sexta-feira, dezembro 12, 2008

Coisas de indústria / política

O Sr Francisco Van Zeller, Presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, veio ontem à televisão dizer que a situação económica é preocupante, mas não tanto assim porque foi conversar com o Primeiro-ministro que lhe assegurou que em 2008 não houve recessão. Portanto, ele - o Sr Francisco Van Zeller - saiu da reunião muito mais descansado. Podem ter a certeza que não estou a inventar. Foi isto que o Sr de nome flamengo e sotaque de Cascais disse perante as câmaras da TV. Dada a verosimilhança com que o Presidente dos industriais portugueses botou palavra, fiquei só com uma dúvida: ou é pateta ou estava a gozar com o Eng° Sócrates...

Outro que me impressionou ontem na Grande Entrevista pelo compromisso que já começa a fazer entre a demagogia cada vez menos trauliteira e o discurso sinuoso de quem snoba o poder sem conseguir esconder uma enorme vontade de o abocanhar foi Francisco Louçã. Aos poucos, vai-se tornando politicamente correcto para conquistar votos numa esquerda urbana e putativamente culta que está farta do poder "socialista".

domingo, dezembro 07, 2008

Excessos de voluntarismo

Todos ou quase todos os governos da União Europeia andam hiper-activos contra a recessão. Nunca se viu tanto voluntarismo e tanta pressa para evitar os efeitos da dita cuja. Mas, a economia tem as suas leis, decerto volúveis porque dependem das decisões de milhões de agentes. De cada vez que se tenta ir contra a evidência da economia e não se respeita a sua dinâmica fundamental, o que resulta são excessos que alguém pagará, mais tarde ou mais cedo. Não existe economia capitalista sem ciclos. Negá-los é artificial e na prática conduz à sua amplificação, no curto prazo, e à redução do potencial de crescimento, a longo prazo. Quer isto dizer que o Estado se deve abster completamente de lutar contra a crise? Não diria tanto... Que Keynes e os keynesianos de todas as cores me perdoem. Mas, é preciso uma intervenção ponderada e selectiva. Não se deve despejar milhões de euros nos sectores e actividades mais díspares, impulsivamente e à pressa. Nestas circunstâncias quem mais beneficia é quem se organiza melhor para expor os próprios argumentos, da forma mais convincente e junto das esferas mais oportunas do poder. A euforia e a omnipotência que se auto-atribuem os políticos não são de bom augúrio nestes tempos.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Ontologias

Gostava de falar sobre alguém que me tivesse marcado.
Para além do meu pai não vejo grande coisa e não quero falar do meu pai.
O mundo anda vazio de Pessoas e cheio de egos.
Egos enormes que confundem a eternidade com o fazer.
Não apetece ser ninguém.
E ser nós próprios nem sempre é evidente porque pesa muito.

terça-feira, novembro 25, 2008

Ainda o BPN

O famigerado Banco Insular e as off-shores não foram a causa do descalabro do BPN. Foram os truques principais para esconder as consequências de uma gestão ruinosa. Na origem terá estado aventureirismo, incompetência e autocracia. A partir do momento em que as perdas começaram a explodir, recorreu-se a expedientes para as disfarçar e porventura para salvar alguns interesses pessoais. Ninguém compreendia como é que o BPN podia remunerar os depósitos tão generosamente e como é que emprestava dinheiro com tanta facilidade e a taxas tão baixas. Olhava-se com cepticismo os investimentos disparatados do grupo em áreas tão longínquas do negócio bancário como vinhos, hotelaria, aviação ou pintura... Os accionistas e depositantes não se podem queixar da falta de sintomas de que ali havia mistério há muito tempo. E muito menos o supervisor que se estriba por detrás do argumento de que as irregularidades eram tão bem ocultadas que nem os auditores as cheiravam. Diz tautologicamente o supervisor: não podia ver nem agir sobre o que era escondido de forma criminosa. Penoso!

sábado, novembro 22, 2008

Um desabafo de crise

Depois dos disparates de financeiros e políticos,
depois da sensação espúria de invencibilidade de alguns,
depois da levitação de outros,
depois da rotina da esmagadora maioria,
depois do proverbial sofrimento dos do costume,
depois da soberba e da arrogância dos que quiseram controlar o destino dos outros com a pressão de um botão,
depois da mediocridade dos que julgam ser mais do que são e do que alguma vez podem vir a ser...

depois disso tudo...

eclodiu a recessão na mais descarada versão do que se adivinhava.

