segunda-feira, abril 28, 2008

Assim vai a Itália

Em Itália a vontade popular excede-se em sabedoria. Depois de ter dado a maioria a Berlusconi, a nível nacional, deu a maioria a Alemanno em Roma, um candidato de direita que se passeou com símbolos do mais radical extremismo nacionalista durante a campanha. E o homem diz que a sua prioridade será combater a criminalidade, o que para ele significa perseguir romenos, nigerianos, marroquinos e quejandos. Esses são os demónios que fazem mal aos inocentes e timoratos romanos cuja simpatia vai ao ponto de dar emprego e salários de príncipe a esses ingratos energúmenos. O perdedor foi um tal Rutelli, ex-Presidente da Câmara de Roma (lá diz-se síndaco) e ex-vice-primeiro-ministro de Prodi. É irritante esse Rutelli. Diz sempre as mesmas banalidades com um tom professoral e declamatório que provoca irritação nos tímpanos e no cérebro.

A última de Berlusconi foi mandar às malvas a Air France-KLM, grupo que propôs um plano de salvamento credível para a Alitalia. Mas, o Cavaliere não podia aceitar que franceses e holandeses se apoderassem da querida e arruinadíssíma companhia de bandeira. Para evitar a falência da dita-cuja, o governo italiano injectou mais 300 milhões de euros dos contribuintes. Para grande reprovação da Comissão Europeia que gritou "ó da guarda"... ajudas de Estado indevidas. Mas, Berlusconi ergue o orgulho nacional aos quatro ventos e assegura que haverá benevolentos empresários italianos com maior amor à Pátria do que à carteira...

sexta-feira, abril 25, 2008

Vão ver
http://ofregues.blogspot.com/
porque hoje é 25 de Abril.

Chère Naoual

Tu portes le bonheur des choses simples et la sagesse des racines profondes
Tu as la couleur du Sud et les formes douces des dunes du désert
Ton sourire est un rayon de soleil venu de là bas
Je ne connais que ta joie de vivre et cela me suffit

Tu es la preuve de la simplicité du bonheur

segunda-feira, abril 21, 2008

Kim

Os anos passam. Há prioridades que deixam de o ser, feridas que se abrem e que tardam a cicatrizar. Um dia acorda-se e a ilusão em que se navegou aparece, eloquente, como isso mesmo: uma ilusão. Olhou-me - o "iron man", o paradigma do sucesso ambiente - com uma lágrima escondida ao canto do olho a dizer que doía, que doía a separação que se estava a esboçar, irreversível como a noite de todos os dias. Francamente, tive pena dele. Mas, à compaixão juntaram-se respeito e muita admiração porque, finalmente, ousava mostrar-se humano, fraco como os humanos também são, vulnerável e cheio de emoções contraditórias, prontas a explodir. Falou, falou, falou, a sangrar sofrimento. Apeteceu-me abraçá-lo como se abraça um amigo que se descobre inesperadamente. Não o tinha na conta de amigo, como se escreve Amigo com A maíusculo. Por isso me surpreendeu a sua franqueza, sintoma de uma enorme fragilidade e de carência de humanidade. Despediu-se a pedir sigilo e compreensão. Como se fosse preciso. Esse resto de orgulho de que se faz a estima de si mesmo, um heroísmo patético de quem não pode deixar de chorar. Para poder depois levantar-se mais forte com o coração conciliado com a razão.

sexta-feira, abril 18, 2008

segunda-feira, abril 14, 2008

Vontades populares

Na Madeira, Jardim, de seu nome, faz do Presidente Silva um seu refém. Inconcebível! O Presidente da República não vai a uma Assembleia Regional composta de uma pequeníssima oposição feita de um "bando de loucos". E o trauliteiro com cara de vinho a martelo continua a fazer e a dizer o que lhe apetece, a distribuir insultos como se fossem tiradas de comediante de segunda categoria. E as pessoas riem-se e são condescentes, por vezes admiradoras. E por detrás do folclore há tudo menos democracia e liberdade. O que há é muito dinheiro, distribuido a torto e a direito, fazendo eleitores gratos, à custa dos contribuintes continentais. De que têm medo os políticos da República. Que o homem declare independência? Que se alie aos espanhóis ou aos americanos? Pois que assim seja e que nos fique menos caro tanto riso amarelo no meio do Atlântico.

