sábado, julho 16, 2011

Porque é que os portugueses não protestam?

Outro dia perguntaram-me porque é que em Portugal as pessoas não protestam como noutros países que enfrentam idênticas dificuldades económicas e sociais. Fiquei um bocado sem resposta... Será que, afinal de contas, a situação em Portugal AINDA não é assim tão grave como isso e quando piorar as pessoas que sofrem (porque haverá sempre quem não sofra coisa alguma...) irão protestar de forma mais visível e convincente? Será que a sociedade portuguesa dispõe de dispositivos (informais) de amortecimento da crise mais eficazes do que noutros países? Como por exemplo:

(a) a subsistência de uma cultura de solidariedade associada a uma ruralidade que, no entanto, se encontra há muito em declínio com o processo de urbanização;
(b) a intensidade dos laços familiares e do apoio inter-geracional;
(c) a importância de vários esquemas de caridade, passando ou não pela Igreja;
(d) a inexistência, fraqueza ou timidez de estruturas que poderiam impulsionar os protestos (sindicatos e outros movimentos sociais, partidos radicais, etc.);
(e) uma tendência profunda (antropológica) para os brandos costumes, o conformismo, o "poucochinho" e o desenrascanço individual ou familiar;
(f) o papel “redentor” (apesar de perverso) da economia paralela.

Tudo isto, porém, não impede o crescimento da pobreza, do mal-estar, da marginalidade, da criminalidade. Mas, por enquanto, os sinais de verdadeira ruptura com o sistema sócio-económico são tímidos, ao contrário, por exemplo, do que se passa na Grécia e cada vez mais em Espanha. E nem quero imaginar o que seria (será?) em países como a Itália ou a França...

Food for thought!

domingo, julho 10, 2011

Midnight in Paris

O enésimo filme de Woody Allen (WA) à volta do mesmo. Poupo-vos a trama... Mas este é giro e tem aquele ambiente mágico de Paris de hoje e dos anos 20. O actor principal, Owen Wilson, é uma espécie de WA actor #2. WA encontrou o seu sósia perante a câmara de filmar! Até a voz é parecida... mas a idade é outra... As aparições de Carla Bruni, first lady de França, são piedosas... Até parece que WA, aristrocrata e cavalheiro judeu das altas esferas, teve de deixar a moça participar no filme para ter a permissão do "capo" para se regalar em Paris. Uma espécie de portagem? Estou a ser máuzinho...

The new world of work


Vivemos em tempos de flexibilidade hiperbólica. Nada deve ser fixo ou rigido. As pessoas têm de demonstrar capacidade de adaptação, se possivel, ubiquidade. Tudo isso em nome da eficiência. De felicidade nem se fala...

Considerações filosóficas que vêm a propósito de um projecto chamado “The new world of work”: chega-se de manhã ao emprego e não se sabe qual é o gabinete, qual é a secretária ou o computador, quais são os colegas com quem se partilha um espaço físico, cada dia, variável e imprevisível.

Pode dizer-se que, nos tempos que correm, o simples facto de ter emprego deve considerar-se uma benção. Pouco importa se se trata de emprego precário, mal remunerado e, muito menos, se é interessante ou não. Isso tudo são minudências. Dizia eu que se chega ao emprego e não se sabe onde se fica sentado, ao lado de quem. Em princípio, a única coisa que se sabe são as tarefas a executar, tarefas intangíveis num espaço indefinido e volátil em interação com pessoas puramente instrumentais para o supremo interesse da organização a que se destinam as ditas tarefas.

Pessoas/matéria-prima, trabalho sem dimensão social, primado do indivíduo e dos resultados económicos. O “new world of work” não é apenas uma maneira de utilizar racionalmente espaço físico escasso – é uma ideologia que se executa concretamente, colocando pessoas no espaço e no tempo, impondo-lhes incerteza e volubilidade, tirando-lhes segurança e tranquilidade. Porque essas “vantagens” produzem acomodação que não rima com performance. Empregados demasiado satisfeitos instalam-se e tendem a perder competitividade. Como dizia um meu antigo chefe: "os quadros são como os violinos - sem tensão não vibram...".

sábado, julho 09, 2011

QUEM FALA ASSIM NÃO É GAGO...

PRESS RELEASE

7 July 2011 - ECB announces change in eligibility of debt instruments issued or guaranteed by the Portuguese government

The Governing Council of the European Central Bank (ECB) has decided to suspend the application of the minimum credit rating threshold in the collateral eligibility requirements for the purposes of the Eurosystem’s credit operations in the case of marketable debt instruments issued or guaranteed by the Portuguese government. This suspension will be maintained until further notice.

The Portuguese government has approved an economic and financial adjustment programme, which has been negotiated with the European Commission, in liaison with the ECB, and the International Monetary Fund. The Governing Council has assessed the programme and considers it to be appropriate. This positive assessment and the strong commitment of the Portuguese government to fully implement the programme are the basis, also from a risk management perspective, for the suspension announced herewith.

The suspension applies to all outstanding and new marketable debt instruments issued or guaranteed by the Portuguese government.