E com a recessão, os ratos fogem dos navios que se afundam,
a podridão que se escondia por detrás de vergonhosas opulências vem ao de cima e cheira mal que tresanda,
sofrem os do costume (mas mais do que antes),
enervam-se os que receiam que o fogo lhes chegue aos fundilhos.

E há muito nervosismo, stress, hiper-actividade, voluntarismo, impaciência, sofreguidão. Tudo para fugir ao tsunami da crise ou para lhe barrar o caminho. Sobra em iniciativas peregrinas o que falta em lucidez e ponderação e, assim, o resultado será provavelmente o inverso do que se pretende, isto é, agravar a crise, acalmá-la com paliativos que se revelarão talvez letais quando a situação se tornar, de novo, mais curial.

sábado, novembro 15, 2008

O mercado do crédito

É difícil encontrar dinheiro para financiar a longo prazo o investimento. Essencialmente, porque a poupança tem aversão ao risco, porque existe pouca visibilidade em relação ao médio/longo prazo, porque os bancos têm o capital empenhado na cobertura das perdas decorrentes da "exuberância" dos últimos anos, porque há muitas instituições financeiras curtas de liquidez. O resultado de tudo isto é que os compromissos tendem a ser de curto prazo e as margens de risco atingem níveis muito elevados, tornando o financiamento caro, pese embora a redução das taxas de base ou "risk free".

Para ajudar os sistemas financeiros, os Estados lançaram vários mecanismos de garantia da dívida privada (sobretudo dos bancos). Mas, isso desvia a poupança - actualmente muito avessa ao risco - para essas aplicações. Não haveria problema se, por sua vez, os bancos canalizassem esse "funding", em condições razoáveis, para os investimentos reais. Mas, os bancos utilizam o dinheiro para reparar os danos do passado e para não faltar aos compromissos que assumiram. Estamos portanto numa fase transitória de morosidade do circuito do crédito que torna problemático o financiamento de grandes projectos úteis para modernizar a economia, combater a recessão e... ganhar eleições. E não se pense que esta conjuntura é específica de Portugal.

sábado, novembro 08, 2008

Obama e a mudança

Obama foi eleito e foi óptimo porque os Republicanos seriam piores, porque é de côr, porque as pessoas andam a precisar de esperança, porque W. Bush foi mau de mais.

Mas, Obama inscreve-se num sistema que não mudará. Apesar de todos os "Yes we can!". Podemos o quê? E quem somos nós?

Obama parece ser uma daquelas injecções de humanidade de que o capitalismo precisa, de vez em quando, para temperar os seus "excessos". Portanto, Obama é essencial para recolocar o capitalismo nos carris até ao próximo clamoroso desvio. O problema do capitalismo (e de todos os "ismos") são as "excepções" que a realidade impõe aos excelentes princípios dos compêndios. Então diz-se: o que é mau não é o sistema, em si mesmo, mas a maneira como é aplicado ou pervertido. E ficamos muito gratos e satisfeitíssimos com a explicação...

Se Obama fosse assassinado, transformar-se-ia num mito, como aconteceu com outras notáveis personagens ao longo da História. Toda a gente passaria o resto da vida a imaginar como teria sido magnífico o mundo sob a batuta de Obama. Mas - como desejo - Obama viverá muitos anos e o mundo não mudará e ele continuará no poder até à próxima grande crise ou até ao próximo grande escandalo. Porque o mundo muda, mas muda muito lentamente sob o efeito da acção de milhões e milhões de seres humanos, apesar de todas as vertigens tecnológicas. Sobretudo, o mundo não muda sob o efeito de qualquer moderno Messias.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Poder

O Poder não se conquista - merece-se.
O Poder não se perde - dá-se.

terça-feira, novembro 04, 2008

BPN

Só mesmo o Banco de Portugal é que não via, nem sabia. Faz lembrar os cornudos mansos... Há anos que a política desastrosa de crédito e de investimento do BPN era objecto de galhofa...

É lamentável que o banco central não exerça (ou exerça mal) uma das últimas competências que lhe restam - a de supervisão do sistema bancário. E depois, aquele Presidente, macro-economista emérito, hirto e inamovível nas suas certezas euclidianas, que assiste impávido ao fogo que se propaga, refugiando-se em declarações tautológicas.

