Isto não é chinês. Assim fala quem decide se nos empresta ou não mais dinheiro. Quer dizer muito simplesmente que a dívida pública portuguesa a 10 anos está mais barata cerca de 1% em relação ao nível da semana passada (no total, aproximadamente menos 800 milhões de euros por ano…) porque o “Mercado” (essa entidade divina e inacessível) finalmente saciou-se com o sangue, suor e lágrimas da grande maioria dos cidadãos portugueses, na sequência das medidas de austeridade debitadas pelo nosso Governo em vagas sucessivas. Mas, as agências de rating avisam que, estando contentes para já com o aperto do cinto, temem que o efeito recessivo possa implicar menores receitas fiscais e, portanto, agravamento subsequente do problema. Por outras palavras: «preso por ter cão e por não ter». Ou ainda: «o doente pode morrer da cura».
O que espanta são os brandos costumes do nosso povo. Metade de tanto rigor teria já implicado protestos, greves e tumultos noutros países ditos civilizados, como por exemplo em França.
segunda-feira, outubro 18, 2010
Uma definição de respeito
domingo, outubro 17, 2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
O estado da Nação em 3 notícias
O ranking das escolas, o ranking de tudo, o ser primeiro e o ficar para trás, a ficção da excelência, o primado do “Number One” e tudo o resto que não faz história e que é apenas tolerado por uma espécie de serviço mínimo de humanidade. E a glória tão efémera como a velocidade com que se morre vivendo. E a corrida desenfreada à qualidade, à eficiência (tudo putativo…), deixando em suspeita penumbra o sofrimento que isso custa a quem não é genuinamente predador.
As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Governo implicam, entre aumento de receitas e redução de despesas, um valor próximo do montante que a CGD já teve de injectar no BPN para evitar o chamado risco sistémico.
O PSD só pode aprovar o orçamento, não tanto por algum caríssimo interesse nacional, mas para forçar o PS a limpar o que sujou e assim agravar ainda mais a sua agonia. Daí resultaria, num momento mais oportuno, um PSD mais “convincente” e redentor.
As medidas de austeridade recentemente anunciadas pelo Governo implicam, entre aumento de receitas e redução de despesas, um valor próximo do montante que a CGD já teve de injectar no BPN para evitar o chamado risco sistémico.
O PSD só pode aprovar o orçamento, não tanto por algum caríssimo interesse nacional, mas para forçar o PS a limpar o que sujou e assim agravar ainda mais a sua agonia. Daí resultaria, num momento mais oportuno, um PSD mais “convincente” e redentor.
quinta-feira, outubro 14, 2010
segunda-feira, outubro 11, 2010
Câmbios e geo-estratégia
Os excedentes da balança de bens e serviços da China são os défices dos Estados Unidos e da Europa, compensados por saldos de sinal contrário das balanças de capitais. Em termos muito simples: os Estados Unidos só podem comprar à China mais do que lhe vendem se a China acumular os dólares com que os EUA lhe pagam ou se conceder crédito aos americanos. O excesso da oferta de dólares deveria conduzir à sua desvalorização e à consequente revalorização da moeda chinesa, o Yuan. Mas, os chineses resistem a esse ajustamento natural do mercado, mantendo a sua divisa administrativamente baixa porque querem manter a competitividade das suas exportações e a acumulação de créditos sobre o estrangeiro e de activos no estrangeiro. Os chineses querem comprar o capital fixo e financeiro da América, da Europa e do resto do mundo com o produto dos seus excedentes comerciais. Isso quer dizer adquirir títulos de dívida pública, participações no capital de empresas ou simplesmente património imobiliário e recursos naturais. As recentes notícias de que o governo chinês estaria disposto a comprar títulos de dívida grega vai neste sentido. A quantidade de reservas cambiais dos chineses permitem isso e muito mais. Qualquer dia são os chineses que nos emprestam dinheiro tornando o FMI e o fundo europeu de estabilização brincadeiras de circunstância.
Uma forma menos “geo-estratégica” de equilibrar isto tudo será fazer os chineses comprar mais bens e serviços ao resto do mundo e vender-lhe menos pela via cambial (revalorização do Yuan). A chamada via real (maior propensão ao consumo de bens e serviços importados pelos chineses) poderá fazer-nos cair na chamada via geo-estratégica que consiste em agravar ao mesmo tempo a expansão da China (mais concentrada nas importações) e a recessão do resto do mundo (que leva a menores importações provenientes da China).
Falei da China por se tratar do caso mais emblemático mas o Brasil não anda longe desta situação.
Uma forma menos “geo-estratégica” de equilibrar isto tudo será fazer os chineses comprar mais bens e serviços ao resto do mundo e vender-lhe menos pela via cambial (revalorização do Yuan). A chamada via real (maior propensão ao consumo de bens e serviços importados pelos chineses) poderá fazer-nos cair na chamada via geo-estratégica que consiste em agravar ao mesmo tempo a expansão da China (mais concentrada nas importações) e a recessão do resto do mundo (que leva a menores importações provenientes da China).
Falei da China por se tratar do caso mais emblemático mas o Brasil não anda longe desta situação.
terça-feira, outubro 05, 2010
Out of Africa
Um filme a ver ou rever, um daqueles filmes que desapareceram dos ecrãs... infelizmente!
domingo, outubro 03, 2010
The slump goes on: why?
