terça-feira, julho 31, 2007

Viagens

As verdadeiras viagens são as que se fazem longe e devagar, sem ânsia de chegar. Sem destino?... Olhando calmamente para o que se cruza no nosso caminho, atentos às surpresas, permeáveis ao deslumbramento. Não são precisas grandes coisas para causar esse deslumbramento. Detalhes insignificantes podem mexer-nos na alma, como uma cor perdida no horizonte ou um ângulo formado por uma àrvore ou um rosto em contra-luz. As verdadeiras viagens espalham qualquer coisa de nós pelo mundo e enchem-nos de vestígios, colam-se-nos à pele, ficam para sempre no fundo dos olhos. As verdadeiras viagens não são filmes: são colecções de fotografias, tiradas, uma a uma, sem pressa, revistas inúmeras vezes com a mesma devoção.

domingo, julho 29, 2007

Felicidade

"O orador seguinte era Lewis Carnegie (...)

- O elemento mais fundamental da felicidade é a infelicidade. A felicidade é uma emoção complexa, mista. Muitas vezes as pessoas preferem coisas que lhes provocam dor em vez de lhes darem prazer: por isso preferimos o amor à mera gratificação sexual, a dura verdade à ignorância. Para demonstrar o meu ponto de vista, assumo uma sociedade estruturada de modo a grantir que toda a vida é agradável e gratificante. Neste Maravilhoso Mundo Novo não há sofrimento físico, nem fome, nem cansaço, nem desespero. O prazer, o conforto, o êxtase só têm significado através do contraste. Não podemos conhecer a satisfação se não tivermos antes experimentado a falta dela. Rejeito o contentamento preguiçoso: o tédio é a morte da felicidade. Quero sofrimento para poder ser verdadeiramente feliz. O direito de procurar a felicidade? Preservemos antes o direito de sermos infelizes. Porque sem a infelicidade, a felicidade não tem significado.

Seria verdade? Que a felicidade nada era a menos que se tivesse experimentado a infelicidade para poder comparar? Parecia uma loucura pensar que a infelicidade era uma parte importante de ser feliz, mas fazia uma espécie de estranho sentido..."

Carta a um amigo

Caro amigo

Já que não nos vemos há tanto tempo e como continuaremos durante tanto tempo sem nos vermos, porque a vida nos puxa para outros lados e não há maneira de encontrarmos a mágica disponibilidade para conversar sem ser por aquele maldito telefone que nos dá a ilusão da proximidade mas que não passa de um amortecedor da distância, manda-me umas fotografias tuas e do sítio onde vives e dos teus amigos. As fotografias são outro alibi, dão-nos a ideia de ver a vida numa folha de papel. Mas, a vida é para viver, não é para observar à distância. Faz-me lembrar aqueles turistas que acabam por não gozar os sítios que visitam porque passam o tempo a tirar esplêndidas fotografias que depois encaixilham e metem no fundo de gavetas perdidas ou em ficheiros de computador com nomes coloridos. Mas, as fotografias são melhor do que nada e pior do que o essencial. E o essencial é a alma e o coração. E que eu saiba não se tiram fotografias à alma e ao coração. Ou talvez sim, porque as pessoas verdadeiras transportam no rosto e no corpo o que lhes vai na alma e no coração. E as pessoas frágeis não conseguem evitar esse reflexo.

Desejo-te umas boas férias e, no fim de contas, manda-me umas fotografias e que não sejam pretexto para adiar mais uma vez o encontro que combinámos à volta de uma mesa farta.

