O Poder não se conquista - merece-se.
O Poder não se perde - dá-se.
quarta-feira, novembro 05, 2008
terça-feira, novembro 04, 2008
BPN
Só mesmo o Banco de Portugal é que não via, nem sabia. Faz lembrar os cornudos mansos... Há anos que a política desastrosa de crédito e de investimento do BPN era objecto de galhofa...
É lamentável que o banco central não exerça (ou exerça mal) uma das últimas competências que lhe restam - a de supervisão do sistema bancário. E depois, aquele Presidente, macro-economista emérito, hirto e inamovível nas suas certezas euclidianas, que assiste impávido ao fogo que se propaga, refugiando-se em declarações tautológicas.
E não me venham dizer que o BP apenas agiu quando devia agir, com base em provas irrefutáveis. É como tratar um doente quando ele está tão mal, tão mal que só falta a certidão de óbito. Nesse caso para que serve o médico que não seja legista?
É lamentável que o banco central não exerça (ou exerça mal) uma das últimas competências que lhe restam - a de supervisão do sistema bancário. E depois, aquele Presidente, macro-economista emérito, hirto e inamovível nas suas certezas euclidianas, que assiste impávido ao fogo que se propaga, refugiando-se em declarações tautológicas.
E não me venham dizer que o BP apenas agiu quando devia agir, com base em provas irrefutáveis. É como tratar um doente quando ele está tão mal, tão mal que só falta a certidão de óbito. Nesse caso para que serve o médico que não seja legista?
domingo, novembro 02, 2008
Blindness

Uma excelente adaptação ao cinema, por Fernando Meirelles (realizador de "Constant Gardner" e de "Cidade de Deus"), daquela que, na minha opinião, é a melhor obra de José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira".
É um filme duro em que a realidade é vista em branco, um branco aterrador.
É preciso cegar para ver a imundice do mundo? Que não seja preciso cegar para ver e para mudar.
Clicar no título.
sábado, novembro 01, 2008
1 de Novembro
Quem te manda desafiar a evidência do azul do céu,
o frio da água do mar no Inverno,
a força do vento que vem de cima dos montes.
Quem te obriga a fazer a paz entre a tua verdade e a mentira,
para sobreviver.
Que rendição é essa de continuar apenas à tona...
Que poeira é essa que cobre os corredores do poder
e que torna tudo obscuro,
na horrível simplicidade dos interesses.
Em que cofre meteram a paixão e a loucura que nunca deixaram de existir.
Porque a vida nunca deixou de existir
por mais que a queiram disfarçar de morte bem educada.
A vida não é heroísmo cansado nem promessa de flores murchas, cheias de saudades.
segunda-feira, outubro 27, 2008
"Cântico negro" de José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
segunda-feira, outubro 20, 2008
domingo, outubro 19, 2008
2009, já !
Ainda não chegámos ao fim de 2008, mas atrevo-me a fazer algumas conjecturas sobre o ano político e económico de 2009. Vai ser um ano de excitação e de hiper-actividade do PS porque as eleições vão ser mais do que muitas e urge mostrar obra para demover eleitores hesitantes. Os partidos da oposição, particularmente à direita, estarão em maus lençóis, também por causa da crise económica que servirá de alibi oportuno ao governo para justificar todas as dificuldades e insucessos. Mas, essa oposição de direita terá sobretudo de se queixar de si mesma, da sua falta de liderança e de criatividade. A fase do ciclo eleitoral em que entramos determinará de forma decisiva o andamento da economia. A trangressão da disciplina orçamental será razoavelmente tolerada para impulsionar a economia numa fase de recessão, o que dará jeito para "comprar" votos. Por isso, multiplicar-se-ão os concursos de obras públicas e as inaugurações. Não será mau, pelo menos no curto prazo, para todos aqueles que de outro modo estariam no desemprego. Resta saber se a coisa é sustentável e quem pagará a factura a médio/longo prazo. Os economistas dirão que tudo dependerá da rendibilidade dessas despesas...
