domingo, janeiro 27, 2008

Lagura


Restaurante tipo "new age", "à la mode", "world cuisine". Hora de jantar. Na mesa ao lado, ela de frente para mim, ele de perfil. Visivelmente apaixonados. Mãos entrelaçadas, olhares que se derretem, sorrisos de uma doçura luxuriante. Ela terá perto de 50 anos, fala inglês com sotaque americano, tem um vestido preto decotado, de onde irrompem seios cheios de vontade, braços nus com celulite eloquente, irremediável. A face ostenta sinais de "gasto", alguma pele enrugada cai-lhe pelo pescoço, atraiçoando o "lifting". De vez em quando ri e as rugas saem das trincheiras onde se escondem à força da cosmética. Ele parece muito mais jovem (mas, os nórdicos enganam...). Moreno, pescoço forte, braços de desportista. Responde a todos os "avanços" que ela lhe faz, fazendo carícias, beijando-a, envolvendo-a com os braços e com o olhar. Sabe deus o que dá e o que recebe... Bebem copiosamente.

Saí dali com alguma pena dela, pelo desespero com que precisava de seduzir. Mas, o amor não tem idade, n'est-ce-pas?

sábado, janeiro 26, 2008

André

O André trabalhava a madeira com as mãos e com ferramentas muito simples numa pequena oficina no meu bairro. Transformava mesas, cadeiras e armários velhos e carunchosos em obras de arte que vendia caro a médicos, advogados e engenheiros ricos. Estacionavam os carros de luxo em frente da marcenaria e nós íamos admirar as "máquinas" enquanto o André fazia negócio e nos piscava o olho numa cumplicidade de garotos. O André gostava de crianças e de bebida e de mulheres. Era um homem alto, bonito e musculado. A maior parte do dinheiro que a arte lhe dava ía para esses "excessos". Era um exagerado. Não fazia nada na proporção razoável: era demasiado artista, tinha demasiado bom gosto, gostava demais das coisas boas da vida. E era demasiadamente mau marido e mau pai... Tinha aquele ar alucinado, aquelas expressões únicas que ficavam numa espécie de antologia para amigos. De vez em quando, disparatava, surpreendia todos com palavras ou actos descabidos e incompreensíveis. Tornava-se agressivo, como se houvesse um mal-estar latente à espera da mínima oportunidade para se mostrar. Acho que era essencialmente um inquieto, frustrado por ter de se submeter às regras de uma vida para a qual achava não ter nascido. O André era um concentrado de emoções em luta permanente com uma razão castradora de talento. Era um artista e julgava que isso lhe permitia transgredir sem qualquer punição. Foi mais ou menos assim durante quase toda a vida, até que a doença o atacou de forma irremediável, chamando-o a uma realidade mais cruel e absurda do que a que ele alguma vez tinha odiado. Teve de se conformar às restrições mais básicas da sobrevivência. Vi-o recentemente. Velho, caduco, trôpego. Nem sequer me reconheceu. Chamei-o. Balbuciou palavras irreconhecíveis e prosseguiu na sua caminhada sem destino feita de passos minúsculos e dolorosos. Prometi não voltar a ver a sombra do André que conheci.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

O princípio de um romance impossível

Apareceu de óculos escuros na estação depois de uma viagem de combóio de um sítio estranho para outro sítio estranho, o sítio onde nos encontrámos. Ofereci-lhe uma rosa vermelha acabada de comprar oportunamente numa florista ao lado da estação. Tirou os óculos, vi-lhe as olheiras, olhou-me quase com espanto e ficámos aturdidos num longo abraço. De quem espera tanto, de quem sabe vir a ter tão pouco. Dali saimos sem sentido nem destino, levitando. Mais perdidos do que nunca, desesperadamente à procura de emoções e, sobretudo, de carinho. A cidade pouco importava, submersa no cinzento do céu, atapetada de uma humidade viscosa. Entrámos num restaurante, ao acaso, daqueles que aparecem nos filmes, irreal, demasiado bonito. Falámos, rimo-nos, olhámo-nos, tocámo-nos com o olhar, à procura de detalhes que ficariam para sempre, de vestígios de uma história única e talvez absurda. As pessoas à volta não existiam, apagadas pela nossa concentração um no outro. Não podiam perceber a mistura de desejo e de impotência, a raiva de nos separarmos dali a pouco por razões tão óbvias e cruéis. Inevitavelmente.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Into the Wild


