domingo, setembro 30, 2007

"Foi uma desgraça"...

... foi o que disse Mário Soares sobre a vitória de Menezes no PSD. Finalmente, estou de acordo com o ex-presidente. Menezes nunca seria um primeiro-ministro credível - apenas um Santana Lopes "soft" e do Norte. Ora, o país precisa de alguém que o arranque à fatalidade socrática, ou, pelo menos, que a melhore... a dita fatalidade. As élites, porém, são uma emanação dos povos - não aparecem ex-nihilo. Hélas.

Tudo isto sem prejuizo do meu cepticismo em relação ao interesse de uma eventual vitória de Marques Mendes... que andava cada vez mais arrastado no pântano social-democrata. Quase, quase, estou de acordo com Santana ao dizer que Cavaco seca tudo à sua volta...

quinta-feira, setembro 27, 2007

Pimba

Em Portugal o rugby é o desporto das "pessoas-bem": intelectuais, burgueses, bem pensantes. As pessoas de gosto requintado, de classe, adoram aqueles gajos que se atiram uns aos outros com apetite antropofágico. É assim uma coisa exótica, à parte, que só uma minoria pode perceber. Acho que muitos desses adeptos de há poucas semanas nem sequer gostam verdadeiramente daquela coisa. Do que eles gostam é de mostrar que gostam. E assim julgam-se no direito de pertencer a uma espécie de seita. Como todas as seitas, com linguagem e rito específicos, mais ou menos inacessíveis ao comum dos mortais. O comum dos mortais é o troglodita que só gosta de futebol, que não consegue compreender a subtileza e o encanto do rugby.

Ter sido derrotado no campeonato do mundo tão heroicamente por todos aqueles gigantes da modalidade foi uma prova de supremo patriotismo. Um patriotismo devoto, incondicional, sofrido. Deram mais do que o litro, entregaram-se de corpo e alma à defesa da bandeira, choraram baba e ranho de todo o tamanho ao ouvir o hino. O jogador de rugby passou a ser um paradigma de como se pode perder com o papo inchado de orgulho.

[Faz-me lembrar o "orgulhosamente sós" ou aquela história da senhora que vai ver o juramento de bandeira do filho que é o único que leva o passo trocado e diz cheia de alegria: "rico filho, é o único que vai a marchar bem".]

Português que se preze é assim mesmo: defende as cores nacionais mesmo a jogar ao pau com os ursos, mesmo nas corridas de escaravelhos, mesmo no festival eurovisão da canção canina. Os belgas que ponham aqui os olhos e que se deixem de amuos.

Outro paradigma é o Mourinho... Agora até o consideram uma espécie de farol para o sucesso do "Plano Tecnológico Nacional". Transformar um revés em fonte de auto-estima, nunca se deixar ir abaixo, perseverar sempre na procura dos objectivos, determinação, convicção, trabalho, muito trabalho... Tudo isto e muito mais disse a Fátinha do "Prós e Contras".

Do que Portugal precisa mesmo é de 10 milhões de Mourinhos. Eu sou pela cultura OGM de Mourinhos. Não me venham com pruridos ecologistas. Quem se atreveria a destruir uma tal cultura !

Só tive pena que a SIC cortasse subitamente a palavra ao Santana Lopes para apresentar imagens em directo da chegada do dito cujo ao aeroporto. Até parecia o Papa. Porra, nem deixaram o gajo cheirar o perfume da àrea circundante do aeroporto. E o pobre do Santana que explicava as relevantes diatribes entre o Menezes e o Mendes ficou indignado e deixou o estúdio intempestivamente. "Ainda se fosse o Presidente... Vim à televisão com tanto sacrifício e depois cortam-me assim a palavra...", lamentou-se. A justo título, carago.

Apesar de tudo... viva o Mourinho, viva. Pimba !

Produtividade versus carga horária

Segundo um instituto britânico de investigação sobre o ensino superior, os estudantes britânicos dedicam, em média, 26 horas por semana aos seus estudos, contra 34 para alemães e franceses e mais de 40 para os portugueses...

quarta-feira, setembro 26, 2007

O filósofo André Gorz (84 anos) e sua mulher Dorine (83 anos) suicidaram-se

Os corpos foram encontrados numa residência perto de Troyes (França) na passada Segunda-feira, 24 de Setembro.

No seu último livro, publicado em 2006, "Lettre à D. Histoire d'un amour" (edições Galilée), André Gorz escrevia a Dorine :

"Tu viens juste d'avoir quatre-vingt-deux ans. (...) Tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Récemment, je suis retombé amoureux de toi une nouvelle fois et je porte de nouveau en moi un vide débordant que ne comble que ton corps serré contre le mien."

terça-feira, setembro 25, 2007

Cacofonias

A solução para a cacofonia do Millenium BCP parece-me evidente: um take-over por parte de uma outra instituição, mais séria e onde as lutas pelo poleiro não sejam tão patéticas. Ao preço a que chegaram as acções penso que seria um bom negócio para um grande banco internacional (ou mesmo para um Espirito Santo ou BPI na condição de arranjarem o dinheiro necessário sem embarcar em aventuras demasiado arrojadas).

Outra cacofonia que brada aos céus é a que se desenvolve à volta das traquinices de Scolari. Como é que a Federação, certa imprensa e largos sectores de opinião podem estar tão reféns daquela personagem ao ponto de se mobilizarem para defender o indefensável?