quarta-feira, outubro 15, 2008
segunda-feira, outubro 13, 2008
Krugman
Foi com grande prazer que tive conhecimento hoje da escolha de Paul Krugman para Prémio Nobel da Economia deste ano. Neo-keynesiano, especialista em Economia Internacional, Krugman é um tipo brilhante e intelectualmente honesto, professor de Princeton, que disse sempre o que pensava, correndo o risco de ser inconveniente. Publicou em 1996 um dos melhores livros de divulgação de Economia que alguma vez li: "Pop Internationalism". Um livro fascinante que se devora e que faz gostar de uma disciplina tantas vezes árida e reduzida a banalidades com pretensão científica ou a frases obscuras e incompreensíveis para membros de uma espécie de seita. Krugman é um Professor no verdadeiro sentido da palavra: torna o complicado simples, desmonta os sofismas mais arreigados e as patetices mais sagradas. Não se refugia naquela linguagem esotérica com que os economistas se dão ares de gente superior. Leiam também, por exemplo, um dos seus últimos livros: "The Conscience of a Liberal" (2007).
domingo, outubro 12, 2008
Vicki
sábado, outubro 11, 2008
Da recessão aos impérios
Que eu saiba os biliões que têm sido anunciados pelas autoridades não correspondem a aumento da massa monetária, interna aos países ocidentais. Trata-se essencialmente de transferência ou redistribuição de uma liquidez que, de outra maneira, não circularia (nos tempos que correm, ninguém empresta a ninguém... salvo ao Estado): crédito assumido pelo sector público junto de investidores (instituições financeiras, empresas, particulares) para transferência para os mesmos ou diferentes agentes do sector privado. O que se verifica é a assumpção de risco (sistémico) pelos Estados, o que faz parte integrante das suas atribuições.
Retomo a equação de Fisher que ilustra a teoria quantitativa da moeda: simplesmente, M.V = P.T, em que M é a massa monetária, V é a velocidade de circulação da massa monetária, P o nível de preços e T o valor em termos reais das transacções numa economia. A minha tese é a de que M manter-se-á constante: o dinheiro não se volatilizou nem está a ser criado de forma significativa. V tem diminuido drasticamente, havendo mesmo casos anedóticos de entesouramento. O que as autoridades estão a tentar fazer é recuperar V, isto é, meter de novo a massa monetária em circulação, para moderar o impacto negativo sobre os preços (P) e/ou sobre as transações reais (T). Portanto, o risco será deflacionista em vez de inflacionista. Tanto mais que os mercados não têm a rigidez de outros tempos, pelo que, um excesso de oferta associado à recessão iminente traduzir-se-à mais directamente numa desacelaração (ou queda) dos preços.
Esta minha tese poderá ser algo contrariada por um outro fenómeno que a meu ver está em pleno desenvolvimento à escala global: a transferência de liquidez de Oriente para Ocidente. Os bancos centrais dos países emergentes e dos produtores das matérias-primas cujos preços têm aumentado nos últimos tempos, têm excesso de cash, sobretudo dólares. Estão a utilizar essas divisas para comprar títulos de dívida pública emitidos pelos países ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, o que tapa o buraco no curto / médio prazo, podendo efectivamente provocar um aumento da massa monetária no Ocidente. Mas, na minha modesta opinião, esse efeito será mais de amortecimento das tendências deflacionistas latentes do que de alimentação da inflação. Quer dizer, a minha suposição é de que a situação não será semelhante à dos petrodólares nos anos 70.
Por outro lado, esta transferência de poupança coloca sérias questões quanto à solvabilidade dos devedores... Se o Ocidente não pagar os empréstimos que estão a ser concedidos pelo Oriente a dívida deverá talvez converter-se em... equity. Para evitar a falência! Mas, isso quer dizer a compra do Ocidente pelo Oriente. E caimos nas teses maximalistas segundo as quais o que se está a passar é um episódio da mudança do centro de gravidade do mundo ou da sucessão dos impérios...
Retomo a equação de Fisher que ilustra a teoria quantitativa da moeda: simplesmente, M.V = P.T, em que M é a massa monetária, V é a velocidade de circulação da massa monetária, P o nível de preços e T o valor em termos reais das transacções numa economia. A minha tese é a de que M manter-se-á constante: o dinheiro não se volatilizou nem está a ser criado de forma significativa. V tem diminuido drasticamente, havendo mesmo casos anedóticos de entesouramento. O que as autoridades estão a tentar fazer é recuperar V, isto é, meter de novo a massa monetária em circulação, para moderar o impacto negativo sobre os preços (P) e/ou sobre as transações reais (T). Portanto, o risco será deflacionista em vez de inflacionista. Tanto mais que os mercados não têm a rigidez de outros tempos, pelo que, um excesso de oferta associado à recessão iminente traduzir-se-à mais directamente numa desacelaração (ou queda) dos preços.
