sexta-feira, dezembro 14, 2007

Querido natal

É a minha veia amarga e negativa, o meu coração empedernido, ou esta época é propícia à hipocrísia ?

Há uma tal concentração de sentimentos e de emoções, uma tal obrigação de estar na onda que até chateia. Pessoas que não se suportam participam nas mesmas festas em que se celebra efusivamente o chamado espírito natalício. Colegas que passam o ano a boicotar-se uns aos outros reunem-se em almoços e jantares absolutamente surrealistas. Os sorrisos são máscaras que se derretem como cera. E depois há esta sensação do dever cumprido, ao fim de mais um ano de esforço. E algumas pessoas exteriorizam com pudor, finalmente, a sua humana fragilidade. Pouco. No meio de uma cosmética simpatia, de uma dolorosa cordialidade.

E as famílias têm de se encontrar e todos têm de se amar infinitamente, pelo menos nestes dias… Porque o tempo passa depressa e a regra são as ausências e a rotina. E pelo menos agora tudo será perfeito. E o mínimo incidente nesta época torna-se um atentado, uma demonstração de genuina maldade. Terrorismo. E o sofrimento e a solidão ficam ainda mais penosos. Mas, são precisos para a decoração do conjunto...

Este ritual, esta procissão de açucar, sorrisos, champanhe, luzes, ternura, esperança, melodias de corações ao alto, este carrossel em que se mete a vida a girar uma volta só. Uma vida metida num estranho parêntesis... até ao próximo ano.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Quem guia sou eu...


A família Schumacher apanhou um taxi para ir para um aeroporto na Alemanha onde os esperava um jet privado para um vôo para Milão. Estavam um bocado atrasados. O tráfego era intenso. Michael voltou-se para o taxista e pediu para ser ele a guiar. O taxista sentou-se no lugar do passageiro e teve uma experiência única: obviamente, chegaram antes da hora prevista, depois de ultrapassagens e curvas alucinantes, e tiveram a sorte de não encontrar nenhuma patrulha da polícia de trânsito... O campeão pagou uma gorjeta de 40 euros e o taxista ficou ainda mais contente.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Diálogo

"Mas afinal o que estás a fazer aí deitado ?" - perguntou o rico ao pobre que tentava dormir próximo do ventilador do metropolitano que deitava ar quente.
"Estava a pensar em si - não se vê logo! Que raio de pergunta."
"A pensar em mim?... Deves é estar a gozar. Não me conheces de lado nenhum..."
"Mas, será tão descabida a resposta quanto a pergunta".
Apesar de tudo o pobre embalou-se no debate:
"Basta-me imaginar o conforto de pessoas como você para adormecer melhor. Sinto-me mais quente e aconchegado. Para pessoas como eu o conforto é psicológico: sonha-se em vez de se ter e, por isso, de certa maneira, tem-se."
"Saiu-me na rifa um pelintra filósofo... Satisfazes-te com pouco. Talvez por isso sejas pobre. Ser pobre não é dormir ao relento. Ser pobre é não querer deixar de ser pobre..."
O pobre pôs-se a rir e disse:
"Lá vem este com o livre arbítrio, com a responsabilidade que cada um tem pelo seu destino. Meu caro: uma coisa é querer, outra é poder. E o poder não é como o sol que nasce todos os dias para todos. Quando sais da barriga da tua mãe uma grande parte do teu destino já está escrito. E não me venham com as excepções que confirmam a regra e que dá jeito propagandear como se fossem a regra. Tretas!"
O rico olhou-o com desdém e foi-se embora, seguro de si. O pobre desapareceu ainda mais debaixo do cobertor cheio de nódoas, consolado pelo calor que saía do ventilador e pela fantasia de ser rico.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Pequena "filosofia" de inverno

Quando se é imaturo julga-se saber o que é o fogo sem nunca se ter queimado, julga-se poder aprender com os erros dos outros. Depois, as pessoas queimam-se e cometem os seus próprios erros. E só então (talvez...) crescem. Uma coisa é a realidade pensada ou imaginada. Outra coisa é a realidade vivida - esta última é a que permanece, para o melhor e para o pior. Conhecer verdadeiramente significa viver o objecto do conhecimento. De outra maneira há apenas intuição ou dedução.

