Depois de uma ascensão fulgurante que culminou na eleição como Presidente da Republica de França no ano passado, Nicolas Sarkozy tem caído em desgraça, com as sondagens a revelar que apenas uma decrescente minoria continua a apoiá-lo. As causas são múltiplas, em termos de “gaffes”, mas mais ou menos uniformes na substância. Sarkozy brincou com o fogo, dessacralizou o poder, desafiou as instituições da Republica, misturou vida pública com vida privada. Desempenhou as suas funções nas revistas cor-de-rosa. Exibiu hiperactividade sem correspondência nos resultados concretos da política. Ora, isso funciona para cima quando os sinais são positivos, mas funciona cruelmente para baixo se a coisa começa a dar para o torto, o que tem sido o caso desde há vários meses: divórcio de Cecília; casamento menos de 3 semanas depois com a modelo e actriz Carla Bruni; SMS mandado posteriormente à ex-mulher a dizer que podia tudo voltar atrás se ela quisesse; nomeação do filho como candidato a Presidente da Câmara de Neuilly (nos arredores de Paris), contra a vontade de uma grande parte do partido; no último fim-de-semana, insulto tonitruante a um visitante do Salão da Agricultura de Paris que se tinha recusado a apertar-lhe a mão; divergências vindas a público com membros da “entourage”, etc. etc.
Pobre Sarkozy: tornou-se uma espécie de “clown” ou “guignol” da política francesa e europeia…
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
sábado, fevereiro 23, 2008
Destinos
Isabel, a mãe, nunca amou verdadeiramente Ana, a filha. Apenas a utilizou como um cavalo de corrida para redimir os seus próprios traumas, como uma arma de arremesso contra um passado de vergonha. Isabel foi vítima de pecados, segundo ela grandiosos, que fazem uma vida inteira, no sentido de que passam a motivar tudo ou quase tudo, passam a justificar tudo ou quase tudo. Pecados que nem precisam de ter a grandeza que se lhes atribui. Podem ter sido apenas faltas a uma moral obtusa, actos fora de tempo e no sítio errado. Não interessa: foram erros ou traições ou vinganças que se tornaram a moldura do resto da vida.
Há coisas más de que precisamos como se fossem energia para enfrentar outras coisas, porventura piores, que a vida nos mete no caminho. A reacção à maldade, real ou virtual, é um combustível potentíssimo. Torna-se uma missão. E sabemos quão fortes e perseverantes são os missionários. Mete-se a cabeça em baixo e continua-se a subir a estrada de uma putativa perfeição, mordendo os lábios, contra tudo e contra todos e, sobretudo, contra si próprio, o que é mais dramático e cego.
Pois bem, Ana foi um instrumento da redenção desses caríssimos pecados porque não podia ser nada menos do que perfeita, nada menos do que Isabel deveria ter sido e não foi. E não foi por uma culpa estúpida que atribui a si mesma. Isabel tratava a filha como se fosse uma gazela. As suas carícias eram as de um tratador de feras. Os seus olhares não pingavam ternura, mas exigiam devoção e esforço. Ana olhava-a com uma mistura de respeito e pavor. De vez em quando, timidamente, implorava carinho, mas o que saía era um beijo furtivo, uma cedência às “lamechices que satisfazem os fracos”. O mínimo deslize, a mais pequena leviandade de Ana eram sinais de descarrilamento, de fuga à missão que ambas tinham de cumprir: a de mostrar a todos que, apesar dos erros cometidos numa fase aziaga da vida de Isabel, eram ambas fortes e superiores e vitoriosas.
As emoções, o amor e a ternura eram compromissos inaceitáveis, insignificâncias que podiam desviar do trajecto sumptuoso da redenção.
Até que Ana decidiu viver a sua própria vida em vez de viver a vida que a mãe lhe tinha reservado. E Isabel caiu irremediavelmente na armadilha que foi urdindo para si mesma, odiando a felicidade da filha que era nada menos do que uma enormíssima, insuportável traição aos destinos de ambas.
Há coisas más de que precisamos como se fossem energia para enfrentar outras coisas, porventura piores, que a vida nos mete no caminho. A reacção à maldade, real ou virtual, é um combustível potentíssimo. Torna-se uma missão. E sabemos quão fortes e perseverantes são os missionários. Mete-se a cabeça em baixo e continua-se a subir a estrada de uma putativa perfeição, mordendo os lábios, contra tudo e contra todos e, sobretudo, contra si próprio, o que é mais dramático e cego.
Pois bem, Ana foi um instrumento da redenção desses caríssimos pecados porque não podia ser nada menos do que perfeita, nada menos do que Isabel deveria ter sido e não foi. E não foi por uma culpa estúpida que atribui a si mesma. Isabel tratava a filha como se fosse uma gazela. As suas carícias eram as de um tratador de feras. Os seus olhares não pingavam ternura, mas exigiam devoção e esforço. Ana olhava-a com uma mistura de respeito e pavor. De vez em quando, timidamente, implorava carinho, mas o que saía era um beijo furtivo, uma cedência às “lamechices que satisfazem os fracos”. O mínimo deslize, a mais pequena leviandade de Ana eram sinais de descarrilamento, de fuga à missão que ambas tinham de cumprir: a de mostrar a todos que, apesar dos erros cometidos numa fase aziaga da vida de Isabel, eram ambas fortes e superiores e vitoriosas.
As emoções, o amor e a ternura eram compromissos inaceitáveis, insignificâncias que podiam desviar do trajecto sumptuoso da redenção.
Até que Ana decidiu viver a sua própria vida em vez de viver a vida que a mãe lhe tinha reservado. E Isabel caiu irremediavelmente na armadilha que foi urdindo para si mesma, odiando a felicidade da filha que era nada menos do que uma enormíssima, insuportável traição aos destinos de ambas.
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Secousse génitale
Traduzido de "Le Monde" on-line:
"Segundo Shlomo Benizri, um deputado israelita religioso ortodoxo, os responsáveis pela vaga de tremores de terra que têm sacudido o país nos últimos meses são os homosexuais. 'Deus disse que faria abanar o mundo para vos acordar se continuassem a agitar as vossas partes genitais, o que não devem fazer', explicou o dito deputado."
Tudo bem... mas só não percebo porque é que a coisa se aplica apenas aos homosexuais...
"Segundo Shlomo Benizri, um deputado israelita religioso ortodoxo, os responsáveis pela vaga de tremores de terra que têm sacudido o país nos últimos meses são os homosexuais. 'Deus disse que faria abanar o mundo para vos acordar se continuassem a agitar as vossas partes genitais, o que não devem fazer', explicou o dito deputado."
Tudo bem... mas só não percebo porque é que a coisa se aplica apenas aos homosexuais...
