"Gostava de mexer no teu olhar triste
E retocá-lo de luz brilhante e radiosa.
Gostava de conquistar o teu desencanto
e depois trocá-lo por uma aguarela
cheia de mar
e de cores vivas
e de realidades sonhadas
e de passados ultrapassados
e de horizontes risonhos."
quinta-feira, maio 12, 2011
Soberania
A quantidade e tecnicidade de trabalho a fazer, já nas próximas semanas, para cumprir com o estabelecido no memorando de entendimento com a troika, ainda por cima num momento de transição do governo, torna inevitável o recurso massivo a consultores. De resto, o próprio memorando faz referência a estudos e auditorias em várias áreas a ser executados por peritos internacionais. Espero que o maná de comissões a pagar a todos estes especialistas esteja especificamente coberto pelo valor da “ajuda” acordada...
Não ficaria surpreendido se as agências de rating baixassem de novo a notação de crédito do país unicamente em consequência dos resultados das eleições de 5 de Junho. Aliás, a Standard & Poor’s já disse claramente que um resultado desfavorável à constituição de um governo de maioria estável, empenhado em executar escrupulosamente as medidas do memorando, poderia levar a uma redução do rating, o que, por seu lado, conduziria a mais dificuldades de financiamento alternativo da economia. Ou seja, os cidadãos são encorajados a votar "certo" se não quiserem sofrer ainda mais. Só falta as agências de rating indicarem com o seu proverbial rigor uma tabela com os resultados eleitorais desejáveis. Soberania ? Democracia ? Conceitos redundantes quando falta o dinheiro e mandam os credores internacionais.
Não ficaria surpreendido se as agências de rating baixassem de novo a notação de crédito do país unicamente em consequência dos resultados das eleições de 5 de Junho. Aliás, a Standard & Poor’s já disse claramente que um resultado desfavorável à constituição de um governo de maioria estável, empenhado em executar escrupulosamente as medidas do memorando, poderia levar a uma redução do rating, o que, por seu lado, conduziria a mais dificuldades de financiamento alternativo da economia. Ou seja, os cidadãos são encorajados a votar "certo" se não quiserem sofrer ainda mais. Só falta as agências de rating indicarem com o seu proverbial rigor uma tabela com os resultados eleitorais desejáveis. Soberania ? Democracia ? Conceitos redundantes quando falta o dinheiro e mandam os credores internacionais.
domingo, maio 08, 2011
Memorando
O memorando de entendimento (clicar no título deste post) assinado com a troika no dia 4 de maio, contém um conjunto de medidas em vários sectores destinadas a reduzir o défice corrente das contas publicas de cerca de 10000 milhões de euros em 2011 (5.9% do PIB) para cerca de 5000 milhões de euros em 2013 (3% do PIB) e a gerar excedentes que reduzam a dívida e melhorem a capacidade de serviço da dívida. Indicam-se grandes prioridades, directrizes, áreas de melhoria da eficiência e de eliminação do desperdício. Subsiste algum grau de discricionaridade por parte das autoridades portuguesas (leia-se: próximo governo) quanto ao modo concreto como tais medidas serão aplicadas, mas, ao mesmo tempo, estabelece-se um programa rigoroso, com datas precisas para controlo da execução do programa de ajustamento. Caso os resultados pretendidos não sejam efectivamente alcançados nessas datas, a troika reserva-se o direito de não nos emprestar a totalidade nos montantes e datas previstos. A monitorização pelos peritos internacionais será trimestral a começar em setembro deste ano. Por conseguinte, um aspecto crítico em tudo isto será a execução pelo próximo governo das medidas acordadas. Esperemos que exista genuina vontade, recursos (técnicos), procedimentos e sistemas para cumprir o que foi subscrito de acordo com o calendário estabelecido que é ambicioso, sendo que as resistências serão mais do que muitas, sobretudo por parte das corporações e dos beneficiários de rendas de situação que terão mais a perder.
Outra conversa longuíssima e estafadíssima tem a ver com os motivos pelos quais se chegou a este ponto e foi preciso que tecnocratas do FMI, BCE e Comissão Europeia redigissem substancialmente o programa do governo português, pelo menos, dos próximos 3 anos...
Outra conversa longuíssima e estafadíssima tem a ver com os motivos pelos quais se chegou a este ponto e foi preciso que tecnocratas do FMI, BCE e Comissão Europeia redigissem substancialmente o programa do governo português, pelo menos, dos próximos 3 anos...
E tive vontade de lhe dizer qualquer coisa novo, mas não havia nada de novo. Só o costume, banalidades, o ruido e a poeira dos dias que se seguem rumo ao fim, como um rosário de preces estafadas e sem consequências. Estava deitado. Olhou-me fixo, com umas olheiras certeiras a dizer que não desistia, apesar do frio e da chuva da Primavera. Respirou fundo à procura de força, esboçando um sorriso para disfarçar a flacidez do corpo e da alma. Não precisou de dizer nada para além de "chega-me o jornal". Queria claramente outras notícias, um golo no sofrimento. Mas o jogo continuava empatado, no melhor dos casos, à espera de prolongamento. As persianas estavam em baixo, produzindo uma obscuridade clemente. Abandonou o jornal. Fechou e abriu os olhos, muito lentamente, à procura de uma pausa na dor e mandou-me um olhar de quem diz "não te preocupes, obrigado, agora fico bem". Disse "até breve" e fechei a porta do quarto com heroismo em direcção a outras urgências e com o coração embrulhado em fatalidade.
segunda-feira, maio 02, 2011
Atentados
Com o devido respeito pela relevância da morte de Bin Laden, o paroxismo mediático que rodeia esse facto leva-me a supor que os jornalistas gostam muito mais das notícias que eles próprios fabricam do que o comum dos cidadãos. Na verdade, as notícias são claramente comandadas pela oferta que gera a sua procura. Os jornalistas embandeiram em arco, dissecam a "coisa" até à náusea. E os consumidores aparentemente prestam-se a esse jogo... Num país a brincar com a bancarrota e com o desemprego a mais de 11%, o principal Telejornal do país dedica quase 1 hora à presumível eliminação do califa do crime global. E no meio de Bin Laden, outra enormíssima catástrofe: filas intermináveis de cidadãos (legitimamente) raivosos à espera de vez para a marcação de uma consulta no hospital dos Capuchos em Lisboa.
quarta-feira, abril 20, 2011
terça-feira, abril 19, 2011
Chuva a correr
Enquanto corro, num céu de nuvens incontinentes, as àrvores começam a chorar, antes da chuva, e o vento fustiga-lhes a alma.
As àrvores ao longo da estrada, disciplinadas, em fila, ondulam, fazendo figuras que posso inventar, enquanto corro e sinto o suor misturado com algumas tímidas gotas de chuva a cair pela cara abaixo.
Misturam-se as lágrimas das àrvores com o meu esforço que esconde as minhas lágrimas.
domingo, abril 17, 2011
Poeira
Poeira são partículas de mundo que repousam sobre o esquecimento.
