domingo, junho 22, 2008

GALP

A GALP não tem produção própria. A empresa procura compensar essa fraqueza, entrando em parcerias com a Petrobras e com a Sonangol para beneficiar da pesquisa de novas jazidas no Brasil e em Angola. Existem também iniciativas para participar na prospecção e extracção ao largo de Timor. Mas, por enquanto, a produção própria de crude representa menos de 5% do volume de negócios da empresa que, por conseguinte, compra o produto no mercado internacional, refina-o e vende-o aos distribuidores sob a forma de refinados (gasolina, gasóleo, fuel, etc.). Se a empresa produzisse a maior parte do crude que refina, o aumento do preço internacional que não é consequência de um aumento dos custos de extracção, reflectido nos preços de venda dos refinados, traduzir-se-ia num crescimento dos lucros, como se passa com as grandes petrolíferas que têm produção própria (Exxon, Shell, BP, Total, etc.). No caso da GALP, o aumento dos preços de venda serve apenas para reflectir um aumento dos custos da matéria-prima comprada no mercado aberto. Se quisermos, serve para evitar a queda das margens da empresa, não para as aumentar. Se os preços de compra do crude aumentam todos os dias e a GALP actualiza os preços de venda da gasolina apenas uma vez por mês, é óbvio que registará perdas e essas perdas serão tanto maiores quanto mais rápido for o crescimento do preço do crude e mais espaçadas forem as actualizações dos preços na bomba.

sábado, junho 21, 2008

Psicopatologias

Depois da euforia, dos cachecóis, das bandeiras, das gravatas, dos chapéus e outros adereços verde-rubros, a malta toda desceu de novo à terra... ao quotidiano dos factos, em vez das fantasias. Cada um de nós passou a ser o indíviduo que é, em vez do fantástico português das vitórias futebolísticas. O papo cheio de orgulho nacional derivado a uma bola e a um grupo de rapazes cheios de fama e de dinheiro, esvaziou-se... mais uma vez. De regresso à nossa essência - que até nem é má - devemos tentar viver bem, serenamente na nossa realidade, mais do que na elocubração de uma grandiosidade efémera. Mas, há por aí quem pense que os portugueses têm uma certa tendência para a ciclotímia (ver também bipolar). Grandes encenações mediáticas de putativa glória nacional não ajudam a curar a suposta doença.

segunda-feira, junho 16, 2008

Portugal - 0 / Suiça - 2

A derrota de Portugal frente à Suiça ontem foi boa porque:
  • facilita uma boa convivência entre suiços e imigrantes portugueses (ser eliminado na primeira fase e, ainda por cima, ser derrotado no último jogo pelos portugueses seria demasiado "humilhante" para os austeros suiços - certas formas de retaliação não seriam de excluir...)
  • legitima as escolhas de Scolari para a equipa principal (uma equipa de segunda que jogasse demasiado bem talvez provocasse dúvidas quanto aos titulares para o(s) próximo(s) jogo(s))
  • acalma a euforia e aumenta o realismo, tão necessário para os embates mais sérios que se avizinham

quarta-feira, junho 11, 2008

Camionistas

Há um pequeno grupo, incluindo os que são instrumentalizados pelos patrões, que sabem ter um papel estratégico na economia: o de transportar mercadorias vitais, como combustíveis ou alimentos perecíveis. Essa pequena corporação "de má estirpe" (para mal dos pecados de numerosos bons trabalhadores e pais de família da profissão) consegue pôr a Nação de joelhos, com métodos caceteiros, disfrutando de um desmesurado poder negocial junto do Governo. Do outro lado, temos os grandes da distribuição que resistem à repercussão do aumento dos custos dos transportadores. No fim de contas, assistimos a uma batalha pelas margens de lucro de dois oligopólios: o dos transportadores e o dos grandes comerciantes. [Naturalmente, estou a deixar de fora um terceiro protagonista: o Estado que é como quem diz, os contribuintes em geral.] Se esses dois oligopólios se pusessem de acordo, o aumento dos custos seria, mais uma vez, tranquilamente, repercutido sobre os consumidores finais. Bens mais caros significa menor procura e, dependendo da elastidade-preço da procura, menor receita. Mas, a procura de combustíveis e de alimentos é geralmente insensível aos preços, pelo que, a receita poderá até aumentar com a subida dos preços... Então de que se queixam estes senhores?

