sábado, janeiro 09, 2010

Filme nada "bright"

Sábado à tarde de frio canino dá: ficar em casa (solução perfeitamente avisada) ou passear em espaços fechados como centros comerciais onde as lojas desfilam à nossa frente, obsoletas do período frenético de compras que se terminou, depois das inevitáveis trocas e baldrocas das prendas de Natal. Fica uma ída ao cinema no supracitado centro comercial com escolha de recurso do filme a visionar. E lá vamos ao último da Neo-zelandeza Jane Campion: "Bright Star" (com direito a Cannes e tudo). O resultado, que poderia muito bem ter sido uma agradável surpresa, foi simplesmente a confirmação da solução muitíssimo de recurso: um grande pastelão para supostamente retratar a paixão sem compromissos celebrada pelo romantismo britânico. Em duas palavras: «a evitar» porque o tema é deslocado e porque a forma é fastidiosa e entediante, podendo convidar a uma valente soneca (pese embora o preço do bilhete a pagar...).

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Se eu mandasse nas palavras...




Como se eu mandasse nas palavras
Pediram-me que a dor fosse um sorriso
Como se eu mandasse nas palavras
Disseram-me ser louca e ser juízo

Como se eu mandasse nas palavras
Falaram-me que a água era o deserto
Como se eu mandasse nas palavras
Disseram ser o mesmo o longe e o perto

Palavras não são só aquilo que eu oiço
Não peçam que eu lhes ganhe ou não as sinta
Palavras são demais para o que posso
Não queiram que eu as vença ou que lhes minta

Como se eu mandasse nas palavras
Quiseram que trocasse Sol por Lua
Como se eu mandasse nas palavras
Disseram-me que amar-te era ser tua

Como se eu mandasse nas palavras
Quiseram que emendasse o que está escrito
Para quê? Se eu mandasse nas palavras
Daria agora o dito por não dito.

Palavras não são só aquilo que oiço
Não peçam que eu lhes ganhe ou que não as sinta
Palavras são demais para o que posso
Não queiram que eu as vença ou que lhes minta.

Avatar


O raio do filme nem é tão bom nem tão mau como me tinham dito que era... É um filme giro, com efeitos especiais todos xpto em que se cruzam os conceitos da Pocahontas*, do Senhor dos Anéis** e da Verdade Inconveniente***... Só isso.

Tenho dito.


*A história de um ser civilizado que vai em busca de riqueza numa terra estranha, mas apaixona-se por uma indígena e tudo muda na sua vida.
**Um mundo paralelo, com elementos próprios (fauna e flora diferentes, linguagens diferentes, aparências estranhas, etc.).
***Um pendor ambientalista que tenta chamar a atenção para o valor da natureza e para as barbaridades que se têm feito ao ignorar esse mesmo valor.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Sinais dos tempos

Duas notícias sobre um sector específico que ilustram o crescente desequílibrio na distribuição do rendimento em Portugal: Porsche e os outros.

segunda-feira, janeiro 04, 2010


Theres no such thing as a grown-up. We move out, we move away from our families. But the basic insecurities, the fears and all the old wounds just grow up with us. We get bigger, taller, older. But, for the most part, we are still a bunch of kids, running around the playground, trying desperately to fit in.


in
Grey's Anatomy

2000-2009



Bush
Obama
Entrada em vigor do Euro
11 de Setembro
Maddie
Tsunami
Katrina
Papa João Paulo II e Papa Bento XVI
Harry Potter
Casa Pia
Michael Jackson
Saddam Hussein


Tudo isto e muito mais nos traz memórias fortes e claras e tudo isto e muito mais aconteceu na década que terminou há dias.

Tudo isto está ilustrado numa compilação de Imagens Marcantes da Década. Vale a pena espreitar e tentar encontrar o facto mais marcante... (eu ainda não me consegui decidir)...



