terça-feira, novembro 30, 2010
segunda-feira, novembro 29, 2010
Dinheiro e cultura
Tudo isto enquanto se diz que a educação é o meio mais eficaz para escapar ao desemprego e à pobreza. E o que chateia é que essa ideia é efectivamente cada vez mais contrariada pela realidade da recessão que por aí se espalha, parecendo dar razão ao "pateta alegre"...
Faz-me lembrar a história que me contou um grande amigo há muitos anos. Licenciado em Economia, teve de começar a trabalhar dando aulas no ensino secundário. De biologia... Num teste ousou perguntar os nomes, naturalmente científicos, dos orgãos de reprodução masculino e feminino. Fazia parte do programa. Um dos alunos, cheio de esperteza, escreveu os nomes que sabia, naturalmente pouco científicos. O meu amigo deu zero às coloridas respostas. O aluno protestou, acrescentando que não precisava de saber aquelas tretas para ficar tão rico como o pai, um bem sucedido comerciante de fruta da zona saloia e lamentou que o meu amigo tivesse passado tantos anos em tantas escolas para saber "aquilo"!
domingo, novembro 28, 2010
Os preservativos das finanças e a impotência da política
O que está em causa é uma disputa entre poder económico (por natureza oligárquico) e poder político (supostamente democrático) num terreno de jogo em que o poder político tem feito crescentes concessões ao poder económico, porque acredita na cooperação deste último para conseguir objectivos políticos. Ou seja: os politicos estão nas mãos de investidores, banqueiros e empresários porque acharam que o interesse público seria compatível com a prossecução de certos interesses privados. Mas, este é um debate velho e fundamental da filosofia e da economia política. Infelizmente há muito pouco gente, sobretudo ao nível de quem toma as decisões, com cultura, capacidade, vontade ou tempo para enfrentar esse debate. E assim, os politicos continuam a saltar para a frente, manietados por um sistema capitalista de poder cada vez mais concentrado, sem problemas existenciais, convencidos de que a gestão das sociedades é uma ciência exacta, uma questão técnica, virgem de ideologias.
sexta-feira, novembro 26, 2010
Estamos num dominó em que a queda das primeiras peças é gerível (Grécia, Irlanda e... Portugal). No total, a ajuda poderia cifrar-se em 250 a 300 mil milhões de euros, o que é enorme (o PIB português andará nos 165 mil milhões de euros) mas, com o contributo do FMI, perfeitamente compatível com o fundo de estabilização criado pela UE. Os alemães armam-se em moralistas mas o seu contributo para esse fundo mais não é do que um socorro aos seus próprios bancos que são os grandes financiadores dos devaneios dos PIIGS. Só na Irlanda têm mais de 25 mil milhões em risco. Os alemães não ajudam sobretudo os Estados-membros mal comportados - ajudam os seus próprios bancos mais temerários ou imprevidentes do que os devedores.(*) A divulgação de tantos "stress tests" de bancos cheios de (públicas) virtudes levanta enorme desconfiança sobre a credibilidade desse exercício, sobretudo à luz da derrocada dos bancos irlandeses, também eles apresentados há poucos meses como virtuosos. Portanto, torna-se legítimo perguntar qual será a verdadeira situação dos bancos de outros países e sobretudo dos espanhóis, num dos países em que a bolha imobiliária mais inchou. As autoridades espanholas respondem com um quesito de transparência. Mas, ou se tem uma boa história para contar ou não se conta e, principalmente, não se inventa...
OE 2011
Lições a tirar do OE 2011 que foi hoje aprovado (a ver vamos a execução...):
- Necessidade de melhorar o enquadramento institucional (e a dotação em recursos humanos) em que se baseiam os trabalhos de preparação e controlo orçamental;
- Horizonte de médio longo prazo da programação da despesa e da dívida, de preferência, ultrapassando ciclos políticos e eleitorais, sem prejuízo das escolhas validadas pelos eleitores/contribuintes;
- Imperativo da sustentabilidade das finanças públicas, o que se relaciona com a performance da economia, medida em termos de taxa potencial de crescimento do produto que, por sua vez, depende essencialmente da produtividade.
