Mais ou menos até ao início dos anos 80, o sistema político italiano era centrado em dois pólos: o partido democrata-cristão e o partido comunista (época Berlinguer). Isso não queria dizer, necessariamente, estabilidade, mas existia alguma clareza ideológica. O PC andou muito próximo do poder e as pressões da CIA para impedir um tal cenário chegaram a ser argumento de filmes. O terrorismo das BR (Brigate Rosse) eclodiu também como reacção à imobilidade provocada pelo impasse entre esses dois pólos e à putativa submissão do PC às regras da democracia burguesa. O climax desse contexto foi o assassinato de Aldo Moro em 1978.
Com a queda do Muro e o apogeu de corrupção representado em 1992 por Tangentopoli (nome dado a Milão onde se concentravam as maiores traficâncias, nomeadamente, para financiamento ilícito da democracia-cristã), o sistema "bi-polar" desmoronou-se, dando origem a uma miríade de pequenos partidos onde os barões de outros tempos, da esquerda e da direita, e seus descendentes e acólitos, se tentaram arrumar para recuperar poder e visibilidade. Essa é a situação em que se encontra actualmente a Itália.
O governo Prodi, sustentado por uma escassa maioria no Senado, caiu porque um senhor chamado Mastella, chefe de um pequeno partido de centro (UDEUR), originário da antiga democracia-cristã, que fazia parte de uma coligação de mais de 15 partidos, decidiu bater com a porta porque achou que ele e a mulher, dirigente da região da Câmpania, foram vítimas de uma campanha de difamação (a dita senhora está acusada pela justiça de corrupção...).
O presidente Napolitano ainda tentou nomear um governo de gestão, até se preparar uma nova lei eleitoral que permitisse maior estabilidade política (basicamente, tratar-se-ia de introduzir um sistema proporcional para retirar aos pequenos partidos o poder excessivo de que gozam actualmente). Mas, Berlusconi que controla os media e que as sondagens dão como vencedor nas eleições com o actual sistema, disse que não. A sua impaciência para voltar ao poder não tem limites e, como no passado, está mais preocupado em defender os seus próprios interesses do que os da Itália e em criar leis que o imunizem da justiça. E vai daí, novas eleições vão ser convocadas para meados de Abril, após menos de 2 anos de governo Prodi...
quarta-feira, fevereiro 06, 2008
Política fiscal
Neste momento, os Estados Unidos (como o Japão nos anos 90) estão à beira de uma "armadilha de liquidez". Nesta situação, a política monetária (designadamente, a redução das taxas de juro) torna-se impotente. A solução para a crise deve provir da política fiscal. Penso que a administração Bush o tenha finalmente percebido...
terça-feira, fevereiro 05, 2008
O Alto-comissário Vital
O fervor Socrático de Vital Moreira é espantoso. O professor de Coimbra consegue arranjar argumentos para justificar tudo e mais alguma coisa, para branquear as medidas mais impopulares e absurdas deste governo, em nome de uma putativa, sacrossanta Reforma. Indubitavelemente, trata-se de uma pessoa de convicções. Variáveis, mas, em cada momento, firmes.
domingo, fevereiro 03, 2008
O Carlos de que se fala
Estou-me nas tintas para o Rei. Comia que nem um bruto. Desenhava umas coisas indescrítiveis com cavalos e barquinhos. Adorava o mar, pois claro... Fartava-se de pôr os palitos à Dona Amélia. Coitadas das concubinas que tinham de aguentar com tanta, real massa corpórea. Portugal era uma paisagem distante e o povo parte da decoração. Mas, andam para aí umas criaturas a fazer a reciclagem da personagem: que era muito culto, estrangeirado, sensível, amante das artes... Ora porra! Como se estava nas tintas para a governação, havia de passar o tempo a fazer alguma coisa. Também dizem que, bastava ter sido o último dos reis que começaram há 800 anos, para merecer respeito, para fazer parte da história nacional. Blá, blá... Tendo em conta a treta que fizeram esses fabricantes da gesta nacional (especialmente depois de D. João II e de D. Manuel I), não sei bem de que real grandeza deveriamos ser orgulhosos. O homem foi assassinado e isso não se faz a ninguém, mas daí a organizar comemorações republicanas desse malogro monárquico, não obrigado!
sábado, fevereiro 02, 2008
O miúdo e o carro
O miúdo ía no carro com o pai. Estava frio e era de noite. O carro fazia um barulho monótono daqueles que puxam ao sono, depois de um dia longo de trabalho. O miúdo enrolou-se aos pés do lugar do passageiro, com todo o corpo perto das saídas de ar do aquecimento. Sentiu-se quentinho e aconchegado. O pai cantarolava um fado triste mas bonito, para passar o tempo e para escapar às tentações de Morfeu. O miúdo, aninhado no lugar ao lado, olhava para cima e via passar, de vez em quando, a luz de um poste de iluminação, paredes de casas de que se recordava, àrvores subitamente iluminadas pelos faróis do carro. E assim, ao longo daquele trajecto feito dezenas de vezes, apesar de escondido, conseguia saber exactamente o lugar por onde estavam a passar. Continuava com aquele jogo até sucumbir ao calor da "chauffage" e à sedução do sono. Acordava na garagem ao colo do pai.