Um abraço
Miguel

sexta-feira, julho 27, 2007

segunda-feira, julho 23, 2007

Diversos

Na Turquia ganhou Erdogan, um islamista que desafia o establishment laico que tem controlado o governo e as forças armadas e distribuído privilégios a minorias distantes do povo. Talvez seja positivo porque pode demonstrar que o islamismo não é forçosamente sinónimo de ditadura ou de perda de liberdades cívicas. Pode ser uma maneira de civilizar ou educar o islamismo, de o tornar compatível com a democracia e com a defesa dos interesses dos mais desfavorecidos. Naturalmente, é preciso ver no que dá uma religião de Estado, em que medida é que pode derrapar em qualquer coisa de tristemente conhecido noutras paragens… Foi também uma afirmação de soberania : dizer ao Ocidente e à União Europeia que os Turcos não vendem a alma e a História por dez reis de mel coado. Mas, assim sendo, torna-se ainda mais evidente o hiato civilizacional e a dificuldade em concretizar a adesão à União Europeia. Também se poderia dizer que a ponte entre Oriente e Ocidente, entre cristianismo e islamismo seria ainda mais eficaz com a “neutralização”, no quadro da União Europeia, de um país islâmico. Mas, convenhamos, tratar-se-ia de uma estratégia arriscada...

Gosto muito de Itália e de muitos italianos. Mas, conheço poucos italianos que não sejam essencialmente mafiosos. Obviamente, não me refiro a criminosos ou a membros da “cosa nostra” ou de alguma das suas múltiplas ramificações como a N’drangheta calabrese ou a Camorra napolitana. Socialmente e culturalmente os italianos tendem a ser mafiosos. E isso torna-os ainda mais fascinantes e, paradoxalmente, leais… Os italianos são criativos e artistas. E isso também se traduz na maneira como vivem, como se desenrascam e como tramam o parceiro. Frequentemente com um sorriso nos lábios.

Os suicídios no posto de trabalho continuam em França, em empresas como a Renault e a Peugeot. O trabalho é um lugar privilegiado de socialização, onde se obtém uma certa visibilidade, onde o valor de cada um é mais exposto. Um suicídio é uma forma drástica de comunicação, é um grito de mal-estar, cujo eco se prolonga mais num espaço de tipo publico como uma fábrica ou um escritório. Um suicídio é um ataque a si próprio e aos outros, a circunstâncias específicas ou a factores gerais de sofrimento. Mais uma vez, um local de trabalho amplifica a audiência e a eficácia do acto. Particularmente, se se tratar de empresas ou organizações com uma certa projecção mediática, o privado e o público fundem-se para tornar mais difusa e acutilante a mensagem de um suicídio.

quinta-feira, julho 19, 2007

Escolhas

Entre as escolhas mais difíceis, figuram as que se devem fazer entre a ambição e os princípios. Felizardos os que beneficiam da coincidência entre ambos. Mas, também são os mais sacanas. Os que "nunca se enganam e raramente têm dúvidas". Os outros, os que não dormem e roem as unhas a pensar nessas escolhas, são os sensíveis, os hesitantes, os delicados, os que têm escrúpulos e perguntam vezes demais qual é o sentido da vida. Esses são decididamente mais interessantes, mais apropriados a personagens de romances intimistas. São acusados frequentemente de imaturidade. Ficam sempre agarrados às suas vidas que confundem com o resto do mundo.

quarta-feira, julho 18, 2007

Crónica de Verão

Quando era pequeno íamos à praia em Agosto, ao domingo, à Figueira. A minha avó fazia o arroz de galinha na véspera. Acordávamos cedo e lá íamos no carocha branco, BF-62-01, com a trouxa habitual. Não havia auto-estrada e a viagem era longa e enfadonha. Chegávamos à praia por volta das 10 horas e já havia muita gente no areal, verdadeiros militantes da coisa : lancheiras orgulhosas por todo o lado, putos barulhentos, mães e avós gordas, pais a ler o jornal e a ouvir o rádio e a fazer de conta que não viam a gaja boa a manear as ancas à beira-mar. O sol subia e as pessoas torravam na toalha, bezuntadas de Nivea (aquele do boião azul…), à espera das 3 horas fatídicas da digestão. Entre o meia-dia e a uma, era o assalto ao mar chão de Buarcos. A àgua estava sempre fria como o diabo, os lábios ficavam roxos, mas a coragem dos veraneantes não tinha limites. Quase se disputavam centímetros de àgua e dar uma braçada mais larga podia ser uma bofetada no parceiro do lado. Voltava tudo para a toalha onde o suor do sol se sucedia ao tremor do frio. E a avó propunha sempre uma bolachinha e um Compal, mesmo se o almoço não tardava. Pois bem, o almoço era inevitavelmente debaixo dos pinheiros da Serra da Boa Viagem (quando ali havia pinheiros porque agora só há arbustos, depois de terem queimado aquilo tudo...). O arroz de galinha saía do Tupperware à mistura com uns bolinhos de bacalhau e tudo o resto. Depois, vinha a maldita sesta. Os pais e a avó dormiam como peregrinos estafados e eu e a minha irmã não viamos o tempo passar, fartos de tanto abandono e preguiça. Às vezes, aventurava-me na floresta, mas era pequeno e tinha medo e não ía longe, voltando para junto dos meus, que continuavam a dormir, para meu desespero. Finalmente, lá íamos embora, serra abaixo até à praia, que não parecia a mesma, mais vazia, com uma cor pálida, fustigada pela nortada. A areia entrava por todo o lado, na mais recôndita prega do nosso corpo. Extenuados de tanta resistência acabávamos por ir embora para a fila dos carros que regressavam. Parávamos ao crepúsculo em Montemor, numa fonte branca e misteriosa, à beira do Mondego e lá vinham os restos do arroz de galinha, do Compal e do pão de ló. Cansados mas felizes tornávamos a casa e o Domingo fechava-se na noite que cobria o saudoso carocha, entre pinháis e campos de arroz nas margens do Mondego.