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Ganda Portugal
Quem viu hoje o telejornal da Antena 1 deve ter ficado com o papo cheio de nacionalismo pacóvio. Sabem que há um correspondente da RTP que se chama António Esteves Martins e que é uma anedota de português no estrangeiro? O homem não se cansa de encontrar exemplos de portuguesismo de alguidares-de-baixo por esse mundo fora. Para a criatura, a política internacional é uma espécie de telenovela contada por donas de casa de toalha na cabeça depois do duche (com o devido respeito...), em que a personagem simpática é invariavelmente um portuga vestido de soldado ou de adepto do Benfica, algures no meio de um grande conflito. Pois agora foi o Kosovo. Sabiam que Portugal está a desempenhar um papel crucial na potencial resolução do temido problema da declaração de independência daquela ex-província da Sérvia? Pois é verdade! Porque os soldados portugueses são fofinhos, casam-se com as moçoilas lá do sítio, jogam à bola com as crianças e bebem uns copos com os "líderes locais". E é esse lado humano, carinhoso dos nossos soldados que fará com que as populações locais sigam o exemplo lusíada e acabem aos beijinhos... apesar de a Sérvia se sentir ultrajada, apesar de os kosovares albaneses odiarem de morte os kosovares sérvios e vice-versa, apesar de a Rússia dizer que não está de acordo, apesar de a embaixada dos Estados Unidos em Belgrado ter sido incendiada, apesar de não haver consenso entre os países da União Europeia quanto ao reconhecimento do novo Estado. Apesar disso tudo, segundo o impagável António Esteves Martins, o sargento Cruz e o capitão Amado vão guindar Portugal aos píncaros da política internacional com os dribles aos putos de Mitrovitsa e com as petiscadas com os kosovares de todas as cores e etnias. E o facto de Portugal não ter ainda tomado posição oficial àcerca do assunto não conta assim tanto porque, no terreno, estão o cabo Pereira e o tenente Carvalho que são uns gajos porreiríssimos. E de certeza serão ainda mais porreiros nos próximos dias porque o Sporting e o Benfica conseguiram mandar às malvas os suiços do Basileia e os alemães do Nuremberga. Ganda Portugal!
A caminho do céu
O carro subia com um barulho monótono, a uma velocidade constante. As curvas, sempre mais apertadas, sucediam-se. A estrada era cada vez mais íngreme e estreita. Nesse fim de tarde, a luz ía desaparecendo lentamente.
E continuava a guiar, como um autómato, indiferente aos precipícios ao lado da estrada, sempre mais estreita e sinuosa. No banco de trás, a criança dormia como um anjo, com uma face rosada de tranquilidade.
Fez-se noite. Os faróis do carro projectavam uma luz espectral que, porém, não conseguia penetrar o nevoeiro que se tinha formado. Só por milagre as rodas do carro se mantinham em cima da tira de asfalto, sempre mais estreita. A estrada parecia suspensa entre duas ravinas profundas.
E continuava a guiar, completamente absorto, como se uma estranha força o impedisse de parar. E a criança continuava a dormir no banco de trás, envolta numa paz doce e inocente.
A estrada era infinita. Não levava a lado algum. Era apenas cada vez mais íngreme e estreita, desafiando a trajectória de um carro guiado por uma força misteriosa.
E continuava a guiar, como um autómato, indiferente aos precipícios ao lado da estrada, sempre mais estreita e sinuosa. No banco de trás, a criança dormia como um anjo, com uma face rosada de tranquilidade.
Fez-se noite. Os faróis do carro projectavam uma luz espectral que, porém, não conseguia penetrar o nevoeiro que se tinha formado. Só por milagre as rodas do carro se mantinham em cima da tira de asfalto, sempre mais estreita. A estrada parecia suspensa entre duas ravinas profundas.
E continuava a guiar, completamente absorto, como se uma estranha força o impedisse de parar. E a criança continuava a dormir no banco de trás, envolta numa paz doce e inocente.
A estrada era infinita. Não levava a lado algum. Era apenas cada vez mais íngreme e estreita, desafiando a trajectória de um carro guiado por uma força misteriosa.
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
A morte de uma amizade nascente
O modo como me disseste para ter respeitinho foi uma autêntica agressão. Senti-me ofendido, mais pelo tom e volume inesperado da tua voz do que pelas próprias palavras. Quiseste sublinhar tão bem o mal-estar que involuntariamente te terei causado que me deixaste uma ferida profunda. Queria apenas dizer que estavas melhor, que tinhas recuperado da tua doença, que o teu corpo tinha retomado as bonitas formas de outros tempos. E tu disseste que os quilos a mais ou a menos não eram da minha conta. Que devia evitar comentários desse tipo... se queria continuar a ser teu amigo. Foi um acto de poder, de arrogância, de ingratidão, de injustiça. Senti-me um energúmeno. A nossa putativa amizade morreu ali.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Puta que pariu os pobres...
Os ricos são espertos, inteligentes, dinâmicos, empreendedores, fura-vidas… Os pobres são pobres porque cometem erros, são burros, têm um Q.I. abaixo da média, são preguiçosos, medíocres, imprevidentes, não topam as oportunidades e ficam sempre na cepa torta…
A sociedade devia ter só ricos, devia ser uma espécie de Club Med dos indivíduos que reúnem todas as ínclitas qualidades dos ricos. Como seria bonita essa sociedade. Só grandes vivendas, viagens às Caraíbas, carros de alta cilindrada, tratamentos de beleza que custam fortunas, cirurgia plástica, filhos em colégios caríssimos da Suiça onde os filhos de ricos fazem amizade com outros filhos de ricos. Haveria tanto bem-estar e eficiência. Dinheiro e impostos a rodos para fazer auto-estradas larguíssimas e ter serviços públicos de altíssima qualidade sem prejudicar o sacrossanto equilíbrio orçamental. Portugal seria do que de mais competitivo existe à face da Terra.
Mas, para isso seria necessário eliminar os pobres, essa escumalha mal cheirosa, esses pelintras que passam o tempo de fato de treino rasca nos centros comerciais a tirar macacos do nariz e a dar porrada aos filhos porque não têm dinheiro para lhes comprar os chupa-chupa. Essa bandalheira que anda de Fiat Uno a cair de podre e que está no desemprego e que se candidata também ao rendimento mínimo pago com o dinheirinho dos impostos dos ricos inteligentes e dinâmicos. Tem algum jeito andar a pagar impostos para sustentar essa canalha, esses detritos da sociedade! Os pobres não merecem viver, estorvam a abundância e o bom gosto dos ricos. Deviam ser liquidados. Essa gente não presta, é um acidente da Natureza.
E não me venham dizer que os pobres servem para fazer os ricos, que os ricos passam a vida a roubar aos pobres. Isso são teorias da treta, da chamada exploração do homem pelo homem. Coisas de revolucionários que já não estão a dar. O PREC já lá vai há muito tempo... Isto agora é preciso é trabalhar, trabalhar muito. E ter juizinho, não cagar fora do penico. Trabalhem mas é malandros e vão ver que deixam todos de ser pobres e que poderão até entrar nos condomínios fechados dos ricos e no reino dos céus dos ricos. Porque, senão, continuam na merda e vão de certeza para o Inferno. Porque também lá vai o tempo em que S Mateus dizia que é mais difícil um rico entrar no reino dos céus do que um camelo passar pelo cú de uma agulha.