Deixem funcionar a economia, isto é, façam pagar os desgraçados do costume e terão menos a perder do que pensam. É claro que estes ajustamentos levam algum tempo, a economia não funciona, no seu todo, instântaneamente. Muito mais rapidamente agem os especuladores, hélas. A não ser que se queiram aproveitar da situação para chupar mais uma vez na têta do Estado, ou seja, para desviar ainda mais o pagamento da factura da energia para cima de terceiros, ou seja, dos consumidores e dos contribuintes em geral.

A coisa é sempre a mesma: "there are no free lunches": quando a factura fica mais cara, alguém tem de a pagar, de uma maneira ou de outra: os pobres ou os ricos, os contribuintes em geral ou um grupo profissional em particular. As corporações que têm mais poder, que usufruem de algum poder de monopólio, sempre tentam puxar a brasa à sua sardinha.

O Governo deve resistir à chantagem e defender a eficiência, a equidade e a autoridade do Estado.

domingo, junho 08, 2008

Enquanto corro, sob um céu cinzento de nuvens incontinentes, as àrvores começam a chorar antes da chuva e o vento fustiga-lhes a alma. As àrvores ao longo da estrada, disciplinadas, em fila, ondulam, fazendo figuras que posso inventar, enquanto corro e sinto o suor misturado com algumas tímidas gotas de chuva a cair pela cara abaixo. Misturam-se as lágrimas das àrvores com o meu esforço.

sexta-feira, junho 06, 2008

Alegre

Gostei da entrevista de Manuel Alegre. A frontalidade de sempre, a atitude clássica de uma esquerda que vem de longe, dos tempos da Argélia, uma inocência que faz bem no ambiente de cálculo que domina. O Bloco vai à boleia. O que não percebo é o que é que Manuel Alegre ainda tem a ver com o PS. Que PS ainda justifica que Manuel Alegre não se demita? Tudo bem: liberdade e pluralismo permitem uma saudável dissonância no seio de um partido, mas divergências tão profundas em relação aos valores e ao paradigma seguidos pela direcção, querem dizer ruptura... Alegre vale por si próprio, o seu percurso é eloquente, o seu espírito cívico transcende paróquias, mas não se pode transformar em estátua de sal, uma espécie de bezerro de ouro da esquerda radical que é excelente para fazer oposição, mas que não representa uma alternativa de poder. Para onde vai Manuel Alegre? Reserva independente para candidato a Presidente com os votos de um Bloco crescente, de comunistas "renovadores" e de socialistas desiludidos? Chairman de um Bloco de que Louçã seria o CEO? Uma coisa parece-me certa: Alegre e PS já não dá. Os tempos mudaram, o PS largou o heroísmo de outros tempos e Alegre não acompanhou o passo (e talvez ainda bem...).

terça-feira, junho 03, 2008

Euro 2008

...quanto ao estado do país, o que acho verdadeiramente incrível é que toda a gente se queixa de Portugal (dos governantes, do desemprego, da carestia, da burocracia, etc.), mas andam todos de bandeira ao ombro, cachecol ao pescoço e gravata ao peito com os símbolos nacionais para apoiar a selecção indígena no Euro 2008, exibindo um nacionalismo fervoroso...

Acho que há aqui uma boa dose de sado-masoquismo colectivo...

terça-feira, maio 27, 2008

Prós e contras

É evidente que o Medina Carreira está maluco e que a maluquice dele é devida ao facto de, desde há muitos anos, ninguém o convidar para ministro. É evidente que o Basílio Horta se vendeu de corpo e alma ao PS e que passa a vida a bajular o sistema e a aliciar investidores estrangeiros com a extraordinária qualidade da paupérrima mão-de-obra portuguesa. Quanto à Teodora Cardoso, tresanda rigor e bom senso e parece freira da Ordem dos Cifrões. Mas, deve ser boa senhora... Depois há o Sérgio Ribeiro que tem a desfaçatez de ir a um programa destinado ao grande público falar da distinção entre "valor de troca" e "valor de uso", exibindo um dos livros do "Capital" como se fosse a cruz para excomungar os capitalistas. Depois há um higiénico professor universitário de Lisboa de seu nome Nogueira Leite (salvo erro) que dispara banalidades como se fossem revelações euclidianas.