Grande filme de Sean Penn. Filme forte. Não aconselhado a quem quiser passar duas horas ligeiras e divertidas. Decididamente, um filme para reflectir, um murro no estomâgo. Um filme àcerca do poder destrutivo de histórias familiares mal contadas. Àcerca das armadilhas da infância, da repulsa dos valores dominantes, dos objectos, da carreira, do conforto, de uma certa sociedade. Àcerca de uma busca suicida de uma liberdade impossivel. E sobretudo, àcerca da incapacidade do amor para salvar uma excelente pessoa de uma perdição anunciada. Chris é um ser humano lindíssimo, delicado, ferido, amado por várias pessoas que se cruzam com ele na sua peregrinação existencial sem limites. Chris não se deixa seduzir, não responde aos apelos de humanidade que o chamam à vida e prossegue em busca de uma liberdade, de uma solidão e de uma comunhão com uma Natureza hostil que o aniquilam. Enfim, um filme à Sean Penn...

Missa impreterível


Em Trento, Itália, durante uma missa matinal, um crente de idade provecta sofre de ataque cardíaco. Vem o serviço de urgência que não consegue fazer nada. O velhote estica o pernil e o cadáver fica no meio da igreja, coberto por um lençol. Era demasiado cedo para encontrar um magistrado que autorizasse a remoção do corpo. O pároco, não esteve com meias medidas: prosseguiu com a homília. E os fiéis, de costas viradas para o cadáver, continuaram fervorosos na expressão da sua religiosidade. Posteriormente, algumas pessoas da pequena cidade manifestaram a sua indignação. O padre justificou-se dizendo que até rezou pela alma do defunto.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Crach nas Bolsas - cada vez mais perto de uma "clássica" armadilha da liquidez?

"In monetary economics, a liquidity trap occurs when the economy is stagnant, the nominal interest rate is close or equal to zero, and the monetary authority is unable to stimulate the economy with traditional monetary policy tools. In this kind of situation, people do not expect high returns on physical or financial investments, so they keep assets in short-term cash bank accounts or hoards rather than making long-term investments. This makes the recession even more severe, and can contribute to deflation.

In normal times, the monetary authority (usually a central bank or finance ministry) can stimulate the economy by lowering interest rate targets or increasing the monetary base. Either action should increase borrowing and lending, consumption, and fixed investment. When the relevant interest rate is already at or near zero, the monetary authority cannot lower it to stimulate the economy. The monetary authority can increase the overall quantity of money available to the economy, but traditional monetary policy tools do not inject new money directly into the economy. Rather, the new liquidity created must be injected into the real economy by way of financial intermediaries such as banks. In a liquidity trap environment, banks are unwilling to lend, so the central bank's newly-created liquidity is trapped behind unwilling lenders."

Clicar no título para saber a fonte da citação e ter uma introdução acessível ao tema.

Caros coitados amigos

Há indivíduos que são autênticos voyeurs da desgraça alheia. Consomem as desventuras dos outros para não terem de admitir as próprias fraquezas, para se alienarem das suas fontes de angústia. O espectáculo do sofrimento dos outros tem uma espécie de efeito tranquilizante, redentor. Pelo menos, adia o reconhecimento dos próprios problemas e defeitos. Não se trata de particular perversidade ou má educação. Trata-se, apenas, de formar uma opinião tendencialmente positiva de si próprio por contraste com o "mal" dos outros.

Preferível seria conhecer-se a si mesmo em absoluto, sem comparações, invejas ou ciúmes, enfrentar com honestidade as adversidades, falar verdade consigo mesmo. Não se colocar ao espelho dos malogrados. Não fugir dos problemas, não se esconder como as avestruzes. Não propagandear sucessos com pés de barro. Mas, isso implica um grau apreciável de integridade e de maturidade que não está ao alcance de todos.

