segunda-feira, outubro 22, 2007

De crise em crise até à crise final ?

Moral hazard quer dizer: tendência para se fazer uma coisa errada porque existem mecanismos que eliminam ou amortecem os efeitos negativos do que se faz. Por exemplo, o facto de se ter um seguro pode levar a comportamentos mais arriscados, dado que os danos serão cobertos total ou parcialmente pela respectiva companhia de seguros. Tudo isto vem a propòsito da crise larvar em que têm vivido os mercados financeiros nos últimos anos. A intervenção recorrente das autoridades monetárias, injectando somas colossais de liquidez ou socorrendo de várias maneiras as entidades que praticaram actos de má gestão ou que especularam exageradamente, em detrimento dos interesses de outros agentes económicos, por causa dos alegados efeitos sistémicos que resultariam da derrocada desses "infractores", cria um ambiente de impunidade e a sensação de que, afinal, "o crime compensa". Os bancos, por exemplo, podem cometer as maiores "atrocidades" sem arriscar a falência.

O sistema financeiro mundial tem evoluido de bolha em bolha, com crescente amplitude e sofisticação, sem que os "maus da fita" alguma vez tenham pago verdadeiramente pelos pecados que cometeram (excepto no caso de crimes clamorosos como foi o escândalo Enron). Isso é apenas um incentivo a que continuem orgulhosamente os "maus da fita" e a que as bolhas continuem a criar-se, amortecidas por cada vez maiores intervenções das autoridades e pelo desenvolvimento de produtos cada vez mais sofisticados que desafiam as leis elementares da economia real e que disseminam as perdas por um número crescente de incautos investidores.

A consequência essencial de tudo isto é uma maior instabilidade e uma maior frequência das crises. Enquanto não se fizer pagar as perdas a quem as provocou não haverá nem credibilidade nem tranquilidade e um destes dias acordamos no meio de um 11 de Setembro da finança de consequências imprevisiveis sobre a economia real. Como acontece demasiadas vezes pagarão mais os justos do que os pecadores.

domingo, outubro 21, 2007

"O desastre de Lisboa ficará na história porque aqui se assinou um tratado que consagrou a não democracia como regime europeu e consolidou a burocracia e a Nomenclatura europeias".
António Barreto, PÚBLICO, 21-10-2007

sábado, outubro 20, 2007

Sabedoria



Junto de um monte de livros estava um gato. Parecia saciado de sabedoria. Os livros eram espessos e de cores variadas. O gato ostentava um olhar displicente como se nada no mundo pudesse perturbar a sua calma suprema, a calma de quem domina as subtilezas do conhecimento. O gato era gordo e anafado, talvez do ócio de que precisam os sábios. Tinha uma pose de Estado, de fotografia para a posteridade. Entrou um rato e o gato não se mexeu. Entrou o dono com um prato de comida e o gato não se mexeu. No andar de cima caiu um móvel com grande estrondo e o gato permaneceu imóvel.

O gato era de palha.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Absurdo

Acabei de ler "O Estrangeiro", o primeiro romance de Albert Camus.

O meu vizinho de cima, que vive sózinho, passa as noites a pedalar na bicicleta parada no meio da sala para perder gordura. A secretária do gabinete ao lado tem uma pulseira que faz mais barulho do que os chocalhos das vacas a pastar e passa a vida a passear com as mãos no teclado. Há muitas pessoas que fazem de conta que têm pressa e que vivem a vida dos outros.

"O Estrangeiro" foi o único livro que consegui terminar nos últimos tempos...

quarta-feira, outubro 17, 2007

Genial (II)

Os 10 Mandamentos do Idoso - O supermercado

Nota prévia: nada me move contra os cidadãos mais idosos da nossa sociedade. Aliás, espero um dia, eu próprio, aderir a esse grupo. O texto seguinte limita-se a constatar uma série de atitudes observadas em supermercados, durante as passadas semanas que, certamente por coincidência, tiveram sempre como intérpretes pessoas que já sabem (embora algumas já nem se devam lembrar) o que é festejar as suas bodas de ouro.

I - No parque de estacionamento do supermercado deverá estacionar o seu carro ocupando (no mínimo) dois lugares, de modo a que jovens imprudentes não lhe batam ao estacionar. Afinal, o seguro morreu de velho.

