domingo, janeiro 30, 2011

A crise do Norte de África e do Médio Oriente

As revoltas que se estão a espalhar nos países do norte de África e do Médio Oriente têm vários e importantíssimos significados, entre os quais gostaria de destacar os seguintes:
• São os jovens os principais protagonistas, com educação média ou superior e acesso a novos meios de comunicação global (facebook parece ser o principal instrumento de promoção das acções de rua).
• Os pressupostos de que aquelas populações não teriam cultura, civismo e iniciativa para participar num sistema democrático “de tipo ocidental” ou de que o islamismo implicaria a aceitaçâo “tranquila” da autocracia, estão a cair por terra.
• Os Estados Unidos e outros países ocidentais têm sido coniventes com regimes ditatoriais e corruptos que têm permitido nas últimas décadas alguma estabilidade numa região estratégica onde se concentra uma grande parte das reservas de petróleo mundiais.
• A transição para regimes mais livres e pluraristas é tudo menos fácil porque as forças de oposição são espontâneas e desorganizadas, não dispõem de estruturas para exercer o poder; portanto, as alternativas imediatas são o caos ou a tomada do poder por forças militares cujas intenções de assegurar uma rápida transição para a democracia são duvidosas.
• O poder mais difícil de transferir será talvez o económico, concentrado nas mãos de apaniguados dos regimes em crise ou de companhias estrangeiras. A ruptura do sistema produtivo arrastará consigo o agravamento das condições de vida.
• O risco de ameaça de grupos radicais islamistas parece-me baixo por causa da larga, difusa e espontânea base social de apoio à revolta, liderada por jovens que sofrem particularmente com o desemprego associado às crises económicas que têm assolado estes países.
• A situação questiona uma série de equilíbrios precários (ou de desequílibrios até agora mais ou menos geríveis) entre pivots regionais como Israel, Palestina, Libano ou o Irão.
A näo perder.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Números caprichosos

Há coisas do diabo. Um tipo acorda, olha para o despertador e vê 08:08. Depois, olha para as horas no ecrã da televisão, enquanto bebe o café no bar, e são 09:09. No emprego, o telefone toca e o número que chama é o 707070. Chega uma carta pelo correio e o número com que foi registada é o 1111. Chama uma táxi e dão-lhe o 333, chega ao aeroporto e são 15:51, o vôo é o número 4224. Entra no avião com a cabeça cheia de números acrobáticos, não sabe o que pensar de tanta coincidência. Afinal, são apenas números curiosos... Coincidência? Não acredita em bruxas, mas que as há, há! Tenta dormir durante a viagem, mas não consegue. O seu número no emprego é o 1313, está sentado na fila 13... O avião atravessa uma zona de turbulência, uma criança na fila de trás chora de forma lancinante. O avião perde altitude, recupera altitude, o piloto pede desculpa por um microfone engasgado, as hospedeiras não conseguem disfarçar o receio, os cintos estão mais apertados do que nunca, até doer a barriga, os passageiros olham uns para os outros com sorrisos amarelos como se estivesse tudo bem. A turbulência passa aos poucos, o avião fica mais tranquilo e as pessoas recuperam caras normais de quem quer apenas chegar à hora prevista. O avião aterra às 17:23. Apanha o táxi às 18:05. Chega ao restaurante, conforme combinado com o amigo, às 19:35, apenas 5 minutos atrasado e ele ainda não chegou. Chega dali a pouco, às 19:40. E convence-se de que a magia dos números desse dia desapareceu e a normalidade regressou. Alguma vertigem se perdeu e ficou com pena, caindo na rotina dos números sem história que não auguram coisa alguma.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Humana malvadez