Depois há certas "amizades" que implicam uma infinita disponibilidade para ajudar os coitados dos "nossos amigos", para os perceber, para os escutar, para os consolar, para os aconselhar. Porque só "queremos" ajudar, sem qualquer interesse ou vontade de consumo das vicissitudes de terceiros. Ajudar só... Porque sim. Porque "somos" bons e generosos, católicos, apostólicos, romanos. E "ouvimos" as pobres vítimas da desgraça até ao paroxismo. É preciso conhecer bem os detalhes. Todos os detalhes. As desavenças, todas as frases assassinas. E as traições, as sacanices, os golpes baixos, especialmente os mais coloridos e picantes, aqueles que "nos" fazem soltar um Ahhh de espanto. De regozijo? Tudo isso se passa - uff, valha-"nos" deus - somente com os outros. "Nossos amigos", naturalmente. Depois de todo esse requisitório, poder-se-à então formular correctamente um diagnóstico e propor a melhor estratégia de recuperação dos "nossos amigos". Mas, "nós" estamos sempre por fora. Por cima. Imúnes à porcaria que, infelizmente, tocou os "nossos caros amigos". E que tanto lamentamos com um sorriso maroto que nos fica por dentro, bem disfarçado.

domingo, janeiro 20, 2008

Comédia

"A comédia permite dizer coisas importantes, por vezes duras, fazendo-as deslizar, sem ferir as pessoas. A comédia diz as coisas com doçura; de modo incisivo, mas sem causar dor, que é um sentimento de que muita gente tende a fugir, justamente. Por isso mesmo, certas mensagens, apesar de importantes, ditas de modo sério e pesado, não passam porque fazem sofrer. E as pessoas nem sempre têm energia para sofrer."

Massimo Troisi

(tradução livre de passagens de "Da domani mi alzo tardi" de Anna Pavignano, escritora dos textos de vários filmes de Troisi e companheira do actor napolitano durante vários anos; Troisi morreu de um ataque cardiaco no final da sua participação no filme "Il Postino" em 1994; tinha 41 anos)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Grande Lisboa

Não conheço nenhum país em que tenha sido tão intenso e longo o debate público àcerca da construção de infra-estruturas e tão estreita (!) a ligação entre a técnica e a política.

É absolutamente esmagador o investimento público previsto para a área metropolitana de Lisboa nos próximos 10 anos (aeroporto, nova ponte, auto-estradas, estações ferroviárias, etc.). Se lá vivem já cerca de 40% da população portuguesa, acho que lá devem viver 100% no futuro, porque o resto do país será paisagem… E atenção às deseconomias de escala e aos custos do congestionamento!

Talvez mais importante do que a escolha da localização do novo aeroporto será o esquema concreto que vier a ser adoptado para a sua concepção, construção, financiamento e exploração. E o impacto de tudo isso sobre o orçamento do Estado, os utentes e as empresas privadas resultará essencialmente dos termos do contracto de concessão que vier a ser negociado: perímetro do investimento, período de construção e custo global, duração da concessão, obrigações das diferentes partes, compensações por incumprimento ou motivos imprevistos. Noutras palavras, o busílis consiste em saber quem toma que riscos e a que preço… Alguns ensinamentos se podem colher de precedentes como as SCUT ou a Lusoponte.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Nacionalização de bancos norte-americanos...

Submersos nas perdas colossais do crédito mal-parado, grandes bancos americanos (como o Citi ou o Merrill Lynch) recorrem a aumentos de capital subscritos pelos chamados "sovereign funds", ou seja, fundos de investimento que são propriedade de governos com muita liquidez (casos de certos governos de países do Golfo Pérsico e do Sudeste Asiático). Isto equivale a uma espécie de nacionalização dos bancos americanos... por Estados estrangeiros. Outros países mais insuspeitos (como a França ou a Alemanha) pensam em criar esses fundos para não ficar para trás nesta nova corrida ao imperialismo. Clicar no título.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Neuroeconomia