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Viva Sócrates! Viva! Pim!
Apesar de ter um certo pó ao V. Pulido Valente, tenho de reconhecer que o artigo que publicou hoje no "Público" é hilariante àcerca dos ziguezagues de J. Sócrates na demissão do Ministro da Saúde. O mesmo jornal continua no ataque ao Primeiro-ministro revelando que terá assinado durante muitos anos trabalhos de engenharia que não efectuou. Francamente, começo a ter pena do chefe do governo. Como tive uma certa pena de Ferro Rodrigues quando se atolou no pântano da Casa Pia... A criatura (quero dizer: Sócrates) quer apenas meter a malta na ordem, poupar dinheiro, mostrar a Bruxelas que somos bem comportados, criar as "bases estruturais" para arrancar o país do marasmo proverbial. O homem tem uma ideia de Portugal, um Portugal europeu e moderno, como Salazar tinha uma ideia de Portugal, nesse caso, um Portugal rural, colonial, tranquilo e resignado. Sócrates só nos quer bem, a nós todos, portugueses que ainda não cairam na realidade de que para gozar é preciso, primeiro, trabalhar. Trabalhar duro, sem privilégios nem mordomias. É claro que Sócrates, como Salazar, em relação aos latifundiários e capitalistas de vão-de-escada, precisa de fazer cedências a alguns barões do sistema e do seu partido, para assegurar a sobrevivência política, de modo a realizar a missão que Deus e os portugueses (fartos das diatribes de Santana Lopes) lhe confiaram. A equação de um visionário como Sócrates é tudo menos simples. Ainda bem que faz "jogging" e que é relativamente jovem porque, senão, ainda lhe dava uma solipanca e ía desta para melhor, coitado...
Dito isto, o homem, apertado por todos os lados (PC, CDS, bloquistas, sindicatos ressuscitados, Menezes e acólitos, médicos, professores, populações fartas de perder o senhor doutor e a senhora professora, engenheiros, bancos, empresas de construção civil e obras públicas, etc, etc) começa a desenvolver um irritante complexo de perseguição. Ele sabia para o que ía, porra! Sabia que tinha alguns telhados de vidro, sabia que, numa democracia, não é preciso apenas ser-se eleito, é preciso, depois, lidar com os interesses e com o debate permanente da opinião pública, ao tomar decisões que não são unânimes. Mas, confio na dureza do bicho (que se traveste frequentemente em arrogância) para enfrentar os vilões e andar-para-a-frente-com-as-reformas-e-com-a-modernização-do-país. Amen.
Dito isto, o homem, apertado por todos os lados (PC, CDS, bloquistas, sindicatos ressuscitados, Menezes e acólitos, médicos, professores, populações fartas de perder o senhor doutor e a senhora professora, engenheiros, bancos, empresas de construção civil e obras públicas, etc, etc) começa a desenvolver um irritante complexo de perseguição. Ele sabia para o que ía, porra! Sabia que tinha alguns telhados de vidro, sabia que, numa democracia, não é preciso apenas ser-se eleito, é preciso, depois, lidar com os interesses e com o debate permanente da opinião pública, ao tomar decisões que não são unânimes. Mas, confio na dureza do bicho (que se traveste frequentemente em arrogância) para enfrentar os vilões e andar-para-a-frente-com-as-reformas-e-com-a-modernização-do-país. Amen.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Chorar no escuro
Chorar de tristeza é banal. Chorar de alegria, de euforia de si mesmo é especial, exaltante. É como se subissemos a um pedestal feito só para nós, por nós, onde o público somos só nós. É como se nos enchessemos de nós próprios, de uma energia vinda toda de dentro. Bem sei que há demasiasdos "nós" em tudo isto. Há talvez demasiada, desesperada luta contra a solidão, com lágrimas gloriosas, heróicas. Mas, na vida, deve haver momentos assim. De preparação para batalhas onde é decisivo um diálogo prévio com o nosso outro, uma clarificação do que se quer e do que se vale. Um diálogo cheio de ecos. Livre é o homem que de si faz uma ideia independente da ideia que dele fazem os outros...
domingo, janeiro 27, 2008
The Economics of Public Spending
Este é um livro herético (clicar no título) que diz coisas como estas: o défice do sector público faz bem ao sector privado, faz baixar a taxa de juro, estimula o emprego, tem um virtuoso efeito contra-cíclico, etc. Num tempo de obsessão pelo défice zero, de contenção da despesa pública (afectando as despesas sociais), são mensagens claramente a contra-corrente. Trata-se de uma "reabilitação" das teses keynesianas (e marxianas) e de uma crítica feroz à ortodoxia liberal que demoniza o Estado. Basicamente, trata-se de inverter a lógica dominante: produzir só é possivel com recurso a dívida; o crescimento não pode depender da poupança; esta é um resíduo de um circuito em que o consumo tem um papel central; a dívida é paga pela produção que financia e a poupança não é senão dívida renovada. As despesas do Estado são output das empresas privadas e, portanto, favorecem os lucros, os quais podem auto-financiar o crescimento sem que as empresas recorram ao mercado de capitais, isto é, sem provocar pressão sobre as taxas de juro.
