quarta-feira, dezembro 26, 2007

L'Ètat c'est moi


Sarkozy prossegue na construção do mito "people". Origens modestas, ascenção meteórica, vida sentimental atribulada e colorida, ambição desenfreada, chegada ao mais alto cargo do Estado francês. E continua a dizer que defende os pobres com qualidades de trabalho, que pretende recompensar o esforço e a iniciativa, combater os privilégios e as mordomias, que está próximo da gente comum, daquela gente que compra as revistas côr de rosa, onde ele aparece regularmente na plenitude dos seus excessos. Tem poder, responsabilidade, mas permanece como qualquer mortal, vulnerável ao desvario, à paixão, ao pecado. A popularidade de Sarkozy provém da pitada de excentricidade que coloca no exercício hiper-activo do poder.

O mais recente contributo à composição da personagem é o namoro com Bruni, a franco-italiana, belíssima modelo e actriz, com que se passeou na Eurodisney há alguns dias, para gáudio dos jornalistas de várias confissões. E isso apenas 2 meses após o anúncio oficial do seu divórcio de Cecilia... E vão passar o fim-de-ano numa suite de um deslumbrante hotel de 5 estrelas no Egipto, em anticipação de uma visita oficial a esse país que começa na próxima Segunda-feira. Utilizando o jacto privado de Vincent Boloré, um amigo que é, ao mesmo tempo, um dos homens mais ricos de França.

Essa falta de vergonha em relação à promiscuidade entre público e privado, entre funções de Estado e vida sentimental, a falta de fronteiras entre essas esferas des-sacraliza o poder e torna-o acessível a todos os voyeurismos. Com Sarkozy, a função de Estado é ele próprio, personagem inteira e, que se pretende, desejada, sem compartimentos. De uma certa maneira, trata-se de um retorno à famosa máxima do absolutismo tão francês: "L'Ètat c'est moi".

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Zucchero - Baila Morena

Fait-divers de Natal

Gosto muito de A. Lobo Antunes, apesar dos seus desvarios dos últimos anos que, tendencialmente, o tornam ilegível ao comum dos mortais, para grande enriquecimento da literatura e auto-satisfação do mesmo. Custa-me, porém, a soberba, para não dizer arrogância com que, a custo, se digna falar dos seus pares que, segundo ele, conseguem apenas produzir uma espécie de arte menor. "E Miguel Sousa Tavares?", pergunta-lhe o jornalista pacóvio e boquiaberto com a honra de ter pela frente uma tal eminência. Responde com displicência: "Folheei". E basta de comentários àcerca de tal insignificância. "Saramago?" aventura-se o jornalista. "Conheço mal...", responde. E chega.
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Os ministros juntaram-se numa colecta para ajudar José Sócrates a partir de férias neste fim de ano. Mais do que merecidas, depois de um ano de trabalho esgotante e produtivo. A média dos contributos terá sido de cerca de 80 euros o que indica ambiguamente o grau de generosidade ou de austeridade em que também vivem os mais altos dignitários do Estado.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Crises de liquidez

Em última instância, o problema mais grave de um banco é a falta de liquidez. Quando os depositantes batem à porta e não há dinheiro em caixa para lhes devolver a massa, aí é que começa o verdadeiro problema, a falta de confiança e o pânico que se podem contagiar perigosamente a todo o sistema financeiro e, no fim de contas, à economia real. Antes desse ponto, naturalmente, muitas coisas más poderão ter sucedido: crédito mal-parado, falta de fundos próprios, discrepância entre os vencimentos dos activos e os dos passivos, etc. Tudo mais ou menos fruto de incompetência e/ou de imprudência dos respectivos gestores.