European Central Bank
Directorate Communications
Press and Information Division
Kaiserstrasse 29, D-60311 Frankfurt am Main
Tel.: +49 69 1344 7455, Fax: +49 69 1344 7404
Internet: http://www.ecb.europa.eu

quinta-feira, julho 07, 2011

O nosso lixo para a Moody's

Agências de rating

Gozando claramente de uma posição de oligopólio e de alguns conflitos de interesses, as agências de rating Fitch, Moody's e Standard & Poors fazem a magia de quantificar uma coisa tão subjectiva e complexa como o risco, convertendo a possibilidade de incumprimento numa classificação standard. Os participantes no mercado do crédito à escala global, incluindo entes públicos e privados, converteram-se a essa simplificação e passaram a fazer depender os seus direitos e deveres contratuais da subida ou descida das ditas classificações. Por exemplo: se o rating do devedor passa abaixo de um nível definido no contrato, o credor tem direito a mais juros, a outras garantias ou a pedir o reembolso antecipado; a entidade atingida pelo "rating event" deixa de ser aceitável para participar em determinadas transações; etc. Portanto, ao entrar nessa lógica, devedores e credores aceitam delegar em entidades terceiras a apreciação do risco, acabando por sofrer as consequências de tal externalização. Deslindar esse sistema é agora tudo menos fácil: implicaria renunciar a direitos contratuais, assumir plenamente funções subcontratadas às agências. Nada que não se possa fazer, mas implica entendimentos muito vastos entre muitas entidades em muitos sítios ao mesmo tempo e a substituição do sistema de rating actual - de mais uma troika (a das principais agências...) - por outro baseado em agências alternativas ou na disseminação e não-estandardização da avaliação de risco. Por outro lado, é preciso não esquecer que, apesar de terem cometido erros clamorosos (casos Enron, crise asiática, sub-prime), as agências de rating, normalmente, limitam-se a chamar os participantes no mercado do crédito à realidade, a chamar as coisas pelo seu nome, a alertar para situações de legítima preocupação, a dizer de forma putativamente científica o que já muitos sabem ou adivinham. Portanto, não se deve matar o mensageiro por transportar más notícias que não são da sua responsabilidade... pese embora o efeito de "self-fulfilling profecy" que algumas vezes geram as agências e de aceleração dos movimentos dos preços nos mercados. Os desequilibrios gravíssimos da economia portuguesa não foram criados pelas agências: elas limitam-se a dar-lhes eco... provavelmente exacerbado, mas trata-se só de um termómetro não da temperatura. E temo que a temperatura vá continuar a subir e nós a queixar-nos do termómetro actual.

quarta-feira, julho 06, 2011

Há com cada uma...

A Moody's classificou Portugal como lixo.

A minha dúvida é... E então? Qual é a relevância/importância da opinião sem fundamento de uma agência financeira privada sobre um estado que supostamente é soberano?

E se fossem à merda, não?

segunda-feira, julho 04, 2011

“Jogo do passa-culpas já nem como arma eleitoral é útil”

Extractos do artigo a que se pode aceder carregando no título deste post:

"(...) Cumprir o Memorando de Entendimento assinado pelos principais partidos é um passo essencial, reconhecido pelo Governo, que se declara mesmo determinado a ir, no seu programa político, além do que aí é exigido. Igualmente necessária, porém, será a convicção de que esse cumprimento não é apenas uma forma de ultrapassar as dificuldades financeiras do momento, mas é antes a base da indispensável alteração de paradigma político. Tal exige máxima coerência nas medidas a tomar, assim como o abandono, por todos os partidos de Governo, da subordinação a clientelas que, ao longo dos anos de democracia, não fizeram senão reforçar-se. Exige, portanto, que sob nenhum pretexto se aceitem excepções que imediatamente serão vistas como um incentivo para forçar novos desvios. Exige, por fim e sobretudo, a afirmação da autoridade do Estado, não através do aumento do seu peso na economia (que, pelo contrário, terá de reduzir-se) mas pelo reforço da qualidade da Administração Pública, da capacidade regulatória e sancionatória do Estado e pelo estabelecimento - se necessário a nível constitucional - de princípios de rigor financeiro que garantam que, uma vez ultrapassada a crise, o país não retoma os caminhos que conduziram à vulnerabilidade actual.

Tudo isto implica um enorme reforço das instituições, incluindo o recurso a instituições independentes - do Governo, como dos grupos de interesses - mas responsáveis perante a opinião pública, nacional e internacional. Não compete a tais entidades tomar decisões, mas sim promover a compreensão das condicionantes e das consequências, imediatas, mas também mediatas, dos problemas em debate e das alternativas de decisão política. Em última análise, elas devem permitir que o debate político se situe no plano das ideologias informadas pela realidade, em lugar das simples ideias gratuitas que, mesmo quando bem intencionadas, são facilmente manipuláveis em benefício de clientelas e em prejuízo do país.