E para além do que aconteceu no mundo, importa também pensar no que aconteceu em cada um de nós...

domingo, janeiro 03, 2010

Cultura de massa

Antigamente, eramos poucos a gostar de arte e de cultura e a ter dinheiro e tempo para usufruir dos prazeres do espírito. Os sítios bonitos, as obras de arte eram pouco frequentados. De facto, eram frequentados só por nós, a élite, o creme da sociedade e do bom gosto. Havia espaço e tempo para gozar essas preciosidades. Sobretudo, não havia filas intermináveis para entrar em museus, em galerias, em palácios e castelos. Outros tempos em que a aristocracia era verdadeira aristocracia, que não se misturava com a plebe, com a canalha... que tem o espírito nos intestinos.

Agora, não. Veio a democracia, o poder de compra, a classe média (mesmo muito média...), os meios de comunicação de massa, rápidos e baratos. Veio a cultura difusa e rasteira, considerada "bem público", portanto, supostamente acessível a todos, as fornadas de liceais e universitários que julgam conhecer o Renascimento porque foram à Wikipédia pesquisar as palavras "Código Da Vinci". Toda essa gente para quem a cultura se ostenta como os carros de "tunning" ou as malas Louis Vuitton de contrabando, enche agora os museus e as exposições de gritos, suor, correrias e olhares esgazeados. E nós, as pessoas de bem, que sabemos tanto de História da Arte, sentimo-nos ultrajadas e vilipendiadas no meio desses "troupeau de canaille". Devia haver um "numerus clausus" para frequentar certos areópagos da sabedoria, uma espécie de passaporte a que apenas os eleitos teriam acesso depois de passarem um rigoroso exame de boas maneiras, gosto e erudição. Ou então que metam os preços dos bilhetes a níveis consentâneos com um equilíbrio razoável entre oferta e procura e que esqueçam o direito de todos à cultura!
Abaixo a democracia, sistema da banalidade, das médias e das maiorias.
Viva a aristocracia, sistema das minorias de requinte e bom gosto.

Cinderella


Porque será que, nas histórias de Princìpes e Princesas, a palavra "Fim" aparece sempre depois do clássico "Então casaram-se, tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre" ?

sábado, janeiro 02, 2010

2010



A passagem do ano de 2009 para o ano de 2010 deixou-me com uma estranha sensação de "nostalgia do futuro".

terça-feira, dezembro 29, 2009

Resoluções para 2010

Acabar o curso...


Arranjar emprego...

(esta não precisa de legenda)

Mudar de casa...

Será demais?
Feliz Ano Novo!

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Natal de crise

Sensação estranha de ausência de Natal, de estar fora de uma quadra que noutros tempos me enchia de sentimentos fortes.

Essa impressão de não pertencer ao suposto espírito da época parece ser partilhada por outras pessoas da minha convivência.

Espanta-me, ao mesmo tempo, a facilidade com que as pessoas trocam votos disto e daquilo, coisas estereotipadas destes dias, porque sim, porque não pode ser de outro modo. Parecem actos de desespero, para manter uma tradição que já vale pouco, mas cuja descontinuidade significaria a resignação definitiva ao non-sense disto tudo. Deixa-me estarrecida a facilidade com que pessoas que mal se conhecem trocam desejos de felicidade, saúde, sucesso, prosperidade, amor, serenidade, plenitude, etc, etc. Trata-se de criaturas que se viram uma vez numa reunião para falar de negócios e de interesses quejandos e, depois, numa cascata de bons sentimentos de véspera do Natal, excedem-se em putativos afectos e ternura e enchem caixas de correio das mensagens mais inflamadas que, obviamente, soam a falso, a descabido ou, simplesmente, a nada! Tudo dispensável se imperasse a verdade e se as pessoas se concentrassem na expressão de desejos a outras pessoas com quem verdadeiramente se tem qualquer coisa em comum no plano das emoções.

Parece oficial ser bonzinho ou parecer bonzinho, fazer um interregno (cosmético) na agressividade e na maldade. Corações ao alto! Lá vamos nós em busca da redenção e da paz. Depois volta tudo ao mesmo e ficam apenas cadáveres de emoções oportunas e cartões de boas festas sem tempo para desbotar.