O que o Banco Central Europeu está a fazer neste momento, injectando biliões de euros no mercado interbancário de crédito a curto prazo, é evitar a eclosão de crises de liquidez junto de certas instituições (!...), as quais se poderiam espalhar com consequências desastrosas. Essa oferta de fundos levou hoje a uma queda acentuada das taxas do mercado inter-bancário, Euribor. Esperemos que essa terapia seja suficiente para dar alguma margem de manobra aos bancos mais frágeis para resolver os problemas subjacentes e limpar os balanços dos activos "junk". Não estou de acordo com algumas pessoas àcerca da pressão inflacionista desse aumento temporário da componente mais curta da massa monetária. Precisamente, porque se tudo correr bem, é exactamente um aumento temporário, isto é, regressará a breve trecho aos cofres do banco central, uma vez restabelecida a normalidade da liquidez no mercado. Se, no entanto, essa nova liquidez for objecto de sucessivas renovações (revolving), tornando-se de facto permanente, aí o efeito inflacionista pode-se manifestar. Mas, mesmo nesse caso, será moderado porque servirá essencialmente para compensar os efeitos deflacionistas dos comportamentos dos agentes económicos que sofreram as perdas que levaram à crise.

Já imaginaram o que sucederia se milhares de depositantes deixassem de ter confiança nos bancos e se se precipitassem de repente junto das caixas respectivas pedindo o reembolso dos depósitos? Essa situação ocorreu recentemente na Inglaterra com um banco de crédito hipotecário chamado Northern Rock que só não faliu porque o banco central lhe cedeu o dinheiro necessário para pagar aos depositantes. Mas, as filas à porta das agências do Northern Rock duraram dias...

Por mais bem capitalizado que seja, nenhum banco pode, sózinho, pagar instantanemente a totalidade dos seus depósitos. Seria anti-económico dispor de tanta liquidez para esse efeito, a todo o momento. O sistema funciona largamente com base na renovação dos depósitos (novos depósitos que servem para reembolsar antigos depósitos) e isso depende da confiança e do funcionamento normal dos ciclos da poupança e do investimento. Se esses ciclos são interrompidos, por demérito de uma instituição específica ou por contágio de factores sistémicos, o risco de colapso torna-se real e é na vizinhança dessa situação que a intervenção das autoridades monetárias se torna decisiva.

domingo, dezembro 16, 2007

O pátio


Uma fogueira de gêlo ardia num pátio atapetado de estrume de chocolate. Um porco passeava de casaco de peles e começou a chover sol às toneladas, pesado como uma pluma. Um camponês apareceu de Rolls Royce, deu um pontapé no porco que agradeceu com um sorriso de um doçura metálica. A porta do curral abriu-se e uns tapetes persas surgiram numa estúpida opulência. O porco entrou a dançar no espaço escuro que tresandava de Channel N° 5 negativo. O camponês fechou o portão do curral com um estrondo musical e o porco chorou de rir. O camponês caminhou no pátio, lambendo o chocolate do chão com desgosto. Lágrimas cairam-lhe da face, fazendo uma sopa agri-doce que se foi espalhando lentamente até chegar ao sítio da fogueira, que se extinguiu. E o gêlo aqueceu e o lume acendeu-se e o camponês acordou em frente da lareira que projectava estranhas formas luminosas no tecto da sala do borralho, que estava às escuras. O camponês passeou os olhos pelas brasas, sentiu-se quente por dentro e por fora e voltou a adormecer, pronto para mais uma viagem fantástica pelo pátio.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Escutem esta também - é irresistível...

Red red wine

Querido natal

É a minha veia amarga e negativa, o meu coração empedernido, ou esta época é propícia à hipocrísia ?

Há uma tal concentração de sentimentos e de emoções, uma tal obrigação de estar na onda que até chateia. Pessoas que não se suportam participam nas mesmas festas em que se celebra efusivamente o chamado espírito natalício. Colegas que passam o ano a boicotar-se uns aos outros reunem-se em almoços e jantares absolutamente surrealistas. Os sorrisos são máscaras que se derretem como cera. E depois há esta sensação do dever cumprido, ao fim de mais um ano de esforço. E algumas pessoas exteriorizam com pudor, finalmente, a sua humana fragilidade. Pouco. No meio de uma cosmética simpatia, de uma dolorosa cordialidade.

