(clicar sobre o extrato para aumentar o tamanho)domingo, setembro 26, 2010
sábado, setembro 25, 2010
"Sin la ayuda de mis padres, no llego a fin de mes"
Reportagem eloquente sobre uma realidade que transcende a Espanha e que ilustra a armadilha em que se encontram jovens (e menos jovens) não necessariamente de estirpes modestas. Um fenómeno que não é novo, mas que se agrava especialmente nas actuais circunstâncias, com a taxa de desemprego a rondar os 20% em Espanha e os 10% em Portugal.
sexta-feira, setembro 24, 2010

«When we say things like “people don’t change” it drives scientists crazy, because change is literally the only constant in all of science. Energy, matter, it’s always changing, morphing, merging, growing, dying… It’s the way people try not to change that’s unnatural: the way we cling to what things were instead of letting them be what they are; the way we cling to old memories instead of forming new ones; the way we insist on believing, despite every scientific indication, that anything on this lifetime is permanent. Change is constant. How we experience change, that’s up to us. It can feel like death or it can feel like a second chance in life. If we open our fingers, loosen our grips go with it, it can feel like pure adrenaline. Like at any moment we can have another chance in life. Like at any moment we can be born all over again.»
in Grey's Anatomy
quinta-feira, setembro 23, 2010
O purgatório
Eu até gostava de ser divertido e optimista e de rir e de ser positivo e olhar para o lado bom das coisas e de curtir e contar anedotas e sair com a malta para beber um copo e mandar a tristeza à merda e de não complicar porque a vida é curta e carpe diem e por aí fora. E gostava de tudo isso sem ser pateta ou leviano ou imbecil, mantendo a lucidez, sem me deixar ir na onda. Tudo isso era óptimo, mas depois há a realidade, a puta da realidade que nos faz positivos e negativos, tristes e alegres, optimistas e pessimistas, zen e menos zen, sacaninhas e bonzinhos, distraídos e concentrados, generosos e forretas. Abençoada a vida que nos põe sempre algures entre o céu e o inferno.
sábado, setembro 18, 2010
O Papa e o anti-cristo
Bento continua na sua esquizofrenia entre ser Papa e ser filósofo. Ele gostava de ser só filósofo mas fizeram-no Papa. Por isso, tem de se desviar dos livros, da meditação, da escrita para se misturar com o povo, para arremedar uma simpatia que não faz parte da sua natureza. Bento é uma criatura torturada que deambula entre o sorriso que lhe pedem os fiéis e o seu desejo de recolhimento e de ficar mais conhecido pelas tiradas do espiríto. Bento pretende conciliar o poder da razão e do método com a fé. Bento quer racionalizar a fé, o que me parece uma contradição nos próprios termos. A sua mais recente tirada revela uma surpreendente proximidade com o seu inimigo de estimação, Nietzsche. Bento disse em Inglaterra que a democracia não se pode basear apenas no consenso social, mas deve também subordinar-se a uma ordem moral, ou seja, à religião. Assim, seria legítimo resistir a consensos "imorais" sobre temas como a homosexualidade ou a eutanásia. Ou seja: para lá da vontade maioritária do povo é necessária uma autoridade (moral) que ultrapasse essa vontade e que dê fundamentos mais sólidos à sociedade. No fundo, seria necessária uma aristocracia inspirada por deus para manter os alicerces cristãos, pelo menos, do Ocidente. Nietzsche, um dos maiores anti-cristo dos tempos modernos, abominava o poder do povo, que achava medíocre, e apelava ao bom gosto e à superioridade evidente da aristocracia. A democracia puxaria a sociedade para uma média esmagadora que repelia as qualidades das pessoas de bem, os aristocratas, que bania a excepção superior, a qual valia e justificava todos os sofrimentos inferiores.
Sinais preocupantes
Há duas coisas especialmente preocupantes nos últimos desenvolvimentos da crise que nos devora.