Há quem ache que, havendo regras claras e justas, as pessoas naturalmente as cumpririam. Ninguém tentaria tramar ninguém, armando-se em carapau de corrida, manhoso ou chico-esperto. As pessoas seriam ordeiras, respeitosas, dignas, honestas e transparentes. Num mundo assim, a tranquilidade reinaria, a concorrência seria redundante ou, pelo menos, pacífica, a criatividade seria reconhecida espontâneamente, sem disputas nem invejas, a superioridade seria aceite sem traumas, a inferioridade seria suplantada pela humanidade, as cotoveladas seriam apenas tema de anedotas. Mas, o mundo nâo é assim porque as pessoas não são assim tão bondosas. As pessoas não são anjos nem demónios. Sâo só pessoas, tão malvadas quanto humanas. E depois há o efeito matilha porque a humana malvadez em grupo amplia os conflitos, provoca ruido. Provoca guerra no limite das agressões quotidianas mal orientadas. É chato chegar à resignaçâo perante a evidência da natureza humana e do modo como as pessoas se comportam em sociedade, sobretudo, nestes tempos de individualismo, materialismo e hedonismo. Mas esse realismo (que se pode transformar em cinismo...) constitui uma prova de maturidade e de sabedoria. Seguramente, de resistência à hostilidade ambiente e à incompatibilidade entre valores individuais e colectivos.

sábado, janeiro 22, 2011

A arte de dar peidos

A propósito de leituras... clicar no título para mais informação sobre este "ensaio teórico-físico e metódico de 1751" da autoria de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Leitura

Livro a não perder. A saga inebriante de Arnau, um descendente de servos da gleba, na Barcelona do século XIV. Um best seller de Ildefonso Falcones que faz o leitor devorar as quase 700 páginas, com muita História à mistura (peste, guerras, inquisição).

quarta-feira, janeiro 19, 2011

O custo da dívida

Uma coisa é o cupão de um título de dívida, ou seja, o juro que se recebe periodicamente (mensalmente, trimestralmente, semestralmente ou anualmente). Outra coisa é o rendimento (yield) associado à compra desse título, o qual depende, não apenas do cupão, mas também de quanto se paga para comprar o título e de quanto se recebe pela sua venda. Para um mesmo valor do cupão, o rendimento aumenta com a redução do preço de compra e com o aumento do preço de venda. Parece óbvio, não? Quando nos falam de juros da dívida pública a 10 anos de 7%, falam de cupão ou de yield? O yield será superior ao cupão se a dívida for vendida pelo Estado-emitente abaixo do par, ou seja, se o Estado encaixar na data de emissão menos do que terá de pagar na data de vencimento. O que verdadeiramente reflecte o rendimento dos investidores e o custo dos emitentes de dívida é o yield. Temo que os números divulgados sejam os do cupão, substimando, assim, o custo real da dívida do Estado.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Emissão de dívida bem sucedida...

Grande sucesso do leilão de hoje da dívida da República nos mercados de capitais. Os juros a 10 anos atingiram valores inferiores aos da emissão de Novembro. A procura excedeu a oferta em mais do dobro. E, portanto, já não é preciso FMI e o governo tinha razão e as medidas de austeridade chegam e, e, e...

Em primeiro lugar, é preciso nâo esquecer que se tratou apenas da primeira emissão de dívida a mais de 1 ano por um montante de pouco mais de 1000 milhões de euros. Ora, o programa de emissões nesses prazos, em 2011, ascende a cerca de 20000 milhões de euros. Poder-se-ia dizer que a procissão ainda vai no adro.

Em segundo lugar, gostaria que me dissessem quem é que comprou hoje os títulos emitidos. Quem terão sido os investidores que se contentaram com taxas inferiores às de Novembro do ano passado? Até parece que os endinheirados deste mundo formaram uma espécie de Junta de Salvação Nacional. Chineses? Brasileiros? Governos europeus com as barbas a arder?

Disto isto, ainda bem que assim foi. Não sou dos que pensam que "quanto pior, melhor", não pertenço ao grupo dos que adoram a proximidade do abismo ou que se satisfazem com a iminência da catástrofe só para tramar o Senhor Eng° e seus acólitos e precipitar uma crise política.