Poeira é o paradoxo do inerte.
Poeira é um filtro que transgride a evidência.
A poeira desfoca a geometria do descanso.
A poeira desce, tropeçando na luz e deixa-se ficar, resignada, até que um sopro a incomode.
A poeira mexe-se, sem querer, até parar de novo, sem querer.
Vinda da finíssima desagregação das coisas.
A poeira é divina porque rigorosamente eterna.
Limita-se a mudar de forma e de lugar.
A poeira vive fastidiosamente à mercê de impulsos.
Odeio poeira.
Poeira é o paradoxo do inerte.
Poeira é um filtro que transgride a evidência.
A poeira desfoca a geometria do descanso.
A poeira desce, tropeçando na luz e deixa-se ficar, resignada, até que um sopro a incomode.
A poeira mexe-se, sem querer, até parar de novo, sem querer.
Vinda da finíssima desagregação das coisas.
A poeira é divina porque rigorosamente eterna.
Limita-se a mudar de forma e de lugar.
A poeira vive fastidiosamente à mercê de impulsos.
Odeio poeira.
Sem surpresa
O facto de estarmos em contra-ciclo terá pelo menos um efeito positivo: a procura externa poderá ajudar a sair do "buraco", desde que a oferta de exportações responda à altura, o que parece ser o caso. A dívida só pode reduzir-se com um desvio da produção da procura interna para a procura externa, e com uma contração das importações. Ou seja: é urgente gerar excedentes da balança de transações correntes para inverter o saldo da balança de capitais. Sem moeda própria, não podemos desvalorizar, o que ajudaria a obter esse ajustamento. Não podendo contar com o efeito nominal, tudo deverá passar pela esfera real da economia: redução dos custos de produção, principalmente, mediante redução dos salários reais; diminuição da procura interna para fazer baixar as importações e canalizar produção para as exportações. As medidas adicionais de austeridade irão obviamente nesse sentido.
terça-feira, abril 05, 2011
Oração da crise
Isto vai até partir. Manter os pés assentes no chão e olhar para além da ponta do nariz é o que é preciso. A crispação passa, as dificuldades passarão, o povo fica e Portugal também. Os cidadãos mostrarão mais uma vez a sua capacidade de continuar a fazer Portugal... apesar dos défices e das dívidas, das más decisões, dos ódios ao nível mais alto do poder que custam enormemente ao país. Os portugueses devem governar-se para além do desgoverno dos seus dirigentes. Aprendam com os italianos, inspirem-se na sua colossal criatividade e astúcia, riam dos políticos e, ao contrário dos italianos, mandem-nos onde devem ir.
domingo, abril 03, 2011
Coisas de putos e dos pais deles
A obesidade infantil é uma prova eloquente de que qualquer coisa não vai bem com a criança e sobretudo com a relação entre a criança e as pessoas que dela se ocupam, normalmente, os pais. Pode ser um sinal de acontentamento fácil das pulsões e vontades da criança, revelando ausência ou fraqueza de autoridade, demissão relativamente à imposição dessa coisa terrivel mas incontornável que é a privação e a recusa. A permissividade em relação a comer mal ou demais pode perversamente dar aos pais a impressão de estar a dar às crianças uma prova de afecto, claramente errada, mas que pode servir como uma espécie de tranquilizante (para os pais) e de vitória (para os filhos). Pode também simplesmente significar desleixo, incúria, desistência, ignorância.
Sempre sobre pais e filhos... vejo nos jardins putos e criancinhas de tenra idade a andar de bicicleta, triciclo ou trotineta a uns escassos 50 cm do chão com a cabeça hiper-protegida por impressionantes capacetes com desenhos dos heróis que por aí andam a encher os ecrãs. No meu tempo (que foi certamente o meu tempo e não o dessas criancinhas, nem talvez dos pais delas), os putos andavam de bicicleta à maluca, pela estrada, sem capacetes nem joelheiras. De vez em quando, partiam a cabeça, rasgavam as calças e exibiam com orgulho arranhões e crostas nos joelhos e noutras partes do corpo. Não me consta que alguém tenha morrido ou ficado estropiado. A obsessão pela segurança e pela protecção contra todos os riscos frequentemente esconde este simples facto de que não existem capacetes contra a falta de presença e de afectos. E dá-me a impressão de que nos tempos actuais esse é o principal "acidente" de que as crianças são vítimas.
Sempre sobre pais e filhos... vejo nos jardins putos e criancinhas de tenra idade a andar de bicicleta, triciclo ou trotineta a uns escassos 50 cm do chão com a cabeça hiper-protegida por impressionantes capacetes com desenhos dos heróis que por aí andam a encher os ecrãs. No meu tempo (que foi certamente o meu tempo e não o dessas criancinhas, nem talvez dos pais delas), os putos andavam de bicicleta à maluca, pela estrada, sem capacetes nem joelheiras. De vez em quando, partiam a cabeça, rasgavam as calças e exibiam com orgulho arranhões e crostas nos joelhos e noutras partes do corpo. Não me consta que alguém tenha morrido ou ficado estropiado. A obsessão pela segurança e pela protecção contra todos os riscos frequentemente esconde este simples facto de que não existem capacetes contra a falta de presença e de afectos. E dá-me a impressão de que nos tempos actuais esse é o principal "acidente" de que as crianças são vítimas.
sábado, abril 02, 2011
Do amor como artefacto (avariado?)
"El capitalismo actual involucra la vida entera y su máxima de consumo lo es también para emociones y sentimientos, que han pasado a ser una mercancía más y, por tanto, susceptible de obsolescencia y caducidad (amén de banalidad), igual que las relaciones personales han devenido ocasión para la transacción y el dominio. No son, pues, los actuales los mejores tiempos para la experiencia amorosa, pero acaso sea ésta el último lugar que nos queda para cobijarnos, cuando la dureza del mundo exterior parece estar llegando a su paroxismo. O si prefieren otra formulación de la misma cruel paradoja: estamos a punto de quedarnos sin amor precisamente cuando más lo necesitábamos. Y nos lo van a arrebatar con el mismo argumento con el que nos lo arrebatan todo: en nombre de la libertad. Como ocurre en otras esferas de la existencia humana -especialmente en la económica, como la presente crisis está mostrando con lacerante evidencia-, cuando el orden capitalista nos promete libertad, adonde realmente nos está arrojando es al más absoluto desamparo." (extraído daqui)
sexta-feira, abril 01, 2011
Desculpe, podia repetir?