Extraído de um magnífico artigo de Paul Krugman e Robin Wells publicado no passado dia 31 de Agosto em "The New York Review of Books":
"In [Richard] Koo’s analysis, simultaneous attempts by many private players to pay down their debts lead to a “fallacy of composition” that’s closely related to the famous (but too often overlooked) “paradox of thrift.” Each individual corporation or household cuts back on spending in an effort to reduce debt; but these spending cuts reduce everyone’s income and keep the economy persistently depressed.
These broader problems of debt and deleveraging arguably explain why the successful stabilization of the financial industry has done no more than pull the economy back from the brink, without producing a strong recovery. The economy is hamstrung—still crippled by a debt overhang. That is, the simultaneous efforts of so many people to pay down debt at the same time are keeping the economy depressed.
So what’s the answer? In the short run, the only way to avoid a deep slump when almost everyone in the private sector is trying to pay down debt simultaneously is for the government to move in the opposite direction—to become, in effect, the borrower of last resort, issuing debt and continuing to spend as the private sector pulls back. In the heat of a Minsky moment, budget deficits are not only good, they are necessary. Indeed, the surge in budget deficits around the world between 2007 and 2009 was arguably even more important than the financial rescue in keeping the real estate bust from triggering a full replay of the Great Depression.
This surge in budget deficits, by the way, wasn’t mainly the result of deliberate efforts to stimulate the economy. Instead, the main factors were a collapse in tax receipts as economies slumped, and secondarily a rise in automatic payments like unemployment insurance benefits. In the United States, the two-year federal deficit over 2009–2010 will be around $2.5 trillion; the Obama stimulus plan accounts for less than a quarter of the total."
O problema é convencer agora os credores internacionais de que mais défice e mais dívida no curto prazo melhorará a capacidade a médio/longo prazo de reembolsar as dívidas, sem ser através de recurso a mais e mais dívidas. O problema de facto não é o valor da dívida, mas a sua sustentabilidade, ou seja, a possibilidade de a reembolsar ou de a refinanciar em permanência. Sobretudo no último caso, joga mais a credibilidade dos governos e a solidez das perpectivas de crescimento a longo prazo do que qualquer outra coisa.
"In [Richard] Koo’s analysis, simultaneous attempts by many private players to pay down their debts lead to a “fallacy of composition” that’s closely related to the famous (but too often overlooked) “paradox of thrift.” Each individual corporation or household cuts back on spending in an effort to reduce debt; but these spending cuts reduce everyone’s income and keep the economy persistently depressed.
These broader problems of debt and deleveraging arguably explain why the successful stabilization of the financial industry has done no more than pull the economy back from the brink, without producing a strong recovery. The economy is hamstrung—still crippled by a debt overhang. That is, the simultaneous efforts of so many people to pay down debt at the same time are keeping the economy depressed.
So what’s the answer? In the short run, the only way to avoid a deep slump when almost everyone in the private sector is trying to pay down debt simultaneously is for the government to move in the opposite direction—to become, in effect, the borrower of last resort, issuing debt and continuing to spend as the private sector pulls back. In the heat of a Minsky moment, budget deficits are not only good, they are necessary. Indeed, the surge in budget deficits around the world between 2007 and 2009 was arguably even more important than the financial rescue in keeping the real estate bust from triggering a full replay of the Great Depression.
This surge in budget deficits, by the way, wasn’t mainly the result of deliberate efforts to stimulate the economy. Instead, the main factors were a collapse in tax receipts as economies slumped, and secondarily a rise in automatic payments like unemployment insurance benefits. In the United States, the two-year federal deficit over 2009–2010 will be around $2.5 trillion; the Obama stimulus plan accounts for less than a quarter of the total."
O problema é convencer agora os credores internacionais de que mais défice e mais dívida no curto prazo melhorará a capacidade a médio/longo prazo de reembolsar as dívidas, sem ser através de recurso a mais e mais dívidas. O problema de facto não é o valor da dívida, mas a sua sustentabilidade, ou seja, a possibilidade de a reembolsar ou de a refinanciar em permanência. Sobretudo no último caso, joga mais a credibilidade dos governos e a solidez das perpectivas de crescimento a longo prazo do que qualquer outra coisa.
sábado, outubro 02, 2010
El tiempo del desconsuelo

"Los mercados no se autorregulan ya que están regidos por personas y las personas son muchas veces animales irracionales. El idealizado mercado libre es un invento que nunca ha existido y nunca existirá. Suele ser en los mercados financieros, por el papel creciente del sistema crediticio en cualquier economía moderna, en los que se observan los primeros síntomas de los colapsos. (...)
¿Por qué la mayoría de los economistas no lo previó? Ello se debió, sobre todo, al contexto asfixiante en el que trabajaban, en el que, en cuanto se salían de la norma, eran considerados heterodoxos y marginados del corazón de los departamentos universitarios, servicios de estudios, conferencias, seminarios y empresas. Así nació el pensamiento único. Lo desarrolla John Lanchester, en un ensayo titulado muy expresivamente ¡Huy!: la Gran Recesión fue el resultado del clima dominante que siguió a la victoria del mundo capitalista sobre el comunismo tras la caída del muro de Berlín; con el final de la guerra fría disminuyó de manera ostensible el capital político de la idea de igualdad y justicia. Muchos bancos, exentos del miedo de un sistema alternativo, trataron la irresponsabilidad financiera como si fuera una materia prima, un recurso natural; el dinero barato fluía por doquier, casi diariamente recibíamos llamadas telefónicas no solicitadas de entidades de crédito y cartas con solicitudes de crédito precumplimentadas. ¿Se acuerdan? El libre mercado dejó de ser una manera de ordenar el mundo sometida a discusión para convertirse en un artículo de fe, en una creencia casi mística. (...)