Falemos de coisas sérias ou então de coisas verdadeiramente divertidas que nos façam rir pela positiva, não de forma amarela com pena do que nos rodeia.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Aeroportos

Há sítios onde vive gente que mais parecem aeroportos. Não são verdadeiros aeroportos... mas está tudo de passagem. As relações são superficiais como quando se está na fila para o "check-in" e se tem um paleio de circunstância com o sujeito que está à frente ou atrás. Toda a gente fala muitas linguas, toda a gente é simpática q.b. mas a relação não pega. É fugidia, tangente, breve, eficaz sem deixar qualquer rasto, sem acrescentar qualquer coisa, sem atravessar a crosta de que é feita a sociabilidade mais elementar. Depois do "check-in" vai-se para a porta de embarque e espera-se a chamada. E ali continua a conversa da treta.

É como em certos sítios onde vive gente que nunca se compromete, mas que é simpática.

[É o mínimo que se pode dizer de alguém: que é simpático(a). Sabe-me sempre a pouco... De qualquer maneira, é melhor do que filho da puta.]

No máximo, cordial. Mas, depois do embarque, desaparecem, primeiro dentro do avião e depois à chegada aos destinos mais insondáveis. E não fica nada. Só fumo. Nem sequer uma leve recordação de um rosto ou de uma voz ou de uma frase menos trivial. Gente que vai, gente que vem, gente que nunca está ou que vive sempre noutro lugar, com a cabeça fora do corpo, longe. E essas pessoas, às vezes, inventam encontros e festas com Semelhantes, vazios e perdidos numa viagem alucinante como eles. E aí têm a impressão de ter amigos, de criar alguma ligeira cumplicidade. Que não incomoda. Mas é só impressão. São só conhecidos, parceiros de uma solidão que se ilude com esses encontros de que não fica nada. Literalmente nada, excepto uma solidão ainda mais pesada, cada vez mais pesada.

São assim as cidades das criaturas hiper-individualistas e do "melting pot" étnico, nacional e cultural.

Arrisco-me a ser acusado de xenofobia ou de racismo, mas tenho sérias dúvidas àcerca da solidez e da qualidade dos laços sociais entre gente de diferentes proveniências que vivem numa certa sociedade. Naturalmente, é preciso promover a tolerância e o intercâmbio entre pessoas diferentes. Mas, para além dos discursos politicamente correctos e das boas intenções, o que se produz frequentemente são comunidades bem integradas (para dentro) de pessoas com afinidades culturais e linguísticas, mas impermeáveis (surdas) em relação ao exterior. O multiculturalismo tende a transformar-se numa diversidade de comunidades com uma identidade forte que apenas se justapõem, que comunicam pouco ou dificilmente umas com as outras, que se intersectam o mínimo indispensável para evitar conflitos. E "sociedade" passa a querer dizer colecção de comunidades sem verdadeiro diálogo ou troca entre si. Em que as pessoas são estrangeiras depois de ultrapassado o limiar da comunidade restrita que lhes dá uma identidade.

domingo, setembro 23, 2007

Regresso de férias

Olhei pela janela e vi o carteiro a meter correspondência na minha caixa de correio. Não me lembro da última vez que vi um carteiro. Não me lembro de receber cartas. Quem me mandaria uma carta ? Ou um postal ? Só talvez as finanças a pedir mais dinheiro, depois de tudo o que lhes paguei nos últimos meses. Ou então a loja onde comprei os sofás no ano passado. Esses tipos pedem-nos o endereço e depois fazem de simpàticos, convidando-nos para "eventos especiais", com champanhe e tudo, e umas gajas delambidas a distribuir sorrisos como se fossem caramelos baratos, para venderem mais sofás ou camas ou cadeiras ou armários ou espelhos ou o raio que os parta.

Champanhe é uma maneira de dizer: é mais um espumantezito, dos da Mealhada, que deixa uma azia do caraças, mas que sabe bem com o leitão.

Chegam ao ponto de nos pedir o dia de aniversário e depois, naquele dia, pontualmente, chegam os votos de um feliz dia de anos, assinado um gajo qualquer, gerente de loja, que nos convida a passar por lá, que tem uma prenda magnífica em forma de desconto na compra de uma qualquer traquitana.

Enchemos a casa dessas coisas "tão bonitas" e depois quase não temos espaço para nos mexermos dentro de casa e ainda menos para nos mexermos na conta bancária ao fim do mês.

Não pode ser o Continente ou a TMN ou esses chatos empedernidos. Porque meti na caixa do correio um auto-colante a dizer "publicidade, não obrigado!". Mas, nunca se sabe. Nestes tempos ninguém respeita a vontade de um pobre consumidor. Andam todos malucos, desesperados para vender o que quer que seja ao mais anónimo cidadão, sem saber se tem guita ou crédito para lhes pagar... O que importa pagar? Os objectivos (e as comissões de que é feito o vencimento ao fim do mês) atingem-se quando se vende, não quando se recebe. Isso é outra coisa que explica a falência de Fulano ou Beltrano. Mas, para isso servem os cobradores de dívidas e os desgraçados dos mangas de alpaca dos tribunais que vivem submersos em romances de vidas mal paradas. Sim, porque não acredito que sejam verdadeiros juizes a decidir os milhares de processos por falta de pagamento do roaming dos almas de deus que andaram a bronzear o cú nas Caraíbas neste Verão. Depois voltam e o bronze desaparece, que é um ar que lhe dá, com as facturas que lhes traz o carteiro e com a lenga-lenga da sogra no primeiro almoço "lá em casa" depois de férias. É insuportável como mete o nariz nas fotografias que tirámos debaixo das palmeiras ou a cavalgar as tartaguras e permite-se mesmo sentenciar "como vocês estavam felizes..." e a saliva a escorrer pela boca abaixo como uma vaca cheia de calor depois de mastigar a erva húmida. Puta que pariu a minha sogra. Mas devo controlar-me porque a minha querida Albertina anda farta dos meus impropérios contra a sua querida mãe. E ainda por cima me diz "não custa nada, é só de vez em quando e os meninos gostam tanto dos avós e do arroz doce que faz a Mámi". Senhor que estais no céu, dái-me coragem e entendimento para não frustrar a minha querida Albertina e os meninos, que lhes quero tanto bem. E depois estranham que um gajo tenha pensamentos pecaminosos com a vizinha da frente. Aquilo é que é uma mulher que deve fazer o que é preciso, como deve ser, na hora certa, e levar um homem ao paraíso sem tretas de avós e de meninos... Senhor que estais no céu, ajudai-me porque me assaltam ideias do demónio e um homem não é de pau e puta que pariu a minha sogra e a TMN e o roaming e o regresso de férias...