Em primeiro lugar, junto dos nossos credores internacionais, instala-se a percepção de que haverá um problema especificamente português, enquanto até há algum tempo pairava a ideia de que sofriamos, essencialmente, do contágio dos problemas alheios, sobretudo gregos e irlandeses. A descolagem do prémio de risco da nossa dívida em relação ao prémio de risco da dívida espanhola é disso testemunho. Os espanhóis emitem empréstimos a taxas com uma margem de risco que passou a ser menos de metade da margem de risco portuguesa. Nós estamos a pagar cerca de 3.8% mais do que os alemães, enquanto os espanhóis pagam pouco mais de 1.5% acima dos alemães. Há algumas semanas a diferença era muito menor. Também é verdade que é mais fácil "atacar" uma economia como a portuguesa do que um gigante como a Espanha. A queda da Espanha teria efeitos demolidores e a sua cura custos insuportáveis. Falei em "ataque" porque disso se trata. Não é por acaso que as más notícias são propagadas nas vésperas das emissões anunciadas pelos Estados, fazendo subir as margens, para gáudio dos investidores e dos bancos que colocam esses títulos. Não acredito em bruxas mas que as há, há! A possibilidade da queda de um país fraco e isolado encoraja os especuladores a torná-la realidade... E eles sabem como fazer precipitar as coisas e, melhor ainda, como ganhar rios de dinheiro com isso. Não estou a dizer que seremos umas pobres vítimas inocentes da cupidez dos credores externos. Estou a dizer que as fraquezas da nossa economia e a falta de resposta eficaz aos problemas de solvabilidade externa são amplificados e acelerados por um sistema que segue uma racionalidade puramente financeira e que não é regulado ao nível adequado.
O segundo sinal preocupante decorre do facto de os bancos estarem neste momento a socorrer o Estado, emprestando-lhe cada vez mais numa conjuntura de pouca liquidez e de insuficiente poupança das empresas e das famílias. Esse dinheiro vem (excessivamente) de empréstimos a curto prazo do Banco Central Europeu que, de qualquer modo, custam menos do que outra dívida externa contraída directamente pelo Estado ou pelos bancos. No princípio da crise, depois do Verão de 2008, o Estado foi chamado a tapar os buracos dos bancos, concedendo garantias e, nalguns casos (tristemente célebres) injectando dinheiro. Agora o Estado, ironicamente, depende da ajuda dos bancos, ajuda essa que implica menos crédito a outros sectores da economia. Estamos a atingir a situação em que a cama é demasiado grande para o cobertor: para tapar de um lado, destapa-se do outro. Ou seja, é preciso encurtar a cama, o que quer dizer: mais austeridade. E já! Porque a paciência dos credores externos está perigosamente a acabar.
Em primeiro lugar, junto dos nossos credores internacionais, instala-se a percepção de que haverá um problema especificamente português, enquanto até há algum tempo pairava a ideia de que sofriamos, essencialmente, do contágio dos problemas alheios, sobretudo gregos e irlandeses. A descolagem do prémio de risco da nossa dívida em relação ao prémio de risco da dívida espanhola é disso testemunho. Os espanhóis emitem empréstimos a taxas com uma margem de risco que passou a ser menos de metade da margem de risco portuguesa. Nós estamos a pagar cerca de 3.8% mais do que os alemães, enquanto os espanhóis pagam pouco mais de 1.5% acima dos alemães. Há algumas semanas a diferença era muito menor. Também é verdade que é mais fácil "atacar" uma economia como a portuguesa do que um gigante como a Espanha. A queda da Espanha teria efeitos demolidores e a sua cura custos insuportáveis. Falei em "ataque" porque disso se trata. Não é por acaso que as más notícias são propagadas nas vésperas das emissões anunciadas pelos Estados, fazendo subir as margens, para gáudio dos investidores e dos bancos que colocam esses títulos. Não acredito em bruxas mas que as há, há! A possibilidade da queda de um país fraco e isolado encoraja os especuladores a torná-la realidade... E eles sabem como fazer precipitar as coisas e, melhor ainda, como ganhar rios de dinheiro com isso. Não estou a dizer que seremos umas pobres vítimas inocentes da cupidez dos credores externos. Estou a dizer que as fraquezas da nossa economia e a falta de resposta eficaz aos problemas de solvabilidade externa são amplificados e acelerados por um sistema que segue uma racionalidade puramente financeira e que não é regulado ao nível adequado.
