quinta-feira, dezembro 02, 2010

(Alguns) Filósofos e o Amor


Um livro muito interessante, que vai para além do pensamento filosófico e nos mostra também as vidas de alguns dos grandes pensadores... Curioso que os que mais reflectiram sobre o amor foram os que tiveram vidas amorosas mais conturbadas, e os que mais divinizam e respeitam este sentimento, foram os que mais o desprezaram/mal-trataram ao longo da sua existência.


MONTAIGNE
“Os moralistas qualificam a luxúria de animalesca. Ele [Montaigne] considera-a apenas demasiado humana. É da nossa própria condição termos um corpo preso à nossa alma. E «mesmo no mais elevado trono do mundo, estamos sentados sobre o nosso cu.»”

LUCRÉCIO
“Crede que a infelicidade suprema é a de preferir a vida à honra e que, para prolongar a vida, se perdem todas as razões para viver.”

SCHOPENHAUER
“Se o amor é pura e simplesmente um logro, uma astúcia suscitada pelo desejo de preservação da espécie, é contudo uma questão capital e complexa. «A questão central», mesmo. «O objectivo último de quase todas as aspirações humanas», chega a escrever Schopenhauer, «o fundamento de qualquer acção séria, o objectivo de todas as brincadeiras». Nenhuma paixão ultrapassa aquela em violência potencial, e ela não deveria ser tratada com a falsa desenvoltura e a bazófia de um fanfarrão que pretenda reduzir o sentimento amoroso a uma simples questão de roupa interior.”

KIERKEGAARD
“«A infelicidade», escreve ele [Kierkegaard] nas Migalhas Filosóficas, «não está no facto de os amantes não poderem unir-se, mas no facto de não poderem compreender-se.»”

NIETZSCHE
“O que é o amor senão perceber que alguém vive e age e sente de uma forma diferente da nossa, e mesmo oposta, e regozijar-se com isso? Para que o amor una os contrários na alegria, é preciso que ele não os suprima nem os negue. Mesmo o amor-próprio tem como condição uma dualidade irredutível (ou uma multiplicidade) numa única pessoa.”

HEIDEGGER e ARENDT
“Sabes o que há de mais difícil é o que é dado a um ser humano para ele levar? Quanto ao resto, há meios e ajudas, parapeitos para o orientar, enquanto neste caso estar exposto ao amor = ser mal tratado na sua existência mais limpa. Amo significa volo ut sis, pôde dizer Agostinho: «amo-te – quero que sejas aquilo que és.»”

SARTRE e BEAUVOIR
“No dia em que for possível à mulher amar com a sua força e não com a sua fraqueza, não para fugir de si mesma mas para se encontrar, não para se demitir mas para se afirmar, então aí o amor tornar-se-á para ela, tal como para o homem, uma fonte de vida e não um perigo mortal.”

segunda-feira, novembro 29, 2010

Dinheiro e cultura

Ligo a televisão e caio na CNN. Um pateta alegre (presumo, cheio de dinheiro...) faz propaganda a um livro que escreveu, contando a história de gajos muito, muito ricos que nunca puseram os pés na universidade ou que de lá sairam depois de poucos anos de enfado, sem nunca acabarem qualquer grau académico. Fala de paradigmas de sucesso financeiro como Steve Jobs (saiu da universidade ao fim de 1 ano), Bill Gates (2 anos) ou Charles Branson (nunca lá entrou) e conclui que para ser rico não é preciso essa coisa fastidiosa que é estudar, mas sim ter uma única ideia genial com que se possa fazer negócio. Faltam-me as palavras para descrever o asco que isto me provocou: o elogio descarado da ignorância esperta, o desprezo da cultura e a absolutização do dinheiro, não como meio de viver bem, mas como objectivo em si mesmo que prescinde de tudo o resto, sobretudo da cultura.

Tudo isto enquanto se diz que a educação é o meio mais eficaz para escapar ao desemprego e à pobreza. E o que chateia é que essa ideia é efectivamente cada vez mais contrariada pela realidade da recessão que por aí se espalha, parecendo dar razão ao "pateta alegre"...

