domingo, junho 29, 2008

O ciclo dos sentimentos

NInguém se apaixona por uma realidade. As pessoas apaixonam-se pelo que da realidade querem ver, pela reconstrução da realidade que fazem. Por uma ficção que vai ao encontro da sua sensibilidade e das suas expectativas. Quando passam dessa fase delirante para a percepção pura e dura da realidade, as pessoas reagem de formas diferentes. Algumas caem na mais profunda desilusão e partem. Outras resignam-se e ficam. Tristes. Se possivel, serenamente tristes porque se rendem à fatalidade das coisas reais. Outras, mais raras, passam da paixão inicial a um sentimento mais tranquilo, mas igualmente envolvente e doce.

sábado, junho 28, 2008

O Dólar Americano

A coisa está grave. É mais grave do que se pensava. Uma única explicação é insuficiente. Há um conjunto de factores muito complexos que parecem actuar na mesma direcção, isto é, da perda de valor dos activos, da espiral dos preços de produtos de base e da queda da confiança. Mas, se há um factor estrutural que, na opinião de cada vez mais pessoas, está na base da actual situação, esse factor chama-se DÓLAR, o que corresponde a dizer: ECONOMIA AMERICANA com todos os seus excessos, de despesa, de dívida, de especulação.

A economia americana tem sido o motor da economia mundial, em parte financiada pela própria economia mundial (!), por causa do papel fundamental da sua divisa, a moeda de um império que estrebucha para manter a sua primazia. O dólar, para além de unidade de medida mais ou menos universal e de meio de pagamento, é também moeda de reserva mundial, o que significa que é aceite por todos como denominador comum da riqueza. A confiança no dólar a longo prazo (ou seja na economia americana) faz com que toda a gente aceite essa moeda para guardar valor. Os bancos centrais têm uma grande parte das suas reservas (das disponibilidades sobre o exterior) expressas em dólares. Os vendedores de petróleo e de matérias-primas fixam os preços em dólares e acumulam reservas e efectuam investimentos nessa moeda.

Portanto, a moeda americana tem um papel pivot na economia global. Isso representa, por sua vez, uma vantagem enorme para os Estados Unidos que podem aumentar o défice sem grande dificuldade, porque o podem financiar através da emissão de quantidades crescentes de dólares, aceites pelos credores de todo o mundo. A coisa funciona enquanto a gigantesca dívida americana for refinanciável, isto é, enquanto os credores acreditarem que, mais tarde ou mais cedo, a dívida será reembolsada, o que supõe que a economia americana tenha um crescimento sustentado e que modere a sua despesa para gerar finalmente excedentes. Se, pelo contrário, não é essa a percepção dos credores, a confiança no dólar cai, a sua procura desce, o seu preço baixa, a taxa de juro sobe. O que até tem um efeito reequilibrador porque as importações ficam mais caras e as exportações mais baratas, porque fica mais caro pedir emprestado.

O problema é que uma perda excessiva de valor do dólar pode levar a uma espiral de perda de confiança que pode afectar a própria sustentabilidade do sistema monetário internacional que gravita em torno da moeda americana. Se os investidores acham que o ajustamento é estrutural e não apenas conjuntural, se consideram que os americanos não têm capacidade para corrigir os seus excessos ou que a economia US está a perder o seu potencial de crescimento e a sua supremacia a nível global, aí o papel de moeda de reserva do dólar é posto em causa e os investidores começam, de verdade, a fugir do dólar e a preferir outras moedas como é o caso do euro ou do yen, o que alimenta ainda mais a queda do dólar.

Acho que existe um certo risco de que este último cenário se esteja a esboçar a par com a emergência de outros centros de crescimento mundial (como a China) que retiram ainda mais centralidade ao dólar.

A relação inversa entre as tendências do preço do crude e da cotação do dólar não é, portanto, apenas coincidência. Na minha opinião, como já defendi anteriormente no blog www.ofregues.blogspot.com, trata-se de uma causalidade. Os vendedores de crude (principalmente no mercado a prazo), cujo preço é fixado em dólares, reagem à perda de valor do dólar pedindo preços mais altos do crude. Porque, no fundo, não acreditam no valor intrinseco do dólar mas sim no seu valor expresso noutras divisas o qual não cessa de baixar...