Esta minha tese poderá ser algo contrariada por um outro fenómeno que a meu ver está em pleno desenvolvimento à escala global: a transferência de liquidez de Oriente para Ocidente. Os bancos centrais dos países emergentes e dos produtores das matérias-primas cujos preços têm aumentado nos últimos tempos, têm excesso de cash, sobretudo dólares. Estão a utilizar essas divisas para comprar títulos de dívida pública emitidos pelos países ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, o que tapa o buraco no curto / médio prazo, podendo efectivamente provocar um aumento da massa monetária no Ocidente. Mas, na minha modesta opinião, esse efeito será mais de amortecimento das tendências deflacionistas latentes do que de alimentação da inflação. Quer dizer, a minha suposição é de que a situação não será semelhante à dos petrodólares nos anos 70.
Por outro lado, esta transferência de poupança coloca sérias questões quanto à solvabilidade dos devedores... Se o Ocidente não pagar os empréstimos que estão a ser concedidos pelo Oriente a dívida deverá talvez converter-se em... equity. Para evitar a falência! Mas, isso quer dizer a compra do Ocidente pelo Oriente. E caimos nas teses maximalistas segundo as quais o que se está a passar é um episódio da mudança do centro de gravidade do mundo ou da sucessão dos impérios...
quinta-feira, outubro 09, 2008
Wall street caiu hoje mais 7%...

NEW YORK – A late afternoon rout pushed U.S. stocks further into the red as fears that the financial crisis will drag the nation into a prolonged recession led to a massive scramble to sell.
In an afternoon sell-off that pushed the Dow Jones Industrial Average down more than 600 points, financial and energy stocks led the declines. On trading floors throughout Wall Street, the mood has moved past panic as large and small clients have flooded brokerages with sell orders and pushed to get out of their equities portfolios. "We are so jammed right now," said a trader...
Entre les murs
quarta-feira, outubro 08, 2008
Mais uma vez a crise - mensagem cínica de tranquilidade...
Acho que os Estados andam a fazer o que podem. Nem sempre da maneira mais curial. Mas, finalmente, meteram-se de acordo - à escala global e concertadamente - para agir contra a crise financeira, baixando as taxas de juro de 0.5%. Isso facilitará o acesso dos bancos ao financiamento em última instância junto dos bancos centrais e, sobretudo, enviará sinais de controlo da situação pelas autoridades. O que, ao mesmo tempo, quer dizer que existiria um verdadeiro risco de descontrolo, o que não é nada tranquilizante... Essa medida veio somar-se a outras, mais heróicas, como a garantia dos depósitos, a nacionalização dos bancos ou a criação de fundos para a compra, acima de um putativo valor de mercado, de activos "tóxicos"...
O que os Estados deviam mesmo fazer era deixar cair quem se portou mal ou foi imprevidente ou cúmplice. Isto é: fazer pagar os responsáveis pelo caos ambiente: prioritariamente, gestores e accionistas, mas também credores menos avisados. Esse comportamento perfeitamente justo, porém, poderia ter efeitos devastadores. As falências sucessivas de bancos de grande envergadura que foram mal geridos iriam provocar um efeito em cadeia de dimensões colossais, pondo em causa todo o sistema. Fazendo o que deveriam fazer, portanto, as autoridades estariam a multiplicar as vítimas inocentes. Isto significa que, na prática, os bancos têm um poder enorme. Têm os Estados na mão. Podem fazer quase o que lhes apetece porque se a coisa der para o torto haverá sempre o socorro dos contribuintes. A famosa nacionalização das perdas sem pôr em causa a privatização dos lucros.
Ou seja, a actividade bancária tem um efeito sistémico tal, contribui de maneira tão crítica para o funcionamento de toda a economia que se pode considerar um autêntico serviço público. Assim, ou deveria ser detida e/ou gerida pelo Estado ou, pelo menos, sujeita a uma regulação estrita, aos níveis nacional e internacional. Mas nunca ser predominantemente privada e, ao mesmo tempo, não regulada ou deficientemente regulada. Foi a simultaneidade dessas situações que agravou os problemas mais fundamentais do sobre-investimento e da especulação. Porque essas são as verdadeiras raízes do mal.