Pero conviene recuperar la obra de Hyman Minsky, un economista americano que defendió en el desierto que el capitalismo es intrínsecamente inestable y que la fuente principal de esa inestabilidad son las acciones irresponsables de los banqueros, operadores de Bolsa y otras personas del mundo financiero. Decía Minsky que si el Gobierno dejase de regular con eficacia el sector financiero, el sistema estaría sujeto a derrumbes periódicos, algunos de los cuales podrían arrojar a toda la economía hacia recesiones prolongadas. (..)
Declaraba Keynes en 1933: "El decadente capitalismo internacional, individualista, en cuyas manos nos encontramos después de la guerra no es inteligente, no es bello, no es justo, no es virtuoso y no satisface las necesidades. En resumen, nos desagrada y comenzamos a despreciarlo. Pero cuando buscamos con qué reemplazarlo, nos miramos extremadamente confusos". Setenta y siete años después de esas palabras seguimos con idénticas incógnitas. Alguien dijo que el sistema necesita un infarto para que, si lo supera, afronte los desequilibrios y adopte un estilo de vida más saludable. El infarto ha llegado pero el capitalismo, en vez de protegerse, se ha dado de alta en el hospital y corre a festejarlo con un cartón de Marlboro, una botella de ginebra y un Big Mac con patatas fritas en la mano. El pesimismo de nuestros autores está basado en la sospecha de que no se hayan desprendido las lecciones necesarias ni se tenga la voluntad de corregir los abusos."
¿Por qué la mayoría de los economistas no lo previó? Ello se debió, sobre todo, al contexto asfixiante en el que trabajaban, en el que, en cuanto se salían de la norma, eran considerados heterodoxos y marginados del corazón de los departamentos universitarios, servicios de estudios, conferencias, seminarios y empresas. Así nació el pensamiento único. Lo desarrolla John Lanchester, en un ensayo titulado muy expresivamente ¡Huy!: la Gran Recesión fue el resultado del clima dominante que siguió a la victoria del mundo capitalista sobre el comunismo tras la caída del muro de Berlín; con el final de la guerra fría disminuyó de manera ostensible el capital político de la idea de igualdad y justicia. Muchos bancos, exentos del miedo de un sistema alternativo, trataron la irresponsabilidad financiera como si fuera una materia prima, un recurso natural; el dinero barato fluía por doquier, casi diariamente recibíamos llamadas telefónicas no solicitadas de entidades de crédito y cartas con solicitudes de crédito precumplimentadas. ¿Se acuerdan? El libre mercado dejó de ser una manera de ordenar el mundo sometida a discusión para convertirse en un artículo de fe, en una creencia casi mística. (...)
Pero conviene recuperar la obra de Hyman Minsky, un economista americano que defendió en el desierto que el capitalismo es intrínsecamente inestable y que la fuente principal de esa inestabilidad son las acciones irresponsables de los banqueros, operadores de Bolsa y otras personas del mundo financiero. Decía Minsky que si el Gobierno dejase de regular con eficacia el sector financiero, el sistema estaría sujeto a derrumbes periódicos, algunos de los cuales podrían arrojar a toda la economía hacia recesiones prolongadas. (..)
Declaraba Keynes en 1933: "El decadente capitalismo internacional, individualista, en cuyas manos nos encontramos después de la guerra no es inteligente, no es bello, no es justo, no es virtuoso y no satisface las necesidades. En resumen, nos desagrada y comenzamos a despreciarlo. Pero cuando buscamos con qué reemplazarlo, nos miramos extremadamente confusos". Setenta y siete años después de esas palabras seguimos con idénticas incógnitas. Alguien dijo que el sistema necesita un infarto para que, si lo supera, afronte los desequilibrios y adopte un estilo de vida más saludable. El infarto ha llegado pero el capitalismo, en vez de protegerse, se ha dado de alta en el hospital y corre a festejarlo con un cartón de Marlboro, una botella de ginebra y un Big Mac con patatas fritas en la mano. El pesimismo de nuestros autores está basado en la sospecha de que no se hayan desprendido las lecciones necesarias ni se tenga la voluntad de corregir los abusos."
"Lo más triste es que no te quieren ni para hacer prácticas gratis"
"Me quedan tres asignaturas para acabar y pienso: ¿qué hago con mi vida a partir de diciembre?". La zozobra que ya padece Fátima Lutfi, sevillana de 22 años, es un sentimiento muy extendido entre los jóvenes que están a punto de terminar la universidad. El reto de dejar atrás la vida de estudiante y adentrarse en el mercado laboral siempre ha dado vértigo, pero ahora el paisaje que espera fuera parece un enorme precipicio. Y cuesta más dar el salto. Casi 180.000 estudiantes españoles obtuvieron en 2009 un título universitario. Este año lo harán otros tantos. Los datos apuntan a que cada vez son más los que optan por aprovechar la crisis para seguir formándose. La demanda de másteres el curso pasado fue un 65% superior a la de 2008, y este año, aunque las cifras no están cerradas, ha seguido creciendo. Solo en las universidades andaluzas ha habido un 70% más de solicitudes que en 2009. Lo mismo ocurre con la mayoría de cursos de formación que ofrecen las universidades. "Hace cuatro años teníamos que cancelar el 20% de nuestros cursos porque no había demanda. Ahora se llenan todos", cuenta Manuel Alejandro Cardenete, profesor titular de Economía Aplicada y vicepresidente de Fundaciones de la Universidad Pablo de Olavide de Sevilla. "Para los recién licenciados hay trabajo, pero no de mucha calidad", admite Cardenete. Con todo, se muestra optimista: "Noto un ligero incremento en la demanda de empresas para firmar convenios de prácticas".