Em Itália vence Berlusconi, crescem os "separatistas" da Lega Nord, eclipsa-se o que restava do Partido Comunista. Finalmente, uma espécie de bipolarismo desenha-se. O país afunda-se na crise com os preços a aumentar mais do que no resto da Europa e o PIB a estagnar. E Berlusconi fica cada vez mais rico e penteado com o cabelo que não tem e bronzeado com a cor que lhe falta. Vá-se lá entender porque é que as pessoas votam pela segunda vez numa tal criatura que faz as delícias dos detractores da Itália.

sábado, abril 12, 2008

Força Briosa

O problema do Benfica é só um: má gestão, incompetência, subdesenvolvimento. Um clube com aquela dimensão e ambições não pode ser governado por um tipo que, no máximo, está ao nível do Alverca (com o devido respeito pelos habitantes de Alverca). O Vieira é azeiteiro, trauliteiro, tem bigode a mais e bom senso a menos, tem muito cabelo grisalho pelas chico-espertices que não se cansa de fazer. É um pacóvio que julga que uma empresa se administra com frases de feira da ladra para empolgar uma multidão de aficionados de cerveja e carne entremeada na 2a. circular. O SLB precisa de gestores profissionais que não se escondam por detrás de atoardas contra inimigos reais ou imaginários. Será que não há um núcleo duro de Benfiquistas lúcidos que façam um "golpe" para varrer dali o Vieira e acólitos? Ou os protestos se limitam aos assobios e cartões de sócio rasgados num dia para serem colados no dia seguinte, sem que alguma coisa mude?

No meio disto tudo tenho apenas uma consolação: o carrasco de ontem do meu Benfica foi a minha caríssima Académica que anda a precisar de pontos como de pão para a boca para se manter entre os "grandes". Sim, porque no futebol tenho dois amores: Grande Briosa e pobre Benfica!

(clicar no título)

sexta-feira, abril 11, 2008

Aeroportos, combóios, pontes e estradas

O que custa mais é a cacofonia entre pessoas da mesma profissão que deviam ter feito o trabalho de casa antes de "botar a lingua aos minhotos". Mas, o que prevalece são rivalidades pessoais, lutas corporativas e invejas académicas que transformam um debate técnico (de pouco interesse para o comum dos cidadãos) em espectáculo mediático de gosto duvidoso que só deixa mal os putativos profissionais. Não estou com isto a dizer que não deva haver discussão pública àcerca de decisões que custarão um mar de dinheiro aos contribuintes. Mas, uma coisa é discutir os critérios de justiça e a pertinência estratégica de certas opções. Outra coisa é discutir soluções de betão armado ou de estruturas metálicas ou as hipóteses mais ou menos realistas do modelo matemático em que se baseiam as previsões de tráfego. É lamentável e não augura nada de bom. Há egos e protagonismos que deviam ser geridos com bom-senso antes de se estatelarem no ecrã da televisão. Ou então, deixem-se as emoções exacerbadas (e alguma leviandade) de parte e pague-se a técnicos (portugueses ou estrangeiros) desapaixonados e competentes para preparar a fundamentação técnica de decisões importantes para o desenvolvimento do país.

terça-feira, abril 08, 2008

Sabedoria

A melhor sabedoria é a camponesa. Camponesa de Portugal, da Beira Alta. Gente de vida rude. De dificuldades. Que não se deixa levar pelos impulsos nem pela aparência. Que mede os pensamentos e as palavras sem nunca se perder da sua essência. Gente como a minha avó que se chamava... Lusitana e que guardava num sorriso matreiro um milhão de palavras, muita poesia, e sobretudo muita arte de enfrentar as adversidades. Que respeitava escrupulosamente a máxima de "quem ri no fim, ri melhor". Mulher de princípios vernáculos, traída pela cobiça, mas que não deixou de amar a vida, que nunca perdeu o respeito por si própria, que esperava serenamente pelo futuro. Mulher de rugas fundas e de mãos deformadas pelo trabalho no campo, com nós eloquentes de esforço. Já lá está "a fazer tijolo" há muitos anos, mas continua a inspirar-me e a surpreender-me pelas histórias de tenacidade que me continuam a contar. Com o tempo diluiu-se a paixão, atenuou-se a saudade. A recordação é mais tranquila. Permanece uma profunda admiração e o exemplo parece cada vez mais pertinente, resistente aos desvarios e aos acidentes da vida, forte como o granito de que é feita a casa em que viveu.