Estes são os protagonistas do debate em voga sobre a crise da economia portuguesa. Dali não sai literalmente nada, exceptuando uma enorme raiva por isto continuar no "vira o disco e toca o mesmo".

terça-feira, maio 20, 2008

Que as palavras caiam como pérolas de um céu estrelado.
Preciso de palavras bonitas que se ofereçam espontâneamente, sem a fadiga de uma inspiração que me falta.
Preciso de uma chuva de ideias carinhosas que venham do outro lado da compreensão do mundo.
Que é a sua feliz incompreensão.
Preciso de sentir mais do que compreender.
Essa é a proximidade de deus, a fé, o chamamento.
O que nunca percebi e o que nunca senti, talvez por ter o coração fechado e a cabeça hirta como um gato à espera de ser agredido.
Preciso deixar-me levar à tona de uma corrente imparável para redenção de uma insistente insensibildade à substância das coisas.

segunda-feira, maio 19, 2008

Cybershot

Finalmente, rendi-me. Comprei uma máquina digital Sony Cybershot. Tem tudo o que é preciso para passar a ver o mundo através de um ecrã. Através do qual se tem a impressão de fazer parar a vida e o mundo, de guardar instantes que valem sobretudo pelo seu efémero. Agora sinto-me mais japonês. Eles andam por todo o lado, franéticos com aquela coisa em riste. Deixam de ver a realidade para se concentrar na captura (para sempre) da realidade. A Europa, para eles, é uma sucessão de pequenas janelas de não sei quantos mílímetros de diâmetro. Passei a ser japonês com a minha Sony Cybershot, caçador de imagens para mais tarde recordar, sempre deslocado em relação ao agora, sempre para trás, na pasta do meu computador que guardará centenas de imagens mais ou menos anónimas, ou para a frente, na ânsia de captar uma imagem futura que passará rapidamente à arqueologia das coisas que passaram depressa demais e que não se gozaram como se devia porque, com a minha Cybershot, permanecerão para sempre na mais irrisória insignificância dos arquivos inúteis.

Mas, por que carga de àgua é que comprei a Cybershot. Talvez porque, como dizia a minha avózinha, "quem tem muita manteiga, assa-a na ponta de um espeto". Também por esse desperdício sinto-me culpado...

quinta-feira, maio 15, 2008

Darjeeling Limited

Cliquem no título. Comédia espiritual de Wes Anderson, feita de côres quentes de uma cultura que é o palco exótico de uma viagem de três irmãos à procura da mãe, tentando exorcizar loucuras e manias. Há um combóio, malas de marca que guardam segredos, uma atmosfera meia hippie de anos 60, uma música a condizer e uma dose conveniente de non-sense. Faz lembrar "Lost in Translation". Também há Bill Murray numa aparição fugaz e um certo Roman Coppola. O Japão torna-se India mas as incompreensões e a turbulência existencial são as mesmas.

sexta-feira, maio 09, 2008

Futebol nacional

Finalmente, o futebol passou a ser parte do Estado de Direito e deixou de ser um terreno de impunidade, legitimado por paixões incontroláveis, à sombra das quais conhecidos escroques têm prosperado. Dito isto, lamento a arrogância e o exibicionismo do Sr Juiz que anunciou as sentenças, bem como a desgraça que tocou um clube simpático como o Boavista, que tem servido para catapultar a bulímia mediática e financeira da família Loureiro. Boavisteiros de todo o mundo, uni-vos! Mas, temo que o mundo deles seja uns poucos quilómetros quadrados à volta da Avenida da Boavista na mui nobre cidade do Porto. Incrível a tese da perseguição da Lisboa do antes do 25 de Abril (na qual prosperavam os elitistas e sulistas Benfica e Sporting) contra um Porto (ou FC Porto? Temo que a cidade tenha mudado de nome!), virtuoso, progressista e trabalhador. Deixem-me rir... Isto é "déjà vu" da política malograda aplicado ao surreal mundo do futebol nacional.