quinta-feira, setembro 30, 2010
Ilusões
Faz-nos falta a inflação e a desvalorização cambial. O Euro tirou-nos esses instrumentos de ajustamento pelo lado dos preços. Salários nominais a crescer a 5% com inflação a 10% dava redução de poder de compra de 5%... Desvalorização da moeda nacional (saudoso escudo!) levava a preços mais altos das importações (ainda mais inflação...) e a preços mais baixos das exportações, ou seja, ainda menos despesa interna e mais produção para vender ao estrangeiro, com o que se poderia pagar a dívida externa. E as taxas de juro podiam ser ao mesmo tempo altas (em termos nominais) e baixas (em termos reais, isto é, descontada a inflação).
Nessa altura, tramava-se a malta pela calada. Chama-se a isso "ilusão monetária". A malta julgava que ganhava mais, mas ganhava menos (descontada a inflação). Como nada disto existe agora, dada a maldição do Euro, o pessoal tem de sofrer a sério e com transparência. Tem de se passar a gastar menos do que se produz para pagar as dívidas acumuladas. O que chateia é a distribuição injusta desse "sacrifício". Os ricos arranjam sempre maneira de fugir. Os pobres e remediados são quem apanha mais, até pela lei dos grandes números.
Pior do que a "ilusão monetária" é a "ilusão da abundância", ou seja, pensar que há coisas na economia que podem ser gratuitas. Tudo se paga, mesmo os serviços públicos ditos gratuitos têm de ser pagos pelos contribuintes, mais tarde (no caso de ser financiados pela dívida que tem de ser reembolsada pelos impostos futuros) ou mais cedo (pela subida imediata dos impostos). E se isso acontecer em conformidade com qualquer padrão "justo" de justiça social, tanto melhor...
A perversidade de tudo isto é que o que nos impede agora de nos ajustarmos com a "ilusão monetária" foi o que nos levou ã "ilusão da abundância": o Euro. Quer dizer, o Euro e a correspondente baixa das taxas de juro reais levaram o Estado, as empresas e as famílias a endividarem-se para gastar em activos que não geraram as receitas que permitiriam o reembolso das dívidas. Portanto, agora, a poupança necessária para pagar as dívidas significa perder condições de vida. Mas, sempre os mesmos. Numerosos.
Nessa altura, tramava-se a malta pela calada. Chama-se a isso "ilusão monetária". A malta julgava que ganhava mais, mas ganhava menos (descontada a inflação). Como nada disto existe agora, dada a maldição do Euro, o pessoal tem de sofrer a sério e com transparência. Tem de se passar a gastar menos do que se produz para pagar as dívidas acumuladas. O que chateia é a distribuição injusta desse "sacrifício". Os ricos arranjam sempre maneira de fugir. Os pobres e remediados são quem apanha mais, até pela lei dos grandes números.
Pior do que a "ilusão monetária" é a "ilusão da abundância", ou seja, pensar que há coisas na economia que podem ser gratuitas. Tudo se paga, mesmo os serviços públicos ditos gratuitos têm de ser pagos pelos contribuintes, mais tarde (no caso de ser financiados pela dívida que tem de ser reembolsada pelos impostos futuros) ou mais cedo (pela subida imediata dos impostos). E se isso acontecer em conformidade com qualquer padrão "justo" de justiça social, tanto melhor...
A perversidade de tudo isto é que o que nos impede agora de nos ajustarmos com a "ilusão monetária" foi o que nos levou ã "ilusão da abundância": o Euro. Quer dizer, o Euro e a correspondente baixa das taxas de juro reais levaram o Estado, as empresas e as famílias a endividarem-se para gastar em activos que não geraram as receitas que permitiriam o reembolso das dívidas. Portanto, agora, a poupança necessária para pagar as dívidas significa perder condições de vida. Mas, sempre os mesmos. Numerosos.
terça-feira, setembro 28, 2010
domingo, setembro 26, 2010
sábado, setembro 25, 2010
"Sin la ayuda de mis padres, no llego a fin de mes"
Reportagem eloquente sobre uma realidade que transcende a Espanha e que ilustra a armadilha em que se encontram jovens (e menos jovens) não necessariamente de estirpes modestas. Um fenómeno que não é novo, mas que se agrava especialmente nas actuais circunstâncias, com a taxa de desemprego a rondar os 20% em Espanha e os 10% em Portugal.
