sexta-feira, abril 01, 2011
Desculpe, podia repetir?
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=477229 Então deita o governo abaixo por causa do PEC e agora apoia o governo em caso de FMI? Sócrates: regressa! Estás perdoado. Também não é bem assim... porque pagar taxas de juros cada vez mais altas para evitar a entrada do FMI até às eleições, passando o ónus ao PSD e aparecendo como exemplo de patriotismo por recusar a ajuda externa a expensas do país, também não se faz... Mas percebo: depois de passar meses a resistir, ficar no último mês, em regime de gestão, com o menino nos braços, passando-o depois bem lavadinho ao PSD, que se apresentará como não tendo alguma culpa pela política que será obrigado a executar... também custa. No meio disto tudo tramam-se os do costume...
terça-feira, março 29, 2011
Demasiado pouco para tanta Nação
Era uma vez um senhor bem parecido com voz de locutor da rádio que falava, falava, falava e não dizia nada senão banalidades neo-liberais sem nexo. Esse senhor queria ser primeiro-ministro e não sabia bem o que isso queria dizer, para além de uns comícios e entrevistas de onde saíam umas declarações avulsas, colagens de ideias incompreendidas e incompreensíveis. O que é mais grave é que esse senhor se rodeava de outros senhores da mesma estirpe que falavam, falavam, falavam, mas não sabiam fazer nada senão dar-se ares de patética importância. E esse grupo de cordel de uma tribo mais vasta de cordiais inimigos, encabeçada por uma criatura seráfica casada com uma Maria qualquer de nariz empinado e católica arrogância, ambicionava ocupar ministérios, institutos e outros lugares de doméstica mordomia. Eis senão quando, o povo abriu os olhos e disse NÃO. Mas, esse povo ficou sem jeito porque isso queria talvez dizer voltar para trás, voltar aos braços de quem patrioticamente o tinha arruinado. E o povo sentiu-se mais sózinho e perdido do que nunca, convencido de ter de fazer por si, apesar de todos esses senhores que querem mandar sem saber como, mas sabendo muito bem porquê...
quinta-feira, março 24, 2011
Que deus nos ajude!
O carinha larocas que se está a bater ao piso para ser nosso Primeiro-ministro disse que não conhece a situação financeira do país mas admite que, se fosse necessário, defenderia mais um aumento da taxa geral do IVA. Eu nem queria acreditar: então o homem não sabe qual é a situação financeira do país? E deita abaixo o governo porque o país não suporta mais austeridade e, ao mesmo tempo, aceita a possibilidade de aumentar o IVA? Que deus nos ajude!
O Eng° Sócrates foi a Bruxelas armado em incompreendido herói nacional e a Sra Merkel teve pena da única criatura com sentido de responsabilidade neste país de bárbaros que passa a vida de mão estendida aos contribuintes alemães. E chegou ao ponto de criticar com veemência e revolta inusitada os deputados lusos que reprovaram os esforços do seu amigo Sócrates de pôr o pessoal na ordem. Alguém falou em soberania nacional, essa coisa que acaba quando se depende dos outros para comer?
Isto agora vai ser assim: ou governo de gestão nos próximos 2 meses até eleições antecipadas ou governo de iniciativa presidencial.
No primeiro caso, não estou a ver como é que um tal governo teria legitimidade para negociar a ajuda externa de que o país precisa. Chamar a isso acto de gestão corrente parece-me um eufemismo, mas o constitucionalista Jorge Miranda argumenta com "a defesa do supremo interesse nacional", acrescento eu, "em caso de catástrofe iminente".
No segundo caso, não me parece que se consiga formar uma coligação com maioria parlamentar minimamente credível e estável... a não ser que PS e PSD se metam de acordo ou que todos os partidos, à excepção do PS, se metam de acordo.
Parece-me mais provável a primeira hipótese e resta-me esperar que, no entretanto, não exista uma situação muito grave de falta de liquidez. Senão, que deus nos ajude!
Outra possibilidade seria a nomeação pelo Presidente de um "governo técnico" e apartidário, apoiado pelo Parlamento até às eleições, cuja função seria exactamente minimizar os estragos de um pacote de ajuda externa que, de qualquer maneira, iria vincular a acção de um novo governo saído das eleições. E que governo seria esse? A lógica seria PSD+CDS, supondo que o PSD não obteria maioria absoluta. Mas, tudo pode acontecer, incluindo os ganhos da paradoxal vitimização em curso do Eng° Sócrates e do PS. E então poderiamos voltar à estaca zero. Mais uma vez, que deus nos ajude!
Senão, poderiamos lançar um concurso público internacional para um contrato de administração do país por gente com juizo e tecnicamente preparada, contando com a cumplicidade obediente dos políticos indígenas, incapazes de governar a Pátria sózinhos.
O Eng° Sócrates foi a Bruxelas armado em incompreendido herói nacional e a Sra Merkel teve pena da única criatura com sentido de responsabilidade neste país de bárbaros que passa a vida de mão estendida aos contribuintes alemães. E chegou ao ponto de criticar com veemência e revolta inusitada os deputados lusos que reprovaram os esforços do seu amigo Sócrates de pôr o pessoal na ordem. Alguém falou em soberania nacional, essa coisa que acaba quando se depende dos outros para comer?
Isto agora vai ser assim: ou governo de gestão nos próximos 2 meses até eleições antecipadas ou governo de iniciativa presidencial.
No primeiro caso, não estou a ver como é que um tal governo teria legitimidade para negociar a ajuda externa de que o país precisa. Chamar a isso acto de gestão corrente parece-me um eufemismo, mas o constitucionalista Jorge Miranda argumenta com "a defesa do supremo interesse nacional", acrescento eu, "em caso de catástrofe iminente".
No segundo caso, não me parece que se consiga formar uma coligação com maioria parlamentar minimamente credível e estável... a não ser que PS e PSD se metam de acordo ou que todos os partidos, à excepção do PS, se metam de acordo.
Parece-me mais provável a primeira hipótese e resta-me esperar que, no entretanto, não exista uma situação muito grave de falta de liquidez. Senão, que deus nos ajude!
Outra possibilidade seria a nomeação pelo Presidente de um "governo técnico" e apartidário, apoiado pelo Parlamento até às eleições, cuja função seria exactamente minimizar os estragos de um pacote de ajuda externa que, de qualquer maneira, iria vincular a acção de um novo governo saído das eleições. E que governo seria esse? A lógica seria PSD+CDS, supondo que o PSD não obteria maioria absoluta. Mas, tudo pode acontecer, incluindo os ganhos da paradoxal vitimização em curso do Eng° Sócrates e do PS. E então poderiamos voltar à estaca zero. Mais uma vez, que deus nos ajude!
Senão, poderiamos lançar um concurso público internacional para um contrato de administração do país por gente com juizo e tecnicamente preparada, contando com a cumplicidade obediente dos políticos indígenas, incapazes de governar a Pátria sózinhos.

Será que ele leu a carta que lhe escrevi? É que parece ter seguido o meu conselho...
(Embora, claro, como servo desta pátria, não se vá embora sem se assegurar que o povo não o quer mesmo a governar...)
quarta-feira, março 23, 2011
Alternativas?
O que está é mau. O que está para vir é tão mau ou pior. Não há liderança de qualidade no país dos partidos. As condições actuais seriam, noutras épocas, propícias a messias e ditaduras. Isso não é desejável. Nem praticável no actual contexto.
Derrogue-se consensualmente a "democracia sem escolhas" em que caimos e nomeie-se um governo técnico para gerir bem o país no respeito da justiça social e da racionalidade económica. Essa derrogação consensual da democracia seria, paradoxalmente, um acto de generosidade democrática, supondo a renúncia ao poder por parte de uma plataforma pluri-partidária e patriótica que o cederia a quem é competente e responsável. A pertença a partidos deixaria de ser critério de escolha de quem governa, prevalencendo a competência e um genuino compromisso com o interesse público.
Ingenuidade? Utopia?
