sábado, outubro 11, 2008

Da recessão aos impérios

Que eu saiba os biliões que têm sido anunciados pelas autoridades não correspondem a aumento da massa monetária, interna aos países ocidentais. Trata-se essencialmente de transferência ou redistribuição de uma liquidez que, de outra maneira, não circularia (nos tempos que correm, ninguém empresta a ninguém... salvo ao Estado): crédito assumido pelo sector público junto de investidores (instituições financeiras, empresas, particulares) para transferência para os mesmos ou diferentes agentes do sector privado. O que se verifica é a assumpção de risco (sistémico) pelos Estados, o que faz parte integrante das suas atribuições.

Retomo a equação de Fisher que ilustra a teoria quantitativa da moeda: simplesmente, M.V = P.T, em que M é a massa monetária, V é a velocidade de circulação da massa monetária, P o nível de preços e T o valor em termos reais das transacções numa economia. A minha tese é a de que M manter-se-á constante: o dinheiro não se volatilizou nem está a ser criado de forma significativa. V tem diminuido drasticamente, havendo mesmo casos anedóticos de entesouramento. O que as autoridades estão a tentar fazer é recuperar V, isto é, meter de novo a massa monetária em circulação, para moderar o impacto negativo sobre os preços (P) e/ou sobre as transações reais (T). Portanto, o risco será deflacionista em vez de inflacionista. Tanto mais que os mercados não têm a rigidez de outros tempos, pelo que, um excesso de oferta associado à recessão iminente traduzir-se-à mais directamente numa desacelaração (ou queda) dos preços.

Esta minha tese poderá ser algo contrariada por um outro fenómeno que a meu ver está em pleno desenvolvimento à escala global: a transferência de liquidez de Oriente para Ocidente. Os bancos centrais dos países emergentes e dos produtores das matérias-primas cujos preços têm aumentado nos últimos tempos, têm excesso de cash, sobretudo dólares. Estão a utilizar essas divisas para comprar títulos de dívida pública emitidos pelos países ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, o que tapa o buraco no curto / médio prazo, podendo efectivamente provocar um aumento da massa monetária no Ocidente. Mas, na minha modesta opinião, esse efeito será mais de amortecimento das tendências deflacionistas latentes do que de alimentação da inflação. Quer dizer, a minha suposição é de que a situação não será semelhante à dos petrodólares nos anos 70.

Por outro lado, esta transferência de poupança coloca sérias questões quanto à solvabilidade dos devedores... Se o Ocidente não pagar os empréstimos que estão a ser concedidos pelo Oriente a dívida deverá talvez converter-se em... equity. Para evitar a falência! Mas, isso quer dizer a compra do Ocidente pelo Oriente. E caimos nas teses maximalistas segundo as quais o que se está a passar é um episódio da mudança do centro de gravidade do mundo ou da sucessão dos impérios...

quinta-feira, outubro 09, 2008

Wall street caiu hoje mais 7%...


NEW YORK – A late afternoon rout pushed U.S. stocks further into the red as fears that the financial crisis will drag the nation into a prolonged recession led to a massive scramble to sell.

In an afternoon sell-off that pushed the Dow Jones Industrial Average down more than 600 points, financial and energy stocks led the declines. On trading floors throughout Wall Street, the mood has moved past panic as large and small clients have flooded brokerages with sell orders and pushed to get out of their equities portfolios. "We are so jammed right now," said a trader...

Entre les murs


Um filme - vencedor da Palma de Ouro do festival de Cannes 2008 - sobre o calvário dos professores numa escola secundária de um bairro difícil. A não perder! Clicar no título.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Mais uma vez a crise - mensagem cínica de tranquilidade...