A aversão ao Estado serve a globalização porque alarga as oportunidades de negócio do sector privado, sobretudo, das empresas transnacionais. As receitas convencionais do FMI e do Banco Mundial, do chamado "Washington consensus" (défice zero, privatização, desregulação) beneficiam essencialmente esses protagonistas da nova (des)ordem mundial. O preconceito de base que inspira esta doutrina é o de uma fisiológica, intrinseca incapacidade do Estado para funcionar eficientemente, a chamada "State failure" da Revolução Neo-liberal dos anos 80.
A aversão ao Estado serve a globalização porque alarga as oportunidades de negócio do sector privado, sobretudo, das empresas transnacionais. As receitas convencionais do FMI e do Banco Mundial, do chamado "Washington consensus" (défice zero, privatização, desregulação) beneficiam essencialmente esses protagonistas da nova (des)ordem mundial. O preconceito de base que inspira esta doutrina é o de uma fisiológica, intrinseca incapacidade do Estado para funcionar eficientemente, a chamada "State failure" da Revolução Neo-liberal dos anos 80.
Lagura

Restaurante tipo "new age", "à la mode", "world cuisine". Hora de jantar. Na mesa ao lado, ela de frente para mim, ele de perfil. Visivelmente apaixonados. Mãos entrelaçadas, olhares que se derretem, sorrisos de uma doçura luxuriante. Ela terá perto de 50 anos, fala inglês com sotaque americano, tem um vestido preto decotado, de onde irrompem seios cheios de vontade, braços nus com celulite eloquente, irremediável. A face ostenta sinais de "gasto", alguma pele enrugada cai-lhe pelo pescoço, atraiçoando o "lifting". De vez em quando ri e as rugas saem das trincheiras onde se escondem à força da cosmética. Ele parece muito mais jovem (mas, os nórdicos enganam...). Moreno, pescoço forte, braços de desportista. Responde a todos os "avanços" que ela lhe faz, fazendo carícias, beijando-a, envolvendo-a com os braços e com o olhar. Sabe deus o que dá e o que recebe... Bebem copiosamente.
Saí dali com alguma pena dela, pelo desespero com que precisava de seduzir. Mas, o amor não tem idade, n'est-ce-pas?
sábado, janeiro 26, 2008
André
O André trabalhava a madeira com as mãos e com ferramentas muito simples numa pequena oficina no meu bairro. Transformava mesas, cadeiras e armários velhos e carunchosos em obras de arte que vendia caro a médicos, advogados e engenheiros ricos. Estacionavam os carros de luxo em frente da marcenaria e nós íamos admirar as "máquinas" enquanto o André fazia negócio e nos piscava o olho numa cumplicidade de garotos. O André gostava de crianças e de bebida e de mulheres. Era um homem alto, bonito e musculado. A maior parte do dinheiro que a arte lhe dava ía para esses "excessos". Era um exagerado. Não fazia nada na proporção razoável: era demasiado artista, tinha demasiado bom gosto, gostava demais das coisas boas da vida. E era demasiadamente mau marido e mau pai... Tinha aquele ar alucinado, aquelas expressões únicas que ficavam numa espécie de antologia para amigos. De vez em quando, disparatava, surpreendia todos com palavras ou actos descabidos e incompreensíveis. Tornava-se agressivo, como se houvesse um mal-estar latente à espera da mínima oportunidade para se mostrar. Acho que era essencialmente um inquieto, frustrado por ter de se submeter às regras de uma vida para a qual achava não ter nascido. O André era um concentrado de emoções em luta permanente com uma razão castradora de talento. Era um artista e julgava que isso lhe permitia transgredir sem qualquer punição. Foi mais ou menos assim durante quase toda a vida, até que a doença o atacou de forma irremediável, chamando-o a uma realidade mais cruel e absurda do que a que ele alguma vez tinha odiado. Teve de se conformar às restrições mais básicas da sobrevivência. Vi-o recentemente. Velho, caduco, trôpego. Nem sequer me reconheceu. Chamei-o. Balbuciou palavras irreconhecíveis e prosseguiu na sua caminhada sem destino feita de passos minúsculos e dolorosos. Prometi não voltar a ver a sombra do André que conheci.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
O princípio de um romance impossível
Apareceu de óculos escuros na estação depois de uma viagem de combóio de um sítio estranho para outro sítio estranho, o sítio onde nos encontrámos. Ofereci-lhe uma rosa vermelha acabada de comprar oportunamente numa florista ao lado da estação. Tirou os óculos, vi-lhe as olheiras, olhou-me quase com espanto e ficámos aturdidos num longo abraço. De quem espera tanto, de quem sabe vir a ter tão pouco. Dali saimos sem sentido nem destino, levitando. Mais perdidos do que nunca, desesperadamente à procura de emoções e, sobretudo, de carinho. A cidade pouco importava, submersa no cinzento do céu, atapetada de uma humidade viscosa. Entrámos num restaurante, ao acaso, daqueles que aparecem nos filmes, irreal, demasiado bonito. Falámos, rimo-nos, olhámo-nos, tocámo-nos com o olhar, à procura de detalhes que ficariam para sempre, de vestígios de uma história única e talvez absurda. As pessoas à volta não existiam, apagadas pela nossa concentração um no outro. Não podiam perceber a mistura de desejo e de impotência, a raiva de nos separarmos dali a pouco por razões tão óbvias e cruéis. Inevitavelmente.