A sociedade devia ter só ricos, devia ser uma espécie de Club Med dos indivíduos que reúnem todas as ínclitas qualidades dos ricos. Como seria bonita essa sociedade. Só grandes vivendas, viagens às Caraíbas, carros de alta cilindrada, tratamentos de beleza que custam fortunas, cirurgia plástica, filhos em colégios caríssimos da Suiça onde os filhos de ricos fazem amizade com outros filhos de ricos. Haveria tanto bem-estar e eficiência. Dinheiro e impostos a rodos para fazer auto-estradas larguíssimas e ter serviços públicos de altíssima qualidade sem prejudicar o sacrossanto equilíbrio orçamental. Portugal seria do que de mais competitivo existe à face da Terra.
Mas, para isso seria necessário eliminar os pobres, essa escumalha mal cheirosa, esses pelintras que passam o tempo de fato de treino rasca nos centros comerciais a tirar macacos do nariz e a dar porrada aos filhos porque não têm dinheiro para lhes comprar os chupa-chupa. Essa bandalheira que anda de Fiat Uno a cair de podre e que está no desemprego e que se candidata também ao rendimento mínimo pago com o dinheirinho dos impostos dos ricos inteligentes e dinâmicos. Tem algum jeito andar a pagar impostos para sustentar essa canalha, esses detritos da sociedade! Os pobres não merecem viver, estorvam a abundância e o bom gosto dos ricos. Deviam ser liquidados. Essa gente não presta, é um acidente da Natureza.
E não me venham dizer que os pobres servem para fazer os ricos, que os ricos passam a vida a roubar aos pobres. Isso são teorias da treta, da chamada exploração do homem pelo homem. Coisas de revolucionários que já não estão a dar. O PREC já lá vai há muito tempo... Isto agora é preciso é trabalhar, trabalhar muito. E ter juizinho, não cagar fora do penico. Trabalhem mas é malandros e vão ver que deixam todos de ser pobres e que poderão até entrar nos condomínios fechados dos ricos e no reino dos céus dos ricos. Porque, senão, continuam na merda e vão de certeza para o Inferno. Porque também lá vai o tempo em que S Mateus dizia que é mais difícil um rico entrar no reino dos céus do que um camelo passar pelo cú de uma agulha.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
1.9%
A produção nacional cresceu 1.9% em 2007. Isso é mais do que se previa, mas é menos do que a média da Europa e apenas metade do número espanhol...
E daí? O que é que isso quer dizer para o comum dos mortais, para a criatura que continua no desemprego, para o velhote que passa fome porque a pensão não chega até ao fim do mês, para o jovem que vê o caso malparado para arranjar emprego e sair de casa dos pais no fim da licenciatura, para o doente crónico que não tem a certeza de ser atendido no mesmo sítio para o mês que vem, etc, etc? O que é que esses números, apresentados com pompa e circunstância pelo governo e seus apaniguados, tem a ver com o quotidiano das pessoas banais? Não dos tecnocratas, financeiros, protegidos e vencedores do regime que tem o cabelo puxado para trás e usam óculos redondos Giorgio Armani...
Porque é que 1.9% é uma espécie de medalha de ouro, motivo de regozijo, fonte de confiança e de optimismo? Porque é que deviamos fazer uma festa, dado que o PIB cresceu no ano passado 1.9% e isso é mais do que se pensava? Deviamos andar todos com um desenho de 1.9% estampado na cara, como se fosse a bandeira nacional durante o campeonato da Europa de futebol.
É preciso descodificar a economia e torná-la mais acessível das pessoas. Por exemplo, quem produziu esse crescimento, quem dele beneficiou, como foi repartido entre os vários sectores da população e entre as diferentes regiões do país? Porque não foi superior? Quanto deveria ter sido, durante quantos anos, para que se visse uma melhoria tangível das condições de vida dos portugueses, em especial dos mais pobres? Porque os mais pobres não são os mais estúpidos, preguiçosos, botas-de-elástico, ignorantes. Os mais pobres não são o estrume de uma sociedade que premeia a competência... A grande maioria dos mais pobres tiveram apenas o azar de nascer no sítio errado. Esses estão-se nas tintas para os 1.9%... até ao dia em que lhes provarem que se tornaram, pelo menos, 1.9% mais ricos, merecedores de mais 1.9% de dignidade e de menos 1.9% de sofrimento e de humilhação.
Só por curiosidade: segundo as minhas contas, seriam necessários 18 anos para que Portugal atingisse a média de produto per capita da UE-15, caso o PIB português crescesse em média 4.5% ao ano contra 2.5% da UE-15. Isso admitindo que a população cresça à mesma taxa e que actualmente o produto per capita português seja de 70% da média europeia. Esse número de anos duplicaria se Portugal crescesse a 3.5% e a EU-15 continuasse a crescer a 2.5%...
Abençoados 1.9%. Poderia ser ainda pior... E não foi seguramente por causa do nosso querido governo!
E daí? O que é que isso quer dizer para o comum dos mortais, para a criatura que continua no desemprego, para o velhote que passa fome porque a pensão não chega até ao fim do mês, para o jovem que vê o caso malparado para arranjar emprego e sair de casa dos pais no fim da licenciatura, para o doente crónico que não tem a certeza de ser atendido no mesmo sítio para o mês que vem, etc, etc? O que é que esses números, apresentados com pompa e circunstância pelo governo e seus apaniguados, tem a ver com o quotidiano das pessoas banais? Não dos tecnocratas, financeiros, protegidos e vencedores do regime que tem o cabelo puxado para trás e usam óculos redondos Giorgio Armani...
Porque é que 1.9% é uma espécie de medalha de ouro, motivo de regozijo, fonte de confiança e de optimismo? Porque é que deviamos fazer uma festa, dado que o PIB cresceu no ano passado 1.9% e isso é mais do que se pensava? Deviamos andar todos com um desenho de 1.9% estampado na cara, como se fosse a bandeira nacional durante o campeonato da Europa de futebol.
É preciso descodificar a economia e torná-la mais acessível das pessoas. Por exemplo, quem produziu esse crescimento, quem dele beneficiou, como foi repartido entre os vários sectores da população e entre as diferentes regiões do país? Porque não foi superior? Quanto deveria ter sido, durante quantos anos, para que se visse uma melhoria tangível das condições de vida dos portugueses, em especial dos mais pobres? Porque os mais pobres não são os mais estúpidos, preguiçosos, botas-de-elástico, ignorantes. Os mais pobres não são o estrume de uma sociedade que premeia a competência... A grande maioria dos mais pobres tiveram apenas o azar de nascer no sítio errado. Esses estão-se nas tintas para os 1.9%... até ao dia em que lhes provarem que se tornaram, pelo menos, 1.9% mais ricos, merecedores de mais 1.9% de dignidade e de menos 1.9% de sofrimento e de humilhação.
Só por curiosidade: segundo as minhas contas, seriam necessários 18 anos para que Portugal atingisse a média de produto per capita da UE-15, caso o PIB português crescesse em média 4.5% ao ano contra 2.5% da UE-15. Isso admitindo que a população cresça à mesma taxa e que actualmente o produto per capita português seja de 70% da média europeia. Esse número de anos duplicaria se Portugal crescesse a 3.5% e a EU-15 continuasse a crescer a 2.5%...
