sábado, fevereiro 26, 2011

Escolhas

Quando se dorme do lado errado, sonha-se de trás para a frente. Deve-se dormir para o lado oposto ao do coração para que os sonhos saiam certos... Sonhar de trás para a frente quer dizer pôr a realidade antes dos sonhos. Não dá certo e costuma fazer mal ao coração que acorda dorido. Mas, o que custa mais é sofrer da realidade, mesmo quando se dorme e sonha com o coração para o lado certo e os sonhos precedem a realidade como deve ser.

Nestas coisas, fazer tudo direitinho não é sinónimo de sucesso ou de justiça. É o caracter aleatório do resultado dos nossos sonhos e das nossas acções que desconcerta. Essa contingência é particularmente clara nos tempos que correm em que o que se passa connosco depende mais de circunstâncias e influências externas do que do nosso livre-arbítrio. Talvez tenha sido sempre assim. É chato não controlar o destino, mas, por isso mesmo, se trata de destino. É chato cumprir as regras do jogo e jogar bem e chegar ao fim derrotado, não por superioridade do adversário, mas por sacanice do árbitro ou mudança inesperada das regras a meio do jogo. É a vida. E a esperança é a última a morrer e o pior é desistir.

A sabedoria e a integridade aconselham a adaptação (sem vender a alma) ou a revolta organizada.

Estão a gozar com a malta

Clicar aqui. E ver esta definição de esquizofrenia. Tem tudo a ver...

O que faz falta...

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

A rapariga dos dois cães

A rapariga dos dois cães é alta, magra, loura, bonita, elegante. Tem classe, um bom gosto perturbante de salões de veludo e cristais. Caminha como um desenho animado, muito certa, decidida, hirta. Caminha como a sua solidão orgulhosa, como uma estátua perfeita do seu desprezo pelas pessoas insignificantes que a rodeiam (essencialmente todas...) que lhe podem tirar poder e visibilidade. Porque, para ela, só ela é visível. Tudo o resto é obviamente irrisório, redundante, incomodativo. A rapariga dos dois cães é ao mesmo tempo simpática (horrivelmente e eficazmente simpática) e glacial, tão cortante como a sua solidão que nunca chora, que nunca se rende. A sua simpatia soa apenas a falso, uma falsidade geometricamente elegante como ela. A sua solidão é fria como o mármore do chão da sua casa e do brilho dos seus olhos. Contudo, a rapariga dos dois cães ainda é humana. Por isso, tem dois cães enormes que trata melhor do que todos os humanos que disputam o que lhe resta de humanidade, de cedência às emoções que a poderiam empurrar para territórios perigosamente desconhecidos. Os dois cães são imponentes, de raça. Não podia ser de outra maneira na família de uma rapariga bonita e dois cães que talvez sejam mais do que cães sem, no entanto, serem humanos. Porque de humano basta o que resta de humano da rapariga dos dois cães cuja vida parece uma engrenagem meticulosa e intocável. Talvez um dia a rapariga desmorone e os cães fiquem vadios. Ou talvez não... e morram todos como viveram: pontualmente, com rigor e elegância, sem amigos nem história, esquecidos como brinquedos velhos, em sepulturas irrepreensíveis, impecavelmente afastadas das demais.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Ligações perigosas

Excertos do "El Pais":

Muchos norteafricanos saben que el régimen del dictador libio tiene en la Italia de Silvio Berlusconi a su gran aliado occidental y a un socio comercial privilegiado. Desde que hace dos años Il Cavaliere y el Coronel firmaron el Tratado de Amistad, Asociación y Cooperación, los negocios bilaterales superan ya los 40.000 millones de euros anuales y alcanzan todos los sectores cruciales, de la energía a la banca o la construcción y sin faltar los acuerdos militares y de inteligencia. Todo ello bajo el signo del bunga bunga, el rito erótico de triste fama que, según Berlusconi, le enseñó Gadafi durante alguno de sus coloristas y frecuentes encuentros.

Además del gas, son el petróleo y las gigantescas reservas de petrodólares las grandes armas que Gadafi ha empleado para seducir a Silvio Berlusconi, que en los últimos dos años se ha convertido en el principal paladín del regreso del coronel a la escena internacional. Ambos países desarrollan en este momento un gran número de negocios millonarios, envueltos en un gigantesco conflicto de intereses entre lo público y lo privado, entre la alta política poscolonial y la diplomacia de los negocios personales y estatales.