quinta-feira, janeiro 24, 2008
Into the Wild

Grande filme de Sean Penn. Filme forte. Não aconselhado a quem quiser passar duas horas ligeiras e divertidas. Decididamente, um filme para reflectir, um murro no estomâgo. Um filme àcerca do poder destrutivo de histórias familiares mal contadas. Àcerca das armadilhas da infância, da repulsa dos valores dominantes, dos objectos, da carreira, do conforto, de uma certa sociedade. Àcerca de uma busca suicida de uma liberdade impossivel. E sobretudo, àcerca da incapacidade do amor para salvar uma excelente pessoa de uma perdição anunciada. Chris é um ser humano lindíssimo, delicado, ferido, amado por várias pessoas que se cruzam com ele na sua peregrinação existencial sem limites. Chris não se deixa seduzir, não responde aos apelos de humanidade que o chamam à vida e prossegue em busca de uma liberdade, de uma solidão e de uma comunhão com uma Natureza hostil que o aniquilam. Enfim, um filme à Sean Penn...
Missa impreterível

Em Trento, Itália, durante uma missa matinal, um crente de idade provecta sofre de ataque cardíaco. Vem o serviço de urgência que não consegue fazer nada. O velhote estica o pernil e o cadáver fica no meio da igreja, coberto por um lençol. Era demasiado cedo para encontrar um magistrado que autorizasse a remoção do corpo. O pároco, não esteve com meias medidas: prosseguiu com a homília. E os fiéis, de costas viradas para o cadáver, continuaram fervorosos na expressão da sua religiosidade. Posteriormente, algumas pessoas da pequena cidade manifestaram a sua indignação. O padre justificou-se dizendo que até rezou pela alma do defunto.
terça-feira, janeiro 22, 2008
Crach nas Bolsas - cada vez mais perto de uma "clássica" armadilha da liquidez?
"In monetary economics, a liquidity trap occurs when the economy is stagnant, the nominal interest rate is close or equal to zero, and the monetary authority is unable to stimulate the economy with traditional monetary policy tools. In this kind of situation, people do not expect high returns on physical or financial investments, so they keep assets in short-term cash bank accounts or hoards rather than making long-term investments. This makes the recession even more severe, and can contribute to deflation.
In normal times, the monetary authority (usually a central bank or finance ministry) can stimulate the economy by lowering interest rate targets or increasing the monetary base. Either action should increase borrowing and lending, consumption, and fixed investment. When the relevant interest rate is already at or near zero, the monetary authority cannot lower it to stimulate the economy. The monetary authority can increase the overall quantity of money available to the economy, but traditional monetary policy tools do not inject new money directly into the economy. Rather, the new liquidity created must be injected into the real economy by way of financial intermediaries such as banks. In a liquidity trap environment, banks are unwilling to lend, so the central bank's newly-created liquidity is trapped behind unwilling lenders."
Clicar no título para saber a fonte da citação e ter uma introdução acessível ao tema.
In normal times, the monetary authority (usually a central bank or finance ministry) can stimulate the economy by lowering interest rate targets or increasing the monetary base. Either action should increase borrowing and lending, consumption, and fixed investment. When the relevant interest rate is already at or near zero, the monetary authority cannot lower it to stimulate the economy. The monetary authority can increase the overall quantity of money available to the economy, but traditional monetary policy tools do not inject new money directly into the economy. Rather, the new liquidity created must be injected into the real economy by way of financial intermediaries such as banks. In a liquidity trap environment, banks are unwilling to lend, so the central bank's newly-created liquidity is trapped behind unwilling lenders."
Clicar no título para saber a fonte da citação e ter uma introdução acessível ao tema.
Caros coitados amigos
Há indivíduos que são autênticos voyeurs da desgraça alheia. Consomem as desventuras dos outros para não terem de admitir as próprias fraquezas, para se alienarem das suas fontes de angústia. O espectáculo do sofrimento dos outros tem uma espécie de efeito tranquilizante, redentor. Pelo menos, adia o reconhecimento dos próprios problemas e defeitos. Não se trata de particular perversidade ou má educação. Trata-se, apenas, de formar uma opinião tendencialmente positiva de si próprio por contraste com o "mal" dos outros.
Preferível seria conhecer-se a si mesmo em absoluto, sem comparações, invejas ou ciúmes, enfrentar com honestidade as adversidades, falar verdade consigo mesmo. Não se colocar ao espelho dos malogrados. Não fugir dos problemas, não se esconder como as avestruzes. Não propagandear sucessos com pés de barro. Mas, isso implica um grau apreciável de integridade e de maturidade que não está ao alcance de todos.