terça-feira, julho 17, 2007

Sarkozy introduz uma nova dimensão na política europeia. Poderiamos chamá-la de neo-napoleónica com forte carga mediática. O homem é de uma hiper-actividade que cansa o mais incauto dos cidadãos em frente a um telejornal da TV francesa. Corre, salta, ri, voa, abraça, cumprimenta, dispara « novas » e « revolucionárias » ideias em todas as direcções. O homem quer mudar tudo e mandar em tudo. Ele é a França e o mais recôndito sítio da França deve prestar-lhe contas. Construiu uma rede de influências e de informações ímpar que não lhe deixa escapar o mínimo pormenor importante.

A sua astúcia vai ao ponto de neutralizar os adversários, oferecendo-lhes prebendas : casos de Bernard Kouchner (socialista, Ministro dos Negócios Estrangeiros), Dominique Strauss-Kahn (socialista, convidado para candidado da França a patrão do FMI), Jacques Lang (socialista, mitterandista, convidado para presidir uma Commissão governamental). E o resultado é o completo desnorte no Partido Socialista. Mas, tudo isso são pequenos e aparentes poderes porque o grande e verdadeiro poder permanece nas suas mãos, nas mãos de Nicolas.

Nicolas cuida a sua imagem e as suas aparições com uma eficácia cirúrgica : os media tem um papel absolutamente central na sua estratégia. Mais do que hiper-fazer importa hiper-parecer que se faz, que se muda para o bem da França e do mundo. O que conta é a dinâmica que se cria, uma certa ilusão de mudança ou de possibilidade de mudança. E rapidamente. Como se a sociedade e a economia se vergassem ao voluntarismo visionário do neo-Napoleão.

Nicolas encarna o mito do homem que pode mudar a própria vida e mudar o mundo através de uma vontade indomável e de um activismo sem tréguas. E sobre isso, conta mais a publicidade do que a realidade. Porque bastará parecer para ser… neste media-mundo.

Nicolas agrada a muita gente, incluindo os pobres, porque transmite a esperança de mudar e de subir na vida com o próprio esforço. Por isso, há qualquer coisa de Americano em Nicolas e, sobretudo, de populista. Mas, ao mesmo tempo, defende os interesses dos ricos, designamente, fazendo-lhes poupar impostos. Isso não é contraditório : Nicolas quer apenas não penalizar o sucesso, de que a riqueza material é uma prova eloquente… neste mundo neo-liberal. É necessário encorajar os ricos a serem mais ricos porque assim investem e arriscam mais para o bem comum (como profetizava Adam Smith)… e porque se tornam ainda mais invejáveis para os pobres. Bastará aos pobres trabalhar arduamente para aceder aos privilégios dos ricos, incluindo os que lhes são concedidos pelo Estado.

