sábado, novembro 14, 2009

A lição de Coimbra

Cliquem no título e vejam os três videos.

Alice no País das Maravilhas



Tal como a outra Alice, também eu me tenho sentido um pouco confusa neste país (que não é das Maravilhas), com as suas contradições, idiossincrasias e particularidades...

O Lewis Carrol não estava muito longe de ilustrar o que vai na mente desta Alice de cá perante o país esquisito em que descobriu que vive...

terça-feira, novembro 10, 2009

Os Dantas

Viremo-nos para qualquer lado e a sensação é a de que o país está paralisado no meio da minoria ardilosa que nos governa, dos grandes interesses que estrebucham, dos escândalos que irrompem como cogumelos, dos projectos (grandes e pequenos) que enfrentam os mais inverosímeis obstáculos, da mediocridade orgulhosa e obediente, dos discursos de gente instalada com a goela cheia de minudências, dos grupos de boas causas que aproveitam o desnorte para exercer magistérios de influência duvidosa. O país torna-se cada vez mais uma anedota ou uma impossibilidade desmentida heroicamente por gente anónima que não pode desistir sob o peso da sobrevivência. Portugal faz-se dessa gente, resistindo à incompetência da classe dirigente e à falta de consensos básicos em relação ao destino da Nação. Dá vontade de ser estrangeiro... à falta de um novo Anti-Dantas.

segunda-feira, novembro 09, 2009

No dia em que se comemoram 20 anos sobre a Queda do Muro...








...deixo aqui algumas fotografias da mágica cidade de Berlim, uma das viagens que mais me marcaram...

domingo, novembro 08, 2009

O mais recente filme de Sam Mendes

Uma história de amor, bonita, no meio de mais uma descrição impiedosa da sociedade norte-americana pelo realizador Sam Mendes. As viagens sucessivas de um jovem casal, à espera de um filho, levam-nos a tomar o seu próprio caminho, depois de testemunharem os dramas, as taras e as manias de colegas, amigos e familiares dispersos pela imensidão da América. Um filme onde a raiz dos sentimentos supera todas as geografias. Um filme simples em que o amor e a autenticidade são as chaves para ultrapassar os estéreotipos de um sistema doente. Clicar no título.

sexta-feira, novembro 06, 2009

De vez em quando até me sinto orgulhosa....


A Universidade de Coimbra (UC) é a única portuguesa representada no ranking do Centro de Desenvolvimento Universitário, uma instituição independente alemã, sendo destacada a área da Psicologia.

Segundo um comunicado da UC, o CHE - Excelence Ranking «permite fazer uma comparação das melhores instituições universitárias e centros de investigação na Europa, sendo particularmente dirigido a futuros estudantes de mestrado e doutoramento», noticia a Lusa.

«São pouco mais de 100 instituições de Ensino Superior que oferecem, na Europa, excelentes perspectivas para estudantes de mestrado e de doutoramento e que integram o Grupo de Excelência do CHE»- Excellence Ranking, publicado pelo semanário alemão «Die Zeit».

A directora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), Luísa Morgado, disse que o CHE escolheu avaliar o mestrado integrado em Psicologia ministrado na instituição e que este foi o único avaliado na UC e no país.

Em três critérios do ranking, este mestrado integrado atingiu os níveis de excelência, nomeadamente no número de publicações ou citações e orientações internacionais, na existência do mestrado Erasmus Mundus e na mobilidade do corpo docente e discente, adiantou a responsável.

«É uma grande distinção para a Faculdade figurar num ranking de excelência europeu», afirmou a directora da FPCEUC, referindo que existem 39 cursos de licenciatura e mestrado integrado em Psicologia no país.

«Recentemente, o ranking elaborado pelo jornal, o britânico «The Times», apresentava como único representante do sistema de Ensino Superior português a Universidade de Coimbra, situando-a entre as 400 melhores universidades mundiais e as 200 melhores europeias», concluiu.