II - Quando existir, nunca usar os sistemas de senhas, para depois insistir em ser atendido imediatamente porque "já se está ali há muito tempo". À pergunta de "porque não tirou uma senha?" pode usar uma de duas respostas "quando cheguei aqui não estava cá ninguém" ou "não reparei/não vejo muito bem".

III - Na fila do peixe ou da carne, e independentemente do número de pessoas à espera para serem atendidas, há que reclamar com o empregado sobre tudo o que se consiga, durante o maior período de tempo possível (exemplos: a carne está muita grossa/fina; o peixe está mal cortado/amanhado...)

IV - Alguns minutos antes de concluir as suas compras, levar o que já tiver consigo para uma das filas de pagamento, imediatamente atrás de alguém com muitos produtos no cesto das compras. De seguida deve terminar as compras e, quando voltar à fila de pagamento, passar à frente de toda a gente porque "aquelas coisas que estão ali, são suas/fui só buscar mais umas coisinhas".

V - Já na fila de pagamento, e caso abra alguma outra caixa, ao pedido de "podem vir para esta fila, pela ordem de chegada", tomar a iniciativa de passar à frente de toda a gente, independentemente da posição em que estava.

VI - Ter a carteira bem escondida no fundo da mala até ao momento de pagar, demorar 1 a 2 minutos a encontrá-la e, de seguida, pagar em dinheiro, com o uso do maior número de moedas possível. O uso de meios electrónicos de pagamento é estritamente proibido.

VII - Reclamar (sempre) do troco, porque sabe exactamente o valor que deu ao empregado de caixa, até ao cêntimo. Quando este lhe provar que está tudo certo, dizer bem alto que "este sítio é sempre a mesma coisa/andam sempre a enganar as pessoas/é uma vergonha".

VIII - Contar o troco (entre 2 e 4 vezes), verificar todos os produtos e o talão de compra de pé, junto à caixa e mesmo antes de arrumar as compras nos sacos. Esta operação deverá demorar no mínimo 5 minutos, por muito que o empregado de caixa lhe peça que deixe a próxima pessoa da fila passar.

IX - Se alguém reclamar das suas atitudes (ou mesmo se não o fizerem), existe um leque de frases a utilizar. Bons exemplos são: "já não há respeito pelos mais velhos", "estes jovens são uma desgraça", "tenho idade para ser seu pai/sua mãe", "uma pessoa vem aqui para fazer as compras e ainda tem que aturar isto".

X - Ao sair, bater descontraidamente com a porta do seu carro no que estiver mais próximo, para aprender a não estacionar encostado a si.

Encontrado aqui

domingo, outubro 14, 2007

Antuérpia





Antuérpia é uma cidade rica, cheia de Judeus Ortodoxos e atrás deles diamantes por todo o lado. É uma cidade típica da Flandres, mas diferencia-se por ser maior, mais rica, mais variada. Logo na estação de comboios se nota a grandiosidade e a beleza.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Nobel da Paz

Al Gore foi laureado com o Prémio Nobel da Paz! Sou só eu ou isto é um bocadinho absurdo?




  1. o senhor não fez nada pela paz mundial, apresentou simplesmente a questão do aquecimento global (que não é novidade nenhuma)
  2. o senhor já tem dinheiro suficiente, não precisa de ainda mais
  3. é pelo menos estranho vê-lo na mesma lista que Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Aung San Suu Kyi, Kofi Annan, para não falar de inúmeras organizações humanitárias como a UNICEF, a Amnistia Internacional, Médecins sans Frontières, etc, etc...

quinta-feira, outubro 11, 2007

Letter from Home - Pat Metheny



Digam lá se não é bonito.