Alternativas sâo benvindas a um novo governo da rapaziada do PSD e do CDS que, sequiosa de poder, executará um programa do FMI e quejandos, culpando o PS de tal desgraça!...
Derrogue-se consensualmente a "democracia sem escolhas" em que caimos e nomeie-se um governo técnico para gerir bem o país no respeito da justiça social e da racionalidade económica. Essa derrogação consensual da democracia seria, paradoxalmente, um acto de generosidade democrática, supondo a renúncia ao poder por parte de uma plataforma pluri-partidária e patriótica que o cederia a quem é competente e responsável. A pertença a partidos deixaria de ser critério de escolha de quem governa, prevalencendo a competência e um genuino compromisso com o interesse público.
Ingenuidade? Utopia?
Alternativas sâo benvindas a um novo governo da rapaziada do PSD e do CDS que, sequiosa de poder, executará um programa do FMI e quejandos, culpando o PS de tal desgraça!...
in FT
“No political party in Portugal wants to preside over a bail-out, but any new government must realise that a rescue will not address the country’s largest longer term problem: poor economic prospects. (…) [E]uro membership has given the country a “lost decade”. How different to Ireland, which suffered a damaging bubble. Ireland’s problem, however, is acute (a banking collapse), while Portugal’s is chronic. Austerity measures are necessary but temporary measures to address a short term crisis. It will take much bolder action to restructure Portugal’s anaemic economy.”
terça-feira, março 22, 2011
O circuito da dívida
Quem são os famosos "mercados", os credores externos que deixaram de acreditar na economia portuguesa, que pedem taxas de juro cada vez mais altas, que não perdem a mínima oportunidade para se ir embora, deixando o financiamento do Estado cada vez mais nas mãos do Banco Central Europeu e da exausta poupança doméstica? [Os bancos portugueses têm sido apenas instrumentos de injecção de poupança externa na economia portuguesa.] Trata-se, essencialmente, de companhias de seguros, fundos de investimento, bancos, fundos soberanos, uma grande parte de origem alemã, francesa e britânica. Portanto, se decidirem participar num programa de financiamento excepcional ao Estado português, porventura ao lado do FMI, os chefes de Estado alemão, francês e britânico estarão na prática a dar dinheiro aos portugueses para que eles possam reembolsar as dívidas aos bancos dos seus países. Trata-se, na prática, de mobilizar dinheiro dos contribuintes alemâes, franceses e britânicos para evitar que os seus próprios bancos percam dinheiro com devedores de mais um país perdulário. Portanto, prestamistas imprevidentes serão mais uma vez imunes às consequêcias das suas más decisões, naturalmente por nobres motivos sistémicos.
Disto se continua a alimentar o "moral hazard" dos sistemas financeiros, fabricantes compulsivos de bolhas intermináveis que produzem lucros privados e prejuizos públicos...
Disto se continua a alimentar o "moral hazard" dos sistemas financeiros, fabricantes compulsivos de bolhas intermináveis que produzem lucros privados e prejuizos públicos...
segunda-feira, março 21, 2011
domingo, março 20, 2011
Futurologia política de cordel
Na semana que começa amanhã, o PEC4 será apresentado ao Parlamento. Segundo tudo indica, na quarta-feira, os deputados dirão "não" às medidas que, segundo o governo, seriam necessárias para convencer os outros países da União Europeia a tomar decisões favoráveis a Portugal na cimeira de quinta e sexta-feira. Vejamos o que decide o governo na sequência de uma reprovação do Parlamento. Vai a Bruxelas? Para dizer que as medidas não serão aplicadas? Como é que esse desfecho influenciará as decisões do Conselho de Ministros da UE? Provavelmente, na semana que está para começar, perderemos governo, os credores externos ficarão ainda mais preocupados, uma intervenção do FMI/fundo europeu de estabilização será ainda mais necessária para evitar taxas de juro exorbitantes e, no limite, bancarrota.
O PSD precipitará tudo isto porque, essencialmente, acha que precisamos do FMI, porque quer governar o mais depressa possivel, executando as medidas do FMI que se tornaram inevitáveis por causa da má gestão do PS. Antes de aqui chegar, teremos um pedido de demissão do actual governo, que passará a uma fase de gestão, o Presidente convocará eleições e talvez o PSD ganhe sem maioria absoluta, devendo pactuar com o Paulo Portas.
Talvez me engane. De qualquer maneira, acho que, de tudo isto, sairemos ainda mais desgraçados, ou seja, com as contas em ordem dentro de 2 ou 3 anos, mas continuando sem uma estratégia credível de desenvolvimento e condenados à estagnação.
O PSD precipitará tudo isto porque, essencialmente, acha que precisamos do FMI, porque quer governar o mais depressa possivel, executando as medidas do FMI que se tornaram inevitáveis por causa da má gestão do PS. Antes de aqui chegar, teremos um pedido de demissão do actual governo, que passará a uma fase de gestão, o Presidente convocará eleições e talvez o PSD ganhe sem maioria absoluta, devendo pactuar com o Paulo Portas.
Talvez me engane. De qualquer maneira, acho que, de tudo isto, sairemos ainda mais desgraçados, ou seja, com as contas em ordem dentro de 2 ou 3 anos, mas continuando sem uma estratégia credível de desenvolvimento e condenados à estagnação.

Ontem à noite a LUA estava enorme, brilhante, formosa.
Não fui só eu quem a viu assim.
Não se via assim apenas onde eu estava.
Pessoas de vários sítios da Europa confirmaram que a LUA estava bonita e generosa em todo o lado.
Há coisas que nos ligam para além de quem somos e de onde estamos. E ainda bem. Pena é que essas oportunidades de (humana) comunhão não sejam mais frequentes.
sexta-feira, março 18, 2011
Os meus modestos conhecimentos de economia levam-me a acreditar neste senhor e a confiar nos seus argumentos

Frequentemente apelidado da "voz da consciência" da economia, Amartya Sen teme o impacto que as medidas de austeridade postas em curso por vários Governos europeus, entre os quais Portugal, possam ter na economia e nas conquistas do Estado social.
O prémio Nobel das Ciências Económicas em 1998 esteve em Portugal para receber o doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra e falou ao PÚBLICO sobre os desafios que a crise da dívida europeia está a colocar aos países e à própria união monetária, bem como sobre o seu novo livro, A Ideia de Justiça.
Na conferência que deu, na segunda-feira, na Faculdade de Economia de Coimbra, disse que, actualmente, há "uma grande tentação de ter um zelo intransigente" quanto à disciplina orçamental, naquilo que caracteriza como uma abordagem de "sangue, suor e lágrimas". Acha que aqueles países europeus, como Portugal, que estão a impor pacotes de austeridade, estão a seguir no caminho errado?
Não estava particularmente a falar de Portugal. Não sei o suficiente a esse nível. Mas há uma visão a nível europeu de que não só a dívida pública deve ser eliminada - ou, pelo menos, reduzida drasticamente -, mas também que isso deve ser feito imediatamente. É muito difícil para cada país afastar-se desta visão europeia geral, até porque os mercados estão a pedir isso. Os países não terão, por isso, grande possibilidade de escolha. Mas esta ideia [de austeridade] não é inteiramente correcta. As reduções de défices gigantes que ocorreram no passado, como por exemplo a dívida contraída por vários países europeus junto da América durante a Segunda Guerra Mundial, foram possíveis apenas numa situação de grande crescimento económico, que é sempre uma altura propícia à redução da dívida. Do mesmo modo, quando Bill Clinton se tornou Presidente dos EUA, o país estava com um elevado nível de dívida e, quando ele deixou de ser Presidente, já não tinha, o que se deveu a um crescimento económico elevado.
Mas agora não há esse crescimento...
Um dos problemas que fazem com que, agora, o corte da dívida seja tão severo é que vai levar à redução do crescimento económico. E isso torna muito difícil amortizar a dívida. Por isso, como economista, acho que é preciso que os Governos ajam de uma forma mais cuidadosa e não apenas nervosamente devido à dimensão da dívida. Deviam esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública. A economia não é apenas a política certa, é também o tempo certo para aplicar aquela política.