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=477229 Então deita o governo abaixo por causa do PEC e agora apoia o governo em caso de FMI? Sócrates: regressa! Estás perdoado. Também não é bem assim... porque pagar taxas de juros cada vez mais altas para evitar a entrada do FMI até às eleições, passando o ónus ao PSD e aparecendo como exemplo de patriotismo por recusar a ajuda externa a expensas do país, também não se faz... Mas percebo: depois de passar meses a resistir, ficar no último mês, em regime de gestão, com o menino nos braços, passando-o depois bem lavadinho ao PSD, que se apresentará como não tendo alguma culpa pela política que será obrigado a executar... também custa. No meio disto tudo tramam-se os do costume...
terça-feira, março 29, 2011
Demasiado pouco para tanta Nação
Era uma vez um senhor bem parecido com voz de locutor da rádio que falava, falava, falava e não dizia nada senão banalidades neo-liberais sem nexo. Esse senhor queria ser primeiro-ministro e não sabia bem o que isso queria dizer, para além de uns comícios e entrevistas de onde saíam umas declarações avulsas, colagens de ideias incompreendidas e incompreensíveis. O que é mais grave é que esse senhor se rodeava de outros senhores da mesma estirpe que falavam, falavam, falavam, mas não sabiam fazer nada senão dar-se ares de patética importância. E esse grupo de cordel de uma tribo mais vasta de cordiais inimigos, encabeçada por uma criatura seráfica casada com uma Maria qualquer de nariz empinado e católica arrogância, ambicionava ocupar ministérios, institutos e outros lugares de doméstica mordomia. Eis senão quando, o povo abriu os olhos e disse NÃO. Mas, esse povo ficou sem jeito porque isso queria talvez dizer voltar para trás, voltar aos braços de quem patrioticamente o tinha arruinado. E o povo sentiu-se mais sózinho e perdido do que nunca, convencido de ter de fazer por si, apesar de todos esses senhores que querem mandar sem saber como, mas sabendo muito bem porquê...
quinta-feira, março 24, 2011
Que deus nos ajude!
O carinha larocas que se está a bater ao piso para ser nosso Primeiro-ministro disse que não conhece a situação financeira do país mas admite que, se fosse necessário, defenderia mais um aumento da taxa geral do IVA. Eu nem queria acreditar: então o homem não sabe qual é a situação financeira do país? E deita abaixo o governo porque o país não suporta mais austeridade e, ao mesmo tempo, aceita a possibilidade de aumentar o IVA? Que deus nos ajude!
O Eng° Sócrates foi a Bruxelas armado em incompreendido herói nacional e a Sra Merkel teve pena da única criatura com sentido de responsabilidade neste país de bárbaros que passa a vida de mão estendida aos contribuintes alemães. E chegou ao ponto de criticar com veemência e revolta inusitada os deputados lusos que reprovaram os esforços do seu amigo Sócrates de pôr o pessoal na ordem. Alguém falou em soberania nacional, essa coisa que acaba quando se depende dos outros para comer?
Isto agora vai ser assim: ou governo de gestão nos próximos 2 meses até eleições antecipadas ou governo de iniciativa presidencial.
No primeiro caso, não estou a ver como é que um tal governo teria legitimidade para negociar a ajuda externa de que o país precisa. Chamar a isso acto de gestão corrente parece-me um eufemismo, mas o constitucionalista Jorge Miranda argumenta com "a defesa do supremo interesse nacional", acrescento eu, "em caso de catástrofe iminente".
No segundo caso, não me parece que se consiga formar uma coligação com maioria parlamentar minimamente credível e estável... a não ser que PS e PSD se metam de acordo ou que todos os partidos, à excepção do PS, se metam de acordo.
Parece-me mais provável a primeira hipótese e resta-me esperar que, no entretanto, não exista uma situação muito grave de falta de liquidez. Senão, que deus nos ajude!
Outra possibilidade seria a nomeação pelo Presidente de um "governo técnico" e apartidário, apoiado pelo Parlamento até às eleições, cuja função seria exactamente minimizar os estragos de um pacote de ajuda externa que, de qualquer maneira, iria vincular a acção de um novo governo saído das eleições. E que governo seria esse? A lógica seria PSD+CDS, supondo que o PSD não obteria maioria absoluta. Mas, tudo pode acontecer, incluindo os ganhos da paradoxal vitimização em curso do Eng° Sócrates e do PS. E então poderiamos voltar à estaca zero. Mais uma vez, que deus nos ajude!
Senão, poderiamos lançar um concurso público internacional para um contrato de administração do país por gente com juizo e tecnicamente preparada, contando com a cumplicidade obediente dos políticos indígenas, incapazes de governar a Pátria sózinhos.
O Eng° Sócrates foi a Bruxelas armado em incompreendido herói nacional e a Sra Merkel teve pena da única criatura com sentido de responsabilidade neste país de bárbaros que passa a vida de mão estendida aos contribuintes alemães. E chegou ao ponto de criticar com veemência e revolta inusitada os deputados lusos que reprovaram os esforços do seu amigo Sócrates de pôr o pessoal na ordem. Alguém falou em soberania nacional, essa coisa que acaba quando se depende dos outros para comer?
Isto agora vai ser assim: ou governo de gestão nos próximos 2 meses até eleições antecipadas ou governo de iniciativa presidencial.
No primeiro caso, não estou a ver como é que um tal governo teria legitimidade para negociar a ajuda externa de que o país precisa. Chamar a isso acto de gestão corrente parece-me um eufemismo, mas o constitucionalista Jorge Miranda argumenta com "a defesa do supremo interesse nacional", acrescento eu, "em caso de catástrofe iminente".
No segundo caso, não me parece que se consiga formar uma coligação com maioria parlamentar minimamente credível e estável... a não ser que PS e PSD se metam de acordo ou que todos os partidos, à excepção do PS, se metam de acordo.
Parece-me mais provável a primeira hipótese e resta-me esperar que, no entretanto, não exista uma situação muito grave de falta de liquidez. Senão, que deus nos ajude!
Outra possibilidade seria a nomeação pelo Presidente de um "governo técnico" e apartidário, apoiado pelo Parlamento até às eleições, cuja função seria exactamente minimizar os estragos de um pacote de ajuda externa que, de qualquer maneira, iria vincular a acção de um novo governo saído das eleições. E que governo seria esse? A lógica seria PSD+CDS, supondo que o PSD não obteria maioria absoluta. Mas, tudo pode acontecer, incluindo os ganhos da paradoxal vitimização em curso do Eng° Sócrates e do PS. E então poderiamos voltar à estaca zero. Mais uma vez, que deus nos ajude!
Senão, poderiamos lançar um concurso público internacional para um contrato de administração do país por gente com juizo e tecnicamente preparada, contando com a cumplicidade obediente dos políticos indígenas, incapazes de governar a Pátria sózinhos.

Será que ele leu a carta que lhe escrevi? É que parece ter seguido o meu conselho...
(Embora, claro, como servo desta pátria, não se vá embora sem se assegurar que o povo não o quer mesmo a governar...)
quarta-feira, março 23, 2011
Alternativas?
O que está é mau. O que está para vir é tão mau ou pior. Não há liderança de qualidade no país dos partidos. As condições actuais seriam, noutras épocas, propícias a messias e ditaduras. Isso não é desejável. Nem praticável no actual contexto.
