quinta-feira, julho 05, 2007

BIO-...

Actualmente, toda a gente fala de bio-combustivel, uma putativa solução miraculosa para os problemas energéticos e ambientais. Ora, é preciso acrescentar o seguinte :

1) pelo menos uma parte da terra dedicada à produção de plantas para produzir combustível é retirada à produção de alimentos ; o risco de escassez e de consequente aumento dos preços dos alimentos é bem real (clicar no título) ;
2) para evitar o efeito do ponto anterior, pode-se transformar superfícies até agora florestais em superfícies de cultura intensiva de plantas para produção de combustível ; mas, o impacto ambiental de uma tal re-afectação de recursos é extremamente negativo ;
3) o custo actual de produção do bio-combustível é competitivo se (a) o preço do petróleo se mantiver tão elevado como nos últimos 6-12 meses e (b) não se desenvolverem outras alternativas económicas ao petróleo.

Dito isto, é curiosa nesta matéria a convergência (certamente casual...) entre os ambientalistas e os interesses das companhias petrolíferas, ciosas do seu negócio tradicional, pelo menos no curto prazo. Apesar de que, mesmo as petrolíferas, parecem converter-se ao bio… (veja-se a colaboração entre a Petrobras e a Galp anunciada ontem com pompa e circunstância).

segunda-feira, julho 02, 2007

Natalidade

As estatísticas mostram que existe um aumento da natalidade nos últimos anos na Europa Ocidental. Esta inversão de tendência é bem-vinda e, na minha opinião, tem um significado profundo e interessante. A minha tese é a de que ter filhos é uma forma de votar... sociologicamente falando, é uma reacção a determinadas condições sociais. Bem sei que se trata também de uma decisão eminentemente individual e familiar que se situa na intersecção de múltiplas motivações (afectivas, económicas, religiosas, etc.).

O que acontece é que a sociedade tem vindo a privilegiar valores como o materialismo, o individualismo, o sucesso, a competição, o hedonismo, a beleza, a juventude, etc. As pessoas, em geral, aderem e conduzem as suas vidas em consonância com o bombardeamento desses valores feito pela política, pela cultura e por várias formas de publicidade, explícita ou oculta. O problema é que também não escapam aos malefícios desses "sofismas": o stress, a angústia, a depressão, a agressividade, o egoísmo, a perda de sentido, o primado do racional sobre o afectivo.

Pois bem. Uma das respostas a essas ameaças consiste em revalorizar a família. Os jovens, sobretudo, querem casar-se e ter filhos e ter um núcleo de afectos e de conforto, uma espécie de reduto contra a hostilidade ambiente, em que também participam, mas com uma rectaguarda mais ou menos protegida, onde os filhos desempenham um papel central, uma alternativa ao desencanto das ambições venais, uma prova de que a inocência não morreu. Naturalmente, também sabem que se podem divorciar e que a probabilidade de que tal aconteça é mesmo elevada. [A alta natalidade e a alta mortalidade dos casamentos andam actualmente a par...] Mas, as pessoas arriscam da mesma maneira, e o divórcio é uma manifestação eloquente da ambivalência dos tempos modernos: quer-se família e vínculos e segurança, mas também se quer liberdade e autonomia e prazer, tudo ao mesmo tempo e em doses "industriais". Está-se cada vez menos disposto a renunciar e a fazer sacríficios e a ceder. Este não é um tempo de escolhas; é um tempo de bulímica acumulação de "prioridades", de exageradas expectativas cuja não realização provoca, com demasiada frequência, desistência e grande frustração.

As pessoas querem um refúgio contra as adversidades do hiper-modernismo, mas não escapam, mesmo no seio das famílias que criam, aos pecados e às armadilhas individualistas desse hiper-modernismo. Querer ter filhos nos tempos que correm é dizer (principalmente, as mulheres) que se está farto da agressão e do cinismo dos valores dominantes. É dizer que se crê ainda no futuro e que as pessoas não são apenas máquinas de eficiência. É arriscar. E vida sem risco não existe.