Esta é, no fundo, a filosofia política de Nicolas. Portanto, não tanto original, apesar de imponente dada a sua hiper-mediatização.

domingo, julho 15, 2007

Flamenco

Wiltz é uma pequena cidade no norte do Luxemburgo onde existe uma Senhora "de Fátima" celebrada todos os anos na data que se sabe pelos muitos portugueses que por aqui há. Para lá da Sra. "de Fátima" de Wiltz, de um bonito castelo, da memória trágica da II Guerra Mundial e das magníficas paisagens que circundam a cidade, não haveria muito mais a dizer... salvo um excelente festival de música, dança e teatro que se realiza todos os anos no Verão e que atrai pessoas de muito longe e grupos artísticos de grande qualidade e de várias proveniências, bem longe do timorato Grão-Ducado. Este ano fui ver o Bolero Flamenco do Ballet Teatro Espanhol de Rafael Aguilar. Simplesmente fantástico, especialmente a interpretação de um bailarino que se chama Francisco Guerrero (na fotografia com Rosa Jiménez), cujo corpo mais parece um elástico, que respira dança e que exprime tudo com uma ímpar flexibilidade de movimentos. Depois, o Bolero de Ravel representado "em flamenco" por um conjunto de bailarinos extraodinários e com uma coreografia lindíssima.

O flamenco também ajuda a perceber a Espanha actual (ou o Sul da Espanha ?): a sua vitalidade, energia, criatividade, raiva, tragédia, convicção, força e beleza. É uma mistura explosiva de árabes, ciganos e europeus (judeus sobretudo), de passado (heróico), de presente (trágico) e de (uma indomável vontade) de futuro.

quarta-feira, julho 11, 2007

Democracia e decisão

Tive um professor que achava que a democracia era assim: as pessoas votam naqueles que lhes agradam e depois são esses que mandam. Mas, mandam! Os eleitos não podem estar permanentemente a agir como se novas eleições fossem no minuto seguinte. Os eleitos recebem um mandato para mandar em determinado sentido. E mandam! Não têm dúvidas existenciais no momento de cada decisão. Não perguntam pela enésima vez aos eleitores o que é que devem fazer. Não fazem a quadratura do círculo à procura de consensos inverosímeis. A eleição permanente não é sinónimo de democracia. Os cidadãos delegam nos eleitos a capacidade de interpretar a vontade maioritária.

Ok. Até aqui estamos entendidos.

Mas, se os representantes da vontade popular começam a fazer a "coisa" fora do penico, o povo tem de ter um meio para os meter nos eixos. Na antiga Grécia, berço da democracia, existiam tribunais que podiam desapossar os eleitos das suas prerrogativas, caso eles não respeitassem o direito, a moral e o mandato que lhes tinha sido confiado. Nos Estados Unidos, existe o chamado "recall" através do qual um grupo significativo de eleitores pode convocar uma eleição para desalojar os eleitos que não cumprem as suas promessas ou que revelam manifesta incompetência ou prejuizo do interesse público. Foi de resto na sequência de um processo desses que em 2003 Arnold Schwarzeneger se tornou governador da California em substituição do destítuido Gray Davis. E também há o "impeachment" através do qual o Parlamento pode revogar o mandato de um Presidente como foi o caso de Nixon nos Estados Unidos ou de Collor de Melo no Brasil.

Para além da oposição parlamentar e dos protestos de rua, a democracia tem dispositivos (de denúncia e de vigilância) para colocar os eleitos em consonância com a moral e com a lei, e com a vontade colectiva, entre os processos eleitorais, sem prejuizo do legítimo exercício do poder democrático, no respeito do programa votado nas urnas. Não há poder democrático que permaneça em contradição excessiva e persistente com o interesse geral e com a vontade maioritária renovada.