Envelhecer significa, de certa maneira, render-se à realidade nua e crua, ver a realidade como ela é. O que é bom e mau ao mesmo tempo. Porque barra o caminho aos sonhos e à fantasia. [E não há mal nenhum nos sonhos e na fantasia; até se diz que esses são os ingredientes de que se faz a mudança.] Mas, ver a realidade como ela é também leva à sabedoria e à prudência. Por isso, envelhecer se torna mais fácil.

terça-feira, dezembro 04, 2007

My Blueberry Nights

Filme apresentado no festival de Cannes deste ano, realizado por Wong Kar-Wai, com Norah Jones e Jude Law nos papéis principais. Um filme feito de grandes planos de faces e corpos humanos com a fotografia típica do realizador. Um filme que respeita os silêncios. Uma espécie de neo-romantismo urbano. Elizabeth (desempenhada por Norah Jones), só e perdida, procura-se a si mesma no meio de outras personagens igualmente vazias e atormentadas, num ambiente vasto, individualista e americano. Excelente música... para quem gosta de Norah Jones.

O romantismo possivel num tempo de solidão e de perda de referências.

domingo, dezembro 02, 2007

Chuva

O lado de fora da chuva somos nós.
Como quem diz que estar fora ou dentro da tempestade vai dar ao mesmo, desde que se trate de verdadeira tempestade.
Entrar ou sair é mera técnica.
A técnica é posterior ao que conta e o que conta é a vontade que mistura emoções e razões de que se faz a diferença de cada um de nòs.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Aspectos insólitos (ou talvez não) da globalização

Os casos de delinquência em Itália envolvendo imigrantes romenos têm-se multiplicado devido a um crescente número de cidadãos provenientes desse país a viver em condições absolutamente deploráveis na periferia das grandes cidades. Desemprego elevado, analfabetismo, famílias numerosas, condições de alojamento desumanas, uma certa percentagem de pessoas de etnia cigana com dificuldades acrescidas de integração, instrumentalização por italianos sem escrúpulos, tudo isso compõe o quadro em que se desenvolve essa criminalidade cada vez mais violenta. Recentemente, houve casos de assassinato que exacerbaram a hostilidade da opinião pública, provocando tendências racistas e xenófobas em sectores inesperados da população. O governo reagiu aumentando os controlos da imigração ilegal e tentando negociar com o governo da Roménia o retorno de um certo número de indíviduos e maiores restrições às partidas.

O que é surpreendente no meio disto tudo é que, ao mesmo tempo, a emigração chinesa para a Roménia não cessa de aumentar e os empresários italianos instalam fábricas de vestuário e calçado na Roménia utilizando, principalmente, a crescente (e ainda mais barata) mão-de-obra chinesa... E dizem que a Roménia é o país onde se pode ganhar mais facilmente e depressa muito dinheiro, também porque não existe verdadeira protecção social e o mercado negro do trabalho prolifera.

quarta-feira, novembro 28, 2007



"Alabama Song" de Gilles Leroy foi o livro que ganhou este ano o Prémio Goncourt, um dos prémios literários mais prestigiantes em França.

O livro conta (na primeira pessoa) o drama de Zelda Fitzgerald, mulher do famoso escritor Scott Fitzgerald, desde a sua juventude até à morte do marido em 1940. O autor efectuou uma vasta pesquisa, designadamente, nos Estados Unidos para compor esta "auto-biografia por mão alheia", a que ele prefere chamar romance. Zelda foi esmagada pela sombra de Scott e foi instrumentalizada como Musa e exemplo em vários romances de Scott que chega a interná-la por alegada doença mental quando ela se torna um factor de perturbação da sua obra.

Um excelente romance de que seguramente sairá também uma tradução portuguesa em breve.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Leões para cordeiros

Fui ver este filme de Robert Redford, com Tom Cruise, Meryl Streep e o próprio Robert Redford como actores principais. É um filme feito, essencialmente, de dois longos diálogos, por vezes, prolixos e repletos de clichés, tendo como pano de fundo uma acção militar contemporânea em que dois jovens visionários e generosos (curiosamente, de origem não-americana) perdem a vida nas montanhas do Afeganistão a lutar por uma nova estratégia dos Estados Unidos de combate ao terrorismo...