Ou seja: a subida do preço do crude em dólares serve para preservar o poder de compra do crude noutras divisas, dada a baixa do dólar.

terça-feira, junho 24, 2008

Eldorado



Mais um filme sobre a tragédia belga, ou melhor: sobre a desgraça da Valónia. Mas, é um filme cheio de ressonâncias americanas. Às vezes, parece estarmos no Texas ou no Arkansas. Grandes Cadillacs ou Chevrolets, dois tipos completamente perdidos, sem referências, desprezados, enormes campos de cereais debaixo de um céu ora azul, como a cor dos brinquedos de lata de outros tempos, ora cinzento e ameaçador, como nos filmes aziagos ou nos romances de Truman Capote. Até há uma bomba de gasolina no meio de nada, sem ninguém. Faz lembrar "Paris-Texas". A música rima com tudo aquilo, triste e fatal. Mas, atenção, aquilo é a Bélgica francófona, pobre, abandonada, marginal, angustiada, auto-destrutiva.

A história começa com um comerciante de automóveis americanos de segunda-mão (gordo, barbudo e porcalhão, o próprio Bouli Lanners, realizador/actor) que regressa a casa e descobre que foi roubado. O ladrão refugia-se debaixo da cama. O roubado, condescendente, adormece no sofá à espera que o ladrão dali saia. Acaba por sair e apanha uma pancada algo benevolenta, seguida de uma boleia até um sítio onde não passa viv'alma. O roubado tem pena do pobre diabo e ambos fazem uma viagem surrealista até à fronteira com a França onde vivem os pais do ladrão.

Nem sequer a ternura que parece nascer entre aquelas almas penadas resiste à fatalidade da tragédia belga.

segunda-feira, junho 23, 2008

Uma espécie de Diácono Remédios

Depois de tantos anos a aprender a arte do balanço, os cálculos para não se tramar, os pequenos truques das coisas prosaicas da vida, ainda me passa pela cabeça o sentido da vida. Esta reflexão veio-me enquanto subia a escada da minha casa, para me refugiar no silêncio, depois de uma noitada feita de ruído e de olhares rápidos que pretendiam transmitir o que as palavras não podiam - por evidentes problemas de acústica. Esta imersão na multidão, na versão mundana da alegria deixou-me a braços com a minha incapacidade para me divertir... como os outros, simplesmente, incapacidade para me divertir. Dramático? Talvez não... Basta que me aceite como sou, que encontre pessoas que me aceitem como sou. Talvez sejam uma raridade, mas é melhor uma raridade valiosa do que uma manada de simpatizantes ou de conhecidos. Detesto a superficialidade com que as pessoas se satisfazem, a ligeireza com que se defendem uns dos outros. É raro encontrar alguém que queira arriscar um encontro a dois para conversar, para trocar ideias que vão para além de um comentário oportuno acerca do tempo, das férias ou do último filme que se viu. Há pouca gente que tenha a espessura ou a coragem de dizer o que pensa sobre coisas importantes da vida. Se são importantes devem permanecer secretas, íntimas, não podem ser divulgadas sob pena de gerarem estigmas perniciosos para um comportamento socialmente eficaz. Mas, que diabo vem a ser isso? Permanecer na sombra, no meio dos sorrisos de veludo que não acrescentam nada nas relações humanas, através dos quais as pessoas se defendem de putativas agressóes. Assim não se vai a lado nenhum. Fica-se sempre no limbo do conveniente, mas não se criam empatias, amizades, não se constroem laços. Como dizia Fernando Pessoa, sê tudo o que és no mínimo do que fazes. Às vezes, assim fazendo, queimamo-nos mas continuamos nós mesmos “for the better, for the worse”. Se procurarmos ser um outro eficaz, provavelmente não o conseguimos e, pior ainda, afastamo-nos do que realmente somos.