segunda-feira, março 31, 2008

SLB forever

Só faltava mesmo esta criatura para fazer do Benfica o clube mais português de Portugal... e arredores. Já não chegava o bigode e o ar de putanheiro do Filipe Vieira que disse que a pior coisa que podia ter acontecido ao SLB tinha sido ganhar o campeonato em 2005. "Porque assim adormeceu" - disse a personagem com solenidade e convicção perante uma plateia devota. Mas, agora é que vai ser: não se sabe a partir de quando, mas quando o Benfica voltar a ganhar o campeonato, ganha-lhe o gosto e nunca mais ninguém vai voltar a ganhar "forever and ever"... Porra: com tanta caricatura, broeirice, coirato e vinho tinto a martelo até custa ser do Glorioso. Viva o Benfica, viva, pim.

Eleições em África

Dado o que se está a passar no Zimbabwé e o que se passou não há muito tempo no Quénia e o que se tem passado noutros países do mesmo continente, parece que a melhor receita para atear uma guerra civil seja convocar eleições "livres e democráticas" com a devida vigilância de "observadores internacionais independentes". Antes de mais, apesar de todos esses observadores, as fraudes proliferam como cogumelos, sem grande sofisticação. Depois, ninguém está disposto a admitir a derrota, acusando a parte oposta de aldrabice, corrupção e violência. A coisa acaba por "resolver-se" à cacetada, mergulhando os respectivos países na instabilidade, no caos e no sangue. Melhor seria reconhecer que as ditas eleições à moda ocidental talvez não sejam o melhor processo de legitimação do poder em países que não tem nada de ocidental e que, pelo contrário, tanto sofreram com os ocidentais desde que foram colonizados a partir do século XV. No passado, a África vivia mais ou menos em paz e desenvolvia-se ao ritmo da sua cultura, na diversidade das suas tribos e regiões. Foram os ocidentais que criaram artificialmente a maior parte dos "países" africanos e que alimentaram as rivalidades tribais para dominarem os povos do continente. E agora vêm com a explicação simplista do tribalismo para justificar o anátema africano...

terça-feira, março 25, 2008

Do que eu gosto e do que eu não gosto

Eu sou pelas auto-estradas porque se vai mais depressa e com maior segurança de um deserto de betão a outro deserto de campos por cultivar. Eu sou pelo aeroporto porque se sai daqui mais facilmente. Eu sou por mais uma ponte porque assim se vai mais rapidamente para Sul. Eu sou pelo combóio rápido a que chamam TGV porque se vê menos a paisagem, esta nossa linda paisagem, cansativa e triste, cheia de sol. Eu sou pela PSP porque a violência fica mais protegida, apesar de continuar a ser mais violência. Eu sou pelo Procurador Geral da República porque assim os meninos vão pensar duas vezes antes de andar à pancada com os professores por causa de um telemóvel. Aliás, eu sou pelos telemóveis porque assim podemos chatear-nos mais facilmente uns aos outros e dizer mais facilmente quanto nos amamos e quanto nos detestamos e quanto estamos contentes ou deprimidos. Eu sou por Moçambique porque foi lá que o Cavaco e a mulher foram à tropa nos anos 60 e tinham um apartamento modesto numa simpática rua cheia de jacarandás. Eu sou pela escola que agora é dos moçambicanos mas que foi noutros tempos também da Maria. Eu sou pelo Cristiano Ronaldo porque nos faz sentir orgulhosos de ser portugueses. E detesto os pessimistas e os derrotistas e os arautos da desgraça e os fadistas e os poetas que passam a vida a perder tempo.

quinta-feira, março 13, 2008

As cintas de antigamente

Antigamente, as mulheres não podiam mostrar mais do que os joelhos e uma coisinha de nada da parte de cima das mamas, talvez com uma modesta exibição do desfiladeiro que existe entre as ditas (se estiverem devidamente apertadas... dependendo do tamanho). Estou naturalmente a falar do decote, que nunca excedia limites austeros e que os estranhos podiam abrir, mas só com a imaginação que deus lhes deu. É claro que havia as galdérias e as raparigas do teatro de revista. Essas mostravam muito mais... Os homens íam às primeiras às escondidas, com a saliva a escorrer pelo canto da boca (e não só!), e condescendiam em levar as “esposas” às segundas, para fazer de conta que aquilo bastava e que era uma transgressão consentida e partilhada e que não precisavam de ir às primeiras. Coitadas das esposas cujas testas não deixavam por isso de receber os emblemáticos ornamentos, mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor frequência. As putas eram as outras. E ainda bem. As esposas deviam continuar só isso mesmo. E extremosas mães de família. Havia competências que uma esposa não podia ter, que parecia mal se tivesse, que eram exclusivas das putas. E assim é que devia ser. Para bem da ordem e dos bons costumes e da estabilidade da família.