E as famílias têm de se encontrar e todos têm de se amar infinitamente, pelo menos nestes dias… Porque o tempo passa depressa e a regra são as ausências e a rotina. E pelo menos agora tudo será perfeito. E o mínimo incidente nesta época torna-se um atentado, uma demonstração de genuina maldade. Terrorismo. E o sofrimento e a solidão ficam ainda mais penosos. Mas, são precisos para a decoração do conjunto...

Este ritual, esta procissão de açucar, sorrisos, champanhe, luzes, ternura, esperança, melodias de corações ao alto, este carrossel em que se mete a vida a girar uma volta só. Uma vida metida num estranho parêntesis... até ao próximo ano.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Quem guia sou eu...


A família Schumacher apanhou um taxi para ir para um aeroporto na Alemanha onde os esperava um jet privado para um vôo para Milão. Estavam um bocado atrasados. O tráfego era intenso. Michael voltou-se para o taxista e pediu para ser ele a guiar. O taxista sentou-se no lugar do passageiro e teve uma experiência única: obviamente, chegaram antes da hora prevista, depois de ultrapassagens e curvas alucinantes, e tiveram a sorte de não encontrar nenhuma patrulha da polícia de trânsito... O campeão pagou uma gorjeta de 40 euros e o taxista ficou ainda mais contente.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Diálogo

"Mas afinal o que estás a fazer aí deitado ?" - perguntou o rico ao pobre que tentava dormir próximo do ventilador do metropolitano que deitava ar quente.
"Estava a pensar em si - não se vê logo! Que raio de pergunta."
"A pensar em mim?... Deves é estar a gozar. Não me conheces de lado nenhum..."
"Mas, será tão descabida a resposta quanto a pergunta".
Apesar de tudo o pobre embalou-se no debate:
"Basta-me imaginar o conforto de pessoas como você para adormecer melhor. Sinto-me mais quente e aconchegado. Para pessoas como eu o conforto é psicológico: sonha-se em vez de se ter e, por isso, de certa maneira, tem-se."
"Saiu-me na rifa um pelintra filósofo... Satisfazes-te com pouco. Talvez por isso sejas pobre. Ser pobre não é dormir ao relento. Ser pobre é não querer deixar de ser pobre..."
O pobre pôs-se a rir e disse:
"Lá vem este com o livre arbítrio, com a responsabilidade que cada um tem pelo seu destino. Meu caro: uma coisa é querer, outra é poder. E o poder não é como o sol que nasce todos os dias para todos. Quando sais da barriga da tua mãe uma grande parte do teu destino já está escrito. E não me venham com as excepções que confirmam a regra e que dá jeito propagandear como se fossem a regra. Tretas!"
O rico olhou-o com desdém e foi-se embora, seguro de si. O pobre desapareceu ainda mais debaixo do cobertor cheio de nódoas, consolado pelo calor que saía do ventilador e pela fantasia de ser rico.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Pequena "filosofia" de inverno

Quando se é imaturo julga-se saber o que é o fogo sem nunca se ter queimado, julga-se poder aprender com os erros dos outros. Depois, as pessoas queimam-se e cometem os seus próprios erros. E só então (talvez...) crescem. Uma coisa é a realidade pensada ou imaginada. Outra coisa é a realidade vivida - esta última é a que permanece, para o melhor e para o pior. Conhecer verdadeiramente significa viver o objecto do conhecimento. De outra maneira há apenas intuição ou dedução.

Envelhecer significa, de certa maneira, render-se à realidade nua e crua, ver a realidade como ela é. O que é bom e mau ao mesmo tempo. Porque barra o caminho aos sonhos e à fantasia. [E não há mal nenhum nos sonhos e na fantasia; até se diz que esses são os ingredientes de que se faz a mudança.] Mas, ver a realidade como ela é também leva à sabedoria e à prudência. Por isso, envelhecer se torna mais fácil.

terça-feira, dezembro 04, 2007

My Blueberry Nights

Filme apresentado no festival de Cannes deste ano, realizado por Wong Kar-Wai, com Norah Jones e Jude Law nos papéis principais. Um filme feito de grandes planos de faces e corpos humanos com a fotografia típica do realizador. Um filme que respeita os silêncios. Uma espécie de neo-romantismo urbano. Elizabeth (desempenhada por Norah Jones), só e perdida, procura-se a si mesma no meio de outras personagens igualmente vazias e atormentadas, num ambiente vasto, individualista e americano. Excelente música... para quem gosta de Norah Jones.