Cliquem no título para aceder a um conjunto de artigos muito interessantes publicados no dia 14 de Janeiro pelo suplemento de Economia do jornal "Le Monde". Debate àcerca da chamada neuroeconomia, ou seja, a tentativa de explicar as decisões dos agentes económicos através do funcionamento de certas àreas do cérebro. Com o desenvolvimento desta disciplina, que tem levado ao crescimento exponencial do número de artigos publicados em revistas científicas, pretende-se, nomeadamente, explicar a importância dos factores emocionais na determinação da chamada "racionalidade" económica. Esta àrea de investigação pode indicar, mais uma vez, que a cientificidade da Economia (disciplina, por natureza, pluridisciplinar) depende das contribuições que lhe são feitas pelas chamadas ciências exactas (matemática, física, neurologia). Por outro lado, insere-se numa tendência geral de des-socialização dos factos sociais. O que as pessoas fazem e pensam em comum seria o produto de considerações fundamentalmente individuais (e biológicas, no caso da neuroeconomia). Os factos sociais e as decisões humanas seriam mensuráveis e previsíveis quase como os fenómenos da Natureza. O homem dependeria mais de um livre-arbítrio (rigorosamente calculável) do que de condicionalismos sociais. Esta conclusão é cara aos adeptos do paradigma neo-liberal dominante e tem mais de ideológico do que de científico.

Eu continuo a pensar que a Economia deve concentrar-se principalmente na explicação das "relações sociais de produção", da maximização de um bem-estar políticamente determinado, da gestão eficaz de recursos escassos, da sustentabilidade dos sistemas ecológicos, tendo em conta o contexto histórico e político. A Economia deve importar e compaginar conhecimentos de outras àreas do conhecimento como a Sociologia, a História, o Direito, a Filosofia, a Matemática, a Engenharia e (porque não?) a Psicologia. A Economia é uma ciência social, não é uma ciência exacta, banalidade dita e redita mas que certos "rocket scientists" teimam em negar.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Crazy - por Alanis Morissette (original de Seal)

Frases

  • O homem é piroso e azeiteiro (aquele bigode e tanto, tanto cabelo) - Luis Filipe Vieira
  • Sò os burros não mudam de ideias (português à moda antiga) - Mário Lino
  • O homem é seráfico e acha-se intocável (adoro os óculos e deixo-me embalar pelo tom sério da voz) - Vitor Constâncio
  • Já não vale a pena falar da criatura (a embriaguez como imagem de marca...) - Pulido Valente
  • Faz pena tanta tranquilidade (fala quase como Eanes) - Paulo Bento
  • Um dia vomitará o pau que engoliu pouco antes de ser primeiro-ministro - José Sócrates
  • Um dia vai sair das páginas dos jornais (pelas melhores razões) - Millenium BCP
  • Exemplo de boa gestão à portuguesa, ou melhor, à moda do Porto - FCP

sábado, janeiro 12, 2008

Minerva


O Presidente da universidade romana La Sapienza quer convidar o Papa para a cerimónia de inauguração do novo ano escolar que vai decorrer nos próximos dias. Imediatamente se levantou uma fronda de estudantes e professores contra tal iniciativa. Estão previstas manifestações na Piazza della Minerva. Os contestatários não se esquecem que, há alguns anos, numa conferência que proferiu em Parma, Ratzinger disse que o processo que a Igreja moveu contra Galileu tinha sido razoável e justo. Esse teria sido mais um golpe na ciência que os professores e estudantes, principalmente os de Física, não estão dispostos a esquecer. Além disso, Ratzinger tem reiterado várias vezes que, em caso de dissonância entre ambas, a fé deve prevalecer sobre a ciência. E esse princípio poderia legitimar vários casos tristemente célebres de oposição da Igreja ao avanço do conhecimento. Naturalmente, daqui se parte para o imenso debate àcerca dos potenciais conflitos entre a ciência e a moral, entre a ciência e Deus...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Longe de tudo
perdido no meio de estepes de feltro
próximo de uma cascata de riso
de uma fogueira de lágrimas
navegando à vista de praias nuas
quase no limite
em guerra com tripas que pedem paz ou morte

Àrvores de pedra e de aço
sem raízes nem memória
folhas de um vidro opaco que devoram luz

E o céu colado à terra num abraço oprimente

Palavras que dançam significados inconfessáveis mas evidentes
como cobardes ou assassinos ou meninos traquinas