Um "mal" que, no fim de contas, se chama "natureza intrinsecamente cíclica do capitalismo". E enquanto houver capitalismo haverá ciclos económicos, com expansão e recessão, com crises e momentos de euforia. Esses altos e baixos são, por vezes, exorbitados. Por exemplo, pelos excessos de ganância, pela criatividade e sofisticação de certas categorias de agentes económicos, pelo absentismo ou pela negligência das autoridades, até por fenómenos naturais excepcionais...
Acho que o pânico vai passar, haverá uma recessão, o desemprego aumentará, as taxas de juros vão baixar, o preço dos activos tocará no fundo até que... o ciclo se inverterá. Como a ganância tem alguma memória, apesar de curta, as pessoas e as instituições vão-se portar bem durante algum tempo. As feridas das maluquices dos últimos anos ainda não estarão cicatrizadas. Mas, depois da internet e do imobiliário, uma nova bolha surgirá daqui a alguns anos e tudo recomeçará.
Dito tudo isto, talvez seja tempo de fazer bons negócios... se se tiver dinheiro a mais, uma saudável dose de "irresponsabilidade" e paciência. Por exemplo, há acções de grandes bancos que se desvalorizaram nos últimos dias mais de 70%. Compre-se agora, suponha-se que esses bancos não vão ao colapso e daqui a uns meses, as mais-valias poderão ser substanciais. De resto, por isto mesmo, até talvez nem seja mau negócio para os Estados (e, portanto, para os contribuintes) entrarem agora no capital dos bancos (com a vantagem adicional de estabilizar o sistema).
O que os Estados deviam mesmo fazer era deixar cair quem se portou mal ou foi imprevidente ou cúmplice. Isto é: fazer pagar os responsáveis pelo caos ambiente: prioritariamente, gestores e accionistas, mas também credores menos avisados. Esse comportamento perfeitamente justo, porém, poderia ter efeitos devastadores. As falências sucessivas de bancos de grande envergadura que foram mal geridos iriam provocar um efeito em cadeia de dimensões colossais, pondo em causa todo o sistema. Fazendo o que deveriam fazer, portanto, as autoridades estariam a multiplicar as vítimas inocentes. Isto significa que, na prática, os bancos têm um poder enorme. Têm os Estados na mão. Podem fazer quase o que lhes apetece porque se a coisa der para o torto haverá sempre o socorro dos contribuintes. A famosa nacionalização das perdas sem pôr em causa a privatização dos lucros.
Ou seja, a actividade bancária tem um efeito sistémico tal, contribui de maneira tão crítica para o funcionamento de toda a economia que se pode considerar um autêntico serviço público. Assim, ou deveria ser detida e/ou gerida pelo Estado ou, pelo menos, sujeita a uma regulação estrita, aos níveis nacional e internacional. Mas nunca ser predominantemente privada e, ao mesmo tempo, não regulada ou deficientemente regulada. Foi a simultaneidade dessas situações que agravou os problemas mais fundamentais do sobre-investimento e da especulação. Porque essas são as verdadeiras raízes do mal.
Um "mal" que, no fim de contas, se chama "natureza intrinsecamente cíclica do capitalismo". E enquanto houver capitalismo haverá ciclos económicos, com expansão e recessão, com crises e momentos de euforia. Esses altos e baixos são, por vezes, exorbitados. Por exemplo, pelos excessos de ganância, pela criatividade e sofisticação de certas categorias de agentes económicos, pelo absentismo ou pela negligência das autoridades, até por fenómenos naturais excepcionais...
Acho que o pânico vai passar, haverá uma recessão, o desemprego aumentará, as taxas de juros vão baixar, o preço dos activos tocará no fundo até que... o ciclo se inverterá. Como a ganância tem alguma memória, apesar de curta, as pessoas e as instituições vão-se portar bem durante algum tempo. As feridas das maluquices dos últimos anos ainda não estarão cicatrizadas. Mas, depois da internet e do imobiliário, uma nova bolha surgirá daqui a alguns anos e tudo recomeçará.
