelo saneamento financeiro e a sua urgência, porém, comprometem tantos outros objectivos e, em última instância, a própria eficácia do saneamento financeiro. Olha-se apenas para o lado da oferta da economia, esquecendo que, cortando nos rendimentos, se corta também na procura e portanto no produto, por conseguinte, nas receitas. Desse modo, se pode entrar numa espiral depressiva. Ao que se contra-argumenta com o facto de, neste momento, a procura relevante não ser a interna mas sim a externa, isto é, as exportações. Ao que se pode responder, no entanto, com o estado lastimável em que se encontram as economias dos principais clientes das nossas exportações (com excepção da Alemanha!). Como vários economistas dos mais díspares quadrantes têm sugerido, será necessário olhar também para o lado da procura e estimular as diferentes economias de uma forma concertada, através de mais despesa pública, rigorosamente o contrário do catecismo que tem sido propalado e aplicado. Mas, para isso é preciso coragem política e coordenação internacional para evitar fenómenos de concorrência fiscal ou cambial.

sábado, agosto 06, 2011

Ventos de séria mudança

Isto está mesmo muito estranho, cada vez mais estranho e perigoso. A agência de rating Standard & Poor’s reduziu durante o fim de semana (para evitar ainda mais sangue imediato nos mercados que terão de esperar até Segunda-feira para reagir) a nota dos EUA em um nível para AA+, o que quer dizer que admite a possibilidade de o país putativamente mais poderoso do mundo não pagar as suas dívidas, pese embora o facto de se considerar (ainda) muito baixa a probabilidade de tal acontecer. A agência baseia essa decisão em considerações de natureza macro-económica e política, dizendo, por exemplo, que o aumento do tecto da dívida necessário para que o país continue a pagar as suas contas a tempo e horas passou a ser objecto de negociação (chantagem), de resultados imprevisíveis, entre Republicanos e Democratas. As agências de rating mais uma vez mostram a ousadia e plenitude do seu poder privado, julgando Estados supostamente soberanos e provocando um impacto enorme sobre o modo como se financiam ou não se financiam. A China imediatamente reagiu, enquanto maior credor, dizendo que os EUA deveriam mudar as suas políticas para reduzir o risco e melhorar o valor da dívida. É provável que se sigam mais reduções de rating de entidades directa ou indirectamente relacionadas com a solvência dos EUA, incluindo outros Estados soberanos e empresas estrangeiras com exposição significativa ao risco americano. Daí resultarão taxas de juro mais altas e desvio de investimentos para outras aplicações (ditas) mais seguras. Neste ponto pergunta-se: quais? Passamos a falar de risco sistémico à escala global num momento em que a crise da dívida soberana também atinge (e como!) a Europa. A chamada “Tempestade Perfeita” agiganta-se, levando ao paroxismo as fraquezas de um modelo económico e de sociedade que tem funcionado praticamente em todo o mundo, desde o colapso do bloco soviético e a emergência de novas potências, de bolha em bolha, de remendo em remendo. É preciso não esquecer que a engorda dos Estados e o seu endividamento exponencial serviram de paliativo para enfrentar os enormes problemas criados pelas sucessivas especulações da chamada “new economy”, das matérias primas, do imobiliário e dos produtos bancários tóxicos. Os grupos privados que beneficiaram dessas ajudas (na prática, nacionalizações de prejuizos) não se queixaram... Essas bolhas sucedem-se cada vez mais frequentemente e com maior amplitude e não há poderes públicos que cheguem para remediar tantos buracos gerados por uma liberalização e desregulação desenfreadas. A isso acrescenta-se o surto de crescimento de economias periféricas ou semi-periféricas que despejam grandes volumes de mercadorias, serviços e capitais nos países do centro tradicional, entrando em concorrência directa com amplos sectores dessas economias que têm de se ajustar/reestruturar rapidamente para alcançar novos factores de competitividade. É neste contexto que se situam as crises da União Europeia, metida numa camisa de forças chamada Euro. Paradoxalmente, no curto prazo, os problemas dos EUA podem, de alguma maneira, aliviar os da Europa, pelo menos, retirar-lhes uma centralidade ou gravidade exclusiva. Nem me admira que o Euro se valorize nos próximos dias, servindo de (precário) refúgio em relação ao dólar. Seja como for, os próximos dias, semanas, meses serão cheios de sobressaltos. Instala-se uma sensação de fim de ciclo global de longo prazo, o que, infelizmente, muitas vezes, leva à guerra antes de se iniciar uma nova época baseada em novos paradigmas e hegemonias.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Manhãs de nevoeiro