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Politics of crying

A vitória (inesperada) de Hilary Clinton em New Hampshire, celebrada efusivamente pela própria, poderá dever-se às lágrimas que verteu em público após a sua derrota no Estado de Iowa na semana passada. O sucesso deveu-se essencialmente aos votos do eleitorado feminino. Um jornal inglês chama a isso "politics of crying". Por um lado, a senhora demonstra ser apenas humana, por outro revela talvez uma volatilidade emocional que não augura nada de bom para as difíceis situações que terá de enfrentar se for eleita Presidente.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Da Opus Dei à maçonaria: a incrível história do BCP

Cliquem no título.

Nápoles


O que se está a passar em Nápoles é uma tragédia. A imundice acumula-se nas ruas, impede a entrada nas escolas, torna o ar irrespirável, contamina os cursos de àgua. A incidência de vários tipos de cancro na região não cessa de aumentar, sendo muito superior à média de Itália ou de qualquer outro país europeu. Viver ali è um martírio sanitário que se acumula a outros martírios ligados à criminalidade organizada, à falta de infra-estruturas, ao trânsito caótico, às péssimas condições de habitação nos bairros populares, etc. E, no entanto, Nápoles è uma cidade com um encanto especial, com uma história riquíssima feita de múltiplas influências (particularmente espanholas). De Nápoles tem saído pessoas brilhantes como Massimo Troisi, o actor visceralmente napolitano que fez “O Carteiro de Neruda”. E depois a baía é lindíssima e o Vesúvio imponente.

A tragédia do lixo que entope Nápoles, que a submerge em podridão, é devida a uma sórdida aliança de políticos locais, mafiosos (camorristas) e empresas privadas. Todos ganham com o “negócio” do lixo. Lixo que chega a ser importado de outros países para ser depositado em aterros sanitários cuja capacidade se encontra esgotada. Para resolver o problema è necessário construir novos aterros e, sobretudo, encontrar novas soluções para o transporte, a reciclagem e o tratamento dos resíduos, minimizando o impacto ambiental. Aí cada um puxa a brasa à sua sardinha. Os actuais operadores não querem perder “mercado”, não querem que os preços baixem por causa de um aumento da oferta, pedem subsídios que são pagos por políticos que pedem fidelidade e votos.

Para além do problema económico, existe também um problema político e de legalidade. O governo central e as respectivas forças da ordem pura e simplesmente perderam o controlo da situação com cenas de protesto violento a multiplicarem-se na região e, especialmente, num local chamado Pianura onde se pretende instalar transitoriamente um aterro a céu aberto (mais um) para finalmente tirar toneladas de imundice das ruas. Mas, a população local, infiltrada pela Camorra, que aproveita o caos para impor as suas condições para “resolver” o problema, teme que a solução seja definitiva e que, portanto, leve a uma deterioração do ambiente local a longo prazo.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Elizabeth


O filme "Elizabeth - the golden age" com Cate Blanchett conta a luta entre católicos e protestantes no século XVI que culminou com uma derrota humilhante da Armada espanhola no Canal da Mancha e com a emergência do império britânico.

Elizabeth é a Rainha protestante que manda matar a prima Maria Stuart, escocesa e católica. Filipe é o rei de Espanha que assiste ao princípio do fim.

O filme é pretensioso, grandiloquente, feito de imagens que mais parecem cenários de teatro, episódios de banda desenhada. A música, putativamente magistral, invade cada instante do filme. Abundam os clichés, as caricaturas, as tragédias previsíveis.

Na audiência havia muitos espanhóis e foi com alguma surpresa que, de vez em quando, ouvi sinais de incómodo, para não dizer de vexame. No fim alguém disse com uma pronúncia inconfundível: bull shit! Porque a Espanha é apresentada como perdedora, representativa de um mundo velho, obscurantista e decadente. Na sequência do post anterior, mais um exemplo de nacionalismo espanhol que não perde oportunidades para se manifestar, mesmo perante factos estilizados que ocorreram há mais de quatro séculos.

domingo, janeiro 06, 2008

Reis católicos


Praça de S. Pedro em Roma. Um dos primeiros dias do novo ano. A praça está cheia de gente que olha em volta, que se fascina com a grandiosidade do local. Grupos de jovens com a "farda" de comunidades católicas, de diferentes nacionalidades, entoam cânticos religiosos. Famílias passam, puxando pelas crianças para o rebanho de Deus. As crianças seguem de olhos espantados. A fila para entrar na basílica é longuíssima, fazendo quase o circulo completo da praça.