Roma teme que el caos paralice o acabe con los numerosos acuerdos firmados con el dictador libio. Hay en juego autopistas, fútbol, helicópteros, radar, trenes, televisiones, bancos, coches, incluso un hotel de lujo en el centro de Trípoli.

Desde que hace dos años, el 30 de agosto de 2008, Libia e Italia firmaron en Bengasi el tratado que cerraba un largo y tenso contencioso colonial, con solemnes peticiones de perdón de Il Cavaliere al Coronel incluidas, Libia se ha convertido en uno de los escenarios favoritos de inversión de las grandes empresas italianas. Y viceversa, Gadafi ha inyectado grandes cantidades de dinero líquido en empresas italianas siguiendo los consejos de Berlusconi.

Todo ello, con la inmigración clandestina y los derechos humanos como sangrante telón de fondo: el acuerdo permitía a Italia y a la UE a devolver a Libia en masa a los inmigrantes africanos capturados en sus aguas incumpliendo las leyes internacionales que protegen a los peticionarios de asilo. Las denuncias de torturas, extorsiones y malos tratos a los inmigrantes en Libia son continuas.

Curiosamente, Berlusconi y Gadafi han seguido cerrando tratos hasta la última semana, cuando Roma permitió a Gazprom acceder al negocio del crudo libio, con la venta de ENI a su homóloga rusa de una cuota del 33% en el importante pozo petrolífero Elephant, situado 800 kilómetros al sur de Trípoli.

La preocupación no es poca. Berlusconi ha anunciado esta mañana que intentará llamar a Gadafi en el transcurso del día para decirle que "ya basta de tanta sangre". La incógnita es si habrá alguien al otro lado de la línea que le responda.

domingo, fevereiro 20, 2011

Anomalia italiana

O que é mais dramático no folhetim berlusconiano não é o facto de conseguir escapar à Justiça (que Justiça?) desde há anos, no meio de sucessivos escândalos financeiro-sexuais que degradam a reputação do país e que o transformam numa Républica das Bananas (ou de Saló?). Obviamente, sem prejudicar a sacrossanta presunção de inocência que, no caso de Berlusconi, se traduz numa permanente e tautológica impossibilidade de crime, contra todos os testemunhos e provas. O que é mais dramático nessa lamentável opereta é que Silvio Berlusconi tem ganho eleições e, provavelmente, se se recandidatar, voltará a ganhá-las. O que significa que uma grande parte dos italianos se reconhece na personagem. Porque é rico, fanfarrão, mulherengo, chico-esperto ("furbo"), desenrascado, divertido, optimista, desbocado? Porque desdramatiza e desritualiza o poder? Porque é populista e demagogo? Também porque a oposição (oposições) é tudo menos credível, entre uma esquerda-caviar e uma míriade de capelas onde pontificam criaturas enquistadas no sistema de impasses típico de um país que se tem auto-governado, apesar dos políticos.

Pouco antes de morrer, Saramago escreveu um artigo (publicado no El Pais) no qual dizia que Berlusconi tinha dividido a Itália em dois grupos: o dos que são já como ele e o dos que gostariam de ser como ele. Acho um bocado injusto, porque ainda há os outros e são esses que representam a esperança da Itália.

La obsolescencia del hombre

"(...) esta idea del hombre que se experimenta a sí mismo como "anticuado" y pequeño frente a los aparatos técnicos, que se presentan como los auténticamente "bien dotados" y que le hacen avergonzarse de su humanidad: "No hay hombres de repuesto", escuchamos decir a un enfermo terminal en un asilo para desahuciados, y se lo escuchamos decir como sonrojado porque en la era de la técnica no se haya inventado aún nada definitivo contra la caducidad de la existencia humana. Este sentimiento de vergüenza, dado que no podemos sentir vergüenza sino ante una mirada ajena, nos indica que ahora son las cosas, las máquinas, quienes nos miran.

El hombre moderno desearía ser sólo un engranaje, debería ser sólo eso, pero misteriosa y trágicamente aún no está del todo adaptado a la explotación mecánica, y eso es lo que le abochorna, su propia humanidad residual.