Faz-me lembrar a história que me contou um grande amigo há muitos anos. Licenciado em Economia, teve de começar a trabalhar dando aulas no ensino secundário. De biologia... Num teste ousou perguntar os nomes, naturalmente científicos, dos orgãos de reprodução masculino e feminino. Fazia parte do programa. Um dos alunos, cheio de esperteza, escreveu os nomes que sabia, naturalmente pouco científicos. O meu amigo deu zero às coloridas respostas. O aluno protestou, acrescentando que não precisava de saber aquelas tretas para ficar tão rico como o pai, um bem sucedido comerciante de fruta da zona saloia e lamentou que o meu amigo tivesse passado tantos anos em tantas escolas para saber "aquilo"!

domingo, novembro 28, 2010

Os preservativos das finanças e a impotência da política

O que se passa basicamente é uma guerra entre a oligarquia da finança internacional, que se comporta segundo uma lógica clara e implacável, inserida num sistema de mercado que gravita em torno da maximização do lucro (e isso não tem nada de criminoso ou hediondo...) e governos que tentam regular a economia na base da sua legitimidade democràtica plasmada, por exemplo, na parte económica das Constituições. Os financeiros não provocam os fundamentos das crises - limitam-se a tirar o máximo partido dos erros dos políticos, os quais pretendem utilizar o mercado "à la carte". O mercado pode tornar-se uma besta impiedosa e isso faz parte da sua natureza. Os politicos não podem tecer loas ao mercado, enaltecendo apenas o seu lado benigno, quando os ventos sopram de feição, e ignorando o seu lado "perverso" que amplifica as crises sem quaisquer escrúpulos. O desemprego pode ser óptimo para um especulador porque reforça as suas perspectivas de lucro num contexto de baixa de preços. A falência de um governo pode ser uma benção porque permitirá comprar activos ao desbarato que depois poderão se vendidos com mais-valias consideráveis. Depois vêm os arautos da regulação, ou seja: bastaria que os governos enquadrassem bem os mercados, de maneira a evitar os seus excessos, retendo apenas as suas virtudes. Mas sabemos em que é que isso tem dado: burocracia, incentivo ao incumprimento, criatividade nas fugas, adulteração dos próprios mecanismos em que se baseia o funcionamento do mercado. Então, passa-se à chamada auto-regulação que me faz lembrar as recomendações da Igreja para lutar contra as doenças sexualmente transmissíveis: abstinência! Ora, tal como no sexo, também no dinheiro, o pecado é demasiado tentador e até o Papa se parece render a essa evidência, aceitando a utilização do preservativo... em casos especiais. A auto-regulação é como a abstinência, a regulação envergonhada é como o preservativo... em casos especiais.

O que está em causa é uma disputa entre poder económico (por natureza oligárquico) e poder político (supostamente democrático) num terreno de jogo em que o poder político tem feito crescentes concessões ao poder económico, porque acredita na cooperação deste último para conseguir objectivos políticos. Ou seja: os politicos estão nas mãos de investidores, banqueiros e empresários porque acharam que o interesse público seria compatível com a prossecução de certos interesses privados. Mas, este é um debate velho e fundamental da filosofia e da economia política. Infelizmente há muito pouco gente, sobretudo ao nível de quem toma as decisões, com cultura, capacidade, vontade ou tempo para enfrentar esse debate. E assim, os politicos continuam a saltar para a frente, manietados por um sistema capitalista de poder cada vez mais concentrado, sem problemas existenciais, convencidos de que a gestão das sociedades é uma ciência exacta, uma questão técnica, virgem de ideologias.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Estamos num dominó em que a queda das primeiras peças é gerível (Grécia, Irlanda e... Portugal). No total, a ajuda poderia cifrar-se em 250 a 300 mil milhões de euros, o que é enorme (o PIB português andará nos 165 mil milhões de euros) mas, com o contributo do FMI, perfeitamente compatível com o fundo de estabilização criado pela UE. Os alemães armam-se em moralistas mas o seu contributo para esse fundo mais não é do que um socorro aos seus próprios bancos que são os grandes financiadores dos devaneios dos PIIGS. Só na Irlanda têm mais de 25 mil milhões em risco. Os alemães não ajudam sobretudo os Estados-membros mal comportados - ajudam os seus próprios bancos mais temerários ou imprevidentes do que os devedores.

Voltando ao dominó... o grande problema é o tamanho da peça que poderia cair a seguir: Espanha! O montante do crédito que seria preciso é demasiado elevado: 500, 600, 700 mil milhões de euros? [E nem quero falar da Itália que tem uma dívida superior a 120% do PIB...] Portanto, Grécia, Irlanda e Portugal são apenas antecâmaras de um mal maior que poderia provocar simplesmente o desaparecimento do euro. O problema da Espanha não é a dívida mas o défice, o desemprego e as perspectivas pobres de crescimento (*). O problema da Irlanda é essencialmente financeiro e, nesse sentido, menos grave do que os problemas económicos de Portugal ou Espanha.