Estas impressões cruzam-se com outras sobre o estado (fisiológico) do país. E tudo faz sentido. Infelizmente. Cruzo-me cada vez mais com pessoas, jovens e menos jovens, com a má vida escrita na cara. Transpiram desemprego, fome, privações de toda a espécie, precaridade, solidão, sofrimento. Em duas palavras: má vida. Este país está mal, depois da euforia do endividamento, atolado na fatalidade do reembolso doloroso ou do calote mais ou menos envergonhado. Este país é uma meia dúzia de bem nutridos de expedientes ou que pertencem a raros nichos de sucesso, e uma multidão que resiste ao declíneo e à miséria. Este país tem andado para trás e parece-me condenado, na melhor das hipóteses, a uma longa estagnação, amortecida pelas mordomias da integração numa Europa de que continuará a divergir.

Para se viver bem é preciso produzir bem (não necessariamente muito e barato). Isso só se consegue com cultura, formação, sensibilidade, o que é incompatível com a cacofonia de uma legislatura e exige uma liderança esclarecida que, visivelmente, não há. O que há é crispação e incompetência na disputa por poderes que se auto-satisfazem, que se esgotam na conveniência mais rasteira. Poderes sem ideias nem projectos.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

:)

A propósito de duas semanas sem ida à psicologia por causa dos feriados:

"Oh stôra, já tinha saudades suas!"


(Ganhei o dia!)

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Levar na cara

Na sequência da agressão a Berlusconi, aparentemente, está a desenvolver-se em Itália um movimento denominado "Santo, subito!", ou seja: "Santo, já!". Trata-se de um apelo, com a mesma palavra de ordem do que se seguiu ao falecimento de João Paulo II, para que o agressor de Berlusconi seja canonizado o mais depressa possivel, dada a nobreza do seu gesto... Mas também há os apologistas da tese conspirativa segundo a qual tudo teria sido encenado pelo próprio Berlusconi para se vitimizar e para acusar a esquerda das mais sórdidas intenções e ofensas. Levar na cara pode ser uma táctica ou uma dolorosa coincidência que pode ajudar politicos em situação desesperada. Que o diga Mário Soares que, depois de ter sido agredido por comunisras raivosos na Marinha Grande, encetou uma marcha imparável rumo à vitória nas eleições presidenciais de 1986.

Coisas estranhas


Estranho, como três meses de estágio já lá vão...
Estranho como parece que foi ontem que começou...
Estranho como, em tão pouco tempo, parece que já sou "da casa" e me apeguei tanto aos "meus meninos"...
Estranho como ainda há tanto trabalho e empenho por investir...
Estranho como a minha vida mudou, como as minhas rotinas mudaram tão bruscamente...
Estranho como eu mudei, como a minha forma de ver o mundo mudou...

Estranho já estar nesta fase da minha vida (chegou tão depressa) e não ter a mínima noção de como será o futuro a partir do final desta etapa...

A vida é estranha. Eu! Eu sou estranha.


E também é estranho como o aproximar do Natal e do Fim de Ano nos põem automaticamente a pensar nestas "estranhezas"!

sábado, dezembro 12, 2009

Isto sim... é Natal...

Quem fala assim não é gago

A procuradora-geral adjunta Maria José Morgado tece duras críticas à forma como o poder político lide com a corrupção. Convidada do programa da Renascença Espaço Aberto, Morgado chega ao ponto de acusar: "Às vezes [o que o poder político faz] é agitar a bandeira do combate à corrupção para melhor a ocultar."

"Ninguém pega o touro pelos cornos", afirma Maria José Morgado, para quem o combate à corrupção é cada vez mais difícil. E diz mesmo que poder judicial e a investigação policial têm "comido o pão que o diabo amassou" neste combate, porque as exigências processuais são tão irrealistas que potenciam a eternização dos processos e aumentam a sensação generalizada de impunidade.