O segundo sinal preocupante decorre do facto de os bancos estarem neste momento a socorrer o Estado, emprestando-lhe cada vez mais numa conjuntura de pouca liquidez e de insuficiente poupança das empresas e das famílias. Esse dinheiro vem (excessivamente) de empréstimos a curto prazo do Banco Central Europeu que, de qualquer modo, custam menos do que outra dívida externa contraída directamente pelo Estado ou pelos bancos. No princípio da crise, depois do Verão de 2008, o Estado foi chamado a tapar os buracos dos bancos, concedendo garantias e, nalguns casos (tristemente célebres) injectando dinheiro. Agora o Estado, ironicamente, depende da ajuda dos bancos, ajuda essa que implica menos crédito a outros sectores da economia. Estamos a atingir a situação em que a cama é demasiado grande para o cobertor: para tapar de um lado, destapa-se do outro. Ou seja, é preciso encurtar a cama, o que quer dizer: mais austeridade. E já! Porque a paciência dos credores externos está perigosamente a acabar.
quarta-feira, setembro 15, 2010
Anedota
Mensagem da Ministra da Educação a.k.a. "oh pa mim tão boazinha e a dizer tanta coisa politicamente correcta e repetitiva para os meninos gostarem de mim e para dar uma boa imagem do governo, embora na realidade pareça uma mentecapta a falar para deficientes mentais!"
terça-feira, setembro 14, 2010
"A espuma dos dias"
Há dias em que se sai de casa cabisbaixo, a pensar que não haverá energia para aguentar os caprichos do chefe, a insolência do subordinado, o enguiço do carro, a dor de cabeça, a digestão que nâo se despacha, a fila dos problemas normais e das surpresas desagradáveis. As rugas do quotidiano. E depois de mergulhar nesse cataclismo de banalidades - surpreendentemente - a paciência instala-se, a perseverança regressa e as coisas correm como é preciso para evitar ataques de nervos. Recupera-se a calma e a coragem para continuar, o sorriso com que se vende a simpatia que convém. E somos eficazes, acalmando a vontade de mudar de forma radical. Porque somos bem educados. Então, olhamos pela janela inventando um mundo que nos torna especiais, inacessível aos outros. Só nosso.
quinta-feira, setembro 02, 2010
Hoje no autocarro
Hoje no autocarro, regressando a casa, pus-me a olhar para as àrvores, para as pessoas, para as ruas como se fosse a última vez. Fiz um esforço para olhar e sentir o mundo à minha volta como se fosse a última vez. Dirão que se trata de um exercício estúpido por parte de quem goza de boa saúde, de quem não tem muitas razões de queixa da vida. Claro que a vida tem sempre arestas e sobressaltos, frustrações, surpresas desagradáveis, desilusões. Mas, isso faz parte da sua própria essência. E esses “incidentes” são compensados por tantas coisas boas que a vida também tem. A objectidade dos factos da vida é uma treta. No final de contas, muitos dos problemas têm a importância que lhes damos, inspirados pelas emoções que, tautologicamente, de objectivo nada têm. Longe de mim menosprezar os verdadeiros problemas, aqueles que tresandam de concretos, que são irreversíveis e inquestionáveis.
Portanto, pus-me (tetricamente) a olhar para o mundo como se lhe estivese a fugir. Tentei encher a alma de melancolia, disfarcei dor, desejei a eternidade, fingindo a iminência do fim. Devo confessar que comecei por duvidar do sucesso desta tentativa. Achei que toda a encenação acabaria ao fim de alguns segundos, no meio de arrependimento por falta de respeito às pessoas que verdadeiramente se avizinham do fim. Porém, para minha surpesa, acho que consegui sentir o medo do fim e, avidamente, quis fixar o menor detalhe do que passava pelos meus olhos, como se fosse realmente a última vez. As pessoas e as coisas passaram a ter outro significado, outra nobreza, cada uma especial e única, perene, como nunca as tinha visto. O medo foi tanto e pareceu tão real que pus fim â brincadeira imediatamente. Espantei o pensamento e mergulhei no livro de polícias e ladrões que tinha trazido para me entreter durante a viagem.