Dito tudo isto, talvez seja tempo de fazer bons negócios... se se tiver dinheiro a mais, uma saudável dose de "irresponsabilidade" e paciência. Por exemplo, há acções de grandes bancos que se desvalorizaram nos últimos dias mais de 70%. Compre-se agora, suponha-se que esses bancos não vão ao colapso e daqui a uns meses, as mais-valias poderão ser substanciais. De resto, por isto mesmo, até talvez nem seja mau negócio para os Estados (e, portanto, para os contribuintes) entrarem agora no capital dos bancos (com a vantagem adicional de estabilizar o sistema).
terça-feira, outubro 07, 2008
Crash

A situação é má na esfera financeira e a contaminação da economia real já se verifica. O problema é europeu e global e as derrapagens nacionalistas só agravam a situação. Como li na revista "The Economist" desta semana, falando-se de bancos, o chavão "too big to fail" pode realmente transformar-se em "too big to save"...
Acho que nos tempos actuais a chamada "insider information" conta muito mais do que a análise financeira trimestral ou os relatórios das "research desks" ou das agências de rating... Portanto, todas as informações sobre a actividade do dia-a-dia das empresas e dos bancos serão importantes para não se ser apanhado desprevenido, evitando, porém, as atoardas e a psicose do rumor.
Deve-se, sobretudo, fazer votos de que o pessimismo e a desconfiança toquem no fundo e de que as expectativas se invertam o mais rapidamente possivel, sendo certo que - no entretanto - haverá ainda mais "casualties". Há um problema real provocado pela "exuberância" dos últimos anos, mas também há um problema de espiral de expectativas negativas (como sempre nestas situações) que espero se resolva com o soprar de autênticas notícias menos más.
domingo, outubro 05, 2008
Elegy
Um filme a ver, com Penelope Cruz e Ben Kingsley. Em certos momentos faz lembrar "Love Story". Recordam-se? Anos 70...
sábado, outubro 04, 2008
Cosy capitalism
No contexto da actual crise, vivemos um período de renovação do debate sobre o papel do Estado na economia ou de ressureição de uma certa social-democracia, após a hegemonia do neo-liberalismo que tem poluido todos os quadrantes do espectro ideológico, desde a direita ao centro-esquerda.
O problema é que, particularmente na Europa, vivemos num "capitalismo de amigos" em que as ligações entre os mundos do Estado e do dinheiro são mais do que perigosas.
O problema é que, particularmente na Europa, vivemos num "capitalismo de amigos" em que as ligações entre os mundos do Estado e do dinheiro são mais do que perigosas.
quarta-feira, outubro 01, 2008
segunda-feira, setembro 29, 2008
Economia e psicologia de "massas"
A situação actual nos mercados financeiros tem um fundamento real: a ganância e a soberba dos banqueiros, exorbitadas pela deficiente regulação das autoridades, conforme descrito em "posts" anteriores. Mas, para além disso, reflecte uma espiral de pessimismo e de desconfiança. A psicologia nestas circunstâncias é muito mais potente do que a economia, a tal ponto que se tornam verdadeiramente inextricáveis. A meu ver, a "coisa" deve ainda piorar antes de haver os primeiros sinais de retoma. O problema é que ninguém consegue adivinhar quanto mais deve ainda piorar... A única teoria que nestes casos funciona é a da "carneirada". Quando os carneiros se começarem a mexer todos na mesma (boa) direcção, isto é, a comprar activos hiper-desvalorizados, o ciclo repartirá em alta. No entretanto, recursos serão destruidos, muitas pessoas passarão dificuldades. E tudo por causa da euforia especulativa (Alan Greenspan chamava-lhe "exuberância") conjugada com uma maldita falta de confiança. Que "deus" nos ajude porque a técnica pode bem pouco...
Já agora, aconselho a leitura de "Uma Breve História da Euforia Financeira" escrito por um senhor chamado J.K. Galbraith. No século XVI especulava-se com... túlipas.