sexta-feira, setembro 24, 2010

«When we say things like “people don’t change” it drives scientists crazy, because change is literally the only constant in all of science. Energy, matter, it’s always changing, morphing, merging, growing, dying… It’s the way people try not to change that’s unnatural: the way we cling to what things were instead of letting them be what they are; the way we cling to old memories instead of forming new ones; the way we insist on believing, despite every scientific indication, that anything on this lifetime is permanent. Change is constant. How we experience change, that’s up to us. It can feel like death or it can feel like a second chance in life. If we open our fingers, loosen our grips go with it, it can feel like pure adrenaline. Like at any moment we can have another chance in life. Like at any moment we can be born all over again.»
in Grey's Anatomy
quinta-feira, setembro 23, 2010
O purgatório
Eu até gostava de ser divertido e optimista e de rir e de ser positivo e olhar para o lado bom das coisas e de curtir e contar anedotas e sair com a malta para beber um copo e mandar a tristeza à merda e de não complicar porque a vida é curta e carpe diem e por aí fora. E gostava de tudo isso sem ser pateta ou leviano ou imbecil, mantendo a lucidez, sem me deixar ir na onda. Tudo isso era óptimo, mas depois há a realidade, a puta da realidade que nos faz positivos e negativos, tristes e alegres, optimistas e pessimistas, zen e menos zen, sacaninhas e bonzinhos, distraídos e concentrados, generosos e forretas. Abençoada a vida que nos põe sempre algures entre o céu e o inferno.
sábado, setembro 18, 2010
O Papa e o anti-cristo
Bento continua na sua esquizofrenia entre ser Papa e ser filósofo. Ele gostava de ser só filósofo mas fizeram-no Papa. Por isso, tem de se desviar dos livros, da meditação, da escrita para se misturar com o povo, para arremedar uma simpatia que não faz parte da sua natureza. Bento é uma criatura torturada que deambula entre o sorriso que lhe pedem os fiéis e o seu desejo de recolhimento e de ficar mais conhecido pelas tiradas do espiríto. Bento pretende conciliar o poder da razão e do método com a fé. Bento quer racionalizar a fé, o que me parece uma contradição nos próprios termos. A sua mais recente tirada revela uma surpreendente proximidade com o seu inimigo de estimação, Nietzsche. Bento disse em Inglaterra que a democracia não se pode basear apenas no consenso social, mas deve também subordinar-se a uma ordem moral, ou seja, à religião. Assim, seria legítimo resistir a consensos "imorais" sobre temas como a homosexualidade ou a eutanásia. Ou seja: para lá da vontade maioritária do povo é necessária uma autoridade (moral) que ultrapasse essa vontade e que dê fundamentos mais sólidos à sociedade. No fundo, seria necessária uma aristocracia inspirada por deus para manter os alicerces cristãos, pelo menos, do Ocidente. Nietzsche, um dos maiores anti-cristo dos tempos modernos, abominava o poder do povo, que achava medíocre, e apelava ao bom gosto e à superioridade evidente da aristocracia. A democracia puxaria a sociedade para uma média esmagadora que repelia as qualidades das pessoas de bem, os aristocratas, que bania a excepção superior, a qual valia e justificava todos os sofrimentos inferiores.
Sinais preocupantes
Há duas coisas especialmente preocupantes nos últimos desenvolvimentos da crise que nos devora.
Em primeiro lugar, junto dos nossos credores internacionais, instala-se a percepção de que haverá um problema especificamente português, enquanto até há algum tempo pairava a ideia de que sofriamos, essencialmente, do contágio dos problemas alheios, sobretudo gregos e irlandeses. A descolagem do prémio de risco da nossa dívida em relação ao prémio de risco da dívida espanhola é disso testemunho. Os espanhóis emitem empréstimos a taxas com uma margem de risco que passou a ser menos de metade da margem de risco portuguesa. Nós estamos a pagar cerca de 3.8% mais do que os alemães, enquanto os espanhóis pagam pouco mais de 1.5% acima dos alemães. Há algumas semanas a diferença era muito menor. Também é verdade que é mais fácil "atacar" uma economia como a portuguesa do que um gigante como a Espanha. A queda da Espanha teria efeitos demolidores e a sua cura custos insuportáveis. Falei em "ataque" porque disso se trata. Não é por acaso que as más notícias são propagadas nas vésperas das emissões anunciadas pelos Estados, fazendo subir as margens, para gáudio dos investidores e dos bancos que colocam esses títulos. Não acredito em bruxas mas que as há, há! A possibilidade da queda de um país fraco e isolado encoraja os especuladores a torná-la realidade... E eles sabem como fazer precipitar as coisas e, melhor ainda, como ganhar rios de dinheiro com isso. Não estou a dizer que seremos umas pobres vítimas inocentes da cupidez dos credores externos. Estou a dizer que as fraquezas da nossa economia e a falta de resposta eficaz aos problemas de solvabilidade externa são amplificados e acelerados por um sistema que segue uma racionalidade puramente financeira e que não é regulado ao nível adequado.
O segundo sinal preocupante decorre do facto de os bancos estarem neste momento a socorrer o Estado, emprestando-lhe cada vez mais numa conjuntura de pouca liquidez e de insuficiente poupança das empresas e das famílias. Esse dinheiro vem (excessivamente) de empréstimos a curto prazo do Banco Central Europeu que, de qualquer modo, custam menos do que outra dívida externa contraída directamente pelo Estado ou pelos bancos. No princípio da crise, depois do Verão de 2008, o Estado foi chamado a tapar os buracos dos bancos, concedendo garantias e, nalguns casos (tristemente célebres) injectando dinheiro. Agora o Estado, ironicamente, depende da ajuda dos bancos, ajuda essa que implica menos crédito a outros sectores da economia. Estamos a atingir a situação em que a cama é demasiado grande para o cobertor: para tapar de um lado, destapa-se do outro. Ou seja, é preciso encurtar a cama, o que quer dizer: mais austeridade. E já! Porque a paciência dos credores externos está perigosamente a acabar.