domingo, junho 22, 2008

GALP

A GALP não tem produção própria. A empresa procura compensar essa fraqueza, entrando em parcerias com a Petrobras e com a Sonangol para beneficiar da pesquisa de novas jazidas no Brasil e em Angola. Existem também iniciativas para participar na prospecção e extracção ao largo de Timor. Mas, por enquanto, a produção própria de crude representa menos de 5% do volume de negócios da empresa que, por conseguinte, compra o produto no mercado internacional, refina-o e vende-o aos distribuidores sob a forma de refinados (gasolina, gasóleo, fuel, etc.). Se a empresa produzisse a maior parte do crude que refina, o aumento do preço internacional que não é consequência de um aumento dos custos de extracção, reflectido nos preços de venda dos refinados, traduzir-se-ia num crescimento dos lucros, como se passa com as grandes petrolíferas que têm produção própria (Exxon, Shell, BP, Total, etc.). No caso da GALP, o aumento dos preços de venda serve apenas para reflectir um aumento dos custos da matéria-prima comprada no mercado aberto. Se quisermos, serve para evitar a queda das margens da empresa, não para as aumentar. Se os preços de compra do crude aumentam todos os dias e a GALP actualiza os preços de venda da gasolina apenas uma vez por mês, é óbvio que registará perdas e essas perdas serão tanto maiores quanto mais rápido for o crescimento do preço do crude e mais espaçadas forem as actualizações dos preços na bomba.

sábado, junho 21, 2008

Psicopatologias

Depois da euforia, dos cachecóis, das bandeiras, das gravatas, dos chapéus e outros adereços verde-rubros, a malta toda desceu de novo à terra... ao quotidiano dos factos, em vez das fantasias. Cada um de nós passou a ser o indíviduo que é, em vez do fantástico português das vitórias futebolísticas. O papo cheio de orgulho nacional derivado a uma bola e a um grupo de rapazes cheios de fama e de dinheiro, esvaziou-se... mais uma vez. De regresso à nossa essência - que até nem é má - devemos tentar viver bem, serenamente na nossa realidade, mais do que na elocubração de uma grandiosidade efémera. Mas, há por aí quem pense que os portugueses têm uma certa tendência para a ciclotímia (ver também bipolar). Grandes encenações mediáticas de putativa glória nacional não ajudam a curar a suposta doença.

segunda-feira, junho 16, 2008

Portugal - 0 / Suiça - 2

A derrota de Portugal frente à Suiça ontem foi boa porque:
  • facilita uma boa convivência entre suiços e imigrantes portugueses (ser eliminado na primeira fase e, ainda por cima, ser derrotado no último jogo pelos portugueses seria demasiado "humilhante" para os austeros suiços - certas formas de retaliação não seriam de excluir...)
  • legitima as escolhas de Scolari para a equipa principal (uma equipa de segunda que jogasse demasiado bem talvez provocasse dúvidas quanto aos titulares para o(s) próximo(s) jogo(s))
  • acalma a euforia e aumenta o realismo, tão necessário para os embates mais sérios que se avizinham

quarta-feira, junho 11, 2008

Camionistas

Há um pequeno grupo, incluindo os que são instrumentalizados pelos patrões, que sabem ter um papel estratégico na economia: o de transportar mercadorias vitais, como combustíveis ou alimentos perecíveis. Essa pequena corporação "de má estirpe" (para mal dos pecados de numerosos bons trabalhadores e pais de família da profissão) consegue pôr a Nação de joelhos, com métodos caceteiros, disfrutando de um desmesurado poder negocial junto do Governo. Do outro lado, temos os grandes da distribuição que resistem à repercussão do aumento dos custos dos transportadores. No fim de contas, assistimos a uma batalha pelas margens de lucro de dois oligopólios: o dos transportadores e o dos grandes comerciantes. [Naturalmente, estou a deixar de fora um terceiro protagonista: o Estado que é como quem diz, os contribuintes em geral.] Se esses dois oligopólios se pusessem de acordo, o aumento dos custos seria, mais uma vez, tranquilamente, repercutido sobre os consumidores finais. Bens mais caros significa menor procura e, dependendo da elastidade-preço da procura, menor receita. Mas, a procura de combustíveis e de alimentos é geralmente insensível aos preços, pelo que, a receita poderá até aumentar com a subida dos preços... Então de que se queixam estes senhores?