E não me venham dizer que o BP apenas agiu quando devia agir, com base em provas irrefutáveis. É como tratar um doente quando ele está tão mal, tão mal que só falta a certidão de óbito. Nesse caso para que serve o médico que não seja legista?

domingo, novembro 02, 2008

Blindness


Uma excelente adaptação ao cinema, por Fernando Meirelles (realizador de "Constant Gardner" e de "Cidade de Deus"), daquela que, na minha opinião, é a melhor obra de José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira".
É um filme duro em que a realidade é vista em branco, um branco aterrador.
É preciso cegar para ver a imundice do mundo? Que não seja preciso cegar para ver e para mudar.
Clicar no título.

sábado, novembro 01, 2008

1 de Novembro


Quem te manda desafiar a evidência do azul do céu,
o frio da água do mar no Inverno,
a força do vento que vem de cima dos montes.

Quem te obriga a fazer a paz entre a tua verdade e a mentira,
para sobreviver.

Que rendição é essa de continuar apenas à tona...

Que poeira é essa que cobre os corredores do poder
e que torna tudo obscuro,
na horrível simplicidade dos interesses.

Em que cofre meteram a paixão e a loucura que nunca deixaram de existir.

Porque a vida nunca deixou de existir
por mais que a queiram disfarçar de morte bem educada.

A vida não é heroísmo cansado nem promessa de flores murchas, cheias de saudades.

segunda-feira, outubro 27, 2008

"Cântico negro" de José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!

Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!

segunda-feira, outubro 20, 2008

domingo, outubro 19, 2008

2009, já !

Ainda não chegámos ao fim de 2008, mas atrevo-me a fazer algumas conjecturas sobre o ano político e económico de 2009. Vai ser um ano de excitação e de hiper-actividade do PS porque as eleições vão ser mais do que muitas e urge mostrar obra para demover eleitores hesitantes. Os partidos da oposição, particularmente à direita, estarão em maus lençóis, também por causa da crise económica que servirá de alibi oportuno ao governo para justificar todas as dificuldades e insucessos. Mas, essa oposição de direita terá sobretudo de se queixar de si mesma, da sua falta de liderança e de criatividade. A fase do ciclo eleitoral em que entramos determinará de forma decisiva o andamento da economia. A trangressão da disciplina orçamental será razoavelmente tolerada para impulsionar a economia numa fase de recessão, o que dará jeito para "comprar" votos. Por isso, multiplicar-se-ão os concursos de obras públicas e as inaugurações. Não será mau, pelo menos no curto prazo, para todos aqueles que de outro modo estariam no desemprego. Resta saber se a coisa é sustentável e quem pagará a factura a médio/longo prazo. Os economistas dirão que tudo dependerá da rendibilidade dessas despesas...

quarta-feira, outubro 15, 2008

segunda-feira, outubro 13, 2008

Krugman

Foi com grande prazer que tive conhecimento hoje da escolha de Paul Krugman para Prémio Nobel da Economia deste ano. Neo-keynesiano, especialista em Economia Internacional, Krugman é um tipo brilhante e intelectualmente honesto, professor de Princeton, que disse sempre o que pensava, correndo o risco de ser inconveniente. Publicou em 1996 um dos melhores livros de divulgação de Economia que alguma vez li: "Pop Internationalism". Um livro fascinante que se devora e que faz gostar de uma disciplina tantas vezes árida e reduzida a banalidades com pretensão científica ou a frases obscuras e incompreensíveis para membros de uma espécie de seita. Krugman é um Professor no verdadeiro sentido da palavra: torna o complicado simples, desmonta os sofismas mais arreigados e as patetices mais sagradas. Não se refugia naquela linguagem esotérica com que os economistas se dão ares de gente superior. Leiam também, por exemplo, um dos seus últimos livros: "The Conscience of a Liberal" (2007).

domingo, outubro 12, 2008

Vicki


Mais uma versão das acrobacias psicanalíticas de Woody Allen. Desta vez, a diferença são Javier Bardem, Scarlett Johansson e Penélope Cruz. A ver, com moderação... Clicar no título.

sábado, outubro 11, 2008

Da recessão aos impérios

Que eu saiba os biliões que têm sido anunciados pelas autoridades não correspondem a aumento da massa monetária, interna aos países ocidentais. Trata-se essencialmente de transferência ou redistribuição de uma liquidez que, de outra maneira, não circularia (nos tempos que correm, ninguém empresta a ninguém... salvo ao Estado): crédito assumido pelo sector público junto de investidores (instituições financeiras, empresas, particulares) para transferência para os mesmos ou diferentes agentes do sector privado. O que se verifica é a assumpção de risco (sistémico) pelos Estados, o que faz parte integrante das suas atribuições.