segunda-feira, julho 09, 2007

Fiat 500 Spot

Este é um exemplo de instrumentalização de uma memória colectiva, da história de um país para fins publicitários a favor de interesses privados bem precisos. É sabido o papel que o Fiat 500 desempenhou na Itália do pós-guerra, transformando-o num ícone do crescimento, da urbanização e do surto da classe média nesse período, como foi também o caso do 2 cavalos em França ou do carocha na Alemanha. Mas, colar de forma tão despudorada uma mercadoria a um imaginário político e cultural é algo original. Seja como for, os Italianos estão habituados a pagar as perdas da Fiat e a ceder os lucros aos seus accionistas privados, à cabeça dos quais se encontra a família Agnelli. E, a pretexto do peso relativo no país dos empregos, do investimento e das exportações do grupo, todo o tipo de benesses lhe é concedido. Abençoada promiscuidade publico/privado num país onde os campeões nacionais da industria não abundam... para além dos da moda (Armani, Gucci, Valentino, Fendi, etc.) e da "pasta" (Barila).

domingo, julho 08, 2007

Os sete horrores de portugal

Pel' O Jumento.

Novas 7 Maravilhas do Mundo

Grande Muralha da ChinaTaj MahalCristo RedentorPetra

Machu PicchuPirâmide de Chichén Itzá
Coliseu de Roma
Eu tinha votado no Taj Mahal, em Machu Picchu, na Pirâmide de Chichén Itzá e no Coliseu.
Fiquei com muita pena que não tivesse ganho Angkor...

sexta-feira, julho 06, 2007

Quero viajar! Ir para um sítio novo, fugir do mundo como o conheço e encontrar novas visões das coisas. Sem regras definidas por outros, sem restrições temporais, espaciais, materiais... Com o meu próprio tempo, de duração desconhecida, no espaço do meu corpo, ilimitado e, ao mesmo tempo tão reduzido.

quinta-feira, julho 05, 2007

Mais do mesmo

É minha impressão ou anda por aí uma enorme falta de verdadeiras notícias, de autênticas novidades ? Abrem-se os jornais, vê-se a televisão, ouve-se o rádio e sai a treta do costume. Os jornalistas bem se esforçam por surpreender as pessoas, mas o que têm para vender são cimeiras da presidência portuguesa, extasiada consigo mesma, mais uma tentativa de atentado em Londres, mais uns não sei quantos fundamentalistas islâmicos que arranjam as confusões habituais, o Bush que voa de asneira em asneira como uma libelinha desajeitada, o PS que monopoliza cada vez mais o poder, incluindo os micro-poderes espalhados por esse país fora. E a oposição que estrebucha como pode. Coitados. E coisas assim, déjà vu, cansativas, que não põem em causa a monotonia do quotidiano e a legítima expectativa de férias num Verão que teima em não se exprimir na plenitude dos seus clássicos atributos. Até a meteorologia caprichosa se tornou uma rotina...

É claro que os desempregados e os trabalhadores em situação precária não devem gostar da cantiga da flexisegurança. É claro que os devedores de empréstimos para compra de habitação não devem gostar dos anúncios de aumento das taxas de juro. É claro que os estudantes estão fartos dos erros dos enunciados das provas de exame. É claro que as pessoas competentes que são preteridas por não terem o cartão certo se acham, a justo título, vítimas de uma democrática injustiça. É claro que os números da violência doméstica fazem mal. Mas, tudo isso, infelizmente, é só mais do mesmo e faz parecer os dias e as semanas cada vez mais parecidos.

E o defeso do futebol (para quem gosta dele...) também não ajuda a colmatar a falta de emoções fortes. E as contratações de craques que vão sendo anunciadas pelos 3 grandes não deixam ninguém entusiasmado.

Anda tudo farto de falsas surpresas e de extemporâneas urgências. Anda toda a gente a precisar de ir a banhos, depois de um ano pesado e insípido, para enfrentar mais um ano de repetições... ou talvez não...

BIO-...

Actualmente, toda a gente fala de bio-combustivel, uma putativa solução miraculosa para os problemas energéticos e ambientais. Ora, é preciso acrescentar o seguinte :

1) pelo menos uma parte da terra dedicada à produção de plantas para produzir combustível é retirada à produção de alimentos ; o risco de escassez e de consequente aumento dos preços dos alimentos é bem real (clicar no título) ;
2) para evitar o efeito do ponto anterior, pode-se transformar superfícies até agora florestais em superfícies de cultura intensiva de plantas para produção de combustível ; mas, o impacto ambiental de uma tal re-afectação de recursos é extremamente negativo ;
3) o custo actual de produção do bio-combustível é competitivo se (a) o preço do petróleo se mantiver tão elevado como nos últimos 6-12 meses e (b) não se desenvolverem outras alternativas económicas ao petróleo.