Google earth

A maior parte de vocês já conhece de certeza "Google Earth". Quanto a esses, vou manifestar um entusiasmo talvez pueril. Para os que ainda não conhecem, espero convencê-los a aderir a esse site incrível que nos permite voar, em poucos segundos, da Torre Eiffel até ao Darfur, de Bagdad até à Casa Branca, do Monte Everest até à Tunísia. E tudo isso com um realismo e com uma qualidade de imagem que apenas satélites super-potentes permitem. Podem identificar a vossa casa no meio do planeta Terra com uma precisão milimétrica, simular um vôo, com a altitude que desejarem e com o ângulo de visão de que mais gostarem, da vossa casa ao local de trabalho, apenas nalguns segundos, passando pelas ruas do costume. Só falta poder cumprimentar o homem lá em baixo que vos vende o jornal todas as manhãs. E tudo isso confortavelmente instalados à frente do vosso computador a qualquer hora do dia ou da noite. É simplesmente vertiginoso e gratuito. Basta fazer o download a partir de http://earth.google.com/intl/pt/, treinar alguns minutos os comandos da vossa nave (que, aliás, são intuitivos) e metam o mundo inteiro no vosso ecrã.

Depois de todos estes elogios, de qualquer maneira, a verdade é que não há mundo como o real e nada pode substituir levantar o rabo da cadeira e viajar a sério, sentindo o vento, a chuva, o calor, o frio, o silêncio, o ruido, as cores e os cheiros de cada lugar e, sobretudo, contactando com pessoas que lá vivem...

quarta-feira, outubro 10, 2007


Porque é que a “mafiosidade” é uma característica fisiológica de Itália e dos italianos? A minha tese é simples e provavelmente não muito inovadora: simplesmente, por causa da ausência de um Estado forte, conjuntamente com a permanência de estruturas medievais no sul do país e com a proliferação de cidades-estado no Norte até há pouco tempo. De facto, a unificação dos territórios que levaram à criação da Itália e, portanto, a criação de um Estado centralizado são fenómenos recentes (final do século XIX). Antes, o que havia era uma diversidade de comunidades regidas por poderes locais e vínculos pessoais. Ainda hoje, quando se pergunta a alguém de onde é, a resposta frequentemente começa assim: “il mio paese è…”, ou seja, a localidade de onde vêm é o país deles… A Itália é o sítio por excelência dos localismos e das identidades ligadas a um território específico. Um outro exemplo, é o Palio de Siena, a famosa corrida de cavalos que se realiza todos os anos na principal e belíssima praça da cidade. Os concorrentes representam “contrade” (uma espécie de freguesias), quer dizer, a unidade essencial do orgulho das pessoas não é o país, nem a região, nem a cidade - é a freguesia. Bem sei que, em Lisboa, as marchas populares se disputam entre bairros tradicionais, mas não é bem a mesma coisa e não é um fenómeno tão recorrente no nosso país como em Itália.

Não havendo um Estado, uma autoridade clara e centralizada, não havendo leis gerais e imparciais, o poder é fragmentado e os cidadãos tentam defender-se dos pequenos e múltiplos poderes, mais ou menos arbitrários e mutáveis, desenvolvendo esquemas paralelos de sobrevivência e de regulação das suas relações e dos seus conflitos. Os cidadãos estabelecem cumplicidades e fidelidades, no interior de leis informais, que resistem às leis formais inoperantes. Daqui até à máfia, daqui até à proverbial “furbizia” (habilidade, manha, astúcia) que é uma versão soft da máfia, vai um pequeno passo.

Portanto, a "mafiosidade" dos italianos tem raízes históricas e culturais profundas, acabando por ser, curiosamente, um dos traços distintivos de uma identidade italiana que complementa as múltiplas identidades locais dos simpáticos mafiosos residentes na península transalpina. Em conclusão: italiano é por natureza mafioso, passe a conotação pejorativa da palavra. É endémico, superior às forças dos indivíduos. Há-os mais ou menos mafiosos, mas está-lhes inscrito nos genes...

terça-feira, outubro 09, 2007

A genética da avareza

Cientistas do Massachussetts Institute of Technology alegam que o comportamento das pessoas em relação ao dinheiro (isto é, ser um "mãos largas" ou um "unhas de fome"), depende de factores genéticos. À nascença estariamos todos destinados a ser Tio Patinhas ou "bons vivants". Eu cá, na minha santa ignorância, continuo a pensar que depende mais do que se tem... Como dizia minha avózinha, "só quem tem muita manteiga pode assá-la num espêto"! Mas, tratando-se do MIT, qual Olimpo da ciência mundial, a dúvida em relação à sabedoria popular instala-se. Concerteza.

Faz hoje 40 anos que Che morreu.