À suivre...

domingo, janeiro 09, 2011

A média e o desvio-padrão das marés

Acho que uma maneira sensata de encarar a vida é vê-la como um mar de marés mais ou menos regulares e intensas. As marés chegam e partem, sobem e descem, são mais ou menos enchentes ou vazantes conforme a Lua e as estações. Nada fica para sempre, nem o bom nem o mau, nem a alegria nem a tristeza. Como diz o provérbio, "não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe". Portanto, quando as coisas correm mal basta fazer com que melhorem e meter na cabeça que aquilo acabará por passar, que a dias feios se sucederão dias mais formosos. A maré vai e vem, sobe e desce. Quando as coisas nos correm de feição devemos não esquecer que um dia correrão pior e, por isso, é preciso gozar devidamente essa feliz conjugação das estrelas com os nossos esforços, não desperdiçar a satisfação do bem que temos porque ele inevitavelmente não durará para sempre. As marés sobem e descem, são a melodia de que se faz o mar da vida. Depois, a felicidade é uma média das marés tão alta quanto possivel tendo um desvio padrão tão pequeno quanto possivel.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Lumpen-trabalho

A última que ouvi sobre as condições que se tem de aceitar para obter uma espécie de emprego é, ao mesmo tempo, hilariante e arrepiante. O empregador oferece um certo salário, por um trabalho naturalmente precário, desde que o potencial empregado aceite que lhe sejam deduzidos todos os meses os juros que o empregador tem de pagar pelo crédito que lhe permite pagar o dito salário... Isto não é trabalho, é "lumpen-trabalho".

E depois ainda querem mais flexibilidade no mercado de trabalho e leis laborais mais permissivas para os empregadores... Tudo para combater o desemprego e melhorar a competitividade da economia.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Brevíssima história de Portugal em direcção ao futuro

Pois é, é complicado. Como se muda isto tudo em tempo razoável? Porque é isso que é preciso. Substituir as urgências e o curto prazo por visões de longo prazo, ter um projecto coerente que assinale caminhos preferíveis às pessoas e às organizações. Substituir elites que o não são, meter cultura onde não existe, meter pontualidade, disciplina e rigor onde são desprezados, colocar civismo nos gestos mais triviais, ousadia na mediocridade, instabilidade criativa no conforto e nas mordomias que se alimentam de subserviência, substituir o medo de mudar pela coragem de fazer coisas novas, etc. etc.

Portugal teve coisas muito más desde a glória frágil e efémera dos séculos XV e XVI: inquisição, ocupação castelhana, terremoto, invasões francesas, espoliação colonial, I República desastrosa, ditadura salazarista, guerra, emigração, caos revolucionário. Tivemos isso tudo e outras nações tiveram ainda pior. Nos últimos 100 anos, não tivemos guerras internas como tiveram a maior parte dos países europeus, incluindo a Espanha com uma guerra civil devastadora entre 1936 e 1939. Curiosamente, há quem diga que talvez aí resida uma parte da nossa inferioridade: o facto de termos estado afastados das guerras mundiais não nos teria puxado pela iniciativa necessária à reconstrução. O que implica uma visão positiva ou pelo menos benigna das guerras. Por exemplo, os 30 gloriosos (entre 1945 e 1975) teriam a sua principal explicação na "abençoada" II guerra mundial...

Beneficiámos enormemente com a adesão à CEE, mas de forma inquinada: com subsídios e crédito fácil, não fizemos investimentos suficientemente reprodutivos nem alterámos tanto quanto deviamos o que produzimos nem como produzimos. As infraestruturas modernizaram-se, a habitação/urbanização explodiu (tantas vezes de forma desordenada ou exibicionista), o consumo aumentou e sofisticou-se, a educação massificou-se (o que não significa que melhorou), o Estado Social cresceu a partir de níveis incipientes, os salários subiram mais do que a produtividade e por isso é que os sectores mais expostos à concorrência internacional são tão vulneráveis e voláteis. Agora crescem mas logo depois sofrem, dependendo da dinâmica dos principais concorrentes com especialização e factores de competitividade semelhantes.