De manhã muito cedo, de óculos muito escuros, cobrindo a maior parte da cara, de fato de treino pelintra, com cães irrisórios à trela, caminhando por ruas vazias … parecem zombies triturando insónias, arrastando solidões e cansaços incuráveis.

quarta-feira, julho 27, 2011

Os livros e nós


Na sequência de uma sugestão do Tony (ou António, pronto!), decidi responder a uma "corrente" engraçada que faz puxar pela memória e pelos momentos que passamos com os livros. As respostas dele estão ali. As minhas estão aqui…

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Várias vezes não digo… Mas gostava de reler “O Diário de Anne Frank”, porque me marcou muito e, sobretudo, porque era muito miúda quando o li e certamente iria interpretá-lo com outra maturidade agora.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, curiosamente um do Jorge Amado, um autor tão fácil e consensual. Foi o “Capitães da Areia”. Talvez por revelar um lado muito particular da realidade brasileira e de usar demasiados “termos técnicos”, tornou-se complicado manter a motivação.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
“O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder. Porque com uma simplicidade fantástica, fala de tudo o que é importante falar e questiona tudo o que importa questionar.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Dois livros: “Cemitério de Pianos”, do José Luís Peixoto e “O Elefante Evapora se” de Haruki Murakami… Mas é uma questão de tempo!

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
“O Perfume” de Patrick Suskind… Só lendo é que se percebe porquê! É um livro que me despertou sensações bastante fortes ao longo da sua leitura, chegando mesmo a fazer-me sentir cheiros, e o seu final, como não podia deixar de ser, provocou um efeito inesquecível.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Tinha. Era uma devoradora de livros, muito mais do que sou agora, infelizmente. Li muita coisa e de muitos autores, mas os que mais me marcaram foram Alice Vieira, Enid Blyton (Os Cinco… Li a colecção toda!), Maria Teresa Gonzalez e Jostein Gaarder.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
“Bases Neurológicas do Comportamento”, de Michel Habib… Acho que a quem me conhece não é preciso explicar porquê! Para quem não me conhece: li até ao fim porque era necessário para uma cadeira da faculdade e foi a maior seca da minha vida porque, embora tenha estudado psicologia, as áreas da psicofisiologia e da neuropsicologia são as que menos me dizem.Acrescento aqui, ainda, “Os Cus de Judas” de António Lobo Antunes. Achei uma grandessíssima seca, mas acabei por ler até ao fim num esforço por gostar do autor, cujas crónicas até me agradam moderadamente.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
“O Enigma e o Espelho” e “O Mundo de Sofia” ambos de Jostein Gaarder, “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera, “O Livro” de José Luís Peixoto, “O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu” de Oliver Sacks e “As Terças com Morrie” de Mitch Albom.

9. Que livro estás a ler?
“The Time Paradox: The New Psychology of Time”, de Philip Zimbardo e John Boyd. (E estou prestes a começar “As Intermitências da Morte” de José Saramago!)

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Em vez de indicar dez amigos, prefiro deixar aqui o desafio a quem quiser responder, que o faça… (Se bem que a outra melga aqui do blog tem a obrigação de responder!) Deixem as vossas respostas na caixa de comentários, ou se o fizerem noutro sítio, deixem pelo menos o link por aqui… Isto é engraçado e até nos faz reviver algumas leituras e momentos! Obrigada ali ao vizinho que fez a sugestão! ;)

segunda-feira, julho 25, 2011

O novo ministro da economia...