Derrogue-se consensualmente a "democracia sem escolhas" em que caimos e nomeie-se um governo técnico para gerir bem o país no respeito da justiça social e da racionalidade económica. Essa derrogação consensual da democracia seria, paradoxalmente, um acto de generosidade democrática, supondo a renúncia ao poder por parte de uma plataforma pluri-partidária e patriótica que o cederia a quem é competente e responsável. A pertença a partidos deixaria de ser critério de escolha de quem governa, prevalencendo a competência e um genuino compromisso com o interesse público.
Ingenuidade? Utopia?
Alternativas sâo benvindas a um novo governo da rapaziada do PSD e do CDS que, sequiosa de poder, executará um programa do FMI e quejandos, culpando o PS de tal desgraça!...
Derrogue-se consensualmente a "democracia sem escolhas" em que caimos e nomeie-se um governo técnico para gerir bem o país no respeito da justiça social e da racionalidade económica. Essa derrogação consensual da democracia seria, paradoxalmente, um acto de generosidade democrática, supondo a renúncia ao poder por parte de uma plataforma pluri-partidária e patriótica que o cederia a quem é competente e responsável. A pertença a partidos deixaria de ser critério de escolha de quem governa, prevalencendo a competência e um genuino compromisso com o interesse público.
Ingenuidade? Utopia?
Alternativas sâo benvindas a um novo governo da rapaziada do PSD e do CDS que, sequiosa de poder, executará um programa do FMI e quejandos, culpando o PS de tal desgraça!...
in FT
“No political party in Portugal wants to preside over a bail-out, but any new government must realise that a rescue will not address the country’s largest longer term problem: poor economic prospects. (…) [E]uro membership has given the country a “lost decade”. How different to Ireland, which suffered a damaging bubble. Ireland’s problem, however, is acute (a banking collapse), while Portugal’s is chronic. Austerity measures are necessary but temporary measures to address a short term crisis. It will take much bolder action to restructure Portugal’s anaemic economy.”
terça-feira, março 22, 2011
O circuito da dívida
Quem são os famosos "mercados", os credores externos que deixaram de acreditar na economia portuguesa, que pedem taxas de juro cada vez mais altas, que não perdem a mínima oportunidade para se ir embora, deixando o financiamento do Estado cada vez mais nas mãos do Banco Central Europeu e da exausta poupança doméstica? [Os bancos portugueses têm sido apenas instrumentos de injecção de poupança externa na economia portuguesa.] Trata-se, essencialmente, de companhias de seguros, fundos de investimento, bancos, fundos soberanos, uma grande parte de origem alemã, francesa e britânica. Portanto, se decidirem participar num programa de financiamento excepcional ao Estado português, porventura ao lado do FMI, os chefes de Estado alemão, francês e britânico estarão na prática a dar dinheiro aos portugueses para que eles possam reembolsar as dívidas aos bancos dos seus países. Trata-se, na prática, de mobilizar dinheiro dos contribuintes alemâes, franceses e britânicos para evitar que os seus próprios bancos percam dinheiro com devedores de mais um país perdulário. Portanto, prestamistas imprevidentes serão mais uma vez imunes às consequêcias das suas más decisões, naturalmente por nobres motivos sistémicos.
Disto se continua a alimentar o "moral hazard" dos sistemas financeiros, fabricantes compulsivos de bolhas intermináveis que produzem lucros privados e prejuizos públicos...
Disto se continua a alimentar o "moral hazard" dos sistemas financeiros, fabricantes compulsivos de bolhas intermináveis que produzem lucros privados e prejuizos públicos...
segunda-feira, março 21, 2011
domingo, março 20, 2011
Futurologia política de cordel
Na semana que começa amanhã, o PEC4 será apresentado ao Parlamento. Segundo tudo indica, na quarta-feira, os deputados dirão "não" às medidas que, segundo o governo, seriam necessárias para convencer os outros países da União Europeia a tomar decisões favoráveis a Portugal na cimeira de quinta e sexta-feira. Vejamos o que decide o governo na sequência de uma reprovação do Parlamento. Vai a Bruxelas? Para dizer que as medidas não serão aplicadas? Como é que esse desfecho influenciará as decisões do Conselho de Ministros da UE? Provavelmente, na semana que está para começar, perderemos governo, os credores externos ficarão ainda mais preocupados, uma intervenção do FMI/fundo europeu de estabilização será ainda mais necessária para evitar taxas de juro exorbitantes e, no limite, bancarrota.
O PSD precipitará tudo isto porque, essencialmente, acha que precisamos do FMI, porque quer governar o mais depressa possivel, executando as medidas do FMI que se tornaram inevitáveis por causa da má gestão do PS. Antes de aqui chegar, teremos um pedido de demissão do actual governo, que passará a uma fase de gestão, o Presidente convocará eleições e talvez o PSD ganhe sem maioria absoluta, devendo pactuar com o Paulo Portas.
Talvez me engane. De qualquer maneira, acho que, de tudo isto, sairemos ainda mais desgraçados, ou seja, com as contas em ordem dentro de 2 ou 3 anos, mas continuando sem uma estratégia credível de desenvolvimento e condenados à estagnação.
O PSD precipitará tudo isto porque, essencialmente, acha que precisamos do FMI, porque quer governar o mais depressa possivel, executando as medidas do FMI que se tornaram inevitáveis por causa da má gestão do PS. Antes de aqui chegar, teremos um pedido de demissão do actual governo, que passará a uma fase de gestão, o Presidente convocará eleições e talvez o PSD ganhe sem maioria absoluta, devendo pactuar com o Paulo Portas.
Talvez me engane. De qualquer maneira, acho que, de tudo isto, sairemos ainda mais desgraçados, ou seja, com as contas em ordem dentro de 2 ou 3 anos, mas continuando sem uma estratégia credível de desenvolvimento e condenados à estagnação.

Ontem à noite a LUA estava enorme, brilhante, formosa.
Não fui só eu quem a viu assim.
Não se via assim apenas onde eu estava.
Pessoas de vários sítios da Europa confirmaram que a LUA estava bonita e generosa em todo o lado.
Há coisas que nos ligam para além de quem somos e de onde estamos. E ainda bem. Pena é que essas oportunidades de (humana) comunhão não sejam mais frequentes.
sexta-feira, março 18, 2011
Os meus modestos conhecimentos de economia levam-me a acreditar neste senhor e a confiar nos seus argumentos

Frequentemente apelidado da "voz da consciência" da economia, Amartya Sen teme o impacto que as medidas de austeridade postas em curso por vários Governos europeus, entre os quais Portugal, possam ter na economia e nas conquistas do Estado social.
O prémio Nobel das Ciências Económicas em 1998 esteve em Portugal para receber o doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra e falou ao PÚBLICO sobre os desafios que a crise da dívida europeia está a colocar aos países e à própria união monetária, bem como sobre o seu novo livro, A Ideia de Justiça.