O país criou modos de vida que não são sustentáveis a não ser que muita coisa mude. Hábitos, comportamentos, cultura, formação. Ora, isso tudo é intangível e leva tempo e provoca sacrifícios. Dir-se-á que é preciso começar por algum lado, por pequenos gestos e iniciativas nas famílias, nas escolas, nas empresas, nas repartições. Mas, mais uma vez, isso leva tempo e requer um sistema claro de incentivos e de penalidades. Isto é: as pessoas e as organizações devem ser recompensadas (ou punidas) por desempenharem bem (ou mal) as suas funções. Se não for assim, deixamos à boa vontade, à militância ou ao proselitismo a mudança. Ora, a sociedade desenvolveu-se no sentido do individualismo e do hedonismo que tornam esses conceitos patéticos. Esse sistema de incentivos tem de se basear numa autoridade clara, legitimada pela competência e pela visão. Aqui é que o problema se complica porque também não temos elites com essas características.

A maior parte dos dirigentes actuais têm entre 40 e 65 anos, gerações que se formaram e cresceram (em poder) no final da ditadura (com todos os estigmas associados) e durante o período (fértil) de instabilidade do PREC e anos seguintes. Gente ligada a uma certa universidade de antanho e a uma burguesia tradicional, essencialmente provinciana, apesar das aparências (grandes interesses mais do sul do que do norte) ou arrivista e gaiteira (pequenos interesses do norte), gente muito trabalhadora e engenhosa, eventualmente ligada a uma internacionalização subalterna, mas com limitada substância, orgulhosa da ostentação, com o passo mais comprido do que a perna. Temo não podermos esperar grande coisa desta malta.

Isto quer dizer que a crise financeira vai-se resolver, com mais ou menos FMI, mas certamente com os sacrifícios da classe média a crédito que se foi criando nas últimas décadas. Assim as criaturas se convençam de que não podem continuar no regabofe, o que não é evidente ou isento de riscos (incluindo psicológicos) dado o dramatismo da mobilidade social descendente. Daqui a 2 ou 3 anos, teremos porventura as contas em ordem, mas, a médio/longo prazo, ou caímos numa estagnação sensata ou em mais aventuras (financiadas por quem?) que nos levarão aos mesmos buracos.

A única esperança serão, daqui a 20 anos, os jovens que agora têm entre 15 e 25 anos, os filhos dos tais das gerações falhadas, cobaias das reformas (ou convulsões) do ensino, do consumo, dos costumes e da família e que não são "tubos digestivos que caminham e fornicam". Com um bocado de sorte, ainda cá estarei para ver se essa malta, com uma cabeça apesar de tudo mais aberta, lúcida e ambiciosa, ocupa como deve ser os lugares de direcção desta nossa desditosa pátria e escolhe estratégias virtuosas para nos tirar da persistência do atraso que - quero acreditar - não tem nada a ver com factores genéticos.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

O combóio

O que deixei no combóio que se afastava no escuro, sem hesitação, rumo à grande cidade foi mais do que uma pessoa em busca do seu próprio caminho, crescendo e crescendo a cada quilómetro, com a cabeça cheia de esperança, de projectos, de receios e de convicções. O que se foi embora foi uma mão a dizer adeus no meio da multidão, até sempre, heroísmo talvez traído por uma lágrima furtiva (quem sabe?), foram olhos com um brilho certeiro e autêntico, foi uma altivez que me tranquilizou e que me deixou patético, mergulhado na minha caríssima fragilidade e não compreendendo a noite, o trânsito, as pessoas que se cruzavam comigo indiferentes, o frio, as luzes húmidas dos candeeiros. O que se foi embora deixou-me orgulhoso e pequeno perante a grandeza daquele começo. Senti que uma página da nossa história se virava e reli com sofreguidão os últimos 23 capítulos, cada vez mais ridículo nas minhas emoções, porque emoções assim são felizmente ridículas.