Em entrevista ao “El País”, o ministro refere que são tempos de poupar. “Nos primeiros dias estava sempre a apagar luzes. Não havia nenhuma consciência do dinheiro que se gasta desnecessariamente em ar condicionado, luzes. Comecei a instaurar um espírito e um sentimento de rigor”, revelou Álvaro Pereira.

“Temos de nos comportar como se fosse a nossa casa, sem gastar desnecessariamente”, acrescentou o ministro. Esta cultura de rigor começou a traduzir-se em manter os equipamentos de ar condicionado a 25 graus, menos luzes acesas, diminuir o uso dos carros oficiais aos fins-de-semana e reduzir o número de assessores.

sábado, julho 23, 2011

Matrimónios semi-felizes

Extraído daqui:

"El matrimonio (...) viene a ser el envés de (...) proyecto convulso o aventurero. Su proceso natural conduce, tarde o temprano, de lo estimulante a lo anestésico. El gusto por conversar y contar nuestros asuntos al otro decae hasta crear unos silencios tan vacíos como tristemente paralelos. Ni el otro ameniza nuestra vida con sus puntos de vista ni sus puntos de vista conservan el primer brillo de sus ojos. Más bien una línea taciturna pasa de un extremo a otro de la mesa, de un punto a otro del diván o de un lado a otro del lecho conyugal.

¿Una tortura? No llega a ser torturante pero se parece, empieza a ser una tabarra. Alejandro Dumas decía que el matrimonio representa una carga tan pesada que se necesitan dos personas para soportarla pero, a menudo, incluso tres.

Los matrimonios semifelices se pueblan de infidelidades y algunos se separan pero nunca en la proporción que correspondería a su desgaste. No pocos matrimonios desencantados mantienen el pulso por razón de la estabilidad que les proporciona ese vínculo y que no es, desde luego, desdeñable. Mejor, se dicen, la serenidad que lo sublime. Mejor la casamata que la vida a salto de mata.

(...) La excesiva contigüidad, los planes, los proyectos y las distracciones, siempre juntos, allanan la pasión y son proclives, además, al enervamiento.

Sentirse atado a la pareja, a una pareja que no se quiere matar pero tampoco se muere de amor por ella, es el modelo más común de las vidas maritales o matrimonios semifelices.

¿Bueno? ¿Malo? ¿Regular? Hoy, sin tantos hijos que atenúen y amenicen, como antes, los contactos directos, sin la gran familia extensa donde se evacuaban las decepciones y los agravios, la vida en común se estrecha. ¿Se extingue? Es decir, ¿seguirá existiendo en el futuro esta clase de matrimonio? Probablemente, no en la misma proporción."

A Depressão Menor (por Paul Krugman)

Extraído daqui:

"El jueves, los "jefes de Estado y de Gobierno de la zona euro y las instituciones de la UE" - este trabalenguas da idea, por sí solo, de lo confuso que se ha vuelto el sistema de gobierno europeo - publicaban su gran declaración. No era tranquilizadora.

Para empezar, resulta difícil creer que la compleja y estrambótica ingeniería financiera que la declaración propone pueda resolver realmente la crisis griega, por no hablar de la crisis europea en general.

Pero, aunque así fuera, ¿qué pasará después? La declaración pide unas drásticas reducciones del déficit "en todos los países salvo en aquellos con un programa" que debe entrar en vigor "antes de 2013 como muy tarde". Dado que esos países "con un programa" se ven obligados a observar una estricta austeridad fiscal, esto equivale a un plan para que toda Europa reduzca drásticamente el gasto al mismo tiempo. Y no hay nada en los datos europeos que indique que el sector privado vaya a estar dispuesto a cargar con el muerto en menos de dos años.