Deixem funcionar a economia, isto é, façam pagar os desgraçados do costume e terão menos a perder do que pensam. É claro que estes ajustamentos levam algum tempo, a economia não funciona, no seu todo, instântaneamente. Muito mais rapidamente agem os especuladores, hélas. A não ser que se queiram aproveitar da situação para chupar mais uma vez na têta do Estado, ou seja, para desviar ainda mais o pagamento da factura da energia para cima de terceiros, ou seja, dos consumidores e dos contribuintes em geral.

A coisa é sempre a mesma: "there are no free lunches": quando a factura fica mais cara, alguém tem de a pagar, de uma maneira ou de outra: os pobres ou os ricos, os contribuintes em geral ou um grupo profissional em particular. As corporações que têm mais poder, que usufruem de algum poder de monopólio, sempre tentam puxar a brasa à sua sardinha.

O Governo deve resistir à chantagem e defender a eficiência, a equidade e a autoridade do Estado.

domingo, junho 08, 2008

Enquanto corro, sob um céu cinzento de nuvens incontinentes, as àrvores começam a chorar antes da chuva e o vento fustiga-lhes a alma. As àrvores ao longo da estrada, disciplinadas, em fila, ondulam, fazendo figuras que posso inventar, enquanto corro e sinto o suor misturado com algumas tímidas gotas de chuva a cair pela cara abaixo. Misturam-se as lágrimas das àrvores com o meu esforço.

sexta-feira, junho 06, 2008

Alegre

Gostei da entrevista de Manuel Alegre. A frontalidade de sempre, a atitude clássica de uma esquerda que vem de longe, dos tempos da Argélia, uma inocência que faz bem no ambiente de cálculo que domina. O Bloco vai à boleia. O que não percebo é o que é que Manuel Alegre ainda tem a ver com o PS. Que PS ainda justifica que Manuel Alegre não se demita? Tudo bem: liberdade e pluralismo permitem uma saudável dissonância no seio de um partido, mas divergências tão profundas em relação aos valores e ao paradigma seguidos pela direcção, querem dizer ruptura... Alegre vale por si próprio, o seu percurso é eloquente, o seu espírito cívico transcende paróquias, mas não se pode transformar em estátua de sal, uma espécie de bezerro de ouro da esquerda radical que é excelente para fazer oposição, mas que não representa uma alternativa de poder. Para onde vai Manuel Alegre? Reserva independente para candidato a Presidente com os votos de um Bloco crescente, de comunistas "renovadores" e de socialistas desiludidos? Chairman de um Bloco de que Louçã seria o CEO? Uma coisa parece-me certa: Alegre e PS já não dá. Os tempos mudaram, o PS largou o heroísmo de outros tempos e Alegre não acompanhou o passo (e talvez ainda bem...).

terça-feira, junho 03, 2008

Euro 2008

...quanto ao estado do país, o que acho verdadeiramente incrível é que toda a gente se queixa de Portugal (dos governantes, do desemprego, da carestia, da burocracia, etc.), mas andam todos de bandeira ao ombro, cachecol ao pescoço e gravata ao peito com os símbolos nacionais para apoiar a selecção indígena no Euro 2008, exibindo um nacionalismo fervoroso...

Acho que há aqui uma boa dose de sado-masoquismo colectivo...

terça-feira, maio 27, 2008

Prós e contras

É evidente que o Medina Carreira está maluco e que a maluquice dele é devida ao facto de, desde há muitos anos, ninguém o convidar para ministro. É evidente que o Basílio Horta se vendeu de corpo e alma ao PS e que passa a vida a bajular o sistema e a aliciar investidores estrangeiros com a extraordinária qualidade da paupérrima mão-de-obra portuguesa. Quanto à Teodora Cardoso, tresanda rigor e bom senso e parece freira da Ordem dos Cifrões. Mas, deve ser boa senhora... Depois há o Sérgio Ribeiro que tem a desfaçatez de ir a um programa destinado ao grande público falar da distinção entre "valor de troca" e "valor de uso", exibindo um dos livros do "Capital" como se fosse a cruz para excomungar os capitalistas. Depois há um higiénico professor universitário de Lisboa de seu nome Nogueira Leite (salvo erro) que dispara banalidades como se fossem revelações euclidianas.