Agora não é nada disto. Agora deve haver promiscuidade, na mesma pessoa, entre a puta e a esposa e a mãe de familia e tudo o resto. As mulheres de hoje devem ser um autêntico caleidoscópio de talentos e virtudes. Para ambicionarem ser amadas e para o bem da própria família e contentamento dos intessados ou, mais precisamente, do interessado. E chamam a isto libertação sexual e permissividade dos costumes e satisfação, no seio conjugal, de irreprimiveis pulsões outrora redimidas noutros contextos...

Há uns dias passei por uma ruela da Baixinha de Coimbra onde encontrei à venda “cintas”, as saudosas cintas dos anos 50-70. Ou seja: verdadeiros espartilhos que serviam para homogeneizar o corpo feminino entre a barriga e a parte de cima das pernas. Porque era uma vergonha exibir as protuberâncias dessa zona corporal (percebe-se que se encontre aí a génese do contemporâneo problema da anorexia). Os homens podiam reprovar ou, pelo contrário, ter ideias pecaminosas ou desenvolver apetites suspeitos. A qualidade da cinta media-se pela eficácia com que escondia a banha ou a celulite, com que transformava involuntários coirões em Greta Garbos. A cinta obviamente devia apertar, comprimir, esmagar, atrofiar. Os produtos de superior qualidade (e preço) faziam tudo isso com o mínimo de desconforto. Apesar de tudo, imagine-se o que era andar de cinta no Verão com 40° à sombra... Numa certa altura, houve mesmo a febre das cintas espanholas e as nossas mães e avós mais cosmopolitas faziam excursões para ir a Ciudad Rodrigo ou a Badajoz comprar a cinta dos sonhos delas a preços de saldo...

Agora – disse-me a simpática vendedora – só as velhotas é que continuam a comprar cintas e, dada a miséria das pensões de reforma que por aí andam, são produtos de piedosa qualidade e parco preço. “Que se vendem cada vez menos” – rematou com o ar de quem presta um serviço filantrópico à Terceira Idade.

segunda-feira, março 10, 2008

Leituras alternativas da situação do país

O país é governado por uma vanguarda de iluminados que se impuseram a missão de modernizar Portugal através do esforço e da produtividade, que acham que é necessário criar a infraestrutura (material e imaterial) para que os portugueses se libertem finalmente da pobreza e do atraso. Essa vanguarda é extremamente convicta e partilha as ideias neo-liberais que implicam aumento da concorrência, espírito de iniciativa, eficiência, individualismo e ataque às corporações. Isso não seria contraditório com a pertença da maior parte desses missionários a um partido dito socialista.

Este modelo, sendo voluntarista e paternalista, opõe-se às teses da fatalidade do atraso português, pugnadas, por exemplo, por Pulido Valente que, fundamentalmente, acha que o grande mal de Portugal são apenas os portugueses e contra isso bem pouco há a fazer.

Essa apresentação das coisas também se distancia das teses mais ou menos populistas que dizem que o país é governado por um bando de privilegiados que se instalaram nos condomínios fechados de Lisboa e que observam o país como se fosse uma extensão dos centros comerciais da capital. Esses individuos teriam chegado a essa élite de fraca qualidade através das mais sórdidas traficâncias no seio dos dois principais partidos. E o objectivo principal desses condotieri é o de prolongar democraticamente as suas rendas e mordomias.