domingo, dezembro 26, 2010

Mais ou menos

Telefonei para pedir um favor. Perguntou-me "como estás?". Não me deixou responder e disse imediatamente, com pena na voz, "mais ou menos - não é?", antecipando (desejando?) desgraça. Eu disse que estava bem. Fiquei com a impressão de que, ou queria que eu estivesse "mais ou menos" ou estava a falar de si mesma... Porque diabo eu não podia estar bem? Ficou algo desiludida, desconcertada quando ouviu que eu estava bem e, recompondo-se, disse que - sim senhora - podia contar com ela. E foi por ali fora, armando cordialidade e metendo a conversa na ordem.

Há pessoas que gostam do "mais ou menos" dos outros para não ficarem sózinhas no seu próprio "mais ou menos". Arrependi-me de ter pedido o favor.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

FELIZ NATAL

Porque há vida para além das más notícias e dos ratings e das dívidas e "o que será, será" e anoitece tão cedo e as ruas ficam estranhamente vazias como se houvesse uma conspiração em curso e o Alentejo continua plano e verdejante nesta altura do ano e está frio e talvez chova
(já choveu, mas pouco)
e o bolo rei sabe mais ou menos à mesma coisa de quando eu era criança
(como eu detestava o bolo rei...)
e agora há bolos rainha porque sim, porque é correcto
(também detesto os bolos rainha, para ser correcto!)
e a missa do galo continua a dizer-me a mesma coisa
(ou seja, bem pouco)
e a orgia dos presentes regressa apesar da crise e de se preferir marcas brancas e coisinhas baratas
(que os sentimentos não têm preço e uma peúginha pode dizer mais do que mil abraços)
e a televisão vai estar acesa e ninguém lhe vai ligar nenhuma e os telefonemas e os sms vão dizer que cá estamos outra vez e gostamos imenso uns dos outros e não nos esquecemos porque esquecer-se de alguém neste dia é mesmo muito grave porque quem não gosta neste dia não gosta mesmo e não se pode esquecer a maleita de estimação da tia Amélia e a solidão custa p'ra caraças e às vezes ajustam-se contas com outros sentimentos e com outras injustiças que vêm de muito longe e chega à mesa o bacalhau e o perú e as filhozes
(não sei se se escreve assim, acho que nunca escrevi esta palavra e não tenho pachorra de ir ao dicionário porque neste dia os rigores linguisticos não interessam)
e abre-se a garrafa de champagne que de champagne não tem nada
(é só um espumantezito ali da bairrada, tipo caves messias)
e os embrulhos finalmente abrem-se e o papel brilhante a dizer merry christmas chora de uma glória tão efémera e às vezes olhamos para os objectos que transportam tanto carinho com uma displicência mal disfarçada e chegamos a dizer para dentro "que desperdício!" e somos injustos.
E depois tenta-se ingloriamente sossegar as tripas com umas pastilhas efervescentes e vai-se para a cama devidamente tarde, arrumando o Natal até ao próximo ano com a árvore de plástico e as luzinhas e enfeites compradas nos chineses porque isto não está p'ra brincadeiras.

Não me levem a mal: desejo mesmo um Natal muito feliz a todos.