Por eso, amedrentado y fascinado por el mundo de la producción, el hombre "decide" pasarse a la condición de producto, y la llamada "ingeniería humana" (human engineering), fisiotécnica y robótica, le suministra el modo de fragmentar su conocimiento en habilidades subhumanas que subsisten mecánicamente con independencia de la totalidad de la que proceden. Y esta eliminación técnica de la humanidad es completamente coherente con la aparición de la bomba nuclear, puesto que ella muestra mejor que ningún otro dispositivo el carácter prescindible de la humanidad."

Ondas de mudança


O projecto descrito neste link provocará mais transformações nos países pobres e governados por autocracias, feudalismos e tribalismos do que muitas revoluções políticas e militares e manifestos ou declarações de solidariedade dos países ricos. Trata-se de colocar em órbita um conjunto de 20 satélites fabricados por um consórcio europeu, lançados pelo foguetão europeu Ariane e financiados por investidores como SES (Société Européenne de Satélites, detentora de Astra) e Google. O projecto chama-se O3b (Other 3 billion) porque visa permitir a utilização de internet de banda larga pelos 3 mil milhões da população mundial que até agora têm estado do lado de lá da fronteira digital. Pretende-se permitir o acesso à internet em condições muito económicas (o que não seria possivel apenas pela via terrestre) de populações até agora excluidas da América Latina, África sub-sahariana, Médio Oriente e Ásia. Ora, tendo em conta a importância da difusão da informação em processos revolucionários recentes em países árabes, imagina-se o impacto que tal projecto poderá ter, também noutros contextos, facilitando as "revoluções facebook", como alguns já lhes chamam. Os ditadores que se cuidem porque as vanguardas contestatárias terão meios cada vez mais poderosos para apelar à subversão de sistemas anquilosados e corruptos, aplicando, nomeadamente, os principíos da "resistência pacífica" do velho, mas cada vez mais actual, Glen Sharp.
A questão cínica que se pode levantar é a seguinte: serão os povos capazes de se governar em liberdade e democracia, depois de conseguirem derrubar regimes totalitários, obscurantistas e fanáticos que permitiram uma certa ordem (no meio de uma profunda desigualdade), de que têm beneficiado os países ocidentais, preocupados com a estabilidade em regiões onde se concentra uma parte significativa das reservas petrolíferas mundiais? Aqueles povos têm maturidade e sabedoria para saber o que lhes convém? Qual o preço da liberdade? Será a liberdade sempre o valor supremo e incondicional? Trata-se apenas de impulsos que conduzem ao caos dada a "impreparação" dessas sociedades para adoptar sistemas de governação de tipo ocidental, onde a democracia também é ficção, mas funciona e é compatível com alguma prosperidade? Questões que tornam a onda de mudança no mundo islâmico um processo complexo cheio de esperanças, riscos e incógnitas.

sábado, fevereiro 19, 2011

Take it or leave it

Portugal está a viver numa espécie de limbo incongruente, disparatado, estupidamente orgulhoso e, sobretudo, caríssimo. O limbo do “FMI ou não-FMI”. As soluções desesperadas para resistir à lógica implacável dos “mercados” são cada vez mais dispendiosas e "criativas": colocação de dívida junto de investidores amigos, encurtamento dos prazos, recompras putativamente vantajosas, etc. Dado o stock de dívida a taxas baixas do passado, o impacto das últimas emissões sobre a taxa média global da dívida pública tem sido algo moderado, pelo que, os actuais 7% (e mais) a 5 e 10 anos não serão dramáticos, mas começam a pesar e não são sustentáveis por muito mais tempo. Um custo médio da dívida dessa ordem de grandeza torna as finanças públicas ingeríveis porque a parte das receitas afectada ao custo da dívida será tão alto que as outras despesas públicas caem por terra. Falo de educação, saúde, justiça, segurança, etc.

Na minha opinião, o Fundo Europeu e o FMI não imporiam muito mais austeridade do que aquela que já está cristalizada no orçamento de 2011. A vantagem seria tranquilizar os credores porque essas entidades disponibilizariam um volume potencial de financiamentos que afastaria um cenário de incumprimento e, por conseguinte, os outros credores internacionais pediriam taxas mais baixas para continuar a emprestar. E nós precisamos de crédito, não para gastar mais, mas para pagar dívidas passadas...