Os Estados Unidos são férteis a fazer guerras (primeiro) e a exorcisar durante anos a fio (depois) os respectivos problemas de consciência, produzindo filmes e outras "obras de arte" em que a nação americana é colocada perante a sua grandeza e perante os seus demónios. Foi também assim com o Vietname...

sábado, novembro 24, 2007

Galileu

Galileu não é apenas o nome de um génio italiano do Renascimento. É também o nome de um mega-projecto europeu de lançamento de 30 satélites para rivalizar com o sistema GPS americano. Custo total previsto: cerca de 3500 milhões de euros. O principal interesse do projecto é estratégico, isto é, a Europa pretende autonomizar-se do GPS que os Estados Unidos podem “desligar” a qualquer momento por razões politico-militares. Mas, o GPS tem uma enorme vantagem: é gratuito! Com essa brincadeira podemos instalar nos nossos automóveis aqueles ecrãs (esses não são gratuitos...) que nos guiam por todo o lado e que nos dispensam de raciocinar geograficamente. Galileu também mete a Europa a par de Chineses e Russos que têm desenvolvido outros esquemas alternativos ao GPS.

Enquanto sistema de posicionamento por satélite, Galileu terá maior precisão do que os sistemas rivais: permitirá localizar objectos com um erro inferior a 1 metro. Assim, poderá também ser utilizado para navegação marítima e aérea, pesquisa de recursos naturais, prevenção e detecção de acidentes e catástrofes e melhoria do diagnóstico e previsão meteorológicos, etc. Todas estas utilizações e consequentes receitas comerciais fizeram pensar aos promotores do projecto que ele poderia ser realizado em parceria com o sector privado. Foi lançado um concurso a que se candidataram consórcios juntando empresas europeias dos sectores electrónico, aeroespacial e de construção civil. As ofertas recebidas foram consideradas insatisfatórias pela Comissão Europeia, principal entidade do organismo concessionário, nomeadamente, por causa do montante elevado de ajudas públicas pedidas pelos candidatos. Isto é, as estimativas de receitas comerciais do projecto eram demasiado baixas e os riscos da sua realização eram considerados muito elevados. Houve ainda uma tentativa de financiamento privado parcial do projecto através da fusão dos candidatos à concessão num único candidato, mas nem assim a coisa se salvou.

O projecto deveria ser financiado exclusivamente com dinheiro público. Entrou-se num período de impasse e tudo fazia prever um falhanço clamoroso. O maior obstáculo eram as rivalidades entre alemães e franceses quanto a saber qual das respectivas indústrias ganharia mais com as encomendas associadas ao projecto. Os alemães estariam dispostos a participar no financiamento com o dinheiro dos seus contribuintes desde que a indústria alemã recebesse uma parte proporcional das encomendas. Os franceses, que também têm uma indústria aeroespacial muito forte, puxavam igualmente pelos seus interesses nacionais.

Na verdade, um dos princípios essenciais da Agência Espacial Europeia (ESA) – a organização multilateral com sede em Paris que lançou designadamente o projecto Ariane – é o do “juste retour”, quer dizer: a indústria de cada Estado-membro da ESA (incluindo Portugal) tem direito a receber encomendas, relacionadas com um determinado projecto, por um valor não inferior ao da participação desse mesmo Estado-membro no financiamento do projecto. Os alemães pretendem que esse princípio também se aplique a Galileu para assegurar o financiamento pelos Estados mais directamente envolvidos. Mas, os outros países dão preferência ao financiamento pelo Orçamento da União Europeia, o que tem um efeito de mutualização que pode provocar algum desequilíbrio entre as diferentes indústrias nacionais.

Depois de muita negociação, que implicará também deslocação para o projecto de verbas inicialmente destinadas a outros orçamentos da União Europeia, nomeadamente, ao da política agrícola (de que beneficiam sobretudo os franceses), espera-se que o financiamento de Galileu seja aprovado, finalmente, no Conselho de Ministros dos Transportes da UE que se realiza no próximo dia 29 de Novembro. Assim, a partir de 2012 poderão estar no espaço 30 satélites e, em terra, diversas estações de controle para assegurar os louváveis e sofisticados serviços do sistema europeu de GPS.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Campeonato das Universidades