A certa altura, perto de mim, passa uma família. Três gerações de braço dado, caminhando decididamente em direcção a uma saída da praça que dá acesso a Via del Mascherino. Conversam entusiasmados enquanto continuam pelo meio da multidão. A mãe, mulher de 40-45 anos, orgulhosa, ostenta uma fé convicta e militante. Pelas costas tem, não um chale ou um casaco, mas uma grande bandeira de Espanha que lhe tapa quase todo o corpo. É frequente encontrar neste local espanhóis que exibem as suas côres nacionais. Fazem questão de divulgar a sua nacionalidade mais do que outros católicos de todo o mundo que por ali passam. Porque antes de serem crentes e católicos são espanhóis. Ou melhor: não são quaisquer católicos; são católicos espanhóis. A sua fé explica-se também (ou essencialmente) pela pertença a um país particular em que o catolicismo tem uma presença e um significado particulares.

sábado, janeiro 05, 2008

João

João é um homem intrigante. Ainda não percebi se é apenas um eterno adolescente ou se é uma pessoa cheia de subtileza. É muito generoso e simpático, educadíssimo, lavado e organizado. É sensível e concede uma atenção quase aristocrática às pessoas que estima. Ainda não percebi este conceito de estima aplicado ao João. Porque os seus sentimentos parecem penas de pássaro ao vento. São leves, transparentes e efémeros. João não se pega a ninguém nem a coisa alguma. Tem medo de compromissos que vão para além da mais pura conveniência individual, do jeito que se faz, do prazer que se pode sentir.

Não deixa nada ao acaso. A sua casa mais parece uma suite de hotel, sem memória, sem vestígios de vidas precedentes, de viagens ou de afectos, sem fotografias. Mas, é elegante e limpa e bem cheirosa. Acolhedora talvez seja dizer demais. É sem duvida funcional. Eficaz. Tem tudo o que é preciso, no sítio certo, funcionando como um relógio. É a casa de quem parece estar sempre de passagem, sem deixar testemunhos.

A cultura do João é a da CNN e a dos museus de arte moderna que se visitam para pronunciar a frase judiciosa ao jantar com os intelectuais - supostos ou autênticos - que é de bom tom frequentar.

João não tem filhos nem mulher. Nunca se casou nem se divorciou. Nunca fala dos pais ou de alguém da família. Não tem história. Tem apenas presente e veste-se de teenager. Um presente frio, tranquilo, certo, previsível. Nunca vi o João irritado ou claramente alegre. As emoções são filtradas, contidas, disciplinadas.

Deve ser interessante perguntar ao João se é feliz. Talvez não saiba responder porque talvez não perceba a questão...

quarta-feira, dezembro 26, 2007

L'Ètat c'est moi


Sarkozy prossegue na construção do mito "people". Origens modestas, ascenção meteórica, vida sentimental atribulada e colorida, ambição desenfreada, chegada ao mais alto cargo do Estado francês. E continua a dizer que defende os pobres com qualidades de trabalho, que pretende recompensar o esforço e a iniciativa, combater os privilégios e as mordomias, que está próximo da gente comum, daquela gente que compra as revistas côr de rosa, onde ele aparece regularmente na plenitude dos seus excessos. Tem poder, responsabilidade, mas permanece como qualquer mortal, vulnerável ao desvario, à paixão, ao pecado. A popularidade de Sarkozy provém da pitada de excentricidade que coloca no exercício hiper-activo do poder.