O que significa um euro sem os PIIGS? Significa um euro tão virtuoso que passaria a chamar-se marco alemão. Porque países como a França e a Bélgica também não são de confiança. Em poucas palavras, tudo isto demonstra que o pressuposto de base de uma união monetária não estava cumprido quando se criou o euro, em poucas palavras: a imunidade a choques assimétricos que implica um verdadeiro mercado único de capitais, mercadorias, serviços e trabalho, a centralização ou, pelo menos, coordenação de políticas orçamentais.

(*) A divulgação de tantos "stress tests" de bancos cheios de (públicas) virtudes levanta enorme desconfiança sobre a credibilidade desse exercício, sobretudo à luz da derrocada dos bancos irlandeses, também eles apresentados há poucos meses como virtuosos. Portanto, torna-se legítimo perguntar qual será a verdadeira situação dos bancos de outros países e sobretudo dos espanhóis, num dos países em que a bolha imobiliária mais inchou. As autoridades espanholas respondem com um quesito de transparência. Mas, ou se tem uma boa história para contar ou não se conta e, principalmente, não se inventa...

OE 2011

Lições a tirar do OE 2011 que foi hoje aprovado (a ver vamos a execução...):

  • Necessidade de melhorar o enquadramento institucional (e a dotação em recursos humanos) em que se baseiam os trabalhos de preparação e controlo orçamental;
  • Horizonte de médio longo prazo da programação da despesa e da dívida, de preferência, ultrapassando ciclos políticos e eleitorais, sem prejuízo das escolhas validadas pelos eleitores/contribuintes;
  • Imperativo da sustentabilidade das finanças públicas, o que se relaciona com a performance da economia, medida em termos de taxa potencial de crescimento do produto que, por sua vez, depende essencialmente da produtividade.

A produtividade e a taxa potencial de crescimento do PIB são os verdadeiros indicadores da capacidade de serviço da dívida a longo prazo, para os quais olham os nossos financiadores, designadamente, quando, no curto prazo, decidem refinanciar ou não refinanciar a dívida. Ora, é precisamente neste ponto (ou seja: a produtividade e a politica de rendimentos que, conjuntamente, determinam a competitividade externa) que reside a extrema complexidade dos nossos problemas. Porque a politica de rendimentos supõe consensos políticos e concertação social. E a produtividade implica as famosas reformas estruturais de que tanto se fala mas que ninguém executa (educação, cultura, formação profissional, justiça, simplificação administrativa, sistema de inovação, etc.). Reformas estruturais que pressupõem uma visão e uma estratégia para o país, pensadas com calma e com lucidez. A calma que tanta falta faz nos tempos que correm. Como dizia outro dia o Prof Félix Ribeiro numa conferência em que também participei, Portugal talvez devesse escolher entre transformar-se num Porto Rico, numa Florida, numa Flandres ou numa (província de) Espanha, manipulando variáveis como logística, recursos naturais (sol e mar) e conhecimento.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Florença e Roma





Em Florença respira-se um ambiente vivo, repleto de arte, alegria, romantismo e energia. Tropeça-se em edifícios míticos que nos reportam a outros tempos, histórias e personagens. Nos uffizzi encontramo-nos com os grandes artistas, sentindo a sua inspiração que transcende os muros das galerias e paira um pouco sobre toda a cidade.










Roma termini é o caos. Quanto à cidade... Roma é simplesmente Roma!
Castel Sant'Angelo, Vaticano, Campo de'Fiori, Piazza Venezia, Fontana di Trevi, Piazza Colona, Panteão, Piazza Navona, Via del Corso, Via dei Condotti, Piazza di Spagna, Trinità dei Monti, Villa Borghese, Piazza del Popolo, Via Venetto, Coliseu, Forum Romano, Trastevere...
Cada um destes sítios (entre muitos outros) transmite um sentimento especial, fazendo jus ao cognome... Cidade Eterna.

sábado, novembro 13, 2010

Interesse nacional?