In IOL Diário (Encontrado no blog da Ana)

quinta-feira, novembro 05, 2009

Normalidade democrática

Poder é poder. Não há só poder político. O poder político estende-se ao poder económico, alimenta-se dele e alimenta-o. Sempre assim foi e sempre assim será. Nada de novo. Trata-se de ingenuidade pensar que o poder eleito pelo povo possa permanecer, casto e beato, imúne aos malandros e gananciosos do poder económico, personagens detestáveis que não olham a meios para atingir os fins. O poder económico serve também de instrumento fundamental do poder político e é isso que dá tanto protagonismo e influência aos detentores do poder económico.

Dito isto, essa fisiológica "promiscuidade" não deve ultrapassar os limites (a) da legalidade e (b) dos interesses colectivos que elegeram o poder político. Se (a) for transgredido, entramos no terreno do crime. E, normalmente, os tribunais punem os infractores. Se (b) for transgredido, entramos no terreno da traição à vontade popular e, pese embora os prejuizos que possam ser provocados no entretanto, essa traição será, normalmente, punida em eleições seguintes. Neste discurso, o diabo está na palavra "normalmente" e é por isso que o nosso país não é normal.

O nosso país está a transformar-se numa anomalia, numa anedota de mau gosto, num quase-México da Europa em que nem a corrupção se manifesta de forma subtil ou profissional como noutros países civilizados. Os corruptos portugueses são mesquinhos e medíocres. Passa pela cabeça de alguém cair na lama por causa de um envelope cheio de notas totalizando a ninharia de 10000 euros? Passa pela cabeça de alguém fazer negócios escuros com um pequeno negociante de sucata cuja facturação (declarada...) não chega aos 50 milhões de euros? Que se façam as coisas em grande, com ambição, na justa proporção entre risco e benefício.

Curiosamente, a crise económica e a necessidade de utilizar o poder económico para a combater vulnerabilizaram o poder político face ao poder económico. É de esperar a multiplicação dos casos perversos de promiscuidade entre ambos, de permissividade dos políticos à insídia dos negociantes para apresentar obra feita, muita e rápida.

Brilhante!


Recebido por e-mail.

domingo, novembro 01, 2009

4 ANOS A PICAR



Foi no dia 29, mas ainda assim...

...Parabéns atrasados ao Fantástico Melga!

quarta-feira, outubro 28, 2009

Metrosexual

Chamaram-me isto. Porque seria mainstream, rendido ao sistema, parte da sua abóboda. Porque teria aderido ao paradigma dominante. Porque me teria travestido de uma coisa que, até há algum tempo, dizia detestar. Há momentos assim, em que nos pedem que façamos as contas com a nossa identidade e, depois de aturada reflexão, nos achamos bem naquilo em que dizem que nos transformámos. Mas, a vida é feita de mudança e o que é certo hoje torna-se errado amanhã. E quando achamos que, finalmente, temos estabilidade e tranquilidade, caem-nos em cima mais provações e tempestades. Não há essa coisa de paz perene, de longo rio tranquilo. Viver é sobreviver e aceitar com um sorriso nos lábios a fatalidade da luta permanente pela auto-estima e pelo respeito por nós (e pelas nossas contradições) e pelos outros.

País de sucesso

Isto dói.

terça-feira, outubro 27, 2009

Cegueiras

Eu li partes substanciais do Antigo Testamento. [Também li vários livros de Saramago, mas ainda não "Caim".] Uma leitura literal da Bíblia leva-nos efectivamente a conclusões violentas: ali encontramos mortes, violações, traições, massacres. Deus e os representantes de Deus na Terra são criaturas pouco angélicas, impondo provas e sacrifícios inimagináveis (o assassinato de filhos...) para demonstrar a fé e a obediência ao Supremo. Mas, a Bíblia é uma imagem, uma metáfora. Não é uma história real dos desígnios divinos. É uma fábula localizada no tempo e no espaço. De resto, se passarmos ao Novo Testamento já encontramos um enredo mais benigno, os bons sentimentos e as boas acções de Deus e dos seus seguidores claramente predominam.