Para aquellos que conocen la historia de la década de 1930, esto resulta demasiado familiar. Si alguna de las actuales negociaciones sobre la deuda fracasa, podríamos estar a punto de revivir 1931, el hundimiento bancario mundial que hizo grande la Gran Depresión. Pero si las negociaciones tienen éxito, estaremos listos para repetir el gran error de 1937: la vuelta prematura a la contracción fiscal que dio al traste con la recuperación económica y garantizó que la depresión se prolongase hasta que la II Guerra Mundial finalmente proporcionó el impulso que la economía necesitaba.

¿He mencionado que el Banco Central Europeo -aunque, afortunadamente, no la Reserva Federal- parece decidido a empeorar aún más las cosas subiendo los tipos de interés?

Hay una antigua cita, atribuida a distintas personas, que siempre me viene a la mente cuando observo la política pública: "No sabes, hijo mío, con qué poca sabiduría se gobierna el mundo". Ahora esa falta de sabiduría se pone plenamente de manifiesto, cuando las élites políticas de ambos lados del Atlántico malogran la respuesta al trauma económico haciendo caso omiso de las lecciones de la historia. Y la Depresión Menor continúa."

Egoismo bom

Acabo de ver no telejornal da RTP1 uma reportagem sobre uma moça que decidiu enveredar pelo voluntariado. Vai para Moçambique participar num projecto de ajuda a crianças e jovens em situação de pobreza e analfabetismo. A certa altura disse: “este é um egoismo bom”.

Adorei!

Não são precisas ficções de altruismo para fazer bem aos outros, para ter objectivos que vão para além de nós próprios. Sem negar, porém, humanos e legítimos interesses individuais como, por exemplo, o da generosidade. Que bom ser egoisticamente generoso.

sexta-feira, julho 22, 2011

Férias

Finalmente, chega um ar de férias. A passagem de um ritmo frenético a um estado de repouso tem alguma coisa de melancólico, como quando se está à janela, esperando que acabe de chover e tal não acontece. As pingas de chuva continuam a jorrar pela vidraça. Até que aparece o sol, tímido no princípio, mas, aos poucos, inundando o céu e a terra e aquecendo a alma.

As férias tem qualquer coisa de fictício para quem se afoga no trabalho. São, ao mesmo tempo, desejadas e temidas, necessárias e perniciosas. É pena ter medo das férias, chatear-se durante as férias, desejar que acabem depressa, mesmo antes de começarem. Essa atitude configura uma doença, incapacidade para percorrer várias dimensões da vida, para permitir uma pausa no meio de um cansaço endémico, tornado indispensável à sobrevivência. Imagino que seja por estas e por outras que muitas pessoas não resistam a um estado mais permanente de repouso quando se reformam e tropecem inesperadamente na morte.

Tudo isto serve apenas para ilustrar que no meio está a virtude, que as pessoas não se devem alienar com uma única versão da existência, que não se podem meter todos os ovos debaixo da mesma galinha, que a vida deve ter várias cores e interesses.

Olha quem fala... Que bom manter alguma vontade de rir (ou chorar...) de si próprio!

quarta-feira, julho 20, 2011

Por uma filosofia da alegria


Embora ainda nem vá a meio caminho, a vida já me mostrou por algumas vezes o seu lado mais negro. Também já vi o lado mais belo da vida. A vida já me foi mostrando o que é morte e vida, perda e ganho, traição e fidelidade, mudança forçada e mudança desejada, amizade e inimizade, luz e sombra, dor e prazer, amor e raiva, esperança e desespero, orgulho e decepção… A vida já me mostrou tanto e ainda há tanto por conhecer, sentir, ultrapassar, usufruir…

Já vivi coisas bem negras. Mas faço questão de ser alegre. Tenho descoberto que funciona decidirmos ser felizes. Se tomarmos a decisão consciente de ter uma perspectiva positiva perante as coisas, as pessoas, os acontecimentos, o passado, o presente e, sobretudo, o futuro, podemos ter a garantia de que estamos a viver bem a vida. Não adiantam olhares sombrios sobre o mundo, por muito sombrio que esse mesmo mundo esteja ou aparente estar. Não se trata de entrar em negação e fingir que não existem coisas más. Creio que se trata, sim, de olhar para o lado sombrio da vida, aceitá-lo e dizer:

- “Sim, é sombrio, é mau e vou aceitar isso, mas vou recusar-me a ir abaixo. Vou sofrer, sim, mas vou ultrapassar esse sofrimento com orgulho e vou ter alegria na minha vida, mesmo que essa alegria pareça inalcançável”.