Acho que os Estados andam a fazer o que podem. Nem sempre da maneira mais curial. Mas, finalmente, meteram-se de acordo - à escala global e concertadamente - para agir contra a crise financeira, baixando as taxas de juro de 0.5%. Isso facilitará o acesso dos bancos ao financiamento em última instância junto dos bancos centrais e, sobretudo, enviará sinais de controlo da situação pelas autoridades. O que, ao mesmo tempo, quer dizer que existiria um verdadeiro risco de descontrolo, o que não é nada tranquilizante... Essa medida veio somar-se a outras, mais heróicas, como a garantia dos depósitos, a nacionalização dos bancos ou a criação de fundos para a compra, acima de um putativo valor de mercado, de activos "tóxicos"...

O que os Estados deviam mesmo fazer era deixar cair quem se portou mal ou foi imprevidente ou cúmplice. Isto é: fazer pagar os responsáveis pelo caos ambiente: prioritariamente, gestores e accionistas, mas também credores menos avisados. Esse comportamento perfeitamente justo, porém, poderia ter efeitos devastadores. As falências sucessivas de bancos de grande envergadura que foram mal geridos iriam provocar um efeito em cadeia de dimensões colossais, pondo em causa todo o sistema. Fazendo o que deveriam fazer, portanto, as autoridades estariam a multiplicar as vítimas inocentes. Isto significa que, na prática, os bancos têm um poder enorme. Têm os Estados na mão. Podem fazer quase o que lhes apetece porque se a coisa der para o torto haverá sempre o socorro dos contribuintes. A famosa nacionalização das perdas sem pôr em causa a privatização dos lucros.

Ou seja, a actividade bancária tem um efeito sistémico tal, contribui de maneira tão crítica para o funcionamento de toda a economia que se pode considerar um autêntico serviço público. Assim, ou deveria ser detida e/ou gerida pelo Estado ou, pelo menos, sujeita a uma regulação estrita, aos níveis nacional e internacional. Mas nunca ser predominantemente privada e, ao mesmo tempo, não regulada ou deficientemente regulada. Foi a simultaneidade dessas situações que agravou os problemas mais fundamentais do sobre-investimento e da especulação. Porque essas são as verdadeiras raízes do mal.

Um "mal" que, no fim de contas, se chama "natureza intrinsecamente cíclica do capitalismo". E enquanto houver capitalismo haverá ciclos económicos, com expansão e recessão, com crises e momentos de euforia. Esses altos e baixos são, por vezes, exorbitados. Por exemplo, pelos excessos de ganância, pela criatividade e sofisticação de certas categorias de agentes económicos, pelo absentismo ou pela negligência das autoridades, até por fenómenos naturais excepcionais...

Acho que o pânico vai passar, haverá uma recessão, o desemprego aumentará, as taxas de juros vão baixar, o preço dos activos tocará no fundo até que... o ciclo se inverterá. Como a ganância tem alguma memória, apesar de curta, as pessoas e as instituições vão-se portar bem durante algum tempo. As feridas das maluquices dos últimos anos ainda não estarão cicatrizadas. Mas, depois da internet e do imobiliário, uma nova bolha surgirá daqui a alguns anos e tudo recomeçará.

Dito tudo isto, talvez seja tempo de fazer bons negócios... se se tiver dinheiro a mais, uma saudável dose de "irresponsabilidade" e paciência. Por exemplo, há acções de grandes bancos que se desvalorizaram nos últimos dias mais de 70%. Compre-se agora, suponha-se que esses bancos não vão ao colapso e daqui a uns meses, as mais-valias poderão ser substanciais. De resto, por isto mesmo, até talvez nem seja mau negócio para os Estados (e, portanto, para os contribuintes) entrarem agora no capital dos bancos (com a vantagem adicional de estabilizar o sistema).

terça-feira, outubro 07, 2008

Crash


A situação é má na esfera financeira e a contaminação da economia real já se verifica. O problema é europeu e global e as derrapagens nacionalistas só agravam a situação. Como li na revista "The Economist" desta semana, falando-se de bancos, o chavão "too big to fail" pode realmente transformar-se em "too big to save"...

Acho que nos tempos actuais a chamada "insider information" conta muito mais do que a análise financeira trimestral ou os relatórios das "research desks" ou das agências de rating... Portanto, todas as informações sobre a actividade do dia-a-dia das empresas e dos bancos serão importantes para não se ser apanhado desprevenido, evitando, porém, as atoardas e a psicose do rumor.