Em primeiro lugar, junto dos nossos credores internacionais, instala-se a percepção de que haverá um problema especificamente português, enquanto até há algum tempo pairava a ideia de que sofriamos, essencialmente, do contágio dos problemas alheios, sobretudo gregos e irlandeses. A descolagem do prémio de risco da nossa dívida em relação ao prémio de risco da dívida espanhola é disso testemunho. Os espanhóis emitem empréstimos a taxas com uma margem de risco que passou a ser menos de metade da margem de risco portuguesa. Nós estamos a pagar cerca de 3.8% mais do que os alemães, enquanto os espanhóis pagam pouco mais de 1.5% acima dos alemães. Há algumas semanas a diferença era muito menor. Também é verdade que é mais fácil "atacar" uma economia como a portuguesa do que um gigante como a Espanha. A queda da Espanha teria efeitos demolidores e a sua cura custos insuportáveis. Falei em "ataque" porque disso se trata. Não é por acaso que as más notícias são propagadas nas vésperas das emissões anunciadas pelos Estados, fazendo subir as margens, para gáudio dos investidores e dos bancos que colocam esses títulos. Não acredito em bruxas mas que as há, há! A possibilidade da queda de um país fraco e isolado encoraja os especuladores a torná-la realidade... E eles sabem como fazer precipitar as coisas e, melhor ainda, como ganhar rios de dinheiro com isso. Não estou a dizer que seremos umas pobres vítimas inocentes da cupidez dos credores externos. Estou a dizer que as fraquezas da nossa economia e a falta de resposta eficaz aos problemas de solvabilidade externa são amplificados e acelerados por um sistema que segue uma racionalidade puramente financeira e que não é regulado ao nível adequado.
O segundo sinal preocupante decorre do facto de os bancos estarem neste momento a socorrer o Estado, emprestando-lhe cada vez mais numa conjuntura de pouca liquidez e de insuficiente poupança das empresas e das famílias. Esse dinheiro vem (excessivamente) de empréstimos a curto prazo do Banco Central Europeu que, de qualquer modo, custam menos do que outra dívida externa contraída directamente pelo Estado ou pelos bancos. No princípio da crise, depois do Verão de 2008, o Estado foi chamado a tapar os buracos dos bancos, concedendo garantias e, nalguns casos (tristemente célebres) injectando dinheiro. Agora o Estado, ironicamente, depende da ajuda dos bancos, ajuda essa que implica menos crédito a outros sectores da economia. Estamos a atingir a situação em que a cama é demasiado grande para o cobertor: para tapar de um lado, destapa-se do outro. Ou seja, é preciso encurtar a cama, o que quer dizer: mais austeridade. E já! Porque a paciência dos credores externos está perigosamente a acabar.
quarta-feira, setembro 15, 2010
Anedota
Mensagem da Ministra da Educação a.k.a. "oh pa mim tão boazinha e a dizer tanta coisa politicamente correcta e repetitiva para os meninos gostarem de mim e para dar uma boa imagem do governo, embora na realidade pareça uma mentecapta a falar para deficientes mentais!"
terça-feira, setembro 14, 2010
"A espuma dos dias"
Há dias em que se sai de casa cabisbaixo, a pensar que não haverá energia para aguentar os caprichos do chefe, a insolência do subordinado, o enguiço do carro, a dor de cabeça, a digestão que nâo se despacha, a fila dos problemas normais e das surpresas desagradáveis. As rugas do quotidiano. E depois de mergulhar nesse cataclismo de banalidades - surpreendentemente - a paciência instala-se, a perseverança regressa e as coisas correm como é preciso para evitar ataques de nervos. Recupera-se a calma e a coragem para continuar, o sorriso com que se vende a simpatia que convém. E somos eficazes, acalmando a vontade de mudar de forma radical. Porque somos bem educados. Então, olhamos pela janela inventando um mundo que nos torna especiais, inacessível aos outros. Só nosso.
quinta-feira, setembro 02, 2010
Hoje no autocarro
Hoje no autocarro, regressando a casa, pus-me a olhar para as àrvores, para as pessoas, para as ruas como se fosse a última vez. Fiz um esforço para olhar e sentir o mundo à minha volta como se fosse a última vez. Dirão que se trata de um exercício estúpido por parte de quem goza de boa saúde, de quem não tem muitas razões de queixa da vida. Claro que a vida tem sempre arestas e sobressaltos, frustrações, surpresas desagradáveis, desilusões. Mas, isso faz parte da sua própria essência. E esses “incidentes” são compensados por tantas coisas boas que a vida também tem. A objectidade dos factos da vida é uma treta. No final de contas, muitos dos problemas têm a importância que lhes damos, inspirados pelas emoções que, tautologicamente, de objectivo nada têm. Longe de mim menosprezar os verdadeiros problemas, aqueles que tresandam de concretos, que são irreversíveis e inquestionáveis.