Volto ao autocarro de manhã cedo para apanhar o combóio que me leva ao Campo Grande. Todos os dias até às próximas férias. Dali vou um pedacinho a pé até ao escritório onde passo o dia a meter carimbos em papeis rectangulares e a sonhar com as ancas da colega da frente. E dizem que é lésbica. Mal empregada... Eu dizia-lhe o que é um homem ! Valha-me deus. Ai se a Albertina me lesse o pensamento. Prometeu-me uma feijoada de marisco para o jantar. Abençoada seja a minha querida Albertina.

quinta-feira, setembro 20, 2007

branco, preto e cinzento

Mourinho é bom mas foi-se, Rui Costa perdeu mas agradou, Cristiano Ronaldo marcou mas sofreu, o rugby perdeu mas deixou uma boa presença...

Andamos nisto.
Nestes "mas", nestas meias tintas em que "não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe".
E não só no desporto...
Pouca coisa é absoluto ou conclusivo.
E talvez não deva ser de outra maneira.
Os extremos não são bons conselheiros.
Bem sei que nada disto é paixão e ainda menos perfeição.
Mas, uma vida feita só de paixão ou da procura de perfeição é esgotante.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Bélgica

Leuven

Bruxelas

Do pouco que já sei acerca da Bélgica, ocorre-me uma palavra: contrastes.
Contraste entre a Valónia (onde falam francês e a cultura se assemelha mais à francesa) e a Flandres (mais associada à Holanda na língua e na cultura) e entre as zonas antigas e novas em Bruxelas.... É um país com identidade própria, mas essa identidade divide-se em três zonas (Bruxelas, Valónia e Flandres) e acabam por ser as rixas entre essas três partes que formam uma única identidade, muito particular e um pouco estranha para um país com tão fervoroso nacionalismo como o nosso. Ao mesmo tempo, é o símbolo do cosmopolitismo, do europeu, onde gentes de toda a parte se encontram e se misturam com as gentes locais.

Leuven, em particular, é uma cidade fantástica, onde todos andam a pé ou de bicicleta, onde o inglês é falado por todos e une as imensas pessoas que vêm de cada parte da Europa para estudar ou investigar. Cada dia há uma coisa nova, pessoas novas, eventos novos e muito interessantes. As pessoas estão abertas aos estrangeiros e apoiam no que puderem. Não se sente insegurança nem desconfiança. Acho que depois de um ano a viver cá não me cansarei deste estilo de vida.

Irra que é demais...

Um cidadão canadiano foi libertado depois de ter estado 50 anos na cadeia por um crime que não cometeu. E agora trata-se de determinar a indemnização a que tem direito e que lhe deverá ser paga pelas autoridades judiciárias do Canadá que cometeram um erro tão clamoroso. Quanto valem 50 anos de uma vida passada injustamente numa cadeia?

Gratuita maledicência

Não me tramem. O homem não é paneleiro. Tem apenas uns tiques. É sensível, delicado, atencioso. Um bocado amaneirado, mas nada de especial. Não o estou a ver a mostrar as nádegas num “gay parade”. E sobretudo sabe bem o que quer, tem uma missão a desempenhar que vai para além dos seus próprios interesses. O homem até fez filhos e não me consta que se tenha arrependido. È um pai extremoso, vai com eles a sítios exóticos nas férias e mantém boas relações com a Ex com quem andou iludido, talvez, tempo demais, remando, torturado, contra a sua natureza. Mas, no fim de contas e em tempo útil, assumiu-se e enveredou pelo bom caminho. Contra ventos e marés, contra a estupefacção dos pais e amigos que não perceberam aquela súbita separação. Eram um casal perfeito (como se diz agora, também a propósito dos McCann…). Mas, não è paneleiro. È só aberto de espírito e detesta as insinuações acerca da sua paneleirice. Tem algum mal ir aos alfaiates mais caros para andar irrepreensivelmente vestido? Tem algum mal comprar perfumes de masculinidade ambígua? Tem algum mal passar horas no ginásio e na esteticista? Ou será “um” esteticista?...

O homem é fantástico. Sorte, têm os amigos que podem usufruir de uma companhia tão elegante e perspicaz. Mas, também, e sobretudo, determinada. Porque ele tem uma visão que procura colocar em prática com tenacidade e inteligência. Não se pode dizer que seja particularmente culto. Teve mais a fazer do que mergulhar em livros fastidiosos sobre Filosofia ou outras Humanidades. Teve de aprender a arte das relações e das influências: como navegar entre ambiciosos sem qualidade, como entrar-lhes na simpatia sem promessas nem incómodas cumplicidades. É esgotante essa aprendizagem. Deixa pouco tempo a outros domínios do espírito, talvez mais requintados e palacianos.