Deve-se, sobretudo, fazer votos de que o pessimismo e a desconfiança toquem no fundo e de que as expectativas se invertam o mais rapidamente possivel, sendo certo que - no entretanto - haverá ainda mais "casualties". Há um problema real provocado pela "exuberância" dos últimos anos, mas também há um problema de espiral de expectativas negativas (como sempre nestas situações) que espero se resolva com o soprar de autênticas notícias menos más.

domingo, outubro 05, 2008

Elegy


Um filme a ver, com Penelope Cruz e Ben Kingsley. Em certos momentos faz lembrar "Love Story". Recordam-se? Anos 70...

sábado, outubro 04, 2008

Cosy capitalism

No contexto da actual crise, vivemos um período de renovação do debate sobre o papel do Estado na economia ou de ressureição de uma certa social-democracia, após a hegemonia do neo-liberalismo que tem poluido todos os quadrantes do espectro ideológico, desde a direita ao centro-esquerda.

O problema é que, particularmente na Europa, vivemos num "capitalismo de amigos" em que as ligações entre os mundos do Estado e do dinheiro são mais do que perigosas.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Economia e psicologia de "massas"

A situação actual nos mercados financeiros tem um fundamento real: a ganância e a soberba dos banqueiros, exorbitadas pela deficiente regulação das autoridades, conforme descrito em "posts" anteriores. Mas, para além disso, reflecte uma espiral de pessimismo e de desconfiança. A psicologia nestas circunstâncias é muito mais potente do que a economia, a tal ponto que se tornam verdadeiramente inextricáveis. A meu ver, a "coisa" deve ainda piorar antes de haver os primeiros sinais de retoma. O problema é que ninguém consegue adivinhar quanto mais deve ainda piorar... A única teoria que nestes casos funciona é a da "carneirada". Quando os carneiros se começarem a mexer todos na mesma (boa) direcção, isto é, a comprar activos hiper-desvalorizados, o ciclo repartirá em alta. No entretanto, recursos serão destruidos, muitas pessoas passarão dificuldades. E tudo por causa da euforia especulativa (Alan Greenspan chamava-lhe "exuberância") conjugada com uma maldita falta de confiança. Que "deus" nos ajude porque a técnica pode bem pouco...

Já agora, aconselho a leitura de "Uma Breve História da Euforia Financeira" escrito por um senhor chamado J.K. Galbraith. No século XVI especulava-se com... túlipas.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Pedro

Andávamos há muito tempo à procura de um dia para almoçar ou jantar juntos. Finalmente, conseguimos arranjar a data certa: jantar num restaurante italiano do centro. O Pedro é homem para 45-50 anos, viúvo há cerca de um ano. A mulher morreu de cancro ao fim de muito sofrimento, durante demasiado tempo. Tem uma filha que acabou este ano a licenciatura em Direito em Lisboa. Falámos de muita coisa mais ou menos trivial: trabalho, família, amigos, doenças, férias, etc. A certa altura, arrisquei um comentário mais pessoal. "Qualquer dia reconstruirás a tua vida. Encontrarás de novo uma pessoa que te faça feliz". "Sim, claro. Assim espero..." respondeu-me. "Apesar de, no meu caso, ser um bocado mais díficil". Fiquei algo perplexo, quase receoso do que podia seguir-se. "É que - tenho de confessar-te - sou homesexual. Digamos, bisexual. A minha mulher sabia desta situação que descobri há mais ou menos 10 anos. A minha filha também está ao corrente". Fiquei completamente desarmado. Estarrecido. Depois de mais alguma conversa de circunstância, "socialmente correcta", saí dali com pena dele. Com pena da tragédia daquela criatura. Porque me pareceu uma pessoa profundamente torturada...

domingo, setembro 21, 2008

Fireflies in the garden


Mais um filme sobre a espessura das relações familiares (num contexto algo particular) que vale a pena ver. Com Julia Roberts. Clicar no título.