Retomo a equação de Fisher que ilustra a teoria quantitativa da moeda: simplesmente, M.V = P.T, em que M é a massa monetária, V é a velocidade de circulação da massa monetária, P o nível de preços e T o valor em termos reais das transacções numa economia. A minha tese é a de que M manter-se-á constante: o dinheiro não se volatilizou nem está a ser criado de forma significativa. V tem diminuido drasticamente, havendo mesmo casos anedóticos de entesouramento. O que as autoridades estão a tentar fazer é recuperar V, isto é, meter de novo a massa monetária em circulação, para moderar o impacto negativo sobre os preços (P) e/ou sobre as transações reais (T). Portanto, o risco será deflacionista em vez de inflacionista. Tanto mais que os mercados não têm a rigidez de outros tempos, pelo que, um excesso de oferta associado à recessão iminente traduzir-se-à mais directamente numa desacelaração (ou queda) dos preços.

Esta minha tese poderá ser algo contrariada por um outro fenómeno que a meu ver está em pleno desenvolvimento à escala global: a transferência de liquidez de Oriente para Ocidente. Os bancos centrais dos países emergentes e dos produtores das matérias-primas cujos preços têm aumentado nos últimos tempos, têm excesso de cash, sobretudo dólares. Estão a utilizar essas divisas para comprar títulos de dívida pública emitidos pelos países ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, o que tapa o buraco no curto / médio prazo, podendo efectivamente provocar um aumento da massa monetária no Ocidente. Mas, na minha modesta opinião, esse efeito será mais de amortecimento das tendências deflacionistas latentes do que de alimentação da inflação. Quer dizer, a minha suposição é de que a situação não será semelhante à dos petrodólares nos anos 70.

Por outro lado, esta transferência de poupança coloca sérias questões quanto à solvabilidade dos devedores... Se o Ocidente não pagar os empréstimos que estão a ser concedidos pelo Oriente a dívida deverá talvez converter-se em... equity. Para evitar a falência! Mas, isso quer dizer a compra do Ocidente pelo Oriente. E caimos nas teses maximalistas segundo as quais o que se está a passar é um episódio da mudança do centro de gravidade do mundo ou da sucessão dos impérios...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Wall street caiu hoje mais 7%...


NEW YORK – A late afternoon rout pushed U.S. stocks further into the red as fears that the financial crisis will drag the nation into a prolonged recession led to a massive scramble to sell.

In an afternoon sell-off that pushed the Dow Jones Industrial Average down more than 600 points, financial and energy stocks led the declines. On trading floors throughout Wall Street, the mood has moved past panic as large and small clients have flooded brokerages with sell orders and pushed to get out of their equities portfolios. "We are so jammed right now," said a trader...

Entre les murs


Um filme - vencedor da Palma de Ouro do festival de Cannes 2008 - sobre o calvário dos professores numa escola secundária de um bairro difícil. A não perder! Clicar no título.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Mais uma vez a crise - mensagem cínica de tranquilidade...

Acho que os Estados andam a fazer o que podem. Nem sempre da maneira mais curial. Mas, finalmente, meteram-se de acordo - à escala global e concertadamente - para agir contra a crise financeira, baixando as taxas de juro de 0.5%. Isso facilitará o acesso dos bancos ao financiamento em última instância junto dos bancos centrais e, sobretudo, enviará sinais de controlo da situação pelas autoridades. O que, ao mesmo tempo, quer dizer que existiria um verdadeiro risco de descontrolo, o que não é nada tranquilizante... Essa medida veio somar-se a outras, mais heróicas, como a garantia dos depósitos, a nacionalização dos bancos ou a criação de fundos para a compra, acima de um putativo valor de mercado, de activos "tóxicos"...

O que os Estados deviam mesmo fazer era deixar cair quem se portou mal ou foi imprevidente ou cúmplice. Isto é: fazer pagar os responsáveis pelo caos ambiente: prioritariamente, gestores e accionistas, mas também credores menos avisados. Esse comportamento perfeitamente justo, porém, poderia ter efeitos devastadores. As falências sucessivas de bancos de grande envergadura que foram mal geridos iriam provocar um efeito em cadeia de dimensões colossais, pondo em causa todo o sistema. Fazendo o que deveriam fazer, portanto, as autoridades estariam a multiplicar as vítimas inocentes. Isto significa que, na prática, os bancos têm um poder enorme. Têm os Estados na mão. Podem fazer quase o que lhes apetece porque se a coisa der para o torto haverá sempre o socorro dos contribuintes. A famosa nacionalização das perdas sem pôr em causa a privatização dos lucros.