Quanto ao perfil moral… tem moral q.b. ou a falta de escrúpulos necessária para andar para a frente neste mundo cruel.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Coaching

Agora as pessoas devem "gerir-se" a si mesmas, mal ou bem, mas são elas que decidem, que cometem erros ou acertam. Nas escolhas vitais, como ter filhos ou não ter, como casar ou não casar, como divorciar ou não divorciar. Mas também noutras escolhas importantes, se bem que não vitais, como optar por um curso ou candidatar-se a um emprego ou comprar casa. A liberdade e a independência levam a que as pessoas não recorram, como antigamente, ao conselho ou ajuda da família, do padre ou do professor. Os amortecedores sociais atenuaram-se (mas também diminuiu a pressão e sobretudo a opressão...) e os indivíduos ficaram cada vez mais sózinhos, mais esmagados por um livre arbítrio hiperbólico que têm de exercer continuamente. Acabaram-se as desculpas. A responsabilidade individual é o credo dominante.

A intranquilidade e a angústia que gera essa tendência, porém, reforçam a pertinência de disciplinas como a sociologia, a psicologia e a psiquiatria e criam novas oportunidades de negócio. Começa a estar na moda, por exemplo, o "coaching", indústria subtilmente distinta da psicoterapia, praticada por autênticos sacerdotes da sabedoria hiper-moderna, magos de uma cosmética serenidade. Há pessoas, naturalmente com dinheiro a mais, que pagam a um "coach" para saber como lidar com os filhos, como aturar o marido, como enfrentar o rival no escritório, etc, etc. O que pensar da vida, o que decidir e como estruturar o quotidiano são "actividades" sub-contratadas a especialistas que o mercado produz em abundância. Especialistas que, a peso de ouro, substituem realidades tão obsoletas e malditas como os amigos ou a família.

quarta-feira, setembro 12, 2007

A gestão de recursos humanos e o Dalai Lama

Há cursos para ensinar as pessoas com responsabilidades a comportar-se perante os seus subordinados. Por exemplo, você quer dizer a um empregado que não está satisfeito com a sua "performance" ?

[Odeio esta palavra. Poucos sabem verdadeiramente do que estão a falar quando a pronunciam. No entanto é a prioridade das prioridades, a unidade esotérica de medida do valor de cada um, o Santo Graal da produtividade e do "bem estar"...]

Não se diz a um tipo que ele não presta de qualquer maneira. Há maneiras mais ou menos convenientes. Por outras palavras: há uma receita especial de vazelina para que não doa demais ou para que não faça ricochete. Para que não acabe tudo aos berros, à estalada ou no tribunal.

Você quer mandar para a rua um desgraçado que só teve a culpa de ser um alma de deus no momento e lugar errados, porque o mercado isto, porque a concorrência aquilo, porque a tecnologia aquel'outro ? Pois bem, também nessa situação há um "road map", um procedimento, uma abordagem "step-by-step" a seguir, falhas a evitar, uma certa "humanidade" a preservar

[Revoltam-se-me as tripas ao utilizar a palavra "humanidade" neste contexto].

Há eminentes estudiosos que passam a vida a pensar nesses casos e a elaborar teorias sofisticadas àcerca do modo mais civilizado e, sobretudo, mais eficaz (e silencioso) de defender as organizações, libertando-as dos "pesos mortos", dos "casos sociais". Por exemplo, deve-se privilegiar os factos, não se deve questionar a personalidade. O que importa é o que se faz, não o que se é. Porque senão a coisa torna-se excessivamente pessoal e não há nada pior do que tornar-se pessoal (humano?).

É espantosa a engenharia da sacanice na gestão dos recursos humanos. Transformar emoções em factos. Tratar pessoas como simples "inputs", matérias-primas, infelizmente, mais complicadas do que as outras, mas, "hélas", imprescindíveis.

["A razão do nosso sucesso são os nossos colaboradores."]

Igualar motivação a dinheiro que, por sua vez, exige a promoção a qual implica trabalho, muito trabalho que se converte em vida (bio-trabalho). Este é o modelo dominante. Para dizer a verdade, esta é a doutrina em torno da qual se organiza a vida de milhões de seres humanos que acreditam piamente que essa seja a verdade revelada.

Para simplificar, em média, nas organizações há os "high flyers" ou "drivers" do sistema (15%), há os produtores ou "trabalhadores sérios" que fazem o que devem fazer sem demasiadas ondas (70%) e há os "pesos mortos", que desestabilizam, que se aproveitam, que passam a vida a chatear os patrões (15%). Estes últimos são o lixo do sistema, o qual deve ser reciclado ou simplesmente eliminado. As organizações generosas são aquelas que dão oportunidades aos "pesos mortos" para se converterem em "trabalhadores sérios". E basta !

E depois há o Dalai Lama que chegou a Lisboa e disse que, sim senhor, o dinheiro e o poder são importantes, mas o mais importante está dentro de cada um de nós. Pois claro !

segunda-feira, setembro 10, 2007

Crónica em derrapagem

Ha pessoas que confundem conhecidos com amigos, gente simpática com gente com quem se partilha alguma coisa, cordialidade com intimidade. Há pessoas para quem o mundo é uma espécie de aeroporto: todos de passagem, depressa, falando linguas diversas e exóticas, esperando passagem para outro lado. Sempre outro lado. Sempre de passagem, contactando os semelhantes com a máxima ligeireza e, naturalmente, com a máxima educação. Quase reverência. E depois são muito simpáticas essas pessoas. Educadas. Distantes ou próximas q.b. Há pessoas que passam a vida a dizer "não me comprometa", "respeite o meu espaço que eu respeito o seu"... Que diabo, então haviamos de andar todos aos beijos na boca uns aos outros !