Descobri (com alguma ajuda) que isso é meio caminho andado para ultrapassar os maus momentos e ser alegre.

sábado, julho 16, 2011

Grande, grande filme. Não percam!

Porque é que os portugueses não protestam?

Outro dia perguntaram-me porque é que em Portugal as pessoas não protestam como noutros países que enfrentam idênticas dificuldades económicas e sociais. Fiquei um bocado sem resposta... Será que, afinal de contas, a situação em Portugal AINDA não é assim tão grave como isso e quando piorar as pessoas que sofrem (porque haverá sempre quem não sofra coisa alguma...) irão protestar de forma mais visível e convincente? Será que a sociedade portuguesa dispõe de dispositivos (informais) de amortecimento da crise mais eficazes do que noutros países? Como por exemplo:

(a) a subsistência de uma cultura de solidariedade associada a uma ruralidade que, no entanto, se encontra há muito em declínio com o processo de urbanização;
(b) a intensidade dos laços familiares e do apoio inter-geracional;
(c) a importância de vários esquemas de caridade, passando ou não pela Igreja;
(d) a inexistência, fraqueza ou timidez de estruturas que poderiam impulsionar os protestos (sindicatos e outros movimentos sociais, partidos radicais, etc.);
(e) uma tendência profunda (antropológica) para os brandos costumes, o conformismo, o "poucochinho" e o desenrascanço individual ou familiar;
(f) o papel “redentor” (apesar de perverso) da economia paralela.

Tudo isto, porém, não impede o crescimento da pobreza, do mal-estar, da marginalidade, da criminalidade. Mas, por enquanto, os sinais de verdadeira ruptura com o sistema sócio-económico são tímidos, ao contrário, por exemplo, do que se passa na Grécia e cada vez mais em Espanha. E nem quero imaginar o que seria (será?) em países como a Itália ou a França...

Food for thought!

domingo, julho 10, 2011

Midnight in Paris

O enésimo filme de Woody Allen (WA) à volta do mesmo. Poupo-vos a trama... Mas este é giro e tem aquele ambiente mágico de Paris de hoje e dos anos 20. O actor principal, Owen Wilson, é uma espécie de WA actor #2. WA encontrou o seu sósia perante a câmara de filmar! Até a voz é parecida... mas a idade é outra... As aparições de Carla Bruni, first lady de França, são piedosas... Até parece que WA, aristrocrata e cavalheiro judeu das altas esferas, teve de deixar a moça participar no filme para ter a permissão do "capo" para se regalar em Paris. Uma espécie de portagem? Estou a ser máuzinho...

The new world of work


Vivemos em tempos de flexibilidade hiperbólica. Nada deve ser fixo ou rigido. As pessoas têm de demonstrar capacidade de adaptação, se possivel, ubiquidade. Tudo isso em nome da eficiência. De felicidade nem se fala...

Considerações filosóficas que vêm a propósito de um projecto chamado “The new world of work”: chega-se de manhã ao emprego e não se sabe qual é o gabinete, qual é a secretária ou o computador, quais são os colegas com quem se partilha um espaço físico, cada dia, variável e imprevisível.

Pode dizer-se que, nos tempos que correm, o simples facto de ter emprego deve considerar-se uma benção. Pouco importa se se trata de emprego precário, mal remunerado e, muito menos, se é interessante ou não. Isso tudo são minudências. Dizia eu que se chega ao emprego e não se sabe onde se fica sentado, ao lado de quem. Em princípio, a única coisa que se sabe são as tarefas a executar, tarefas intangíveis num espaço indefinido e volátil em interação com pessoas puramente instrumentais para o supremo interesse da organização a que se destinam as ditas tarefas.