Espantam-me, portanto, as frases provocatórias recentemente proferidas por Saramago que têm apenas a relevância que se lhe quiser dar...

Parece-me que a sua velhice navega no lado mais obscuro e maligno da natureza humana. Mas, com um enorme talento para as metáforas, já tinha descrito de forma impiedosa o lado pior dos seres humanos no "Ensaio sobre a Cegueira". Não precisava de invocar a Biblia.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Serenata à chuva




A Serenata da Latada deste ano foi uma alusão muito pouco glamourosa ao filme "Singin' in the rain" (Serenata à Chuva)...

Pela chuva e pelo vento, que não só tornaram difícil aproveitar ao máximo aquele ambiente académico, como também (suponho que tenha sido por isso) criaram alguns problemas técnicos no som, que só foram resolvidos passado bastante tempo.

E pelo desrespeito de alguns seres que se consideram "estudantes de Coimbra" (visto terem vestido o fato académico) e que não sabem sequer o que significa uma Serenata, uma Latada, a Tradição Coimbrã... Em suma, que desconhecem o significado dos símbolos, que vestem apenas para se embebedarem! Resultado: conversas sobre futebol a alto e bom som enquanto decorre a Serenata, gritos histéricos, assobios, e afins...

Fica de positivo o grande empenho para contornar os problemas e seguir adiante com a Serenata de todos os que a prepararam e nela participaram! Não começou bem, mas prosseguiu e terminou muito bem.

Para todos os efeitos, e apesar das vicissitudes, esta noite marcou o início da minha última Latada enquanto estudante de Coimbra, e a Serenata é sempre um momento que fica para recordar pelo que tem de mágico e especial.


Gato Fedorento + 1



Excelente!

domingo, outubro 18, 2009

A Caixa de Pandora e a esperança que é a última a perder

"Pandora, in Greek mythology, first woman on Earth, created by the god Hephaestus at the request of the god Zeus. Zeus wished to counteract the blessing of fire, which had been stolen from the gods by the Titan Prometheus and given to human beings. Endowed by the gods with every attribute of beauty and goodness, Pandora was sent to Epimetheus, who was happy to have her for his wife, although he had been warned by his brother Prometheus never to accept anything from Zeus. In bestowing their gifts on Pandora, the gods had given her a box, warning her never to open it. Her curiosity finally overcame her, however, and she opened the mysterious box, from which flew innumerable plagues for the body and sorrows for the mind. In terror, she tried to shut the box, but only Hope, the one good thing among many evils the box had contained, remained to comfort humanity in its misfortunes." copiado de MSN Encyclopedia.

sábado, outubro 17, 2009

Sou só eu que acho isto um bocado excessivo?!

Ontem, ao sair do Fórum Coimbra depois do cinema (23h30), deparo-me com esta informação à porta da FNAC:

Um pequeno mapa explicativo do modo como as pessoas que o desejem, deverão formar fila durante a noite para aguardarem pela abertura (10h00) da FNAC no dia seguinte para comprarem bilhetes para o concerto dos U2 em Coimbra (recorde-se que o concerto é dia 2 de Outubro de 2010).
Depois desta elucidativa demonstração do que se iria passar nessa noite no parque de estacionamento exterior do Fórum Coimbra, começo a subir para o mesmo, para tirar de lá o meu carro e voltar a casa... Ele era sacos cama, ele era cadeiras de campismo, ele era merendas... Mas ninguém em fila... Tudo junto aos respectivos carros...
Ao que parece, à medida que as pessoas iam chegando, alguém tomava nota da ordem de chegada e atribuía-lhe um número, número esse que determinaria a ordem de compra dos bilhetes para o concerto (máximo de 4 bilhetes por pessoa).
E para evitar que as pessoas recebessem o seu número e fossem descansar ou fazer outra coisa que não "acampar" no parque de estacionamento do fórum, estava prevista uma "chamada" de todos os números de duas em duas horas!
No regresso a casa, passei pelo Coimbra Shopping, à porta do qual essa mesma "chamada" estava a ser feita....
Ao que parece, o ajuntamento não tinha começado àquela hora, mas bem, bem antes...