Uma das consequências destes planos de austeridade é a redução dos salários, dos apoios aos desempregados e dos benefícios sociais em geral. Enquanto investigador da chamada "economia do bem-estar", que impacto é que acha que estes planos terão nestes países?
Muitos destes programas de austeridade têm um impacto negativo no crescimento económico e no nível de confiança da economia. Não estou a dizer que qualquer tipo de medida de austeridade é má. Mas temos de ser inteligentes na escolha das medidas de austeridade. O problema é que os países, individualmente, podem não ter, neste momento, muita escolha devido à leitura que a União Europeia fez da situação e, sobretudo, devido aos mercados financeiros. Estes são muito guiados pelas agências de rating e estas agências, como sabemos, cometeram erros enormes durante a crise de 2008, mas estão agora de volta e muito poderosas.
Foi um dos apoiantes do Spinelli Group, criado no ano passado para retomar a defesa do federalismo da União Europeia.
Fui muito influenciado por Altiero Spinelli e pelas suas ideias sobre a União Europeia. Ele era o meu sogro, era padrasto da minha última mulher, Eva Colorni. Via-o todos os Verões.
Mas defende, portanto, essas ideias... Acha que a actual crise da dívida soberana veio dar-lhe razão e mostrar que a Europa precisa de ser mais do que uma união monetária?
Essa é a minha visão. Aliás, penso que a sequência que a Europa seguiu não foi a melhor. Teria sido melhor começar com uma unidade política antes de pôr tanto dinheiro na união. Temos uma situação em que as políticas orçamentais são totalmente diferentes, as políticas de impostos e as políticas de investimento também, o que cria muitos problemas. Criar uma união monetária sem união política é um erro.
O seu novo livro, A Ideia de Justiça, oferece uma nova visão alternativa às teorias da justiça dominantes que, diz, levaram o mundo no sentido errado. Porquê?
O meu novo livro é um livro de filosofia, uma maneira de pensar sobre os problemas, problemas da economia, da sociedade, da política e da democracia. O que defendo é que a melhor maneira de pensar sobre estes problemas reside no debate público e no raciocínio público. Pegando no que falámos antes sobre os planos de austeridade, acho que deveriam ser alvo de um maior debate, em vez de se deixar a discussão apenas nas mãos dos mercados financeiros e dos bancos. A discussão deve estar nas mãos do público. É preciso diálogo público e, claro, conhecimento técnico, inclusive de economistas. Muitos economistas são críticos em relação a estas realidades, não sou o único, pelo que o seu contributo seria importante nesta discussão que estamos a ter. Qualquer debate público que permita a ambos os lados falarem e ponha em consideração as suas visões é muito importante.
Acha que, actualmente, os banqueiros e o sistema financeiro controlam tudo?
Não estou a dizer que tudo está nas mãos dos banqueiros agora, mas sim que a voz dos banqueiros tem sempre atenção porque os mercados financeiros são muito importantes. No contexto do raciocínio público, tem de se ouvir o público em geral e o público especializado, incluindo economistas e outros especialistas que se mostraram cépticos quanto ao modo como a economia foi liderada durante várias décadas. As suas vozes foram negligenciadas no passado. Não estou a dizer que a minha voz foi negligenciada, porque a minha voz não é assim tão importante. Mas muitas pessoas têm vozes importantes e as suas ideias têm de ser muito mais ouvidas, discutidas e escrutinadas. O envolvimento no debate público é um aspecto central na prossecução da justiça, quer se trate de uma situação fácil, quer de uma situação difícil, como aquela que vivemos agora.
O prémio Nobel das Ciências Económicas em 1998 esteve em Portugal para receber o doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra e falou ao PÚBLICO sobre os desafios que a crise da dívida europeia está a colocar aos países e à própria união monetária, bem como sobre o seu novo livro, A Ideia de Justiça.
Na conferência que deu, na segunda-feira, na Faculdade de Economia de Coimbra, disse que, actualmente, há "uma grande tentação de ter um zelo intransigente" quanto à disciplina orçamental, naquilo que caracteriza como uma abordagem de "sangue, suor e lágrimas". Acha que aqueles países europeus, como Portugal, que estão a impor pacotes de austeridade, estão a seguir no caminho errado?
Não estava particularmente a falar de Portugal. Não sei o suficiente a esse nível. Mas há uma visão a nível europeu de que não só a dívida pública deve ser eliminada - ou, pelo menos, reduzida drasticamente -, mas também que isso deve ser feito imediatamente. É muito difícil para cada país afastar-se desta visão europeia geral, até porque os mercados estão a pedir isso. Os países não terão, por isso, grande possibilidade de escolha. Mas esta ideia [de austeridade] não é inteiramente correcta. As reduções de défices gigantes que ocorreram no passado, como por exemplo a dívida contraída por vários países europeus junto da América durante a Segunda Guerra Mundial, foram possíveis apenas numa situação de grande crescimento económico, que é sempre uma altura propícia à redução da dívida. Do mesmo modo, quando Bill Clinton se tornou Presidente dos EUA, o país estava com um elevado nível de dívida e, quando ele deixou de ser Presidente, já não tinha, o que se deveu a um crescimento económico elevado.
Mas agora não há esse crescimento...
Um dos problemas que fazem com que, agora, o corte da dívida seja tão severo é que vai levar à redução do crescimento económico. E isso torna muito difícil amortizar a dívida. Por isso, como economista, acho que é preciso que os Governos ajam de uma forma mais cuidadosa e não apenas nervosamente devido à dimensão da dívida. Deviam esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública. A economia não é apenas a política certa, é também o tempo certo para aplicar aquela política.
Uma das consequências destes planos de austeridade é a redução dos salários, dos apoios aos desempregados e dos benefícios sociais em geral. Enquanto investigador da chamada "economia do bem-estar", que impacto é que acha que estes planos terão nestes países?
Muitos destes programas de austeridade têm um impacto negativo no crescimento económico e no nível de confiança da economia. Não estou a dizer que qualquer tipo de medida de austeridade é má. Mas temos de ser inteligentes na escolha das medidas de austeridade. O problema é que os países, individualmente, podem não ter, neste momento, muita escolha devido à leitura que a União Europeia fez da situação e, sobretudo, devido aos mercados financeiros. Estes são muito guiados pelas agências de rating e estas agências, como sabemos, cometeram erros enormes durante a crise de 2008, mas estão agora de volta e muito poderosas.
Foi um dos apoiantes do Spinelli Group, criado no ano passado para retomar a defesa do federalismo da União Europeia.
Fui muito influenciado por Altiero Spinelli e pelas suas ideias sobre a União Europeia. Ele era o meu sogro, era padrasto da minha última mulher, Eva Colorni. Via-o todos os Verões.
Mas defende, portanto, essas ideias... Acha que a actual crise da dívida soberana veio dar-lhe razão e mostrar que a Europa precisa de ser mais do que uma união monetária?
Essa é a minha visão. Aliás, penso que a sequência que a Europa seguiu não foi a melhor. Teria sido melhor começar com uma unidade política antes de pôr tanto dinheiro na união. Temos uma situação em que as políticas orçamentais são totalmente diferentes, as políticas de impostos e as políticas de investimento também, o que cria muitos problemas. Criar uma união monetária sem união política é um erro.
O seu novo livro, A Ideia de Justiça, oferece uma nova visão alternativa às teorias da justiça dominantes que, diz, levaram o mundo no sentido errado. Porquê?
O meu novo livro é um livro de filosofia, uma maneira de pensar sobre os problemas, problemas da economia, da sociedade, da política e da democracia. O que defendo é que a melhor maneira de pensar sobre estes problemas reside no debate público e no raciocínio público. Pegando no que falámos antes sobre os planos de austeridade, acho que deveriam ser alvo de um maior debate, em vez de se deixar a discussão apenas nas mãos dos mercados financeiros e dos bancos. A discussão deve estar nas mãos do público. É preciso diálogo público e, claro, conhecimento técnico, inclusive de economistas. Muitos economistas são críticos em relação a estas realidades, não sou o único, pelo que o seu contributo seria importante nesta discussão que estamos a ter. Qualquer debate público que permita a ambos os lados falarem e ponha em consideração as suas visões é muito importante.