terça-feira, março 04, 2008

Sem culpa

Nunca nos amaste. Só querias resultados. O teu carinho era metálico e sibilino. Não me lembro dos teus beijos nem dos teus abraços. Só me lembro do teu olhar reprovador ou elogioso. Rápido como um golpe. Estavas sempre de saída, com a mala preta cheia de papéis. Chegavas tarde e falavas sempre do mesmo. As férias eram um aborrecimento, uma cedência a coisas irrelevantes... como nós, acidentes de uma vida com outros desígnios. Éramos obrigações, mais ou menos, decorativas. Uma vez, pediste a um polícia sinaleiro para olhar por nós e foste-te embora, “só por um bocadinho”, que te tinhas esquecido de uma coisa muito importante no escritório. O polícia acabou o turno e ficámos ali à beira da passadeira a ver passar carros e pessoas e a ver o céu escurecer. E voltaste já era noite funda. Deste-nos um beijo furtivo, inclinaste a cabeça como que a pedir desculpa, fizeste um sorriso que mais parecia uma esmola. O telefone tocou e continuaste pelo passeio a falar a falar a falar, fora dali. E nós seguimos-te como rafeiros, quase a correr. Íamos de mãos dadas, tão apertadas, tão apertadas que quase doía.

Assim se criou uma grande cumplicidade entre nós, os rafeiros que corriam atrás das tuas saias. Bastava olhar um para o outro, suspirar, assobiar para fugirmos da tua ausência, para nos safarmos nesse deserto de ternura, nessa enxurrada de palavras que não percebíamos, o teu código de que não fazíamos parte. Percebemos, no entanto, o significado da palavra sobrevivência. Crescemos para além de ti, apesar de ti, com uma dor profunda que custou tanto a cicatrizar. A dor do abandono. Mas, no fim de contas, desenrascámo-nos os dois na vida. A partir de certa altura, como é normal, cada um pelo seu lado, mas mantendo sempre uma grande amizade e a convicção do mal que nos tinhas feito. Uma espécie de amizade de soldados que sobreviveram a uma guerra terrível. Nunca falámos claramente desses momentos sombrios da nossa infância. Como se não fosse necessário. Como se existisse uma linguagem subtil das emoções, mais eloquente do que todas as palavras.

O que é mais incrível é que não fizeste nada por mal. Temos a certeza. Por isso não te podemos culpar... Eras apenas cega, indisponível para amar. E “não há mal pior do que o que se faz com a melhor das intenções”. E nem os anos, nem as contas que se fazem com a vida à medida que se envelhece, te fizeram compreender o passado. Por isso, agora, chegas a acusar-nos de ingratidão porque não passamos lá por casa todos os dias para saber como vai o teu reumatismo, porque não te telefonamos depois das tuas inúmeras consultas com o Dr. Policarpo, o curandeiro da tua alma, mais do que das tuas proverbiais enxaquecas. E não te cansas de dizer que foste extremosa e diligente. Que fizeste tudo por nós. E que chegámos onde chegámos porque nos puseste nos melhores colégios e nos arranjaste professores de Piano e de Francês enquanto as outras crianças do bairro rasgavam as calças a jogar à bola e assoavam o nariz na manga do casaco.

É difícil dizer obrigado. Resta-nos ter pena de ti.

sábado, março 01, 2008

O Texas deste mundo


O filme que mais Óscares ganhou este ano (clicar no título) é mais do que o enésimo filme americano àcerca da violência extrema naquele país. Não é apenas o retrato de um paranóico serial-killer (desempenhado soberbamente por Javier Bardem - actor principal de “Mar Adentro” - tornado quase irreconhecível pela caracterização) que mata sem sentido, compulsivamente, gratuitamente, por acaso. Não é só um filme que descreve a rudeza das condições de vida num deserto do Texas, junto à fronteira com o México. De facto, o enredo, que ocupa o centro do filme, é na minha opinião apenas o suporte do debate existencial de um xerife (desempenhado por Tommy Lee Jones) à beira da reforma que não compreende o cinismo e a violência que o rodeiam. Um homem que se sente estranho na selva em que se tornou aquele país, onde a criminalidade atinge um requinte e uma crueldade inimagináveis, onde as relações entre as pessoas são frias, efémeras, utilitárias. A vida humana vale bem pouco no meio daquilo tudo, verdadeiro Far West. No fundo, os Estados Unidos nunca perderam a crueldade que caracterizou em larga medida a conquista do Oeste...

O filme também é intrigante porque, de facto, os desfechos não são claros. O fim é mais ou menos aberto à imaginação dos espectadores e aparece num momento em que se aguarda a resolução de algumas situações deixadas em suspenso.

Em geral, “No Country for Old Men” insere-se numa tendência geral do cinema que retrata a violência e a desumanidade da sociedade actual (estou a lembrar-me por exemplo de “Into the Wild”). Cinema que reflecte uma crise profunda associada ao hiper-individualismo, ao desmoronamento dos elos sociais e das formas espontâneas de solidariedade. Crise que conduz à subalternização de valores como a confiança, a lealdade, o respeito, a sinceridade, a cooperação e à absolutização do dinheiro, da vitória, da eficácia, do luxo, da beleza.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Próximo governo = PS + Bloco ?