Até que enfim que há alguém esperto para os lados do PS. A proposta de Luis Amado é a única que poderia retirar o partido do isolamento e da asfixia, do Harakiri que está a praticar, imolado no altar dos sacrifícios para salvar a Pátria (dos erros que os seus próprios governos também cometeram). Essa proposta permitiria diluir a dor com outros partidos, partilhar responsabilidades. Mas é óbvio que ao PSD não interessa agora nenhuma coligação para não ser conotado com as medidas anti-populares necessárias à resolução dos défices e das dívidas. Ao PSD interessa distância e demarcação. A atitude do PSD é compreensível, mas cínica e cobarde. De resto, toda a tragédia montada à volta do acordo para o Orçamento fez parte dessa atitude de culpabilização do PS "sem prejuizo da defesa dos supremos interesses nacionais". E, por detrás de tudo isto, paira o Presidente, personagem esfíngica, a quem não desagrada o estatuto de salvador, que lhe assegurará a reeleição e, depois disso, facilitar a chegada ao poder do seu partido, vendido aos eleitores tão virgem quanto possivel em relação à crise e às medidas para a remediar.

terça-feira, novembro 09, 2010

Pretensão de poema no meio da crise ou grito romântico

É nestes tempos de borrasca,
quando o pânico se torna fácil,
a tensão aumenta,
a realidade fica embaciada,
as dúvidas se instalam sobre o que não pode estar em dúvida,
a imbecilidade se faz eloquente e a calma coisa rara,
a fuga uma tentação.

É nestes tempos que a qualidade e a força vêm ao de cima,
o essencial nunca o foi tanto,
a inteligência se revela recurso precioso,
os valores prevalecem sobre os pequenos e imediatos interesses,
a grandeza das pessoas fala por si,
a missão conta mais do que os objectivos,
a nascença fala mais alto do que tudo o resto.

E no meio deste heroísmo,
desta exaltação,
alucinação perante as dificuldades,
fala, apesar de tudo, a razão da alma grande.

domingo, novembro 07, 2010

Heróis do mar, nobre Povo, nação valente, imortal.

Ao estado a que isto chegou, só há uma saída: recorrer ao que melhor têm os portugueses, à sua inteligência, iniciativa, capacidade de resistência, dignidade, criatividade. Tudo isso talvez não chegue para aguentar as consequências da má gestão do país. Ou seja: os portugueses comuns têm de progredir sem contar com o apoio ou com a visão (!) dos seus mais altos dirigentes. Têm de o fazer apesar deles, em certos casos, contra eles. Para ficar bem claro: não falo apenas da falta de qualidade dos actuais governantes ou dos membros do partido que os apoiam. Falo de todos os políticos deste país, da direita à esquerda, do PP ao PC, velhos e novos, seniores e juniores. Não há alternativa entre os politicos da Nação. As actuais élites nâo prestam... salvo rarissimas excepções para os lados da arte, da cultura, da ciência e do futebol. A única alternativa é a vitalidade da sociedade civil, a auto-gestão. De resto, nem seremos originais: os nossos amigos italianos que o digam! Mas eles têm outros genes... Estão habituados à falta de um verdadeiro Estado central.

Obrigatório clicar aqui.

segunda-feira, novembro 01, 2010

O futuro vai chegar

A prestação do Dr Catroga em frente às câmaras da televisão a justificar o acordo do PSD ao orçamento 2011, misturando economia com picardias logisticas e pormenores pessoais mais ou menos patéticos, é um indício do que nos espera, um país de hormonas descontroladas e de egos grandes de provincianismo. O Prof Marcelo, no entanto, acha que, dada a sua contribuição nesta circunstância para o designio nacional, o Dr Catroga merece ser considerado como um sério candidato a primeiro-ministro. Mais uma vez: deus nos ajude!

Temo que os dirigentes com mais de 40-50 anos não tenham condições para melhorar o país. É uma questão de geração, de educação, de cultura, de preparação, de falta de modernidade. As crianças e os jovens das sucessivas reformas do ensino, do acesso ao consumo, das viagens de estudo ao estrangeiro, das classes médias que brotaram do cavaquismo, da curiosidade pelo que não é português, do fim dos complexos de inferioridade e do obscurantismo... são esses que daqui a 20 anos poderão mudar alguma coisa de substancial e assegurar um futuro menos pequeno. São esses que poderão romper com este impasse de vistas curtas e de repetição de mediocridade e mordomias.

domingo, outubro 31, 2010

Este blog já tem 5 anos!


Há dois dias fez cinco anos desde que foi publicado o primeiro post aqui no cantinho! (O tempo corre...)

quinta-feira, outubro 28, 2010

Falsas importâncias, reais preocupações

É evidente que o orçamento vai passar... A excitação ambiente é apenas uma tragédia grega "à portuguesa" para que o PSD se demarque da carnificina socialista. Eles tudo fizeram para aliviar a factura, mas o governo insiste em espoliar os portugueses. O que se seguir será da responsabilidade do governo. Depois virá o PSD para gozar da cura e anunciar broa e mel ao povo, o fim da desgraça, o advento da prosperidade. E o pobre PS não parece ter escapatória face às ameaças dos famigerados mercados que são quem mais decide sobre o interesse nacional.