O respeitinho é muito lindo, que a Mariazinha do prédio em frente passa a vida à janela à espera do Principe Encantado (de vez em quando rega as plantas e olha para baixo...) e o avô dela continua a pensar que o Salazar é que tinha razão e que agora é tudo indecente e ninguém respeita coisa alguma e que é preciso voltar aos bons princípios de outros tempos para combater a desvergonha. Cada macaco no seu galho, pois claro !

No outro dia andava eu tranquilo a passear no Jardim da Sereia numa das poucas abertas de sol a que temos tido direito e não é que um filho da puta de um pássaro me cagou em cima. Nem sei que bicho era. Nunca fui muito dado à zoologia. Porra. Agora até os pássaros se vêem no direito de fazer aquilo na careca do mais incauto transeunte ? Sim porque eu sou careca. E depois ? É dos carecas que elas gostam ! Elas ? Quem são elas ? Tragam-mas que eu lhes digo. Ficarei uma espécie de Valentim Loureiro ou coisa assim...

Não há tempos como os de antigamente. Vergonha, recato - isso é que é preciso. Mas, afinal que carago é que as criancinhas andam a fazer na escola ? A aprender a circular nos aeroportos ? A aprender linguas de bárbaros ? A acertar na porta de embarque à primeira e a pedir Gin Tónico à hospedeira delambida de meia prêta com costura ?

Porra ! Tenham vergonha e vão à missa.

Lobos à solta

Gosto de Râguebi e gosto de Portugal, mas aquele fervor nacionalista, a rondar a histeria, dos bravíssimos Lobos antes do ínicio do jogo contra a Escócia deixou-me algo perplexo. Lágrimas, gritos, olhos vidrados de um orgulho e de uma emoção tão fortes causaram-me alguma preocupação. Por amor de deus, percebo a emoção daqueles mocinhos ao participar pela primeira vez num campeonato do mundo de uma modalidade tão simpática e marginal em Portugal. Percebo a vontade de entrar com raiva de ganhar ou de não ser massacrado pelas grandes potências da bola oval. Percebo isso tudo, mas aquela exibição de sentimentos tão intensos e pueris... francamente pareceu-me EXAGERADO. Mas, enfim, que sejam felizes e que a vertigem das emoções não lhes retire a lucidez, a rapidez dos reflexos nem a tensão dos músculos tão necessários para jogar bem... como, aliás, foi o caso contra a Escócia.

McCanns... A Novela!


Não há famílias perfeitas. E quando até parecem que o são, é porque alguma coisa está errada. É ridículo falar em perfeição no que diz respeito ao ser humano, e ainda mais ridículo é este artigo do DN:

Ambos com 39 anos, os dois médicos estavam a viver em pleno o amor que os levou a cruzar oceanos e atravessar o mundo para ficarem juntos. De famílias modestas - ela filha de um carpinteiro e uma técnica de recursos humanos de Liverpool, ele também filho de um carpinteiro e de uma funcionária de uma fábrica de bolacha que emigraram da Irlanda para a Escócia - cedo perceberam que teriam de trabalhar muito para ter sucesso. Os caminhos de Kate e Gerry cruzaram-se quando ambos estavam a estagiar num hospital escocês, depois de se formarem respectivamente em Dundee e Glasgow. E a paixão foi tão grande que, quando a jovem anastesista decidiu ir viver durante uns tempos para a Nova Zelândia, Gerry percebeu que não conseguia viver sem a rapariga alta, magra, loura, de profundos olhos azuis. Por isso, foi atrás dela. E convenceu-a a voltar com ele para o Reino Unido, onde casaram em 1998. Dois anos depois, mudaram-se para os Midlands, onde Gerry começou a trabalhar no hospital Glenfield, em Leicester, enquanto Kate exercia em Latham House, onde ficou conhecida pelo nome de solteira, Kate Healey. Jovens, belos e saudáveis, os fotogénicos Kate e Gerry rapidamente começaram a pensar em transmitir os genes. E como médicos, não hesitaram em recorrer à ciência - e em confiar na sua imensa fé - quando surgiram os problemas em ter filhos. Quando Madeleine nasceu, Kate ficou radiante. "Não sabia que era uma menina até ela nascer. O meu instinto dizia-me que ia ser rapaz. Mas isso apenas tornou o momento do parto ainda mais emocionante", disse Kate ao The Independent.

Artigo completo AQUI

domingo, setembro 09, 2007

Perguntas criptadas

Sabem qual é o limite da coragem ? E o da solidariedade ? O que significa ser bom ou estar em paz com a consciência ? Onde acaba a legitima defesa dos interesses individuais, a procura do prazer e começa o respeito da moral e dos outros ? O que significa a amizade ou o amor quando se está próximo da fronteira da nossa integridade e do nosso humano egoísmo ? As nossas escolhas e atitudes não podem classificar-se numa escala com dois únicos pontos: a santidade ou a maldade... A vida é um contínuo de pontos intermédios entre esses dois extremos, os quais talvez nunca se atinjam.

sexta-feira, setembro 07, 2007

We didn't kill Maddie


O que se está a passar com o caso da menina desaparecida no Algarve é simplesmente monstruoso e elucidativo do cúmulo a que pode chegar o media-mundo em que vivemos. Utilizando muito dinheiro e ligações do mais alto calibre, mobilizando meios e influências nunca vistos, aqueles pais começaram por procurar a filha, piamente e deseperadamente, com o apoio de uma opinião pública solidária e emocionada. Agora bombardeiam a imprensa mundial com alibis, provas de inocência, queixas contra a polícia e os jornais portugueses. A polícia tenta permanecer silenciosa. As especulações são alimentadas apenas pelos McCann, pela família e pela bateria de assessores de várias disciplinas de que dispõem.