Abençoados 1.9%. Poderia ser ainda pior... E não foi seguramente por causa do nosso querido governo!
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
Buffet

Warren Buffet é um norte-americano, já de uma certa idade, muito, muito, mas muito rico. Segundo a revista Forbes, com um património líquido avaliado em mais de 50 biliões de dólares, Buffet seria o homem mais rico do planeta… depois de Bill Gates. Através da sua empresa histórica Berkshire Hathaway, Buffet tem participações em centenas de empresas, em todo o mundo. Tem fama de adivinhar o futuro dos mercados financeiros e de tomar sempre, ou quase sempre, decisões acertadas para a sua carteira. Decisões que não são baseadas na moda ou na tendência geral (o chamado efeito-carneirada), mas numa análise fria das empresas e do seu potencial de crescimento, e num certo “feeling” de investidor experimentado que já viu passar muitos ciclos, crises e bolhas especulativas.
Este Senhor propõe-se ajudar as companhias de seguro de crédito (chamadas “monolines”) que garantiram biliões de dólares de empréstimos imobiliários a pessoas com solvência duvidosa. Se não forem ajudadas, essas companhias podem enfrentar sérias dificuldades e a perenidade e o preço de outros empréstimos que também garantiram podem estar em perigo, provocando mais uma onda de choque nos mercados de crédito mundiais, já de si conturbados. Assim, Buffet poderia estar interessado em tomar a posição das monolines como garante de centenas de biliões de dólares de obrigações municipais. Trata-se de títulos de crédito emitidos pelos Estados e outras entidades da administração regional e local dos EUA e subscritos por aforradores privados e institucionais.
Antes de mais, poder-se-ia perguntar para que tem servido a garantia das monolines a esses empréstimos, dado o seu baixo nível de risco, decorrente do carácter estatal ou para-estatal dos emitentes… Seja como for, o Senhor Buffet quer comprar às monolines só esses créditos (“la crème de la crème”), não os outros que apresentam risco elevado e que são a verdadeira fonte dos problemas actuais das monolines. Não há dúvida de que o Senhor Buffet é generoso… (sem querer subestimar a importância que tal poupança de capital poderia ter para as monolines). Mas, seria apenas um paliativo, mais do que a resolução do problema subjacente. E seguramente mais um excelente negócio para um homem que se tornaria um grande credor da administração dos Estados Unidos e beneficiário de um fluxo avultado e recorrente de comissões de garantias de baixíssimo risco.
E as declarações matreiras de Warren Buffet foram o principal factor de recuperação das bolsas mundiais ontem e hoje. Um único homem provoca uma onda de expectativas que conduz a centenas de biliões de dólares de mais-valias em poucos dias. E só pensar que existem fundos de pensões por esse mundo fora compostos de activos financeiros cuja cotação depende de coisas destas. Poder? Qual poder? De quem? Para quem?
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Lust Caution
“Lust, Caution” é o último filme de Ang Lee (o realizador de “Brokeback Mountain”). A acção situa-se em Shangai, numa China ocupada pelo Japão, durante a II Guerra Mundial. Uma jovem estudante, muito bonita, membro da resistência, tem como missão seduzir um importante colaborador dos japoneses e atrai-lo para uma cilada. O problema é que os amantes se apaixonam perdidamente e o dever mistura-se com o desejo. Num jogo subtil de atracção mútua e de devoção a causas antagónicas, a relação entre a “espia” e o “facínora” passa, gradualmente, de explosiva a profundamente romântica. A fatalidade adivinha-se e desse jogo vertiginoso todos sairão perdedores. Coisa de extremos, de não retorno, de escolhas vitais. Os primeiros 30-40 minutos do filme são algo monótonos, mas, a seguir, vê-se que se trata de uma encenação paciente do âmago da história. Essa introdução revela-se necessária à construção da trama. A não perder.
Não
Por favor não me digas que não. Estou à espera há tanto tempo, sonhei com este momento dias e noites a fio. Não posso suportar o teu “não”. É como se a vida que fingi viver desaparecesse de repente, para sempre, envolta numa nuvem escura. Por favor chega-te a mim, explica-me as tuas dúvidas. Diz-me de onde vem a tua inquietação, de que tens medo, que promessas achas que não vão ser cumpridas. Que falta de convicção é essa que te dá suores frios, que te faz olhar para o futuro através de um vidro opaco. Porque é que tens medo de acordar todos os dias ao lado da mesma pessoa, de cheirar o mesmo corpo, de tomar o mesmo café pela manhã, por vezes quase frio, de faltar ao encontro à porta da escola, de ver o mesmo número no visor do teu telefone, de ter vontade de ir a outro lado sem ter de dar explicações, de querer fugir sem remorsos. Porque é que temes a prisão da vida e teimas em não crescer, em não olhar as coisas com serenidade. De que liberdade andas à procura. Que tumulto é esse que te priva de dois dias seguidos de paz. Que maldição é essa que te prende a um campo estéril.
São piores as tuas dúvidas do que o “não” que me darás. Vou sofrer algum tempo, mas depois levanto-me de novo. Nunca desisto, mesmo perante simpáticos algozes de sentimentos, como tu. O principal mal será teu. Continuarás presa nos ferros torcidos do teu querido desastre até ao próximo crash. Porque haverá sempre mais um…
São piores as tuas dúvidas do que o “não” que me darás. Vou sofrer algum tempo, mas depois levanto-me de novo. Nunca desisto, mesmo perante simpáticos algozes de sentimentos, como tu. O principal mal será teu. Continuarás presa nos ferros torcidos do teu querido desastre até ao próximo crash. Porque haverá sempre mais um…
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Ti Zé
Havia na minha rua um sapateiro-remendão que passava os dias no paleio com quem passava à porta da oficina, enquanto apertava sapatos, remendava solas e puxava o lustro às botas da Senhora Ermelinda e às das amigas da Senhora Ermelinda. Chamávamos-lhe Ti Zé. Os velhotes da minha rua que tinham profissões como ele eram todos Ti Qualquer Coisa. Para nós, putos de escola primária, todas as pessoas com mais de 20 anos eram naturalmente velhotes. Havia o padeiro, o ferreiro, o mecânico de bicicletas, o merceeiro, o vendedor de panos. O Ti Zé era divertido, esperto como um alho, saía-se sempre com uma anedota oportuna. E sabia tantas e tão coloridas. E era malicioso. Adorava desafiar o pudor dos rapazes que se iniciavam “naquilo” como podiam, à socapa de uma moral que, no fim de contas, era mais tolerante do que parecia. Lembro-me de um jogo de cartas com mulheres quase nuas que fazia as nossas delícias. Por essas e por outras a oficina do Ti Zé era mais do que um sítio onde se reparava calçado. Era uma espécie de templo do pecado, o máximo da transgressão a que tinhamos direito sob a tutela experimentada do Ti Zé. Era um sítio para rapazes. As raparigas passavam por ali coradas, suspeitando a falta de decoro. Recordo-me perfeitamente do riso picante e amigo do Ti Zé. A partir de certa altura, começaram a faltar-lhe as forças para puxar as cordas ensebadas, morreu-lhe no ultramar o filho militar, o neto casou e foi para longe e o Ti Zé ficou triste. Pouco tempo depois fechou a oficina e os nossos pais passaram a reparar os sapatos num centro comercial cheio de máquinas e a cheirar a novo. Mas, a reparação custa tão caro que, agora, deitam-se fora os sapatos velhos e compram-se outros que custam pouco e que duram ainda menos.