Para os mais perspicazes

Uma empresa de publicidade leva os candidatos a passar por um conjunto de testes de lógica para poderem preencher o formulário de recrutamento para trabalharem nessa empresa. Os testes são no mínimo interessantes... Experimentem e tentem chegar ao último passo. Aqui.

domingo, julho 01, 2007

A apologia do gato


Em tempos de estudo, o meu sonho era ser um gato... Quem não gostava de ser um gato? Dormem, comem, brincam, não têm obrigações nem responsabilidades, não dão contas a ninguém... Os gatos são o exemplo mais claro do hedonismo.

Já Fernando Pessoa dizia:

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Além disso, olhem para o Garfield...


Não dá mesmo inveja?



Para ver a letra desta música clicar aqui.

quinta-feira, junho 28, 2007

Se eu falasse com o mar
E a espuma saltasse à corda
Se o sol pingasse como àgua fresca
E a praia fosse uma alcova
Se o verde se misturasse com o azul
E as àrvores galgassem as ondas

Se o corredor da minha casa fosse um desfiladeiro
Se a minha casa não existisse e fosse eu
Se o tempo fosse uma cantiga de embalar
Se nunca mais fosse ontem

terça-feira, junho 26, 2007

Berardo (o Joe)

Faz-me pena que a divulgação artística no meu país seja traficada por um troglodita como o Berardo que, para além de algum dinheiro, um nome gringo e um estilo fanfarrão e broeiro de "self-made man", não apresenta outras credenciais dignas de referência.

Por amor de deus: o homem até parece simpático, sempre a rir, com aquele aspecto maganão, vestido com camisolas pretas de gola alta que lhe dão uma elegância impossivel, uma falsa displicência e um ar de conquistador da Madragoa. Parece estar sempre a desafiar a canalha, acenando com euros e dólares por todo o lado. A canalha inclui ministros, financeiros e quejandos: bateu o pé ao Jardim Gonçalves, apareceu na OPA da PT pela Sonae como um protector omnipotente, permitiu-se entrar no Benfica como se o Glorioso fosse um bordel de acesso descontado, pega no Sócrates e na Ministra da Cultura pela coleira e diz que deu um presente ao país, cedendo-lhe o direito de comprar a sua colecção de arte por 320 milhões de euros nos próximos 10 anos... E, ainda por cima, decreta o que é que a "sua" fundação deve fazer e quando e quem é que a deve dirigir e como... O primeiro-ministro diz que este emérito benfeitor, qual rei midas do Funchal, colocou, finalmente, o país no roteiro mundial da arte moderna. Credenciados especialistas dizem, no entanto, que a "coisa" figura muito abaixo do centésimo lugar das colecções de arte dignas desse nome.

Berardo (o Joe) está à altura do país e o país tem os beneméritos que merece. E ainda haverá por aí quem me acuse de "pobre e mal agradecido"... Mas, não é o Primeiro-ministro e o Presidente da República que dizem que as ambições de Portugal não devem ter limites e que é chegada a hora de resgatar a glória perdida e voltar a ser uma grande Nação? Pois bem: gajos como Berardo (o Joe) são limites à nossa ambição. São erupções de marialvismo endinheirado admiradas por um bando de pacóvios que não pode dizer que não a tanta, putativa generosidade de cordel.

Quem me dera ser injusto...

segunda-feira, junho 25, 2007

Sócrates

Cliquem no título para ver o que pensa o Financial Times sobre o nosso Primeiro-Ministro, na véspera do ínicio da presidência portuguesa da União Europeia: "homem de planeamento meticuloso e de atenção ao detalhe", "socialista modernizador à maneira de Blair (...) com uma figura elegante e, segundo o seu alfaiate, o político mais bem vestido de Portugal", "fã de jogging nas primeiras horas da manhã, proporcionou oportunidades únicas aos fotógrafos na Praça Vermelha e em Copacabana", "a tenacidade explica a sua popularidade não obstante os custos imediatos das suas reformas", etc, etc.