Feliz Natal

domingo, dezembro 19, 2010

Eleições presidenciais

Entre nós… para que servem as eleições presidenciais? Que criaturas insignificantes são estas que estrebucham à volta do ego de Cavaco?
[Cavaco não é um projecto nacional. É um projecto pessoal e familiar, o fruto de uma ambição que queima sem escrúpulos o que a possa ameaçar.]
Que importância tem esta encenação republicana perante a gravidade do presente e a angústia do futuro? O Presidente pode chatear, mas não governa. O Presidente pode ser decisivo em situações extremas, mas não determina as escolhas fundamentais de que o país precisa. Vivíamos bem sem esta eleição geral. Se, como em países como a Alemanha ou a Itália, esta figura simbólica fosse escolhida directamente pelo Parlamento. Se nos poupassem este concurso irrisório de que sairão certamente vencedores, mais uma vez, os egos inextricáveis da Maria e do António para passearem, majestáticos, mão na mão, um províncianismo orgulhoso.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

O país mágico

Será este o mesmo país que tem uma crise orçamental, cada vez mais dificuldades em obter financiamento externo e um sistema bancário à beira de um ataque de nervos? O delírio continua... Seria melhor 1 ou 2 medidas com sentido do que um caleidoscópio de voluntarismo saloio.

[Ver por exemplo o ponto 3 d).]

Parece um programa de governo moribundo, feito à pressa, desesperadamente, como se anunciar fosse fazer... finalmente. Parece as declarações inflamadas dos impérios à beira do estertor.

terça-feira, dezembro 14, 2010

100000

As estatísticas valem o que valem, mas, hoje, o nosso blog ultrapassou os 100000 visitantes desde a sua fundação em 29 de Outubro de 2005.

domingo, dezembro 12, 2010

Wikileaks


Wikileaks é uma história sobre os limites da transparência. Sobre a verdade ou a mentira como bens públicos. Sobre o valor absoluto da verdade. Será legítimo guardar informações se, da sua divulgação, resultarem danos para os interesses nacionais, se se colocar em perigo a segurança e a soberania dos Estados? Mesmo se essas informações revelarem a imoralidade, incompetência ou ilegalidade de quem nos governa? Em sociedades democráticas, não terão os cidadãos direito a conhecer os dirigentes que escolhem, as suas motivações, os verdadeiros interesses que defendem, os meios que estão dispostos a usar par atingir determinados fins, por mais louváveis que possam ser? Sempre houve serviços secretos, sempre houve informação reservada, confidencial ou sensível. Não se governa sempre em directo. Os governos devem ter direito a alguma privacidade no momento de preparar as decisões, sem prejuizo de ouvir e consultar a sociedade.

Wikileaks também demonstra a ubiquidade e o esmagamento da informação. Estamos numa sociedade obcecada pela informação, o que não significa uma sociedade mais culta ou criteriosa. Uma sociedade que devora os títulos, que salta de assunto para assunto à velocidade do primir de uma tecla, que se espanta apenas com coisas cada vez mais trágicas e sensacionais. Uma sociedade cada vez mais “informada” mas com menos tempo para pensar e para compreender. Assim, somos presas fáceis de fazedores de opiniões superficiais, vendedores de preconceitos e de estereótipos, de “flashes”. Somos como um rebanho democrático.

Outro aspecto importante da história Wikileaks é a dimensão verdadeiramente global do seu desafio aos governos nacionais, já bastante debilitados por outros poderes, também eles crescentemente globais (basta referir o poder financeiro). Ou seja: Wikileaks é mais uma expressão da atitude global de grupos difusos de resistência ao modelo de sociedade dominante. E faz-me lembrar um livro que li há algum tempo: “The Empire” escrito por Michael Hardt e Antonio Negri, uma espécie de Manifesto Anti-global.

Clicar no título...

sábado, dezembro 11, 2010

Um filme delicioso


O mito dos estrangeirados

Quem disse que os bons saem, que os medíocres continuam a mandar e a usufruir de benesses e que os resignados se limitam a sobreviver? O mito dos estrangeirados é quase tão velho como a Nação. Como seria messiânico se eles regressassem para pôr o país em ordem... Mas, não é assim! Não são todos tão bons como se pode fantasiar e sairam por variadas (e pessoais) razões que talvez tenham pouco a ver com o mal do país. E não regressam por proselitismo ou por terem uma missão patriótica a cumprir. O país tem de melhorar com os que cá estão. São esses sobretudo que fazem falta, é desses que devem sair élites mais esclarecidas que tenham cultura e visão e que substituam os da situação e os da(s) "alternativas(s)" que só nos inspiram pessimismo e angústia.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