Depois há certas "amizades" que implicam uma infinita disponibilidade para ajudar os coitados dos "nossos amigos", para os perceber, para os escutar, para os consolar, para os aconselhar. Porque só "queremos" ajudar, sem qualquer interesse ou vontade de consumo das vicissitudes de terceiros. Ajudar só... Porque sim. Porque "somos" bons e generosos, católicos, apostólicos, romanos. E "ouvimos" as pobres vítimas da desgraça até ao paroxismo. É preciso conhecer bem os detalhes. Todos os detalhes. As desavenças, todas as frases assassinas. E as traições, as sacanices, os golpes baixos, especialmente os mais coloridos e picantes, aqueles que "nos" fazem soltar um Ahhh de espanto. De regozijo? Tudo isso se passa - uff, valha-"nos" deus - somente com os outros. "Nossos amigos", naturalmente. Depois de todo esse requisitório, poder-se-à então formular correctamente um diagnóstico e propor a melhor estratégia de recuperação dos "nossos amigos". Mas, "nós" estamos sempre por fora. Por cima. Imúnes à porcaria que, infelizmente, tocou os "nossos caros amigos". E que tanto lamentamos com um sorriso maroto que nos fica por dentro, bem disfarçado.
Preferível seria conhecer-se a si mesmo em absoluto, sem comparações, invejas ou ciúmes, enfrentar com honestidade as adversidades, falar verdade consigo mesmo. Não se colocar ao espelho dos malogrados. Não fugir dos problemas, não se esconder como as avestruzes. Não propagandear sucessos com pés de barro. Mas, isso implica um grau apreciável de integridade e de maturidade que não está ao alcance de todos.
Depois há certas "amizades" que implicam uma infinita disponibilidade para ajudar os coitados dos "nossos amigos", para os perceber, para os escutar, para os consolar, para os aconselhar. Porque só "queremos" ajudar, sem qualquer interesse ou vontade de consumo das vicissitudes de terceiros. Ajudar só... Porque sim. Porque "somos" bons e generosos, católicos, apostólicos, romanos. E "ouvimos" as pobres vítimas da desgraça até ao paroxismo. É preciso conhecer bem os detalhes. Todos os detalhes. As desavenças, todas as frases assassinas. E as traições, as sacanices, os golpes baixos, especialmente os mais coloridos e picantes, aqueles que "nos" fazem soltar um Ahhh de espanto. De regozijo? Tudo isso se passa - uff, valha-"nos" deus - somente com os outros. "Nossos amigos", naturalmente. Depois de todo esse requisitório, poder-se-à então formular correctamente um diagnóstico e propor a melhor estratégia de recuperação dos "nossos amigos". Mas, "nós" estamos sempre por fora. Por cima. Imúnes à porcaria que, infelizmente, tocou os "nossos caros amigos". E que tanto lamentamos com um sorriso maroto que nos fica por dentro, bem disfarçado.
domingo, janeiro 20, 2008
Comédia
"A comédia permite dizer coisas importantes, por vezes duras, fazendo-as deslizar, sem ferir as pessoas. A comédia diz as coisas com doçura; de modo incisivo, mas sem causar dor, que é um sentimento de que muita gente tende a fugir, justamente. Por isso mesmo, certas mensagens, apesar de importantes, ditas de modo sério e pesado, não passam porque fazem sofrer. E as pessoas nem sempre têm energia para sofrer."Massimo Troisi
(tradução livre de passagens de "Da domani mi alzo tardi" de Anna Pavignano, escritora dos textos de vários filmes de Troisi e companheira do actor napolitano durante vários anos; Troisi morreu de um ataque cardiaco no final da sua participação no filme "Il Postino" em 1994; tinha 41 anos)
quinta-feira, janeiro 17, 2008
Grande Lisboa
Não conheço nenhum país em que tenha sido tão intenso e longo o debate público àcerca da construção de infra-estruturas e tão estreita (!) a ligação entre a técnica e a política.
É absolutamente esmagador o investimento público previsto para a área metropolitana de Lisboa nos próximos 10 anos (aeroporto, nova ponte, auto-estradas, estações ferroviárias, etc.). Se lá vivem já cerca de 40% da população portuguesa, acho que lá devem viver 100% no futuro, porque o resto do país será paisagem… E atenção às deseconomias de escala e aos custos do congestionamento!
Talvez mais importante do que a escolha da localização do novo aeroporto será o esquema concreto que vier a ser adoptado para a sua concepção, construção, financiamento e exploração. E o impacto de tudo isso sobre o orçamento do Estado, os utentes e as empresas privadas resultará essencialmente dos termos do contracto de concessão que vier a ser negociado: perímetro do investimento, período de construção e custo global, duração da concessão, obrigações das diferentes partes, compensações por incumprimento ou motivos imprevistos. Noutras palavras, o busílis consiste em saber quem toma que riscos e a que preço… Alguns ensinamentos se podem colher de precedentes como as SCUT ou a Lusoponte.