Portanto, a vinda do Fundo Europeu de Estabilização e, eventualmente, do FMI (já se falou num pacote entre 50 e 100 mil milhões de euros, ou seja, até quase 60% do PIB...) só peca por tardia e revela teimosia e soberba, com custos elevadíssimos para os contribuintes. Repito: não me parece que imponham condições materialmente mais gravosas para a maior parte da população do que aquelas que já se encontram no orçamento e nos sucessivos “PEC - Planos de Estabilidade e Crescimento”. Talvez aumentem as exigências de execução concreta dessas medidas. Porém, temo que não estejamos numa posição negocial muito favorável, dado o estado a que as coisas chegaram. Vai ser mais uma questão de “take it or leave it”. E não quero imaginar o que seja o “leave it”!

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Não há euros grátis

Ver o artigo seguinte.

Se o capital e as mercadorias não viajam para assegurar convergência e desenvolvimento equilibrado, viajam as pessoas. Será a União Europeia a funcionar em pleno na sua vertente "liberdade de circulação de pessoas". De resto, o processo de Bolonha não quer outra coisa: harmonizar diplomas e qualificações para facilitar um mercado único de trabalho.

Dito isto, o trabalho não é plástico ou móvel como as mercadorias ou o dinheiro porque há histórias pessoais e colectivas, diferentes culturas, linguas, leis, impostos, protecção social. E tudo isso protege as Nações, para o melhor e para o pior, em detrimento de uma cidadania europeia (económica).

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Strong euro... against all odds

Porque será que a dívida soberana de certos países da União Europeia atravessa um período de grande turbulência e desvalorização, e que se levantam tantas dúvidas quanto à viabilidade de uma união monetária entre economias com tão profundas divergências e, ao mesmo tempo, o euro resiste notavelmente no mercado das divisas, designadamente contra o dolar? Não será o euro o simbolo máximo da robustez da economia europeia no âmbito da concorrência nos mercados internacionais de bens, serviços e capitais? Será que os cambistas deste mundo têm uma especial apetência para ver méritos onde outros vêem a iminência do colapso? A resposta talvez seja simples: países "indisciplinados" como a Grécia, Portugal ou a Irlanda não são indispensáveis ao dito projecto europeu que implica uma união monetária cuja trave mestra é o euro. Ou seja, a confiança no euro é essencialmente a confiança na Alemanha e na França que representam uma fatia gigantesca da União Europeia. A confiança no euro supõe a confiança no marco que ressuscitaria para suceder a um euro fracassado. Os cambistas acham que a fuga dos investidores (não europeus) à dívida dos "mal comportados" não tem massa crítica para provocar uma venda de euros em tais quantidades que possa implicar uma baixa substancial da cotação à revelia da balança de transacções correntes e de capitais do conjunto da União Europeia face ao resto do mundo. Isto é especialmente verdade num contexto de sub-avaliação das divisas dos chamados países emergentes.

Empire State of Mind

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

domingo, fevereiro 13, 2011

A gaguez do Rei



Filme que representa de forma benigna (e humana) uma certa forma (patética) de poder. É um filme de bons sentimentos com final feliz, que faz os compromissos certos com as expectativas de um largo espectro de espectadores. Conta com excelentes representações de Colin Firth e de Geoffrey Rush (o meu preferido). Por tudo isso, é um produto que vende bem e que vai ter uma eloquente consagração na próxima feira de Hollywood.