Menezes é verdadeiramente calamitoso, como diz hoje o seu correligionário António Capucho numa entrevista ao Diário Económico. O homem não tem a mínima credibilidade para liderar o país. [De Paulo Portas nem se fala…] E depois aquele duo com Santana é ruinoso… para o próprio Menezes e, sobretudo, para o Partido. Será que o PSD não tem um grupo de pessoas com um mínimo de poder e lucidez para extirpar esses vírus e iniciar uma autêntica renovação? Não é que eu seja simpatizante (muito longe disso), mas a democracia e o progresso do país requerem uma oposição com estatura, nomeadamente à direita. De outro modo, continuaremos a ter o PS por defeito ou… “malgré tout”. Mas, a impopularidade e o desgaste do governo, de qualquer maneira, tornarão altamente improvável uma nova maioria absoluta, conforme demonstram sondagens recentes. Se não é a direita a ganhar o descontentamento, será a esquerda, principalmente, o Bloco. Mais uma vez, as sondagens mostram que o PC se mantém estável e que o Bloco sobe. Seria divertido ter um governo do PS com o Bloco ou dependente dos votos do Bloco… depois de todas as diatribes (e insultos) entre os líderes dos dois partidos. Mas, a política é feita de ditos e não-ditos, de sapos que se engolem e, sobretudo, de compromissos, n’est-ce-pas?

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A arte da felicidade

Pergunto-me porque é que arte se inspira tão frequentemente da tristeza. A criatividade concentra-se nas coisas mais escuras, nas dúvidas e nas ameaças, nas perdas, na morte, na angústia, no medo. Parece que as pessoas felizes (que as há por aí...) se satisfazem, contentes com a sua paz, sem precisar de exorcizar qualquer inquietação através da arte. Talvez seja isso. Talvez a felicidade seja a mais discreta, humilde e nobre forma de arte. E estou-me nas tintas para Nietzsche quando diz que só os fracos precisam de ser felizes.

Eles falam, falam...

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O outro samba do Brasil

Depois de ter estado à beira da bancarrota nos anos 80, o Brasil tinha no final de 2007, mais reservas cambiais do que dívida externa. Isto é, o país passou de grande devedor a credor líquido. A performance económica do Brasil é notável também no que diz respeito à inflação (à volta de 4%) e ao crescimento do PIB (5.25% em 2007). Por outro lado, apesar de se manterem enormes desigualdades sociais, os indicadores de pobreza têm evoluído favoravelmente. E tudo isso foi realizado, essencialmente, por governos de um Presidente (Lula da Silva) que os credores externos e, sobretudo, o FMI tanto temeram, aquando da sua eleição em 2003, acusando-o de ser de extrema-esquerda e populista.

Na minha modesta opinião, o sucesso da governação de Lula da Silva deve-se a dois factores principais: o pragmatismo da sua política, não querendo andar mais depressa no crescimento e no combate à pobreza do que a economia permite (assim, terá defraudado algumas expectativas da esquerda mais radical); um contexto internacional favorável, nomeadamente, no que se refere aos termos de troca (preço médio das exportações / preço médio das importações).

terça-feira, fevereiro 26, 2008

O funil

Quando era pequeno e me falavam em “uma hora”, isso, para mim, era uma eternidade. Quando me diziam que qualquer coisa se iria passar dali a “uma semana”, isso, para mim, era uma vida inteira. Em cada ano, quando acabava o Natal, ficava triste porque o Natal voltava só dali a “um ano” e isso, para mim, era quase nunca mais. Punha-me a calcular quantos anos teria no ano 2000 e parecia-me impossível: não queria acreditar vir a ter a idade do meu pai. O tempo passava lentamente, com calma, o futuro era muito longe, as coisas pareciam não ter fim. E eu nunca acabaria, obviamente. Tinha tempo para tudo, para descansar e para me enganar, para cair e para me levantar.

Agora, quando me falam em daqui a “uma hora”, quase já passou. Quando se marca qualquer coisa para daqui a “uma semana”, é um instante. Os anos sucedem-se a uma velocidade estonteante e nem sequer há tempo para olhar para o espelho e descobrir a sumptuosidade de uma ruga. E no entanto, ficamos velhos e fracos e resignamo-nos, dizendo que não pode ser de outra maneira. E é verdade.