A propósito de culpa

Clicar no título para aceder a um excelente artigo publicado no "El Pais" on-line. Extractos:

"El control más sutil y perverso se logra cuando la propia persona acaba regulándose a sí misma. Dicho de otro modo, para que exista culpa debe existir un culpador. Y no existe mayor culpador que uno mismo. Eso no está ahí fuera, sino en mi interior. Entonces soy culpable. Hay quien se culpa por todo, quienes parecen mártires que cargan a cuestas el dolor del mundo, sin motivo. La culpa puede convertirse en un problema psicológico cuando no la frenamos.

(...)

Nos sabe mal decir que no; nos sabe mal pedir; nos sabe mal no responder a las expectativas de los demás. Entonces, ¿qué nos sabe bien? Si por hacer nuestro bien, lo que creemos que es bueno para nosotros, causamos un malestar a terceros, he ahí la clave para entender nuestras falsas culpabilidades. El único remedio que encontramos es la evitación, no sea que nos tilden de egoístas. Y así, dejamos de ser nosotros, para ser lo que los demás esperan de nosotros. He ahí el destino final de la culpa.

Si la culpa es evolutiva, ¿podemos lograr desprendernos de ella? Puede que no. Pero a medida que alcanzamos una nueva conciencia, sustituimos la culpa por la responsabilidad. La culpa es vivida como una separación entre nosotros y el mundo. La responsabilidad, por el contrario, nos adentra en él. La responsabilidad es equilibrio. ¿Y qué es la culpa sino su falta? Empecemos tal vez por ahí."

terça-feira, dezembro 08, 2009

John Lennon


Life is what happens to you while you are busy making other plans.

John Lennon (9 de Outubro de 1940 -8 de Dezembro de 1980)

A propósito da Cimeira de Copenhaga...

domingo, dezembro 06, 2009

Diferenças

Fui ontem a uma festa de Natal de uma família dinamarquesa. A casa estava impecável. Parecia uma daquelas casinhas da Eurodisney. Uma decoração eficientemente acolhedora, sofisticada, rigorosa, com um bom gosto irrepreensível, sem espaço ao desalinho, sem redundâncias. Os donos da casa eram de uma simpatia moderada, também ela eficaz, de uma fineza e boa educação quase perturbantes. O sorriso certo, o gesto elegante. Tudo batia certo como uma cena ensaiada vezes sem conta.

Por detrás dessa fachada socialmente correcta, porém, não senti verdadeiras emoções. Tudo contido, desenhado, cosmético. Fiquei com medo de que aquelas pessoas fossem assim sempre, de verdade, não apenas naquela ocasião de visitas. De que fossem uma espécie de vulcões de erupçao eternamente adiada. De que escondessem um desarranjo e uma maldade ainda piores do que os das pessoas que ousam mostrar indicios dessa maneira humana de ser. Veio-me à memória um filme que vi há vários anos: "Festen".

E daí pus-me também a pensar que deve haver qualquer coisa de cultural (ou de etnológico) na maneira como senti aquele ambiente e que os olhos de quem vê contam (e como...) naquilo que se vê. A ficção de que somos todos iguais, europeus e universais, de que as barreiras culturais e linguisticas, os estereótipos, não devem resistir à tolerância e à abertura de espírito, tudo isso, de repente, ficou relativizado e apercebi-me de que há zonas intransponíveis sobre como se é e como se está e como se sente. E daí voei até um livro excelente de Amartya Sen (Identidade e Violência) cuja mensagem fundamental é a de que, apesar disso, basta olhar para as pessoas na sua totalidade (e não as suas características convencionais) para poder conviver em paz com gente de todas as estirpes. Dito isto, parece-me mais a excepção do que a regra que se estabeleçam relações mais profundas e duráveis entre pessoas de matrizes (culturais, religiosas, linguísticas) "excessivamente" distintas. Mas, talvez seja o meu provincianismo portuga a falar...
Clicar no título e aqui.