No meio disto tudo assistimos a uma cerimónia de naftalina com telejornais que se suspendem para deixar o nosso esfingico presidente anunciar solenemente que se recandidata, depois da famosa reflexão em familia. Tão em familia que os cidadãos se podem interrogar sobre quem se recandidata, sobre quem manda.

domingo, outubro 24, 2010

Multiculturalismo e (falta de) ideologia

As recentes declarações da Chanceler alemã Angela Merkel sobre o multiculturalismo, que se seguem a um livro incendiário de um membro do SPD contra os muçulmanos, que se juntam à decisão do governo francês de expulsar os ciganos e a acções de diferentes matizes e gravidade de outros governos da União Europeia para limitar a imigração e “controlar” as comunidades de outras culturas e religiões, constituem provas eloquentes de que a ficção multicultural acabou e de que a proverbial tolerância e abertura da UE em relação à “Diferença” passou para trás no confronto com os mais prosaicos (apesar de respeitáveis) interesses nacionais.

O multiculturalismo significa basicamente aceitar pessoas de outras etnias, culturas e religiões no seio de um país de acolhimento, preservando as suas diferenças e esperando que elas não prejudiquem a convivência e uma razoável integração. Foi a frustração desse pressuposto que levou a uma mudança de atitude. Negar o multiculturalismo (sem cair na proibição da imigração) significa essencialmente dizer que “podes entrar desde que te comprometas a parecer-te cada vez mais connosco”, falando a mesma lingua, tendo os mesmos hábitos, obedecendo às mesmas leis e não “agredindo” os bons usos e costumes locais com práticas bárbaras e exóticas. Isto é: “és benvindo se renunciares à tua identidade ou, pelo menos, se a esconderes ou se a assumires de forma cirurgicamente discreta”. Ora, as pessoas são ou não são... Não podem fazer de conta de que são o que não são para serem tolerados. O problema é que a Europa precisa destes muçulmanos, asiáticos, latinos, negros para fazerem o que os indigenas não fazem... incluindo filhos. Mas, essa gente deve tornar-se higienicamente europeia para bem da integração e saudável convivência e se quiserem escapar à miséria que os empurra para a Europa. Pena é que a engenharia genética não tenha ainda avançado o suficiente para converter rapidamente turcos em eficazes prussianos, indianos em pequenos burgueses dos arredores de Londres, berberes em elegantes parisienses... et ainsi de suite.

A União Europeia deixou de se embalar pela cantilena do “peace and love”. O que domina é o pragmatismo, a engenharia social mais do que a utopia. O que importa preservar é o grande centro das sociedades, essa classe média que consome e que está encharcada de medos e angústias e que estabelece as boas maneiras de que se faz uma certa coesão social. Deixar cair essa classe média nos braços dos extremos populistas que “chamam as coisas pelos seus nomes” e que propõem soluções de uma facilidade aterradora (como a expulsão pura e simples na sequência da demonização dos estrangeiros) é um perigo. Por conseguinte, é o centro do espectro político que diz e faz o que agrada ao simplismo das classes médias retirando protagonismo aos extremistas. Tudo isto revela medo dos partidos de centro porque muito simplesmente, renunciaram há muito à ideologia e transformaram-se em executantes de uma técnica fictícia e ineficiente.

sábado, outubro 23, 2010

Serenity Prayer


God grant me the serenity
to accept the things I cannot change;
courage to change the things I can;
and wisdom to know the difference.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Do circo que é o dinheiro


O dinheiro paga muita coisa: coisas, controlo, conforto, oportunidades e luxos. Sem dúvida que importa passar tanto tempo a reflectir sobre ele… De facto, o dinheiro dá poder… Ou melhor, dá a fantasia de que se pode mandar, decidir, que se tem o poder de fazer o que quiser, quando quiser, como quiser, porque sim, porque não ou porque se acha que talvez sim ou talvez não… Porque as moedas e notas podem ser trocadas por tudo e mais alguma coisa.

Mas esse mesmo poder e o dinheiro que o possibilita são ambos ilusões! Ilusões que fazem reféns os que acham que com elas são realmente livres. (Senão, olhe-se para a política mundial, neste momento completamente refém do “poder” económico…)

O dinheiro pode muita coisa… Mas nada pode quando em causa estão coisas como o respeito, a dignidade, a alegria de viver…
Dizem que tempo é dinheiro…

Tempo – dinheiro – dinheiro – tempo?!?!