Nos seus tempos áureos o Ti Zé não tinha dúvidas existenciais. Não se sentia todos os dias à prova, não devia demonstrar a sua competência ou eficácia. Ele era simplesmente bom. Trabalhava bem e barato, não tinha de comunicar a ninguém resultados semanais ou mensais ou trimestrais. Não tinha dúvidas sobre o seu próprio valor. Não precisava de fazer de conta que era simpático. Não se punha a discutir o significado da amizade, do perdão, da tolerância ou da generosidade. Tudo isso lhe saia espontâneamente, como respirar, rir ou comer. Era feliz como a felicidade pode ser simples. A vida era uma dádiva que não discutia, que apanhava no ar com a inocência de uma criança. Há cada vez menos Ti Zés e cada vez mais pessoas que se metem dentro de si próprias à procura de um sentido para as suas atormentadas existências, que se esforçam para ser bons cidadãos. Mas, talvez a “culpa” não seja só das pessoas, mas de uma sociedade que também mudou, que se modernizou no sentido das máquinas de reparar sapatos e de centros comerciais cheios de luz, a cheirar a plástico e a detergente.
Nos seus tempos áureos o Ti Zé não tinha dúvidas existenciais. Não se sentia todos os dias à prova, não devia demonstrar a sua competência ou eficácia. Ele era simplesmente bom. Trabalhava bem e barato, não tinha de comunicar a ninguém resultados semanais ou mensais ou trimestrais. Não tinha dúvidas sobre o seu próprio valor. Não precisava de fazer de conta que era simpático. Não se punha a discutir o significado da amizade, do perdão, da tolerância ou da generosidade. Tudo isso lhe saia espontâneamente, como respirar, rir ou comer. Era feliz como a felicidade pode ser simples. A vida era uma dádiva que não discutia, que apanhava no ar com a inocência de uma criança. Há cada vez menos Ti Zés e cada vez mais pessoas que se metem dentro de si próprias à procura de um sentido para as suas atormentadas existências, que se esforçam para ser bons cidadãos. Mas, talvez a “culpa” não seja só das pessoas, mas de uma sociedade que também mudou, que se modernizou no sentido das máquinas de reparar sapatos e de centros comerciais cheios de luz, a cheirar a plástico e a detergente.
domingo, fevereiro 10, 2008
O rosto
Olhou-o longamente, como se estivesse de partida para uma longa viagem. Como se estivesse para o perder. Queria ficar-lhe com todos os detalhes, a cor dos olhos, a pequena cicatriz no queixo, as orelhas pequenas e bem desenhadas, o cabelo castanho e ondulado, as rugas ao canto dos olhos quando sorria, o nariz perfeito como mármore. Queria levar consigo os ingredientes com que pintaria a paisagem do seu rosto. Não sabia quando o voltaria a ver. Talvez no dia seguinte. Talvez nunca mais. Com ele, era assim mesmo. Uma montanha russa, uma caixinha de surpresas de que podiam sair momentos deliciosos ou autênticos pesadelos. Mas, ela continuava nessa oscilação permanente, sem esperança, sem futuro, com uma memória selectiva. Para se proteger. Queria, pelo menos, ficar com uma bonita recordação do seu rosto, no caso de tudo acabar subitamente. Como era previsível. Por isso o olhava longamente, ignorando as palavras de bandido com que, mais uma vez, ele tentava encantá-la. As palavras valiam pouco, sempre menos, menos do que o seu rosto, uma espécie de último testemunho do que de bom tinham vivido. Era preciso ficar com aquele rosto gravado na memória porque tudo o resto estava condenado a estragar-se, como uma velha folha de papel a flutuar numa corrente de àgua turva.
sábado, fevereiro 09, 2008
A demissão do Estado
O Estado tem-se demitido das suas funções tradicionais de assegurar a prestação de bens e serviços públicos de qualidade. O próprio Estado, sob a pressão dos interesses privados, define territórios cada vez mais limitados da sua intervenção, vende ou subcontrata actividades que eram do domínio público. O âmbito dos chamados bens públicos estreita-se: já não são as infra-estruturas de energia, de transporte, de telecomunicações, já não é a educação ou a saúde, já não são amplas áreas da segurança e da justiça. Então o que resta dos bens públicos? O que é que o mercado não pode fornecer? Em que condições e a que preço? A questão não é técnica. Não se trata de uma modificação do conceito de bem público de há 50 anos a esta parte. Rivalidade e exclusão continuam a ser os principais elementos da definição. A questão é ideológica. Alegadamente, o Estado cresceu demais durante os 30 Gloriosos, sob a influência do keynesianismo, provocando rigidez e desperdício na economia e asfixiando os contribuintes. Agora é preciso reduzi-lo para dar a primazia à iniciativa privada, verdadeiro Santo Graal de uma economia livre, eficiente e virtuosa. E se daí resulta um agravamento das desigualdades sociais, concentremo-nos no seu amortecimento, através de rendimentos mínimos e do incentivo à passagem rápida do desemprego à ocupação. Aí reencontramos algum Estado. E essa abordagem é partilhada pela direita e pela esquerda, com variações apenas quanto à intensidade e duração das medidas.
Contudo, parece que o verdadeiro problema social é o da inflação. E para isso existem soluções técnicas e organismos independentes do poder político para as aplicar… Após uma intervenção discreta das autoridades, quando atinge valores excessivos e compromete a paz social, o desemprego (normal) é considerado sobretudo um problema individual que a própria iniciativa das pessoas atingidas deve resolver. De outra maneira cair-se-ia no assistencialismo e na subsídio-dependência, assim se diz…
Essencialmente, estamos no domínio da auto-restrição do poder político e da transformação dos políticos em meros gestores, rendidos à ditadura dos recursos escassos. Os argumentos utilizados são frequentemente o da eficiência e o da putativa necessidade de reduzir o défice. O Estado, assim, renuncia ao seu poder de império e comporta-se como se fosse uma empresa privada, como se as suas despesas e receitas fossem as de uma grande empresa, governada por uma lógica própria, interna, alheia aos interesses colectivos. Muitas vezes, o Estado esquece-se que a sua própria poupança se traduz em custos acrescidos para os utentes dos serviços. Esses custos, por sua vez, têm como reverso os lucros dos prestadores privados desses serviços. Afinal para que serve o Estado? Para contribuir para o bem-estar dos cidadãos? Para se sobrepor às lógicas privadas que não criam necessariamente uma comunidade? Para gerir contratos generosamente assinados com empresas privadas? Para transferir recursos de uns sectores para outros sectores da população e da economia? Com que critérios de equidade ou de eficiência? Para olhar para as contas em permanência com se fosse um merceeiro?
Acho que os políticos se demitiram e dado o número daqueles que arranjaram bons empregos no sector privado não me restam dúvida das razões que os motivaram.