Portanto, pus-me (tetricamente) a olhar para o mundo como se lhe estivese a fugir. Tentei encher a alma de melancolia, disfarcei dor, desejei a eternidade, fingindo a iminência do fim. Devo confessar que comecei por duvidar do sucesso desta tentativa. Achei que toda a encenação acabaria ao fim de alguns segundos, no meio de arrependimento por falta de respeito às pessoas que verdadeiramente se avizinham do fim. Porém, para minha surpesa, acho que consegui sentir o medo do fim e, avidamente, quis fixar o menor detalhe do que passava pelos meus olhos, como se fosse realmente a última vez. As pessoas e as coisas passaram a ter outro significado, outra nobreza, cada uma especial e única, perene, como nunca as tinha visto. O medo foi tanto e pareceu tão real que pus fim â brincadeira imediatamente. Espantei o pensamento e mergulhei no livro de polícias e ladrões que tinha trazido para me entreter durante a viagem.
Vá-se lá brincar com o fogo...
Mas, olhar para o que nos rodeia como se fosse a última vez faz do mundo uma coisa tâo especial e bonita, que se deve guardar como um tesouro, que de banal nada tem, que não se deve desperdiçar no meio de pressas mais ou menos inúteis ou redundantes. Abaixo os olhares displicentes, as caras fechadas, o desprezo pelo verde dos campos, a ignorância do mar e do sorriso, a indiferença aos pingos de chuva e ao brilho do sol a desaparecer lentamente no horizonte.
Portanto, pus-me (tetricamente) a olhar para o mundo como se lhe estivese a fugir. Tentei encher a alma de melancolia, disfarcei dor, desejei a eternidade, fingindo a iminência do fim. Devo confessar que comecei por duvidar do sucesso desta tentativa. Achei que toda a encenação acabaria ao fim de alguns segundos, no meio de arrependimento por falta de respeito às pessoas que verdadeiramente se avizinham do fim. Porém, para minha surpesa, acho que consegui sentir o medo do fim e, avidamente, quis fixar o menor detalhe do que passava pelos meus olhos, como se fosse realmente a última vez. As pessoas e as coisas passaram a ter outro significado, outra nobreza, cada uma especial e única, perene, como nunca as tinha visto. O medo foi tanto e pareceu tão real que pus fim â brincadeira imediatamente. Espantei o pensamento e mergulhei no livro de polícias e ladrões que tinha trazido para me entreter durante a viagem.
Vá-se lá brincar com o fogo...
Mas, olhar para o que nos rodeia como se fosse a última vez faz do mundo uma coisa tâo especial e bonita, que se deve guardar como um tesouro, que de banal nada tem, que não se deve desperdiçar no meio de pressas mais ou menos inúteis ou redundantes. Abaixo os olhares displicentes, as caras fechadas, o desprezo pelo verde dos campos, a ignorância do mar e do sorriso, a indiferença aos pingos de chuva e ao brilho do sol a desaparecer lentamente no horizonte.
terça-feira, agosto 31, 2010
A vaidade é o principal ponto fraco dos fortes.
O ciúme é um dos sentimentos mais poderosos das mulheres.
O desejo é a mais bonita fonte de cegueira.
A solidão é o preço da liberdade.
As motivações que contam são as que vêm de dentro de nós; as motivações que vêm de fora alienam, são espúrias.
As rugas são o ruído do tempo.
Gostar de nós e gostar dos outros na proporção justa não é matemática - é caracter.
O verdadeiro poder é o que sobrevive aos interesses.
Oxalá o depois da vida não fosse pó.
O ciúme é um dos sentimentos mais poderosos das mulheres.
O desejo é a mais bonita fonte de cegueira.
A solidão é o preço da liberdade.
As motivações que contam são as que vêm de dentro de nós; as motivações que vêm de fora alienam, são espúrias.
As rugas são o ruído do tempo.
Gostar de nós e gostar dos outros na proporção justa não é matemática - é caracter.
O verdadeiro poder é o que sobrevive aos interesses.
Oxalá o depois da vida não fosse pó.
segunda-feira, agosto 30, 2010
Senhora do Ó
A emancipação das mulheres quer dizer também participação activa no mercado de trabalho, ambições profissionais, carreira. Os obstáculos são mais do que muitos, levantados sobretudo por homens, num mundo tradicionalmente dominado por homens. [Deixo de lado debates fecundíssimos sobre coisas como a descriminação positiva.] A verdade é que as mulheres têm de ser muitas coisas ao mesmo tempo, são objecto das mais caleidoscópicas exigências e expectativas. Apesar do seu talento, supostamente inato, para a diversidade (ao contrário dos homens que seriam excelentes numa só coisa de cada vez...), as mulheres caem muitas vezes no provérbio: "quem muitos burros quer tocar, algum fica para trás". Durante muitos anos, as mulheres, mais cultas e urbanas, apostaram na profissão e isso contribuiu de alguma forma para fenómenos como o crescimento do divórcio e a redução da natalidade. [Estou a simplificar, a omitir vários passos, mas siga o discurso.] Pois bem, acho que agora se está a assistir a uma reversão de tendência, e ainda bem. Isto é, as mulheres (como muitos homens) estão a fartar-se dos mitos do sucesso, da competição desbragada, da miopia de certos objectivos, do preço a pagar pelo sucesso-versão homologada pelo neo-liberalismo. Reagem sem passar pelos sindicatos, sem fazer revoluções barulhentas. Reagem através da maternidade, recuperando os valores da família e da procriação. Mandam o sistema àquele sítio, aproveitando ainda por cima os mecanismos politicamente correctos de descriminação positiva e de incentivo à natalidade. Bem hajam! O que chateia são os grunhidos discretos dos chefes que se queixam, porque assim é difícil planear e porque as famílias, as crianças e ser mulher têm um custo... para o sistema e para as próprias mulheres! Tudo isto me ocorreu por causa da quantidade de barrigas protuberantes que crescem por aí. E ainda bem... desde que sejam felizes!
segunda-feira, agosto 23, 2010
sexta-feira, agosto 13, 2010
Filhos da puta...