É tudo muito suspeito e suscita comentários a nível global, absolutamente descabidos e tendenciosos, como os que acabei de ouvir na CNN. Um jornalista britânico branqueava o esforço mediático da família e acusava as autoridades portuguesas de falta de experiência nestes casos (como se houvesse algum precedente de escala comparável (*)) e de incompetência, pelo menos, no domínio das relações públicas e da comunicação.

Este deveria ser um caso de investigação criminal não de diplomacia, de rivalidade nacional, de religião ou de política e, ainda menos, de finanças. Porque assim se torna numa verdadeira porcaria, uma monumental instrumentalização e fraude.

O mais sensato que se pode fazer é moderar os comentários e deixar a investigação avançar seguramente no seu trabalho até chegar a conclusões irrefutáveis, para benefício da verdade e da decência, por mais dolorosa e espantosa que possa ser essa verdade.

(*) O único caso com alguma semelhança que conheço é o de Cogne, no Norte de Itália, em que a Sra. Annamaria Franzoni terá assassinado em 2002 o seu filho Samuele de 4 ou 5 anos, numa vivenda de montanha. O caso esteve omnipresente na imprensa transalpina, pelo menos até ao ano passado, suscitando enormes paixões na opinião pública, dados os mistérios e a convicção com que a mãe continuou a reivindicar a sua inocência, apesar de algumas provas que a incriminam. Depois de múltiplos recursos, acabou por ser condenada a 16 anos de cadeia, mas mantém-se alguma dúvida quanto à eloquência das provas... Houve alturas em que os debates televisivos eram quase diários com a própria suspeita em palco a defender-se e um batalhão de psicólogos, juristas, sociólogos, criminologistas a mandar palpites... Mas, que eu saiba, o folhetim quase não saiu de Itália.

Só para não deixar passar...

Este é o post número 1000.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Indicadores de desenvolvimento

O desenvolvimento é um processo integral que toca todas as esferas da sociedade. Os seus sintomas dever-se-ão encontrar nos mais variados domínios. Naturalmente, há sectores que avançam mais rapidamente do que outros. Alguns, inevitavelmente, declinam.

Acho que os recentes resultados desportivos de Portugal em modalidades mais técnicas (ou mais "urbanas"…) como o triplo-salto, as corridas de velocidade, o basquetebol, o râguebi, a par do declínio, por exemplo, das corridas de fundo e meio-fundo são representativos de uma tendência positiva. Dito isto, é evidente que gostaria de ter sinais mais eloquentes noutros domínios como o emprego, os salários, a igualdade, a inovação, a educação, a cultura, a saúde, a justiça, etc. Mas, enfim, não podemos negar o que vai no bom sentido porque podia ainda ser melhor ou porque há outras àreas em que vai mal.

terça-feira, setembro 04, 2007

New York, New York

Vejam ou voltem a ver o famoso musical de M. Scorsese, saído no longínquo 1977, com interpretações inesquecíveis dos irreconhecivelmente jovens Roberto De Niro e Liza Minnelli. De arrepiar - mais uma vez - a interpretação de Minnelli do tema que dá o nome ao filme. E já agora ouçam e vejam esta (vão até ao fim do link) de Frank Sinatra.

segunda-feira, setembro 03, 2007

O capitalismo de bolha em bolha

Cliquem no título para aceder a uma interessante entrevista do economista francês Michel Aglietta publicada pelo "Le Monde" no passado Sábado.

No final da entrevista é sublinhada a relevância do crescimento das economias asiáticas, baseado nas exportações, para explicar a contenção dos salários e da inflação à escala mundial, assim como a inversão dos fluxos financeiros Oriente/Ocidente. A acumulação de reservas associada a uma consistente sub-avaliação das moedas desses países (essencialmente da China), está a mudar a paisagem da finança mundial e a remeter os Estados Unidos a uma posição de crescente e crónico devedor. No momento em que o dólar deixar de desempenhar a sua função de moeda universal de reserva, o sistema pode desequilibrar-se perigosamente porque os Estados Unidos deixarão de poder financiar os seus défices através da emissão de moeda aceite pelos credores. Paradoxalmente, a elevação do Euro a um estatuto comparável ao do dólar pode, por isso, não ser do interesse dos próprios Europeus... Ou seja: os Estados Unidos mantém o mundo refém dos seus défices e do papel de pivot desempenhado pela sua moeda. Quem desafiar esse papel arrisca-se a apanhar com a insolvência dos Estados Unidos em cima...

Outra ideia mais banal que ressalta da entrevista é a de que o capitalismo global depende cada vez mais de accionistas obsecados pelo retorno trimestral dos seus investimentos. A isso se deveria contrapor uma visão mais de longo prazo, apadrinhada, designadamente, pelas autoridades monetárias.

A ausência de inflação, combinada com a criatividade de financeiros que fabricam mecanismos sofisticados de estratificação e disseminação do risco, terá sido um dos factores da atracção pelo risco, a qual gera uma crescente volatilidade dos mercados e a sucessão de bolhas especulativas ("new economy", matérias-primas, imobiliário, etc.) que explodem quando as pessoas se apercebem de que os preços dos activos descolaram completamente da realidade. E aí... é a correcção na descida aos infernos...

domingo, setembro 02, 2007

Mr Brooks


A ver!