O fenómeno teve mais impacto na Fnac do Fórum Coimbra, onde a primeira pessoa chegou às 9h00 de quinta-feira. Os admiradores da banda irlandesa juntaram-se na entrada do parque de estacionamento subterrâneo mais próximo da Fnac. A organização entre os fãs é surpreendente. «Quando as pessoas chegam ficam com um número, atribuído por ordem de chegada, e depois fazemos chamadas de duas em duas horas. Para já está tudo a correr bem, porque não são permitidas aldrabices», explicou Pedro Fonseca, o primeiro a chegar.

De duas em duas horas o parque da Fnac enche-se de gente. Ninguém quer deixar de picar o ponto, para não ser excluído da lista. Mas há quem passe a maior parte do tempo nas imediações. (in Diário de Coimbra)

The Soloist


O que dizer deste filme para além de que é de um bonito triste que comove e faz pensar (em nós, no mundo que conhecemos e naquele que desconhecemos)?


A não perder!



Ah...Um recado ali para a academia de Holywood: Pelo menos 2 nomeações para os Óscares, sim? (Primeiro para o SOBERBO Jamie Foxx - não é fácil desempenhar um PAPELÃO daqueles como ele o faz - e depois para o Robert Downey Jr que também está fabuloso!)

sexta-feira, outubro 16, 2009

Vaidade e poder

Uma das maiores fraquezas dos poderosos é a vaidade. Esse vício leva-os a cair em armadilhas que podem provocar a sua queda. Acho que tal situação advém da inflação do ego alimentada pelo poder. Essa megalomania deixa-os a pairar acima da realidade, transporta-os para o mundo da ficção, ofusca-lhes a razão. E por vezes pode mesmo levá-los a cair no rídiculo sem que disso se apercebam. História do rei que vai nú...

quinta-feira, outubro 15, 2009

Saramago acusa Bento XVI

“Às insolências reaccionárias da Igreja Católica há que responder com a insolência da inteligência viva, no bom sentido, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder” afirmou [José Saramago]. Segundo [ele], interessa pouco à Igreja o destino das almas e o que sempre procurou é o controlo dos seus corpos. “A razão - acrescentou - pode ser uma moral. Usemo-la”.

segunda-feira, outubro 12, 2009

As eleições autárquicas


Pois... as eleições autárquicas...

A distribuição de benesses (democráticas...) ao domicílio. O voto em quem distribui bilhetes do Tony Carreira, em quem ajuda os amigos com uns ligeiros entorses da lei que até podem dar 7 anos de cadeia. E tantas, mas mesmo tantas possibilidades de recurso de sentenças "injustas". E a Mariazinha que botou no Sr Doutor porque sim, porque é boa pessoa e fez muito pela gente lá da terra. O jardinzinho onde as crianças brincam aos domingos de sol, tão bonito no dia da inauguração e que mais ninguém rega ou cuida, que vai ficando degradado até parecer um matagal de esperanças efémeras. E a biblioteca toda engalanada que continua às moscas porque a gente gosta mesmo é da bola e do Quim Barreiros. Literatura só se for o "Record" ou a "Maria". E um alvará para construir onde dá jeito, mas onde não se devia. E o meu primo que anda há tanto tempo à procura de emprego, coitado! Fez as Novas Oportunidades a pensar em tornar-se jovem empresário e continua na esplanada do café da terra a beber cerveja sem conta nem termo. E o asilo para velhos onde se vai parar sem apelo nem agravo com a benção do Sr Prior porque, quando se é velho, se dá trabalho a mais para quem continua a fazer pela vida. E a estradinha vistosa, com tapete de alcatrão e tudo, que leva onde dá jeito e que faz valorizar o terreno da malta amiga. Que bela urbanização onde o Sr Eng° anda a fazer uma "bibenda" de se lhe tirar o chapéu! Só a senhora dele é que parece mais decorada e rechonchuda que uma árvore de Natal... sem ser Natal, que Deus Nosso Senhor nos perdoe. E depois as feiras medievais e as festas das tasquinhas onde a gente se regala de chouriços, broa e água-pé. E as chico-espertices para driblar a dívida, manter a água a preço da chuva e tramar o orçamento do Estado. Quem vier por último que feche a porta! Que paguem os ricos. No entretanto, fartámo-nos de fazer rotundas com estátuas que ninguém compreende e de plantar semáforos que ninguém respeita.