Vá-se lá brincar com o fogo...
Mas, olhar para o que nos rodeia como se fosse a última vez faz do mundo uma coisa tâo especial e bonita, que se deve guardar como um tesouro, que de banal nada tem, que não se deve desperdiçar no meio de pressas mais ou menos inúteis ou redundantes. Abaixo os olhares displicentes, as caras fechadas, o desprezo pelo verde dos campos, a ignorância do mar e do sorriso, a indiferença aos pingos de chuva e ao brilho do sol a desaparecer lentamente no horizonte.
Portanto, pus-me (tetricamente) a olhar para o mundo como se lhe estivese a fugir. Tentei encher a alma de melancolia, disfarcei dor, desejei a eternidade, fingindo a iminência do fim. Devo confessar que comecei por duvidar do sucesso desta tentativa. Achei que toda a encenação acabaria ao fim de alguns segundos, no meio de arrependimento por falta de respeito às pessoas que verdadeiramente se avizinham do fim. Porém, para minha surpesa, acho que consegui sentir o medo do fim e, avidamente, quis fixar o menor detalhe do que passava pelos meus olhos, como se fosse realmente a última vez. As pessoas e as coisas passaram a ter outro significado, outra nobreza, cada uma especial e única, perene, como nunca as tinha visto. O medo foi tanto e pareceu tão real que pus fim â brincadeira imediatamente. Espantei o pensamento e mergulhei no livro de polícias e ladrões que tinha trazido para me entreter durante a viagem.
Vá-se lá brincar com o fogo...
Mas, olhar para o que nos rodeia como se fosse a última vez faz do mundo uma coisa tâo especial e bonita, que se deve guardar como um tesouro, que de banal nada tem, que não se deve desperdiçar no meio de pressas mais ou menos inúteis ou redundantes. Abaixo os olhares displicentes, as caras fechadas, o desprezo pelo verde dos campos, a ignorância do mar e do sorriso, a indiferença aos pingos de chuva e ao brilho do sol a desaparecer lentamente no horizonte.
terça-feira, agosto 31, 2010
A vaidade é o principal ponto fraco dos fortes.
O ciúme é um dos sentimentos mais poderosos das mulheres.
O desejo é a mais bonita fonte de cegueira.
A solidão é o preço da liberdade.
As motivações que contam são as que vêm de dentro de nós; as motivações que vêm de fora alienam, são espúrias.
As rugas são o ruído do tempo.
Gostar de nós e gostar dos outros na proporção justa não é matemática - é caracter.
O verdadeiro poder é o que sobrevive aos interesses.
Oxalá o depois da vida não fosse pó.
O ciúme é um dos sentimentos mais poderosos das mulheres.
O desejo é a mais bonita fonte de cegueira.
A solidão é o preço da liberdade.
As motivações que contam são as que vêm de dentro de nós; as motivações que vêm de fora alienam, são espúrias.
As rugas são o ruído do tempo.
Gostar de nós e gostar dos outros na proporção justa não é matemática - é caracter.
O verdadeiro poder é o que sobrevive aos interesses.
Oxalá o depois da vida não fosse pó.