O mais recente contributo à composição da personagem é o namoro com Bruni, a franco-italiana, belíssima modelo e actriz, com que se passeou na Eurodisney há alguns dias, para gáudio dos jornalistas de várias confissões. E isso apenas 2 meses após o anúncio oficial do seu divórcio de Cecilia... E vão passar o fim-de-ano numa suite de um deslumbrante hotel de 5 estrelas no Egipto, em anticipação de uma visita oficial a esse país que começa na próxima Segunda-feira. Utilizando o jacto privado de Vincent Boloré, um amigo que é, ao mesmo tempo, um dos homens mais ricos de França.

Essa falta de vergonha em relação à promiscuidade entre público e privado, entre funções de Estado e vida sentimental, a falta de fronteiras entre essas esferas des-sacraliza o poder e torna-o acessível a todos os voyeurismos. Com Sarkozy, a função de Estado é ele próprio, personagem inteira e, que se pretende, desejada, sem compartimentos. De uma certa maneira, trata-se de um retorno à famosa máxima do absolutismo tão francês: "L'Ètat c'est moi".

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Zucchero - Baila Morena

Fait-divers de Natal

Gosto muito de A. Lobo Antunes, apesar dos seus desvarios dos últimos anos que, tendencialmente, o tornam ilegível ao comum dos mortais, para grande enriquecimento da literatura e auto-satisfação do mesmo. Custa-me, porém, a soberba, para não dizer arrogância com que, a custo, se digna falar dos seus pares que, segundo ele, conseguem apenas produzir uma espécie de arte menor. "E Miguel Sousa Tavares?", pergunta-lhe o jornalista pacóvio e boquiaberto com a honra de ter pela frente uma tal eminência. Responde com displicência: "Folheei". E basta de comentários àcerca de tal insignificância. "Saramago?" aventura-se o jornalista. "Conheço mal...", responde. E chega.
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Os ministros juntaram-se numa colecta para ajudar José Sócrates a partir de férias neste fim de ano. Mais do que merecidas, depois de um ano de trabalho esgotante e produtivo. A média dos contributos terá sido de cerca de 80 euros o que indica ambiguamente o grau de generosidade ou de austeridade em que também vivem os mais altos dignitários do Estado.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Crises de liquidez

Em última instância, o problema mais grave de um banco é a falta de liquidez. Quando os depositantes batem à porta e não há dinheiro em caixa para lhes devolver a massa, aí é que começa o verdadeiro problema, a falta de confiança e o pânico que se podem contagiar perigosamente a todo o sistema financeiro e, no fim de contas, à economia real. Antes desse ponto, naturalmente, muitas coisas más poderão ter sucedido: crédito mal-parado, falta de fundos próprios, discrepância entre os vencimentos dos activos e os dos passivos, etc. Tudo mais ou menos fruto de incompetência e/ou de imprudência dos respectivos gestores.

O que o Banco Central Europeu está a fazer neste momento, injectando biliões de euros no mercado interbancário de crédito a curto prazo, é evitar a eclosão de crises de liquidez junto de certas instituições (!...), as quais se poderiam espalhar com consequências desastrosas. Essa oferta de fundos levou hoje a uma queda acentuada das taxas do mercado inter-bancário, Euribor. Esperemos que essa terapia seja suficiente para dar alguma margem de manobra aos bancos mais frágeis para resolver os problemas subjacentes e limpar os balanços dos activos "junk". Não estou de acordo com algumas pessoas àcerca da pressão inflacionista desse aumento temporário da componente mais curta da massa monetária. Precisamente, porque se tudo correr bem, é exactamente um aumento temporário, isto é, regressará a breve trecho aos cofres do banco central, uma vez restabelecida a normalidade da liquidez no mercado. Se, no entanto, essa nova liquidez for objecto de sucessivas renovações (revolving), tornando-se de facto permanente, aí o efeito inflacionista pode-se manifestar. Mas, mesmo nesse caso, será moderado porque servirá essencialmente para compensar os efeitos deflacionistas dos comportamentos dos agentes económicos que sofreram as perdas que levaram à crise.

Já imaginaram o que sucederia se milhares de depositantes deixassem de ter confiança nos bancos e se se precipitassem de repente junto das caixas respectivas pedindo o reembolso dos depósitos? Essa situação ocorreu recentemente na Inglaterra com um banco de crédito hipotecário chamado Northern Rock que só não faliu porque o banco central lhe cedeu o dinheiro necessário para pagar aos depositantes. Mas, as filas à porta das agências do Northern Rock duraram dias...