Já agora, aconselho a leitura de "Uma Breve História da Euforia Financeira" escrito por um senhor chamado J.K. Galbraith. No século XVI especulava-se com... túlipas.
quarta-feira, setembro 24, 2008
Pedro
Andávamos há muito tempo à procura de um dia para almoçar ou jantar juntos. Finalmente, conseguimos arranjar a data certa: jantar num restaurante italiano do centro. O Pedro é homem para 45-50 anos, viúvo há cerca de um ano. A mulher morreu de cancro ao fim de muito sofrimento, durante demasiado tempo. Tem uma filha que acabou este ano a licenciatura em Direito em Lisboa. Falámos de muita coisa mais ou menos trivial: trabalho, família, amigos, doenças, férias, etc. A certa altura, arrisquei um comentário mais pessoal. "Qualquer dia reconstruirás a tua vida. Encontrarás de novo uma pessoa que te faça feliz". "Sim, claro. Assim espero..." respondeu-me. "Apesar de, no meu caso, ser um bocado mais díficil". Fiquei algo perplexo, quase receoso do que podia seguir-se. "É que - tenho de confessar-te - sou homesexual. Digamos, bisexual. A minha mulher sabia desta situação que descobri há mais ou menos 10 anos. A minha filha também está ao corrente". Fiquei completamente desarmado. Estarrecido. Depois de mais alguma conversa de circunstância, "socialmente correcta", saí dali com pena dele. Com pena da tragédia daquela criatura. Porque me pareceu uma pessoa profundamente torturada...
domingo, setembro 21, 2008
Fireflies in the garden
Mudança de estação
sábado, setembro 20, 2008
Sensações fortes em tempos perigosos
Por causa do "risco sistémico", as autoridades monetárias dos Estados Unidos e de outros países industrializados têm injectado biliões de dólares no sistema financeiro para evitar o colapso de instituições de primeira ordem o qual poderia provocar um efeito dominó de consequências imprevisíveis sobre a economia real, principalmente por causa da desconfiança generalizada de investidores, produtores e consumidores. De caminho, continua a alimentar-se o "moral hazard" segundo o qual, os senhores banqueiros podem permitir-se todo o tipo de excessos, dado que, mais tarde ou mais cedo, por causa do bendito "risco sistémico", os contribuintes virão sempre a pagar a factura. É, por exemplo, escandaloso que os presidentes de bancos em derrocada recebam bònus faraónicos no momento do "despedimento", como foi recentemente o caso de um senhor que "caiu em desgraça" e levou para casa um "prémio" de quase 170 milhões de dólares, qualquer coisa como 24 milhões de contos, ao cambio actual. Com "punições" destas, não admira que tantos outros estejam apenas à espera da estabilização da coisa para recomençar o festim.
E no entretanto, festejando a ajuda dos contribuintes, as Bolsas disparam como não se via há 20 anos. Because the show must go on...
Mas, cuidado porque o risco de colapso ainda não psssou, a volatilidade é mais do que muita e começa-se a falar de risco de insolvabilidade... dos Estados Unidos, com os spreads de risco sobre a dívida emitida pelo Estado Federal a dispararem e o rating da primeira potência sob ameaça.
É preciso também não esquecer que no tristemente célebre Outubro de 1929, a Bolsa também subiu em espiral poucos dias antes da hecatombe...
E no entretanto, festejando a ajuda dos contribuintes, as Bolsas disparam como não se via há 20 anos. Because the show must go on...
Mas, cuidado porque o risco de colapso ainda não psssou, a volatilidade é mais do que muita e começa-se a falar de risco de insolvabilidade... dos Estados Unidos, com os spreads de risco sobre a dívida emitida pelo Estado Federal a dispararem e o rating da primeira potência sob ameaça.
É preciso também não esquecer que no tristemente célebre Outubro de 1929, a Bolsa também subiu em espiral poucos dias antes da hecatombe...