segunda-feira, agosto 30, 2010
Senhora do Ó
A emancipação das mulheres quer dizer também participação activa no mercado de trabalho, ambições profissionais, carreira. Os obstáculos são mais do que muitos, levantados sobretudo por homens, num mundo tradicionalmente dominado por homens. [Deixo de lado debates fecundíssimos sobre coisas como a descriminação positiva.] A verdade é que as mulheres têm de ser muitas coisas ao mesmo tempo, são objecto das mais caleidoscópicas exigências e expectativas. Apesar do seu talento, supostamente inato, para a diversidade (ao contrário dos homens que seriam excelentes numa só coisa de cada vez...), as mulheres caem muitas vezes no provérbio: "quem muitos burros quer tocar, algum fica para trás". Durante muitos anos, as mulheres, mais cultas e urbanas, apostaram na profissão e isso contribuiu de alguma forma para fenómenos como o crescimento do divórcio e a redução da natalidade. [Estou a simplificar, a omitir vários passos, mas siga o discurso.] Pois bem, acho que agora se está a assistir a uma reversão de tendência, e ainda bem. Isto é, as mulheres (como muitos homens) estão a fartar-se dos mitos do sucesso, da competição desbragada, da miopia de certos objectivos, do preço a pagar pelo sucesso-versão homologada pelo neo-liberalismo. Reagem sem passar pelos sindicatos, sem fazer revoluções barulhentas. Reagem através da maternidade, recuperando os valores da família e da procriação. Mandam o sistema àquele sítio, aproveitando ainda por cima os mecanismos politicamente correctos de descriminação positiva e de incentivo à natalidade. Bem hajam! O que chateia são os grunhidos discretos dos chefes que se queixam, porque assim é difícil planear e porque as famílias, as crianças e ser mulher têm um custo... para o sistema e para as próprias mulheres! Tudo isto me ocorreu por causa da quantidade de barrigas protuberantes que crescem por aí. E ainda bem... desde que sejam felizes!
segunda-feira, agosto 23, 2010
sexta-feira, agosto 13, 2010
Filhos da puta...

Este agosto são rosários de incêndios, contados até à última gota de paciência ou de curiosidade mórbida. Mais um bombeiro morto e o povo agarra-se ao ecrã, extasiado com as lágrimas vertidas por familiares, camaradas, amigos, desconhecidos e basbaques. As sirenes espalham ainda mais calor, chamas, angustia e adrenalina. Os jornalistas têm os orgasmos possíveis em período de evidente falta de notícias.
É todos os anos a mesma coisa… apesar dos planos da protecção civil e dos canadair e de criaturas com ar de Rambo das Terras do Bouro e linguagem pirotécnica. E há ministros e comandantes e primeiros-ministros e presidentes que não valem nada perante altas temperaturas, secura e alguns malucos e malfeitores. E há populares desgraçados que não dormem a olhar para as labaredas que sobem e descem os montes, tocadas por ventos caprichosos e que se aproximam de casas e outras propriedades em que se cristalizam vidas de heroísmos anónimos que parecem pequenos em relação ao heroísmo de alguns dias dos “soldados da paz” (!) que combatem, sabe deus que demónio, alagados em suor, perigo, cansaço e excitação.
Depois virão o frio, as chuvas e a calma de outros “incêndios” mais timoratos e cinzentos. E ficamos à espera de mais um Verão com os mesmos ecrãs a transbordar de actos de bravura e de resignação. E passamos de automóvel à beira das matas defuntas, sentindo uma raiva banal e impotente, deitando pela boca fora “filhos da puta” sem saber ao certo quem estamos a insultar. Talvez o destino ou a santa providência ou sacanas sem rosto.
terça-feira, agosto 10, 2010
quarta-feira, agosto 04, 2010
A morte saiu à rua
Com o devido respeito, estou farto dos cancros das pessoas famosas, apresentados nos meios de comunicação social até à exaustão, com condolências dos mais variados quadrantes e obviamente justificadíssimas e choradíssimas. Os cancros são pretextos para enaltecer as qualidades humanas e profissionais de pessoas que fazem parte da nossa memória colectiva.Morrer de cancro é triste, tristíssimo, doloroso para os próprios e para os chegados. Morrer de cancro é lento, demasiado lento, é como uma lâmpada que se vai fundindo até se apagar num dia cinzento, por mais sol que esteja no céu. Deve ser horrivel olhar para o relógio sabendo que vai parar inevitavelmente um dia destes. O relógio pára sempre, mas quando se tem cancro olha-se vezes de mais para o mostrador, implorando mais uns minutos, lutando por um milagre ainda mais improvável do que todos os outros. Desculpando a agonia, acariciando a dor para doer um pouco menos.