Mudança de estação


Agrada-me

ouvir o estalido das folhas secas debaixo dos pés
o azul pálido do céu
o vento forte espalhando o Outono pelos campos

sábado, setembro 20, 2008

Sensações fortes em tempos perigosos

Por causa do "risco sistémico", as autoridades monetárias dos Estados Unidos e de outros países industrializados têm injectado biliões de dólares no sistema financeiro para evitar o colapso de instituições de primeira ordem o qual poderia provocar um efeito dominó de consequências imprevisíveis sobre a economia real, principalmente por causa da desconfiança generalizada de investidores, produtores e consumidores. De caminho, continua a alimentar-se o "moral hazard" segundo o qual, os senhores banqueiros podem permitir-se todo o tipo de excessos, dado que, mais tarde ou mais cedo, por causa do bendito "risco sistémico", os contribuintes virão sempre a pagar a factura. É, por exemplo, escandaloso que os presidentes de bancos em derrocada recebam bònus faraónicos no momento do "despedimento", como foi recentemente o caso de um senhor que "caiu em desgraça" e levou para casa um "prémio" de quase 170 milhões de dólares, qualquer coisa como 24 milhões de contos, ao cambio actual. Com "punições" destas, não admira que tantos outros estejam apenas à espera da estabilização da coisa para recomençar o festim.

E no entretanto, festejando a ajuda dos contribuintes, as Bolsas disparam como não se via há 20 anos. Because the show must go on...

Mas, cuidado porque o risco de colapso ainda não psssou, a volatilidade é mais do que muita e começa-se a falar de risco de insolvabilidade... dos Estados Unidos, com os spreads de risco sobre a dívida emitida pelo Estado Federal a dispararem e o rating da primeira potência sob ameaça.

É preciso também não esquecer que no tristemente célebre Outubro de 1929, a Bolsa também subiu em espiral poucos dias antes da hecatombe...

quarta-feira, setembro 17, 2008

A paródia do ciclo económico

Os problemas dos banqueiros são menores em comparação com os problemas da gente comum. Os problemas dos banqueiros resultam essencialmente da ganância e da soberba, da mania de dominar o mundo com uma chamada telefónica ou com o premir de uma tecla. Muitos banqueiros são megalómanos. Sobe-lhes à cabeça a vertigem dos milhões e atingem uma sensação perigosa de omnipotência. Os problemas dos banqueiros tornam-se preocupantes quando se traduzem na desgraça da gente comum que cai na conversa do enriquecimento quase instantâneo. Os banqueiros alimentam a ficção de que o limite é apenas o céu. E os pobres tornar-se-iam ricos com o toque de uma varinha mágica que se chama crédito fácil. E transformam esses créditos (a gente que se sabe não ter capacidade de os pagar) em fabulosos activos financeiros que geram rendimentos do arco da velha. E a coisa funciona enquanto toda a gente continua a acreditar na canção do bandido. Até que um dia, um número razoável de crentes começa a fazer contas (as verdadeiras, terrivelmente simples) e a observar a realidade com as cores que ela deveras tem e, vai daí, a procura baixa e os preços fundem-se como manteiga ao sol. E a malta em geral fica incrédula e os banqueiros deixam de contar com a roleta das expectativas cor de rosa e pedem os créditos de volta que os pobres devedores não conseguem pagar e, portanto, os banqueiros não conseguem pagar a quem lhes comprou os maravilhosos activos financeiros. Estes últimos - os proclamados investidores - deixam de alimentar a festa e provocam a falência dos banqueiros, o que agrava ainda mais a crise de confiança. Toda a gente quer "cash" - nada de crédito. Mas, sem crédito a economia não roda, o investimento não se faz e a gente comum trama-se. Mas, o fascinante mercado, o caótico mercado que tanto sofrimento provocou tem uma fantástica capacidade de auto-regeneração. Mais tarde ou mais cedo - e quanto mais tarde, mais sofrem os incautos - os preços atingem um nível tão baixo que só podem recomeçar a subir. Um número razoável de almas põe-se então a comprar ao desbarato na esperança de fazer excelentes negócios e a música recomeça até aos próximos desbragados excessos que provocarão de novo a desconfiança e o trambolhão dos mercados. No meio disto tudo, há uns políticos equipados de alguma técnica que se armam em reguladores ou disciplinadores da ganância e que tentam meter um bocado de ordem na entropia mercantil. Mas, o mercado é devorador e criativo, encontrando sempre maneiras de driblar as autoridades e de dar livre curso às suas diatribes. E no meio de toda esta excitação da montanha russa capitalista, há ricos que ficam cada vez mais ricos, pobres que continuam pobres ou que ficam cada vez mais pobres (seguramente, porque são burros!), ricos que ficam pobres (seguramente, porque são burros!) e remediados que se mantêm no balanço (seguramente, porque são umas almas de deus).