Na conferência que deu, na segunda-feira, na Faculdade de Economia de Coimbra, disse que, actualmente, há "uma grande tentação de ter um zelo intransigente" quanto à disciplina orçamental, naquilo que caracteriza como uma abordagem de "sangue, suor e lágrimas". Acha que aqueles países europeus, como Portugal, que estão a impor pacotes de austeridade, estão a seguir no caminho errado?
Não estava particularmente a falar de Portugal. Não sei o suficiente a esse nível. Mas há uma visão a nível europeu de que não só a dívida pública deve ser eliminada - ou, pelo menos, reduzida drasticamente -, mas também que isso deve ser feito imediatamente. É muito difícil para cada país afastar-se desta visão europeia geral, até porque os mercados estão a pedir isso. Os países não terão, por isso, grande possibilidade de escolha. Mas esta ideia [de austeridade] não é inteiramente correcta. As reduções de défices gigantes que ocorreram no passado, como por exemplo a dívida contraída por vários países europeus junto da América durante a Segunda Guerra Mundial, foram possíveis apenas numa situação de grande crescimento económico, que é sempre uma altura propícia à redução da dívida. Do mesmo modo, quando Bill Clinton se tornou Presidente dos EUA, o país estava com um elevado nível de dívida e, quando ele deixou de ser Presidente, já não tinha, o que se deveu a um crescimento económico elevado.
Mas agora não há esse crescimento...
Um dos problemas que fazem com que, agora, o corte da dívida seja tão severo é que vai levar à redução do crescimento económico. E isso torna muito difícil amortizar a dívida. Por isso, como economista, acho que é preciso que os Governos ajam de uma forma mais cuidadosa e não apenas nervosamente devido à dimensão da dívida. Deviam esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública. A economia não é apenas a política certa, é também o tempo certo para aplicar aquela política.
Uma das consequências destes planos de austeridade é a redução dos salários, dos apoios aos desempregados e dos benefícios sociais em geral. Enquanto investigador da chamada "economia do bem-estar", que impacto é que acha que estes planos terão nestes países?
Muitos destes programas de austeridade têm um impacto negativo no crescimento económico e no nível de confiança da economia. Não estou a dizer que qualquer tipo de medida de austeridade é má. Mas temos de ser inteligentes na escolha das medidas de austeridade. O problema é que os países, individualmente, podem não ter, neste momento, muita escolha devido à leitura que a União Europeia fez da situação e, sobretudo, devido aos mercados financeiros. Estes são muito guiados pelas agências de rating e estas agências, como sabemos, cometeram erros enormes durante a crise de 2008, mas estão agora de volta e muito poderosas.
Foi um dos apoiantes do Spinelli Group, criado no ano passado para retomar a defesa do federalismo da União Europeia.
Fui muito influenciado por Altiero Spinelli e pelas suas ideias sobre a União Europeia. Ele era o meu sogro, era padrasto da minha última mulher, Eva Colorni. Via-o todos os Verões.
Mas defende, portanto, essas ideias... Acha que a actual crise da dívida soberana veio dar-lhe razão e mostrar que a Europa precisa de ser mais do que uma união monetária?
Essa é a minha visão. Aliás, penso que a sequência que a Europa seguiu não foi a melhor. Teria sido melhor começar com uma unidade política antes de pôr tanto dinheiro na união. Temos uma situação em que as políticas orçamentais são totalmente diferentes, as políticas de impostos e as políticas de investimento também, o que cria muitos problemas. Criar uma união monetária sem união política é um erro.
O seu novo livro, A Ideia de Justiça, oferece uma nova visão alternativa às teorias da justiça dominantes que, diz, levaram o mundo no sentido errado. Porquê?
O meu novo livro é um livro de filosofia, uma maneira de pensar sobre os problemas, problemas da economia, da sociedade, da política e da democracia. O que defendo é que a melhor maneira de pensar sobre estes problemas reside no debate público e no raciocínio público. Pegando no que falámos antes sobre os planos de austeridade, acho que deveriam ser alvo de um maior debate, em vez de se deixar a discussão apenas nas mãos dos mercados financeiros e dos bancos. A discussão deve estar nas mãos do público. É preciso diálogo público e, claro, conhecimento técnico, inclusive de economistas. Muitos economistas são críticos em relação a estas realidades, não sou o único, pelo que o seu contributo seria importante nesta discussão que estamos a ter. Qualquer debate público que permita a ambos os lados falarem e ponha em consideração as suas visões é muito importante.
Acha que, actualmente, os banqueiros e o sistema financeiro controlam tudo?
Não estou a dizer que tudo está nas mãos dos banqueiros agora, mas sim que a voz dos banqueiros tem sempre atenção porque os mercados financeiros são muito importantes. No contexto do raciocínio público, tem de se ouvir o público em geral e o público especializado, incluindo economistas e outros especialistas que se mostraram cépticos quanto ao modo como a economia foi liderada durante várias décadas. As suas vozes foram negligenciadas no passado. Não estou a dizer que a minha voz foi negligenciada, porque a minha voz não é assim tão importante. Mas muitas pessoas têm vozes importantes e as suas ideias têm de ser muito mais ouvidas, discutidas e escrutinadas. O envolvimento no debate público é um aspecto central na prossecução da justiça, quer se trate de uma situação fácil, quer de uma situação difícil, como aquela que vivemos agora.
O prémio Nobel das Ciências Económicas em 1998 esteve em Portugal para receber o doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra e falou ao PÚBLICO sobre os desafios que a crise da dívida europeia está a colocar aos países e à própria união monetária, bem como sobre o seu novo livro, A Ideia de Justiça.
Na conferência que deu, na segunda-feira, na Faculdade de Economia de Coimbra, disse que, actualmente, há "uma grande tentação de ter um zelo intransigente" quanto à disciplina orçamental, naquilo que caracteriza como uma abordagem de "sangue, suor e lágrimas". Acha que aqueles países europeus, como Portugal, que estão a impor pacotes de austeridade, estão a seguir no caminho errado?
Não estava particularmente a falar de Portugal. Não sei o suficiente a esse nível. Mas há uma visão a nível europeu de que não só a dívida pública deve ser eliminada - ou, pelo menos, reduzida drasticamente -, mas também que isso deve ser feito imediatamente. É muito difícil para cada país afastar-se desta visão europeia geral, até porque os mercados estão a pedir isso. Os países não terão, por isso, grande possibilidade de escolha. Mas esta ideia [de austeridade] não é inteiramente correcta. As reduções de défices gigantes que ocorreram no passado, como por exemplo a dívida contraída por vários países europeus junto da América durante a Segunda Guerra Mundial, foram possíveis apenas numa situação de grande crescimento económico, que é sempre uma altura propícia à redução da dívida. Do mesmo modo, quando Bill Clinton se tornou Presidente dos EUA, o país estava com um elevado nível de dívida e, quando ele deixou de ser Presidente, já não tinha, o que se deveu a um crescimento económico elevado.