(...) Como a crise tornou evidente, Portugal não enfrenta apenas um problema de política orçamental, embora esta tenha sido até agora um dos instrumentos fundamentais do avolumar da vulnerabilidade do país. Mas uma das razões disso foi o facto de o Orçamento ter sido usado para ocultar a ausência de uma verdadeira política económica, que teria sido indispensável para promover as mudanças estruturais indispensáveis à criação de um modelo de competitividade não dependente da manutenção de salários comparáveis aos de países com níveis de rendimento muito inferiores."

sábado, julho 02, 2011

Inveja


A inveja cega. A inveja por dinheiro, pela carreira, pelo poder, por amor, pela beleza... Há tantos e bons motivos para se ser invejoso. A inveja vê intenções onde não existem, sucessos que o não são. Deseja falhanços impossíveis ou injustos. A inveja ofusca ou disfarça a realidade dos outros e a nossa. Mistura sentimentos com factos, distorce o passado e contamina o presente e o futuro. No entanto, a inveja é apenas humana e mobiliza energias, faz as pessoas sentirem-se vivas, mesmo que seja da pior maneira. E, por isso, tem um lado positivo. Nada pior do que não ter pelo menos inveja para se sentir vivo, para progredir. Se a alternativa à inveja for a desistência, a apatia ou a tristeza, que venha a inveja, na plenitude das suas potencialidades, se possível, por “objectivas” razões e em doses saudáveis.

J. Haydn - UMA OBRA PRIMA

quarta-feira, junho 29, 2011

Corridas aos depósitos...

Estamos no limiar do pânico, de uma aversão irracional a riscos putativos. Primeiro fugimos e depois espreitamos para tentar perceber do que fugimos. A finança está de novo a ser guiada pela psicologia de massas, pelo efeito da carneirada, como no final de 2008, quando alguns amigos me perguntavam se deviam pôr o dinheiro debaixo do colchão porque, segundo eles, não havia nenhum banco seguro no mundo. Agora tendem a pensar que não haverá nenhum banco de confiança em Portugal e, por isso, os que podem, abrem contas no estrangeiro, porque nunca se sabe, porque custou muito a ganhar, porque sabe-se lá o que pode vir por aí e com o mal dos outros não nos governamos. Nisto não somos originais. Na Grécia é bem pior. Os depósitos encolhem-se como neve ao sol e os bancos estão à beira do colapso, não porque estejam irreversivelmente mal mas porque a confiança em que se baseiam se esfuma. Que não haja dúvidas: se toda a gente se precipitar a levantar depósitos todos se arriscam a perder, salvo os primeiros que julgam ser mais espertos do que todos os outros. Mas mesmo esses, mais tarde ou mais cedo, de um ou de outro modo, acabam por perder, o que configura um paradoxo da prudência. De resto, por definição, os verdadeiros primeiros são raríssimos. Ninguém ganha com o pânico e o sistema financeiro não funciona sem confiança.

terça-feira, junho 28, 2011

Desabafo potencialmente moralista

Com todo o respeito pelo cantor, restantes vítimas do acidente e respectivas famílias, para que é que me interessa saber a diferença entre coma e morte cerebral? Para que é que me interessa saber qual o procedimento legal a aplicar quando um carro não tem seguro e o condutor não sobrevive para pagar o prejuízo? Para que é que me interessa ouvir especialistas em medicina ou viação a falar sobre esta situação?

Os media deviam centrar-se mais em dar notícias, em informar, do que em sugar até ao tutano a desgraça alheia, do que em mediatizar a morte, o acidente, a tragédia... Se querem explorar comercialmente um acidente como este que se concentrem na morte precoce de um jovem que tinha família e amigos, e não na morte de um cantor famoso com corpinho danone. Que se concentrem em demonstrar a importância da segurança rodoviária e saiam da porta do Hospital de Santo António, onde meninas impressionáveis choram e rezam por um milagre, não pela perda de um ser humano, mas pela perda de um cantor com músculos definidos.

Respeitem-se os seres humanos e não seja perdida a ínfima réstia de dignidade do jornalismo português!

domingo, junho 26, 2011

Caros amigos orgulhosos,

Este é um post que se arrisca a ser "incorrecto" nos tempos actuais, em que ser não sei o quê sexualmente é motivo de orgulho (a palavra "sexy" para designar globalmente essa atitude é "pride"). Acho que os meninos e meninas deste mundo (e os que são menos meninas e meninos) têm todo o direito a fazer o que quiserem com os seus orgãos sexualmente utilizáveis (ou respectivos acessórios), onde quiserem e como quiserem, desde que respeitem o legítimo pudor e a liberdade dos outros. Francamente! Que se enrolem e se excitem como lhes der na real gana. Nem sou homofóbico, nem misógino, nem casto ou abstémio, nem compulsivo, nem obcecado... Sou o que sou sem necessidade de etiquetas ou de fazer disso uma bandeira ou motivo de orgulho, sem agredir ou seduzir quem quer que seja, sem fazer disso "a" razão do exercício da minha liberdade individual, sem querer aderir a um partido ou agremiação cujos simbolos sejam a meia preta ou o cú ao léu.