Mas, não pensem que estas diatribes são mais uma prova da especificidade da malandragem nacional. Pior do que nós (ou melhor?) são os italianos. A Juventus e a Fiorentina já desceram de divisão e o Milan passou para último lugar por causa de corrupção. E não caiu o Carmo e a Trindade que é o mesmo que dizer a torre de Pisa. Ainda somos apenas amadores...

quinta-feira, maio 08, 2008

De peito feito

O melhor que há a fazer é deixar-se andar ao ritmo das próprias convicções e competências sem pensar que existe alguma trama conspirativa. Fazer de conta que não se percebem os riscos de onde se chegou e comportar-se como se a realidade fosse o bom “fazer de conta”. Ninguém pode ser penalizado por avançar de boa fé. E, das duas uma: ou se parte do princípio de que a maldade é irremediável ou se crê, no melhor da inocência, que a maldade acaba por se vergar à bondade. Eu sou pela segunda hipótese até me demonstrarem que estou enganado.

terça-feira, maio 06, 2008

Carpe diem?

E tudo passa. A espuma das ilusões desfaz-se e a areia da praia na baixa-mar é o que resta. Alienados pelas urgências que criamos ou que nos saem na lotaria da vida, perdemos frequentemente a noção do que verdadeiramente conta. Acho que só os velhos acabam por adquirir essa sabedoria. Demasiado tarde? Acossados pela inevitabilidade da morte? Ricos das ilusões desfeitas? O olhar de um velho por detrás de uma janela ao fim de uma tarde de chuva é a imagem mais eloquente do non-sense da vida e do que fica de tantas aventuras e desvarios. Mas, ainda bem que existiram.

segunda-feira, abril 28, 2008

Assim vai a Itália

Em Itália a vontade popular excede-se em sabedoria. Depois de ter dado a maioria a Berlusconi, a nível nacional, deu a maioria a Alemanno em Roma, um candidato de direita que se passeou com símbolos do mais radical extremismo nacionalista durante a campanha. E o homem diz que a sua prioridade será combater a criminalidade, o que para ele significa perseguir romenos, nigerianos, marroquinos e quejandos. Esses são os demónios que fazem mal aos inocentes e timoratos romanos cuja simpatia vai ao ponto de dar emprego e salários de príncipe a esses ingratos energúmenos. O perdedor foi um tal Rutelli, ex-Presidente da Câmara de Roma (lá diz-se síndaco) e ex-vice-primeiro-ministro de Prodi. É irritante esse Rutelli. Diz sempre as mesmas banalidades com um tom professoral e declamatório que provoca irritação nos tímpanos e no cérebro.

A última de Berlusconi foi mandar às malvas a Air France-KLM, grupo que propôs um plano de salvamento credível para a Alitalia. Mas, o Cavaliere não podia aceitar que franceses e holandeses se apoderassem da querida e arruinadíssíma companhia de bandeira. Para evitar a falência da dita-cuja, o governo italiano injectou mais 300 milhões de euros dos contribuintes. Para grande reprovação da Comissão Europeia que gritou "ó da guarda"... ajudas de Estado indevidas. Mas, Berlusconi ergue o orgulho nacional aos quatro ventos e assegura que haverá benevolentos empresários italianos com maior amor à Pátria do que à carteira...

sexta-feira, abril 25, 2008

Vão ver
http://ofregues.blogspot.com/
porque hoje é 25 de Abril.

Chère Naoual

Tu portes le bonheur des choses simples et la sagesse des racines profondes
Tu as la couleur du Sud et les formes douces des dunes du désert
Ton sourire est un rayon de soleil venu de là bas
Je ne connais que ta joie de vivre et cela me suffit

Tu es la preuve de la simplicité du bonheur

segunda-feira, abril 21, 2008

Kim

Os anos passam. Há prioridades que deixam de o ser, feridas que se abrem e que tardam a cicatrizar. Um dia acorda-se e a ilusão em que se navegou aparece, eloquente, como isso mesmo: uma ilusão. Olhou-me - o "iron man", o paradigma do sucesso ambiente - com uma lágrima escondida ao canto do olho a dizer que doía, que doía a separação que se estava a esboçar, irreversível como a noite de todos os dias. Francamente, tive pena dele. Mas, à compaixão juntaram-se respeito e muita admiração porque, finalmente, ousava mostrar-se humano, fraco como os humanos também são, vulnerável e cheio de emoções contraditórias, prontas a explodir. Falou, falou, falou, a sangrar sofrimento. Apeteceu-me abraçá-lo como se abraça um amigo que se descobre inesperadamente. Não o tinha na conta de amigo, como se escreve Amigo com A maíusculo. Por isso me surpreendeu a sua franqueza, sintoma de uma enorme fragilidade e de carência de humanidade. Despediu-se a pedir sigilo e compreensão. Como se fosse preciso. Esse resto de orgulho de que se faz a estima de si mesmo, um heroísmo patético de quem não pode deixar de chorar. Para poder depois levantar-se mais forte com o coração conciliado com a razão.