A produtividade e a taxa potencial de crescimento do PIB são os verdadeiros indicadores da capacidade de serviço da dívida a longo prazo, para os quais olham os nossos financiadores, designadamente, quando, no curto prazo, decidem refinanciar ou não refinanciar a dívida. Ora, é precisamente neste ponto (ou seja: a produtividade e a politica de rendimentos que, conjuntamente, determinam a competitividade externa) que reside a extrema complexidade dos nossos problemas. Porque a politica de rendimentos supõe consensos políticos e concertação social. E a produtividade implica as famosas reformas estruturais de que tanto se fala mas que ninguém executa (educação, cultura, formação profissional, justiça, simplificação administrativa, sistema de inovação, etc.). Reformas estruturais que pressupõem uma visão e uma estratégia para o país, pensadas com calma e com lucidez. A calma que tanta falta faz nos tempos que correm. Como dizia outro dia o Prof Félix Ribeiro numa conferência em que também participei, Portugal talvez devesse escolher entre transformar-se num Porto Rico, numa Florida, numa Flandres ou numa (província de) Espanha, manipulando variáveis como logística, recursos naturais (sol e mar) e conhecimento.
segunda-feira, novembro 22, 2010
Florença e Roma
Em Florença respira-se um ambiente vivo, repleto de arte, alegria, romantismo e energia. Tropeça-se em edifícios míticos que nos reportam a outros tempos, histórias e personagens. Nos uffizzi encontramo-nos com os grandes artistas, sentindo a sua inspiração que transcende os muros das galerias e paira um pouco sobre toda a cidade.
Roma termini é o caos. Quanto à cidade... Roma é simplesmente Roma!
Castel Sant'Angelo, Vaticano, Campo de'Fiori, Piazza Venezia, Fontana di Trevi, Piazza Colona, Panteão, Piazza Navona, Via del Corso, Via dei Condotti, Piazza di Spagna, Trinità dei Monti, Villa Borghese, Piazza del Popolo, Via Venetto, Coliseu, Forum Romano, Trastevere...
Cada um destes sítios (entre muitos outros) transmite um sentimento especial, fazendo jus ao cognome... Cidade Eterna.
sábado, novembro 13, 2010
Interesse nacional?
terça-feira, novembro 09, 2010
Pretensão de poema no meio da crise ou grito romântico
quando o pânico se torna fácil,
a tensão aumenta,
a realidade fica embaciada,
as dúvidas se instalam sobre o que não pode estar em dúvida,
a imbecilidade se faz eloquente e a calma coisa rara,
a fuga uma tentação.
É nestes tempos que a qualidade e a força vêm ao de cima,
o essencial nunca o foi tanto,
a inteligência se revela recurso precioso,
os valores prevalecem sobre os pequenos e imediatos interesses,
a grandeza das pessoas fala por si,
a missão conta mais do que os objectivos,
a nascença fala mais alto do que tudo o resto.
E no meio deste heroísmo,
desta exaltação,
alucinação perante as dificuldades,
fala, apesar de tudo, a razão da alma grande.
domingo, novembro 07, 2010
Heróis do mar, nobre Povo, nação valente, imortal.
Ao estado a que isto chegou, só há uma saída: recorrer ao que melhor têm os portugueses, à sua inteligência, iniciativa, capacidade de resistência, dignidade, criatividade. Tudo isso talvez não chegue para aguentar as consequências da má gestão do país. Ou seja: os portugueses comuns têm de progredir sem contar com o apoio ou com a visão (!) dos seus mais altos dirigentes. Têm de o fazer apesar deles, em certos casos, contra eles. Para ficar bem claro: não falo apenas da falta de qualidade dos actuais governantes ou dos membros do partido que os apoiam. Falo de todos os políticos deste país, da direita à esquerda, do PP ao PC, velhos e novos, seniores e juniores. Não há alternativa entre os politicos da Nação. As actuais élites nâo prestam... salvo rarissimas excepções para os lados da arte, da cultura, da ciência e do futebol. A única alternativa é a vitalidade da sociedade civil, a auto-gestão. De resto, nem seremos originais: os nossos amigos italianos que o digam! Mas eles têm outros genes... Estão habituados à falta de um verdadeiro Estado central.Obrigatório clicar aqui.