Acha que, actualmente, os banqueiros e o sistema financeiro controlam tudo?
Não estou a dizer que tudo está nas mãos dos banqueiros agora, mas sim que a voz dos banqueiros tem sempre atenção porque os mercados financeiros são muito importantes. No contexto do raciocínio público, tem de se ouvir o público em geral e o público especializado, incluindo economistas e outros especialistas que se mostraram cépticos quanto ao modo como a economia foi liderada durante várias décadas. As suas vozes foram negligenciadas no passado. Não estou a dizer que a minha voz foi negligenciada, porque a minha voz não é assim tão importante. Mas muitas pessoas têm vozes importantes e as suas ideias têm de ser muito mais ouvidas, discutidas e escrutinadas. O envolvimento no debate público é um aspecto central na prossecução da justiça, quer se trate de uma situação fácil, quer de uma situação difícil, como aquela que vivemos agora.
Notícia do Público
quarta-feira, março 16, 2011
The Adjustment Bureau

- Há um plano superior para cada um de nós em particular e para a humanidade em geral?
- Até que ponto vai o nosso livre-arbítrio?
- Quais as implicações de quebrar com a ordem instalada?
- O caminho a seguir é o que todos pensam ser o melhor ou é o improvável?
Todas estas questões são-nos colocadas no filme “Agentes do Destino”, uma película de ficção que mais parece um debate filosófico sobre razão versus emoção, presente versus futuro, fado versus auto determinação e conformismo versus inconformismo.
Uma história na qual entrei com expectativas de algo “ligeirinho” e imprevisivelmente previsível. Saí com a noção de que, não se tratando de uma obra-prima, é um filme interessante que suscita um questionamento que se afigura cada vez mais pertinente no mundo em que vivemos.
Uma história na qual entrei com expectativas de algo “ligeirinho” e imprevisivelmente previsível. Saí com a noção de que, não se tratando de uma obra-prima, é um filme interessante que suscita um questionamento que se afigura cada vez mais pertinente no mundo em que vivemos.
A ver.
segunda-feira, março 14, 2011
Carta ao meu "amigo" Zé Socras
Zé, meu compincha que tão bem me entendes e compreendes,Escrevo-te esta carta porque estou revoltada e quero protestar contra as injustiças deste povo em relação a ti e ao teu magnífico governo. Escrevo-te para manifestar a minha solidariedade para contigo, génio incompreendido, como, de resto, o são todas as grandes mentes. Tu, que procuras o bem do teu país, tu que lutas pelo desenvolvimento tecnológico, pela educação, pela saúde, pela economia, pelo trabalho… E, apesar de todos os teus abnegados e heróicos esforços, ninguém te compreende!
Cerca de 300.000 pessoas, um pouco por todo o país, tudo a protestar contra o estado das coisas, contra a falta de oportunidades… Eles não entendem o que tu já tens feito pelo bem deles!
Tu, que levaste para a frente as Novas Oportunidades para que qualquer analfabeto possa aumentar a sua auto estima dizendo que tem o 9º ano sem ter que ir às aulas;
Tu, que criaste programas de estágio para que os licenciados e mestres possam adiar uns meses o desespero do desemprego e, entretanto, serem explorados a baixo custo com imensas regalias… para as empresas;
Tu, que proporcionaste aos alunos a possibilidade de transitarem de ano sem qualquer esforço, criando dificuldades aos malvados dos professores que os queiram reter caso não tenham tido aproveitamento;
Tu, que deste a volta àquela insustentável segurança social que não dava lucros nenhuns, como era o seu objectivo, garantindo, agora, que todos possam ter reformas menores e menos protecção na doença e no desemprego;
Tu, que cortaste os salários aos funcionários públicos, mas que tiveste a decência de salvaguardar os vencimentos dos administradores e dos teus amiguinhos;
Tu, que criaste mais dívida para que todos possamos sonhar com uma viagem de TGV, apesar de não termos dinheiro para os bilhetes e enquanto os trabalhadores da CP vêm as suas condições de trabalho a piorar;
Tu, que poupas dinheiro e decides não fazer um metro em cidades insignificantes como Coimbra, que não te metes em despesas com transportes públicos, tu que ainda por cima só tens 20 motoristas por tua conta e uns poucos por conta dos teus amiguinhos;
Tu, que organizas festas e viagens para mostrar o que de “melhor” por cá se faz, sem olhares a custos…
Tu, que és tão bonzinho, que nos compreendes tão bem, que és tão solidário para com os jovens, para com os trabalhadores, para com os pensionistas… Ninguém te compreende… Pedes justificados e pertinentes sacrifícios à população, discursas sobre o quanto nos entendes e lamentas o que passamos, pois não tens quaisquer responsabilidades sobre o estado das coisas! A culpa é da Ângela, do Nicolau e dos outros meninos maus da Europa. Tu não tens culpa!
Não tens culpa de te preocupares com as despesas excepto com as que dizem respeito a ti e aos teus amigos!
Não tens culpa de quereres luxos na educação, saúde, tecnologia e transportes (de que importa se ainda nem o básico está assegurado?)!
Não tens culpa de desconheceres o que é viver com um salário mínimo ou médio tendo comida, escola, gasolina, água, gás, luz, medicamentos, e outras despesas que tais, para pagar.
Não tens culpa que os professores se sintam mais reclusos que educadores e fontes de conhecimento por causa dum modelozinho de avaliação inofensivo.
Não tens culpa que os pais dos meninos não tenham dinheiro para lhes pagarem os estudos e os sustentarem quando eles não arranjam emprego.
Enfim… Às vezes sinto que vivemos num mundo ao contrário…
Eu, chamo-me Alice e vivo em Portugal, um país que não me dá oportunidades de crescimento, que desaproveita todo o investimento que eu, os meus pais e o estado fizeram no meu desenvolvimento pessoal e académico.
Tu és o Zé e vives no País das Maravilhas, um país em que tudo é como devia ser, graças a ti, mas as pessoas que o habitam são burras e não percebem o bem que lhes fazes.
Não me alongarei muito mais nesta carta, pois já deves ter percebido que estou do teu lado e que te compreendo totalmente! Sugiro-te que saias de Portugal… Por muito que te custe abandonar a pátria pela qual tanto te tens sacrificado, julgo que terás um futuro melhor, em que sejas mais bem tratado, fora deste país cujo povo não te entende nem dá valor ao que tens feito. Vai por exemplo para o Pólo Norte ou para a Gronelândia… Dizem que lá há muito espaço para construíres aeroportos, pontes, linhas de alta velocidade e auto-estradas!
Um beijinho e desejos de boa viagem,
Alice.
domingo, março 13, 2011
Rasca ou à rasca
Parabéns aos promotores das manifestações dos “à rasca” de todas as gerações. Foi grande, caudaloso, bonito, pacífico, razoavelmente eclético, divertido, bem humorado, musical. Até Sócrates e tantos outros políticos de todas as côres gostaram ou, pelo menos, compreenderam, exprimiram simpatia... Todas as pessoas de bom senso e que ainda não passaram o limiar da miséria (ou da revolta violenta) se identificaram com aquela eloquente expressão de mal-estar. Porque as pessoas estão fartas de desemprego, de perda de poder de compra, de clientelismo e favoritismo, de burocracia inútil, de mais impostos, de perda de regalias sociais, de precaridade, de injustiça na distribuição da riqueza e dos sacrifícios, da falta de perspectivas, de esperança, de futuro.A exorcização do mal-estar, pelos vistos, funcionou. A malta de todas as gerações sentiu-se unida, solidária, alegre na aflição, como noutros tempos de reivindicação e utopia. Fez-se sociedade o que, só por si, é bom em tempos de individualismo, oportunismo e agressividade.
Mas, e depois?