"A Universidade de Coimbra é a melhor de Portugal. Segundo um dos mais prestigiados “rankings” mundiais, elaborado pelo “The Times Higher Education Supplement” e pela “Quacquarelli Symonds”, a instituição com mais de 700 anos de existência repete a liderança portuguesa. Anunciados na semana passada, depois de já serem conhecidas as melhores 200 instituições a nível mundial, o “ranking” mostra que as universidades lusas ficaram fora deste lote, revelando, também, uma queda portuguesa no cenário europeu. Depois da 120.ª posição obtida em 2006, a Universidade de Coimbra desceu, este ano, para o lugar 145 a nível da Europa. Em termos mundiais, é a 319.ª melhor, após ter sido 266.ª classificada (em 2006) e 452.ª (em 2005). A Universidade Nova de Lisboa é a segunda do “ranking”, no que diz respeito aos estabelecimentos portugueses, ocupando o 341.º lugar mundial e o 158.º europeu. A Universidade Católica, em Lisboa, foi a terceira portuguesa, surgindo no lote das instituições situadas entre o 401.º e 500.º posto, que não estão ordenadas por lugar, mas apenas por ordem alfabética. Em termos globais, a primeira posição do “ranking” volta a colocar a norte-americana Universidade de Harvard no 1.º lugar. Na Europa, o ouro é repartido pelas universidades britânicas de Oxford e Cambridge. A nível mundial, as duas instituições surgem logo após Harvard."

transcrito de "Diário de Coimbra" on-line de hoje

quinta-feira, novembro 22, 2007

Futebol... para variar

Os últimos jogos da selecção nacional de futebol AA, independentemente dos resultados finais, têm sido penosos. A equipa não joga bem, tarda em marcar, sofre nos últimos minutos, mesmo contra equipas teoricamente mais fracas. O que se passou ontem nas Antas (queria dizer... no Dragão!) foi mais um exemplo disso mesmo. No fim, a equipa apurou-se para a fase final do Euro 2008, ficando em 2° lugar no grupo, atrás da Polónia. E segundo a máxima (discutível) de que o que conta são os resultados finais, devemos estar contentes. Mas, diga-se a verdade: esta equipa não se pode comparar àquelas que se apresentaram no Europeu 2004 ou no Mundial 2006. É mais fraca, composta de jogadores medianos complementados por um ou dois génios individualistas-até-dizer-chega que jogam para as câmaras da televisão. E depois - e só depois - é que vêm os defeitos de um treinador arrogante e mal-educado que não quer reconhecer a evidência de que lhe pedem para fazer omoletas sem ovos. Se o reconhecesse seria mais desassombrado e útil do que saindo intempestivamente de uma conferência de imprensa, queixando-se de que o acusam de ser burro quando afinal a Finlândia é que não jogou o suficiente para justificar uma vitória sobre Portugal. O que é burro é dizer uma tal enormidade.

Seja como for, é apenas futebol e é de lamentar que o orgulho nacional (!) e o humor de tantos portugueses dependam dessas diatribes no dia seguinte a uma partida de futebol tão penosa... Portugal até dominou - basta olhar para as estatísticas do jogo... Mas, aquela proverbial incapacidade de concretizar e uma genética vulnerabilidade a uma bola fortuita e transviada que atraiçoa a mais elementar lógica de um jogo que a não tem... isso é que custa a aceitar e temo que continue no futuro, dada a fundamental mediania da equipa.

Consolemo-nos com a desdita da equipa inglesa que, perdendo em casa contra uma grande Croácia, nem sequer se qualificou para a fase final, concedendo essa inesperada benesse à Russia. A propósito, o treinador foi imediatamente despedido.

Quem continua a demonstrar uma eficácia irrepreensível são os italianos, os franceses e os espanhóis... e os gregos...

quarta-feira, novembro 21, 2007

Guerra civil

Em França, a greve dos transportes públicos, que dura há uma semana, parece não ter fim, para enorme raiva dos utentes que têm de passar por um autêntico calvário para manter o seu ritmo de vida. Paris encontra-se paralisada e as pessoas inventam as soluções mais incríveis para não faltar ao emprego ("férias compulsivas", bicicleta, etc.). Os funcionários públicos são acusados pela direita e por utentes fartos de tanto caos de serem uma cambada de privilegiados, protagonistas de lutas obsoletas. O principal problema consiste na degradação das condições dos regimes especiais de reforma dessas categorias profissionais, alinhando-as mais com o sector privado (período mínimo de descontos, última remuneração de referência, etc.) e permitindo ao Estado reduzir o défice dos respectivos sistemas de segurança social.