Zamba al "Che"

Hasta Siempre Comandante


Lo Eterno

Carta al Che

sábado, outubro 06, 2007

Peixes de aviário

Achei patético e lamentável o espectáculo do Primeiro-ministro a defender com unhas e dentes o projecto de acuacultura em Mira, com argumentos gastos e sibilinos, tendo por trás da tribuna a marca da empresa que promove o investimento em letras garrafais. O projecto de 140 milhões de euros (esta cifra "fabulosa" foi repetida vezes sem conta pelo Primeiro-ministro e pelos jornalistas, como se fosse uma coisa faraónica, só por si prova eloquente da qualidade do investimento) está longe de ser neutro do ponto de vista ambiental. De tal maneira que foi recusado pela região da Galiza. Mas, o Primeiro-ministro não descansa a defender o desenvolvimento e a alta tecnologia dos peixes de aviário contra ecologistas tendenciosos e mal-intencionados e outros Velhos do Restelo que não acreditam nas capacidades dos portugueses (e dos espanhóis) para levar o país p'rá frente. E a PESCANOVA agradece os serviços de tão inesperado e ilustre vendedor de peixes enfarinhados que estarão no centro de um "cluster" (!...) de importância vital para a economia da região centro e de todo o pais... e arredores (na Espanha, pois claro...). Afinal, os subsídios, ou seja, os "incentivos ao investimento", como fica bem dizer, foram certamente copiosos para persuadir os "nuestros hermanos".

sexta-feira, outubro 05, 2007

Birmânias

A propósito da Birmânia e de tantas Birmânias que se têm sucedido na política internacional e que seguramente continuarão a emergir de tempos a tempos.… porque é que a Comunidade Internacional, idealmente representada pela ONU, deve intervir para ajudar a população a resistir à repressão da Junta ditatorial? Afinal de contas, a soberania territorial é um dos princípios fundamentais das relações entre Estados. Mas, não o único! Efectivamente, com a ONU, os direitos humanos passaram a integrar os critérios de regulação das relações internacionais. Isto é, pelo menos, a partir do momento em que o atropelo massivo dos direitos humanos no interior de um Estado soberano ameaça a paz e a segurança internacionais, a Comunidade Internacional, através da ONU e na base de uma resolução favorável do Conselho de Segurança, pode e deve intervir, incluindo com a força militar, nos assuntos de um Estado para restabelecer o respeito dos direitos humanos.

Nesta minha curta exposição, inspirada pela leitura do livro acima fotografado, há vários e fascinantes conceitos que estão longe de ser unânimes e claros. Por exemplo, “Comunidade Internacional”... Existe uma tal coisa quando o que prevalece é a chamada “real politik”, isto é, cada um por si, tentando ao máximo defender os interesses nacionais, sobretudo económicos, se necessário (se possível?) em detrimento dos dos outros países e de putativos valores universais? Haverá um conjunto básico de valores de coexistência superiores a outras considerações como a soberania e o interesse nacional? A defesa da integridade física e moral dos cidadãos não será parte integrante da soberania, a par do exercício de poder sobre uma determinado território e uma determinada população? Deverá uma intervenção humanitária ser realizada apesar da oposição do Conselho de Segurança? De facto, há precedentes disso mesmo. Qual a superior legitimidade dessas intervenções? Caso o atropelo dos direitos humanos não ameace a paz e segurança internacionais, deve a Comunidade Internacional evitar qualquer interferência nos assuntos internos de um Estado? E a Bósnia e o Darfur e o Rwanda e, e, e… Um Estado ou conjunto de Estados podem interferir num outro Estado se houver violação massiva dos direitos humanos, mesmo contra a decisão do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral das Nações Unidas? Com que legitimidade, para além da humanitária ou moral que, por vezes, é discutível e pode cobrir outras intenções muito menos inocentes?

Um oceano de questões muito bem apresentadas e discutidas no livro citado que, para além de um capítulo sobre "Humanitarian Intervention", contém outros, designadamente, sobre "Weapons of Mass Destruction", "Civil War, state failure and peacebuilding" e "Terrorism".