Porquê? Gostava de perceber porquê, se normalmente quem tem um a mais tem uma flagrante falta do outro…

“Money makes the world go round”… and my head too!

10-year PGB quoted just above 5.5% (mid market) - 312 bps over Bund (about 100 bps tighter than a week ago)

Isto não é chinês. Assim fala quem decide se nos empresta ou não mais dinheiro. Quer dizer muito simplesmente que a dívida pública portuguesa a 10 anos está mais barata cerca de 1% em relação ao nível da semana passada (no total, aproximadamente menos 800 milhões de euros por ano…) porque o “Mercado” (essa entidade divina e inacessível) finalmente saciou-se com o sangue, suor e lágrimas da grande maioria dos cidadãos portugueses, na sequência das medidas de austeridade debitadas pelo nosso Governo em vagas sucessivas. Mas, as agências de rating avisam que, estando contentes para já com o aperto do cinto, temem que o efeito recessivo possa implicar menores receitas fiscais e, portanto, agravamento subsequente do problema. Por outras palavras: «preso por ter cão e por não ter». Ou ainda: «o doente pode morrer da cura».

O que espanta são os brandos costumes do nosso povo. Metade de tanto rigor teria já implicado protestos, greves e tumultos noutros países ditos civilizados, como por exemplo em França.

Uma definição de respeito


"I believe that you measure yourself by the people that measure themselves by you."


in The Bucket List

sexta-feira, outubro 15, 2010

O estado da Nação em 3 notícias

O ranking das escolas, o ranking de tudo, o ser primeiro e o ficar para trás, a ficção da excelência, o primado do “Number One” e tudo o resto que não faz história e que é apenas tolerado por uma espécie de serviço mínimo de humanidade. E a glória tão efémera como a velocidade com que se morre vivendo. E a corrida desenfreada à qualidade, à eficiência (tudo putativo…), deixando em suspeita penumbra o sofrimento que isso custa a quem não é genuinamente predador.

As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Governo implicam, entre aumento de receitas e redução de despesas, um valor próximo do montante que a CGD já teve de injectar no BPN para evitar o chamado risco sistémico.

O PSD só pode aprovar o orçamento, não tanto por algum caríssimo interesse nacional, mas para forçar o PS a limpar o que sujou e assim agravar ainda mais a sua agonia. Daí resultaria, num momento mais oportuno, um PSD mais “convincente” e redentor.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Câmbios e geo-estratégia

Os excedentes da balança de bens e serviços da China são os défices dos Estados Unidos e da Europa, compensados por saldos de sinal contrário das balanças de capitais. Em termos muito simples: os Estados Unidos só podem comprar à China mais do que lhe vendem se a China acumular os dólares com que os EUA lhe pagam ou se conceder crédito aos americanos. O excesso da oferta de dólares deveria conduzir à sua desvalorização e à consequente revalorização da moeda chinesa, o Yuan. Mas, os chineses resistem a esse ajustamento natural do mercado, mantendo a sua divisa administrativamente baixa porque querem manter a competitividade das suas exportações e a acumulação de créditos sobre o estrangeiro e de activos no estrangeiro. Os chineses querem comprar o capital fixo e financeiro da América, da Europa e do resto do mundo com o produto dos seus excedentes comerciais. Isso quer dizer adquirir títulos de dívida pública, participações no capital de empresas ou simplesmente património imobiliário e recursos naturais. As recentes notícias de que o governo chinês estaria disposto a comprar títulos de dívida grega vai neste sentido. A quantidade de reservas cambiais dos chineses permitem isso e muito mais. Qualquer dia são os chineses que nos emprestam dinheiro tornando o FMI e o fundo europeu de estabilização brincadeiras de circunstância.

Uma forma menos “geo-estratégica” de equilibrar isto tudo será fazer os chineses comprar mais bens e serviços ao resto do mundo e vender-lhe menos pela via cambial (revalorização do Yuan). A chamada via real (maior propensão ao consumo de bens e serviços importados pelos chineses) poderá fazer-nos cair na chamada via geo-estratégica que consiste em agravar ao mesmo tempo a expansão da China (mais concentrada nas importações) e a recessão do resto do mundo (que leva a menores importações provenientes da China).

Falei da China por se tratar do caso mais emblemático mas o Brasil não anda longe desta situação.

terça-feira, outubro 05, 2010

Out of Africa

Um filme a ver ou rever, um daqueles filmes que desapareceram dos ecrãs... infelizmente!

domingo, outubro 03, 2010

The slump goes on: why?