Mas agora não há esse crescimento...
Um dos problemas que fazem com que, agora, o corte da dívida seja tão severo é que vai levar à redução do crescimento económico. E isso torna muito difícil amortizar a dívida. Por isso, como economista, acho que é preciso que os Governos ajam de uma forma mais cuidadosa e não apenas nervosamente devido à dimensão da dívida. Deviam esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública. A economia não é apenas a política certa, é também o tempo certo para aplicar aquela política.
Uma das consequências destes planos de austeridade é a redução dos salários, dos apoios aos desempregados e dos benefícios sociais em geral. Enquanto investigador da chamada "economia do bem-estar", que impacto é que acha que estes planos terão nestes países?
Muitos destes programas de austeridade têm um impacto negativo no crescimento económico e no nível de confiança da economia. Não estou a dizer que qualquer tipo de medida de austeridade é má. Mas temos de ser inteligentes na escolha das medidas de austeridade. O problema é que os países, individualmente, podem não ter, neste momento, muita escolha devido à leitura que a União Europeia fez da situação e, sobretudo, devido aos mercados financeiros. Estes são muito guiados pelas agências de rating e estas agências, como sabemos, cometeram erros enormes durante a crise de 2008, mas estão agora de volta e muito poderosas.
Foi um dos apoiantes do Spinelli Group, criado no ano passado para retomar a defesa do federalismo da União Europeia.
Fui muito influenciado por Altiero Spinelli e pelas suas ideias sobre a União Europeia. Ele era o meu sogro, era padrasto da minha última mulher, Eva Colorni. Via-o todos os Verões.
Mas defende, portanto, essas ideias... Acha que a actual crise da dívida soberana veio dar-lhe razão e mostrar que a Europa precisa de ser mais do que uma união monetária?
Essa é a minha visão. Aliás, penso que a sequência que a Europa seguiu não foi a melhor. Teria sido melhor começar com uma unidade política antes de pôr tanto dinheiro na união. Temos uma situação em que as políticas orçamentais são totalmente diferentes, as políticas de impostos e as políticas de investimento também, o que cria muitos problemas. Criar uma união monetária sem união política é um erro.
O seu novo livro, A Ideia de Justiça, oferece uma nova visão alternativa às teorias da justiça dominantes que, diz, levaram o mundo no sentido errado. Porquê?
O meu novo livro é um livro de filosofia, uma maneira de pensar sobre os problemas, problemas da economia, da sociedade, da política e da democracia. O que defendo é que a melhor maneira de pensar sobre estes problemas reside no debate público e no raciocínio público. Pegando no que falámos antes sobre os planos de austeridade, acho que deveriam ser alvo de um maior debate, em vez de se deixar a discussão apenas nas mãos dos mercados financeiros e dos bancos. A discussão deve estar nas mãos do público. É preciso diálogo público e, claro, conhecimento técnico, inclusive de economistas. Muitos economistas são críticos em relação a estas realidades, não sou o único, pelo que o seu contributo seria importante nesta discussão que estamos a ter. Qualquer debate público que permita a ambos os lados falarem e ponha em consideração as suas visões é muito importante.
Acha que, actualmente, os banqueiros e o sistema financeiro controlam tudo?
Não estou a dizer que tudo está nas mãos dos banqueiros agora, mas sim que a voz dos banqueiros tem sempre atenção porque os mercados financeiros são muito importantes. No contexto do raciocínio público, tem de se ouvir o público em geral e o público especializado, incluindo economistas e outros especialistas que se mostraram cépticos quanto ao modo como a economia foi liderada durante várias décadas. As suas vozes foram negligenciadas no passado. Não estou a dizer que a minha voz foi negligenciada, porque a minha voz não é assim tão importante. Mas muitas pessoas têm vozes importantes e as suas ideias têm de ser muito mais ouvidas, discutidas e escrutinadas. O envolvimento no debate público é um aspecto central na prossecução da justiça, quer se trate de uma situação fácil, quer de uma situação difícil, como aquela que vivemos agora.
Notícia do Público
quarta-feira, março 16, 2011
The Adjustment Bureau

- Há um plano superior para cada um de nós em particular e para a humanidade em geral?
- Até que ponto vai o nosso livre-arbítrio?
- Quais as implicações de quebrar com a ordem instalada?
- O caminho a seguir é o que todos pensam ser o melhor ou é o improvável?
Todas estas questões são-nos colocadas no filme “Agentes do Destino”, uma película de ficção que mais parece um debate filosófico sobre razão versus emoção, presente versus futuro, fado versus auto determinação e conformismo versus inconformismo.
Uma história na qual entrei com expectativas de algo “ligeirinho” e imprevisivelmente previsível. Saí com a noção de que, não se tratando de uma obra-prima, é um filme interessante que suscita um questionamento que se afigura cada vez mais pertinente no mundo em que vivemos.
Uma história na qual entrei com expectativas de algo “ligeirinho” e imprevisivelmente previsível. Saí com a noção de que, não se tratando de uma obra-prima, é um filme interessante que suscita um questionamento que se afigura cada vez mais pertinente no mundo em que vivemos.
A ver.
segunda-feira, março 14, 2011
Carta ao meu "amigo" Zé Socras
Zé, meu compincha que tão bem me entendes e compreendes,Escrevo-te esta carta porque estou revoltada e quero protestar contra as injustiças deste povo em relação a ti e ao teu magnífico governo. Escrevo-te para manifestar a minha solidariedade para contigo, génio incompreendido, como, de resto, o são todas as grandes mentes. Tu, que procuras o bem do teu país, tu que lutas pelo desenvolvimento tecnológico, pela educação, pela saúde, pela economia, pelo trabalho… E, apesar de todos os teus abnegados e heróicos esforços, ninguém te compreende!
Cerca de 300.000 pessoas, um pouco por todo o país, tudo a protestar contra o estado das coisas, contra a falta de oportunidades… Eles não entendem o que tu já tens feito pelo bem deles!