O romantismo possivel num tempo de solidão e de perda de referências.

domingo, dezembro 02, 2007

Chuva

O lado de fora da chuva somos nós.
Como quem diz que estar fora ou dentro da tempestade vai dar ao mesmo, desde que se trate de verdadeira tempestade.
Entrar ou sair é mera técnica.
A técnica é posterior ao que conta e o que conta é a vontade que mistura emoções e razões de que se faz a diferença de cada um de nòs.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Aspectos insólitos (ou talvez não) da globalização

Os casos de delinquência em Itália envolvendo imigrantes romenos têm-se multiplicado devido a um crescente número de cidadãos provenientes desse país a viver em condições absolutamente deploráveis na periferia das grandes cidades. Desemprego elevado, analfabetismo, famílias numerosas, condições de alojamento desumanas, uma certa percentagem de pessoas de etnia cigana com dificuldades acrescidas de integração, instrumentalização por italianos sem escrúpulos, tudo isso compõe o quadro em que se desenvolve essa criminalidade cada vez mais violenta. Recentemente, houve casos de assassinato que exacerbaram a hostilidade da opinião pública, provocando tendências racistas e xenófobas em sectores inesperados da população. O governo reagiu aumentando os controlos da imigração ilegal e tentando negociar com o governo da Roménia o retorno de um certo número de indíviduos e maiores restrições às partidas.

O que é surpreendente no meio disto tudo é que, ao mesmo tempo, a emigração chinesa para a Roménia não cessa de aumentar e os empresários italianos instalam fábricas de vestuário e calçado na Roménia utilizando, principalmente, a crescente (e ainda mais barata) mão-de-obra chinesa... E dizem que a Roménia é o país onde se pode ganhar mais facilmente e depressa muito dinheiro, também porque não existe verdadeira protecção social e o mercado negro do trabalho prolifera.

quarta-feira, novembro 28, 2007



"Alabama Song" de Gilles Leroy foi o livro que ganhou este ano o Prémio Goncourt, um dos prémios literários mais prestigiantes em França.

O livro conta (na primeira pessoa) o drama de Zelda Fitzgerald, mulher do famoso escritor Scott Fitzgerald, desde a sua juventude até à morte do marido em 1940. O autor efectuou uma vasta pesquisa, designadamente, nos Estados Unidos para compor esta "auto-biografia por mão alheia", a que ele prefere chamar romance. Zelda foi esmagada pela sombra de Scott e foi instrumentalizada como Musa e exemplo em vários romances de Scott que chega a interná-la por alegada doença mental quando ela se torna um factor de perturbação da sua obra.

Um excelente romance de que seguramente sairá também uma tradução portuguesa em breve.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Leões para cordeiros

Fui ver este filme de Robert Redford, com Tom Cruise, Meryl Streep e o próprio Robert Redford como actores principais. É um filme feito, essencialmente, de dois longos diálogos, por vezes, prolixos e repletos de clichés, tendo como pano de fundo uma acção militar contemporânea em que dois jovens visionários e generosos (curiosamente, de origem não-americana) perdem a vida nas montanhas do Afeganistão a lutar por uma nova estratégia dos Estados Unidos de combate ao terrorismo...