Não se queixem do poder local, porra! É aí que se resolvem os problemas e sobretudo que se fabricam os problemas que são nossos, só nossos. Da gente. Não daqueles senhores de Lisboa, ao quentinho, na Assembleia, longe do povo. O poder "de proximidade", como lhe chamam os franceses, esses criadores de belas expressões de lucidez sociológica e de rigor cartesiano. Inventaram também, para além do queijo camembert, o adjectivo "cidadão".´É muito ou pouco "cidadão" participar na política do nosso município? Claro que é muito. É muitíssimo! É aí que o comum dos mortais pode exercer alguma influência, participando nas listas de candidatos à Junta ou à Câmara. Indo às assembleias municipais queixar-se da cor dos esgotos que correm a céu aberto ou dos suspeitos sinais exteriores de riqueza do vereador. O gajo apareceu de repente com um grande Mercedes e conhecem-se-lhe amantes como as contas de um rosário da Senhora de Fátima. Aquilo não vem só do ordenado da Câmara, apesar de já lá estar há uma porrada de anos. Sabe Deus... Fala-se em dinheiro das obras por baixo da mesa, em droga. Até em putas... O Senhor nos proteja que a democracia está entregue ao diabo. Mas, é bonito de ver o nosso Presidente ao domingo, antes do almoço na casa dos sogros, a passear na praça e a distribuir cumprimentos e confidências entre os caríssimos munícipes e a prometer empregos à rapaziada e subsídios aos pobrezinhos. E o "Correio da Manhã" debaixo do braço dá-lhe outra gravidade. E o vereador do lixo a controlar metodicamente a capacidade dos respectivos contentores e a pôr autocolantes a apelar ao civismo. E o vereador da cultura a organizar a quermesse da festa do Senhor dos Milagres, na qual participará o grupo de rock da rapaziada lá da terra e, dependendo do orçamento, algo mais, de preferência picante, para levantar o moral. Sim, porque com tanto desemprego por aí a maralha anda de cabisbaixo. A Carla Vanessa, filha do Manuel da mercearia, fez o canudo em Turismo & Hotelaria na Universidade do Carregal. Andava por aí aos caídos e agora é vê-la toda mimosa nos cartazes colados pelos muros do concelho como candidata à Câmara. Agarra um tacho pelo seguro. Ou pelo menos pretendentes de peso. Porque uma fotografia assim de moçoila com tanta cor e formusura não é para qualquer um.

Graças a Deus que há democracia na nossa santa terrinha.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Há coisas (fúteis) fantásticas, não há?




A anomalia italiana

O primeiro parágrafo da lei italiana conhecida como “Lodo Alfano”diz o seguinte:

“i processi penali nei confronti dei soggetti che rivestono la qualità di Presidente della Repubblica, di Presidente del Senato della Repubblica, di Presidente della Camera dei deputati e di Presidente del Consiglio dei ministri sono sospesi dalla data di assunzione e fino alla cessazione della carica o della funzione. La sospensione è applicata anche ai processi penali per fatti antecedenti l’assunzione della carica o della funzione”

Em bom português: os processos penais contra o Primeiro-ministro e outras altas funções do Estado são suspensos por todo o período de exercício dessas funções. A suspensão também se aplica aos processos relativos a factos anteriores à data de início das funções.