Tu, que levaste para a frente as Novas Oportunidades para que qualquer analfabeto possa aumentar a sua auto estima dizendo que tem o 9º ano sem ter que ir às aulas;
Tu, que criaste programas de estágio para que os licenciados e mestres possam adiar uns meses o desespero do desemprego e, entretanto, serem explorados a baixo custo com imensas regalias… para as empresas;
Tu, que proporcionaste aos alunos a possibilidade de transitarem de ano sem qualquer esforço, criando dificuldades aos malvados dos professores que os queiram reter caso não tenham tido aproveitamento;
Tu, que deste a volta àquela insustentável segurança social que não dava lucros nenhuns, como era o seu objectivo, garantindo, agora, que todos possam ter reformas menores e menos protecção na doença e no desemprego;
Tu, que cortaste os salários aos funcionários públicos, mas que tiveste a decência de salvaguardar os vencimentos dos administradores e dos teus amiguinhos;
Tu, que criaste mais dívida para que todos possamos sonhar com uma viagem de TGV, apesar de não termos dinheiro para os bilhetes e enquanto os trabalhadores da CP vêm as suas condições de trabalho a piorar;
Tu, que poupas dinheiro e decides não fazer um metro em cidades insignificantes como Coimbra, que não te metes em despesas com transportes públicos, tu que ainda por cima só tens 20 motoristas por tua conta e uns poucos por conta dos teus amiguinhos;
Tu, que organizas festas e viagens para mostrar o que de “melhor” por cá se faz, sem olhares a custos…
Tu, que és tão bonzinho, que nos compreendes tão bem, que és tão solidário para com os jovens, para com os trabalhadores, para com os pensionistas… Ninguém te compreende… Pedes justificados e pertinentes sacrifícios à população, discursas sobre o quanto nos entendes e lamentas o que passamos, pois não tens quaisquer responsabilidades sobre o estado das coisas! A culpa é da Ângela, do Nicolau e dos outros meninos maus da Europa. Tu não tens culpa!
Não tens culpa de te preocupares com as despesas excepto com as que dizem respeito a ti e aos teus amigos!
Não tens culpa de quereres luxos na educação, saúde, tecnologia e transportes (de que importa se ainda nem o básico está assegurado?)!
Não tens culpa de desconheceres o que é viver com um salário mínimo ou médio tendo comida, escola, gasolina, água, gás, luz, medicamentos, e outras despesas que tais, para pagar.
Não tens culpa que os professores se sintam mais reclusos que educadores e fontes de conhecimento por causa dum modelozinho de avaliação inofensivo.
Não tens culpa que os pais dos meninos não tenham dinheiro para lhes pagarem os estudos e os sustentarem quando eles não arranjam emprego.
Enfim… Às vezes sinto que vivemos num mundo ao contrário…
Eu, chamo-me Alice e vivo em Portugal, um país que não me dá oportunidades de crescimento, que desaproveita todo o investimento que eu, os meus pais e o estado fizeram no meu desenvolvimento pessoal e académico.
Tu és o Zé e vives no País das Maravilhas, um país em que tudo é como devia ser, graças a ti, mas as pessoas que o habitam são burras e não percebem o bem que lhes fazes.
Não me alongarei muito mais nesta carta, pois já deves ter percebido que estou do teu lado e que te compreendo totalmente! Sugiro-te que saias de Portugal… Por muito que te custe abandonar a pátria pela qual tanto te tens sacrificado, julgo que terás um futuro melhor, em que sejas mais bem tratado, fora deste país cujo povo não te entende nem dá valor ao que tens feito. Vai por exemplo para o Pólo Norte ou para a Gronelândia… Dizem que lá há muito espaço para construíres aeroportos, pontes, linhas de alta velocidade e auto-estradas!
Um beijinho e desejos de boa viagem,
Alice.
domingo, março 13, 2011
Rasca ou à rasca
Parabéns aos promotores das manifestações dos “à rasca” de todas as gerações. Foi grande, caudaloso, bonito, pacífico, razoavelmente eclético, divertido, bem humorado, musical. Até Sócrates e tantos outros políticos de todas as côres gostaram ou, pelo menos, compreenderam, exprimiram simpatia... Todas as pessoas de bom senso e que ainda não passaram o limiar da miséria (ou da revolta violenta) se identificaram com aquela eloquente expressão de mal-estar. Porque as pessoas estão fartas de desemprego, de perda de poder de compra, de clientelismo e favoritismo, de burocracia inútil, de mais impostos, de perda de regalias sociais, de precaridade, de injustiça na distribuição da riqueza e dos sacrifícios, da falta de perspectivas, de esperança, de futuro.A exorcização do mal-estar, pelos vistos, funcionou. A malta de todas as gerações sentiu-se unida, solidária, alegre na aflição, como noutros tempos de reivindicação e utopia. Fez-se sociedade o que, só por si, é bom em tempos de individualismo, oportunismo e agressividade.
Mas, e depois?
Um dos organizadores das manifestações disse à imprensa que eles não são contra os políticos, que até convidaram todos os deputados a participar. Com alguma sorte teriamos visto o Sócrates a abrir o cortejo com uma bandeira vermelha a dizer “Basta!”. Então o país está de pantanas e ninguém tem culpa? Toda a gente compreende, mas ninguém se sente responsável... salvo algum indígena torturado de idade provecta que, perante as câmaras da televisão, confessa uma culpa piedosa e patética que não se justifica.
Nâo têm culpa os de 40-60 anos que estão agora no poder, não têm culpa os da putativa “geração rasca”, não têm culpa os jovens e menos jovens que ocupam lugares de privilégio independentemente do mérito, não têm culpa os ricos que ficam cada vez mais ricos, não tem culpa os indíviduos e organizações que, durante as últimas décadas, tomaram decisões erradas de que estamos agora a sofrer as consequências. Concordamos todos que isto está mal e, pronto, esperamos que a solução caia, miraculosa, do céu aos trambolhões sem mudar as instituiçôes e os protagonistas do poder.
É evidente que os políticos têm culpa, os políticos que tomaram decisões sobre a afectação de recursos neste país nos últimos 35 anos. [Passo o período anterior da ditadura que já está sobejamente culpabilizado]. Têm culpa os governantes dos últimos 5 anos bem como os seus antecessores. Tem culpa quem votou neles. Mas, o que é mais preocupante não é o que se escolheu ou o que agora se tem, mas sim a falta de melhores alternativas. Os indíviduos e organizações que se perfilam para suceder ao poder actual cerecem de propostas credíveis e mobilizadoras.
O que resta então? A impotência, o desespero, a resignaçâo?
Querem os promotores desta insurreição de veludo criar um novo partido para disputar o poder e mostrar que se pode verdadeiramente mudar, evitando a estagnação ou o empobrecimento? Querem continuar a vociferar o mal-estar, esperando que os polítícos existentes finalmente entrem nos eixos?
Como já aqui escrevi (http://fantasticomelga.blogspot.com/2011/01/brevissima-historia-de-portugal-em.html), “[a] única esperança serão, daqui a 20 anos, os jovens que agora têm entre 15 e 25 anos, os filhos dos tais das gerações falhadas, cobaias das reformas (ou convulsões) do ensino, do consumo, dos costumes e da família e que não são "tubos digestivos que caminham e fornicam". Com um bocado de sorte, ainda cá estarei para ver se essa malta, com uma cabeça apesar de tudo mais aberta, lúcida e ambiciosa, ocupa como deve ser os lugares de direcção desta nossa desditosa pátria e escolhe estratégias virtuosas para nos tirar da persistência do atraso que - quero acreditar - não tem nada a ver com factores genéticos.”