Menino Paulo

Estejam atentos ao Paulo Portas. Há ali qualquer coisa que não bate certo. A criatura não dá apertos de mão ou abraços. Ele dispara saudações por obrigação funcional-mediática e, logo a seguir, com um sorriso (es)forçado, vira as costas e segue a correr em direcção à próxima vítima do seu frenesim megalómano. O homem tem-se em conta tão elevada que olha para as pessoas como simples brinquedos descartáveis do seu protagonismo. Já repararam como trata os jornalistas? Atira-lhes uma frase, segundo ele, mais um produto refinado da sua genialidade e, mais uma vez, vira as costas ostensivamente, com o queixo empinado e um sorriso matreiro, cheio de si próprio. O sorriso do Paulo Portas é o de quem acaba de tramar alguém, é o de quem fica sempre por cima. Aqueles olhitos estão sempre a cuspir um ódio de espertalhão. Tenho a certeza que não ouve ninguém, que gosta de sentir na cara dos outros o assentimento permanente e incondicional às suas tiradas de lavrador lisboeta, de defensor incondicional do Portugal dos montes, das eiras e vinhedos, dos presuntos e chouriços, o Portugal que serve de caricatura a uma direita rústica, castiça, ridícula. O problema é que isso tudo soa a falso na criatura Paulo Portas porque, para além de uma boina de lavrador rico com um xadrez de duvidosa portugalidade, ele é o que de mais caprichosamente lisboeta pode existir. Paulo Portas é um menino travesso, um aspirante a ditador de empregada doméstica, um andarilho de ego desmesurado a que nunca deram uma valente chapada nas trombas. Já foi ministro e não quer outra coisa senão sê-lo de novo para encher as câmaras das televisões da sua putativa grandeza e do seu autismo de menino mal-educado.

sábado, fevereiro 12, 2011

Eu sou o PM

Admirável Mundo Novo II

Uma pessoa morta durante 9 anos sem que ninguém a procurasse já estava morta em vida. Era uma pessoa que não fazia falta a ninguém, cuja ausência ou presença eram indiferentes. Era invisível a todos: familiares, vizinhos, “amigos”. Já estava morta. É isso que é terrível: estar morto em vida, sem relações sociais, pura e simplesmente não contar: o zénite da solidão ou da não existência. Ser reduzido a N° de contribuinte, como diz o Fernando Madrinha no Expresso desta semana, porque foram as Finanças que finalmente forçaram o encontro com os despojos da desgraçada... por incumprimento de dívidas ao fisco.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

"Admirável mundo novo"

Ardeu o armazém do Samba. O Carnaval vai ficar mais simples. Como deve ser... Menos adereços e mais alegria para esquecer as chamas e tristezas. O que ardeu foi uma fábrica de sonhos, não foram os sonhos de uns dias por ano numa cidade paradoxal, de tão bonita e tão feia, de tão pobre e tão rica. O Rio é um circo de contrastes abençoado pela Natureza, estragado pelos homens.

No Bangladesh uma menina de 14 anos morreu depois de receber 80 chicotadas. A sua culpa? A de ter sido violada por um primo de 40 anos. Foi acusada de lascívia...

Como e quando Mubarak deixará o poder? Que outras histórias, por esse mundo fora, não nos contam os media nestes dias por causa de tanta concentração naquela praça libertária do Cairo?

Ana Benavente, militante do PS, ex-Secretária de Estado da Educação diz que "O PS hipotecou o seu papel na sociedade portuguesa e deixou-nos sem perspectivas de um futuro melhor. Assumiu o papel que antes pertencia aos centristas do PSD, ocupou o seu espaço e tornou o país mais pobre, política e economicamente." Capoulas dos Santos, seu correlegionário, diz que se trata apenas de ressentimento por ter sido excluida da lista de candidatos a deputados há uns anos.

Há pessoas que fazem de conta que são parvas para esconder a própria genialidade porque a genialidade pode ser insuportável enquanto a imbecilidade é tolerada e mesmo romantizada. Perante a imbecilidade, tanta gente se sente superior. Perante o génio sentem-se imbecis... o que não é confortável.

Um negócio florescente nos Estados Unidos é o dos testes de ADN que servem para verificar quem é pai de quem, qual a probabilidade de morrer de enfarto cardíaco ou de alzheimer, qual o sexo do bébé ao fim de 7 semanas de gestação, etc, etc. Os empregadores e companhias de seguro estão dispostos a pagar fortunas para saber se o Sr Smith ou a Sra Taylor vâo morrer cedo ou tarde, gastando mais ou menos cuidados de saúde.

Um dia destes chega a Primavera...

domingo, fevereiro 06, 2011

Novo filme de Iñárritu

Do mesmo realizador de Babel, um rosário de desgraças para enfatizar os efeitos negativos da Globalização, cruzando-a com histórias pessoais e familiares muito complicadas numa Barcelona distante das Ramblas e dos postais ilustrados. A interpretação de Bardem é soberba, demonstrando mais uma vez uma versatilidade e uma densidade invulgares. Filme pesado que pode indispôr com Bardem a desempenhar, mais uma vez, um papel em derrapagem inexorável para a morte (lembram-se de "Mar Adentro"?).