(Alguns) Filósofos e o Amor


Um livro muito interessante, que vai para além do pensamento filosófico e nos mostra também as vidas de alguns dos grandes pensadores... Curioso que os que mais reflectiram sobre o amor foram os que tiveram vidas amorosas mais conturbadas, e os que mais divinizam e respeitam este sentimento, foram os que mais o desprezaram/mal-trataram ao longo da sua existência.


MONTAIGNE
“Os moralistas qualificam a luxúria de animalesca. Ele [Montaigne] considera-a apenas demasiado humana. É da nossa própria condição termos um corpo preso à nossa alma. E «mesmo no mais elevado trono do mundo, estamos sentados sobre o nosso cu.»”

LUCRÉCIO
“Crede que a infelicidade suprema é a de preferir a vida à honra e que, para prolongar a vida, se perdem todas as razões para viver.”

SCHOPENHAUER
“Se o amor é pura e simplesmente um logro, uma astúcia suscitada pelo desejo de preservação da espécie, é contudo uma questão capital e complexa. «A questão central», mesmo. «O objectivo último de quase todas as aspirações humanas», chega a escrever Schopenhauer, «o fundamento de qualquer acção séria, o objectivo de todas as brincadeiras». Nenhuma paixão ultrapassa aquela em violência potencial, e ela não deveria ser tratada com a falsa desenvoltura e a bazófia de um fanfarrão que pretenda reduzir o sentimento amoroso a uma simples questão de roupa interior.”

KIERKEGAARD
“«A infelicidade», escreve ele [Kierkegaard] nas Migalhas Filosóficas, «não está no facto de os amantes não poderem unir-se, mas no facto de não poderem compreender-se.»”

NIETZSCHE
“O que é o amor senão perceber que alguém vive e age e sente de uma forma diferente da nossa, e mesmo oposta, e regozijar-se com isso? Para que o amor una os contrários na alegria, é preciso que ele não os suprima nem os negue. Mesmo o amor-próprio tem como condição uma dualidade irredutível (ou uma multiplicidade) numa única pessoa.”

HEIDEGGER e ARENDT
“Sabes o que há de mais difícil é o que é dado a um ser humano para ele levar? Quanto ao resto, há meios e ajudas, parapeitos para o orientar, enquanto neste caso estar exposto ao amor = ser mal tratado na sua existência mais limpa. Amo significa volo ut sis, pôde dizer Agostinho: «amo-te – quero que sejas aquilo que és.»”

SARTRE e BEAUVOIR
“No dia em que for possível à mulher amar com a sua força e não com a sua fraqueza, não para fugir de si mesma mas para se encontrar, não para se demitir mas para se afirmar, então aí o amor tornar-se-á para ela, tal como para o homem, uma fonte de vida e não um perigo mortal.”

segunda-feira, novembro 29, 2010

Dinheiro e cultura

Ligo a televisão e caio na CNN. Um pateta alegre (presumo, cheio de dinheiro...) faz propaganda a um livro que escreveu, contando a história de gajos muito, muito ricos que nunca puseram os pés na universidade ou que de lá sairam depois de poucos anos de enfado, sem nunca acabarem qualquer grau académico. Fala de paradigmas de sucesso financeiro como Steve Jobs (saiu da universidade ao fim de 1 ano), Bill Gates (2 anos) ou Charles Branson (nunca lá entrou) e conclui que para ser rico não é preciso essa coisa fastidiosa que é estudar, mas sim ter uma única ideia genial com que se possa fazer negócio. Faltam-me as palavras para descrever o asco que isto me provocou: o elogio descarado da ignorância esperta, o desprezo da cultura e a absolutização do dinheiro, não como meio de viver bem, mas como objectivo em si mesmo que prescinde de tudo o resto, sobretudo da cultura.