Contudo, parece que o verdadeiro problema social é o da inflação. E para isso existem soluções técnicas e organismos independentes do poder político para as aplicar… Após uma intervenção discreta das autoridades, quando atinge valores excessivos e compromete a paz social, o desemprego (normal) é considerado sobretudo um problema individual que a própria iniciativa das pessoas atingidas deve resolver. De outra maneira cair-se-ia no assistencialismo e na subsídio-dependência, assim se diz…
Essencialmente, estamos no domínio da auto-restrição do poder político e da transformação dos políticos em meros gestores, rendidos à ditadura dos recursos escassos. Os argumentos utilizados são frequentemente o da eficiência e o da putativa necessidade de reduzir o défice. O Estado, assim, renuncia ao seu poder de império e comporta-se como se fosse uma empresa privada, como se as suas despesas e receitas fossem as de uma grande empresa, governada por uma lógica própria, interna, alheia aos interesses colectivos. Muitas vezes, o Estado esquece-se que a sua própria poupança se traduz em custos acrescidos para os utentes dos serviços. Esses custos, por sua vez, têm como reverso os lucros dos prestadores privados desses serviços. Afinal para que serve o Estado? Para contribuir para o bem-estar dos cidadãos? Para se sobrepor às lógicas privadas que não criam necessariamente uma comunidade? Para gerir contratos generosamente assinados com empresas privadas? Para transferir recursos de uns sectores para outros sectores da população e da economia? Com que critérios de equidade ou de eficiência? Para olhar para as contas em permanência com se fosse um merceeiro?
Acho que os políticos se demitiram e dado o número daqueles que arranjaram bons empregos no sector privado não me restam dúvida das razões que os motivaram.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Educação e psicologia caninas
Clicar no título para descobrir um mundo maravilhoso, feito de subtileza, carícias, lágrimas, sorrisos, mal-entendidos, ciúmes, birras, tolerância, afecto e desvelo. Percorram todo o menu do site e deslumbrem-se com a complexidade do tema, com os desafios quotidianos que coloca uma relação homem-cão. Porque não bastavam as dificuldades das relações entre humanos, entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre jovens e idosos... Tudo isso não chegava para nos fazer vibrar, para nos criar uma saudável quantidade de rugas, para nos tirar horas de sono. Numa inquebrantável pesquisa de problemas de que nos possamos coçar, a imaginação não conhece limites e os cães ajudam a restabelecer uma justa dose de preocupação.
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Política à italiana
Mais ou menos até ao início dos anos 80, o sistema político italiano era centrado em dois pólos: o partido democrata-cristão e o partido comunista (época Berlinguer). Isso não queria dizer, necessariamente, estabilidade, mas existia alguma clareza ideológica. O PC andou muito próximo do poder e as pressões da CIA para impedir um tal cenário chegaram a ser argumento de filmes. O terrorismo das BR (Brigate Rosse) eclodiu também como reacção à imobilidade provocada pelo impasse entre esses dois pólos e à putativa submissão do PC às regras da democracia burguesa. O climax desse contexto foi o assassinato de Aldo Moro em 1978.
Com a queda do Muro e o apogeu de corrupção representado em 1992 por Tangentopoli (nome dado a Milão onde se concentravam as maiores traficâncias, nomeadamente, para financiamento ilícito da democracia-cristã), o sistema "bi-polar" desmoronou-se, dando origem a uma miríade de pequenos partidos onde os barões de outros tempos, da esquerda e da direita, e seus descendentes e acólitos, se tentaram arrumar para recuperar poder e visibilidade. Essa é a situação em que se encontra actualmente a Itália.
O governo Prodi, sustentado por uma escassa maioria no Senado, caiu porque um senhor chamado Mastella, chefe de um pequeno partido de centro (UDEUR), originário da antiga democracia-cristã, que fazia parte de uma coligação de mais de 15 partidos, decidiu bater com a porta porque achou que ele e a mulher, dirigente da região da Câmpania, foram vítimas de uma campanha de difamação (a dita senhora está acusada pela justiça de corrupção...).
O presidente Napolitano ainda tentou nomear um governo de gestão, até se preparar uma nova lei eleitoral que permitisse maior estabilidade política (basicamente, tratar-se-ia de introduzir um sistema proporcional para retirar aos pequenos partidos o poder excessivo de que gozam actualmente). Mas, Berlusconi que controla os media e que as sondagens dão como vencedor nas eleições com o actual sistema, disse que não. A sua impaciência para voltar ao poder não tem limites e, como no passado, está mais preocupado em defender os seus próprios interesses do que os da Itália e em criar leis que o imunizem da justiça. E vai daí, novas eleições vão ser convocadas para meados de Abril, após menos de 2 anos de governo Prodi...
Com a queda do Muro e o apogeu de corrupção representado em 1992 por Tangentopoli (nome dado a Milão onde se concentravam as maiores traficâncias, nomeadamente, para financiamento ilícito da democracia-cristã), o sistema "bi-polar" desmoronou-se, dando origem a uma miríade de pequenos partidos onde os barões de outros tempos, da esquerda e da direita, e seus descendentes e acólitos, se tentaram arrumar para recuperar poder e visibilidade. Essa é a situação em que se encontra actualmente a Itália.
O governo Prodi, sustentado por uma escassa maioria no Senado, caiu porque um senhor chamado Mastella, chefe de um pequeno partido de centro (UDEUR), originário da antiga democracia-cristã, que fazia parte de uma coligação de mais de 15 partidos, decidiu bater com a porta porque achou que ele e a mulher, dirigente da região da Câmpania, foram vítimas de uma campanha de difamação (a dita senhora está acusada pela justiça de corrupção...).
O presidente Napolitano ainda tentou nomear um governo de gestão, até se preparar uma nova lei eleitoral que permitisse maior estabilidade política (basicamente, tratar-se-ia de introduzir um sistema proporcional para retirar aos pequenos partidos o poder excessivo de que gozam actualmente). Mas, Berlusconi que controla os media e que as sondagens dão como vencedor nas eleições com o actual sistema, disse que não. A sua impaciência para voltar ao poder não tem limites e, como no passado, está mais preocupado em defender os seus próprios interesses do que os da Itália e em criar leis que o imunizem da justiça. E vai daí, novas eleições vão ser convocadas para meados de Abril, após menos de 2 anos de governo Prodi...