Pessoas/matéria-prima, trabalho sem dimensão social, primado do indivíduo e dos resultados económicos. O “new world of work” não é apenas uma maneira de utilizar racionalmente espaço físico escasso – é uma ideologia que se executa concretamente, colocando pessoas no espaço e no tempo, impondo-lhes incerteza e volubilidade, tirando-lhes segurança e tranquilidade. Porque essas “vantagens” produzem acomodação que não rima com performance. Empregados demasiado satisfeitos instalam-se e tendem a perder competitividade. Como dizia um meu antigo chefe: "os quadros são como os violinos - sem tensão não vibram...".

sábado, julho 09, 2011

QUEM FALA ASSIM NÃO É GAGO...

PRESS RELEASE

7 July 2011 - ECB announces change in eligibility of debt instruments issued or guaranteed by the Portuguese government

The Governing Council of the European Central Bank (ECB) has decided to suspend the application of the minimum credit rating threshold in the collateral eligibility requirements for the purposes of the Eurosystem’s credit operations in the case of marketable debt instruments issued or guaranteed by the Portuguese government. This suspension will be maintained until further notice.

The Portuguese government has approved an economic and financial adjustment programme, which has been negotiated with the European Commission, in liaison with the ECB, and the International Monetary Fund. The Governing Council has assessed the programme and considers it to be appropriate. This positive assessment and the strong commitment of the Portuguese government to fully implement the programme are the basis, also from a risk management perspective, for the suspension announced herewith.

The suspension applies to all outstanding and new marketable debt instruments issued or guaranteed by the Portuguese government.

European Central Bank
Directorate Communications
Press and Information Division
Kaiserstrasse 29, D-60311 Frankfurt am Main
Tel.: +49 69 1344 7455, Fax: +49 69 1344 7404
Internet: http://www.ecb.europa.eu

quinta-feira, julho 07, 2011

O nosso lixo para a Moody's

Agências de rating

Gozando claramente de uma posição de oligopólio e de alguns conflitos de interesses, as agências de rating Fitch, Moody's e Standard & Poors fazem a magia de quantificar uma coisa tão subjectiva e complexa como o risco, convertendo a possibilidade de incumprimento numa classificação standard. Os participantes no mercado do crédito à escala global, incluindo entes públicos e privados, converteram-se a essa simplificação e passaram a fazer depender os seus direitos e deveres contratuais da subida ou descida das ditas classificações. Por exemplo: se o rating do devedor passa abaixo de um nível definido no contrato, o credor tem direito a mais juros, a outras garantias ou a pedir o reembolso antecipado; a entidade atingida pelo "rating event" deixa de ser aceitável para participar em determinadas transações; etc. Portanto, ao entrar nessa lógica, devedores e credores aceitam delegar em entidades terceiras a apreciação do risco, acabando por sofrer as consequências de tal externalização. Deslindar esse sistema é agora tudo menos fácil: implicaria renunciar a direitos contratuais, assumir plenamente funções subcontratadas às agências. Nada que não se possa fazer, mas implica entendimentos muito vastos entre muitas entidades em muitos sítios ao mesmo tempo e a substituição do sistema de rating actual - de mais uma troika (a das principais agências...) - por outro baseado em agências alternativas ou na disseminação e não-estandardização da avaliação de risco. Por outro lado, é preciso não esquecer que, apesar de terem cometido erros clamorosos (casos Enron, crise asiática, sub-prime), as agências de rating, normalmente, limitam-se a chamar os participantes no mercado do crédito à realidade, a chamar as coisas pelo seu nome, a alertar para situações de legítima preocupação, a dizer de forma putativamente científica o que já muitos sabem ou adivinham. Portanto, não se deve matar o mensageiro por transportar más notícias que não são da sua responsabilidade... pese embora o efeito de "self-fulfilling profecy" que algumas vezes geram as agências e de aceleração dos movimentos dos preços nos mercados. Os desequilibrios gravíssimos da economia portuguesa não foram criados pelas agências: elas limitam-se a dar-lhes eco... provavelmente exacerbado, mas trata-se só de um termómetro não da temperatura. E temo que a temperatura vá continuar a subir e nós a queixar-nos do termómetro actual.

quarta-feira, julho 06, 2011

Há com cada uma...