Estes são os protagonistas do debate em voga sobre a crise da economia portuguesa. Dali não sai literalmente nada, exceptuando uma enorme raiva por isto continuar no "vira o disco e toca o mesmo".

terça-feira, maio 20, 2008

Que as palavras caiam como pérolas de um céu estrelado.
Preciso de palavras bonitas que se ofereçam espontâneamente, sem a fadiga de uma inspiração que me falta.
Preciso de uma chuva de ideias carinhosas que venham do outro lado da compreensão do mundo.
Que é a sua feliz incompreensão.
Preciso de sentir mais do que compreender.
Essa é a proximidade de deus, a fé, o chamamento.
O que nunca percebi e o que nunca senti, talvez por ter o coração fechado e a cabeça hirta como um gato à espera de ser agredido.
Preciso deixar-me levar à tona de uma corrente imparável para redenção de uma insistente insensibildade à substância das coisas.

segunda-feira, maio 19, 2008

Cybershot

Finalmente, rendi-me. Comprei uma máquina digital Sony Cybershot. Tem tudo o que é preciso para passar a ver o mundo através de um ecrã. Através do qual se tem a impressão de fazer parar a vida e o mundo, de guardar instantes que valem sobretudo pelo seu efémero. Agora sinto-me mais japonês. Eles andam por todo o lado, franéticos com aquela coisa em riste. Deixam de ver a realidade para se concentrar na captura (para sempre) da realidade. A Europa, para eles, é uma sucessão de pequenas janelas de não sei quantos mílímetros de diâmetro. Passei a ser japonês com a minha Sony Cybershot, caçador de imagens para mais tarde recordar, sempre deslocado em relação ao agora, sempre para trás, na pasta do meu computador que guardará centenas de imagens mais ou menos anónimas, ou para a frente, na ânsia de captar uma imagem futura que passará rapidamente à arqueologia das coisas que passaram depressa demais e que não se gozaram como se devia porque, com a minha Cybershot, permanecerão para sempre na mais irrisória insignificância dos arquivos inúteis.

Mas, por que carga de àgua é que comprei a Cybershot. Talvez porque, como dizia a minha avózinha, "quem tem muita manteiga, assa-a na ponta de um espeto". Também por esse desperdício sinto-me culpado...

quinta-feira, maio 15, 2008

Darjeeling Limited

Cliquem no título. Comédia espiritual de Wes Anderson, feita de côres quentes de uma cultura que é o palco exótico de uma viagem de três irmãos à procura da mãe, tentando exorcizar loucuras e manias. Há um combóio, malas de marca que guardam segredos, uma atmosfera meia hippie de anos 60, uma música a condizer e uma dose conveniente de non-sense. Faz lembrar "Lost in Translation". Também há Bill Murray numa aparição fugaz e um certo Roman Coppola. O Japão torna-se India mas as incompreensões e a turbulência existencial são as mesmas.

sexta-feira, maio 09, 2008

Futebol nacional

Finalmente, o futebol passou a ser parte do Estado de Direito e deixou de ser um terreno de impunidade, legitimado por paixões incontroláveis, à sombra das quais conhecidos escroques têm prosperado. Dito isto, lamento a arrogância e o exibicionismo do Sr Juiz que anunciou as sentenças, bem como a desgraça que tocou um clube simpático como o Boavista, que tem servido para catapultar a bulímia mediática e financeira da família Loureiro. Boavisteiros de todo o mundo, uni-vos! Mas, temo que o mundo deles seja uns poucos quilómetros quadrados à volta da Avenida da Boavista na mui nobre cidade do Porto. Incrível a tese da perseguição da Lisboa do antes do 25 de Abril (na qual prosperavam os elitistas e sulistas Benfica e Sporting) contra um Porto (ou FC Porto? Temo que a cidade tenha mudado de nome!), virtuoso, progressista e trabalhador. Deixem-me rir... Isto é "déjà vu" da política malograda aplicado ao surreal mundo do futebol nacional.