Os Estados Unidos são férteis a fazer guerras (primeiro) e a exorcisar durante anos a fio (depois) os respectivos problemas de consciência, produzindo filmes e outras "obras de arte" em que a nação americana é colocada perante a sua grandeza e perante os seus demónios. Foi também assim com o Vietname...

sábado, novembro 24, 2007

Galileu

Galileu não é apenas o nome de um génio italiano do Renascimento. É também o nome de um mega-projecto europeu de lançamento de 30 satélites para rivalizar com o sistema GPS americano. Custo total previsto: cerca de 3500 milhões de euros. O principal interesse do projecto é estratégico, isto é, a Europa pretende autonomizar-se do GPS que os Estados Unidos podem “desligar” a qualquer momento por razões politico-militares. Mas, o GPS tem uma enorme vantagem: é gratuito! Com essa brincadeira podemos instalar nos nossos automóveis aqueles ecrãs (esses não são gratuitos...) que nos guiam por todo o lado e que nos dispensam de raciocinar geograficamente. Galileu também mete a Europa a par de Chineses e Russos que têm desenvolvido outros esquemas alternativos ao GPS.

Enquanto sistema de posicionamento por satélite, Galileu terá maior precisão do que os sistemas rivais: permitirá localizar objectos com um erro inferior a 1 metro. Assim, poderá também ser utilizado para navegação marítima e aérea, pesquisa de recursos naturais, prevenção e detecção de acidentes e catástrofes e melhoria do diagnóstico e previsão meteorológicos, etc. Todas estas utilizações e consequentes receitas comerciais fizeram pensar aos promotores do projecto que ele poderia ser realizado em parceria com o sector privado. Foi lançado um concurso a que se candidataram consórcios juntando empresas europeias dos sectores electrónico, aeroespacial e de construção civil. As ofertas recebidas foram consideradas insatisfatórias pela Comissão Europeia, principal entidade do organismo concessionário, nomeadamente, por causa do montante elevado de ajudas públicas pedidas pelos candidatos. Isto é, as estimativas de receitas comerciais do projecto eram demasiado baixas e os riscos da sua realização eram considerados muito elevados. Houve ainda uma tentativa de financiamento privado parcial do projecto através da fusão dos candidatos à concessão num único candidato, mas nem assim a coisa se salvou.

O projecto deveria ser financiado exclusivamente com dinheiro público. Entrou-se num período de impasse e tudo fazia prever um falhanço clamoroso. O maior obstáculo eram as rivalidades entre alemães e franceses quanto a saber qual das respectivas indústrias ganharia mais com as encomendas associadas ao projecto. Os alemães estariam dispostos a participar no financiamento com o dinheiro dos seus contribuintes desde que a indústria alemã recebesse uma parte proporcional das encomendas. Os franceses, que também têm uma indústria aeroespacial muito forte, puxavam igualmente pelos seus interesses nacionais.

Na verdade, um dos princípios essenciais da Agência Espacial Europeia (ESA) – a organização multilateral com sede em Paris que lançou designadamente o projecto Ariane – é o do “juste retour”, quer dizer: a indústria de cada Estado-membro da ESA (incluindo Portugal) tem direito a receber encomendas, relacionadas com um determinado projecto, por um valor não inferior ao da participação desse mesmo Estado-membro no financiamento do projecto. Os alemães pretendem que esse princípio também se aplique a Galileu para assegurar o financiamento pelos Estados mais directamente envolvidos. Mas, os outros países dão preferência ao financiamento pelo Orçamento da União Europeia, o que tem um efeito de mutualização que pode provocar algum desequilíbrio entre as diferentes indústrias nacionais.

Depois de muita negociação, que implicará também deslocação para o projecto de verbas inicialmente destinadas a outros orçamentos da União Europeia, nomeadamente, ao da política agrícola (de que beneficiam sobretudo os franceses), espera-se que o financiamento de Galileu seja aprovado, finalmente, no Conselho de Ministros dos Transportes da UE que se realiza no próximo dia 29 de Novembro. Assim, a partir de 2012 poderão estar no espaço 30 satélites e, em terra, diversas estações de controle para assegurar os louváveis e sofisticados serviços do sistema europeu de GPS.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Campeonato das Universidades