Dito isto, sejam felizes, divirtam-se e não chateiem os que não têm a vossa diferença ou que a não queiram ostentar. Sobretudo, para lutar contra a perseguição dos homosexuais não estigmatizem os que o não são.

quarta-feira, junho 22, 2011

terça-feira, junho 21, 2011

Nuvens negras, por Ricardo Araújo Pereira

Deve ser a isto que os especialistas chamam a admirável intemporalidade dos clássicos. Uma peça de Aristófanes, escrita há uns 25 séculos, parece um decalque da atual vida portuguesa. Como é óbvio, trata-se de uma comédia. Claro que esta feliz coincidência pode dever-se menos à habilidade de Aristófanes para se manter atual e mais à habilidade de Portugal para se manter atrasado. Mas, seja o talento do retratista ou do retratado, não deixa de ser notável.

Na peça Nuvens, um homem chamado Estrepsíades está cheio de dívidas e cercado por credores. Resolve então recorrer a Sócrates. O objetivo é aprender a argumentar com o famoso filósofo e, através de falácias, demonstrar aos credores que uma dívida não é, na verdade, uma dívida. Em Aristófanes, Sócrates é um charlatão. Exceto na opinião de um pequeno grupo de apaniguados, é um troca-tintas. Um impostor. Um pequeno bandido, digamos. Este é, talvez, o ponto em que a peça se afasta mais da nossa realidade - declaração que faço imbuído do mais profundo amor à verdade e também para evitar processos judiciais. Mas, tirando esta discrepância flagrante e grotesca, tudo na história faz lembrar o Portugal do século XXI. Estrepsíades é os portugueses (especialmente aqueles portugueses, ainda não especificados, que se endividaram em 78 mil milhões de euros), os credores são os credores, e Sócrates é Sócrates. O facto de a peça decorrer na Grécia - que é, neste momento, o país mais parecido com Portugal - também ajuda.

Todos os que acreditam nas capacidades proféticas da literatura devem, no entanto, desiludir-se. Não será a peça de Aristófanes a mostrar-nos o futuro. Como toda a gente que aposta em Sócrates para lhe resolver o problema das dívidas, Estrepsíades tem um grande dissabor, e fica ainda pior do que estava. Infelizmente, a peça acaba exatamente nesse ponto. Vemos Estrepsíades vingar-se de Sócrates, é verdade. Mas o que acontece à vida de Estrepsíades depois de castigar Sócrates? Não sabemos. Aristófanes não diz. Talvez porque, como todas as comédias, a peça tenta ocupar-se apenas das coisas que dão vontade de rir. Quando a tragédia a sério começa, cai o pano.

segunda-feira, junho 20, 2011

O novo governo

O novo governo parece ter muita técnica e muita teoria e, só na aparência, pouca ideologia. Pode ser bom para credibilizar os esforços que terão de ser feitos para convencer os credores de que não cairemos numa situação tipo Grécia. Mas, a verdade é que a possibilidade de tal acontecer depende, não apenas do que possamos fazer, mas também do contágio da desgraça alheia. Ou seja, não dependemos só do virtuosismo da nossa austeridade, mas também do que possam pensar "os mercados" sobre o impacto dos erros alheios. Os ministros-chave são economistas "mainstream", ou seja, encaram a Economia mais como uma ciência exacta do que como uma ciência social que se faz de múltiplos saberes e sensibilidades. Portanto, a eficiência na execução do Memorando de Entendimento assinado com a Troika estará no topo das preocupações. As preocupações sociais (e políticas) serão talvez protagonizadas por outros governantes. Se forem! Trata-se de gente de gestão, que, no entanto, não é isenta de ideologia. Um dos ministros diz-se admirador de Milton Friedman... A pretexto do saneamento das contas públicas e das contas externas teremos claramente uma viragem no sentido (neo-)liberal: "menos Estado, melhor Estado", aumento da concorrência, primado da eficiência, combate às situações de "renda de situação", liberalização e flexibilização do mercado de trabalho, privatizações, etc. Não se pode dizer que tudo isto venha como uma surpresa. O PSD de Passos Coelho não escondeu a sua veia (neo-)liberal. E os portugueses votaram nele. Acho que o BCE e o FMI vão gostar dos novos governantes. Os portugueses estarão por (quase) tudo para verem uma luz ao fundo do túnel do endividamento e do medo de insolvência. Mas, parece-me também inevitável o aumento da conflitualidade social.