Um dos organizadores das manifestações disse à imprensa que eles não são contra os políticos, que até convidaram todos os deputados a participar. Com alguma sorte teriamos visto o Sócrates a abrir o cortejo com uma bandeira vermelha a dizer “Basta!”. Então o país está de pantanas e ninguém tem culpa? Toda a gente compreende, mas ninguém se sente responsável... salvo algum indígena torturado de idade provecta que, perante as câmaras da televisão, confessa uma culpa piedosa e patética que não se justifica.
Nâo têm culpa os de 40-60 anos que estão agora no poder, não têm culpa os da putativa “geração rasca”, não têm culpa os jovens e menos jovens que ocupam lugares de privilégio independentemente do mérito, não têm culpa os ricos que ficam cada vez mais ricos, não tem culpa os indíviduos e organizações que, durante as últimas décadas, tomaram decisões erradas de que estamos agora a sofrer as consequências. Concordamos todos que isto está mal e, pronto, esperamos que a solução caia, miraculosa, do céu aos trambolhões sem mudar as instituiçôes e os protagonistas do poder.
É evidente que os políticos têm culpa, os políticos que tomaram decisões sobre a afectação de recursos neste país nos últimos 35 anos. [Passo o período anterior da ditadura que já está sobejamente culpabilizado]. Têm culpa os governantes dos últimos 5 anos bem como os seus antecessores. Tem culpa quem votou neles. Mas, o que é mais preocupante não é o que se escolheu ou o que agora se tem, mas sim a falta de melhores alternativas. Os indíviduos e organizações que se perfilam para suceder ao poder actual cerecem de propostas credíveis e mobilizadoras.
O que resta então? A impotência, o desespero, a resignaçâo?
Querem os promotores desta insurreição de veludo criar um novo partido para disputar o poder e mostrar que se pode verdadeiramente mudar, evitando a estagnação ou o empobrecimento? Querem continuar a vociferar o mal-estar, esperando que os polítícos existentes finalmente entrem nos eixos?
Como já aqui escrevi (http://fantasticomelga.blogspot.com/2011/01/brevissima-historia-de-portugal-em.html), “[a] única esperança serão, daqui a 20 anos, os jovens que agora têm entre 15 e 25 anos, os filhos dos tais das gerações falhadas, cobaias das reformas (ou convulsões) do ensino, do consumo, dos costumes e da família e que não são "tubos digestivos que caminham e fornicam". Com um bocado de sorte, ainda cá estarei para ver se essa malta, com uma cabeça apesar de tudo mais aberta, lúcida e ambiciosa, ocupa como deve ser os lugares de direcção desta nossa desditosa pátria e escolhe estratégias virtuosas para nos tirar da persistência do atraso que - quero acreditar - não tem nada a ver com factores genéticos.”
Para que isto seja possível, é necessário que, em vez de renegar (ou edulcorar) os partidos, os jovens “à rasca” se infiltrem neles, varrendo a falta de qualidade e o oportunismo “rasca” de todas as idades, demonstrando que são melhores e que os podem subverter com ideias e liderança novas. A mudança necessária da política implica que pessoas voluntariosas, cultas e inteligentes dêem a volta aos partidos ou criem novos partidos que ameacem seriamente os existentes.
quarta-feira, março 09, 2011
Bail-out
A história conta-se muito simplesmente: o Estado emite obrigações e bilhetes do tesouro que são comprados pelos bancos nacionais para vender ao Banco Central Europeu. [Os investidores estrangeiros andam a fugir desde o ano passado da dívida soberana portuguesa.] Quer dizer: os bancos nacionais compram dívida pública, ficando a receber juros de 7%, e vendem essa dívida ao BCE, ficando a pagar cerca de 1%. O saldo de tudo isto traduz-se em ter o BCE a financiar o Estado e, ao mesmo tempo, em cooperação com o mesmo Estado, ajudar a rendibilidade dos bancos que ficam com uma margem de cerca de 6%.
Quem é que falou em bail-out? Será mais um porque o do BCE já cá está... No dia em que o BCE deixar de comprar dívida portuguesa, o refinanciamento pára e os calotes emergem. Quanto mais dinheiro chegar ao Estado, mais credores externos aproveitarão para sair porque o problema é de competitividade a médio-longo prazo da economia portuguesa que cresce (ou não cresce) para gerar (ou não gerar) receitas que permitam reembolsar as dívidas e pagar os juros. "A longo prazo estamos todos mortos" mas o medo do longo prazo pode fazer-nos morrer já...
O problema não é tanto o de stock de dívida mas o da sua sustentabilidade, ou seja, o da possibilidade do seu contínuo refinanciamento. Há países com muito mais dívida em comparação com o PIB (p. ex° Itália e Bélgica) sem o sufoco actual de Portugal porque os credores acham que esse stock de dívida pode ser refinanciado em permanência, ou seja, haverá sempre outros (ou os mesmos) credores dispostos a emprestar para assegurar o serviço da dívida existente a cada momento. [Para não falar em casos como os Estados Unidos cuja moeda é reserva mundial e que portanto tem capacidade para continuar a emitir mais dólares que serão aceites para reembolsar as dívidas US.]
O drama de uma pequena economia altamente endividada e pertencente a uma união monetária e divergente dos restantes membros dessa mesma união é que não tem margens de manobra (como a desvalorização cambial e a inflação) para corrigir o desequilíbrio. A única hipótese é "espremer" a economia real, isto é, pôr os agentes económicos a produzir para vender ao estrangeiro ou a não consumir o que se compra ao estrangeiro. O que é necessário é mudar o rácio balança comercial/consumo interno em favor do numerador. É claro que a solidariedade dos parceiros da união monetária pode ajudar, mas, no médio-longo prazo, os únicos remédios são: aumentar a produtividade ou aceitar o empobrecimento ou a estagnação.
Quem é que falou em bail-out? Será mais um porque o do BCE já cá está... No dia em que o BCE deixar de comprar dívida portuguesa, o refinanciamento pára e os calotes emergem. Quanto mais dinheiro chegar ao Estado, mais credores externos aproveitarão para sair porque o problema é de competitividade a médio-longo prazo da economia portuguesa que cresce (ou não cresce) para gerar (ou não gerar) receitas que permitam reembolsar as dívidas e pagar os juros. "A longo prazo estamos todos mortos" mas o medo do longo prazo pode fazer-nos morrer já...
O problema não é tanto o de stock de dívida mas o da sua sustentabilidade, ou seja, o da possibilidade do seu contínuo refinanciamento. Há países com muito mais dívida em comparação com o PIB (p. ex° Itália e Bélgica) sem o sufoco actual de Portugal porque os credores acham que esse stock de dívida pode ser refinanciado em permanência, ou seja, haverá sempre outros (ou os mesmos) credores dispostos a emprestar para assegurar o serviço da dívida existente a cada momento. [Para não falar em casos como os Estados Unidos cuja moeda é reserva mundial e que portanto tem capacidade para continuar a emitir mais dólares que serão aceites para reembolsar as dívidas US.]
O drama de uma pequena economia altamente endividada e pertencente a uma união monetária e divergente dos restantes membros dessa mesma união é que não tem margens de manobra (como a desvalorização cambial e a inflação) para corrigir o desequilíbrio. A única hipótese é "espremer" a economia real, isto é, pôr os agentes económicos a produzir para vender ao estrangeiro ou a não consumir o que se compra ao estrangeiro. O que é necessário é mudar o rácio balança comercial/consumo interno em favor do numerador. É claro que a solidariedade dos parceiros da união monetária pode ajudar, mas, no médio-longo prazo, os únicos remédios são: aumentar a produtividade ou aceitar o empobrecimento ou a estagnação.
terça-feira, março 08, 2011
Um texto que diz tudo...