O carrossel do crédito

A coisa é simples. Os bancos, ciosos de aumentarem as suas margens de lucro e de fazerem sempre mais crédito, emprestam a quem não pode pagar. Mas não faz mal porque metem esses empréstimos duvidosos (“sub-prime” ou “junk”) em fundos de investimento que são subscritos por investidores, na maioria pequenos e mal informados, mas àvidos de rendimentos acima dos dos depósitos a prazo. Tudo parece andar bem enquanto as taxas de juro são baixas e o reembolso do capital dos ditos empréstimos não chega ao vencimento. Quando essas duas coisas se invertem o incumprimento dos "pobres" devedores passa de... alta probabilidade... a cruel realidade. Então, os bancos começam a executar as hipotecas, pondo mais e mais casas à venda, o que acelera a descida dos preços do imobiliário. Os particulares vêem o seu património desvalorizado e a sua solvência em perigo no que se refere também a outras formas de crédito (designadamente, ao consumo) garantido pelo valor dos imóveis.

A cotação dos fundos de investimento reflecte as menos-valias do crédito mal-parado e os “incautos” investidores fazem-se cada vez mais numerosos a solicitar o resgate das unidades de participação nos fundos. As sociedades gestoras dos fundos, normalmente filiais de bancos, não têm tesouraria para efectuar todos esses reembolsos e vão ao mercado monetário pedir emprestado, o que provoca uma subida das taxas de juro de curto prazo. Perante esta pressão, os bancos centrais têm de injectar liquidez no sistema, emprestando aos bancos comerciais, para moderar a subida das taxas de juro e para evitar a insolvência das sociedades gestoras de fundos e dos bancos mais vulneráveis.

A tensão continuará até que perca quem deve perder... isto é, essencialmente, os bancos que emprestaram a quem não deviam emprestar com base em critérios imprudentes. Também perdem os particulares que ficam em situação de insolvência e que têm de vender património para reembolsar (parte das) dívidas ou reduzir o seu consumo. Perdem os proprietários de imóveis cujo valor cai e os construtores e vendedores cuja oferta se deprime. Talvez existam boas oportunidades para quem tenha liquidez e possa aproveitar os preços baixos para comprar.

O problema atingiu uma tal amplitude que o próprio Bush (insuspeito assistencialista...) pretende criar um fundo para ajudar as famílias mais frágeis e super-endividadas. Esse dinheiro, no fim de contas, pelo menos parcialmente, vai acabar nas tesourarias dos bancos sob a forma de reembolsos de empréstimos que, de outra maneira, nunca seriam efectuados. Dependendo das modalidades concretas dos esquemas de ajuda, eles podem traduzir-se em mais um mecanismo de “moral hazard”, isto é, seja o que for que os bancos façam de errado, beneficiam sempre do apoio directo ou indirecto do Estado, dado o impacto sistémico das suas actividades. Mais uma história de colectivização dos prejuizos e de privatização dos lucros.

Quanto às taxas de juro, apesar dos efeitos recessivos da “correcção” acima descrita, presumo que continuem a aumentar no curto/médio prazo, por causa dos receios dos bancos centrais, reais ou imaginários, em relação à inflação, transformada em elixir da estabilidade e da bondade macroeconómica. E o aumento das taxas de juro só vai agravar ainda mais a situação dos excessivamente endividados, quer dizer, daqueles para quem as prestações da dívida excedem uma percentagem razoável do rendimento disponível que alguns estimam, em média, em 30-35%. Et ainsi de suite... bancos, hipotecas, preço das casas...

Partir é complicado...

Por um lado, há o desejo fortíssimo de ir, deixar o que se conhece, aquilo a que se está acomodado, habituado, conformado, para conhecer o desconhecido, para descobrir o que nunca esteve ao alcance e que agora está à distância de uns dias...

Por outro lado, há o medo de deixar isso mesmo que se conhece, onde se é e está confortável, onde se sabe amar e ser amado, onde tudo é familiar...

Nunca o medo deve ser desculpa para perder uma nova descoberta, um novo mundo. Mas mesmo não sendo limitativo, ele cresce cá dentro, sob a forma de arrepio, sob a forma de expectativa, impaciência, curiosidade e respeito.

É um medo bom, que enche de adrenalina e vontade de o desafiar. Mas não deixa de ser um medo.

Por outro lado, ainda, há o desejo de ir, de voar e abrir as asas. Há a emoção intensa desse novo mundo. Mesmo assim, cresce já a saudade do que fica e a melancolia da separação, do que fica em standby.

Só há duas certezas quanto ao futuro:
- De um regresso doce ao que é agora conhecido e amado.
- De uma partida amarga desse desconhecido que será, então, já conhecido e amado.

Partir é complicado!

sábado, setembro 01, 2007

As orgias de Cristiano

Segundo o jornal britânico "Sun", citado pelo "La Repubblica" de Itália (clicar no título), Cristiano Ronaldo terá festejado a primeira vitória do Manchester United no campeonato inglês à 4a. jornada (1-0 contra o Tottenham), organizando uma orgia com 5 "escort girls" na sua "villa" nos arredores de Manchester. Entre os convidados encontrar-se-ia também o brasileiro Anderson adquirido recentemente pelo Man. United.

Estou já a imaginar o pobre do rapaz a queixar-se da perseguição e má lingua com que o brindam os venenosos tablóides de além-Mancha... Por outro lado, notícias do généro apenas ajudam a reforçar a sua fama de garanhão lusitano... com créditos já estabelecidos por aventuras anteriores de idêntico teor.