sexta-feira, abril 18, 2008

segunda-feira, abril 14, 2008

Vontades populares

Na Madeira, Jardim, de seu nome, faz do Presidente Silva um seu refém. Inconcebível! O Presidente da República não vai a uma Assembleia Regional composta de uma pequeníssima oposição feita de um "bando de loucos". E o trauliteiro com cara de vinho a martelo continua a fazer e a dizer o que lhe apetece, a distribuir insultos como se fossem tiradas de comediante de segunda categoria. E as pessoas riem-se e são condescentes, por vezes admiradoras. E por detrás do folclore há tudo menos democracia e liberdade. O que há é muito dinheiro, distribuido a torto e a direito, fazendo eleitores gratos, à custa dos contribuintes continentais. De que têm medo os políticos da República. Que o homem declare independência? Que se alie aos espanhóis ou aos americanos? Pois que assim seja e que nos fique menos caro tanto riso amarelo no meio do Atlântico.

Em Itália vence Berlusconi, crescem os "separatistas" da Lega Nord, eclipsa-se o que restava do Partido Comunista. Finalmente, uma espécie de bipolarismo desenha-se. O país afunda-se na crise com os preços a aumentar mais do que no resto da Europa e o PIB a estagnar. E Berlusconi fica cada vez mais rico e penteado com o cabelo que não tem e bronzeado com a cor que lhe falta. Vá-se lá entender porque é que as pessoas votam pela segunda vez numa tal criatura que faz as delícias dos detractores da Itália.

sábado, abril 12, 2008

Força Briosa

O problema do Benfica é só um: má gestão, incompetência, subdesenvolvimento. Um clube com aquela dimensão e ambições não pode ser governado por um tipo que, no máximo, está ao nível do Alverca (com o devido respeito pelos habitantes de Alverca). O Vieira é azeiteiro, trauliteiro, tem bigode a mais e bom senso a menos, tem muito cabelo grisalho pelas chico-espertices que não se cansa de fazer. É um pacóvio que julga que uma empresa se administra com frases de feira da ladra para empolgar uma multidão de aficionados de cerveja e carne entremeada na 2a. circular. O SLB precisa de gestores profissionais que não se escondam por detrás de atoardas contra inimigos reais ou imaginários. Será que não há um núcleo duro de Benfiquistas lúcidos que façam um "golpe" para varrer dali o Vieira e acólitos? Ou os protestos se limitam aos assobios e cartões de sócio rasgados num dia para serem colados no dia seguinte, sem que alguma coisa mude?

No meio disto tudo tenho apenas uma consolação: o carrasco de ontem do meu Benfica foi a minha caríssima Académica que anda a precisar de pontos como de pão para a boca para se manter entre os "grandes". Sim, porque no futebol tenho dois amores: Grande Briosa e pobre Benfica!

(clicar no título)

sexta-feira, abril 11, 2008

Aeroportos, combóios, pontes e estradas

O que custa mais é a cacofonia entre pessoas da mesma profissão que deviam ter feito o trabalho de casa antes de "botar a lingua aos minhotos". Mas, o que prevalece são rivalidades pessoais, lutas corporativas e invejas académicas que transformam um debate técnico (de pouco interesse para o comum dos cidadãos) em espectáculo mediático de gosto duvidoso que só deixa mal os putativos profissionais. Não estou com isto a dizer que não deva haver discussão pública àcerca de decisões que custarão um mar de dinheiro aos contribuintes. Mas, uma coisa é discutir os critérios de justiça e a pertinência estratégica de certas opções. Outra coisa é discutir soluções de betão armado ou de estruturas metálicas ou as hipóteses mais ou menos realistas do modelo matemático em que se baseiam as previsões de tráfego. É lamentável e não augura nada de bom. Há egos e protagonismos que deviam ser geridos com bom-senso antes de se estatelarem no ecrã da televisão. Ou então, deixem-se as emoções exacerbadas (e alguma leviandade) de parte e pague-se a técnicos (portugueses ou estrangeiros) desapaixonados e competentes para preparar a fundamentação técnica de decisões importantes para o desenvolvimento do país.