A Moody's classificou Portugal como lixo.

A minha dúvida é... E então? Qual é a relevância/importância da opinião sem fundamento de uma agência financeira privada sobre um estado que supostamente é soberano?

E se fossem à merda, não?

segunda-feira, julho 04, 2011

“Jogo do passa-culpas já nem como arma eleitoral é útil”

Extractos do artigo a que se pode aceder carregando no título deste post:

"(...) Cumprir o Memorando de Entendimento assinado pelos principais partidos é um passo essencial, reconhecido pelo Governo, que se declara mesmo determinado a ir, no seu programa político, além do que aí é exigido. Igualmente necessária, porém, será a convicção de que esse cumprimento não é apenas uma forma de ultrapassar as dificuldades financeiras do momento, mas é antes a base da indispensável alteração de paradigma político. Tal exige máxima coerência nas medidas a tomar, assim como o abandono, por todos os partidos de Governo, da subordinação a clientelas que, ao longo dos anos de democracia, não fizeram senão reforçar-se. Exige, portanto, que sob nenhum pretexto se aceitem excepções que imediatamente serão vistas como um incentivo para forçar novos desvios. Exige, por fim e sobretudo, a afirmação da autoridade do Estado, não através do aumento do seu peso na economia (que, pelo contrário, terá de reduzir-se) mas pelo reforço da qualidade da Administração Pública, da capacidade regulatória e sancionatória do Estado e pelo estabelecimento - se necessário a nível constitucional - de princípios de rigor financeiro que garantam que, uma vez ultrapassada a crise, o país não retoma os caminhos que conduziram à vulnerabilidade actual.

Tudo isto implica um enorme reforço das instituições, incluindo o recurso a instituições independentes - do Governo, como dos grupos de interesses - mas responsáveis perante a opinião pública, nacional e internacional. Não compete a tais entidades tomar decisões, mas sim promover a compreensão das condicionantes e das consequências, imediatas, mas também mediatas, dos problemas em debate e das alternativas de decisão política. Em última análise, elas devem permitir que o debate político se situe no plano das ideologias informadas pela realidade, em lugar das simples ideias gratuitas que, mesmo quando bem intencionadas, são facilmente manipuláveis em benefício de clientelas e em prejuízo do país.

(...) Como a crise tornou evidente, Portugal não enfrenta apenas um problema de política orçamental, embora esta tenha sido até agora um dos instrumentos fundamentais do avolumar da vulnerabilidade do país. Mas uma das razões disso foi o facto de o Orçamento ter sido usado para ocultar a ausência de uma verdadeira política económica, que teria sido indispensável para promover as mudanças estruturais indispensáveis à criação de um modelo de competitividade não dependente da manutenção de salários comparáveis aos de países com níveis de rendimento muito inferiores."

sábado, julho 02, 2011

Inveja


A inveja cega. A inveja por dinheiro, pela carreira, pelo poder, por amor, pela beleza... Há tantos e bons motivos para se ser invejoso. A inveja vê intenções onde não existem, sucessos que o não são. Deseja falhanços impossíveis ou injustos. A inveja ofusca ou disfarça a realidade dos outros e a nossa. Mistura sentimentos com factos, distorce o passado e contamina o presente e o futuro. No entanto, a inveja é apenas humana e mobiliza energias, faz as pessoas sentirem-se vivas, mesmo que seja da pior maneira. E, por isso, tem um lado positivo. Nada pior do que não ter pelo menos inveja para se sentir vivo, para progredir. Se a alternativa à inveja for a desistência, a apatia ou a tristeza, que venha a inveja, na plenitude das suas potencialidades, se possível, por “objectivas” razões e em doses saudáveis.