Mas, não pensem que estas diatribes são mais uma prova da especificidade da malandragem nacional. Pior do que nós (ou melhor?) são os italianos. A Juventus e a Fiorentina já desceram de divisão e o Milan passou para último lugar por causa de corrupção. E não caiu o Carmo e a Trindade que é o mesmo que dizer a torre de Pisa. Ainda somos apenas amadores...

quinta-feira, maio 08, 2008

De peito feito

O melhor que há a fazer é deixar-se andar ao ritmo das próprias convicções e competências sem pensar que existe alguma trama conspirativa. Fazer de conta que não se percebem os riscos de onde se chegou e comportar-se como se a realidade fosse o bom “fazer de conta”. Ninguém pode ser penalizado por avançar de boa fé. E, das duas uma: ou se parte do princípio de que a maldade é irremediável ou se crê, no melhor da inocência, que a maldade acaba por se vergar à bondade. Eu sou pela segunda hipótese até me demonstrarem que estou enganado.

terça-feira, maio 06, 2008

Carpe diem?

E tudo passa. A espuma das ilusões desfaz-se e a areia da praia na baixa-mar é o que resta. Alienados pelas urgências que criamos ou que nos saem na lotaria da vida, perdemos frequentemente a noção do que verdadeiramente conta. Acho que só os velhos acabam por adquirir essa sabedoria. Demasiado tarde? Acossados pela inevitabilidade da morte? Ricos das ilusões desfeitas? O olhar de um velho por detrás de uma janela ao fim de uma tarde de chuva é a imagem mais eloquente do non-sense da vida e do que fica de tantas aventuras e desvarios. Mas, ainda bem que existiram.

segunda-feira, abril 28, 2008

Assim vai a Itália

Em Itália a vontade popular excede-se em sabedoria. Depois de ter dado a maioria a Berlusconi, a nível nacional, deu a maioria a Alemanno em Roma, um candidato de direita que se passeou com símbolos do mais radical extremismo nacionalista durante a campanha. E o homem diz que a sua prioridade será combater a criminalidade, o que para ele significa perseguir romenos, nigerianos, marroquinos e quejandos. Esses são os demónios que fazem mal aos inocentes e timoratos romanos cuja simpatia vai ao ponto de dar emprego e salários de príncipe a esses ingratos energúmenos. O perdedor foi um tal Rutelli, ex-Presidente da Câmara de Roma (lá diz-se síndaco) e ex-vice-primeiro-ministro de Prodi. É irritante esse Rutelli. Diz sempre as mesmas banalidades com um tom professoral e declamatório que provoca irritação nos tímpanos e no cérebro.

A última de Berlusconi foi mandar às malvas a Air France-KLM, grupo que propôs um plano de salvamento credível para a Alitalia. Mas, o Cavaliere não podia aceitar que franceses e holandeses se apoderassem da querida e arruinadíssíma companhia de bandeira. Para evitar a falência da dita-cuja, o governo italiano injectou mais 300 milhões de euros dos contribuintes. Para grande reprovação da Comissão Europeia que gritou "ó da guarda"... ajudas de Estado indevidas. Mas, Berlusconi ergue o orgulho nacional aos quatro ventos e assegura que haverá benevolentos empresários italianos com maior amor à Pátria do que à carteira...

sexta-feira, abril 25, 2008

Vão ver
http://ofregues.blogspot.com/
porque hoje é 25 de Abril.

Chère Naoual

Tu portes le bonheur des choses simples et la sagesse des racines profondes
Tu as la couleur du Sud et les formes douces des dunes du désert
Ton sourire est un rayon de soleil venu de là bas
Je ne connais que ta joie de vivre et cela me suffit