"A Universidade de Coimbra é a melhor de Portugal. Segundo um dos mais prestigiados “rankings” mundiais, elaborado pelo “The Times Higher Education Supplement” e pela “Quacquarelli Symonds”, a instituição com mais de 700 anos de existência repete a liderança portuguesa. Anunciados na semana passada, depois de já serem conhecidas as melhores 200 instituições a nível mundial, o “ranking” mostra que as universidades lusas ficaram fora deste lote, revelando, também, uma queda portuguesa no cenário europeu. Depois da 120.ª posição obtida em 2006, a Universidade de Coimbra desceu, este ano, para o lugar 145 a nível da Europa. Em termos mundiais, é a 319.ª melhor, após ter sido 266.ª classificada (em 2006) e 452.ª (em 2005). A Universidade Nova de Lisboa é a segunda do “ranking”, no que diz respeito aos estabelecimentos portugueses, ocupando o 341.º lugar mundial e o 158.º europeu. A Universidade Católica, em Lisboa, foi a terceira portuguesa, surgindo no lote das instituições situadas entre o 401.º e 500.º posto, que não estão ordenadas por lugar, mas apenas por ordem alfabética. Em termos globais, a primeira posição do “ranking” volta a colocar a norte-americana Universidade de Harvard no 1.º lugar. Na Europa, o ouro é repartido pelas universidades britânicas de Oxford e Cambridge. A nível mundial, as duas instituições surgem logo após Harvard."

transcrito de "Diário de Coimbra" on-line de hoje

quinta-feira, novembro 22, 2007

Futebol... para variar

Os últimos jogos da selecção nacional de futebol AA, independentemente dos resultados finais, têm sido penosos. A equipa não joga bem, tarda em marcar, sofre nos últimos minutos, mesmo contra equipas teoricamente mais fracas. O que se passou ontem nas Antas (queria dizer... no Dragão!) foi mais um exemplo disso mesmo. No fim, a equipa apurou-se para a fase final do Euro 2008, ficando em 2° lugar no grupo, atrás da Polónia. E segundo a máxima (discutível) de que o que conta são os resultados finais, devemos estar contentes. Mas, diga-se a verdade: esta equipa não se pode comparar àquelas que se apresentaram no Europeu 2004 ou no Mundial 2006. É mais fraca, composta de jogadores medianos complementados por um ou dois génios individualistas-até-dizer-chega que jogam para as câmaras da televisão. E depois - e só depois - é que vêm os defeitos de um treinador arrogante e mal-educado que não quer reconhecer a evidência de que lhe pedem para fazer omoletas sem ovos. Se o reconhecesse seria mais desassombrado e útil do que saindo intempestivamente de uma conferência de imprensa, queixando-se de que o acusam de ser burro quando afinal a Finlândia é que não jogou o suficiente para justificar uma vitória sobre Portugal. O que é burro é dizer uma tal enormidade.

Seja como for, é apenas futebol e é de lamentar que o orgulho nacional (!) e o humor de tantos portugueses dependam dessas diatribes no dia seguinte a uma partida de futebol tão penosa... Portugal até dominou - basta olhar para as estatísticas do jogo... Mas, aquela proverbial incapacidade de concretizar e uma genética vulnerabilidade a uma bola fortuita e transviada que atraiçoa a mais elementar lógica de um jogo que a não tem... isso é que custa a aceitar e temo que continue no futuro, dada a fundamental mediania da equipa.

Consolemo-nos com a desdita da equipa inglesa que, perdendo em casa contra uma grande Croácia, nem sequer se qualificou para a fase final, concedendo essa inesperada benesse à Russia. A propósito, o treinador foi imediatamente despedido.

Quem continua a demonstrar uma eficácia irrepreensível são os italianos, os franceses e os espanhóis... e os gregos...

quarta-feira, novembro 21, 2007

Guerra civil

Em França, a greve dos transportes públicos, que dura há uma semana, parece não ter fim, para enorme raiva dos utentes que têm de passar por um autêntico calvário para manter o seu ritmo de vida. Paris encontra-se paralisada e as pessoas inventam as soluções mais incríveis para não faltar ao emprego ("férias compulsivas", bicicleta, etc.). Os funcionários públicos são acusados pela direita e por utentes fartos de tanto caos de serem uma cambada de privilegiados, protagonistas de lutas obsoletas. O principal problema consiste na degradação das condições dos regimes especiais de reforma dessas categorias profissionais, alinhando-as mais com o sector privado (período mínimo de descontos, última remuneração de referência, etc.) e permitindo ao Estado reduzir o défice dos respectivos sistemas de segurança social.