Extraído de um magnífico artigo de Paul Krugman e Robin Wells publicado no passado dia 31 de Agosto em "The New York Review of Books":

"In [Richard] Koo’s analysis, simultaneous attempts by many private players to pay down their debts lead to a “fallacy of composition” that’s closely related to the famous (but too often overlooked) “paradox of thrift.” Each individual corporation or household cuts back on spending in an effort to reduce debt; but these spending cuts reduce everyone’s income and keep the economy persistently depressed.

These broader problems of debt and deleveraging arguably explain why the successful stabilization of the financial industry has done no more than pull the economy back from the brink, without producing a strong recovery. The economy is hamstrung—still crippled by a debt overhang. That is, the simultaneous efforts of so many people to pay down debt at the same time are keeping the economy depressed.

So what’s the answer? In the short run, the only way to avoid a deep slump when almost everyone in the private sector is trying to pay down debt simultaneously is for the government to move in the opposite direction—to become, in effect, the borrower of last resort, issuing debt and continuing to spend as the private sector pulls back. In the heat of a Minsky moment, budget deficits are not only good, they are necessary. Indeed, the surge in budget deficits around the world between 2007 and 2009 was arguably even more important than the financial rescue in keeping the real estate bust from triggering a full replay of the Great Depression.

This surge in budget deficits, by the way, wasn’t mainly the result of deliberate efforts to stimulate the economy. Instead, the main factors were a collapse in tax receipts as economies slumped, and secondarily a rise in automatic payments like unemployment insurance benefits. In the United States, the two-year federal deficit over 2009–2010 will be around $2.5 trillion; the Obama stimulus plan accounts for less than a quarter of the total."

O problema é convencer agora os credores internacionais de que mais défice e mais dívida no curto prazo melhorará a capacidade a médio/longo prazo de reembolsar as dívidas, sem ser através de recurso a mais e mais dívidas. O problema de facto não é o valor da dívida, mas a sua sustentabilidade, ou seja, a possibilidade de a reembolsar ou de a refinanciar em permanência. Sobretudo no último caso, joga mais a credibilidade dos governos e a solidez das perpectivas de crescimento a longo prazo do que qualquer outra coisa.

sábado, outubro 02, 2010

Sérgio Godinho - Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

El tiempo del desconsuelo


"Los mercados no se autorregulan ya que están regidos por personas y las personas son muchas veces animales irracionales. El idealizado mercado libre es un invento que nunca ha existido y nunca existirá. Suele ser en los mercados financieros, por el papel creciente del sistema crediticio en cualquier economía moderna, en los que se observan los primeros síntomas de los colapsos. (...)

¿Por qué la mayoría de los economistas no lo previó? Ello se debió, sobre todo, al contexto asfixiante en el que trabajaban, en el que, en cuanto se salían de la norma, eran considerados heterodoxos y marginados del corazón de los departamentos universitarios, servicios de estudios, conferencias, seminarios y empresas. Así nació el pensamiento único. Lo desarrolla John Lanchester, en un ensayo titulado muy expresivamente ¡Huy!: la Gran Recesión fue el resultado del clima dominante que siguió a la victoria del mundo capitalista sobre el comunismo tras la caída del muro de Berlín; con el final de la guerra fría disminuyó de manera ostensible el capital político de la idea de igualdad y justicia. Muchos bancos, exentos del miedo de un sistema alternativo, trataron la irresponsabilidad financiera como si fuera una materia prima, un recurso natural; el dinero barato fluía por doquier, casi diariamente recibíamos llamadas telefónicas no solicitadas de entidades de crédito y cartas con solicitudes de crédito precumplimentadas. ¿Se acuerdan? El libre mercado dejó de ser una manera de ordenar el mundo sometida a discusión para convertirse en un artículo de fe, en una creencia casi mística. (...)

Pero conviene recuperar la obra de Hyman Minsky, un economista americano que defendió en el desierto que el capitalismo es intrínsecamente inestable y que la fuente principal de esa inestabilidad son las acciones irresponsables de los banqueros, operadores de Bolsa y otras personas del mundo financiero. Decía Minsky que si el Gobierno dejase de regular con eficacia el sector financiero, el sistema estaría sujeto a derrumbes periódicos, algunos de los cuales podrían arrojar a toda la economía hacia recesiones prolongadas. (..)