J. Haydn - UMA OBRA PRIMA

quarta-feira, junho 29, 2011

Corridas aos depósitos...

Estamos no limiar do pânico, de uma aversão irracional a riscos putativos. Primeiro fugimos e depois espreitamos para tentar perceber do que fugimos. A finança está de novo a ser guiada pela psicologia de massas, pelo efeito da carneirada, como no final de 2008, quando alguns amigos me perguntavam se deviam pôr o dinheiro debaixo do colchão porque, segundo eles, não havia nenhum banco seguro no mundo. Agora tendem a pensar que não haverá nenhum banco de confiança em Portugal e, por isso, os que podem, abrem contas no estrangeiro, porque nunca se sabe, porque custou muito a ganhar, porque sabe-se lá o que pode vir por aí e com o mal dos outros não nos governamos. Nisto não somos originais. Na Grécia é bem pior. Os depósitos encolhem-se como neve ao sol e os bancos estão à beira do colapso, não porque estejam irreversivelmente mal mas porque a confiança em que se baseiam se esfuma. Que não haja dúvidas: se toda a gente se precipitar a levantar depósitos todos se arriscam a perder, salvo os primeiros que julgam ser mais espertos do que todos os outros. Mas mesmo esses, mais tarde ou mais cedo, de um ou de outro modo, acabam por perder, o que configura um paradoxo da prudência. De resto, por definição, os verdadeiros primeiros são raríssimos. Ninguém ganha com o pânico e o sistema financeiro não funciona sem confiança.

terça-feira, junho 28, 2011

Desabafo potencialmente moralista

Com todo o respeito pelo cantor, restantes vítimas do acidente e respectivas famílias, para que é que me interessa saber a diferença entre coma e morte cerebral? Para que é que me interessa saber qual o procedimento legal a aplicar quando um carro não tem seguro e o condutor não sobrevive para pagar o prejuízo? Para que é que me interessa ouvir especialistas em medicina ou viação a falar sobre esta situação?

Os media deviam centrar-se mais em dar notícias, em informar, do que em sugar até ao tutano a desgraça alheia, do que em mediatizar a morte, o acidente, a tragédia... Se querem explorar comercialmente um acidente como este que se concentrem na morte precoce de um jovem que tinha família e amigos, e não na morte de um cantor famoso com corpinho danone. Que se concentrem em demonstrar a importância da segurança rodoviária e saiam da porta do Hospital de Santo António, onde meninas impressionáveis choram e rezam por um milagre, não pela perda de um ser humano, mas pela perda de um cantor com músculos definidos.

Respeitem-se os seres humanos e não seja perdida a ínfima réstia de dignidade do jornalismo português!

domingo, junho 26, 2011

Caros amigos orgulhosos,

Este é um post que se arrisca a ser "incorrecto" nos tempos actuais, em que ser não sei o quê sexualmente é motivo de orgulho (a palavra "sexy" para designar globalmente essa atitude é "pride"). Acho que os meninos e meninas deste mundo (e os que são menos meninas e meninos) têm todo o direito a fazer o que quiserem com os seus orgãos sexualmente utilizáveis (ou respectivos acessórios), onde quiserem e como quiserem, desde que respeitem o legítimo pudor e a liberdade dos outros. Francamente! Que se enrolem e se excitem como lhes der na real gana. Nem sou homofóbico, nem misógino, nem casto ou abstémio, nem compulsivo, nem obcecado... Sou o que sou sem necessidade de etiquetas ou de fazer disso uma bandeira ou motivo de orgulho, sem agredir ou seduzir quem quer que seja, sem fazer disso "a" razão do exercício da minha liberdade individual, sem querer aderir a um partido ou agremiação cujos simbolos sejam a meia preta ou o cú ao léu.

Dito isto, sejam felizes, divirtam-se e não chateiem os que não têm a vossa diferença ou que a não queiram ostentar. Sobretudo, para lutar contra a perseguição dos homosexuais não estigmatizem os que o não são.