O que quer dizer que o Sr Berlusconi, enquanto Primeiro-ministro, poderia passear a sua imunidade face a crimes de corrupção cometidos nos anos 90 (caso da tomada de controlo do grupo editorial Mondadori). Utilizo o condicional porque o Tribunal Constitucional acaba de declarar inconstitucional a dita “Lodo Alfano”, pelo que, o Sr Berlusconi ficará (ficaria?) finalmente exposto ao veredicto da Justiça, como acontece com qualquer cidadão, tal veredicto sendo o de "criminioso". O argumento (básico) do Tribunal Constitucional para chumbar aquela legislação consiste no imperativo de assegurar a igualdade de todos os cidadãos perante a Lei. Pena é que tenham levado tanto tempo a chegar a tal conclusão, depois de a “Lodo Alfano” ter sido assinada pelo próprio Presidente da República, Giorgio Napolitano, em Julho de 2008 !...

Num país normal, o Primeiro-ministro já se tinha demitido há muito tempo. Em Itália e com um “simpático” e "colorido" energúmeno como Berlusconi, tudo é possível. O dito-cujo disse ontem, excitadíssimo, perante as câmaras da televisão que iria reagir e que os italianos iriam saber mais uma vez de que “pasta” é feito Berlusconi.

Que anomalia!

quarta-feira, outubro 07, 2009

Outono

Queria que o Outono não me entrasse assim nas veias, tão pardo e tão viscoso.
As folhas começam a cobrir a minha coragem de uma cor desmaiada.
Vem-me um cansaço tenaz que se enrola nos braços e nas pernas, que amolece os músculos e oprime o peito.
Daqui a pouco, entro na lógica da estação e sobretudo da sobrevivência.

[Prometo que esta melancolia não durará muito mais. Já está quase a acabar e ainda agora começou...]

E tudo passará com a normalidade dos dias escuros até à Primavera.

terça-feira, outubro 06, 2009

A história que se repete

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem idéias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, 1896.

domingo, outubro 04, 2009

Os 60 anos da Revolução Chinesa


Os homens e as nações não são anjos.

As pessoas são genuinamente boas ou são boas porque têm a perder se forem más?

Sobretudo na política internacional o que prevalece é a lógica dos interesses, por mais folclore que se faça com os valores.

Tudo isto para dizer que este é um debate tão velho como a Humanidade e para introduzir o tema do poder crescente da China e da potencial ameaça que representa para a paz mundial. A China é muito grande, demasiado grande. Não foi problema enquanto continuou fraca e isolada ao ritmo de "Revoluções Culturais" e de "Saltos em Frente" que reforçaram a ditadura maoista e empobreceram o país. Mas, agora a China está a enriquecer a olhos vistos e a dotar-se de tecnologias e poderio militar que podem nutrir a ilusão sempre perigosa do expansionismo, no meio de um Capitalismo Monopolista de Estado alicerçado numa corrupção tentacular. A inexistência de democracia e a propaganda nacionalista que doutrina o povo chinês desde a mais tenra idade, são factores que tornam essa tendência mais preocupante. Por enquanto, o que predomina é a teoria da defesa, isto é, os chineses estarão bem preparados para enfrentar qualquer agressão externa, para não deixar repetir o que fizeram os japoneses nos anos 40 do século passado. No entanto, poderá chegar a hora em que a oligarquia considere que o país tem suficiente poder para não perder a guerra, ou que o saldo entre ganhos e perdas de uma guerra lhe poderá ser benéfico.

Filme baseado numa obra do Prémio Nobel J.M. Coetzee que se situa no cruzamento de três eixos: o pós-apartheid na África do Sul, o envelhecimento trágico de um professor de literatura (representado pelo sempre intrigante John Malkovich) e uma relação espessa entre o dito professor e a filha (interpretada por Jessica Heines) que se sente obrigada a pagar dívidas ancestrais com o próprio corpo.