Tudo isto enquanto se diz que a educação é o meio mais eficaz para escapar ao desemprego e à pobreza. E o que chateia é que essa ideia é efectivamente cada vez mais contrariada pela realidade da recessão que por aí se espalha, parecendo dar razão ao "pateta alegre"...

Faz-me lembrar a história que me contou um grande amigo há muitos anos. Licenciado em Economia, teve de começar a trabalhar dando aulas no ensino secundário. De biologia... Num teste ousou perguntar os nomes, naturalmente científicos, dos orgãos de reprodução masculino e feminino. Fazia parte do programa. Um dos alunos, cheio de esperteza, escreveu os nomes que sabia, naturalmente pouco científicos. O meu amigo deu zero às coloridas respostas. O aluno protestou, acrescentando que não precisava de saber aquelas tretas para ficar tão rico como o pai, um bem sucedido comerciante de fruta da zona saloia e lamentou que o meu amigo tivesse passado tantos anos em tantas escolas para saber "aquilo"!

domingo, novembro 28, 2010

Os preservativos das finanças e a impotência da política

O que se passa basicamente é uma guerra entre a oligarquia da finança internacional, que se comporta segundo uma lógica clara e implacável, inserida num sistema de mercado que gravita em torno da maximização do lucro (e isso não tem nada de criminoso ou hediondo...) e governos que tentam regular a economia na base da sua legitimidade democràtica plasmada, por exemplo, na parte económica das Constituições. Os financeiros não provocam os fundamentos das crises - limitam-se a tirar o máximo partido dos erros dos políticos, os quais pretendem utilizar o mercado "à la carte". O mercado pode tornar-se uma besta impiedosa e isso faz parte da sua natureza. Os politicos não podem tecer loas ao mercado, enaltecendo apenas o seu lado benigno, quando os ventos sopram de feição, e ignorando o seu lado "perverso" que amplifica as crises sem quaisquer escrúpulos. O desemprego pode ser óptimo para um especulador porque reforça as suas perspectivas de lucro num contexto de baixa de preços. A falência de um governo pode ser uma benção porque permitirá comprar activos ao desbarato que depois poderão se vendidos com mais-valias consideráveis. Depois vêm os arautos da regulação, ou seja: bastaria que os governos enquadrassem bem os mercados, de maneira a evitar os seus excessos, retendo apenas as suas virtudes. Mas sabemos em que é que isso tem dado: burocracia, incentivo ao incumprimento, criatividade nas fugas, adulteração dos próprios mecanismos em que se baseia o funcionamento do mercado. Então, passa-se à chamada auto-regulação que me faz lembrar as recomendações da Igreja para lutar contra as doenças sexualmente transmissíveis: abstinência! Ora, tal como no sexo, também no dinheiro, o pecado é demasiado tentador e até o Papa se parece render a essa evidência, aceitando a utilização do preservativo... em casos especiais. A auto-regulação é como a abstinência, a regulação envergonhada é como o preservativo... em casos especiais.

O que está em causa é uma disputa entre poder económico (por natureza oligárquico) e poder político (supostamente democrático) num terreno de jogo em que o poder político tem feito crescentes concessões ao poder económico, porque acredita na cooperação deste último para conseguir objectivos políticos. Ou seja: os politicos estão nas mãos de investidores, banqueiros e empresários porque acharam que o interesse público seria compatível com a prossecução de certos interesses privados. Mas, este é um debate velho e fundamental da filosofia e da economia política. Infelizmente há muito pouco gente, sobretudo ao nível de quem toma as decisões, com cultura, capacidade, vontade ou tempo para enfrentar esse debate. E assim, os politicos continuam a saltar para a frente, manietados por um sistema capitalista de poder cada vez mais concentrado, sem problemas existenciais, convencidos de que a gestão das sociedades é uma ciência exacta, uma questão técnica, virgem de ideologias.