É absolutamente esmagador o investimento público previsto para a área metropolitana de Lisboa nos próximos 10 anos (aeroporto, nova ponte, auto-estradas, estações ferroviárias, etc.). Se lá vivem já cerca de 40% da população portuguesa, acho que lá devem viver 100% no futuro, porque o resto do país será paisagem… E atenção às deseconomias de escala e aos custos do congestionamento!
Talvez mais importante do que a escolha da localização do novo aeroporto será o esquema concreto que vier a ser adoptado para a sua concepção, construção, financiamento e exploração. E o impacto de tudo isso sobre o orçamento do Estado, os utentes e as empresas privadas resultará essencialmente dos termos do contracto de concessão que vier a ser negociado: perímetro do investimento, período de construção e custo global, duração da concessão, obrigações das diferentes partes, compensações por incumprimento ou motivos imprevistos. Noutras palavras, o busílis consiste em saber quem toma que riscos e a que preço… Alguns ensinamentos se podem colher de precedentes como as SCUT ou a Lusoponte.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Nacionalização de bancos norte-americanos...
Submersos nas perdas colossais do crédito mal-parado, grandes bancos americanos (como o Citi ou o Merrill Lynch) recorrem a aumentos de capital subscritos pelos chamados "sovereign funds", ou seja, fundos de investimento que são propriedade de governos com muita liquidez (casos de certos governos de países do Golfo Pérsico e do Sudeste Asiático). Isto equivale a uma espécie de nacionalização dos bancos americanos... por Estados estrangeiros. Outros países mais insuspeitos (como a França ou a Alemanha) pensam em criar esses fundos para não ficar para trás nesta nova corrida ao imperialismo. Clicar no título.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Neuroeconomia
Cliquem no título para aceder a um conjunto de artigos muito interessantes publicados no dia 14 de Janeiro pelo suplemento de Economia do jornal "Le Monde". Debate àcerca da chamada neuroeconomia, ou seja, a tentativa de explicar as decisões dos agentes económicos através do funcionamento de certas àreas do cérebro. Com o desenvolvimento desta disciplina, que tem levado ao crescimento exponencial do número de artigos publicados em revistas científicas, pretende-se, nomeadamente, explicar a importância dos factores emocionais na determinação da chamada "racionalidade" económica. Esta àrea de investigação pode indicar, mais uma vez, que a cientificidade da Economia (disciplina, por natureza, pluridisciplinar) depende das contribuições que lhe são feitas pelas chamadas ciências exactas (matemática, física, neurologia). Por outro lado, insere-se numa tendência geral de des-socialização dos factos sociais. O que as pessoas fazem e pensam em comum seria o produto de considerações fundamentalmente individuais (e biológicas, no caso da neuroeconomia). Os factos sociais e as decisões humanas seriam mensuráveis e previsíveis quase como os fenómenos da Natureza. O homem dependeria mais de um livre-arbítrio (rigorosamente calculável) do que de condicionalismos sociais. Esta conclusão é cara aos adeptos do paradigma neo-liberal dominante e tem mais de ideológico do que de científico.
Eu continuo a pensar que a Economia deve concentrar-se principalmente na explicação das "relações sociais de produção", da maximização de um bem-estar políticamente determinado, da gestão eficaz de recursos escassos, da sustentabilidade dos sistemas ecológicos, tendo em conta o contexto histórico e político. A Economia deve importar e compaginar conhecimentos de outras àreas do conhecimento como a Sociologia, a História, o Direito, a Filosofia, a Matemática, a Engenharia e (porque não?) a Psicologia. A Economia é uma ciência social, não é uma ciência exacta, banalidade dita e redita mas que certos "rocket scientists" teimam em negar.
Eu continuo a pensar que a Economia deve concentrar-se principalmente na explicação das "relações sociais de produção", da maximização de um bem-estar políticamente determinado, da gestão eficaz de recursos escassos, da sustentabilidade dos sistemas ecológicos, tendo em conta o contexto histórico e político. A Economia deve importar e compaginar conhecimentos de outras àreas do conhecimento como a Sociologia, a História, o Direito, a Filosofia, a Matemática, a Engenharia e (porque não?) a Psicologia. A Economia é uma ciência social, não é uma ciência exacta, banalidade dita e redita mas que certos "rocket scientists" teimam em negar.