Sicko

Fui ver esta coisa, que chamaria de anti-crítica do sistema americano de saúde. É tão demagógico, patético e caricatural que perde completamente credibilidade. Dizer que os presos de Guantanamo gozam de melhores cuidados de saúde do que o cidadão médio na América... Meter os médicos cubanos aos beijinhos aos doentes americanos que sofrem das vias respiratórias por terem ajudado nas operações de salvamento do 11 de Setembro em Nova Iorque... Ir a França e mostrar que ali se está quase no paraíso terrestre... (que fosse a Saint Denis ou a Clichy-sous-Bois ou a Évry, nos arredores de Paris, ou a Roubaix, perto de Lille...)

É pena, porque realmente há muito a criticar no sistema US, com o negócio das companhias de seguros a atropelar o mais elementar direito à vida.

Só se Michael Moore concebeu a mensagem para ser percebida pela maioria do público americano, o que não abona muito da sua maturidade e cultura (do público, pelo menos...). Mas, isso já nós sabiamos...

quinta-feira, outubro 04, 2007

quarta-feira, outubro 03, 2007

Desemprego

Se a economia portuguesa funcionar tão ortodoxamente quanto outras economias em reestruturação e crescimento (como a espanhola desde os anos 80), o desemprego vai ter de continuar a aumentar. Por causa dos empregos destruidos em sectores não competitivos que os novos sectores competitivos (!) não vão conseguir absorver ou compensar. A Espanha chegou aos 20% de taxa de desemprego no pico do sofrimento da reestruturação para, nos últimos anos, atingir uma taxa de desemprego da ordem dos 7-8%. Portanto, temo que, antes de poderem gozar "o sol" da modernidade, os portugueses tenham de sofrer ainda muito "a chuva" da reforma estrutural.

Claro que tudo isto supõe que existe, efectivamente, reforma. E que é estrutural, de modo a assegurar o lado virtuosamente instrumental do sofrimento... Não estou seguro de que assim seja! Por outro lado, tudo isto não é neutro do ponto de vista da distribuição dos esforços. O agravamento da distância entre a abundância e a pobreza é mesmo provável. Os cada vez mais numerosos desempregados são gente vulnerável, dos pontos de vista económico, social e cultural, são os perdedores da restruturação. Naturalmente, também haverá os ganhadores que até poderão nem sequer sofrer durante o período de transição: privilegiados e protegidos, letrados, flexíveis, jovens, empreendedores, criativos...

terça-feira, outubro 02, 2007

Gent







Gent fica na Flandres e é conhecida como "The Skyscraper City" pela quantidade de altas torres de catedrais e de edifícios seculares que se podem ver. É uma cidade belíssima.
Vale a pena ficar à beira rio a admirar a arquitectura típica da zona enquanto se come um belo chocolate belga! ;)

Marcelo Rebelo De Sousa

Não acho normal que o Marcelo Rebelo de Sousa dedique tempo de antena PÚBLICO para picardias políticas do seu partido. Acho ainda mais bizarro que os restantes militantes "de peso" do PSD respondam de forma tão sensível aos "bitaites" que o senhor manda semanalmente.
Acho vergonhoso que o Professor use o seu programa na RTP para outras coisas que não opiniões políticas, sociais e/ou culturais, como acusações internas no PSD (como aliás já fez no caso do referendo ao aborto em que usou tempo pago pelos contribuintes para fazer campanha pelo não). Mas repito: pior é o valor que lhe atribuem!
Não estou com isto a defender nem a tomar partido por nada senão pela seriedade política e social!

segunda-feira, outubro 01, 2007

Mobilidade

"A consanguinidade das élites é uma prova eloquente do declínio de uma sociedade"... foi o que disse ontem Jacques Attali no programa "Duel" do canal 3 da televisão francesa dedicado ao tema "Os défices da França".

Trata-se apenas de uma forma algo sofisticada de dizer que as élites se suicidam ao exagerar na lógica da "cunha" e ao emperrar a mobilidade social, nomeadamente, através de várias barreiras, mais ou menos subtis, ao acesso às escolas mais prestigiadas que dão acesso directo ao poder. Dizia Attali que nos anos 1960-70, mais de 70% dos alunos das "Grandes Écoles" provinham das classes populares enquanto, actualmente, mais de 70% são filhos das classes superiores. Assim, tem-se cada vez mais professores universitários filhos de professores universitários, gestores filhos de gestores, cientistas filhos de cientistas, políticos filhos de políticos, etc. etc. E pobres filhos de pobres, remediados filhos de remediados, etc. etc.

domingo, setembro 30, 2007

"Foi uma desgraça"...