A Serra


A Serra da Boa Viagem voltou a arder, depois do grande incêndio que há alguns anos reduziu a cinzas a maior parte de uma das matas mais bonitas do centro do país, memorável pelos seus recantos e percursos "misteriosos" a cair sobre o mar. Este novo atentado ocorre quando a Natureza se estava lentamente a recompor, num ano clemente e apesar de vários postos de vigilância que foram instalados na serra (pelos vistos, alvos de actos de vandalismo recentes). A clemência da meteorologia tem ajudado a conter os fogos neste ano que se adivinha como um dos menos destrutivos das ultimas décadas. Mas, o governo já está a reclamar sucesso nas medidas tomadas contra os incêndios florestais (pese embora a confusão àcerca da certificação dos novos helicópteros que só vão poder voar a partir de Outubro...), confundindo S. Pedro com eficiência de gestão...

sexta-feira, agosto 31, 2007

Logistica

Portugal está longe de tudo ou de quase tudo. É um país periférico: para se viajar de qualquer lado do centro da Europa é preciso fazer milhares de quilómetros e atravessar a imensidão do País Basco, de Navarra, Leão, Estremadura ou Castela. A posição geográfica do país é uma desvantagem. Mas, como se costuma dizer, a necessidade é a mãe de todas as invenções e transformar fraquezas em forças é característico dos audazes. Tudo isto para dizer que, da mesma maneira que nos fizémos descobridores no século XV, poderiamos utilizar o nosso conhecimento da distância e do modo de a percorrer para passar a ser especialistas da logística e dos transportes na Europa. A quantidade de camiões TIR que fazem a viagem diariamente entre Portugal e o centro da Europa é simplesmente incrível. O que significa que existem empresas bem implantadas no sector com know-how nos domínios da gestão de frotas, coordenação de trajectos, armazenamento e transferência de mercadorias, harmonização de horários, administração de entrepostos, parcerias com outros operadores de carga, nacionais ou estrangeiros, etc, etc. Portugal poderia ser uma centro de excelência em matéria de transportes e logística tirando partido, talvez paradoxalmente, da sua marginalidade geográfica. E essa competência poderia ser utilizada, não apenas para melhorar e expandir o transporte de e para Portugal, mas também para colocar em prática estratégias de internacionalização, ou seja, de criação de filiais no estrangeiro para penetrar no mercado dos transportes entre países terceiros. Quando falo em transportes falo não apenas no transporte rodoviário que, apesar de seriamente afectado por problemas de poluição, congestionamento e consumo energético, continuará a ser muito importante, mas também noutros meios de transporte: marítimo, aéreo e ferroviário. Este último é um sector decididamente a desenvolver, o que implica mais e melhores infraestruturas, aos níveis nacional e transeuropeu, e também mais e melhores capacidades de gestão dos fluxos. Mas, aqui entro noutras zonas de debate inesgotáveis que incluem, por exemplo, as linhas de alta velocidade e a restruturação da rede ferroviária nacional...

O que queria apenas concluir é que a àrea dos transportes e da logística poderia ser um dos pólos de competitividade da nossa economia, exemplificando a transformação de uma fraqueza (periferia geográfica) numa força. Por pólo de competitividade entendo uma concentração significativa de recursos durante um certo período, com eventual apoio do Estado, num domínio com potencialidades elevadas de criação de riqueza e de retorno financeiro a médio-longo prazo.

Grande Benfica

Como se sabe sou do Benfica, como sou português ou como gosto de nabiças. Dito isto, chateia-me a elevação do Glorioso a tema omnipresente. Todos, e sobretudo os não benfiquistas, não falam de outra coisa. O Benfica espirra e o país constipa-se. O SLB é falado como se fosse a coisa mais importante do mundo ou como se fosse uma virgula em conversas perdidas. O que só revela a grandeza do dito cujo ou a ausência de outros assuntos dignos de atenção ou a mediocridade ambiente. A imprensa desportiva tornou-se num autêntico campeão de vendas, deixando os parcos jornais generalistas a anos luz de tiragem. E as desgraças mais ou menos shakespearianas do Benfica e os dislates do seu Presidente embigodado em debate inenarrável com o Pintinho contribuem para essa aquecimento das vendas dos periódicos da bola. Falem doutra coisa, especialmente os sportinguistas e portistas. Deixem de venerar as putativas misérias do Benfica e concentrem-se nos vossos espúrios sucessos. Falem da fome no mundo, do desemprego, da carestia, das inundações e dos incêndios, de sexo, das férias, das crianças e do Sócrates. Mas, deixem o intrépido Benfica em paz.

sábado, agosto 25, 2007

Grandes viagens

Vão de Soure para o Paião. Ao passar por Vinha da Rainha, parem no alto da povoação e percam o olhar nos campos de arroz por ali abaixo. O verde parece um mar interrompido por valas de àgua que se junta ao horizonte lá para os lados da Fontela e da Figueira da Foz. O efeito é magnífico num fim de tarde de um dia claro.

Vão à Serra da Boa Viagem e procurem uma estrada sem saída que leva à Bandeira. Daí observem a paisagem que se espalha pelo mar e pela terra, desde Quiaios até Palheiros da Tocha. Num dia especialmente luminoso, pode-se mesmo levar os olhos até Mira ou mesmo Aveiro. Mas, é por isso que toda a gente lá vai - para ter a sensação de ver essa parte do mundo como se estivessem por trás de uma imensa janela de avião...

Ora, o que vos quero propor é uma fuga pela esquerda desse miradouro. Aí apanha-se um trilho pedregoso que circunda a montanha e onde se pode falar com o vento e com o céu e com a liberdade dos grandes espaços. Continuem sempre, no meio de urzes e de outra vegetação rasteira, até chegar a um marco geodésico no ponto em que a montanha faz a curva para sul. De preferência, vão sózinhos ou bem acompanhados, por alguém que respeite o que a Natureza diz. Espero que haja vento. Parem de vez em quando e deixem-se embalar... e voem pelo mar adentro, sem destino.

É também por estas coisas que merece a pena andar por cá.