O governo e o Sr. Sarkozy mantêm a sua posição de intransigência e, começa-se a especular que, simplesmente, esperam que os utentes se revoltem tanto que os grevistas desistam por excesso de impopularidade. Ou seja, o governo e o Sr. Sarkozy acham que os grevistas vão voltar ao trabalho por terem medo de provocar uma guerra civil... E isso seria a mais temível arma negocial à disposição do governo. Basta nada fazer e esperar que cheire a esturro para vergar finalmente a cambada de privilegiados.

Espero que a moda da guerra civil como instrumento de "política social" não pegue...

terça-feira, novembro 20, 2007

Professores estão a ser pressionados para não dar negativas

A isto se chama governar para a galeria e para as estatísticas, como tem sido o caso em outras áreas, com as piores consequências...

domingo, novembro 18, 2007

O sonho de Cassandra

Fui ver o ultimo da trilogia de Woody Allen que se iniciou com "Match Point" e que continuou com "Scoop". Em pano de fundo a problemática de Dostoievsky de "Crime e Castigo". Mesmo o crime mais perfeito implica punição e a mais dura das punições é a da consciência. Este "Cassandra's Dream", porém é mais dramático e pesado do que os outros dois. Não há lugar ao cómico nem ao irrisório. A maldade e o arrependimento são apresentados sem cosmética.

sábado, novembro 17, 2007

Inflação de regresso ?

Factores de um aumento:

- preço da energia e dos produtos alimentares
- produtos importados dos países emergentes cada vez menos baratos

Factores de contenção do aumento:

- desaceleração do investimento por causa de uma menor oferta de crédito em consequência da crise subprime
- valorização do euro, tornando as importações mais baratas (designadamente de petróleo)

O que alguns analistas prevêem é que os primeiros suplantem os segundos durante os próximos 6 meses, mas depois haveria uma nova acalmia. Muito depende também de como as expectativas geradas pela prevalência dos factores inflacionistas condicionam o comportamento dos agentes económicos. Por exemplo, se os sindicatos assumem que a tendência é durável pedirão mais aumentos de salários e, portanto, a expectativa de mais inflação conduzirá a uma inflação real mais elevada.

No meio disto tudo o Banco Central Europeu não sabe bem que direcção tomar. Aumentar a taxa de juro para conter a tensão dos preços, prejudicando eventualmente o crescimento? Por enquanto deixou a taxa de juro estável.

Estava no sítio certo à hora certa

Dendermonde, Belgium (16.11.2007)

sexta-feira, novembro 16, 2007

Prioridades

Custa a acreditar que pessoas de mais de 40 anos se comportem como autênticas crianças no recreio da escola primária, disputando a bola ou batendo no colega porque tem um par de ténis mais coloridos. Mas, é isso que sucede com demasiada frequência na luta frenética pelo poder. As pessoas infantilizam-se e entram em litígios que as tornam patéticas e deploráveis, por vezes, absurdas. Não conseguem distanciar-se do objecto de desejo que é o protagonismo e a capacidade de decidir sobre os outros. Tantas vezes esse poder é tão irrisório e temporário que leva a questionar o que é que realmente as faz correr, de que se alimenta a adrenalina dessas crianças grandes que nunca deixaram de querer marcar golos nem de invejar o brinquedo do menino do lado. E ficam raivosos e sofrem e cometem as maiores atrocidades se, depois de tanto espernear, não conseguem saciar esse desejo alucinante. E um dia, talvez demasiado tarde, acordam e apercebem-se de que puseram todos os ovos debaixo da galinha errada e vêem com clareza o "non-sense" em que se transformou a sua existência e a pequenez dos objectivos que perseguiram, em detrimento de outras coisas de cujo valor se apercebem muito tarde.