Política fiscal
Neste momento, os Estados Unidos (como o Japão nos anos 90) estão à beira de uma "armadilha de liquidez". Nesta situação, a política monetária (designadamente, a redução das taxas de juro) torna-se impotente. A solução para a crise deve provir da política fiscal. Penso que a administração Bush o tenha finalmente percebido...
terça-feira, fevereiro 05, 2008
O Alto-comissário Vital
O fervor Socrático de Vital Moreira é espantoso. O professor de Coimbra consegue arranjar argumentos para justificar tudo e mais alguma coisa, para branquear as medidas mais impopulares e absurdas deste governo, em nome de uma putativa, sacrossanta Reforma. Indubitavelemente, trata-se de uma pessoa de convicções. Variáveis, mas, em cada momento, firmes.
domingo, fevereiro 03, 2008
O Carlos de que se fala
Estou-me nas tintas para o Rei. Comia que nem um bruto. Desenhava umas coisas indescrítiveis com cavalos e barquinhos. Adorava o mar, pois claro... Fartava-se de pôr os palitos à Dona Amélia. Coitadas das concubinas que tinham de aguentar com tanta, real massa corpórea. Portugal era uma paisagem distante e o povo parte da decoração. Mas, andam para aí umas criaturas a fazer a reciclagem da personagem: que era muito culto, estrangeirado, sensível, amante das artes... Ora porra! Como se estava nas tintas para a governação, havia de passar o tempo a fazer alguma coisa. Também dizem que, bastava ter sido o último dos reis que começaram há 800 anos, para merecer respeito, para fazer parte da história nacional. Blá, blá... Tendo em conta a treta que fizeram esses fabricantes da gesta nacional (especialmente depois de D. João II e de D. Manuel I), não sei bem de que real grandeza deveriamos ser orgulhosos. O homem foi assassinado e isso não se faz a ninguém, mas daí a organizar comemorações republicanas desse malogro monárquico, não obrigado!
sábado, fevereiro 02, 2008
O miúdo e o carro
O miúdo ía no carro com o pai. Estava frio e era de noite. O carro fazia um barulho monótono daqueles que puxam ao sono, depois de um dia longo de trabalho. O miúdo enrolou-se aos pés do lugar do passageiro, com todo o corpo perto das saídas de ar do aquecimento. Sentiu-se quentinho e aconchegado. O pai cantarolava um fado triste mas bonito, para passar o tempo e para escapar às tentações de Morfeu. O miúdo, aninhado no lugar ao lado, olhava para cima e via passar, de vez em quando, a luz de um poste de iluminação, paredes de casas de que se recordava, àrvores subitamente iluminadas pelos faróis do carro. E assim, ao longo daquele trajecto feito dezenas de vezes, apesar de escondido, conseguia saber exactamente o lugar por onde estavam a passar. Continuava com aquele jogo até sucumbir ao calor da "chauffage" e à sedução do sono. Acordava na garagem ao colo do pai.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Viva Sócrates! Viva! Pim!
Apesar de ter um certo pó ao V. Pulido Valente, tenho de reconhecer que o artigo que publicou hoje no "Público" é hilariante àcerca dos ziguezagues de J. Sócrates na demissão do Ministro da Saúde. O mesmo jornal continua no ataque ao Primeiro-ministro revelando que terá assinado durante muitos anos trabalhos de engenharia que não efectuou. Francamente, começo a ter pena do chefe do governo. Como tive uma certa pena de Ferro Rodrigues quando se atolou no pântano da Casa Pia... A criatura (quero dizer: Sócrates) quer apenas meter a malta na ordem, poupar dinheiro, mostrar a Bruxelas que somos bem comportados, criar as "bases estruturais" para arrancar o país do marasmo proverbial. O homem tem uma ideia de Portugal, um Portugal europeu e moderno, como Salazar tinha uma ideia de Portugal, nesse caso, um Portugal rural, colonial, tranquilo e resignado. Sócrates só nos quer bem, a nós todos, portugueses que ainda não cairam na realidade de que para gozar é preciso, primeiro, trabalhar. Trabalhar duro, sem privilégios nem mordomias. É claro que Sócrates, como Salazar, em relação aos latifundiários e capitalistas de vão-de-escada, precisa de fazer cedências a alguns barões do sistema e do seu partido, para assegurar a sobrevivência política, de modo a realizar a missão que Deus e os portugueses (fartos das diatribes de Santana Lopes) lhe confiaram. A equação de um visionário como Sócrates é tudo menos simples. Ainda bem que faz "jogging" e que é relativamente jovem porque, senão, ainda lhe dava uma solipanca e ía desta para melhor, coitado...
Dito isto, o homem, apertado por todos os lados (PC, CDS, bloquistas, sindicatos ressuscitados, Menezes e acólitos, médicos, professores, populações fartas de perder o senhor doutor e a senhora professora, engenheiros, bancos, empresas de construção civil e obras públicas, etc, etc) começa a desenvolver um irritante complexo de perseguição. Ele sabia para o que ía, porra! Sabia que tinha alguns telhados de vidro, sabia que, numa democracia, não é preciso apenas ser-se eleito, é preciso, depois, lidar com os interesses e com o debate permanente da opinião pública, ao tomar decisões que não são unânimes. Mas, confio na dureza do bicho (que se traveste frequentemente em arrogância) para enfrentar os vilões e andar-para-a-frente-com-as-reformas-e-com-a-modernização-do-país. Amen.
Dito isto, o homem, apertado por todos os lados (PC, CDS, bloquistas, sindicatos ressuscitados, Menezes e acólitos, médicos, professores, populações fartas de perder o senhor doutor e a senhora professora, engenheiros, bancos, empresas de construção civil e obras públicas, etc, etc) começa a desenvolver um irritante complexo de perseguição. Ele sabia para o que ía, porra! Sabia que tinha alguns telhados de vidro, sabia que, numa democracia, não é preciso apenas ser-se eleito, é preciso, depois, lidar com os interesses e com o debate permanente da opinião pública, ao tomar decisões que não são unânimes. Mas, confio na dureza do bicho (que se traveste frequentemente em arrogância) para enfrentar os vilões e andar-para-a-frente-com-as-reformas-e-com-a-modernização-do-país. Amen.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Chorar no escuro
Chorar de tristeza é banal. Chorar de alegria, de euforia de si mesmo é especial, exaltante. É como se subissemos a um pedestal feito só para nós, por nós, onde o público somos só nós. É como se nos enchessemos de nós próprios, de uma energia vinda toda de dentro. Bem sei que há demasiasdos "nós" em tudo isto. Há talvez demasiada, desesperada luta contra a solidão, com lágrimas gloriosas, heróicas. Mas, na vida, deve haver momentos assim. De preparação para batalhas onde é decisivo um diálogo prévio com o nosso outro, uma clarificação do que se quer e do que se vale. Um diálogo cheio de ecos. Livre é o homem que de si faz uma ideia independente da ideia que dele fazem os outros...
domingo, janeiro 27, 2008
The Economics of Public Spending
Este é um livro herético (clicar no título) que diz coisas como estas: o défice do sector público faz bem ao sector privado, faz baixar a taxa de juro, estimula o emprego, tem um virtuoso efeito contra-cíclico, etc. Num tempo de obsessão pelo défice zero, de contenção da despesa pública (afectando as despesas sociais), são mensagens claramente a contra-corrente. Trata-se de uma "reabilitação" das teses keynesianas (e marxianas) e de uma crítica feroz à ortodoxia liberal que demoniza o Estado. Basicamente, trata-se de inverter a lógica dominante: produzir só é possivel com recurso a dívida; o crescimento não pode depender da poupança; esta é um resíduo de um circuito em que o consumo tem um papel central; a dívida é paga pela produção que financia e a poupança não é senão dívida renovada. As despesas do Estado são output das empresas privadas e, portanto, favorecem os lucros, os quais podem auto-financiar o crescimento sem que as empresas recorram ao mercado de capitais, isto é, sem provocar pressão sobre as taxas de juro.