Dito isto, é curiosa nesta matéria a convergência (certamente casual...) entre os ambientalistas e os interesses das companhias petrolíferas, ciosas do seu negócio tradicional, pelo menos no curto prazo. Apesar de que, mesmo as petrolíferas, parecem converter-se ao bio… (veja-se a colaboração entre a Petrobras e a Galp anunciada ontem com pompa e circunstância).

segunda-feira, julho 02, 2007

Natalidade

As estatísticas mostram que existe um aumento da natalidade nos últimos anos na Europa Ocidental. Esta inversão de tendência é bem-vinda e, na minha opinião, tem um significado profundo e interessante. A minha tese é a de que ter filhos é uma forma de votar... sociologicamente falando, é uma reacção a determinadas condições sociais. Bem sei que se trata também de uma decisão eminentemente individual e familiar que se situa na intersecção de múltiplas motivações (afectivas, económicas, religiosas, etc.).

O que acontece é que a sociedade tem vindo a privilegiar valores como o materialismo, o individualismo, o sucesso, a competição, o hedonismo, a beleza, a juventude, etc. As pessoas, em geral, aderem e conduzem as suas vidas em consonância com o bombardeamento desses valores feito pela política, pela cultura e por várias formas de publicidade, explícita ou oculta. O problema é que também não escapam aos malefícios desses "sofismas": o stress, a angústia, a depressão, a agressividade, o egoísmo, a perda de sentido, o primado do racional sobre o afectivo.

Pois bem. Uma das respostas a essas ameaças consiste em revalorizar a família. Os jovens, sobretudo, querem casar-se e ter filhos e ter um núcleo de afectos e de conforto, uma espécie de reduto contra a hostilidade ambiente, em que também participam, mas com uma rectaguarda mais ou menos protegida, onde os filhos desempenham um papel central, uma alternativa ao desencanto das ambições venais, uma prova de que a inocência não morreu. Naturalmente, também sabem que se podem divorciar e que a probabilidade de que tal aconteça é mesmo elevada. [A alta natalidade e a alta mortalidade dos casamentos andam actualmente a par...] Mas, as pessoas arriscam da mesma maneira, e o divórcio é uma manifestação eloquente da ambivalência dos tempos modernos: quer-se família e vínculos e segurança, mas também se quer liberdade e autonomia e prazer, tudo ao mesmo tempo e em doses "industriais". Está-se cada vez menos disposto a renunciar e a fazer sacríficios e a ceder. Este não é um tempo de escolhas; é um tempo de bulímica acumulação de "prioridades", de exageradas expectativas cuja não realização provoca, com demasiada frequência, desistência e grande frustração.

As pessoas querem um refúgio contra as adversidades do hiper-modernismo, mas não escapam, mesmo no seio das famílias que criam, aos pecados e às armadilhas individualistas desse hiper-modernismo. Querer ter filhos nos tempos que correm é dizer (principalmente, as mulheres) que se está farto da agressão e do cinismo dos valores dominantes. É dizer que se crê ainda no futuro e que as pessoas não são apenas máquinas de eficiência. É arriscar. E vida sem risco não existe.

Para os mais perspicazes

Uma empresa de publicidade leva os candidatos a passar por um conjunto de testes de lógica para poderem preencher o formulário de recrutamento para trabalharem nessa empresa. Os testes são no mínimo interessantes... Experimentem e tentem chegar ao último passo. Aqui.

domingo, julho 01, 2007

A apologia do gato


Em tempos de estudo, o meu sonho era ser um gato... Quem não gostava de ser um gato? Dormem, comem, brincam, não têm obrigações nem responsabilidades, não dão contas a ninguém... Os gatos são o exemplo mais claro do hedonismo.

Já Fernando Pessoa dizia:

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Além disso, olhem para o Garfield...


Não dá mesmo inveja?