terça-feira, abril 08, 2008

Sabedoria

A melhor sabedoria é a camponesa. Camponesa de Portugal, da Beira Alta. Gente de vida rude. De dificuldades. Que não se deixa levar pelos impulsos nem pela aparência. Que mede os pensamentos e as palavras sem nunca se perder da sua essência. Gente como a minha avó que se chamava... Lusitana e que guardava num sorriso matreiro um milhão de palavras, muita poesia, e sobretudo muita arte de enfrentar as adversidades. Que respeitava escrupulosamente a máxima de "quem ri no fim, ri melhor". Mulher de princípios vernáculos, traída pela cobiça, mas que não deixou de amar a vida, que nunca perdeu o respeito por si própria, que esperava serenamente pelo futuro. Mulher de rugas fundas e de mãos deformadas pelo trabalho no campo, com nós eloquentes de esforço. Já lá está "a fazer tijolo" há muitos anos, mas continua a inspirar-me e a surpreender-me pelas histórias de tenacidade que me continuam a contar. Com o tempo diluiu-se a paixão, atenuou-se a saudade. A recordação é mais tranquila. Permanece uma profunda admiração e o exemplo parece cada vez mais pertinente, resistente aos desvarios e aos acidentes da vida, forte como o granito de que é feita a casa em que viveu.

segunda-feira, março 31, 2008

SLB forever

Só faltava mesmo esta criatura para fazer do Benfica o clube mais português de Portugal... e arredores. Já não chegava o bigode e o ar de putanheiro do Filipe Vieira que disse que a pior coisa que podia ter acontecido ao SLB tinha sido ganhar o campeonato em 2005. "Porque assim adormeceu" - disse a personagem com solenidade e convicção perante uma plateia devota. Mas, agora é que vai ser: não se sabe a partir de quando, mas quando o Benfica voltar a ganhar o campeonato, ganha-lhe o gosto e nunca mais ninguém vai voltar a ganhar "forever and ever"... Porra: com tanta caricatura, broeirice, coirato e vinho tinto a martelo até custa ser do Glorioso. Viva o Benfica, viva, pim.

Eleições em África

Dado o que se está a passar no Zimbabwé e o que se passou não há muito tempo no Quénia e o que se tem passado noutros países do mesmo continente, parece que a melhor receita para atear uma guerra civil seja convocar eleições "livres e democráticas" com a devida vigilância de "observadores internacionais independentes". Antes de mais, apesar de todos esses observadores, as fraudes proliferam como cogumelos, sem grande sofisticação. Depois, ninguém está disposto a admitir a derrota, acusando a parte oposta de aldrabice, corrupção e violência. A coisa acaba por "resolver-se" à cacetada, mergulhando os respectivos países na instabilidade, no caos e no sangue. Melhor seria reconhecer que as ditas eleições à moda ocidental talvez não sejam o melhor processo de legitimação do poder em países que não tem nada de ocidental e que, pelo contrário, tanto sofreram com os ocidentais desde que foram colonizados a partir do século XV. No passado, a África vivia mais ou menos em paz e desenvolvia-se ao ritmo da sua cultura, na diversidade das suas tribos e regiões. Foram os ocidentais que criaram artificialmente a maior parte dos "países" africanos e que alimentaram as rivalidades tribais para dominarem os povos do continente. E agora vêm com a explicação simplista do tribalismo para justificar o anátema africano...