quinta-feira, junho 16, 2011

Era uma vez uma dívida

Não há problema se a dívida externa for superior a 100% do PIB... desde que os credores achem que é sustentável, palavra mágica que pode querer dizer tanto ou tão pouco. O Japão, a Itália e a Bélgica são alguns dos exemplos de países com dívida superior a 100% do PIB. Nem por isso estão na situação em que se encontram a Grècia, a Irlanda ou Portugal. Donde vem então o problema destes últimos países? Simplesmente, do facto de os credores terem dúvidas sobre a capacidade dessas economias se refinanciarem, ou seja, obterem nova dívida para reembolsar a dívida existente que chega ao seu vencimento. Tais dúvidas acentuam-se quando se presume que nem sequer os juros se consegue pagar sem recurso a dívida crescente. Ora, só se consegue pagar os juros se a taxa de crescimento do PIB for superior à própria taxa de juro. Mas, quando os credores duvidam da capacidade de serviço da dívida, pedem juros mais elevados, o que cria um circulo vicioso ou uma “self-fulfilling prophecy”. Vejamos! A taxa média de juro da dívida externa portuguesa, em termos reais, não andará longe de 4%. A título de exemplo, a taxa nominal de juro dos empréstimos do FMI a Portugal situa-se entre 3.25% e 4.25%. Os empréstimos da UE são mais caros. E as taxas nominais pedidas por credores privados, mesmo a curto prazo, atingem valores acima de 10%... Ou seja, temos de supor que o PIB vai crescer a uma taxa superior a 4% a médio/longo prazo para chegar à conclusão de que o capital em dívida não vai aumentar, ou seja, de que a dívida é sustentável. Acreditam nisso? Eu não (tendo em conta também a performance da nossa economia nas últimas décadas)! Pelo que, restam (a) um calote puro e duro, (b) um calote suave sob a forma de "reestruturação" da dívida ou (c) uma assistência “sustentada” de outros países para substituir os credores privados que fogem a sete pés.

Trust


Trust é um filme a não perder!
Pela história, que embora ficção neste caso particular, tem tudo a ver com uma cruel realidade que tem de ser conhecida por todos.
Pela densidade psicológica constante, singularmente vivida por cada personagem, que se torna mais central e chega a sobrepôr-se aos acontecimentos cinematográficos.
Pela qualidade artística, patente na música, imagem, realização e nas actuações, em especial, de Clive Owen e da recém-descoberta actriz Liana Liberato.
Pela mensagem, esclarecedora, arrepiante, impressionante...

A não perder mesmo!

segunda-feira, junho 13, 2011

O Rapaz da Bicicleta é um filme belga, de realismo belga, feito pelos irmãos Dardenne, que conta a história de um rapaz (Cyril) rejeitado pelo pai que ele continua a procurar desesperadamente para ter apenas a confirmação repetida dessa rejeição. Vai para um orfanato. Por mera coincidência, uma jovem cabeleireira ajuda-o a recuperar a bicicleta que o pai tinha vendido. A cabeleireira dá-lhe todo o carinho e protecção de que é capaz e assim consegue curar a profunda dor e revolta que se instala em Cyril. É um filme simples, puro e duro, de silêncios e emoções primárias, centrado no quotidiano de uma cité desalmada, perdida algures na tristeza urbana da Bélgica. Talvez nunca chegue a Portugal porque os circuitos de distribuição são o que são, mas é pena.

sábado, junho 11, 2011

Discurso de António Barreto

Nada é novo. Nunca! Já lá estivemos, já o vivemos e já conhecemos. Uma crise financeira, a falência das contas públicas, a despesa pública e privada, ambas excessivas, o desequilíbrio da balança comercial, o descontrolo da actividade do Estado, o pedido de ajuda externa, a intervenção estrangeira, a crise política e a crispação estéril dos dirigentes partidários. Portugal já passou por isso tudo. E recuperou. O nosso país pode ultrapassar, mais uma vez, as dificuldades actuais. Não é seguro que o faça. Mas é possível.

Tudo é novo. Sempre! Uma crise internacional inédita, um mundo globalizado, uma moeda comum a várias nações, um assustador défice da produção nacional, um insuportável grau de endividamento e a mais elevada taxa de desemprego da história. São factos novos que, em simultâneo, tornam tudo mais difícil, mas também podem contribuir para novas soluções. Não é certo que o novo enquadramento internacional ajude a resolver as nossas insuficiências. Mas é possível.

Novo é também o facto de alguns políticos não terem dado o exemplo do sacrifício que impõem aos cidadãos. A indisponibilidade para falarem uns com os outros, para dialogar, para encontrar denominadores comuns e chegar a compromissos contrasta com a facilidade e o oportunismo com que pedem aos cidadãos esforços excepcionais e renúncias a que muitos se recusam. A crispação política é tal que se fica com a impressão de que há partidos intrusos, ideias subversivas e opiniões condenáveis. O nosso Estado democrático, tão pesado, mas ao mesmo tempo tão frágil, refém de interesses particulares, nomeadamente partidários, parece conviver mal com a liberdade. Ora, é bom recordar que, em geral, as democracias, não são derrotadas, destroem-se a si próprias!

Há momentos, na história de um país, em que se exige uma especial relação política e afectiva entre o povo e os seus dirigentes. Em que é indispensável uma particular sintonia entre os cidadãos e os seus governantes. Em que é fundamental que haja um entendimento de princípio entre trabalhadores e patrões. Sem esta comunidade de cooperação e sem esta consciência do interesse comum nada é possível, nem sequer a liberdade.