A vida é como um funil por onde se vai escorregando com uma rapidez crescente.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Sarkozy again

Depois de uma ascensão fulgurante que culminou na eleição como Presidente da Republica de França no ano passado, Nicolas Sarkozy tem caído em desgraça, com as sondagens a revelar que apenas uma decrescente minoria continua a apoiá-lo. As causas são múltiplas, em termos de “gaffes”, mas mais ou menos uniformes na substância. Sarkozy brincou com o fogo, dessacralizou o poder, desafiou as instituições da Republica, misturou vida pública com vida privada. Desempenhou as suas funções nas revistas cor-de-rosa. Exibiu hiperactividade sem correspondência nos resultados concretos da política. Ora, isso funciona para cima quando os sinais são positivos, mas funciona cruelmente para baixo se a coisa começa a dar para o torto, o que tem sido o caso desde há vários meses: divórcio de Cecília; casamento menos de 3 semanas depois com a modelo e actriz Carla Bruni; SMS mandado posteriormente à ex-mulher a dizer que podia tudo voltar atrás se ela quisesse; nomeação do filho como candidato a Presidente da Câmara de Neuilly (nos arredores de Paris), contra a vontade de uma grande parte do partido; no último fim-de-semana, insulto tonitruante a um visitante do Salão da Agricultura de Paris que se tinha recusado a apertar-lhe a mão; divergências vindas a público com membros da “entourage”, etc. etc.

Pobre Sarkozy: tornou-se uma espécie de “clown” ou “guignol” da política francesa e europeia…

sábado, fevereiro 23, 2008

Destinos

Isabel, a mãe, nunca amou verdadeiramente Ana, a filha. Apenas a utilizou como um cavalo de corrida para redimir os seus próprios traumas, como uma arma de arremesso contra um passado de vergonha. Isabel foi vítima de pecados, segundo ela grandiosos, que fazem uma vida inteira, no sentido de que passam a motivar tudo ou quase tudo, passam a justificar tudo ou quase tudo. Pecados que nem precisam de ter a grandeza que se lhes atribui. Podem ter sido apenas faltas a uma moral obtusa, actos fora de tempo e no sítio errado. Não interessa: foram erros ou traições ou vinganças que se tornaram a moldura do resto da vida.

Há coisas más de que precisamos como se fossem energia para enfrentar outras coisas, porventura piores, que a vida nos mete no caminho. A reacção à maldade, real ou virtual, é um combustível potentíssimo. Torna-se uma missão. E sabemos quão fortes e perseverantes são os missionários. Mete-se a cabeça em baixo e continua-se a subir a estrada de uma putativa perfeição, mordendo os lábios, contra tudo e contra todos e, sobretudo, contra si próprio, o que é mais dramático e cego.

Pois bem, Ana foi um instrumento da redenção desses caríssimos pecados porque não podia ser nada menos do que perfeita, nada menos do que Isabel deveria ter sido e não foi. E não foi por uma culpa estúpida que atribui a si mesma. Isabel tratava a filha como se fosse uma gazela. As suas carícias eram as de um tratador de feras. Os seus olhares não pingavam ternura, mas exigiam devoção e esforço. Ana olhava-a com uma mistura de respeito e pavor. De vez em quando, timidamente, implorava carinho, mas o que saía era um beijo furtivo, uma cedência às “lamechices que satisfazem os fracos”. O mínimo deslize, a mais pequena leviandade de Ana eram sinais de descarrilamento, de fuga à missão que ambas tinham de cumprir: a de mostrar a todos que, apesar dos erros cometidos numa fase aziaga da vida de Isabel, eram ambas fortes e superiores e vitoriosas.

As emoções, o amor e a ternura eram compromissos inaceitáveis, insignificâncias que podiam desviar do trajecto sumptuoso da redenção.

Até que Ana decidiu viver a sua própria vida em vez de viver a vida que a mãe lhe tinha reservado. E Isabel caiu irremediavelmente na armadilha que foi urdindo para si mesma, odiando a felicidade da filha que era nada menos do que uma enormíssima, insuportável traição aos destinos de ambas.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Secousse génitale

Traduzido de "Le Monde" on-line:

"Segundo Shlomo Benizri, um deputado israelita religioso ortodoxo, os responsáveis pela vaga de tremores de terra que têm sacudido o país nos últimos meses são os homosexuais. 'Deus disse que faria abanar o mundo para vos acordar se continuassem a agitar as vossas partes genitais, o que não devem fazer', explicou o dito deputado."