Não quer isto dizer que não se deva querer ou sonhar (apesar de, como dizia Nietzche, a fonte de todo o sofrimento ser precisamente o querer...). Não quer isto dizer que o ideal seja a passividade ou a desistência. Sou a pessoa mais insuspeita para não defender a inanição ou uma chamada atitude Zen que frequentemente significa o "deixa andar". Mas entre uma saudável necessidade de afirmação, uma vontade de progredir e inovar, de, talvez, mudar o mundo e a obsessão por objectivos limitados e puramente materiais ou sociais vai um grande passo: o da maturidade, o da espiritualidade, o do gozo do ócio sem sentimento de culpa.

Não se deixar engolir por uma dinâmica de "fazer" e de "querer", imposta mais pelo ambiente do que pela nossa verdadeira vontade, é uma prova de sabedoria. Não se deve viver a vida dos outros... Criar uma margem de segurança em relação às putativas urgências de um quotidiano que se vai sucedendo sem nexo ou paradigma é um imperativo de sanidade mental. É preciso, de quando em vez, olhar para o modo como a nossa vida se desenrola do lado de fora, como se estivessemos em cima de um monte a observar a batalha que se trava numa planície distante e decidir quem é o verdadeiro vencedor. Talvez seja o que observa...

Com tudo isto estou a falar comigo próprio e a tentar convencer-me de qualquer coisa...

quarta-feira, novembro 14, 2007

Pequenas Grandes Coisas


É impressionante, quando nos falta alguma coisa, o prazer supremo de a reencontrarmos por mero acaso.

No meu caso falo no Sol e no azul claro do céu. Depois de semanas de céu cinzento e nublado e chuva, acordar e espreitar pela janela, verificando que o céu está azul claro e que os raios de Sol batem na janela é algo de inacreditavelmente poderoso. Conseguiu fazer o meu dia muito mais alegre!

Em Portugal não nos apercebemos que o clima é, de facto, único! Queixamo-nos que a única oferta do nosso país para muitos turistas é só o Sol e o calor. Não nos devemos queixar, pois é uma oferta valiosíssima, principalmente para aqueles que não sabem o que são dias seguidos de plena luz durante o dia.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Matemática e dinheiro

O que se está a passar no mercado do crédito, nomeadamente nos Estados Unidos, é, em parte, culpa dos matemáticos.

Explico-me.

Certos grandes empréstimos são garantidos por outros numerosos pequenos empréstimos. O reembolso e os juros dos primeiros dependem da performance dos segundos. Se estes últimos entram em situação de incumprimento os primeiros não são reembolsados. A taxa de juro e o prazo dos grandes empréstimos são determinados considerando a probabilidade de perda dos pequenos empréstimos. Ora é aqui que entram os matémáticos ao dizer, por exemplo, que há uma probabilidade de apenas 1% de que mais de 50% dos pequenos empréstimos não sejam pagos. Se compro titulos pertencentes à parte melhor dos grandes empréstimos (os 50% mais acima na escala do risco), em principio, há menos de 1% de hipóteses de vir a perder alguma coisa. Por isso, estou disposto a subscrever esses títulos e mesmo a receber uma taxa de juro mais baixa, dado que eminentes matemáticos e financeiros me dizem que o risco é pequeno. Ora essas probabilidades de perda dependem de algoritmos sofisticados e de um grande número de hipóteses que, quando a coisa dá para o torto, quase nunca se concretizam. Isto é: em caso de crise a realidade é normalmente pior do que a pior conjectura e, portanto, as perdas tocam quem, matemáticamente, lhes deveria ser imune.

Tudo isto coloca em causa a própria credibildade da finança exageradamente baseada em modelos e faz recordar que o crédito contém elementos de subjectividade e de julgamento incontornáveis. Quando se dá peso excessivo aos fisícos e matemáticos descola-se da realidade e brinca-se com o fogo. É preciso não esquecer que essas profissões têm sido pagas a peso de ouro nos principais centros financeiros mundiais e concerteza não têm tido problemas de desemprego.