... foi o que disse Mário Soares sobre a vitória de Menezes no PSD. Finalmente, estou de acordo com o ex-presidente. Menezes nunca seria um primeiro-ministro credível - apenas um Santana Lopes "soft" e do Norte. Ora, o país precisa de alguém que o arranque à fatalidade socrática, ou, pelo menos, que a melhore... a dita fatalidade. As élites, porém, são uma emanação dos povos - não aparecem ex-nihilo. Hélas.

Tudo isto sem prejuizo do meu cepticismo em relação ao interesse de uma eventual vitória de Marques Mendes... que andava cada vez mais arrastado no pântano social-democrata. Quase, quase, estou de acordo com Santana ao dizer que Cavaco seca tudo à sua volta...

quinta-feira, setembro 27, 2007

Pimba

Em Portugal o rugby é o desporto das "pessoas-bem": intelectuais, burgueses, bem pensantes. As pessoas de gosto requintado, de classe, adoram aqueles gajos que se atiram uns aos outros com apetite antropofágico. É assim uma coisa exótica, à parte, que só uma minoria pode perceber. Acho que muitos desses adeptos de há poucas semanas nem sequer gostam verdadeiramente daquela coisa. Do que eles gostam é de mostrar que gostam. E assim julgam-se no direito de pertencer a uma espécie de seita. Como todas as seitas, com linguagem e rito específicos, mais ou menos inacessíveis ao comum dos mortais. O comum dos mortais é o troglodita que só gosta de futebol, que não consegue compreender a subtileza e o encanto do rugby.

Ter sido derrotado no campeonato do mundo tão heroicamente por todos aqueles gigantes da modalidade foi uma prova de supremo patriotismo. Um patriotismo devoto, incondicional, sofrido. Deram mais do que o litro, entregaram-se de corpo e alma à defesa da bandeira, choraram baba e ranho de todo o tamanho ao ouvir o hino. O jogador de rugby passou a ser um paradigma de como se pode perder com o papo inchado de orgulho.

[Faz-me lembrar o "orgulhosamente sós" ou aquela história da senhora que vai ver o juramento de bandeira do filho que é o único que leva o passo trocado e diz cheia de alegria: "rico filho, é o único que vai a marchar bem".]

Português que se preze é assim mesmo: defende as cores nacionais mesmo a jogar ao pau com os ursos, mesmo nas corridas de escaravelhos, mesmo no festival eurovisão da canção canina. Os belgas que ponham aqui os olhos e que se deixem de amuos.

Outro paradigma é o Mourinho... Agora até o consideram uma espécie de farol para o sucesso do "Plano Tecnológico Nacional". Transformar um revés em fonte de auto-estima, nunca se deixar ir abaixo, perseverar sempre na procura dos objectivos, determinação, convicção, trabalho, muito trabalho... Tudo isto e muito mais disse a Fátinha do "Prós e Contras".

Do que Portugal precisa mesmo é de 10 milhões de Mourinhos. Eu sou pela cultura OGM de Mourinhos. Não me venham com pruridos ecologistas. Quem se atreveria a destruir uma tal cultura !

Só tive pena que a SIC cortasse subitamente a palavra ao Santana Lopes para apresentar imagens em directo da chegada do dito cujo ao aeroporto. Até parecia o Papa. Porra, nem deixaram o gajo cheirar o perfume da àrea circundante do aeroporto. E o pobre do Santana que explicava as relevantes diatribes entre o Menezes e o Mendes ficou indignado e deixou o estúdio intempestivamente. "Ainda se fosse o Presidente... Vim à televisão com tanto sacrifício e depois cortam-me assim a palavra...", lamentou-se. A justo título, carago.

Apesar de tudo... viva o Mourinho, viva. Pimba !

Produtividade versus carga horária

Segundo um instituto britânico de investigação sobre o ensino superior, os estudantes britânicos dedicam, em média, 26 horas por semana aos seus estudos, contra 34 para alemães e franceses e mais de 40 para os portugueses...

quarta-feira, setembro 26, 2007

O filósofo André Gorz (84 anos) e sua mulher Dorine (83 anos) suicidaram-se

Os corpos foram encontrados numa residência perto de Troyes (França) na passada Segunda-feira, 24 de Setembro.