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Frases
- O homem é piroso e azeiteiro (aquele bigode e tanto, tanto cabelo) - Luis Filipe Vieira
- Sò os burros não mudam de ideias (português à moda antiga) - Mário Lino
- O homem é seráfico e acha-se intocável (adoro os óculos e deixo-me embalar pelo tom sério da voz) - Vitor Constâncio
- Já não vale a pena falar da criatura (a embriaguez como imagem de marca...) - Pulido Valente
- Faz pena tanta tranquilidade (fala quase como Eanes) - Paulo Bento
- Um dia vomitará o pau que engoliu pouco antes de ser primeiro-ministro - José Sócrates
- Um dia vai sair das páginas dos jornais (pelas melhores razões) - Millenium BCP
- Exemplo de boa gestão à portuguesa, ou melhor, à moda do Porto - FCP
sábado, janeiro 12, 2008
Minerva

O Presidente da universidade romana La Sapienza quer convidar o Papa para a cerimónia de inauguração do novo ano escolar que vai decorrer nos próximos dias. Imediatamente se levantou uma fronda de estudantes e professores contra tal iniciativa. Estão previstas manifestações na Piazza della Minerva. Os contestatários não se esquecem que, há alguns anos, numa conferência que proferiu em Parma, Ratzinger disse que o processo que a Igreja moveu contra Galileu tinha sido razoável e justo. Esse teria sido mais um golpe na ciência que os professores e estudantes, principalmente os de Física, não estão dispostos a esquecer. Além disso, Ratzinger tem reiterado várias vezes que, em caso de dissonância entre ambas, a fé deve prevalecer sobre a ciência. E esse princípio poderia legitimar vários casos tristemente célebres de oposição da Igreja ao avanço do conhecimento. Naturalmente, daqui se parte para o imenso debate àcerca dos potenciais conflitos entre a ciência e a moral, entre a ciência e Deus...
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Longe de tudo
perdido no meio de estepes de feltro
próximo de uma cascata de riso
de uma fogueira de lágrimas
navegando à vista de praias nuas
quase no limite
em guerra com tripas que pedem paz ou morte
Àrvores de pedra e de aço
sem raízes nem memória
folhas de um vidro opaco que devoram luz
E o céu colado à terra num abraço oprimente
Palavras que dançam significados inconfessáveis mas evidentes
como cobardes ou assassinos ou meninos traquinas
perdido no meio de estepes de feltro
próximo de uma cascata de riso
de uma fogueira de lágrimas
navegando à vista de praias nuas
quase no limite
em guerra com tripas que pedem paz ou morte
Àrvores de pedra e de aço
sem raízes nem memória
folhas de um vidro opaco que devoram luz
E o céu colado à terra num abraço oprimente
Palavras que dançam significados inconfessáveis mas evidentes
como cobardes ou assassinos ou meninos traquinas
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Politics of crying
A vitória (inesperada) de Hilary Clinton em New Hampshire, celebrada efusivamente pela própria, poderá dever-se às lágrimas que verteu em público após a sua derrota no Estado de Iowa na semana passada. O sucesso deveu-se essencialmente aos votos do eleitorado feminino. Um jornal inglês chama a isso "politics of crying". Por um lado, a senhora demonstra ser apenas humana, por outro revela talvez uma volatilidade emocional que não augura nada de bom para as difíceis situações que terá de enfrentar se for eleita Presidente.
terça-feira, janeiro 08, 2008
Nápoles

O que se está a passar em Nápoles é uma tragédia. A imundice acumula-se nas ruas, impede a entrada nas escolas, torna o ar irrespirável, contamina os cursos de àgua. A incidência de vários tipos de cancro na região não cessa de aumentar, sendo muito superior à média de Itália ou de qualquer outro país europeu. Viver ali è um martírio sanitário que se acumula a outros martírios ligados à criminalidade organizada, à falta de infra-estruturas, ao trânsito caótico, às péssimas condições de habitação nos bairros populares, etc. E, no entanto, Nápoles è uma cidade com um encanto especial, com uma história riquíssima feita de múltiplas influências (particularmente espanholas). De Nápoles tem saído pessoas brilhantes como Massimo Troisi, o actor visceralmente napolitano que fez “O Carteiro de Neruda”. E depois a baía é lindíssima e o Vesúvio imponente.
A tragédia do lixo que entope Nápoles, que a submerge em podridão, é devida a uma sórdida aliança de políticos locais, mafiosos (camorristas) e empresas privadas. Todos ganham com o “negócio” do lixo. Lixo que chega a ser importado de outros países para ser depositado em aterros sanitários cuja capacidade se encontra esgotada. Para resolver o problema è necessário construir novos aterros e, sobretudo, encontrar novas soluções para o transporte, a reciclagem e o tratamento dos resíduos, minimizando o impacto ambiental. Aí cada um puxa a brasa à sua sardinha. Os actuais operadores não querem perder “mercado”, não querem que os preços baixem por causa de um aumento da oferta, pedem subsídios que são pagos por políticos que pedem fidelidade e votos.
Para além do problema económico, existe também um problema político e de legalidade. O governo central e as respectivas forças da ordem pura e simplesmente perderam o controlo da situação com cenas de protesto violento a multiplicarem-se na região e, especialmente, num local chamado Pianura onde se pretende instalar transitoriamente um aterro a céu aberto (mais um) para finalmente tirar toneladas de imundice das ruas. Mas, a população local, infiltrada pela Camorra, que aproveita o caos para impor as suas condições para “resolver” o problema, teme que a solução seja definitiva e que, portanto, leve a uma deterioração do ambiente local a longo prazo.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Elizabeth

O filme "Elizabeth - the golden age" com Cate Blanchett conta a luta entre católicos e protestantes no século XVI que culminou com uma derrota humilhante da Armada espanhola no Canal da Mancha e com a emergência do império britânico.
Elizabeth é a Rainha protestante que manda matar a prima Maria Stuart, escocesa e católica. Filipe é o rei de Espanha que assiste ao princípio do fim.