Tudo bem... mas só não percebo porque é que a coisa se aplica apenas aos homosexuais...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Ganda Portugal

Quem viu hoje o telejornal da Antena 1 deve ter ficado com o papo cheio de nacionalismo pacóvio. Sabem que há um correspondente da RTP que se chama António Esteves Martins e que é uma anedota de português no estrangeiro? O homem não se cansa de encontrar exemplos de portuguesismo de alguidares-de-baixo por esse mundo fora. Para a criatura, a política internacional é uma espécie de telenovela contada por donas de casa de toalha na cabeça depois do duche (com o devido respeito...), em que a personagem simpática é invariavelmente um portuga vestido de soldado ou de adepto do Benfica, algures no meio de um grande conflito. Pois agora foi o Kosovo. Sabiam que Portugal está a desempenhar um papel crucial na potencial resolução do temido problema da declaração de independência daquela ex-província da Sérvia? Pois é verdade! Porque os soldados portugueses são fofinhos, casam-se com as moçoilas lá do sítio, jogam à bola com as crianças e bebem uns copos com os "líderes locais". E é esse lado humano, carinhoso dos nossos soldados que fará com que as populações locais sigam o exemplo lusíada e acabem aos beijinhos... apesar de a Sérvia se sentir ultrajada, apesar de os kosovares albaneses odiarem de morte os kosovares sérvios e vice-versa, apesar de a Rússia dizer que não está de acordo, apesar de a embaixada dos Estados Unidos em Belgrado ter sido incendiada, apesar de não haver consenso entre os países da União Europeia quanto ao reconhecimento do novo Estado. Apesar disso tudo, segundo o impagável António Esteves Martins, o sargento Cruz e o capitão Amado vão guindar Portugal aos píncaros da política internacional com os dribles aos putos de Mitrovitsa e com as petiscadas com os kosovares de todas as cores e etnias. E o facto de Portugal não ter ainda tomado posição oficial àcerca do assunto não conta assim tanto porque, no terreno, estão o cabo Pereira e o tenente Carvalho que são uns gajos porreiríssimos. E de certeza serão ainda mais porreiros nos próximos dias porque o Sporting e o Benfica conseguiram mandar às malvas os suiços do Basileia e os alemães do Nuremberga. Ganda Portugal!

A caminho do céu

O carro subia com um barulho monótono, a uma velocidade constante. As curvas, sempre mais apertadas, sucediam-se. A estrada era cada vez mais íngreme e estreita. Nesse fim de tarde, a luz ía desaparecendo lentamente.

E continuava a guiar, como um autómato, indiferente aos precipícios ao lado da estrada, sempre mais estreita e sinuosa. No banco de trás, a criança dormia como um anjo, com uma face rosada de tranquilidade.

Fez-se noite. Os faróis do carro projectavam uma luz espectral que, porém, não conseguia penetrar o nevoeiro que se tinha formado. Só por milagre as rodas do carro se mantinham em cima da tira de asfalto, sempre mais estreita. A estrada parecia suspensa entre duas ravinas profundas.

E continuava a guiar, completamente absorto, como se uma estranha força o impedisse de parar. E a criança continuava a dormir no banco de trás, envolta numa paz doce e inocente.

A estrada era infinita. Não levava a lado algum. Era apenas cada vez mais íngreme e estreita, desafiando a trajectória de um carro guiado por uma força misteriosa.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A morte de uma amizade nascente

O modo como me disseste para ter respeitinho foi uma autêntica agressão. Senti-me ofendido, mais pelo tom e volume inesperado da tua voz do que pelas próprias palavras. Quiseste sublinhar tão bem o mal-estar que involuntariamente te terei causado que me deixaste uma ferida profunda. Queria apenas dizer que estavas melhor, que tinhas recuperado da tua doença, que o teu corpo tinha retomado as bonitas formas de outros tempos. E tu disseste que os quilos a mais ou a menos não eram da minha conta. Que devia evitar comentários desse tipo... se queria continuar a ser teu amigo. Foi um acto de poder, de arrogância, de ingratidão, de injustiça. Senti-me um energúmeno. A nossa putativa amizade morreu ali.