Descobri tudo. Depois de dar muitas voltas à cabeça, de pensar porque é que faço parte da geração à rasca, já percebi onde é que está o problema. Os culpados foram os meus pais. É a eles que tenho de pedir contas por, aos 30 anos, estar longe, tão longe, do que imaginava em pequena. A culpa foi deles que me mandaram estudar. Que me disseram para fugir à mediania. Que me fizeram crer que a instrução era meio caminho andado para um bom emprego, um bom salário. Não te fiques pela licenciatura, filha. Não, aproveita e tira também duas pós-graduações e um mestrado, que o saber não ocupa lugar. E eu assim fiz, inocente, a achar que eles queriam o melhor para mim. Grandes trafulhas. Afinal não. Afinal parece que, depois de tudo isto, ainda tenho é de elevar as mãos ao céu, em jeito de agradecimento por ter arranjado emprego. Não interessa nada se nunca fui aumentada em anos, menos ainda se não ganho o que seria justo, o que mereço. Tenho é de anuir com a cabecita, olhar para quem ganha menos e sentir-me uma privilegiada. Como escreveu há dias a directora de um jornal, de que é que nos queixamos, se até ganhamos o dobro do que ganham os não licenciados? Olha-me estes, que só estudaram mais quatro ou cinco anos (no mínimo) do que aqueles que não foram para a universidade e agora acham quem merecem mundos e fundos. Pfffff! O pensamento é esse. A tabela nivela-se por baixo, nunca por cima. Temos sempre de olhar para quem está pior, nunca para quem está melhor. Faz-se a ode à pequenez, à satisfaçãozinha, ao “antes isso que nada”.
E cá vamos andando, enrascados, pedindo a Deus que não nos deixe cair na teia dos recibos verdes e agradecendo com beija-mão um salário de três dígitos. Sacanas dos meus pais, que não me deixaram ficar pelo nono ano.
E cá vamos andando, enrascados, pedindo a Deus que não nos deixe cair na teia dos recibos verdes e agradecendo com beija-mão um salário de três dígitos. Sacanas dos meus pais, que não me deixaram ficar pelo nono ano.
Ana Garcia Martins, retirado daqui.
segunda-feira, março 07, 2011
O preço do orgulho ?
"Idealmente, Portugal deveria seguir o exemplo de Espanha e adoptar reformas estruturais convincentes para aliviar a pressão dos mercados. Mas, se Portugal tiver de pedir ajuda externa, será melhor fazê-lo rapidamente e preventivamente, em vez de esperar pelo momento em que a opinião pública considerará tal pedido como uma humilhação nacional. O exemplo da Irlanda demonstra que, se um socorro financeiro se torna essencial, é melhor que seja lançado num contexto político não contaminado pelo orgulho e rancor." Assim escreve o Editoral do Financial Times de hoje (ver também http://fantasticomelga.blogspot.com/2011/02/take-it-or-leave-it.html#links)
domingo, março 06, 2011
O caso da Líbia
A especificidade e a complexidade da situação na Líbia são devidas a dois factores essenciais: um ditador que controla recursos colossais e que já passou o limiar da loucura há muito tempo; um país feito de 4 tribos principais que Kadhafi conseguiu conciliar através de uma partilha mais ou menos consensual de benesses e privilégios. O contágio da revolta em países vizinhos levou à ruptura desses equilíbrios tutelados por uma personagem grotesca. E o país pode transformar-se numa espécie de Somália, isto é, controlado por bandos armados ligados a certas tribos que disputam violentamente o território entre si e que tornam impossivel um governo central, a ordem e a legalidade. Neste contexto, falar em liberdade e democracia, infelizmente, soa a falso. Falemos, em vez disso, de tribalismo e de chefes tribais.Inesperadamente, as afirmações do filho de Kadhafi denunciando a ingenuidade de olhar para a Líbia como se olhou para a Tunísia ou para o Egipto adquirem alguma credibilidade. Segundo ele, dadas as estruturas tribais, a democracia à moda ocidental seria uma ficção perigosa e impraticável na Líbia.
Também não deixa de ser curioso que os países do norte de África de colonização italiana têm todos esse tipo de características semelhantes. Itália, Etiópia, Somália...
E durante décadas, os países ocidentais mais não fizeram do que aceitar pragmaticamente essa "anomalia" para poderem usufruir de petróleo e gaz e para que a população pobre continuasse bloqueada nas suas fronteiras por um louco ditador, permitindo moderar a fuga através do Mediterrâneo para a Europa da liberdade e da abundância.
sábado, março 05, 2011
Un gesto hacia los judíos
"El pueblo judío no fue responsable de la crucifixión y muerte de Cristo. Los culpables fueron el establishment sacerdotal y los secuaces de Barrabás. Jesús no fue tampoco un líder revolucionario, porque su mensaje y su actitud 'no constituían un peligro' para el Imperio Romano. En todo caso, propuso un sistema distinto a todos los existentes; no una alternativa política, sino espiritual. Visto con ojos modernos, casi un anarquista. Estas ideas, que desarrollan lo afirmado por el Concilio Vaticano II, forman parte del libro 'Jesús de Nazaret. Desde su entrada en Jerusalén a la Resurrección', que saldrá a la venta el próximo 10 de marzo. Las firma el Papa Benedicto XVI, y forman parte de la segunda entrega sobre la figura de Jesús escrita por Joseph Ratzinger."
Descrição dramática do estado actual em que se encontram certos decisores do nosso destino colectivo
"A esquizofrenia é um transtorno psíquico severo que se caracteriza classicamente pelos seguintes sintomas: alterações do pensamento, alucinações, delírios e alterações no contacto com a realidade. É hoje encarada não como doença, no sentido clássico do termo, mas sim como um transtorno mental, podendo atingir diversos tipos de pessoas, sem exclusão de grupos ou classes sociais. De acordo com algumas estatísticas, a esquizofrenia atinge 1% da população mundial, manifestando-se habitualmente entre os 15 e os 25 anos, com proporção semelhante entre homens e mulheres, podendo igualmente ocorrer na meia-idade. Algumas pessoas acometidas da esquizofrenia destacaram-se e destacam-se no meio acadêmico, artístico e social."
Fonte: Wikipédia
Fonte: Wikipédia
A propósito de Facebook
As chamadas redes sociais são “óptimas” porque nos dão a ilusão de estar juntos, mantendo-nos higienicamente separados. Até parece que não estamos sózinhos, estando literalmente sózinhos. Sem redes sociais, cairíamos talvez na mais óbvia solidão ou meter-nos-iamos à estrada para encontrar pessoais reais, sem mediação virtual, pessoas com lágrimas ou sorrisos autênticos, com olhos baços ou luminosos. As redes sociais permitem-nos ter relações “à la carte”: amigos, amantes, colegas, conhecidos, clientes, fornecedores (sabe deus de quê...), actuais ou potenciais, tudo metido em gavetinhas bem organizadas que se abrem ou fecham conforme o humor, a conveniência ou a oportunidade. As redes sociais permitem-nos restabelecer comunicação com os mais improváveis e longínquos interlocutores (longínquos no espaço e no tempo). E então podemos redescobrir a infância, a juventude, cultivar memórias, tentar reinventar a roda, refazer a história, contactar as pessoas mais inverosímeis. E quantas vezes nos desiludimos e caímos no ridículo porque o que lá vai lá vai, a vida fluiu e levou cada um de nós por caminhos que deixaram para trás cruzamentos que se fecharam irreversivelmente. Não quer dizer que se deva fazer tábua rasa do passado, com o qual crescemos, na alegria e na tristeza, do qual somos feitos, ou que se deva fechar a porta aos benefícios do desconhecido ou do imprevisto (atentas também as surpresas desagradáveis). É tudo uma questão de expectativas. Normalmente, a resolução dos nossos impasses ou problemas actuais passa pelo futuro, pelo risco de novos encontros e não por qualquer putativa reedição do passado. As redes sociais facilitam seguramente a empatia porque este ecrã cava uma distância que, nalguns casos, se sonha eliminar depois de uma fase de encantamento feito da ambiguidade das palavras escritas. Se se quebrar essa distância, passando ao contacto real, com todas as probabilidades de sucesso ou fracasso, diria que as redes sociais cumpriram um papel meritório: o de instrumento ou promotor de relações sociais “concretas”. De qualquer modo, a vantagem minimalista das redes sociais é que podem realmente ser uma alternativa à solidão… admitindo que, infelizmente, seja essa a única alternativa.