quinta-feira, novembro 04, 2010
segunda-feira, novembro 01, 2010
O futuro vai chegar
Temo que os dirigentes com mais de 40-50 anos não tenham condições para melhorar o país. É uma questão de geração, de educação, de cultura, de preparação, de falta de modernidade. As crianças e os jovens das sucessivas reformas do ensino, do acesso ao consumo, das viagens de estudo ao estrangeiro, das classes médias que brotaram do cavaquismo, da curiosidade pelo que não é português, do fim dos complexos de inferioridade e do obscurantismo... são esses que daqui a 20 anos poderão mudar alguma coisa de substancial e assegurar um futuro menos pequeno. São esses que poderão romper com este impasse de vistas curtas e de repetição de mediocridade e mordomias.
domingo, outubro 31, 2010
Este blog já tem 5 anos!
quinta-feira, outubro 28, 2010
Falsas importâncias, reais preocupações
No meio disto tudo assistimos a uma cerimónia de naftalina com telejornais que se suspendem para deixar o nosso esfingico presidente anunciar solenemente que se recandidata, depois da famosa reflexão em familia. Tão em familia que os cidadãos se podem interrogar sobre quem se recandidata, sobre quem manda.
terça-feira, outubro 26, 2010
domingo, outubro 24, 2010
Multiculturalismo e (falta de) ideologia
O multiculturalismo significa basicamente aceitar pessoas de outras etnias, culturas e religiões no seio de um país de acolhimento, preservando as suas diferenças e esperando que elas não prejudiquem a convivência e uma razoável integração. Foi a frustração desse pressuposto que levou a uma mudança de atitude. Negar o multiculturalismo (sem cair na proibição da imigração) significa essencialmente dizer que “podes entrar desde que te comprometas a parecer-te cada vez mais connosco”, falando a mesma lingua, tendo os mesmos hábitos, obedecendo às mesmas leis e não “agredindo” os bons usos e costumes locais com práticas bárbaras e exóticas. Isto é: “és benvindo se renunciares à tua identidade ou, pelo menos, se a esconderes ou se a assumires de forma cirurgicamente discreta”. Ora, as pessoas são ou não são... Não podem fazer de conta de que são o que não são para serem tolerados. O problema é que a Europa precisa destes muçulmanos, asiáticos, latinos, negros para fazerem o que os indigenas não fazem... incluindo filhos. Mas, essa gente deve tornar-se higienicamente europeia para bem da integração e saudável convivência e se quiserem escapar à miséria que os empurra para a Europa. Pena é que a engenharia genética não tenha ainda avançado o suficiente para converter rapidamente turcos em eficazes prussianos, indianos em pequenos burgueses dos arredores de Londres, berberes em elegantes parisienses... et ainsi de suite.
A União Europeia deixou de se embalar pela cantilena do “peace and love”. O que domina é o pragmatismo, a engenharia social mais do que a utopia. O que importa preservar é o grande centro das sociedades, essa classe média que consome e que está encharcada de medos e angústias e que estabelece as boas maneiras de que se faz uma certa coesão social. Deixar cair essa classe média nos braços dos extremos populistas que “chamam as coisas pelos seus nomes” e que propõem soluções de uma facilidade aterradora (como a expulsão pura e simples na sequência da demonização dos estrangeiros) é um perigo. Por conseguinte, é o centro do espectro político que diz e faz o que agrada ao simplismo das classes médias retirando protagonismo aos extremistas. Tudo isto revela medo dos partidos de centro porque muito simplesmente, renunciaram há muito à ideologia e transformaram-se em executantes de uma técnica fictícia e ineficiente.
sábado, outubro 23, 2010
Serenity Prayer
segunda-feira, outubro 18, 2010
Do circo que é o dinheiro

Mas esse mesmo poder e o dinheiro que o possibilita são ambos ilusões! Ilusões que fazem reféns os que acham que com elas são realmente livres. (Senão, olhe-se para a política mundial, neste momento completamente refém do “poder” económico…)
O dinheiro pode muita coisa… Mas nada pode quando em causa estão coisas como o respeito, a dignidade, a alegria de viver…
Dizem que tempo é dinheiro…
Porquê? Gostava de perceber porquê, se normalmente quem tem um a mais tem uma flagrante falta do outro…
10-year PGB quoted just above 5.5% (mid market) - 312 bps over Bund (about 100 bps tighter than a week ago)
O que espanta são os brandos costumes do nosso povo. Metade de tanto rigor teria já implicado protestos, greves e tumultos noutros países ditos civilizados, como por exemplo em França.