Deixem-me em paz com as lágrimas dos outros. Privatizem o sofrimento. Há quem brinque com a morte para a espantar. E não me parece mal. Mas, não escarafunchem na tristeza dos outros, não favoreçam a contaminação da melancolia quando está tanto calor e a luz quase cega e o mar é marmelada azul. Deixem a morte chegar e partir silenciosa e traiçoeira e incompreensível. Não há nada de heróico ou de vitorioso na morte. É o mais rotundo fracasso. Merece recato, austeridade e impotência.
Termino com genuinas banalidades: a morte é uma grande merda, tenho medo dela p'ra caraças, da minha e da das pessoas que amo e que estimo, da de toda a gente, da de amigos e inimigos. Noutros termos, rendo-me: cheguei à fase da vida em que pateticamente se tem medo da morte.
Post-scriptum: o grande problema da morte é que se morre para sempre.
terça-feira, agosto 03, 2010
Malditas férias...
"(...) A aceleração dilui a percepção do tempo, condenando-nos a viver num presente perpétuo em que os acontecimentos se multiplicam na razão inversa da compreensão do seu sentido. A torrencial multiplicação dos pontos de vista tem como único efeito seguro o de privar o homem contemporâneo de qualquer perspectiva consistente sobre o que quer que seja. O curto-termismo que decorre automaticamente desta aceleração e se impõe em todas as vertentes da vida contemporânea, é o que melhor define a mutação radical que ocorreu na nossa relação com o tempo. É ele que nos priva de qualquer horizonte onde se possam instalar verdadeiros projectos de vida, individuais ou colectivos. (...) É por isso que, mesmo em férias, se torna tão difícil desacelerar... Habituados que estamos, por um lado, a viver como se a velocidade por si só desse sentido à vida e, por outro lado, a associar a aceleração com a intensidade, é cada vez mais comum reagirmos com ansiedade a qualquer vislumbre de lentidão e identificarmos a mais pequena desaceleração com uma assustadora ameaça de tédio. (...)"
Manuel Maria Carrilho, Diário de Noticias, 29 de Julho de 2010
Manuel Maria Carrilho, Diário de Noticias, 29 de Julho de 2010
terça-feira, julho 27, 2010
Decisões presidenciais
Não podem imaginar a expectativa com que aguardo a enormíssima decisão que o nosso actual Presidente da Républica vai tomar, em recolhimento absoluto com a sua sagrada família, durante as férias que passarão todos na tranquilidade da sua vivenda nessa província deslumbrante que é o Algarve. Nem ouso especular sobre a gravidade das considerações - naturalmente familiares - em que se baseará tão dramática decisão com consequências determinantes para o futuro da nossa ditosa Pátria. Imagino o exército de jornalistas e de anónimos cidadãos que esperarão ansiosos, roendo as unhas, à porta de tal moradia pelo anúncio solene do resultado de tão aturada reflexão: recandidatar-se (ou não) à Presidência da Républica !
domingo, julho 25, 2010
Um filme com suspense ao contrário. Começa com ameaças de vingança, com a iminência de um crime, com a raiva de uma traição, com uma surpresa que se exprime a titulo póstumo. Termina com pena de todos, incluindo do desgraçado traidor. É um filme sobre a irrisoriedade dos maus sentimentos, em que se fica com pena de todos na fragilidade de maldades que são apenas meneiras de ser humano e de fugir à rotina e ao desgaste das relações. O segundo filme em pouco tempo em que participa Liam Neeson sobre a mesma temática: a putativa traição entre homens e mulheres. O outro foi "Chloe".
sexta-feira, julho 23, 2010
Espero que estas palavras encontrem o teu lado solar. Se não for o caso, que encham de cor o cinzento ou o vazio que possa cobrir os teus olhos.
Isto por aqui vai na mesma ou algo pior, com excitação a mais e humanidade a menos.
É preciso olhar para lá das ambições precárias e encontrar um doce equilíbrio entre o longo e o breve, entre a razão e a emoção, entre o querer e o ser. É preciso não nos deixarmos prender demasiado nas arestas da realidade e voar de vez em quando, voar para enseadas impossíveis que só nós conhecemos, nem que seja por breves instantes que garantem a eternidade e o sorriso e a convicção de que vale a pena o resto. E tudo.