No seu último livro, publicado em 2006, "Lettre à D. Histoire d'un amour" (edições Galilée), André Gorz escrevia a Dorine :

"Tu viens juste d'avoir quatre-vingt-deux ans. (...) Tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Récemment, je suis retombé amoureux de toi une nouvelle fois et je porte de nouveau en moi un vide débordant que ne comble que ton corps serré contre le mien."

terça-feira, setembro 25, 2007

Cacofonias

A solução para a cacofonia do Millenium BCP parece-me evidente: um take-over por parte de uma outra instituição, mais séria e onde as lutas pelo poleiro não sejam tão patéticas. Ao preço a que chegaram as acções penso que seria um bom negócio para um grande banco internacional (ou mesmo para um Espirito Santo ou BPI na condição de arranjarem o dinheiro necessário sem embarcar em aventuras demasiado arrojadas).

Outra cacofonia que brada aos céus é a que se desenvolve à volta das traquinices de Scolari. Como é que a Federação, certa imprensa e largos sectores de opinião podem estar tão reféns daquela personagem ao ponto de se mobilizarem para defender o indefensável?

Falemos de coisas sérias ou então de coisas verdadeiramente divertidas que nos façam rir pela positiva, não de forma amarela com pena do que nos rodeia.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Aeroportos

Há sítios onde vive gente que mais parecem aeroportos. Não são verdadeiros aeroportos... mas está tudo de passagem. As relações são superficiais como quando se está na fila para o "check-in" e se tem um paleio de circunstância com o sujeito que está à frente ou atrás. Toda a gente fala muitas linguas, toda a gente é simpática q.b. mas a relação não pega. É fugidia, tangente, breve, eficaz sem deixar qualquer rasto, sem acrescentar qualquer coisa, sem atravessar a crosta de que é feita a sociabilidade mais elementar. Depois do "check-in" vai-se para a porta de embarque e espera-se a chamada. E ali continua a conversa da treta.

É como em certos sítios onde vive gente que nunca se compromete, mas que é simpática.

[É o mínimo que se pode dizer de alguém: que é simpático(a). Sabe-me sempre a pouco... De qualquer maneira, é melhor do que filho da puta.]

No máximo, cordial. Mas, depois do embarque, desaparecem, primeiro dentro do avião e depois à chegada aos destinos mais insondáveis. E não fica nada. Só fumo. Nem sequer uma leve recordação de um rosto ou de uma voz ou de uma frase menos trivial. Gente que vai, gente que vem, gente que nunca está ou que vive sempre noutro lugar, com a cabeça fora do corpo, longe. E essas pessoas, às vezes, inventam encontros e festas com Semelhantes, vazios e perdidos numa viagem alucinante como eles. E aí têm a impressão de ter amigos, de criar alguma ligeira cumplicidade. Que não incomoda. Mas é só impressão. São só conhecidos, parceiros de uma solidão que se ilude com esses encontros de que não fica nada. Literalmente nada, excepto uma solidão ainda mais pesada, cada vez mais pesada.

São assim as cidades das criaturas hiper-individualistas e do "melting pot" étnico, nacional e cultural.

Arrisco-me a ser acusado de xenofobia ou de racismo, mas tenho sérias dúvidas àcerca da solidez e da qualidade dos laços sociais entre gente de diferentes proveniências que vivem numa certa sociedade. Naturalmente, é preciso promover a tolerância e o intercâmbio entre pessoas diferentes. Mas, para além dos discursos politicamente correctos e das boas intenções, o que se produz frequentemente são comunidades bem integradas (para dentro) de pessoas com afinidades culturais e linguísticas, mas impermeáveis (surdas) em relação ao exterior. O multiculturalismo tende a transformar-se numa diversidade de comunidades com uma identidade forte que apenas se justapõem, que comunicam pouco ou dificilmente umas com as outras, que se intersectam o mínimo indispensável para evitar conflitos. E "sociedade" passa a querer dizer colecção de comunidades sem verdadeiro diálogo ou troca entre si. Em que as pessoas são estrangeiras depois de ultrapassado o limiar da comunidade restrita que lhes dá uma identidade.