Para que isto seja possível, é necessário que, em vez de renegar (ou edulcorar) os partidos, os jovens “à rasca” se infiltrem neles, varrendo a falta de qualidade e o oportunismo “rasca” de todas as idades, demonstrando que são melhores e que os podem subverter com ideias e liderança novas. A mudança necessária da política implica que pessoas voluntariosas, cultas e inteligentes dêem a volta aos partidos ou criem novos partidos que ameacem seriamente os existentes.
quarta-feira, março 09, 2011
Bail-out
A história conta-se muito simplesmente: o Estado emite obrigações e bilhetes do tesouro que são comprados pelos bancos nacionais para vender ao Banco Central Europeu. [Os investidores estrangeiros andam a fugir desde o ano passado da dívida soberana portuguesa.] Quer dizer: os bancos nacionais compram dívida pública, ficando a receber juros de 7%, e vendem essa dívida ao BCE, ficando a pagar cerca de 1%. O saldo de tudo isto traduz-se em ter o BCE a financiar o Estado e, ao mesmo tempo, em cooperação com o mesmo Estado, ajudar a rendibilidade dos bancos que ficam com uma margem de cerca de 6%.
Quem é que falou em bail-out? Será mais um porque o do BCE já cá está... No dia em que o BCE deixar de comprar dívida portuguesa, o refinanciamento pára e os calotes emergem. Quanto mais dinheiro chegar ao Estado, mais credores externos aproveitarão para sair porque o problema é de competitividade a médio-longo prazo da economia portuguesa que cresce (ou não cresce) para gerar (ou não gerar) receitas que permitam reembolsar as dívidas e pagar os juros. "A longo prazo estamos todos mortos" mas o medo do longo prazo pode fazer-nos morrer já...
O problema não é tanto o de stock de dívida mas o da sua sustentabilidade, ou seja, o da possibilidade do seu contínuo refinanciamento. Há países com muito mais dívida em comparação com o PIB (p. ex° Itália e Bélgica) sem o sufoco actual de Portugal porque os credores acham que esse stock de dívida pode ser refinanciado em permanência, ou seja, haverá sempre outros (ou os mesmos) credores dispostos a emprestar para assegurar o serviço da dívida existente a cada momento. [Para não falar em casos como os Estados Unidos cuja moeda é reserva mundial e que portanto tem capacidade para continuar a emitir mais dólares que serão aceites para reembolsar as dívidas US.]
O drama de uma pequena economia altamente endividada e pertencente a uma união monetária e divergente dos restantes membros dessa mesma união é que não tem margens de manobra (como a desvalorização cambial e a inflação) para corrigir o desequilíbrio. A única hipótese é "espremer" a economia real, isto é, pôr os agentes económicos a produzir para vender ao estrangeiro ou a não consumir o que se compra ao estrangeiro. O que é necessário é mudar o rácio balança comercial/consumo interno em favor do numerador. É claro que a solidariedade dos parceiros da união monetária pode ajudar, mas, no médio-longo prazo, os únicos remédios são: aumentar a produtividade ou aceitar o empobrecimento ou a estagnação.
Quem é que falou em bail-out? Será mais um porque o do BCE já cá está... No dia em que o BCE deixar de comprar dívida portuguesa, o refinanciamento pára e os calotes emergem. Quanto mais dinheiro chegar ao Estado, mais credores externos aproveitarão para sair porque o problema é de competitividade a médio-longo prazo da economia portuguesa que cresce (ou não cresce) para gerar (ou não gerar) receitas que permitam reembolsar as dívidas e pagar os juros. "A longo prazo estamos todos mortos" mas o medo do longo prazo pode fazer-nos morrer já...
O problema não é tanto o de stock de dívida mas o da sua sustentabilidade, ou seja, o da possibilidade do seu contínuo refinanciamento. Há países com muito mais dívida em comparação com o PIB (p. ex° Itália e Bélgica) sem o sufoco actual de Portugal porque os credores acham que esse stock de dívida pode ser refinanciado em permanência, ou seja, haverá sempre outros (ou os mesmos) credores dispostos a emprestar para assegurar o serviço da dívida existente a cada momento. [Para não falar em casos como os Estados Unidos cuja moeda é reserva mundial e que portanto tem capacidade para continuar a emitir mais dólares que serão aceites para reembolsar as dívidas US.]
O drama de uma pequena economia altamente endividada e pertencente a uma união monetária e divergente dos restantes membros dessa mesma união é que não tem margens de manobra (como a desvalorização cambial e a inflação) para corrigir o desequilíbrio. A única hipótese é "espremer" a economia real, isto é, pôr os agentes económicos a produzir para vender ao estrangeiro ou a não consumir o que se compra ao estrangeiro. O que é necessário é mudar o rácio balança comercial/consumo interno em favor do numerador. É claro que a solidariedade dos parceiros da união monetária pode ajudar, mas, no médio-longo prazo, os únicos remédios são: aumentar a produtividade ou aceitar o empobrecimento ou a estagnação.
terça-feira, março 08, 2011
Um texto que diz tudo...

Descobri tudo. Depois de dar muitas voltas à cabeça, de pensar porque é que faço parte da geração à rasca, já percebi onde é que está o problema. Os culpados foram os meus pais. É a eles que tenho de pedir contas por, aos 30 anos, estar longe, tão longe, do que imaginava em pequena. A culpa foi deles que me mandaram estudar. Que me disseram para fugir à mediania. Que me fizeram crer que a instrução era meio caminho andado para um bom emprego, um bom salário. Não te fiques pela licenciatura, filha. Não, aproveita e tira também duas pós-graduações e um mestrado, que o saber não ocupa lugar. E eu assim fiz, inocente, a achar que eles queriam o melhor para mim. Grandes trafulhas. Afinal não. Afinal parece que, depois de tudo isto, ainda tenho é de elevar as mãos ao céu, em jeito de agradecimento por ter arranjado emprego. Não interessa nada se nunca fui aumentada em anos, menos ainda se não ganho o que seria justo, o que mereço. Tenho é de anuir com a cabecita, olhar para quem ganha menos e sentir-me uma privilegiada. Como escreveu há dias a directora de um jornal, de que é que nos queixamos, se até ganhamos o dobro do que ganham os não licenciados? Olha-me estes, que só estudaram mais quatro ou cinco anos (no mínimo) do que aqueles que não foram para a universidade e agora acham quem merecem mundos e fundos. Pfffff! O pensamento é esse. A tabela nivela-se por baixo, nunca por cima. Temos sempre de olhar para quem está pior, nunca para quem está melhor. Faz-se a ode à pequenez, à satisfaçãozinha, ao “antes isso que nada”.
E cá vamos andando, enrascados, pedindo a Deus que não nos deixe cair na teia dos recibos verdes e agradecendo com beija-mão um salário de três dígitos. Sacanas dos meus pais, que não me deixaram ficar pelo nono ano.
E cá vamos andando, enrascados, pedindo a Deus que não nos deixe cair na teia dos recibos verdes e agradecendo com beija-mão um salário de três dígitos. Sacanas dos meus pais, que não me deixaram ficar pelo nono ano.
Ana Garcia Martins, retirado daqui.
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