Bom regresso!
Isto por aqui vai na mesma ou algo pior, com excitação a mais e humanidade a menos.
É preciso olhar para lá das ambições precárias e encontrar um doce equilíbrio entre o longo e o breve, entre a razão e a emoção, entre o querer e o ser. É preciso não nos deixarmos prender demasiado nas arestas da realidade e voar de vez em quando, voar para enseadas impossíveis que só nós conhecemos, nem que seja por breves instantes que garantem a eternidade e o sorriso e a convicção de que vale a pena o resto. E tudo.
Bom regresso!
terça-feira, julho 20, 2010
O futuro das exportações portuguesas
O Presidente da República de Portugal vai a Angola com uma numerosa comitiva de empresários. Antes de partir, apregoa que Angola deverá ser um destino privilegiado das nossas exportações para reduzir a dependência de mercados como a Espanha, Alemanha e França.
Angola é um dos países de África com maior volume de receitas externas, basicamente resultantes das vendas de petróleo e diamantes.
Angola é um país (tristemente) conhecido por elevados níveis de corrupção e de fuga de capitais.
No meio de tudo isto, para meu grande espanto, o Presidente da República de Angola vai à televisão dizer, depois de uma reunião com o Presidente da República de Portugal, que o seu país pagará as dívidas em atraso às PME portuguesas dentro de 2 meses. Quanto às grandes empresas logo se verá, mas talvez se possa pagar os calotes dentro de 6 meses, 1 ano, 2 anos...
E este talvez tenha sido o maior sucesso da missão liderada pelo Presidente da República de Portugal a um país escolhido como aposta estratégica das exportações portuguesas. Que eu saiba vendas não pagas chamam-se dádivas...
Devo estar a ver mal, a ouvir mal, a entender mal !
Angola é um dos países de África com maior volume de receitas externas, basicamente resultantes das vendas de petróleo e diamantes.
Angola é um país (tristemente) conhecido por elevados níveis de corrupção e de fuga de capitais.
No meio de tudo isto, para meu grande espanto, o Presidente da República de Angola vai à televisão dizer, depois de uma reunião com o Presidente da República de Portugal, que o seu país pagará as dívidas em atraso às PME portuguesas dentro de 2 meses. Quanto às grandes empresas logo se verá, mas talvez se possa pagar os calotes dentro de 6 meses, 1 ano, 2 anos...
E este talvez tenha sido o maior sucesso da missão liderada pelo Presidente da República de Portugal a um país escolhido como aposta estratégica das exportações portuguesas. Que eu saiba vendas não pagas chamam-se dádivas...
Devo estar a ver mal, a ouvir mal, a entender mal !
sábado, julho 17, 2010
Reflexões intemporais

Há coisas que sempre desejámos que acontecessem e, quando acontecem, não sabemos o que fazer.
Há acontecimentos que, ainda que o ser humano pense ser-lhes indiferente, antecipa vezes sem conta… Em sonhos, pensamentos… Raramente acontecem e as suas idealizações não são senão apenas isso… E apenas são idealizadas porque são consideradas impossíveis.
E quando, contra todas as probabilidades, o antecipado (mas inesperado) acontece? Parece que tudo o que se imaginou, como se reagiria, como se sentiria deixa de fazer sentido. Fica-se sem saber o que fazer, como lidar com coisas que, vindo da essência mais profunda do ser não se percebem…
É fácil antecipar a vida. Mas essas antecipações nunca são reais – a vida foge aos planos, o ser humano foge aos sentimentos que julga sentir com um descaramento de tal forma insolente que revolta.
Há acontecimentos que, ainda que o ser humano pense ser-lhes indiferente, antecipa vezes sem conta… Em sonhos, pensamentos… Raramente acontecem e as suas idealizações não são senão apenas isso… E apenas são idealizadas porque são consideradas impossíveis.
