Parabéns aos promotores das manifestações dos “à rasca” de todas as gerações. Foi grande, caudaloso, bonito, pacífico, razoavelmente eclético, divertido, bem humorado, musical. Até Sócrates e tantos outros políticos de todas as côres gostaram ou, pelo menos, compreenderam, exprimiram simpatia... Todas as pessoas de bom senso e que ainda não passaram o limiar da miséria (ou da revolta violenta) se identificaram com aquela eloquente expressão de mal-estar. Porque as pessoas estão fartas de desemprego, de perda de poder de compra, de clientelismo e favoritismo, de burocracia inútil, de mais impostos, de perda de regalias sociais, de precaridade, de injustiça na distribuição da riqueza e dos sacrifícios, da falta de perspectivas, de esperança, de futuro.A exorcização do mal-estar, pelos vistos, funcionou. A malta de todas as gerações sentiu-se unida, solidária, alegre na aflição, como noutros tempos de reivindicação e utopia. Fez-se sociedade o que, só por si, é bom em tempos de individualismo, oportunismo e agressividade.
Mas, e depois?
Um dos organizadores das manifestações disse à imprensa que eles não são contra os políticos, que até convidaram todos os deputados a participar. Com alguma sorte teriamos visto o Sócrates a abrir o cortejo com uma bandeira vermelha a dizer “Basta!”. Então o país está de pantanas e ninguém tem culpa? Toda a gente compreende, mas ninguém se sente responsável... salvo algum indígena torturado de idade provecta que, perante as câmaras da televisão, confessa uma culpa piedosa e patética que não se justifica.
Nâo têm culpa os de 40-60 anos que estão agora no poder, não têm culpa os da putativa “geração rasca”, não têm culpa os jovens e menos jovens que ocupam lugares de privilégio independentemente do mérito, não têm culpa os ricos que ficam cada vez mais ricos, não tem culpa os indíviduos e organizações que, durante as últimas décadas, tomaram decisões erradas de que estamos agora a sofrer as consequências. Concordamos todos que isto está mal e, pronto, esperamos que a solução caia, miraculosa, do céu aos trambolhões sem mudar as instituiçôes e os protagonistas do poder.
É evidente que os políticos têm culpa, os políticos que tomaram decisões sobre a afectação de recursos neste país nos últimos 35 anos. [Passo o período anterior da ditadura que já está sobejamente culpabilizado]. Têm culpa os governantes dos últimos 5 anos bem como os seus antecessores. Tem culpa quem votou neles. Mas, o que é mais preocupante não é o que se escolheu ou o que agora se tem, mas sim a falta de melhores alternativas. Os indíviduos e organizações que se perfilam para suceder ao poder actual cerecem de propostas credíveis e mobilizadoras.
O que resta então? A impotência, o desespero, a resignaçâo?
Querem os promotores desta insurreição de veludo criar um novo partido para disputar o poder e mostrar que se pode verdadeiramente mudar, evitando a estagnação ou o empobrecimento? Querem continuar a vociferar o mal-estar, esperando que os polítícos existentes finalmente entrem nos eixos?
Como já aqui escrevi (http://fantasticomelga.blogspot.com/2011/01/brevissima-historia-de-portugal-em.html), “[a] única esperança serão, daqui a 20 anos, os jovens que agora têm entre 15 e 25 anos, os filhos dos tais das gerações falhadas, cobaias das reformas (ou convulsões) do ensino, do consumo, dos costumes e da família e que não são "tubos digestivos que caminham e fornicam". Com um bocado de sorte, ainda cá estarei para ver se essa malta, com uma cabeça apesar de tudo mais aberta, lúcida e ambiciosa, ocupa como deve ser os lugares de direcção desta nossa desditosa pátria e escolhe estratégias virtuosas para nos tirar da persistência do atraso que - quero acreditar - não tem nada a ver com factores genéticos.”
Para que isto seja possível, é necessário que, em vez de renegar (ou edulcorar) os partidos, os jovens “à rasca” se infiltrem neles, varrendo a falta de qualidade e o oportunismo “rasca” de todas as idades, demonstrando que são melhores e que os podem subverter com ideias e liderança novas. A mudança necessária da política implica que pessoas voluntariosas, cultas e inteligentes dêem a volta aos partidos ou criem novos partidos que ameacem seriamente os existentes.