terça-feira, março 25, 2008

Do que eu gosto e do que eu não gosto

Eu sou pelas auto-estradas porque se vai mais depressa e com maior segurança de um deserto de betão a outro deserto de campos por cultivar. Eu sou pelo aeroporto porque se sai daqui mais facilmente. Eu sou por mais uma ponte porque assim se vai mais rapidamente para Sul. Eu sou pelo combóio rápido a que chamam TGV porque se vê menos a paisagem, esta nossa linda paisagem, cansativa e triste, cheia de sol. Eu sou pela PSP porque a violência fica mais protegida, apesar de continuar a ser mais violência. Eu sou pelo Procurador Geral da República porque assim os meninos vão pensar duas vezes antes de andar à pancada com os professores por causa de um telemóvel. Aliás, eu sou pelos telemóveis porque assim podemos chatear-nos mais facilmente uns aos outros e dizer mais facilmente quanto nos amamos e quanto nos detestamos e quanto estamos contentes ou deprimidos. Eu sou por Moçambique porque foi lá que o Cavaco e a mulher foram à tropa nos anos 60 e tinham um apartamento modesto numa simpática rua cheia de jacarandás. Eu sou pela escola que agora é dos moçambicanos mas que foi noutros tempos também da Maria. Eu sou pelo Cristiano Ronaldo porque nos faz sentir orgulhosos de ser portugueses. E detesto os pessimistas e os derrotistas e os arautos da desgraça e os fadistas e os poetas que passam a vida a perder tempo.

quinta-feira, março 13, 2008

As cintas de antigamente

Antigamente, as mulheres não podiam mostrar mais do que os joelhos e uma coisinha de nada da parte de cima das mamas, talvez com uma modesta exibição do desfiladeiro que existe entre as ditas (se estiverem devidamente apertadas... dependendo do tamanho). Estou naturalmente a falar do decote, que nunca excedia limites austeros e que os estranhos podiam abrir, mas só com a imaginação que deus lhes deu. É claro que havia as galdérias e as raparigas do teatro de revista. Essas mostravam muito mais... Os homens íam às primeiras às escondidas, com a saliva a escorrer pelo canto da boca (e não só!), e condescendiam em levar as “esposas” às segundas, para fazer de conta que aquilo bastava e que era uma transgressão consentida e partilhada e que não precisavam de ir às primeiras. Coitadas das esposas cujas testas não deixavam por isso de receber os emblemáticos ornamentos, mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor frequência. As putas eram as outras. E ainda bem. As esposas deviam continuar só isso mesmo. E extremosas mães de família. Havia competências que uma esposa não podia ter, que parecia mal se tivesse, que eram exclusivas das putas. E assim é que devia ser. Para bem da ordem e dos bons costumes e da estabilidade da família.

Agora não é nada disto. Agora deve haver promiscuidade, na mesma pessoa, entre a puta e a esposa e a mãe de familia e tudo o resto. As mulheres de hoje devem ser um autêntico caleidoscópio de talentos e virtudes. Para ambicionarem ser amadas e para o bem da própria família e contentamento dos intessados ou, mais precisamente, do interessado. E chamam a isto libertação sexual e permissividade dos costumes e satisfação, no seio conjugal, de irreprimiveis pulsões outrora redimidas noutros contextos...

Há uns dias passei por uma ruela da Baixinha de Coimbra onde encontrei à venda “cintas”, as saudosas cintas dos anos 50-70. Ou seja: verdadeiros espartilhos que serviam para homogeneizar o corpo feminino entre a barriga e a parte de cima das pernas. Porque era uma vergonha exibir as protuberâncias dessa zona corporal (percebe-se que se encontre aí a génese do contemporâneo problema da anorexia). Os homens podiam reprovar ou, pelo contrário, ter ideias pecaminosas ou desenvolver apetites suspeitos. A qualidade da cinta media-se pela eficácia com que escondia a banha ou a celulite, com que transformava involuntários coirões em Greta Garbos. A cinta obviamente devia apertar, comprimir, esmagar, atrofiar. Os produtos de superior qualidade (e preço) faziam tudo isso com o mínimo de desconforto. Apesar de tudo, imagine-se o que era andar de cinta no Verão com 40° à sombra... Numa certa altura, houve mesmo a febre das cintas espanholas e as nossas mães e avós mais cosmopolitas faziam excursões para ir a Ciudad Rodrigo ou a Badajoz comprar a cinta dos sonhos delas a preços de saldo...

Agora – disse-me a simpática vendedora – só as velhotas é que continuam a comprar cintas e, dada a miséria das pensões de reforma que por aí andam, são produtos de piedosa qualidade e parco preço. “Que se vendem cada vez menos” – rematou com o ar de quem presta um serviço filantrópico à Terceira Idade.

segunda-feira, março 10, 2008

Leituras alternativas da situação do país

O país é governado por uma vanguarda de iluminados que se impuseram a missão de modernizar Portugal através do esforço e da produtividade, que acham que é necessário criar a infraestrutura (material e imaterial) para que os portugueses se libertem finalmente da pobreza e do atraso. Essa vanguarda é extremamente convicta e partilha as ideias neo-liberais que implicam aumento da concorrência, espírito de iniciativa, eficiência, individualismo e ataque às corporações. Isso não seria contraditório com a pertença da maior parte desses missionários a um partido dito socialista.