O governo e o Sr. Sarkozy mantêm a sua posição de intransigência e, começa-se a especular que, simplesmente, esperam que os utentes se revoltem tanto que os grevistas desistam por excesso de impopularidade. Ou seja, o governo e o Sr. Sarkozy acham que os grevistas vão voltar ao trabalho por terem medo de provocar uma guerra civil... E isso seria a mais temível arma negocial à disposição do governo. Basta nada fazer e esperar que cheire a esturro para vergar finalmente a cambada de privilegiados.

Espero que a moda da guerra civil como instrumento de "política social" não pegue...

terça-feira, novembro 20, 2007

Professores estão a ser pressionados para não dar negativas

A isto se chama governar para a galeria e para as estatísticas, como tem sido o caso em outras áreas, com as piores consequências...

domingo, novembro 18, 2007

O sonho de Cassandra

Fui ver o ultimo da trilogia de Woody Allen que se iniciou com "Match Point" e que continuou com "Scoop". Em pano de fundo a problemática de Dostoievsky de "Crime e Castigo". Mesmo o crime mais perfeito implica punição e a mais dura das punições é a da consciência. Este "Cassandra's Dream", porém é mais dramático e pesado do que os outros dois. Não há lugar ao cómico nem ao irrisório. A maldade e o arrependimento são apresentados sem cosmética.

sábado, novembro 17, 2007

Inflação de regresso ?

Factores de um aumento:

- preço da energia e dos produtos alimentares
- produtos importados dos países emergentes cada vez menos baratos

Factores de contenção do aumento:

- desaceleração do investimento por causa de uma menor oferta de crédito em consequência da crise subprime
- valorização do euro, tornando as importações mais baratas (designadamente de petróleo)

O que alguns analistas prevêem é que os primeiros suplantem os segundos durante os próximos 6 meses, mas depois haveria uma nova acalmia. Muito depende também de como as expectativas geradas pela prevalência dos factores inflacionistas condicionam o comportamento dos agentes económicos. Por exemplo, se os sindicatos assumem que a tendência é durável pedirão mais aumentos de salários e, portanto, a expectativa de mais inflação conduzirá a uma inflação real mais elevada.

No meio disto tudo o Banco Central Europeu não sabe bem que direcção tomar. Aumentar a taxa de juro para conter a tensão dos preços, prejudicando eventualmente o crescimento? Por enquanto deixou a taxa de juro estável.

Estava no sítio certo à hora certa

Dendermonde, Belgium (16.11.2007)

sexta-feira, novembro 16, 2007

Prioridades

Custa a acreditar que pessoas de mais de 40 anos se comportem como autênticas crianças no recreio da escola primária, disputando a bola ou batendo no colega porque tem um par de ténis mais coloridos. Mas, é isso que sucede com demasiada frequência na luta frenética pelo poder. As pessoas infantilizam-se e entram em litígios que as tornam patéticas e deploráveis, por vezes, absurdas. Não conseguem distanciar-se do objecto de desejo que é o protagonismo e a capacidade de decidir sobre os outros. Tantas vezes esse poder é tão irrisório e temporário que leva a questionar o que é que realmente as faz correr, de que se alimenta a adrenalina dessas crianças grandes que nunca deixaram de querer marcar golos nem de invejar o brinquedo do menino do lado. E ficam raivosos e sofrem e cometem as maiores atrocidades se, depois de tanto espernear, não conseguem saciar esse desejo alucinante. E um dia, talvez demasiado tarde, acordam e apercebem-se de que puseram todos os ovos debaixo da galinha errada e vêem com clareza o "non-sense" em que se transformou a sua existência e a pequenez dos objectivos que perseguiram, em detrimento de outras coisas de cujo valor se apercebem muito tarde.

Não quer isto dizer que não se deva querer ou sonhar (apesar de, como dizia Nietzche, a fonte de todo o sofrimento ser precisamente o querer...). Não quer isto dizer que o ideal seja a passividade ou a desistência. Sou a pessoa mais insuspeita para não defender a inanição ou uma chamada atitude Zen que frequentemente significa o "deixa andar". Mas entre uma saudável necessidade de afirmação, uma vontade de progredir e inovar, de, talvez, mudar o mundo e a obsessão por objectivos limitados e puramente materiais ou sociais vai um grande passo: o da maturidade, o da espiritualidade, o do gozo do ócio sem sentimento de culpa.