sábado, agosto 30, 2008

Curtas e directas

Há países de malas feitas.
Apesar de ser um problema muito menos dramático do que a miséria, estou cada vez mais convencido de que há um nível de riqueza material a partir do qual as qualidades humanas e a vida em sociedade se degradam a olhos vistos.
Há cada vez mais mulheres secas e cheias de si mesmas.
Há pessoas para as quais a diferença entre uma radiosa felicidade e um catastrófico desgosto é mais fina do que o mais fino dos cabelos.
Um dos livros que mais se vende actualmente em França chama-se "Manual da Manipulação".
Quando o poder é um objectivo em si mesmo conduz à transgressão de princípios. Mas, o poder também pode ser um instrumento para aplicar princípios.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Chips

É evidente que os chips nos carros antecipam e facilitam a transformação das SCUTs em portagens reais... Clicar no título !

quarta-feira, agosto 27, 2008

Fait-divers

João convidou Manuel para passar o fim-de-semana na casa da praia. Manuel chega e encontra de facto muito mais do que João: os primos de João e, sobretudo, a prima Blanca. Blanca começa a entrar na fase em que fica tarde de mais para casar e ter filhos. Manuel percebe finalmente que João ajuda a prima, organizando desfiles de candidatos a marido e fica estarrecido por ter sido considerado elegível... Apesar do dote, beleza e simpatia de Blanca. Manuel sentiu-se personagem de um filme sobre o acasalamento de famílias nobres do século XIX.

A vida é colorida, tem destas banalidades e corre depressa, pensa Manuel com um sorriso amarelo.

segunda-feira, agosto 25, 2008

quinta-feira, agosto 21, 2008

O regresso da Guerra Fria

O que se tem passado na Geórgia é um episódio da reedição da Guerra Fria. Os americanos querem entrar na vizinhança do ex-império soviético. O acordo assinado ontem com a Polónia para instalar mísseis naquele país, alegadamente para contra-atacar mísseis iranianos, é um outro exemplo. Essas tentativas naturalmente deixam os russos nervosos. Eles, por sua vez, querem reconstituir, sob a égide de uma nova e poderosa Rússia, o antigo império dos sovietes. Têm a força dos preços altos da energia e das matérias-primas (de que são grandes produtores) pelo seu lado, bem como uma liderança forte e agressiva de um senhor chamado Putin que se tem sentado à mesa das grandes democracias mais por conveniência táctica do que por genuína adesão.

O pateta do presidente da Geórgia pôs-se em bicos dos pés (talvez com o beneplácito dos Estados Unidos de que é um peão...) ao invadir a Ossétia do Sul para tentar desesperadamente evitar ou adiar o inevitável. Com isso deu um pretexto aos russos para fazer o que há muito lhes apetecia: marcar claramente o seu poder no território e em toda a região. A Abekázia pode seguir-se, reduzindo ainda mais a superfície da Geórgia.