As redes sociais são uma forma de compromisso possível entre relações sociais e individualismo, sendo que as primeiras se têm empobrecido nas últimas décadas e o segundo tem prosperado à sombra da absolutização de valores como a liberdade, a autonomia, a responsabilidade e o livre-arbítrio, em detrimento de outros como a solidariedade, a generosidade e a caridade.
As redes sociais são uma forma de compromisso possível entre relações sociais e individualismo, sendo que as primeiras se têm empobrecido nas últimas décadas e o segundo tem prosperado à sombra da absolutização de valores como a liberdade, a autonomia, a responsabilidade e o livre-arbítrio, em detrimento de outros como a solidariedade, a generosidade e a caridade.
terça-feira, março 01, 2011
Vida

Às vezes, quando achamos que a nossa situação é a pior do mundo, que temos todos os motivos para deprimir e quebrar, vem uma notícia avassaladora que nos dá uma chapada na cara e nos mostra o que realmente importa...
Os problemas não desaparecem porque piores surgem. Quando são verdadeiramente problemas, não desaparecem assim, com tanta leveza... Mas são relativizados!
Damos valor ao que todos os dias deveria ser exaltado: estamos vivos, temos sonhos, podemos estar com quem amamos, sentir, dizer o que sentimos, partilhar momentos, temos oportunidades de crescer, de sonhar, de verdadeiramente viver.
Acima de tudo, devemos ser humildes e amar a vida, não apesar dos problemas, mas encarando-a com todos os desafios e dificuldades que a caracterizam, olhando a beleza de cada instante, de cada lugar, de cada sentir... Pareçam-nos eles positivos ou negativos...
Os problemas não desaparecem porque piores surgem. Quando são verdadeiramente problemas, não desaparecem assim, com tanta leveza... Mas são relativizados!
Damos valor ao que todos os dias deveria ser exaltado: estamos vivos, temos sonhos, podemos estar com quem amamos, sentir, dizer o que sentimos, partilhar momentos, temos oportunidades de crescer, de sonhar, de verdadeiramente viver.
Acima de tudo, devemos ser humildes e amar a vida, não apesar dos problemas, mas encarando-a com todos os desafios e dificuldades que a caracterizam, olhando a beleza de cada instante, de cada lugar, de cada sentir... Pareçam-nos eles positivos ou negativos...
domingo, fevereiro 27, 2011
Ni Facebook, ni Twitter: son los fusiles
"Como ya he escrito en otras columnas, al final los que definen cuándo y cómo muere una dictadura son los militares. ¿Y qué tiene que ver Internet con todo esto? Mucho menos de lo que estamos leyendo y oyendo en las noticias de estos días.
Reconocer esta realidad ayuda a vislumbrar mejor el futuro político de los países sacudidos por estas revueltas populares. En Egipto, por ejemplo, a menos que la presión popular continúe, obligando a las Fuerzas Armadas a aceptar reformas más profundas, la revolución solo habrá servido para reemplazar una pequeña élite corrupta por otra. Los militares egipcios son un importante factor económico y obtienen enormes beneficios de las malas políticas que tienen a miles de jóvenes egipcios sin empleo y sin futuro. Y quitar los privilegios al estamento castrense seguramente exigirá mucho más que montar una página en Facebook o denunciarlos en Twitter."
mnaim@elpais.es
Reconocer esta realidad ayuda a vislumbrar mejor el futuro político de los países sacudidos por estas revueltas populares. En Egipto, por ejemplo, a menos que la presión popular continúe, obligando a las Fuerzas Armadas a aceptar reformas más profundas, la revolución solo habrá servido para reemplazar una pequeña élite corrupta por otra. Los militares egipcios son un importante factor económico y obtienen enormes beneficios de las malas políticas que tienen a miles de jóvenes egipcios sin empleo y sin futuro. Y quitar los privilegios al estamento castrense seguramente exigirá mucho más que montar una página en Facebook o denunciarlos en Twitter."
mnaim@elpais.es
Explicações
"Fim do mundo, lugar de destino mais do que de passagem, com pouca atracção do mar, a situação geográfica de Portugal não era exactamente das mais propícias ao desenvolvimento de culturas superiores. Por longos séculos estaria por trás do atraso de muitas das características nacionais. E, apesar de todas as mudanças do Mundo no que respeita a transportes e a descobertas, por parte das quais Portugal foi responsável, esse facto continua a permanecer constante nos tempos de hoje." pp. 12-13
"Comparando o português de hoje com os dialectos italianos, pode concluir-se que as gentes do Sul da Peninsula Itálica tiveram influência marcante na origem do idioma nacional, testemunhando uma fixação numerosa no futuro Portugal de romanos dessa proveniência." p. 17
in "Breve História de Portugal" de A. H. de Oliveira Marques (Ed. Presença, 7a. edição)
"Comparando o português de hoje com os dialectos italianos, pode concluir-se que as gentes do Sul da Peninsula Itálica tiveram influência marcante na origem do idioma nacional, testemunhando uma fixação numerosa no futuro Portugal de romanos dessa proveniência." p. 17
in "Breve História de Portugal" de A. H. de Oliveira Marques (Ed. Presença, 7a. edição)
sábado, fevereiro 26, 2011
Escolhas
Quando se dorme do lado errado, sonha-se de trás para a frente. Deve-se dormir para o lado oposto ao do coração para que os sonhos saiam certos... Sonhar de trás para a frente quer dizer pôr a realidade antes dos sonhos. Não dá certo e costuma fazer mal ao coração que acorda dorido. Mas, o que custa mais é sofrer da realidade, mesmo quando se dorme e sonha com o coração para o lado certo e os sonhos precedem a realidade como deve ser.
Nestas coisas, fazer tudo direitinho não é sinónimo de sucesso ou de justiça. É o caracter aleatório do resultado dos nossos sonhos e das nossas acções que desconcerta. Essa contingência é particularmente clara nos tempos que correm em que o que se passa connosco depende mais de circunstâncias e influências externas do que do nosso livre-arbítrio. Talvez tenha sido sempre assim. É chato não controlar o destino, mas, por isso mesmo, se trata de destino. É chato cumprir as regras do jogo e jogar bem e chegar ao fim derrotado, não por superioridade do adversário, mas por sacanice do árbitro ou mudança inesperada das regras a meio do jogo. É a vida. E a esperança é a última a morrer e o pior é desistir.
A sabedoria e a integridade aconselham a adaptação (sem vender a alma) ou a revolta organizada.
Nestas coisas, fazer tudo direitinho não é sinónimo de sucesso ou de justiça. É o caracter aleatório do resultado dos nossos sonhos e das nossas acções que desconcerta. Essa contingência é particularmente clara nos tempos que correm em que o que se passa connosco depende mais de circunstâncias e influências externas do que do nosso livre-arbítrio. Talvez tenha sido sempre assim. É chato não controlar o destino, mas, por isso mesmo, se trata de destino. É chato cumprir as regras do jogo e jogar bem e chegar ao fim derrotado, não por superioridade do adversário, mas por sacanice do árbitro ou mudança inesperada das regras a meio do jogo. É a vida. E a esperança é a última a morrer e o pior é desistir.
A sabedoria e a integridade aconselham a adaptação (sem vender a alma) ou a revolta organizada.