Vivemos um desses momentos. Tudo deve ser feito para que estas condições de sobrevivência, porque é disso que se trata, estejam ao nosso alcance. Sem encenação medíocre e vazia, os políticos têm de falar uns com os outros, como alguns já não o fazem há muito. Os políticos devem respeitar os empresários e os trabalhadores, o que muitos parecem ter esquecido há algum tempo. Os políticos devem exprimir-se com verdade, princípio moral fundador da liberdade, o que infelizmente tem sido pouco habitual. Os políticos devem dar provas de honestidade e de cordialidade, condições para uma sociedade decente.

Vivemos os resultados de uma grave crise internacional. Sem dúvida. O nosso povo sofre o que outros povos, quase todos, sofrem. Com a agravante de uma crise política e institucional europeia que fere mais os países mais frágeis, como o nosso. Sentimos também, indiscutivelmente, os efeitos de longos anos de vida despreocupada e ilusória. Pagamos a factura que a miragem da abundância nos legou. Amargamos as sequelas de erros antigos que tornaram a economia portuguesa pouco competitiva e escassamente inovadora. Mas também sofremos as consequências da imprevidência das autoridades. Eis por que o apuramento de responsabilidades é indispensável, a fim de evitar novos erros.

Ao longo dos últimos meses, vivemos acontecimentos extraordinários que deixaram na população marcas de ansiedade. Uma sucessão de factos e decisões criou uma vaga de perplexidade. Há poucos dias, o povo falou. Fez a sua parte. Aos políticos cabe agora fazer a sua. Compete-lhes interpretar, não aproveitar. Exige-se-lhes que interpretem não só a expressão eleitoral do nosso povo, mas também e sobretudo os seus sentimentos e as suas aspirações. Pede-se-lhes que sejam capazes, como não o foram até agora, de dialogar e discutir entre si e de informar a população com verdade. Compete-lhes estabelecer objectivos, firmar um pacto com a sociedade, estimular o reconhecimento dos cidadãos nos seus dirigentes e orientar as energias necessárias à recuperação económica e à saúde financeira. Espera-se deles que saibam traduzir em razões públicas e conhecidas os objectivos das suas políticas. Deseja-se que percebam que vivemos um desses raros momentos históricos de aflição e de ansiedade colectiva em que é preciso estabelecer uma relação especial entre cidadãos e governantes. Os Portugueses, idosos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, merecem ser tratados como cidadãos livres. Não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados.É muito difícil, ao mesmo tempo, sanear as contas públicas, investir na economia e salvaguardar o Estado de protecção social. É quase impossível. Mas é possível. É muito difícil, em momentos de penúria, acudir à prioridade nacional, a reorganização da Justiça, e fazer com que os Juízes julguem prontamente, com independência, mas em obediência ao povo soberano e no respeito pelos cidadãos. É difícil. Mas é possível.

O esforço que é hoje pedido aos Portugueses é talvez ímpar na nossa história, pelo menos no último século. Por isso são necessários meios excepcionais que permitam que os cidadãos, em liberdade, saibam para quê e para quem trabalham. Sem respeito pelos empresários e pelos trabalhadores, não há saída nem solução. E sem participação dos cidadãos, nomeadamente das gerações mais novas, o esforço da comunidade nacional será inútil.

É muito difícil atrair os jovens à participação cívica e à vida política. É quase impossível. Mas é possível. Se os mais velhos perceberem que de nada serve intoxicar a juventude com as cartilhas habituais, nem acreditar que a escola a mudará, nem ainda pensar que uma imaginária "reforma de mentalidades" se encarregará disso. Se os dirigentes nacionais perceberem que são eles que estão errados, não as jovens gerações, às quais faltam oportunidades e horizontes. Se entenderem que o seu sistema político é obsoleto, que o seu sistema eleitoral é absurdo e que os seus métodos de representação estão caducos.

Como disse um grande jurista, “cada geração tem o direito de rever a Constituição”. As jovens gerações têm esse direito. Não é verdade que tudo dependa da Constituição. Nem que a sua revisão seja solução para a maior parte das nossas dificuldades. Mas a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis. Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia. A liberdade necessita de Justiça, tanto quanto de eleições. Pobre país moreno e emigrante, poderás sair desta crise se souberes exigir dos teus dirigentes que falem verdade ao povo, não escondam os factos e a realidade, cumpram a sua palavra e não se percam em demagogia!

País europeu e antiquíssimo, serás capaz de te organizar para o futuro se trabalhares e fizeres sacrifícios, mas só se exigires que os teus dirigentes políticos, sociais e económicos façam o mesmo, trabalhem para o bem comum, falem uns com os outros, se entendam sobre o essencial e não tenham sempre à cabeça das prioridades os seus grupos e os seus adeptos.

País perene e errante, que viveste na Europa e fora dela, mas que à Europa regressaste, tens de te preparar para viver com metas difíceis de alcançar, apesar de assinadas pelo Estado e por três partidos, mas tens de evitar que a isso te obrigue um governo de fora.

País do sol e do Sul, tens de aprender a trabalhar melhor e a pensar mais nos teus filhos.