Querido Pai Natal...

Querido Pai Natal*,

Este ano tenho uma lista de prendas curtinha, mas sobre a qual adoraria que te debruçasses com alguma atenção e boa vontade. Aqui vai:

1º - Uma agenda diária Moleskine para 12 meses em tamanho grande



2º - O novo livro de crónicas do Ricardo Araújo Pereira: "Novas Crónicas da Boca do Inferno"


3º Um bilhete de avião para Nova Yorque, com estadia e despesas incluídas.


4º - A colecção de todas as séries da "Sex and the City"

Pronto, este ano é tudo. Não te esqueças que me portei muito bem em 2009 e que sou uma "criança" que acredita em ti!

Muito obrigada,

Alice.




P.S.- Também ficaria muito agradecida se pudesses trazer o Michael Bublé a Portugal para um concerto.

sábado, dezembro 05, 2009

Maldito argumento!


Pois que, de vez em quando, todos nós lá vamos pedir frases ao Facebook... Podem ser de pessoas notáveis, podem ser disparatadas, podem ser de filmes ou de séries... Enfim, frases!

Acontece que ultimamente, sempre que vou espreitar frases do argumento da série Grey's Anatomy (uma grandessíssima série, com uma grandessíssima história e um enormíssimo elenco), saem-me coisas que me deixam a pensar... e a pensar muito (como de resto, cada episódio da série).

Aqui vão três:

My point is that whoever said 'What you don't know can’t hurt you,' was a complete and total moron. Because for most people I know, not knowing is the worst feeling in the world.

...e...

Sometimes the past is something you just can't let go of. And sometimes the past is something we'll do anything to forget. And sometimes we learn something new about the past that changes everything we know about the present.

...e...

At the end of the day, there are some things you just can't help but talk about. Some things we just don't want to hear, and some things we say because we can't be silent any longer. Some things are more than what you say. They're what you do. Some things you say because you have no other choice. Some things you keep to yourself. And not too often, but every now and then, some things simply speak for themselves.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

2012

Fui ver (sabe deus porquê...) este filme, enésimo pacote de efeitos especiais sobre o fim do mundo, produzido no centro do império (em Hollywood, para variar). Os ditos efeitos são na verdade espectaculares, mas de uma inverosimilhança que chateia. A história está repleta de clichés e de estereótipos politicamente correctos para a concórdia mundial, no meio da mais arrepiante desgraça, sob os auspícios dos Estados Unidos da América. É um cientista indiano que descobre o risco de hecatombe, é um jovem cientista negro de origem humilde que comunica a catástrofe iminente a um Presidente dos EUA negro que prefere morrer heroicamente ao lado dos seus compatriotas, são os chineses que constroem as arcas onde serão salvos os cobridores da nova Humanidade que repartirá (nada mais nada menos) do que da África, o continente maldito onde residem todas as esperanças de uma nova era, os russos até são simpáticos e cheios de bons sentimentos, etc, etc. Trata-se de filmes que, de facto, são menos inocentes do que possa parecer, recheados de ideologia e de valores para afeiçoar as massas à super-estrutura dominante, dando-lhes a ilusão de simples divertimento. [Clicar no título.]

segunda-feira, novembro 30, 2009

Golpes de Estado

Nos últimos tempos, tenho ouvido falar em soluções drásticas para a crise nacional que, francamente, me deixam preocupado, não tanto pela praticabilidade das mesmas, que me parece irrisória, mas pelo facto de tais ideias poderem sequer passar pela cabeça de pessoas que considerava avisadas. Trata-se de sugerir que alguém (ou um pequeno grupo) providencial pudesse tomar as rédeas do poder, através de um golpe de Estado mais ou menos palaciano, impondo uma lógica nacional e progressista num país à deriva e exposto ao opróbio da corrupção e da ausência de um mínimo de consenso relativamente a áreas fundamentais, como a Justiça, que andaria pelos canos de esgoto de uma democracia doente. Ou seja: um superior interesse nacional (vá-se lá saber interpretado por quem e com que critérios) aconselharia a uma derrogação da democracia. E, prosseguindo com a tese, até haveria acolhimento popular para tal acção patriótica. Largas camadas da população, vilipendiadas e cansadas do desnorte dos nossos dirigentes medíocres e corruptos, democráticamente eleitos, aderiria espontâneamente, com fervor, a esse movimento que poderia ter a sua génese numa mega-manifestação, espécie de "Fonte Luminosa" (de outros tempos e vontades) reeditada ao contrário...