Para ver a letra desta música clicar aqui.

quinta-feira, junho 28, 2007

Se eu falasse com o mar
E a espuma saltasse à corda
Se o sol pingasse como àgua fresca
E a praia fosse uma alcova
Se o verde se misturasse com o azul
E as àrvores galgassem as ondas

Se o corredor da minha casa fosse um desfiladeiro
Se a minha casa não existisse e fosse eu
Se o tempo fosse uma cantiga de embalar
Se nunca mais fosse ontem

terça-feira, junho 26, 2007

Berardo (o Joe)

Faz-me pena que a divulgação artística no meu país seja traficada por um troglodita como o Berardo que, para além de algum dinheiro, um nome gringo e um estilo fanfarrão e broeiro de "self-made man", não apresenta outras credenciais dignas de referência.

Por amor de deus: o homem até parece simpático, sempre a rir, com aquele aspecto maganão, vestido com camisolas pretas de gola alta que lhe dão uma elegância impossivel, uma falsa displicência e um ar de conquistador da Madragoa. Parece estar sempre a desafiar a canalha, acenando com euros e dólares por todo o lado. A canalha inclui ministros, financeiros e quejandos: bateu o pé ao Jardim Gonçalves, apareceu na OPA da PT pela Sonae como um protector omnipotente, permitiu-se entrar no Benfica como se o Glorioso fosse um bordel de acesso descontado, pega no Sócrates e na Ministra da Cultura pela coleira e diz que deu um presente ao país, cedendo-lhe o direito de comprar a sua colecção de arte por 320 milhões de euros nos próximos 10 anos... E, ainda por cima, decreta o que é que a "sua" fundação deve fazer e quando e quem é que a deve dirigir e como... O primeiro-ministro diz que este emérito benfeitor, qual rei midas do Funchal, colocou, finalmente, o país no roteiro mundial da arte moderna. Credenciados especialistas dizem, no entanto, que a "coisa" figura muito abaixo do centésimo lugar das colecções de arte dignas desse nome.

Berardo (o Joe) está à altura do país e o país tem os beneméritos que merece. E ainda haverá por aí quem me acuse de "pobre e mal agradecido"... Mas, não é o Primeiro-ministro e o Presidente da República que dizem que as ambições de Portugal não devem ter limites e que é chegada a hora de resgatar a glória perdida e voltar a ser uma grande Nação? Pois bem: gajos como Berardo (o Joe) são limites à nossa ambição. São erupções de marialvismo endinheirado admiradas por um bando de pacóvios que não pode dizer que não a tanta, putativa generosidade de cordel.

Quem me dera ser injusto...

segunda-feira, junho 25, 2007

Sócrates

Cliquem no título para ver o que pensa o Financial Times sobre o nosso Primeiro-Ministro, na véspera do ínicio da presidência portuguesa da União Europeia: "homem de planeamento meticuloso e de atenção ao detalhe", "socialista modernizador à maneira de Blair (...) com uma figura elegante e, segundo o seu alfaiate, o político mais bem vestido de Portugal", "fã de jogging nas primeiras horas da manhã, proporcionou oportunidades únicas aos fotógrafos na Praça Vermelha e em Copacabana", "a tenacidade explica a sua popularidade não obstante os custos imediatos das suas reformas", etc, etc.

sábado, junho 23, 2007

Conselho da UE Bruxelas 21-22 Junho 2007

O Conselho Europeu que decorreu em Bruxelas esta semana cedeu ao nacionalismo e ao neo-liberalismo, essencialmente protagonizados pelo Reino Unido, para evitar um fiasco. Mas, na prática o que se conseguiu foi um meio fiasco. Bem sei que a União Europeia é feita de longas negociações e de espinhosos compromissos e que a renúncia à soberania nacional não se faz de ânimo leve. Mas, a União encontra-se num ponto em que deve optar entre (a) a continuidade (estagnação?) no âmbito do que se adquiriu e da consolidação dos alargamentos já efectuados e (b) o aprofundamento da sua natureza o que significa mais união política e, portanto, mais federalismo, nomeadamente, a nível de políticas social, externa e de defesa. Pode dizer-se, a justo título, que (b) é de certa maneira contraditório com os alargamentos. Essa seria uma das razões pelas quais alguns líderes, como Romano Prodi, ventilam a ideia de uma União a duas velocidades: um grupo preparado para andar mais depressa na via do federalismo e um outro grupo de países mais interessados na componente puramente económica da União. No segundo, incluir-se-iam países como a Holanda, o Reino Unido e a Polónia. Isso, porém, poderia gerar um efeito centrífugo irreversível, levando à divisão da actual UE em duas uniões: uma união económica para os "nacionalistas" e uma União política para os "federalistas".