Declaraba Keynes en 1933: "El decadente capitalismo internacional, individualista, en cuyas manos nos encontramos después de la guerra no es inteligente, no es bello, no es justo, no es virtuoso y no satisface las necesidades. En resumen, nos desagrada y comenzamos a despreciarlo. Pero cuando buscamos con qué reemplazarlo, nos miramos extremadamente confusos". Setenta y siete años después de esas palabras seguimos con idénticas incógnitas. Alguien dijo que el sistema necesita un infarto para que, si lo supera, afronte los desequilibrios y adopte un estilo de vida más saludable. El infarto ha llegado pero el capitalismo, en vez de protegerse, se ha dado de alta en el hospital y corre a festejarlo con un cartón de Marlboro, una botella de ginebra y un Big Mac con patatas fritas en la mano. El pesimismo de nuestros autores está basado en la sospecha de que no se hayan desprendido las lecciones necesarias ni se tenga la voluntad de corregir los abusos."

"Lo más triste es que no te quieren ni para hacer prácticas gratis"

"Me quedan tres asignaturas para acabar y pienso: ¿qué hago con mi vida a partir de diciembre?". La zozobra que ya padece Fátima Lutfi, sevillana de 22 años, es un sentimiento muy extendido entre los jóvenes que están a punto de terminar la universidad. El reto de dejar atrás la vida de estudiante y adentrarse en el mercado laboral siempre ha dado vértigo, pero ahora el paisaje que espera fuera parece un enorme precipicio. Y cuesta más dar el salto. Casi 180.000 estudiantes españoles obtuvieron en 2009 un título universitario. Este año lo harán otros tantos. Los datos apuntan a que cada vez son más los que optan por aprovechar la crisis para seguir formándose. La demanda de másteres el curso pasado fue un 65% superior a la de 2008, y este año, aunque las cifras no están cerradas, ha seguido creciendo. Solo en las universidades andaluzas ha habido un 70% más de solicitudes que en 2009. Lo mismo ocurre con la mayoría de cursos de formación que ofrecen las universidades. "Hace cuatro años teníamos que cancelar el 20% de nuestros cursos porque no había demanda. Ahora se llenan todos", cuenta Manuel Alejandro Cardenete, profesor titular de Economía Aplicada y vicepresidente de Fundaciones de la Universidad Pablo de Olavide de Sevilla. "Para los recién licenciados hay trabajo, pero no de mucha calidad", admite Cardenete. Con todo, se muestra optimista: "Noto un ligero incremento en la demanda de empresas para firmar convenios de prácticas".

quinta-feira, setembro 30, 2010

Ilusões

Faz-nos falta a inflação e a desvalorização cambial. O Euro tirou-nos esses instrumentos de ajustamento pelo lado dos preços. Salários nominais a crescer a 5% com inflação a 10% dava redução de poder de compra de 5%... Desvalorização da moeda nacional (saudoso escudo!) levava a preços mais altos das importações (ainda mais inflação...) e a preços mais baixos das exportações, ou seja, ainda menos despesa interna e mais produção para vender ao estrangeiro, com o que se poderia pagar a dívida externa. E as taxas de juro podiam ser ao mesmo tempo altas (em termos nominais) e baixas (em termos reais, isto é, descontada a inflação).

Nessa altura, tramava-se a malta pela calada. Chama-se a isso "ilusão monetária". A malta julgava que ganhava mais, mas ganhava menos (descontada a inflação). Como nada disto existe agora, dada a maldição do Euro, o pessoal tem de sofrer a sério e com transparência. Tem de se passar a gastar menos do que se produz para pagar as dívidas acumuladas. O que chateia é a distribuição injusta desse "sacrifício". Os ricos arranjam sempre maneira de fugir. Os pobres e remediados são quem apanha mais, até pela lei dos grandes números.

Pior do que a "ilusão monetária" é a "ilusão da abundância", ou seja, pensar que há coisas na economia que podem ser gratuitas. Tudo se paga, mesmo os serviços públicos ditos gratuitos têm de ser pagos pelos contribuintes, mais tarde (no caso de ser financiados pela dívida que tem de ser reembolsada pelos impostos futuros) ou mais cedo (pela subida imediata dos impostos). E se isso acontecer em conformidade com qualquer padrão "justo" de justiça social, tanto melhor...

A perversidade de tudo isto é que o que nos impede agora de nos ajustarmos com a "ilusão monetária" foi o que nos levou ã "ilusão da abundância": o Euro. Quer dizer, o Euro e a correspondente baixa das taxas de juro reais levaram o Estado, as empresas e as famílias a endividarem-se para gastar em activos que não geraram as receitas que permitiriam o reembolso das dívidas. Portanto, agora, a poupança necessária para pagar as dívidas significa perder condições de vida. Mas, sempre os mesmos. Numerosos.