Por mais bem capitalizado que seja, nenhum banco pode, sózinho, pagar instantanemente a totalidade dos seus depósitos. Seria anti-económico dispor de tanta liquidez para esse efeito, a todo o momento. O sistema funciona largamente com base na renovação dos depósitos (novos depósitos que servem para reembolsar antigos depósitos) e isso depende da confiança e do funcionamento normal dos ciclos da poupança e do investimento. Se esses ciclos são interrompidos, por demérito de uma instituição específica ou por contágio de factores sistémicos, o risco de colapso torna-se real e é na vizinhança dessa situação que a intervenção das autoridades monetárias se torna decisiva.

domingo, dezembro 16, 2007

O pátio


Uma fogueira de gêlo ardia num pátio atapetado de estrume de chocolate. Um porco passeava de casaco de peles e começou a chover sol às toneladas, pesado como uma pluma. Um camponês apareceu de Rolls Royce, deu um pontapé no porco que agradeceu com um sorriso de um doçura metálica. A porta do curral abriu-se e uns tapetes persas surgiram numa estúpida opulência. O porco entrou a dançar no espaço escuro que tresandava de Channel N° 5 negativo. O camponês fechou o portão do curral com um estrondo musical e o porco chorou de rir. O camponês caminhou no pátio, lambendo o chocolate do chão com desgosto. Lágrimas cairam-lhe da face, fazendo uma sopa agri-doce que se foi espalhando lentamente até chegar ao sítio da fogueira, que se extinguiu. E o gêlo aqueceu e o lume acendeu-se e o camponês acordou em frente da lareira que projectava estranhas formas luminosas no tecto da sala do borralho, que estava às escuras. O camponês passeou os olhos pelas brasas, sentiu-se quente por dentro e por fora e voltou a adormecer, pronto para mais uma viagem fantástica pelo pátio.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Escutem esta também - é irresistível...

Red red wine

Querido natal

É a minha veia amarga e negativa, o meu coração empedernido, ou esta época é propícia à hipocrísia ?

Há uma tal concentração de sentimentos e de emoções, uma tal obrigação de estar na onda que até chateia. Pessoas que não se suportam participam nas mesmas festas em que se celebra efusivamente o chamado espírito natalício. Colegas que passam o ano a boicotar-se uns aos outros reunem-se em almoços e jantares absolutamente surrealistas. Os sorrisos são máscaras que se derretem como cera. E depois há esta sensação do dever cumprido, ao fim de mais um ano de esforço. E algumas pessoas exteriorizam com pudor, finalmente, a sua humana fragilidade. Pouco. No meio de uma cosmética simpatia, de uma dolorosa cordialidade.

E as famílias têm de se encontrar e todos têm de se amar infinitamente, pelo menos nestes dias… Porque o tempo passa depressa e a regra são as ausências e a rotina. E pelo menos agora tudo será perfeito. E o mínimo incidente nesta época torna-se um atentado, uma demonstração de genuina maldade. Terrorismo. E o sofrimento e a solidão ficam ainda mais penosos. Mas, são precisos para a decoração do conjunto...

Este ritual, esta procissão de açucar, sorrisos, champanhe, luzes, ternura, esperança, melodias de corações ao alto, este carrossel em que se mete a vida a girar uma volta só. Uma vida metida num estranho parêntesis... até ao próximo ano.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Quem guia sou eu...


A família Schumacher apanhou um taxi para ir para um aeroporto na Alemanha onde os esperava um jet privado para um vôo para Milão. Estavam um bocado atrasados. O tráfego era intenso. Michael voltou-se para o taxista e pediu para ser ele a guiar. O taxista sentou-se no lugar do passageiro e teve uma experiência única: obviamente, chegaram antes da hora prevista, depois de ultrapassagens e curvas alucinantes, e tiveram a sorte de não encontrar nenhuma patrulha da polícia de trânsito... O campeão pagou uma gorjeta de 40 euros e o taxista ficou ainda mais contente.