Uma definição de respeito
domingo, outubro 17, 2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
O estado da Nação em 3 notícias
As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Governo implicam, entre aumento de receitas e redução de despesas, um valor próximo do montante que a CGD já teve de injectar no BPN para evitar o chamado risco sistémico.
O PSD só pode aprovar o orçamento, não tanto por algum caríssimo interesse nacional, mas para forçar o PS a limpar o que sujou e assim agravar ainda mais a sua agonia. Daí resultaria, num momento mais oportuno, um PSD mais “convincente” e redentor.
quinta-feira, outubro 14, 2010
segunda-feira, outubro 11, 2010
Câmbios e geo-estratégia
Uma forma menos “geo-estratégica” de equilibrar isto tudo será fazer os chineses comprar mais bens e serviços ao resto do mundo e vender-lhe menos pela via cambial (revalorização do Yuan). A chamada via real (maior propensão ao consumo de bens e serviços importados pelos chineses) poderá fazer-nos cair na chamada via geo-estratégica que consiste em agravar ao mesmo tempo a expansão da China (mais concentrada nas importações) e a recessão do resto do mundo (que leva a menores importações provenientes da China).
Falei da China por se tratar do caso mais emblemático mas o Brasil não anda longe desta situação.
terça-feira, outubro 05, 2010
Out of Africa
Um filme a ver ou rever, um daqueles filmes que desapareceram dos ecrãs... infelizmente!
domingo, outubro 03, 2010
The slump goes on: why?
"In [Richard] Koo’s analysis, simultaneous attempts by many private players to pay down their debts lead to a “fallacy of composition” that’s closely related to the famous (but too often overlooked) “paradox of thrift.” Each individual corporation or household cuts back on spending in an effort to reduce debt; but these spending cuts reduce everyone’s income and keep the economy persistently depressed.
These broader problems of debt and deleveraging arguably explain why the successful stabilization of the financial industry has done no more than pull the economy back from the brink, without producing a strong recovery. The economy is hamstrung—still crippled by a debt overhang. That is, the simultaneous efforts of so many people to pay down debt at the same time are keeping the economy depressed.
So what’s the answer? In the short run, the only way to avoid a deep slump when almost everyone in the private sector is trying to pay down debt simultaneously is for the government to move in the opposite direction—to become, in effect, the borrower of last resort, issuing debt and continuing to spend as the private sector pulls back. In the heat of a Minsky moment, budget deficits are not only good, they are necessary. Indeed, the surge in budget deficits around the world between 2007 and 2009 was arguably even more important than the financial rescue in keeping the real estate bust from triggering a full replay of the Great Depression.
This surge in budget deficits, by the way, wasn’t mainly the result of deliberate efforts to stimulate the economy. Instead, the main factors were a collapse in tax receipts as economies slumped, and secondarily a rise in automatic payments like unemployment insurance benefits. In the United States, the two-year federal deficit over 2009–2010 will be around $2.5 trillion; the Obama stimulus plan accounts for less than a quarter of the total."
O problema é convencer agora os credores internacionais de que mais défice e mais dívida no curto prazo melhorará a capacidade a médio/longo prazo de reembolsar as dívidas, sem ser através de recurso a mais e mais dívidas. O problema de facto não é o valor da dívida, mas a sua sustentabilidade, ou seja, a possibilidade de a reembolsar ou de a refinanciar em permanência. Sobretudo no último caso, joga mais a credibilidade dos governos e a solidez das perpectivas de crescimento a longo prazo do que qualquer outra coisa.