Este modelo, sendo voluntarista e paternalista, opõe-se às teses da fatalidade do atraso português, pugnadas, por exemplo, por Pulido Valente que, fundamentalmente, acha que o grande mal de Portugal são apenas os portugueses e contra isso bem pouco há a fazer.

Essa apresentação das coisas também se distancia das teses mais ou menos populistas que dizem que o país é governado por um bando de privilegiados que se instalaram nos condomínios fechados de Lisboa e que observam o país como se fosse uma extensão dos centros comerciais da capital. Esses individuos teriam chegado a essa élite de fraca qualidade através das mais sórdidas traficâncias no seio dos dois principais partidos. E o objectivo principal desses condotieri é o de prolongar democraticamente as suas rendas e mordomias.

terça-feira, março 04, 2008

Sem culpa

Nunca nos amaste. Só querias resultados. O teu carinho era metálico e sibilino. Não me lembro dos teus beijos nem dos teus abraços. Só me lembro do teu olhar reprovador ou elogioso. Rápido como um golpe. Estavas sempre de saída, com a mala preta cheia de papéis. Chegavas tarde e falavas sempre do mesmo. As férias eram um aborrecimento, uma cedência a coisas irrelevantes... como nós, acidentes de uma vida com outros desígnios. Éramos obrigações, mais ou menos, decorativas. Uma vez, pediste a um polícia sinaleiro para olhar por nós e foste-te embora, “só por um bocadinho”, que te tinhas esquecido de uma coisa muito importante no escritório. O polícia acabou o turno e ficámos ali à beira da passadeira a ver passar carros e pessoas e a ver o céu escurecer. E voltaste já era noite funda. Deste-nos um beijo furtivo, inclinaste a cabeça como que a pedir desculpa, fizeste um sorriso que mais parecia uma esmola. O telefone tocou e continuaste pelo passeio a falar a falar a falar, fora dali. E nós seguimos-te como rafeiros, quase a correr. Íamos de mãos dadas, tão apertadas, tão apertadas que quase doía.

Assim se criou uma grande cumplicidade entre nós, os rafeiros que corriam atrás das tuas saias. Bastava olhar um para o outro, suspirar, assobiar para fugirmos da tua ausência, para nos safarmos nesse deserto de ternura, nessa enxurrada de palavras que não percebíamos, o teu código de que não fazíamos parte. Percebemos, no entanto, o significado da palavra sobrevivência. Crescemos para além de ti, apesar de ti, com uma dor profunda que custou tanto a cicatrizar. A dor do abandono. Mas, no fim de contas, desenrascámo-nos os dois na vida. A partir de certa altura, como é normal, cada um pelo seu lado, mas mantendo sempre uma grande amizade e a convicção do mal que nos tinhas feito. Uma espécie de amizade de soldados que sobreviveram a uma guerra terrível. Nunca falámos claramente desses momentos sombrios da nossa infância. Como se não fosse necessário. Como se existisse uma linguagem subtil das emoções, mais eloquente do que todas as palavras.

O que é mais incrível é que não fizeste nada por mal. Temos a certeza. Por isso não te podemos culpar... Eras apenas cega, indisponível para amar. E “não há mal pior do que o que se faz com a melhor das intenções”. E nem os anos, nem as contas que se fazem com a vida à medida que se envelhece, te fizeram compreender o passado. Por isso, agora, chegas a acusar-nos de ingratidão porque não passamos lá por casa todos os dias para saber como vai o teu reumatismo, porque não te telefonamos depois das tuas inúmeras consultas com o Dr. Policarpo, o curandeiro da tua alma, mais do que das tuas proverbiais enxaquecas. E não te cansas de dizer que foste extremosa e diligente. Que fizeste tudo por nós. E que chegámos onde chegámos porque nos puseste nos melhores colégios e nos arranjaste professores de Piano e de Francês enquanto as outras crianças do bairro rasgavam as calças a jogar à bola e assoavam o nariz na manga do casaco.

É difícil dizer obrigado. Resta-nos ter pena de ti.