País desigual e contraditório, tens diante de ti a mais difícil das tarefas, a de conciliar a eficiência com a equidade, sem o que perderás a tua humanidade. Tarefa difícil. Mas possível.

quarta-feira, junho 08, 2011

Era uma vez uma mudança

Francamente acho que o país não ganhou. Não ganharia de qualquer maneira. Porque todos os que podiam chegar ao poder enfermam da mesma doença: são velhos independentemente da sua idade cronológica. E alguns são jovens velhíssimos.

O contexto europeu também não ajuda: falta de liderança, falta de visão e de coragem para enfrentar o monstro de frente. O monstro é um projecto que não pode sobreviver no seu estado actual: ou avança para um federalismo improvável ou recua para uma união aduaneira. As tendências nacionalistas são cada vez mais eloquentes e falar em solidariedade suscita piedade ou, no mínimo, condescendência.

segunda-feira, junho 06, 2011

A "nossa sondagem" e os resultados reais

PSD 43 (nossa) / 39 (real)
PS 27 (nossa) / 28 (real)
CDS 13 (nossa) / 12 (real)
CDU 7 (nossa) / 8 (real)
BE 6 (nossa) / 5 (real)
Outros 3 (nossa) / 5 (real)

O que demonstra que a sondagem do Público/TVI, corrigida das nossas premissas em relação aos indecisos, estava razoavelmente certa.

http://fantasticomelga.blogspot.com/2011/05/minha-sondagem.html

sexta-feira, junho 03, 2011

Alerta político-sanitário

Os meios de comunicação social têm vindo a anunciar uma potencial chegada da bactéria E. Coli a Portugal, fazendo-nos temer pela nossa saúde, bem como obrigando-nos a questionar sobre a maior ou menor segurança dos produtos que ingerimos.

Creio que os portugueses já, há muito, se habituaram a temer pelo seu futuro e segurança, já que uma estirpe gravíssima e muito peculiar da E. Coli deu entrada no nosso país há coisa de 6 anos. Refiro-me à estirpe a que chamam José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, cujas particularidades representam uma ameaça deveras grave e contagiosa para a saúde física e mental de todos os que sejam afectados por ela.

É por este motivo que, de seguida, se indicam as principais características desta estirpe altamente maligna, agressiva e perversa, assim como a sintomatologia associada à exposição à E.Coli José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, para que todos possam fazer um rastreio a partir de casa...

Factores de risco para exposição à bactéria:
- Nacionalidade portuguesa
- Residência principal em Portugal
- Honestidade
- Posto de trabalho legitimamente conquistado
- Frequência do ensino obrigatório sem reprovações e sem recurso a um Centro de Novas Oportunidades

Principais características*:
- Hipocrisia
- Cinismo
- Corrupção
- Persistência no erro
- Despotismo
- Cegueira
- Mentira
- Prepotência
- Alucinações
- Megalomania
- Elevada propensão para psicopatologias como esquizofrenia, doença bipolar, personalidade múltipla, autismo, exibicionismo, perturbação obsessiva-compulsiva e perturbação de hiperactividade com défice de atenção.

*Atenção, todas estas especificidades poderão apresentar-se camufladas, sob a forma de espírito de sacrifício, altruísmo, preocupação com os mais frágeis, pensamento socialista, entre outras.

Possíveis consequências da exposição à bactéria:
- Empobrecimento (sobretudo caso o rendimento mensal da vítima seja inferior a 3000 euros)
- Diminuição acentuada do bem-estar económico, social e psicológico
- Exploração laboral ou extinção de emprego
- Déficit na aquisição de conhecimentos escolares (no caso de vítimas em idade escolar) e produção massiva de diplomas
- Propensão para ser enganado
- Dificuldades acentuadas em compreender linguagem política e económica, sobretudo se esta for produzida pelo PS
- Aumento no montante gasto em saúde (quer pelo preço dos medicamentos, quer pela necessidade acrescida de os adquirir perante a conjuntura sócio-económica causada pela bactéria)
- Irritabilidade
- Depressão

Por fim é imperativo anunciar que, mesmo após a eliminação desta bactéria, é expectável que permaneçam, durante algum tempo (ainda indeterminado), certos efeitos secundários, ainda não totalmente identificados e quantificados, como por exemplo: dívida, corrupção, miséria, dependência externa, incompreensão, etc., etc., etc.

Alerta-se também a população, para o risco de surgimento de novas bactérias, sobretudo a partir do próximo domingo, 5 de Junho, a partir das 20h00 e por tempo indeterminado e cuja propagação e efeitos ainda não se afiguram possíveis de prever.

Agradece-se à população que, caso detecte mais alguma característica, sintoma ou efeito secundário, o transmitam às autoridades competentes.