sábado, outubro 02, 2010
El tiempo del desconsuelo

¿Por qué la mayoría de los economistas no lo previó? Ello se debió, sobre todo, al contexto asfixiante en el que trabajaban, en el que, en cuanto se salían de la norma, eran considerados heterodoxos y marginados del corazón de los departamentos universitarios, servicios de estudios, conferencias, seminarios y empresas. Así nació el pensamiento único. Lo desarrolla John Lanchester, en un ensayo titulado muy expresivamente ¡Huy!: la Gran Recesión fue el resultado del clima dominante que siguió a la victoria del mundo capitalista sobre el comunismo tras la caída del muro de Berlín; con el final de la guerra fría disminuyó de manera ostensible el capital político de la idea de igualdad y justicia. Muchos bancos, exentos del miedo de un sistema alternativo, trataron la irresponsabilidad financiera como si fuera una materia prima, un recurso natural; el dinero barato fluía por doquier, casi diariamente recibíamos llamadas telefónicas no solicitadas de entidades de crédito y cartas con solicitudes de crédito precumplimentadas. ¿Se acuerdan? El libre mercado dejó de ser una manera de ordenar el mundo sometida a discusión para convertirse en un artículo de fe, en una creencia casi mística. (...)
Pero conviene recuperar la obra de Hyman Minsky, un economista americano que defendió en el desierto que el capitalismo es intrínsecamente inestable y que la fuente principal de esa inestabilidad son las acciones irresponsables de los banqueros, operadores de Bolsa y otras personas del mundo financiero. Decía Minsky que si el Gobierno dejase de regular con eficacia el sector financiero, el sistema estaría sujeto a derrumbes periódicos, algunos de los cuales podrían arrojar a toda la economía hacia recesiones prolongadas. (..)
Declaraba Keynes en 1933: "El decadente capitalismo internacional, individualista, en cuyas manos nos encontramos después de la guerra no es inteligente, no es bello, no es justo, no es virtuoso y no satisface las necesidades. En resumen, nos desagrada y comenzamos a despreciarlo. Pero cuando buscamos con qué reemplazarlo, nos miramos extremadamente confusos". Setenta y siete años después de esas palabras seguimos con idénticas incógnitas. Alguien dijo que el sistema necesita un infarto para que, si lo supera, afronte los desequilibrios y adopte un estilo de vida más saludable. El infarto ha llegado pero el capitalismo, en vez de protegerse, se ha dado de alta en el hospital y corre a festejarlo con un cartón de Marlboro, una botella de ginebra y un Big Mac con patatas fritas en la mano. El pesimismo de nuestros autores está basado en la sospecha de que no se hayan desprendido las lecciones necesarias ni se tenga la voluntad de corregir los abusos."
"Lo más triste es que no te quieren ni para hacer prácticas gratis"
quinta-feira, setembro 30, 2010
Ilusões
Nessa altura, tramava-se a malta pela calada. Chama-se a isso "ilusão monetária". A malta julgava que ganhava mais, mas ganhava menos (descontada a inflação). Como nada disto existe agora, dada a maldição do Euro, o pessoal tem de sofrer a sério e com transparência. Tem de se passar a gastar menos do que se produz para pagar as dívidas acumuladas. O que chateia é a distribuição injusta desse "sacrifício". Os ricos arranjam sempre maneira de fugir. Os pobres e remediados são quem apanha mais, até pela lei dos grandes números.
Pior do que a "ilusão monetária" é a "ilusão da abundância", ou seja, pensar que há coisas na economia que podem ser gratuitas. Tudo se paga, mesmo os serviços públicos ditos gratuitos têm de ser pagos pelos contribuintes, mais tarde (no caso de ser financiados pela dívida que tem de ser reembolsada pelos impostos futuros) ou mais cedo (pela subida imediata dos impostos). E se isso acontecer em conformidade com qualquer padrão "justo" de justiça social, tanto melhor...
A perversidade de tudo isto é que o que nos impede agora de nos ajustarmos com a "ilusão monetária" foi o que nos levou ã "ilusão da abundância": o Euro. Quer dizer, o Euro e a correspondente baixa das taxas de juro reais levaram o Estado, as empresas e as famílias a endividarem-se para gastar em activos que não geraram as receitas que permitiriam o reembolso das dívidas. Portanto, agora, a poupança necessária para pagar as dívidas significa perder condições de vida. Mas, sempre os mesmos. Numerosos.