Não se deixar engolir por uma dinâmica de "fazer" e de "querer", imposta mais pelo ambiente do que pela nossa verdadeira vontade, é uma prova de sabedoria. Não se deve viver a vida dos outros... Criar uma margem de segurança em relação às putativas urgências de um quotidiano que se vai sucedendo sem nexo ou paradigma é um imperativo de sanidade mental. É preciso, de quando em vez, olhar para o modo como a nossa vida se desenrola do lado de fora, como se estivessemos em cima de um monte a observar a batalha que se trava numa planície distante e decidir quem é o verdadeiro vencedor. Talvez seja o que observa...

Com tudo isto estou a falar comigo próprio e a tentar convencer-me de qualquer coisa...

quarta-feira, novembro 14, 2007

Pequenas Grandes Coisas


É impressionante, quando nos falta alguma coisa, o prazer supremo de a reencontrarmos por mero acaso.

No meu caso falo no Sol e no azul claro do céu. Depois de semanas de céu cinzento e nublado e chuva, acordar e espreitar pela janela, verificando que o céu está azul claro e que os raios de Sol batem na janela é algo de inacreditavelmente poderoso. Conseguiu fazer o meu dia muito mais alegre!

Em Portugal não nos apercebemos que o clima é, de facto, único! Queixamo-nos que a única oferta do nosso país para muitos turistas é só o Sol e o calor. Não nos devemos queixar, pois é uma oferta valiosíssima, principalmente para aqueles que não sabem o que são dias seguidos de plena luz durante o dia.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Matemática e dinheiro

O que se está a passar no mercado do crédito, nomeadamente nos Estados Unidos, é, em parte, culpa dos matemáticos.

Explico-me.

Certos grandes empréstimos são garantidos por outros numerosos pequenos empréstimos. O reembolso e os juros dos primeiros dependem da performance dos segundos. Se estes últimos entram em situação de incumprimento os primeiros não são reembolsados. A taxa de juro e o prazo dos grandes empréstimos são determinados considerando a probabilidade de perda dos pequenos empréstimos. Ora é aqui que entram os matémáticos ao dizer, por exemplo, que há uma probabilidade de apenas 1% de que mais de 50% dos pequenos empréstimos não sejam pagos. Se compro titulos pertencentes à parte melhor dos grandes empréstimos (os 50% mais acima na escala do risco), em principio, há menos de 1% de hipóteses de vir a perder alguma coisa. Por isso, estou disposto a subscrever esses títulos e mesmo a receber uma taxa de juro mais baixa, dado que eminentes matemáticos e financeiros me dizem que o risco é pequeno. Ora essas probabilidades de perda dependem de algoritmos sofisticados e de um grande número de hipóteses que, quando a coisa dá para o torto, quase nunca se concretizam. Isto é: em caso de crise a realidade é normalmente pior do que a pior conjectura e, portanto, as perdas tocam quem, matemáticamente, lhes deveria ser imune.

Tudo isto coloca em causa a própria credibildade da finança exageradamente baseada em modelos e faz recordar que o crédito contém elementos de subjectividade e de julgamento incontornáveis. Quando se dá peso excessivo aos fisícos e matemáticos descola-se da realidade e brinca-se com o fogo. É preciso não esquecer que essas profissões têm sido pagas a peso de ouro nos principais centros financeiros mundiais e concerteza não têm tido problemas de desemprego.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Campanha contra a pobreza

Esta campanha agrada-me particularmente porque não é como muitas que nos pedem para abdicar de certas coisas em prol de outras. Não que seja mau abdicar de certos luxos por estas causas, mas aqui o que se mostra é que, comparado com aquelas coisas que vamos comprando, ajudar a irradicar a pobreza não é assim tão custoso.
Cliquem nas imagens para ampliar, vale a pena!











quinta-feira, novembro 08, 2007

Salvatore Lo Piccolo


Salvatore Lo Piccolo (sucessor do grande boss da Mafia siciliana Bernardo Provenzano, preso há mais de um ano), foi detido na Segunda-feira passada em Palermo. Entre as várias coisas apreendidas, figurava um interessantíssimo documento com os 10 Mandamentos do "perfetto mafioso". Aí vão eles:

1° "ninguém se deve apresentar sózinho pela primeira vez a um dos nossos amigos: deve ser uma terceira pessoa amiga a fazê-lo"