Tu es la preuve de la simplicité du bonheur

segunda-feira, abril 21, 2008

Kim

Os anos passam. Há prioridades que deixam de o ser, feridas que se abrem e que tardam a cicatrizar. Um dia acorda-se e a ilusão em que se navegou aparece, eloquente, como isso mesmo: uma ilusão. Olhou-me - o "iron man", o paradigma do sucesso ambiente - com uma lágrima escondida ao canto do olho a dizer que doía, que doía a separação que se estava a esboçar, irreversível como a noite de todos os dias. Francamente, tive pena dele. Mas, à compaixão juntaram-se respeito e muita admiração porque, finalmente, ousava mostrar-se humano, fraco como os humanos também são, vulnerável e cheio de emoções contraditórias, prontas a explodir. Falou, falou, falou, a sangrar sofrimento. Apeteceu-me abraçá-lo como se abraça um amigo que se descobre inesperadamente. Não o tinha na conta de amigo, como se escreve Amigo com A maíusculo. Por isso me surpreendeu a sua franqueza, sintoma de uma enorme fragilidade e de carência de humanidade. Despediu-se a pedir sigilo e compreensão. Como se fosse preciso. Esse resto de orgulho de que se faz a estima de si mesmo, um heroísmo patético de quem não pode deixar de chorar. Para poder depois levantar-se mais forte com o coração conciliado com a razão.

sexta-feira, abril 18, 2008

segunda-feira, abril 14, 2008

Vontades populares

Na Madeira, Jardim, de seu nome, faz do Presidente Silva um seu refém. Inconcebível! O Presidente da República não vai a uma Assembleia Regional composta de uma pequeníssima oposição feita de um "bando de loucos". E o trauliteiro com cara de vinho a martelo continua a fazer e a dizer o que lhe apetece, a distribuir insultos como se fossem tiradas de comediante de segunda categoria. E as pessoas riem-se e são condescentes, por vezes admiradoras. E por detrás do folclore há tudo menos democracia e liberdade. O que há é muito dinheiro, distribuido a torto e a direito, fazendo eleitores gratos, à custa dos contribuintes continentais. De que têm medo os políticos da República. Que o homem declare independência? Que se alie aos espanhóis ou aos americanos? Pois que assim seja e que nos fique menos caro tanto riso amarelo no meio do Atlântico.

Em Itália vence Berlusconi, crescem os "separatistas" da Lega Nord, eclipsa-se o que restava do Partido Comunista. Finalmente, uma espécie de bipolarismo desenha-se. O país afunda-se na crise com os preços a aumentar mais do que no resto da Europa e o PIB a estagnar. E Berlusconi fica cada vez mais rico e penteado com o cabelo que não tem e bronzeado com a cor que lhe falta. Vá-se lá entender porque é que as pessoas votam pela segunda vez numa tal criatura que faz as delícias dos detractores da Itália.

sábado, abril 12, 2008

Força Briosa

O problema do Benfica é só um: má gestão, incompetência, subdesenvolvimento. Um clube com aquela dimensão e ambições não pode ser governado por um tipo que, no máximo, está ao nível do Alverca (com o devido respeito pelos habitantes de Alverca). O Vieira é azeiteiro, trauliteiro, tem bigode a mais e bom senso a menos, tem muito cabelo grisalho pelas chico-espertices que não se cansa de fazer. É um pacóvio que julga que uma empresa se administra com frases de feira da ladra para empolgar uma multidão de aficionados de cerveja e carne entremeada na 2a. circular. O SLB precisa de gestores profissionais que não se escondam por detrás de atoardas contra inimigos reais ou imaginários. Será que não há um núcleo duro de Benfiquistas lúcidos que façam um "golpe" para varrer dali o Vieira e acólitos? Ou os protestos se limitam aos assobios e cartões de sócio rasgados num dia para serem colados no dia seguinte, sem que alguma coisa mude?

No meio disto tudo tenho apenas uma consolação: o carrasco de ontem do meu Benfica foi a minha caríssima Académica que anda a precisar de pontos como de pão para a boca para se manter entre os "grandes". Sim, porque no futebol tenho dois amores: Grande Briosa e pobre Benfica!