O filme é pretensioso, grandiloquente, feito de imagens que mais parecem cenários de teatro, episódios de banda desenhada. A música, putativamente magistral, invade cada instante do filme. Abundam os clichés, as caricaturas, as tragédias previsíveis.
Na audiência havia muitos espanhóis e foi com alguma surpresa que, de vez em quando, ouvi sinais de incómodo, para não dizer de vexame. No fim alguém disse com uma pronúncia inconfundível: bull shit! Porque a Espanha é apresentada como perdedora, representativa de um mundo velho, obscurantista e decadente. Na sequência do post anterior, mais um exemplo de nacionalismo espanhol que não perde oportunidades para se manifestar, mesmo perante factos estilizados que ocorreram há mais de quatro séculos.
domingo, janeiro 06, 2008
Reis católicos

Praça de S. Pedro em Roma. Um dos primeiros dias do novo ano. A praça está cheia de gente que olha em volta, que se fascina com a grandiosidade do local. Grupos de jovens com a "farda" de comunidades católicas, de diferentes nacionalidades, entoam cânticos religiosos. Famílias passam, puxando pelas crianças para o rebanho de Deus. As crianças seguem de olhos espantados. A fila para entrar na basílica é longuíssima, fazendo quase o circulo completo da praça.
A certa altura, perto de mim, passa uma família. Três gerações de braço dado, caminhando decididamente em direcção a uma saída da praça que dá acesso a Via del Mascherino. Conversam entusiasmados enquanto continuam pelo meio da multidão. A mãe, mulher de 40-45 anos, orgulhosa, ostenta uma fé convicta e militante. Pelas costas tem, não um chale ou um casaco, mas uma grande bandeira de Espanha que lhe tapa quase todo o corpo. É frequente encontrar neste local espanhóis que exibem as suas côres nacionais. Fazem questão de divulgar a sua nacionalidade mais do que outros católicos de todo o mundo que por ali passam. Porque antes de serem crentes e católicos são espanhóis. Ou melhor: não são quaisquer católicos; são católicos espanhóis. A sua fé explica-se também (ou essencialmente) pela pertença a um país particular em que o catolicismo tem uma presença e um significado particulares.
sábado, janeiro 05, 2008
João
João é um homem intrigante. Ainda não percebi se é apenas um eterno adolescente ou se é uma pessoa cheia de subtileza. É muito generoso e simpático, educadíssimo, lavado e organizado. É sensível e concede uma atenção quase aristocrática às pessoas que estima. Ainda não percebi este conceito de estima aplicado ao João. Porque os seus sentimentos parecem penas de pássaro ao vento. São leves, transparentes e efémeros. João não se pega a ninguém nem a coisa alguma. Tem medo de compromissos que vão para além da mais pura conveniência individual, do jeito que se faz, do prazer que se pode sentir.
Não deixa nada ao acaso. A sua casa mais parece uma suite de hotel, sem memória, sem vestígios de vidas precedentes, de viagens ou de afectos, sem fotografias. Mas, é elegante e limpa e bem cheirosa. Acolhedora talvez seja dizer demais. É sem duvida funcional. Eficaz. Tem tudo o que é preciso, no sítio certo, funcionando como um relógio. É a casa de quem parece estar sempre de passagem, sem deixar testemunhos.
A cultura do João é a da CNN e a dos museus de arte moderna que se visitam para pronunciar a frase judiciosa ao jantar com os intelectuais - supostos ou autênticos - que é de bom tom frequentar.
João não tem filhos nem mulher. Nunca se casou nem se divorciou. Nunca fala dos pais ou de alguém da família. Não tem história. Tem apenas presente e veste-se de teenager. Um presente frio, tranquilo, certo, previsível. Nunca vi o João irritado ou claramente alegre. As emoções são filtradas, contidas, disciplinadas.
Deve ser interessante perguntar ao João se é feliz. Talvez não saiba responder porque talvez não perceba a questão...
Não deixa nada ao acaso. A sua casa mais parece uma suite de hotel, sem memória, sem vestígios de vidas precedentes, de viagens ou de afectos, sem fotografias. Mas, é elegante e limpa e bem cheirosa. Acolhedora talvez seja dizer demais. É sem duvida funcional. Eficaz. Tem tudo o que é preciso, no sítio certo, funcionando como um relógio. É a casa de quem parece estar sempre de passagem, sem deixar testemunhos.
A cultura do João é a da CNN e a dos museus de arte moderna que se visitam para pronunciar a frase judiciosa ao jantar com os intelectuais - supostos ou autênticos - que é de bom tom frequentar.
João não tem filhos nem mulher. Nunca se casou nem se divorciou. Nunca fala dos pais ou de alguém da família. Não tem história. Tem apenas presente e veste-se de teenager. Um presente frio, tranquilo, certo, previsível. Nunca vi o João irritado ou claramente alegre. As emoções são filtradas, contidas, disciplinadas.
Deve ser interessante perguntar ao João se é feliz. Talvez não saiba responder porque talvez não perceba a questão...
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