Number one em propaganda

Um pouco longo mas excelente análise do fenómeno mediático Mourinho.

A vaidade

A vaidade joga-se no terreno do ser e do parecer. Quem duvida do que é, precisa de parecer. Parecer implica aparecer e aqui se manifesta a vaidade. Portanto, a vaidade é, para todos os efeitos, uma demonstração de fraqueza ou de insegurança ou de alucinação ambiciosa. A vaidade é uma estratégia dos fracos, dos inseguros e dos alucinados para se convencerem de que existem, porque os outros os vêem e lhes podem confirmar que, na realidade, fizeram e aconteceram. Distinguiria vaidade de normal reconhecimento, que poderá (deverá) envolver alguma forma de publicidade ou elogio. A vaidade é orquestrada, disputada, invasiva. Agride quem a possa ameaçar, mesmo no reino da pura fantasia. O normal reconhecimento do que se faz é mais concedido do que solicitado ou imposto pelo seu beneficiário. É verdade que numa sociedade de predadores aquilo que chamo de "normal reconhecimento" não é óbvio nem automático porque os vaidosos farão sempre tudo para ultrapassar, com a sua soberba, a natural superioridade de quem realmente faz e acontece, mas não aparece...

A vaidade não é apenas um resultado de fraqueza. A vaidade é fraqueza em si mesmo. Uma pessoa vaidosa perde a noção da realidade e do ridículo, deixa de ver o mundo e as pessoas como são para os ver à sua medida e como meros instrumentos da sua putativa grandeza. A vaidade cega e provoca danos ao próprio vaidoso cujos comportamentos e decisões passam a ter uma grande margem de erro, acumulando lapsos, estigmas e invejas que se pagam mais cedo ou mais tarde.

domingo, janeiro 30, 2011

A crise do Norte de África e do Médio Oriente

As revoltas que se estão a espalhar nos países do norte de África e do Médio Oriente têm vários e importantíssimos significados, entre os quais gostaria de destacar os seguintes:
• São os jovens os principais protagonistas, com educação média ou superior e acesso a novos meios de comunicação global (facebook parece ser o principal instrumento de promoção das acções de rua).
• Os pressupostos de que aquelas populações não teriam cultura, civismo e iniciativa para participar num sistema democrático “de tipo ocidental” ou de que o islamismo implicaria a aceitaçâo “tranquila” da autocracia, estão a cair por terra.
• Os Estados Unidos e outros países ocidentais têm sido coniventes com regimes ditatoriais e corruptos que têm permitido nas últimas décadas alguma estabilidade numa região estratégica onde se concentra uma grande parte das reservas de petróleo mundiais.
• A transição para regimes mais livres e pluraristas é tudo menos fácil porque as forças de oposição são espontâneas e desorganizadas, não dispõem de estruturas para exercer o poder; portanto, as alternativas imediatas são o caos ou a tomada do poder por forças militares cujas intenções de assegurar uma rápida transição para a democracia são duvidosas.
• O poder mais difícil de transferir será talvez o económico, concentrado nas mãos de apaniguados dos regimes em crise ou de companhias estrangeiras. A ruptura do sistema produtivo arrastará consigo o agravamento das condições de vida.
• O risco de ameaça de grupos radicais islamistas parece-me baixo por causa da larga, difusa e espontânea base social de apoio à revolta, liderada por jovens que sofrem particularmente com o desemprego associado às crises económicas que têm assolado estes países.
• A situação questiona uma série de equilíbrios precários (ou de desequílibrios até agora mais ou menos geríveis) entre pivots regionais como Israel, Palestina, Libano ou o Irão.
A näo perder.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Números caprichosos