2° "não se deve olhar para as mulheres dos nossos amigos"

3° "não se deve fazer comparações com os esbirros"

4° "não se frequentam tabernas"

5° "deve-se estar disponível para a 'cosa nostra' em qualquer momento, mesmo quando a nossa mulher estiver para dar à luz"

6° "respeitam-se de forma categórica os lugares e horários dos encontros"

7° "deve-se respeitar a nossa mulher"

8° "quando nos perguntam qualquer coisa deve-se sempre dizer a verdade"

9° "não se deve ficar com dinheiro que pertence a outras pessoas ou famílias"

10° "não pode pertencer à 'cosa nostra', nomeadamente, quem tem família directa nas autoridades policiais e judiciárias, quem traiu sentimentalmente a própria família, quem tem um mau comportamento e não respeita os princípios morais"

quarta-feira, novembro 07, 2007


Finalmente não resisti.

Devo aqui fazer, antes de mais, um auto-crítica: talvez seja um bocado pedante em relação a certa “literatura” que por aí anda e que alimenta as estatísticas de tiragens para grande gáudio das editoras e de alguns inocentes entusiastas da suposta paixão inesperada dos portugueses pela leitura. Paulo Coelho, Rodrigues dos Santos e toda uma panóplia de “escritores” anglo-saxónicos de best-sellers são expoentes dessa vaga.

Também incluía nessa categoria Isabel Allende. Seguramente por ignorância… Pois bem. Resisti ao preconceito e comprei o seu livro “Filha da Fortuna” (edição Círculo de Leitores). Devo dizer que estou a devorar a história de Eliza Sommers e dos seus companheiros de aventuras e desventuras. Não sei se Isabel Allende é uma grande escritora, daquelas que podem um dia candidatar-se ao prémio Nobel (for what it is worth…). Agora que sabe contar magistralmente uma história, lá isso não tenho dúvidas. Difícil despegar…

Politics show

A sessão parlamentar de ontem, hiper-anunciada por causa do "embate" entre Santana e Sócrates a propósito do orçamento, revela bem o estado a que chegou a "nossa" política e, em particular, o "nosso" Parlamento. Um Parlamento espectacularizado, transformado numa passerelle de egos patéticos, num púlpito de adolescentes retardados cheios de brilhantina, num décor de fotografias da revista Caras. Santana é inenarrável: aquele ar de balofa importância auto-atribuida, aqueles tiques de simpático mafioso de 2ª. Categoria... Sócrates no melhor da sua arrogância, falsamente aturdido por tanto empolamento mediático, disfarçando um certo mal-estar porque a sua nobre missão excede estas venalidades e resiste a escolhos espúrios.

E alguns cidadãos aderem a estas super-produções domésticas, esgotando os lugares das galerias da arena do descontentamento da grande maioria, que se afasta da política para se concentrar nos problemas de um quotidiano cada vez mais pesado.

sábado, novembro 03, 2007

O tempo e o modo

O tempo aqui está óptimo. Sol abençoado, temperatura estival, um céu azul de ficar nos olhos para sempre. Um tempo assim faz bem, particularmente a quem usualmente não o tem. Esses dão valor a essa benesse. Os outros talvez achem essa bonomia meteorológica trivial ou qualquer coisa de adquirido e nem isso atenua as suas inúmeras maleitas da vida, muitas reais, outras virtuais.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Mudança

Nunca paramos de mudar, de crescer. Muitas vezes não nos apercebemos disso senão quando nos comparamos como quando éramos há "não-sei-quanto" tempo e reparamos que mudámos. Para melhor, para pior ou simplesmente para algo diferente.

A nossa forma de encarar a vida não é constante, mas muda ao longo das experiências que passamos. O mais gratificante é quando nos apercebemos disso. Há momentos chave em que sabemos que mudámos. Há aqueles momentos em que nos sentamos depois de uma conquista e nos sentimos orgulhosos do que conseguimos.

Viver num país diferente, com cultura e gente diferente, sozinha é uma situação ideal para viver esses momentos fantásticos de orgulho em mim própria. Até a dificuldade mais pequena quando é ultrapassada é um motivo de satisfação suprema.

É bom quando nos apercebemos que estamos a crescer, quando nos sentamos conosco mesmos depois de um dia de pequenas conquistas e sabemos que conseguimos! Sabe bem como o caraças!!!