Coimbra

Se clicarem no título encontrarão uma série de fotografias de Coimbra de outros tempos (década de 70), quando eu andava no liceu e na faculdade, divulgadas num "post" de um site sueco. É surpreendente como as coisas, no essencial, não mudaram, mais rotunda menos rotunda, mais cor menos cor, mais ponte menos ponte (é claro que faltam agora os eléctricos, os trolleys, os Citroën Dyane, os Fiat 127, a Casa das Cintas...). As pessoas, sim, mudaram. Aquelas calças "à boca de sino" são lendárias.

Essas fotografias fizeram-me andar para trás e sentir o peso do tempo. Um tempo psicológico, mais do que cronológico ou físico. E fizeram-me pensar que Coimbra me emociona, à distância, mais pelo mito do que pela realidade. Acho que, no fundo, perto ou longe, sempre foi sim... E afinal isso não é mais do que uma confirmação da pertinência da letra da famosa canção: "Coimbra tem mais encanto na hora da despedida".

quarta-feira, junho 20, 2007

Antónios Costas

Título do Diário de Coimbra de hoje: “Psiquiatras forenses de referência fazem exame a António Costa”. Fiquei com receio de que se tratasse do candidato socialista à Câmara Municipal de Lisboa… Seria uma surpresa lamentável ou mais um golpe baixo da oposição ! Afinal não é assim. O sub-título esclarece: “Ex-GNR de Santa Comba Dão passou manhã no Instituto de Medicina Legal”. Uff…

segunda-feira, junho 18, 2007

François et Ségolène

Ségolène Royale e François Hollande vivem juntos há muito tempo e têm filhos em comum. Ségolène foi candidata socialista (derrotada) à Presidência da República de França. François tem sido Secretário-geral do PS e chegou a ser concorrente a candidato à Presidência, contra a sua própria companheira. Sempre me meteu grande confusão esta promiscuidade entre esposos e políticos com ambições antagónicas. Como se podia dizer cobras e lagartos das ideias do outro durante o dia e ir para a cama com ele à noite ? Enfim – pensava eu – talvez se trate de uma daquelas maravilhas cartesianas a que os Franceses nos habituaram, um monumento à emancipação das mulheres e dos homens, um exemplo de que a concorrência profissional pode não colidir com a vida sentimental e familiar. Chapeau !

François é cada vez mais contestado como leader dos socialistas por « elefantes » como Strauss-Kahn e Laurent Fabius e por « jovens leões » como Arnaud Montebourg. Ségolène tenta levantar-se do fracasso nas presidenciais. Participou activamente nas eleições legislativas que se concluiram ontem com um desaire do PS (apesar de menos retumbante do que se esperava, dada a avalanche do UMP de Sarkozy).

Hoje ouvi na rádio que Ségolène e François se separaram. No princípio, não percebi se o jornalista se referia, mais uma vez, à política ou à vida conjugal. Pensei : estão de novo em desacordo no seio do PS, mas lá em casa a coisa deve continuar bem como dantes. Et bien non ! Desta vez separaram-se mesmo : nada de viver sob o mesmo tecto ou dormir na mesma cama ou fazer de conta que assim seria. Finalmente, clareza na vida deles e na minha cabeça. Hélas !

domingo, junho 17, 2007

Mais uma música inspiradora...




Donna Maria - Sempre, Para Sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele

Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante

Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão

Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado

Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue bem quente

Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca tocado

Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso

Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada mas nada
Te faz contente me faz contente

Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido

Há amor eterno
Sem nunca talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez

Meanwhile

Aqui vai um belo dum blog sugerido por um amigo, ideal para as pausas na queima de neurónios... Isto sim, é um tesourinho deprimente! Espero que seja do agrado de todos.