Ou seja, a actividade bancária tem um efeito sistémico tal, contribui de maneira tão crítica para o funcionamento de toda a economia que se pode considerar um autêntico serviço público. Assim, ou deveria ser detida e/ou gerida pelo Estado ou, pelo menos, sujeita a uma regulação estrita, aos níveis nacional e internacional. Mas nunca ser predominantemente privada e, ao mesmo tempo, não regulada ou deficientemente regulada. Foi a simultaneidade dessas situações que agravou os problemas mais fundamentais do sobre-investimento e da especulação. Porque essas são as verdadeiras raízes do mal.

Um "mal" que, no fim de contas, se chama "natureza intrinsecamente cíclica do capitalismo". E enquanto houver capitalismo haverá ciclos económicos, com expansão e recessão, com crises e momentos de euforia. Esses altos e baixos são, por vezes, exorbitados. Por exemplo, pelos excessos de ganância, pela criatividade e sofisticação de certas categorias de agentes económicos, pelo absentismo ou pela negligência das autoridades, até por fenómenos naturais excepcionais...

Acho que o pânico vai passar, haverá uma recessão, o desemprego aumentará, as taxas de juros vão baixar, o preço dos activos tocará no fundo até que... o ciclo se inverterá. Como a ganância tem alguma memória, apesar de curta, as pessoas e as instituições vão-se portar bem durante algum tempo. As feridas das maluquices dos últimos anos ainda não estarão cicatrizadas. Mas, depois da internet e do imobiliário, uma nova bolha surgirá daqui a alguns anos e tudo recomeçará.

Dito tudo isto, talvez seja tempo de fazer bons negócios... se se tiver dinheiro a mais, uma saudável dose de "irresponsabilidade" e paciência. Por exemplo, há acções de grandes bancos que se desvalorizaram nos últimos dias mais de 70%. Compre-se agora, suponha-se que esses bancos não vão ao colapso e daqui a uns meses, as mais-valias poderão ser substanciais. De resto, por isto mesmo, até talvez nem seja mau negócio para os Estados (e, portanto, para os contribuintes) entrarem agora no capital dos bancos (com a vantagem adicional de estabilizar o sistema).

terça-feira, outubro 07, 2008

Crash


A situação é má na esfera financeira e a contaminação da economia real já se verifica. O problema é europeu e global e as derrapagens nacionalistas só agravam a situação. Como li na revista "The Economist" desta semana, falando-se de bancos, o chavão "too big to fail" pode realmente transformar-se em "too big to save"...

Acho que nos tempos actuais a chamada "insider information" conta muito mais do que a análise financeira trimestral ou os relatórios das "research desks" ou das agências de rating... Portanto, todas as informações sobre a actividade do dia-a-dia das empresas e dos bancos serão importantes para não se ser apanhado desprevenido, evitando, porém, as atoardas e a psicose do rumor.

Deve-se, sobretudo, fazer votos de que o pessimismo e a desconfiança toquem no fundo e de que as expectativas se invertam o mais rapidamente possivel, sendo certo que - no entretanto - haverá ainda mais "casualties". Há um problema real provocado pela "exuberância" dos últimos anos, mas também há um problema de espiral de expectativas negativas (como sempre nestas situações) que espero se resolva com o soprar de autênticas notícias menos más.

domingo, outubro 05, 2008

Elegy


Um filme a ver, com Penelope Cruz e Ben Kingsley. Em certos momentos faz lembrar "Love Story". Recordam-se? Anos 70...

sábado, outubro 04, 2008

Cosy capitalism

No contexto da actual crise, vivemos um período de renovação do debate sobre o papel do Estado na economia ou de ressureição de uma certa social-democracia, após a hegemonia do neo-liberalismo que tem poluido todos os quadrantes do espectro ideológico, desde a direita ao centro-esquerda.