Este agosto são rosários de incêndios, contados até à última gota de paciência ou de curiosidade mórbida. Mais um bombeiro morto e o povo agarra-se ao ecrã, extasiado com as lágrimas vertidas por familiares, camaradas, amigos, desconhecidos e basbaques. As sirenes espalham ainda mais calor, chamas, angustia e adrenalina. Os jornalistas têm os orgasmos possíveis em período de evidente falta de notícias.
É todos os anos a mesma coisa… apesar dos planos da protecção civil e dos canadair e de criaturas com ar de Rambo das Terras do Bouro e linguagem pirotécnica. E há ministros e comandantes e primeiros-ministros e presidentes que não valem nada perante altas temperaturas, secura e alguns malucos e malfeitores. E há populares desgraçados que não dormem a olhar para as labaredas que sobem e descem os montes, tocadas por ventos caprichosos e que se aproximam de casas e outras propriedades em que se cristalizam vidas de heroísmos anónimos que parecem pequenos em relação ao heroísmo de alguns dias dos “soldados da paz” (!) que combatem, sabe deus que demónio, alagados em suor, perigo, cansaço e excitação.
Depois virão o frio, as chuvas e a calma de outros “incêndios” mais timoratos e cinzentos. E ficamos à espera de mais um Verão com os mesmos ecrãs a transbordar de actos de bravura e de resignação. E passamos de automóvel à beira das matas defuntas, sentindo uma raiva banal e impotente, deitando pela boca fora “filhos da puta” sem saber ao certo quem estamos a insultar. Talvez o destino ou a santa providência ou sacanas sem rosto.
terça-feira, agosto 10, 2010
quarta-feira, agosto 04, 2010
A morte saiu à rua
Com o devido respeito, estou farto dos cancros das pessoas famosas, apresentados nos meios de comunicação social até à exaustão, com condolências dos mais variados quadrantes e obviamente justificadíssimas e choradíssimas. Os cancros são pretextos para enaltecer as qualidades humanas e profissionais de pessoas que fazem parte da nossa memória colectiva.Morrer de cancro é triste, tristíssimo, doloroso para os próprios e para os chegados. Morrer de cancro é lento, demasiado lento, é como uma lâmpada que se vai fundindo até se apagar num dia cinzento, por mais sol que esteja no céu. Deve ser horrivel olhar para o relógio sabendo que vai parar inevitavelmente um dia destes. O relógio pára sempre, mas quando se tem cancro olha-se vezes de mais para o mostrador, implorando mais uns minutos, lutando por um milagre ainda mais improvável do que todos os outros. Desculpando a agonia, acariciando a dor para doer um pouco menos.
Deixem-me em paz com as lágrimas dos outros. Privatizem o sofrimento. Há quem brinque com a morte para a espantar. E não me parece mal. Mas, não escarafunchem na tristeza dos outros, não favoreçam a contaminação da melancolia quando está tanto calor e a luz quase cega e o mar é marmelada azul. Deixem a morte chegar e partir silenciosa e traiçoeira e incompreensível. Não há nada de heróico ou de vitorioso na morte. É o mais rotundo fracasso. Merece recato, austeridade e impotência.
Termino com genuinas banalidades: a morte é uma grande merda, tenho medo dela p'ra caraças, da minha e da das pessoas que amo e que estimo, da de toda a gente, da de amigos e inimigos. Noutros termos, rendo-me: cheguei à fase da vida em que pateticamente se tem medo da morte.
Post-scriptum: o grande problema da morte é que se morre para sempre.
terça-feira, agosto 03, 2010
Malditas férias...
"(...) A aceleração dilui a percepção do tempo, condenando-nos a viver num presente perpétuo em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. A torrencial multiplicação dos pontos de vista tem como único efeito seguro o de privar o homem contemporâneo de qualquer perspectiva consistente sobre o que quer que seja. O curto-termismo que decorre automaticamente desta aceleração e se impõe em todas as vertentes da vida contemporânea, é o que melhor define a mutação radical que ocorreu na nossa relação com o tempo. É ele que nos priva de qualquer horizonte onde se possam instalar verdadeiros projectos de vida, individuais ou colectivos. (...) É por isso que, mesmo em férias, se torna tão difícil desacelerar... Habituados que estamos, por um lado, a viver como se a velocidade por si só desse sentido à vida e, por outro lado, a associar a aceleração com a intensidade, é cada vez mais comum reagirmos com ansiedade a qualquer vislumbre de lentidão e identificarmos a mais pequena desaceleração com uma assustadora ameaça de tédio. (...)"
Manuel Maria Carrilho, Diário de Noticias, 29 de Julho de 2010
Manuel Maria Carrilho, Diário de Noticias, 29 de Julho de 2010
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