Acho tudo isto triste e patético. A título de (mau) exemplo: a Itália já atingiu um grau bastante mais avançado de degradação democrática sem que isso tenha levado à ressureição de Mussolini... pese embora as semelhanças com Berlusconi e a alegre convivência da "democrazia" com a "malavita" do mais refinado nível. A itália não precisa de golpe de Estado porque desde há muito não tem um autêntico Estado... Auto-governa-se com a criatividade que se lhe reconhece, às costas de cidadãos mais ou menos honestos, na sua maioria fascinados pelo modelo de sucesso chico-esperto do seu Primeiro-ministro.

domingo, novembro 29, 2009

quinta-feira, novembro 26, 2009

Mr Bean

Estava a sair para ir às compras. Chuva miudinha, chão bêbado mesmo à frente da porta de casa. Um pé em sítio matreiro e lá vou eu por ali fora como se fizesse "slalom gigante" nos alpes suiços. Só alguns arranhões cosméticos, coração aos pulos porque podia ter sido bem pior. Levanto-me orgulhoso da capacidade de recuperação e vou até ao carro, estacionado no sítio do costume, atrás da minha casa. Abro a porta, alço a perna para entrar no carro e (lá vai disto ó evaristo) mais um desequilíbrio, mais uma viagem acrobática, desta vez para trás. Cozo-me com o chão húmido, desamparado e rendido à fraqueza da minha negociação com um dia chuvoso. Levanto-me para confirmar que não tinha sido ainda algo digno de hospital. Senti-me quase um herói... Com as calças e o casaco razoavelmente encharcados, meto-me finalmente no carro. Ao volante, sinto umas ligeiras dores nas costas, mas nada de preocupante. Com sorte, arranjei um lugar muito perto da entrada do supermercado. A correr para escapar à chuva que tinha engrossado, meto-me na porta giratória e, por artes do arco da velha, a coisa bloqueia e fico ali sózinho como um peixe num aquário, em meditação. As pessoas, de um lado e do outro da porta, a olhar para mim, à espera da sua vez de entrar ou sair, como se eu fosse um criminoso, culpado de mais um atraso nas suas vidas impacientes. E os segundos passam como uma eternidade e nada acontece e eu ali exposto ao opróbio. Vem um empregado do supermercado com uma chave para forçar o que deixou de funcionar automaticamente. Respirações suspensas à espera do desfecho e abre-te sésamo a teimosia da coisa desistiu e eu voltei à liberdade da abundância do supermercado. Tinha pouco para comprar, só coisas vitais. No topo de um corredor, uma pilha de embalagens de leite meio-gordo fazia de torre de babel. Não resisti. Lancei a mão a uma das embalagens e foi uma hecatombe: a torre desmoronou-se com grande estrondo. Tive de me afastar para não ficar submerso em embalagens de leite meio-gordo. As pessoas olhavam-me, mais uma vez, como se eu fosse um criminoso, pelo menos, um agitador. Senti-me uma espécie de Mr Bean e disse para mim mesmo que bastava de tanto infortúnio e de tanta azelhice para um só dia. Desisti das compras e, de forma quase furtiva, com o credo na boca, fui-me embora. Meti-me em casa, sentadinho em frente à TV com uma taça de chá e um pratinho de bolachas Maria a ver a telenovela, à espera que chegasse um outro dia menos acidentado.

quarta-feira, novembro 25, 2009