O problema é que, particularmente na Europa, vivemos num "capitalismo de amigos" em que as ligações entre os mundos do Estado e do dinheiro são mais do que perigosas.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Economia e psicologia de "massas"

A situação actual nos mercados financeiros tem um fundamento real: a ganância e a soberba dos banqueiros, exorbitadas pela deficiente regulação das autoridades, conforme descrito em "posts" anteriores. Mas, para além disso, reflecte uma espiral de pessimismo e de desconfiança. A psicologia nestas circunstâncias é muito mais potente do que a economia, a tal ponto que se tornam verdadeiramente inextricáveis. A meu ver, a "coisa" deve ainda piorar antes de haver os primeiros sinais de retoma. O problema é que ninguém consegue adivinhar quanto mais deve ainda piorar... A única teoria que nestes casos funciona é a da "carneirada". Quando os carneiros se começarem a mexer todos na mesma (boa) direcção, isto é, a comprar activos hiper-desvalorizados, o ciclo repartirá em alta. No entretanto, recursos serão destruidos, muitas pessoas passarão dificuldades. E tudo por causa da euforia especulativa (Alan Greenspan chamava-lhe "exuberância") conjugada com uma maldita falta de confiança. Que "deus" nos ajude porque a técnica pode bem pouco...

Já agora, aconselho a leitura de "Uma Breve História da Euforia Financeira" escrito por um senhor chamado J.K. Galbraith. No século XVI especulava-se com... túlipas.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Pedro

Andávamos há muito tempo à procura de um dia para almoçar ou jantar juntos. Finalmente, conseguimos arranjar a data certa: jantar num restaurante italiano do centro. O Pedro é homem para 45-50 anos, viúvo há cerca de um ano. A mulher morreu de cancro ao fim de muito sofrimento, durante demasiado tempo. Tem uma filha que acabou este ano a licenciatura em Direito em Lisboa. Falámos de muita coisa mais ou menos trivial: trabalho, família, amigos, doenças, férias, etc. A certa altura, arrisquei um comentário mais pessoal. "Qualquer dia reconstruirás a tua vida. Encontrarás de novo uma pessoa que te faça feliz". "Sim, claro. Assim espero..." respondeu-me. "Apesar de, no meu caso, ser um bocado mais díficil". Fiquei algo perplexo, quase receoso do que podia seguir-se. "É que - tenho de confessar-te - sou homesexual. Digamos, bisexual. A minha mulher sabia desta situação que descobri há mais ou menos 10 anos. A minha filha também está ao corrente". Fiquei completamente desarmado. Estarrecido. Depois de mais alguma conversa de circunstância, "socialmente correcta", saí dali com pena dele. Com pena da tragédia daquela criatura. Porque me pareceu uma pessoa profundamente torturada...

domingo, setembro 21, 2008

Fireflies in the garden


Mais um filme sobre a espessura das relações familiares (num contexto algo particular) que vale a pena ver. Com Julia Roberts. Clicar no título.

Mudança de estação


Agrada-me

ouvir o estalido das folhas secas debaixo dos pés
o azul pálido do céu
o vento forte espalhando o Outono pelos campos

sábado, setembro 20, 2008

Sensações fortes em tempos perigosos

Por causa do "risco sistémico", as autoridades monetárias dos Estados Unidos e de outros países industrializados têm injectado biliões de dólares no sistema financeiro para evitar o colapso de instituições de primeira ordem o qual poderia provocar um efeito dominó de consequências imprevisíveis sobre a economia real, principalmente por causa da desconfiança generalizada de investidores, produtores e consumidores. De caminho, continua a alimentar-se o "moral hazard" segundo o qual, os senhores banqueiros podem permitir-se todo o tipo de excessos, dado que, mais tarde ou mais cedo, por causa do bendito "risco sistémico", os contribuintes virão sempre a pagar a factura. É, por exemplo, escandaloso que os presidentes de bancos em derrocada recebam bònus faraónicos no momento do "despedimento", como foi recentemente o caso de um senhor que "caiu em desgraça" e levou para casa um "prémio" de quase 170 milhões de dólares, qualquer coisa como 24 milhões de contos, ao cambio actual. Com "punições" destas, não admira que tantos outros estejam apenas à espera da estabilização da coisa para recomençar o festim.

E no entretanto, festejando a ajuda dos contribuintes, as Bolsas disparam como não se via há 20 anos. Because the show must go on...

Mas, cuidado porque o risco de colapso ainda não psssou, a volatilidade é mais do que muita e começa-se a falar de risco de insolvabilidade... dos Estados Unidos, com os spreads de risco sobre a dívida emitida pelo Estado Federal a dispararem e o rating da primeira potência sob ameaça.

É preciso também não esquecer que no tristemente célebre Outubro de 1929, a Bolsa também subiu em espiral poucos dias antes da hecatombe...