O precedente do Kosovo é eloquente. Um território de um país, dominado por uma etnia em dissidência com o resto desse país, pode reivindicar a independência. Até se fazem eleições, naturalmente ganhas pelos separatistas maioritários, e depois tem de se proceder a uma purga étnica, mais ou menos “pacífica”, para assegurar a tranquilidade e a pureza da etnia dominante. Na Ossétia do Sul e na Abekázia, a população maioritariamente amiga da Rússia vai de certeza votar a favor da separação em relação à Geórgia e os defensores da democracia terão bem pouco a dizer…

Com democracias fracas - que se sucedem a ditaduras - e com a globalização, as Nações tendem a reivindicar um Estado. Diferentes Nações podem conviver sob um mesmo Estado se este for forte (o que pode ser compatível com uma democracia eficiente) e se existir uma certa continuidade ou consenso cultural e político no âmbito de um certo território, requisito fundamental para manter a solidariedade entre diferentes comunidades.

Aos aspectos políticos somam-se as considerações económicas que aliás marcam sempre as disputas pela hegemonia. Pela Ossétia do Sul e pela Abekázia passam gasodutos e oleodutos estratégicos para encaminhar a energia da Rússia para os mercados de exportação…

segunda-feira, agosto 18, 2008

Estou farto dos Jogos Olímpicos

Estou farto desta mania de ser "number one". Estou farto desta obsessão pela competição. Estou farto desta histeria pelo pódio. Não sou contra a procura da perfeição, sou a favor do esforço para se conseguir mais e melhor. Não sou dos que elegem a preguiça como o estado supremo da felicidade. Mas daí até ao masoquismo do sucesso mediatizado vai um grande passo. E ainda por cima quando a disputa é inter-nacional, quando o "brio e o profissionalismo" de cada um de nós dependem do número de medalhas dos nossos heróis em Pequim. É uma espécie de guerra doce a que desfila nos nossos ecrãs todos os dias. Imaginem a pressão que se abate sobre aqueles drogados do sucesso, as expectativas de milhões de anónimos cidadáos que se projectam nos super-homens e super-mulheres caçadores de efémeras medalhas que representam o culminar de sacrifícios inenarráveis. E só conta o primeiro... por alguns dias ou meses. Tudo o resto é lixo em horário nobre rapidamente substituido por telenovelas. A não ser que se trate de "gigantes" como Mark Spitz, Sergei Bubka ou Phelps, o devorador insaciável de medalhas, besta travestida de Humano do Colorado.

domingo, agosto 03, 2008

O ausente

Jovem casal. Bonitos. Bem dispostos. O bébé rosado, magnífico no carrinho ao lado, olhos regalados. Uma mulher mais velha observa a cena com desvelo, protecção, orgulho. A mulher mais velha parece um envelope. Falta ali um homem mais velho. Onde pára o homem mais velho? Nunca lá está! O homem mais velho anda desaparecido. Terá fugido... Em parte incerta. Desnecessário. Ausência oportuna.

sábado, julho 26, 2008

O Lobo (Antunes)


Cus de Judas, Memória de Elefante são títulos que ficaram inscritos na memória de muitos portugueses que se apaixonaram pela literatura como a interpretou A. Lobo Antunes. Lobo Antunes sublimou a experiência da guerra, a tristeza, a saudade e a perda como ninguém e durante anos teve a coragem de remar contra a maré e de não se vergar às promessas de incómios. Até aqui tudo bem.

Nos últimos anos, A. Lobo Antunes enveredou pela pesquisa literária, pela descoberta de arestas inéditas da lingua portuguesa, pelo afrontamento às normas do português escolar e escorreito. Daí resultaram os livros mais recentes que são simplesmente inacessíveis ou, pelo menos, de leitura hipnótica. A. Lobo Antunes escreve às toneladas pacotes de palavras por detrás das quais se escondem sentidos insondáveis.

E é em plena expansão desta fase que recebe o Prémio Camões, no meio de elogios rasgados dos Presidentes de Portugal e do Brasil. E confessa-se emocionado por receber o prémio e por ser português e por pertencer, finalmente, à galeria dos notáveis do regime. Porque, afinal de contas, também ele não resiste à vaidade dos fracos ou, numa versão alternativa mainstream, não tem vergonha da consagração da sua incontestável qualidade.