quarta-feira, setembro 17, 2008
A paródia do ciclo económico
Os problemas dos banqueiros são menores em comparação com os problemas da gente comum. Os problemas dos banqueiros resultam essencialmente da ganância e da soberba, da mania de dominar o mundo com uma chamada telefónica ou com o premir de uma tecla. Muitos banqueiros são megalómanos. Sobe-lhes à cabeça a vertigem dos milhões e atingem uma sensação perigosa de omnipotência. Os problemas dos banqueiros tornam-se preocupantes quando se traduzem na desgraça da gente comum que cai na conversa do enriquecimento quase instantâneo. Os banqueiros alimentam a ficção de que o limite é apenas o céu. E os pobres tornar-se-iam ricos com o toque de uma varinha mágica que se chama crédito fácil. E transformam esses créditos (a gente que se sabe não ter capacidade de os pagar) em fabulosos activos financeiros que geram rendimentos do arco da velha. E a coisa funciona enquanto toda a gente continua a acreditar na canção do bandido. Até que um dia, um número razoável de crentes começa a fazer contas (as verdadeiras, terrivelmente simples) e a observar a realidade com as cores que ela deveras tem e, vai daí, a procura baixa e os preços fundem-se como manteiga ao sol. E a malta em geral fica incrédula e os banqueiros deixam de contar com a roleta das expectativas cor de rosa e pedem os créditos de volta que os pobres devedores não conseguem pagar e, portanto, os banqueiros não conseguem pagar a quem lhes comprou os maravilhosos activos financeiros. Estes últimos - os proclamados investidores - deixam de alimentar a festa e provocam a falência dos banqueiros, o que agrava ainda mais a crise de confiança. Toda a gente quer "cash" - nada de crédito. Mas, sem crédito a economia não roda, o investimento não se faz e a gente comum trama-se. Mas, o fascinante mercado, o caótico mercado que tanto sofrimento provocou tem uma fantástica capacidade de auto-regeneração. Mais tarde ou mais cedo - e quanto mais tarde, mais sofrem os incautos - os preços atingem um nível tão baixo que só podem recomeçar a subir. Um número razoável de almas põe-se então a comprar ao desbarato na esperança de fazer excelentes negócios e a música recomeça até aos próximos desbragados excessos que provocarão de novo a desconfiança e o trambolhão dos mercados. No meio disto tudo, há uns políticos equipados de alguma técnica que se armam em reguladores ou disciplinadores da ganância e que tentam meter um bocado de ordem na entropia mercantil. Mas, o mercado é devorador e criativo, encontrando sempre maneiras de driblar as autoridades e de dar livre curso às suas diatribes. E no meio de toda esta excitação da montanha russa capitalista, há ricos que ficam cada vez mais ricos, pobres que continuam pobres ou que ficam cada vez mais pobres (seguramente, porque são burros!), ricos que ficam pobres (seguramente, porque são burros!) e remediados que se mantêm no balanço (seguramente, porque são umas almas de deus).
sábado, agosto 30, 2008
Curtas e directas
Há países de malas feitas.
Apesar de ser um problema muito menos dramático do que a miséria, estou cada vez mais convencido de que há um nível de riqueza material a partir do qual as qualidades humanas e a vida em sociedade se degradam a olhos vistos.
Há cada vez mais mulheres secas e cheias de si mesmas.
Há pessoas para as quais a diferença entre uma radiosa felicidade e um catastrófico desgosto é mais fina do que o mais fino dos cabelos.
Um dos livros que mais se vende actualmente em França chama-se "Manual da Manipulação".
Quando o poder é um objectivo em si mesmo conduz à transgressão de princípios. Mas, o poder também pode ser um instrumento para aplicar princípios.
Apesar de ser um problema muito menos dramático do que a miséria, estou cada vez mais convencido de que há um nível de riqueza material a partir do qual as qualidades humanas e a vida em sociedade se degradam a olhos vistos.
Há cada vez mais mulheres secas e cheias de si mesmas.
Há pessoas para as quais a diferença entre uma radiosa felicidade e um catastrófico desgosto é mais fina do que o mais fino dos cabelos.
Um dos livros que mais se vende actualmente em França chama-se "Manual da Manipulação".
Quando o poder é um objectivo em si mesmo conduz à transgressão de princípios. Mas, o poder também pode ser um instrumento para aplicar princípios.
sexta-feira, agosto 29, 2008
Chips
É evidente que os chips nos carros antecipam e facilitam a transformação das SCUTs em portagens reais... Clicar no título !
quinta-feira, agosto 28, 2008
quarta-feira, agosto 27, 2008
Fait-divers
João convidou Manuel para passar o fim-de-semana na casa da praia. Manuel chega e encontra de facto muito mais do que João: os primos de João e, sobretudo, a prima Blanca. Blanca começa a entrar na fase em que fica tarde de mais para casar e ter filhos. Manuel percebe finalmente que João ajuda a prima, organizando desfiles de candidatos a marido e fica estarrecido por ter sido considerado elegível... Apesar do dote, beleza e simpatia de Blanca. Manuel sentiu-se personagem de um filme sobre o acasalamento de famílias nobres do século XIX.
A vida é colorida, tem destas banalidades e corre depressa, pensa Manuel com um sorriso amarelo.