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
A rapariga dos dois cães
A rapariga dos dois cães é alta, magra, loura, bonita, elegante. Tem classe, um bom gosto perturbante de salões de veludo e cristais. Caminha como um desenho animado, muito certa, decidida, hirta. Caminha como a sua solidão orgulhosa, como uma estátua perfeita do seu desprezo pelas pessoas insignificantes que a rodeiam (essencialmente todas...) que lhe podem tirar poder e visibilidade. Porque, para ela, só ela é visível. Tudo o resto é obviamente irrisório, redundante, incomodativo. A rapariga dos dois cães é ao mesmo tempo simpática (horrivelmente e eficazmente simpática) e glacial, tão cortante como a sua solidão que nunca chora, que nunca se rende. A sua simpatia soa apenas a falso, uma falsidade geometricamente elegante como ela. A sua solidão é fria como o mármore do chão da sua casa e do brilho dos seus olhos. Contudo, a rapariga dos dois cães ainda é humana. Por isso, tem dois cães enormes que trata melhor do que todos os humanos que disputam o que lhe resta de humanidade, de cedência às emoções que a poderiam empurrar para territórios perigosamente desconhecidos. Os dois cães são imponentes, de raça. Não podia ser de outra maneira na família de uma rapariga bonita e dois cães que talvez sejam mais do que cães sem, no entanto, serem humanos. Porque de humano basta o que resta de humano da rapariga dos dois cães cuja vida parece uma engrenagem meticulosa e intocável. Talvez um dia a rapariga desmorone e os cães fiquem vadios. Ou talvez não... e morram todos como viveram: pontualmente, com rigor e elegância, sem amigos nem história, esquecidos como brinquedos velhos, em sepulturas irrepreensíveis, impecavelmente afastadas das demais.
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Ligações perigosas
Excertos do "El Pais":
Muchos norteafricanos saben que el régimen del dictador libio tiene en la Italia de Silvio Berlusconi a su gran aliado occidental y a un socio comercial privilegiado. Desde que hace dos años Il Cavaliere y el Coronel firmaron el Tratado de Amistad, Asociación y Cooperación, los negocios bilaterales superan ya los 40.000 millones de euros anuales y alcanzan todos los sectores cruciales, de la energía a la banca o la construcción y sin faltar los acuerdos militares y de inteligencia. Todo ello bajo el signo del bunga bunga, el rito erótico de triste fama que, según Berlusconi, le enseñó Gadafi durante alguno de sus coloristas y frecuentes encuentros.
Además del gas, son el petróleo y las gigantescas reservas de petrodólares las grandes armas que Gadafi ha empleado para seducir a Silvio Berlusconi, que en los últimos dos años se ha convertido en el principal paladín del regreso del coronel a la escena internacional. Ambos países desarrollan en este momento un gran número de negocios millonarios, envueltos en un gigantesco conflicto de intereses entre lo público y lo privado, entre la alta política poscolonial y la diplomacia de los negocios personales y estatales.
Roma teme que el caos paralice o acabe con los numerosos acuerdos firmados con el dictador libio. Hay en juego autopistas, fútbol, helicópteros, radar, trenes, televisiones, bancos, coches, incluso un hotel de lujo en el centro de Trípoli.
Desde que hace dos años, el 30 de agosto de 2008, Libia e Italia firmaron en Bengasi el tratado que cerraba un largo y tenso contencioso colonial, con solemnes peticiones de perdón de Il Cavaliere al Coronel incluidas, Libia se ha convertido en uno de los escenarios favoritos de inversión de las grandes empresas italianas. Y viceversa, Gadafi ha inyectado grandes cantidades de dinero líquido en empresas italianas siguiendo los consejos de Berlusconi.
Todo ello, con la inmigración clandestina y los derechos humanos como sangrante telón de fondo: el acuerdo permitía a Italia y a la UE a devolver a Libia en masa a los inmigrantes africanos capturados en sus aguas incumpliendo las leyes internacionales que protegen a los peticionarios de asilo. Las denuncias de torturas, extorsiones y malos tratos a los inmigrantes en Libia son continuas.
Curiosamente, Berlusconi y Gadafi han seguido cerrando tratos hasta la última semana, cuando Roma permitió a Gazprom acceder al negocio del crudo libio, con la venta de ENI a su homóloga rusa de una cuota del 33% en el importante pozo petrolífero Elephant, situado 800 kilómetros al sur de Trípoli.
La preocupación no es poca. Berlusconi ha anunciado esta mañana que intentará llamar a Gadafi en el transcurso del día para decirle que "ya basta de tanta sangre". La incógnita es si habrá alguien al otro lado de la línea que le responda.
Muchos norteafricanos saben que el régimen del dictador libio tiene en la Italia de Silvio Berlusconi a su gran aliado occidental y a un socio comercial privilegiado. Desde que hace dos años Il Cavaliere y el Coronel firmaron el Tratado de Amistad, Asociación y Cooperación, los negocios bilaterales superan ya los 40.000 millones de euros anuales y alcanzan todos los sectores cruciales, de la energía a la banca o la construcción y sin faltar los acuerdos militares y de inteligencia. Todo ello bajo el signo del bunga bunga, el rito erótico de triste fama que, según Berlusconi, le enseñó Gadafi durante alguno de sus coloristas y frecuentes encuentros.
Además del gas, son el petróleo y las gigantescas reservas de petrodólares las grandes armas que Gadafi ha empleado para seducir a Silvio Berlusconi, que en los últimos dos años se ha convertido en el principal paladín del regreso del coronel a la escena internacional. Ambos países desarrollan en este momento un gran número de negocios millonarios, envueltos en un gigantesco conflicto de intereses entre lo público y lo privado, entre la alta política poscolonial y la diplomacia de los negocios personales y estatales.
Roma teme que el caos paralice o acabe con los numerosos acuerdos firmados con el dictador libio. Hay en juego autopistas, fútbol, helicópteros, radar, trenes, televisiones, bancos, coches, incluso un hotel de lujo en el centro de Trípoli.
Desde que hace dos años, el 30 de agosto de 2008, Libia e Italia firmaron en Bengasi el tratado que cerraba un largo y tenso contencioso colonial, con solemnes peticiones de perdón de Il Cavaliere al Coronel incluidas, Libia se ha convertido en uno de los escenarios favoritos de inversión de las grandes empresas italianas. Y viceversa, Gadafi ha inyectado grandes cantidades de dinero líquido en empresas italianas siguiendo los consejos de Berlusconi.
Todo ello, con la inmigración clandestina y los derechos humanos como sangrante telón de fondo: el acuerdo permitía a Italia y a la UE a devolver a Libia en masa a los inmigrantes africanos capturados en sus aguas incumpliendo las leyes internacionales que protegen a los peticionarios de asilo. Las denuncias de torturas, extorsiones y malos tratos a los inmigrantes en Libia son continuas.
Curiosamente, Berlusconi y Gadafi han seguido cerrando tratos hasta la última semana, cuando Roma permitió a Gazprom acceder al negocio del crudo libio, con la venta de ENI a su homóloga rusa de una cuota del 33% en el importante pozo petrolífero Elephant, situado 800 kilómetros al sur de Trípoli.
La preocupación no es poca. Berlusconi ha anunciado esta mañana que intentará llamar a Gadafi en el transcurso del día para decirle que "ya basta de tanta sangre". La incógnita es si habrá alguien al otro lado de la línea que le responda.
domingo, fevereiro 20, 2011
Anomalia italiana
O que é mais dramático no folhetim berlusconiano não é o facto de conseguir escapar à Justiça (que Justiça?) desde há anos, no meio de sucessivos escândalos financeiro-sexuais que degradam a reputação do país e que o transformam numa Républica das Bananas (ou de Saló?). Obviamente, sem prejudicar a sacrossanta presunção de inocência que, no caso de Berlusconi, se traduz numa permanente e tautológica impossibilidade de crime, contra todos os testemunhos e provas. O que é mais dramático nessa lamentável opereta é que Silvio Berlusconi tem ganho eleições e, provavelmente, se se recandidatar, voltará a ganhá-las. O que significa que uma grande parte dos italianos se reconhece na personagem. Porque é rico, fanfarrão, mulherengo, chico-esperto ("furbo"), desenrascado, divertido, optimista, desbocado? Porque desdramatiza e desritualiza o poder? Porque é populista e demagogo? Também porque a oposição (oposições) é tudo menos credível, entre uma esquerda-caviar e uma míriade de capelas onde pontificam criaturas enquistadas no sistema de impasses típico de um país que se tem auto-governado, apesar dos políticos.Pouco antes de morrer, Saramago escreveu um artigo (publicado no El Pais) no qual dizia que Berlusconi tinha dividido a Itália em dois grupos: o dos que são já como ele e o dos que gostariam de ser como ele. Acho um bocado injusto, porque ainda há os outros e são esses que representam a esperança da Itália.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