A aversão ao Estado serve a globalização porque alarga as oportunidades de negócio do sector privado, sobretudo, das empresas transnacionais. As receitas convencionais do FMI e do Banco Mundial, do chamado "Washington consensus" (défice zero, privatização, desregulação) beneficiam essencialmente esses protagonistas da nova (des)ordem mundial. O preconceito de base que inspira esta doutrina é o de uma fisiológica, intrinseca incapacidade do Estado para funcionar eficientemente, a chamada "State failure" da Revolução Neo-liberal dos anos 80.
A aversão ao Estado serve a globalização porque alarga as oportunidades de negócio do sector privado, sobretudo, das empresas transnacionais. As receitas convencionais do FMI e do Banco Mundial, do chamado "Washington consensus" (défice zero, privatização, desregulação) beneficiam essencialmente esses protagonistas da nova (des)ordem mundial. O preconceito de base que inspira esta doutrina é o de uma fisiológica, intrinseca incapacidade do Estado para funcionar eficientemente, a chamada "State failure" da Revolução Neo-liberal dos anos 80.
Lagura

Restaurante tipo "new age", "à la mode", "world cuisine". Hora de jantar. Na mesa ao lado, ela de frente para mim, ele de perfil. Visivelmente apaixonados. Mãos entrelaçadas, olhares que se derretem, sorrisos de uma doçura luxuriante. Ela terá perto de 50 anos, fala inglês com sotaque americano, tem um vestido preto decotado, de onde irrompem seios cheios de vontade, braços nus com celulite eloquente, irremediável. A face ostenta sinais de "gasto", alguma pele enrugada cai-lhe pelo pescoço, atraiçoando o "lifting". De vez em quando ri e as rugas saem das trincheiras onde se escondem à força da cosmética. Ele parece muito mais jovem (mas, os nórdicos enganam...). Moreno, pescoço forte, braços de desportista. Responde a todos os "avanços" que ela lhe faz, fazendo carícias, beijando-a, envolvendo-a com os braços e com o olhar. Sabe deus o que dá e o que recebe... Bebem copiosamente.
Saí dali com alguma pena dela, pelo desespero com que precisava de seduzir. Mas, o amor não tem idade, n'est-ce-pas?
sábado, janeiro 26, 2008
André
O André trabalhava a madeira com as mãos e com ferramentas muito simples numa pequena oficina no meu bairro. Transformava mesas, cadeiras e armários velhos e carunchosos em obras de arte que vendia caro a médicos, advogados e engenheiros ricos. Estacionavam os carros de luxo em frente da marcenaria e nós íamos admirar as "máquinas" enquanto o André fazia negócio e nos piscava o olho numa cumplicidade de garotos. O André gostava de crianças e de bebida e de mulheres. Era um homem alto, bonito e musculado. A maior parte do dinheiro que a arte lhe dava ía para esses "excessos". Era um exagerado. Não fazia nada na proporção razoável: era demasiado artista, tinha demasiado bom gosto, gostava demais das coisas boas da vida. E era demasiadamente mau marido e mau pai... Tinha aquele ar alucinado, aquelas expressões únicas que ficavam numa espécie de antologia para amigos. De vez em quando, disparatava, surpreendia todos com palavras ou actos descabidos e incompreensíveis. Tornava-se agressivo, como se houvesse um mal-estar latente à espera da mínima oportunidade para se mostrar. Acho que era essencialmente um inquieto, frustrado por ter de se submeter às regras de uma vida para a qual achava não ter nascido. O André era um concentrado de emoções em luta permanente com uma razão castradora de talento. Era um artista e julgava que isso lhe permitia transgredir sem qualquer punição. Foi mais ou menos assim durante quase toda a vida, até que a doença o atacou de forma irremediável, chamando-o a uma realidade mais cruel e absurda do que a que ele alguma vez tinha odiado. Teve de se conformar às restrições mais básicas da sobrevivência. Vi-o recentemente. Velho, caduco, trôpego. Nem sequer me reconheceu. Chamei-o. Balbuciou palavras irreconhecíveis e prosseguiu na sua caminhada sem destino feita de passos minúsculos e dolorosos. Prometi não voltar a ver a sombra do André que conheci.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
O princípio de um romance impossível
Apareceu de óculos escuros na estação depois de uma viagem de combóio de um sítio estranho para outro sítio estranho, o sítio onde nos encontrámos. Ofereci-lhe uma rosa vermelha acabada de comprar oportunamente numa florista ao lado da estação. Tirou os óculos, vi-lhe as olheiras, olhou-me quase com espanto e ficámos aturdidos num longo abraço. De quem espera tanto, de quem sabe vir a ter tão pouco. Dali saimos sem sentido nem destino, levitando. Mais perdidos do que nunca, desesperadamente à procura de emoções e, sobretudo, de carinho. A cidade pouco importava, submersa no cinzento do céu, atapetada de uma humidade viscosa. Entrámos num restaurante, ao acaso, daqueles que aparecem nos filmes, irreal, demasiado bonito. Falámos, rimo-nos, olhámo-nos, tocámo-nos com o olhar, à procura de detalhes que ficariam para sempre, de vestígios de uma história única e talvez absurda. As pessoas à volta não existiam, apagadas pela nossa concentração um no outro. Não podiam perceber a mistura de desejo e de impotência, a raiva de nos separarmos dali a pouco por razões tão óbvias e cruéis. Inevitavelmente.
quinta-feira, janeiro 24, 2008
Into the Wild

Grande filme de Sean Penn. Filme forte. Não aconselhado a quem quiser passar duas horas ligeiras e divertidas. Decididamente, um filme para reflectir, um murro no estomâgo. Um filme àcerca do poder destrutivo de histórias familiares mal contadas. Àcerca das armadilhas da infância, da repulsa dos valores dominantes, dos objectos, da carreira, do conforto, de uma certa sociedade. Àcerca de uma busca suicida de uma liberdade impossivel. E sobretudo, àcerca da incapacidade do amor para salvar uma excelente pessoa de uma perdição anunciada. Chris é um ser humano lindíssimo, delicado, ferido, amado por várias pessoas que se cruzam com ele na sua peregrinação existencial sem limites. Chris não se deixa seduzir, não responde aos apelos de humanidade que o chamam à vida e prossegue em busca de uma liberdade, de uma solidão e de uma comunhão com uma Natureza hostil que o aniquilam. Enfim, um filme à Sean Penn...
Missa impreterível

Em Trento, Itália, durante uma missa matinal, um crente de idade provecta sofre de ataque cardíaco. Vem o serviço de urgência que não consegue fazer nada. O velhote estica o pernil e o cadáver fica no meio da igreja, coberto por um lençol. Era demasiado cedo para encontrar um magistrado que autorizasse a remoção do corpo. O pároco, não esteve com meias medidas: prosseguiu com a homília. E os fiéis, de costas viradas para o cadáver, continuaram fervorosos na expressão da sua religiosidade. Posteriormente, algumas pessoas da pequena cidade manifestaram a sua indignação. O padre justificou-se dizendo que até rezou pela alma do defunto.
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