domingo, setembro 23, 2007

Regresso de férias

Olhei pela janela e vi o carteiro a meter correspondência na minha caixa de correio. Não me lembro da última vez que vi um carteiro. Não me lembro de receber cartas. Quem me mandaria uma carta ? Ou um postal ? Só talvez as finanças a pedir mais dinheiro, depois de tudo o que lhes paguei nos últimos meses. Ou então a loja onde comprei os sofás no ano passado. Esses tipos pedem-nos o endereço e depois fazem de simpàticos, convidando-nos para "eventos especiais", com champanhe e tudo, e umas gajas delambidas a distribuir sorrisos como se fossem caramelos baratos, para venderem mais sofás ou camas ou cadeiras ou armários ou espelhos ou o raio que os parta.

Champanhe é uma maneira de dizer: é mais um espumantezito, dos da Mealhada, que deixa uma azia do caraças, mas que sabe bem com o leitão.

Chegam ao ponto de nos pedir o dia de aniversário e depois, naquele dia, pontualmente, chegam os votos de um feliz dia de anos, assinado um gajo qualquer, gerente de loja, que nos convida a passar por lá, que tem uma prenda magnífica em forma de desconto na compra de uma qualquer traquitana.

Enchemos a casa dessas coisas "tão bonitas" e depois quase não temos espaço para nos mexermos dentro de casa e ainda menos para nos mexermos na conta bancária ao fim do mês.

Não pode ser o Continente ou a TMN ou esses chatos empedernidos. Porque meti na caixa do correio um auto-colante a dizer "publicidade, não obrigado!". Mas, nunca se sabe. Nestes tempos ninguém respeita a vontade de um pobre consumidor. Andam todos malucos, desesperados para vender o que quer que seja ao mais anónimo cidadão, sem saber se tem guita ou crédito para lhes pagar... O que importa pagar? Os objectivos (e as comissões de que é feito o vencimento ao fim do mês) atingem-se quando se vende, não quando se recebe. Isso é outra coisa que explica a falência de Fulano ou Beltrano. Mas, para isso servem os cobradores de dívidas e os desgraçados dos mangas de alpaca dos tribunais que vivem submersos em romances de vidas mal paradas. Sim, porque não acredito que sejam verdadeiros juizes a decidir os milhares de processos por falta de pagamento do roaming dos almas de deus que andaram a bronzear o cú nas Caraíbas neste Verão. Depois voltam e o bronze desaparece, que é um ar que lhe dá, com as facturas que lhes traz o carteiro e com a lenga-lenga da sogra no primeiro almoço "lá em casa" depois de férias. É insuportável como mete o nariz nas fotografias que tirámos debaixo das palmeiras ou a cavalgar as tartaguras e permite-se mesmo sentenciar "como vocês estavam felizes..." e a saliva a escorrer pela boca abaixo como uma vaca cheia de calor depois de mastigar a erva húmida. Puta que pariu a minha sogra. Mas devo controlar-me porque a minha querida Albertina anda farta dos meus impropérios contra a sua querida mãe. E ainda por cima me diz "não custa nada, é só de vez em quando e os meninos gostam tanto dos avós e do arroz doce que faz a Mámi". Senhor que estais no céu, dái-me coragem e entendimento para não frustrar a minha querida Albertina e os meninos, que lhes quero tanto bem. E depois estranham que um gajo tenha pensamentos pecaminosos com a vizinha da frente. Aquilo é que é uma mulher que deve fazer o que é preciso, como deve ser, na hora certa, e levar um homem ao paraíso sem tretas de avós e de meninos... Senhor que estais no céu, ajudai-me porque me assaltam ideias do demónio e um homem não é de pau e puta que pariu a minha sogra e a TMN e o roaming e o regresso de férias...

Volto ao autocarro de manhã cedo para apanhar o combóio que me leva ao Campo Grande. Todos os dias até às próximas férias. Dali vou um pedacinho a pé até ao escritório onde passo o dia a meter carimbos em papeis rectangulares e a sonhar com as ancas da colega da frente. E dizem que é lésbica. Mal empregada... Eu dizia-lhe o que é um homem ! Valha-me deus. Ai se a Albertina me lesse o pensamento. Prometeu-me uma feijoada de marisco para o jantar. Abençoada seja a minha querida Albertina.