Só lhe fica a faltar mais um título que tem snobado e que teve dificuldade em reconhecer ao peito de Saramago: Prémio Nobel.

[carregar no título]

sexta-feira, julho 25, 2008

?!

Olhou na vidraça e viu uma sombra escarrada de gotas de chuva, imprecisa. O dia estava cinzento e a chuva mole dava cabo da mínima esperança. Sentiu-se preso no seu próprio corpo, paralisado por correntes invisíveis. Metamorfose. Na vidraça continuava aquela sombra que parecia pedir ajuda. Mas, fora, a rua estava deserta. Todos se tinham abrigado da chuva. Dentro apenas havia um velho relógio de parede que teimava num ritmo metálico. Maldita disciplina. Bateram horas. Não se sabe quantas nem é importante. Só a chuva contra a vidraça competia com o relógio... Até vir o sol de novo.

A pior prisão é a realidade, não o que dela imaginamos. A imaginação é livre e muda. A realidade é eterna, rochosa.

segunda-feira, julho 21, 2008

50000


Foi ontem ultrapassada a marca dos 50000 visitantes deste blog desde a sua criação, vai fazer 3 anos em Outubro. Não sei se é muito ou se é pouco. Parece-me, de qualquer maneira, uma audiência respeitável, considerando os inexistentes meios de propaganda e os conteúdos não necessariamente populares... E depois é um número redondo que se presta a comemorações, por mais simples que sejam.

domingo, julho 20, 2008

Little Miss Sunshine

Um filme tocante sobre os valores em voga e sobre o significado do sucesso. Vejam... se ainda não viram. Clicar no título para aguçar o apetite.

quarta-feira, julho 16, 2008

Berlusconi strikes again

Berlusconi encontrou a solução mágica para os problemas energéticos da Humanidade. Os principais países consumidores deveriam criar um cartel para fixar os preços máximos a que estariam dispostos a comprar o petróleo. Assim se oporiam ao cartel OPEP, introduzindo algum equilibrio num mercado até agora dominado pelos produtores. A outra solução seria um vasto programa de construção de centrais nucleares à escala mundial. Nisso parece não andar longe da ideia por cá hoje ventilada pelo seráfico governador do Banco de Portugal.

sábado, julho 12, 2008

Conteve a custo uma lágrima, tantas lágrimas.
Tanta generosidade desperdiçada.

A coisa está mesmo preta

Fannie Mae e Freddie Mac não são personagens de banda de desenhada. Infelizmente. São uma espécie de bancos com uma espécie de garantia do Governo dos Estados Unidos que ajudam as pessoas a obter empréstimos para comprar casa, dando garantias aos bancos credores, garantias essas que são por sua vez suportadas pela hipoteca das casas. Essas instituições têm um passivo total de mais de 5000 biliões de dólares, uma cifra colossal que corresponde a quase 40% do PIB dos EUA. O capital dessas "agências" é cotado em Bolsa e o preço das respectivas acções desceu, só na última semana, qualquer coisa como 45%. E isso aconteceu porque os investidores temem que a Fannie e a Freddie tenham problemas sérios de liquidez e que o valor real das hipotecas seja tal que a situação líquida dessas "agências" seja negativa, ou seja, o valor dos activos seja muito inferior ao valor das dívidas. Por outras palavras, receia-se que a Fannie e a Freddie se aproximem vertiginosamente da falência, o que seria uma autêntica catástrofe, provocando falências em cadeia no sistema bancário americano e mundial. Portanto, a "espécie de garantia" do Governo poderá ter de se transformar numa "autêntica garantia", o que corresponde em bom português a uma nacionalização. Mas, para além da heterodoxia da coisa no país arauto do livre-mercado, isso agravaria ainda mais as dificuldades dos Estados Unidos pois levaria a dívida pública para cima de 100% do PIB com tudo o que isso implica para as taxas de juro e de câmbio do dólar.

Esperemos que o mercado imobiliário recupere o mais rapidamente possivel para limpar as maluquices dos bancos dos últimos anos e que o nervosismo se mantenha em níveis "saudáveis". Senão...