(clicar no título)

sexta-feira, abril 11, 2008

Aeroportos, combóios, pontes e estradas

O que custa mais é a cacofonia entre pessoas da mesma profissão que deviam ter feito o trabalho de casa antes de "botar a lingua aos minhotos". Mas, o que prevalece são rivalidades pessoais, lutas corporativas e invejas académicas que transformam um debate técnico (de pouco interesse para o comum dos cidadãos) em espectáculo mediático de gosto duvidoso que só deixa mal os putativos profissionais. Não estou com isto a dizer que não deva haver discussão pública àcerca de decisões que custarão um mar de dinheiro aos contribuintes. Mas, uma coisa é discutir os critérios de justiça e a pertinência estratégica de certas opções. Outra coisa é discutir soluções de betão armado ou de estruturas metálicas ou as hipóteses mais ou menos realistas do modelo matemático em que se baseiam as previsões de tráfego. É lamentável e não augura nada de bom. Há egos e protagonismos que deviam ser geridos com bom-senso antes de se estatelarem no ecrã da televisão. Ou então, deixem-se as emoções exacerbadas (e alguma leviandade) de parte e pague-se a técnicos (portugueses ou estrangeiros) desapaixonados e competentes para preparar a fundamentação técnica de decisões importantes para o desenvolvimento do país.

terça-feira, abril 08, 2008

Sabedoria

A melhor sabedoria é a camponesa. Camponesa de Portugal, da Beira Alta. Gente de vida rude. De dificuldades. Que não se deixa levar pelos impulsos nem pela aparência. Que mede os pensamentos e as palavras sem nunca se perder da sua essência. Gente como a minha avó que se chamava... Lusitana e que guardava num sorriso matreiro um milhão de palavras, muita poesia, e sobretudo muita arte de enfrentar as adversidades. Que respeitava escrupulosamente a máxima de "quem ri no fim, ri melhor". Mulher de princípios vernáculos, traída pela cobiça, mas que não deixou de amar a vida, que nunca perdeu o respeito por si própria, que esperava serenamente pelo futuro. Mulher de rugas fundas e de mãos deformadas pelo trabalho no campo, com nós eloquentes de esforço. Já lá está "a fazer tijolo" há muitos anos, mas continua a inspirar-me e a surpreender-me pelas histórias de tenacidade que me continuam a contar. Com o tempo diluiu-se a paixão, atenuou-se a saudade. A recordação é mais tranquila. Permanece uma profunda admiração e o exemplo parece cada vez mais pertinente, resistente aos desvarios e aos acidentes da vida, forte como o granito de que é feita a casa em que viveu.

segunda-feira, março 31, 2008

SLB forever

Só faltava mesmo esta criatura para fazer do Benfica o clube mais português de Portugal... e arredores. Já não chegava o bigode e o ar de putanheiro do Filipe Vieira que disse que a pior coisa que podia ter acontecido ao SLB tinha sido ganhar o campeonato em 2005. "Porque assim adormeceu" - disse a personagem com solenidade e convicção perante uma plateia devota. Mas, agora é que vai ser: não se sabe a partir de quando, mas quando o Benfica voltar a ganhar o campeonato, ganha-lhe o gosto e nunca mais ninguém vai voltar a ganhar "forever and ever"... Porra: com tanta caricatura, broeirice, coirato e vinho tinto a martelo até custa ser do Glorioso. Viva o Benfica, viva, pim.

Eleições em África

Dado o que se está a passar no Zimbabwé e o que se passou não há muito tempo no Quénia e o que se tem passado noutros países do mesmo continente, parece que a melhor receita para atear uma guerra civil seja convocar eleições "livres e democráticas" com a devida vigilância de "observadores internacionais independentes". Antes de mais, apesar de todos esses observadores, as fraudes proliferam como cogumelos, sem grande sofisticação. Depois, ninguém está disposto a admitir a derrota, acusando a parte oposta de aldrabice, corrupção e violência. A coisa acaba por "resolver-se" à cacetada, mergulhando os respectivos países na instabilidade, no caos e no sangue. Melhor seria reconhecer que as ditas eleições à moda ocidental talvez não sejam o melhor processo de legitimação do poder em países que não tem nada de ocidental e que, pelo contrário, tanto sofreram com os ocidentais desde que foram colonizados a partir do século XV. No passado, a África vivia mais ou menos em paz e desenvolvia-se ao ritmo da sua cultura, na diversidade das suas tribos e regiões. Foram os ocidentais que criaram artificialmente a maior parte dos "países" africanos e que alimentaram as rivalidades tribais para dominarem os povos do continente. E agora vêm com a explicação simplista do tribalismo para justificar o anátema africano...