A vida é colorida, tem destas banalidades e corre depressa, pensa Manuel com um sorriso amarelo.
segunda-feira, agosto 25, 2008
quinta-feira, agosto 21, 2008
O regresso da Guerra Fria
O que se tem passado na Geórgia é um episódio da reedição da Guerra Fria. Os americanos querem entrar na vizinhança do ex-império soviético. O acordo assinado ontem com a Polónia para instalar mísseis naquele país, alegadamente para contra-atacar mísseis iranianos, é um outro exemplo. Essas tentativas naturalmente deixam os russos nervosos. Eles, por sua vez, querem reconstituir, sob a égide de uma nova e poderosa Rússia, o antigo império dos sovietes. Têm a força dos preços altos da energia e das matérias-primas (de que são grandes produtores) pelo seu lado, bem como uma liderança forte e agressiva de um senhor chamado Putin que se tem sentado à mesa das grandes democracias mais por conveniência táctica do que por genuína adesão.
O pateta do presidente da Geórgia pôs-se em bicos dos pés (talvez com o beneplácito dos Estados Unidos de que é um peão...) ao invadir a Ossétia do Sul para tentar desesperadamente evitar ou adiar o inevitável. Com isso deu um pretexto aos russos para fazer o que há muito lhes apetecia: marcar claramente o seu poder no território e em toda a região. A Abekázia pode seguir-se, reduzindo ainda mais a superfície da Geórgia.
O precedente do Kosovo é eloquente. Um território de um país, dominado por uma etnia em dissidência com o resto desse país, pode reivindicar a independência. Até se fazem eleições, naturalmente ganhas pelos separatistas maioritários, e depois tem de se proceder a uma purga étnica, mais ou menos “pacífica”, para assegurar a tranquilidade e a pureza da etnia dominante. Na Ossétia do Sul e na Abekázia, a população maioritariamente amiga da Rússia vai de certeza votar a favor da separação em relação à Geórgia e os defensores da democracia terão bem pouco a dizer…
Com democracias fracas - que se sucedem a ditaduras - e com a globalização, as Nações tendem a reivindicar um Estado. Diferentes Nações podem conviver sob um mesmo Estado se este for forte (o que pode ser compatível com uma democracia eficiente) e se existir uma certa continuidade ou consenso cultural e político no âmbito de um certo território, requisito fundamental para manter a solidariedade entre diferentes comunidades.
Aos aspectos políticos somam-se as considerações económicas que aliás marcam sempre as disputas pela hegemonia. Pela Ossétia do Sul e pela Abekázia passam gasodutos e oleodutos estratégicos para encaminhar a energia da Rússia para os mercados de exportação…
O pateta do presidente da Geórgia pôs-se em bicos dos pés (talvez com o beneplácito dos Estados Unidos de que é um peão...) ao invadir a Ossétia do Sul para tentar desesperadamente evitar ou adiar o inevitável. Com isso deu um pretexto aos russos para fazer o que há muito lhes apetecia: marcar claramente o seu poder no território e em toda a região. A Abekázia pode seguir-se, reduzindo ainda mais a superfície da Geórgia.
O precedente do Kosovo é eloquente. Um território de um país, dominado por uma etnia em dissidência com o resto desse país, pode reivindicar a independência. Até se fazem eleições, naturalmente ganhas pelos separatistas maioritários, e depois tem de se proceder a uma purga étnica, mais ou menos “pacífica”, para assegurar a tranquilidade e a pureza da etnia dominante. Na Ossétia do Sul e na Abekázia, a população maioritariamente amiga da Rússia vai de certeza votar a favor da separação em relação à Geórgia e os defensores da democracia terão bem pouco a dizer…
Com democracias fracas - que se sucedem a ditaduras - e com a globalização, as Nações tendem a reivindicar um Estado. Diferentes Nações podem conviver sob um mesmo Estado se este for forte (o que pode ser compatível com uma democracia eficiente) e se existir uma certa continuidade ou consenso cultural e político no âmbito de um certo território, requisito fundamental para manter a solidariedade entre diferentes comunidades.
Aos aspectos políticos somam-se as considerações económicas que aliás marcam sempre as disputas pela hegemonia. Pela Ossétia do Sul e pela Abekázia passam gasodutos e oleodutos estratégicos para encaminhar a energia da Rússia para os mercados de exportação…
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