E quando, contra todas as probabilidades, o antecipado (mas inesperado) acontece? Parece que tudo o que se imaginou, como se reagiria, como se sentiria deixa de fazer sentido. Fica-se sem saber o que fazer, como lidar com coisas que, vindo da essência mais profunda do ser não se percebem…
É fácil antecipar a vida. Mas essas antecipações nunca são reais – a vida foge aos planos, o ser humano foge aos sentimentos que julga sentir com um descaramento de tal forma insolente que revolta.
quinta-feira, julho 15, 2010
domingo, julho 11, 2010
Catalunha - campeão do mundo
Considerando também a quantidade de jogadores do Barcelona que deram o campeonato do mundo à Espanha e as tendências secessionistas crescentes na Catalunha, a pergunta pode ser legítima: quem ganhou a taça? a Espanha ou a Catalunha?
sexta-feira, julho 09, 2010
quarta-feira, julho 07, 2010
Perfeição

Acabei o curso, estou contente comigo mesma e muito muito feliz por ter concluído com sucesso esta etapa da minha vida.
Para estar tudo perfeito era preciso:
1. Estar menos calor;
2. Não me terem pedido 15 euros por um mero certificado de habilitações que demora 15 dias a chegar;
3. Ter já um emprego à minha espera a começar no dia 1 de Setembro... vá lá, 15 de Setembro...
4. Estar à beira-mar com uma caipirinha.
Para estar tudo perfeito era preciso:
1. Estar menos calor;
2. Não me terem pedido 15 euros por um mero certificado de habilitações que demora 15 dias a chegar;
3. Ter já um emprego à minha espera a começar no dia 1 de Setembro... vá lá, 15 de Setembro...
4. Estar à beira-mar com uma caipirinha.
(Eu sei que este post é totalmente excusado e um atentado a quem ainda tem tanto que fazer para acabar as suas tarefas e ir de férias, mas dêem-me o desconto, sim? Afinal estou de ressaca de 5 anos de Universidade.)
domingo, julho 04, 2010
A Peninsula Ibérica
A diferença é abismal e crescente... na economia, na cultura, no desporto, na política internacional. Basta comprar o "El Pais" e o "Público", ir a Madrid ou Barcelona e a Lisboa ou ao Porto, entrar numa livraria em Portugal e em Espanha, etc, etc. Os sinais de "ocupação" aumentam... a pretexto de cooperação, de liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais. O que não conseguiram pelas armas há 5 séculos, conseguem agora, gradualmente, mas seguramente, através da supremacia na política, na economia, na finança, na arte, na cultura, no desporto.Só mesmo uma identidade muito forte, teimosa e orgulhosa, estrebucha contra a evidência da superioridade do outro lado. Só mesmo uma história, uma cultura, uma lingua irredutíveis tornam impensável uma rendição formal. Mesmo que dela pudessem resultar vantagens materiais (dependendo da maneira como fosse negociada). Andam os governantes a fazer de conta que somos grandes amigos e de que só a mania da perseguição ou um complexo de inferioridade justificam certos medos ou teorias da conspiração. E, portanto, continua a fazer-se de conta que somos "iguais" e que a nossa independência não está em causa e que eles não nos querem prejudicar, que agem da forma mais objectiva (do ponto de vista dos seus legítimos interesses). Mas, a nossa independência está de facto em causa. Falo de independência real mais do que formal. Não tenho a mania da perseguição nem o complexo de inferioridade, mas não sou cego nem ingénuo. E - ainda mais importante - não me parece haver argumentos (que não sejam de simples patriotismo) contra o domínio espanhol.
Portugal torna-se cada vez mais um acidente histórico, um monumento ao Patriotismo, em que ninguém quer perder a face, em que desconfiança, desprezo e medo se misturam com diplomacia, tolerância e condescendência numa geometria variável que tende sempre para o mesmo desfecho: uma gradual submissão.
É neste contexto que se deve situar a luta pela metade da Vivo no Brasil e o acto de desespero que foi o veto do governo mediante a "golden share" na PT. Um entre vários episódios de um conflito de interesses fundamentais entre os dois países que, normalmente, se desvaloriza ou se disfarça para evitar fantasmas que se erguem da noite dos tempos.
quinta-feira, julho 01, 2010
sábado, junho 26, 2010
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