Há coisas do diabo. Um tipo acorda, olha para o despertador e vê 08:08. Depois, olha para as horas no ecrã da televisão, enquanto bebe o café no bar, e são 09:09. No emprego, o telefone toca e o número que chama é o 707070. Chega uma carta pelo correio e o número com que foi registada é o 1111. Chama uma táxi e dão-lhe o 333, chega ao aeroporto e são 15:51, o vôo é o número 4224. Entra no avião com a cabeça cheia de números acrobáticos, não sabe o que pensar de tanta coincidência. Afinal, são apenas números curiosos... Coincidência? Não acredita em bruxas, mas que as há, há! Tenta dormir durante a viagem, mas não consegue. O seu número no emprego é o 1313, está sentado na fila 13... O avião atravessa uma zona de turbulência, uma criança na fila de trás chora de forma lancinante. O avião perde altitude, recupera altitude, o piloto pede desculpa por um microfone engasgado, as hospedeiras não conseguem disfarçar o receio, os cintos estão mais apertados do que nunca, até doer a barriga, os passageiros olham uns para os outros com sorrisos amarelos como se estivesse tudo bem. A turbulência passa aos poucos, o avião fica mais tranquilo e as pessoas recuperam caras normais de quem quer apenas chegar à hora prevista. O avião aterra às 17:23. Apanha o táxi às 18:05. Chega ao restaurante, conforme combinado com o amigo, às 19:35, apenas 5 minutos atrasado e ele ainda não chegou. Chega dali a pouco, às 19:40. E convence-se de que a magia dos números desse dia desapareceu e a normalidade regressou. Alguma vertigem se perdeu e ficou com pena, caindo na rotina dos números sem história que não auguram coisa alguma.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Humana malvadez

Há quem ache que, havendo regras claras e justas, as pessoas naturalmente as cumpririam. Ninguém tentaria tramar ninguém, armando-se em carapau de corrida, manhoso ou chico-esperto. As pessoas seriam ordeiras, respeitosas, dignas, honestas e transparentes. Num mundo assim, a tranquilidade reinaria, a concorrência seria redundante ou, pelo menos, pacífica, a criatividade seria reconhecida espontâneamente, sem disputas nem invejas, a superioridade seria aceite sem traumas, a inferioridade seria suplantada pela humanidade, as cotoveladas seriam apenas tema de anedotas. Mas, o mundo nâo é assim porque as pessoas não são assim tão bondosas. As pessoas não são anjos nem demónios. Sâo só pessoas, tão malvadas quanto humanas. E depois há o efeito matilha porque a humana malvadez em grupo amplia os conflitos, provoca ruido. Provoca guerra no limite das agressões quotidianas mal orientadas. É chato chegar à resignaçâo perante a evidência da natureza humana e do modo como as pessoas se comportam em sociedade, sobretudo, nestes tempos de individualismo, materialismo e hedonismo. Mas esse realismo (que se pode transformar em cinismo...) constitui uma prova de maturidade e de sabedoria. Seguramente, de resistência à hostilidade ambiente e à incompatibilidade entre valores individuais e colectivos.

sábado, janeiro 22, 2011

A arte de dar peidos

A propósito de leituras... clicar no título para mais informação sobre este "ensaio teórico-físico e metódico de 1751" da autoria de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Leitura

Livro a não perder. A saga inebriante de Arnau, um descendente de servos da gleba, na Barcelona do século XIV. Um best seller de Ildefonso Falcones que faz o leitor devorar as quase 700 páginas, com muita História à mistura (peste, guerras, inquisição).

quarta-feira, janeiro 19, 2011

O custo da dívida

Uma coisa é o cupão de um título de dívida, ou seja, o juro que se recebe periodicamente (mensalmente, trimestralmente, semestralmente ou anualmente). Outra coisa é o rendimento (yield) associado à compra desse título, o qual depende, não apenas do cupão, mas também de quanto se paga para comprar o título e de quanto se recebe pela sua venda. Para um mesmo valor do cupão, o rendimento aumenta com a redução do preço de compra e com o aumento do preço de venda. Parece óbvio, não? Quando nos falam de juros da dívida pública a 10 anos de 7%, falam de cupão ou de yield? O yield será superior ao cupão se a dívida for vendida pelo Estado-emitente abaixo do par, ou seja, se o Estado encaixar na data de emissão menos do que terá de pagar na data de vencimento. O que verdadeiramente reflecte o rendimento dos investidores e o custo dos emitentes de dívida é o yield. Temo que os números divulgados sejam os do cupão, substimando, assim, o custo real da dívida do Estado.