Abutres qualificados

Sabiam que os perítos internacionais que vão executar o plano de austeridade da Grécia (que, aparentemente, os próprios gregos não conseguem aplicar) trabalham para as mesmas entidades que ajudaram a Grécia a cavar o fosso em que se encontra? Falo de bancos de investimento, firmas de consultadoria, escritórios de advogados, agências de várias estirpes e feitios... O que se chama ganhar em todos as frentes! Essa malta começará a prestar os seus valiosos serviços nos processos de privatização impostos com carácter de urgência pela Troika para realizar dinheiro tão depressa quanto possível. Parece-me ser do mais elementar bom senso que vendas à pressa, sobretudo, nas actuais circunstâncias de sub-avaliação dos activos, não são do interesse do vendedor. Mas, bons negócios se esperam para compradores com a fortuna de ter a liquidez que tanta falta faz.

quarta-feira, junho 01, 2011

Desconstruir a Europa

Os dirigentes europeus devem estar apenas a tentar ganhar tempo, sabe deus a que preço e com que amplificação de efeitos retardados. Explico-me. O que eles pensam é: vamos ajudar agora a malta do sul durante uma conjuntura adversa porque o ciclo económico inverter-se-á daqui a pouco e tudo tornará à normalidade. O problema é que divergência persistente entre países membros de uma união monetária é fatal e temo que tal divergência, no contexto europeu, seja mais estrutural do que conjuntural. Dir-se-á: o Tenessee nos EUA também está persistentemente atrasado em relação a outros estados americanos e não é por isso que o dólar fica em crise. Pois, mas as pessoas do Tenessee podem passar para outros territórios com mais facilidade do que os portugueses ou gregos passam para a Alemanha, a Suécia ou a Finlândia. O mercado de trabalho (e de bens, serviços e capitais) é mais aberto e permeável na América porque as barreiras culturais, linguísticas, legais, etc. são muito menores do que na Europa, esta manta de Estados legitimamente orgulhosos dos seus pergaminhos. Por outro lado, o Tenessee pode beneficiar de uma transferência sustentada de fundos do orçamento federal. Existe ali uma união, simultaneamente, monetária, orçamental e política, o que claramente (ainda) não é o caso na Europa.

Portanto, não questionar já os fundamentos e a viabilidade da actual união monetária europeia implicará injectar fundos (à pressa e cada vez mais) em economias estruturalmente carentes que apenas adiam o problema. Ou: (a) a conjuntura fica milagrosamente expansiva em toda a Europa de forma permanente, contagiando positivamente os Estados-membros actualmente em crise e “arrastando-os” para cima, (b) os Estados-membros mais prósperos aceitam continuar a subsidiar o status-quo das “economias problemáticas” (como o orçamento federal ajuda o Tenessee), (c) esta bomba chamada euro (na sua actual configuração) vai explodir com grande estrondo e sacrifício daqui a algum tempo. A hipótese (a) parece-me fantasista. Serviu só para parodiar a situação. Até porque o crescimento global vem cada vez mais de fora da Europa… A hipótese (b) implicaria fuga para a frente, ou seja, avançar a todo o gás para o federalismo, aprofundando uma solidariedade cada vez mais escassa. A hipótese (c), infelizmente, parece-me a mais provável e poderia conduzir ao desmembramento da actual união monetária europeia, eventualmente substituída por duas sub-uniões com dois euros, um euro de primeira dos “países virtuosos” do norte e um euro de segunda dos “países indisciplinados” (mas criativos e bem dispostos…) do sul. Naturalmente, uma outra hipótese mais radical e destrutiva para os países do sul seria pura e simplesmente abandonar o euro e passarem a ligar-se ao resto da união por laços de pura união comercial, como existia antes da “ilusão euro”. Sejamos claros: sair do euro e reintroduzir o escudo de forma instantânea, implicaria uma brutal desvalorização da economia nacional. Tão simples como: os passivos herdados em euros continuariam em euros enquanto os activos passariam a ser denominados numa moeda que ninguém quereria no exterior…

Era importante que a malta que nos governa, não apenas aqui, mas em Berlim, Paris, Madrid, Roma, parassem um bocado para discutir “the big picture” e ter coragem para tomar as verdadeiras, grandes decisões que passam pela maneira como tem sido construída a Europa e como pode ser reconstruída ou desconstruida para bem de todos os parceiros.

sábado, maio 28, 2011

Um Soneto

Estas linhas preambulares visam contextualizar o poema que se segue no actual panorama apocalíptico do país.
Assim, gostaria que a minha crítica política, nele patente, fosse publicada de modo a tornar plural a perspectiva singular do "eu" poético, ante a importância do próximo acto eleitoral - pelo menos simbólica.
Em tempos de grande agitação social, um pouco por toda a Europa, seja este um gesto siamês do protesto da nossa vizinha Espanha, prenhe de autêntica e genuína LIBERDADE!



José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa

Com mofo nas ideias vai dizendo
Verdades mentirosas com afã…
E o Luso Povo cala e vai comendo
A envenenada pútrida maçã.

Quem estes versos for ainda lendo,
Talvez enxergue o Sol pela manhã…
Senão, mais vale apenas ir morrendo
Na alarve súcia-lista de Satã.

Tantos anos de História azul e branca,
Onde o mar é do Céu abismo e espelho
E a rosa não floresce em letal punho!...

É tempo de soltar do Sonho a tranca
E dar a Portugal este conselho:
Um Abril também pode ser em Junho!


18 de Maio de 2011
Paulo Ilharco