sábado, junho 23, 2007

Conselho da UE Bruxelas 21-22 Junho 2007

O Conselho Europeu que decorreu em Bruxelas esta semana cedeu ao nacionalismo e ao neo-liberalismo, essencialmente protagonizados pelo Reino Unido, para evitar um fiasco. Mas, na prática o que se conseguiu foi um meio fiasco. Bem sei que a União Europeia é feita de longas negociações e de espinhosos compromissos e que a renúncia à soberania nacional não se faz de ânimo leve. Mas, a União encontra-se num ponto em que deve optar entre (a) a continuidade (estagnação?) no âmbito do que se adquiriu e da consolidação dos alargamentos já efectuados e (b) o aprofundamento da sua natureza o que significa mais união política e, portanto, mais federalismo, nomeadamente, a nível de políticas social, externa e de defesa. Pode dizer-se, a justo título, que (b) é de certa maneira contraditório com os alargamentos. Essa seria uma das razões pelas quais alguns líderes, como Romano Prodi, ventilam a ideia de uma União a duas velocidades: um grupo preparado para andar mais depressa na via do federalismo e um outro grupo de países mais interessados na componente puramente económica da União. No segundo, incluir-se-iam países como a Holanda, o Reino Unido e a Polónia. Isso, porém, poderia gerar um efeito centrífugo irreversível, levando à divisão da actual UE em duas uniões: uma união económica para os "nacionalistas" e uma União política para os "federalistas".

Coimbra

Se clicarem no título encontrarão uma série de fotografias de Coimbra de outros tempos (década de 70), quando eu andava no liceu e na faculdade, divulgadas num "post" de um site sueco. É surpreendente como as coisas, no essencial, não mudaram, mais rotunda menos rotunda, mais cor menos cor, mais ponte menos ponte (é claro que faltam agora os eléctricos, os trolleys, os Citroën Dyane, os Fiat 127, a Casa das Cintas...). As pessoas, sim, mudaram. Aquelas calças "à boca de sino" são lendárias.

Essas fotografias fizeram-me andar para trás e sentir o peso do tempo. Um tempo psicológico, mais do que cronológico ou físico. E fizeram-me pensar que Coimbra me emociona, à distância, mais pelo mito do que pela realidade. Acho que, no fundo, perto ou longe, sempre foi sim... E afinal isso não é mais do que uma confirmação da pertinência da letra da famosa canção: "Coimbra tem mais encanto na hora da despedida".

quarta-feira, junho 20, 2007

Antónios Costas

Título do Diário de Coimbra de hoje: “Psiquiatras forenses de referência fazem exame a António Costa”. Fiquei com receio de que se tratasse do candidato socialista à Câmara Municipal de Lisboa… Seria uma surpresa lamentável ou mais um golpe baixo da oposição ! Afinal não é assim. O sub-título esclarece: “Ex-GNR de Santa Comba Dão passou manhã no Instituto de Medicina Legal”. Uff…

segunda-feira, junho 18, 2007

François et Ségolène

Ségolène Royale e François Hollande vivem juntos há muito tempo e têm filhos em comum. Ségolène foi candidata socialista (derrotada) à Presidência da República de França. François tem sido Secretário-geral do PS e chegou a ser concorrente a candidato à Presidência, contra a sua própria companheira. Sempre me meteu grande confusão esta promiscuidade entre esposos e políticos com ambições antagónicas. Como se podia dizer cobras e lagartos das ideias do outro durante o dia e ir para a cama com ele à noite ? Enfim – pensava eu – talvez se trate de uma daquelas maravilhas cartesianas a que os Franceses nos habituaram, um monumento à emancipação das mulheres e dos homens, um exemplo de que a concorrência profissional pode não colidir com a vida sentimental e familiar. Chapeau !

François é cada vez mais contestado como leader dos socialistas por « elefantes » como Strauss-Kahn e Laurent Fabius e por « jovens leões » como Arnaud Montebourg. Ségolène tenta levantar-se do fracasso nas presidenciais. Participou activamente nas eleições legislativas que se concluiram ontem com um desaire do PS (apesar de menos retumbante do que se esperava, dada a avalanche do UMP de Sarkozy).

Hoje ouvi na rádio que Ségolène e François se separaram. No princípio, não percebi se o jornalista se referia, mais uma vez, à política ou à vida conjugal. Pensei : estão de novo em desacordo no seio do PS, mas lá em casa a coisa deve continuar bem como dantes. Et bien non ! Desta vez separaram-se mesmo : nada de viver sob o mesmo tecto ou dormir na mesma cama ou fazer de conta que assim seria. Finalmente, clareza na vida deles e na minha cabeça. Hélas !

domingo, junho 17, 2007

Mais uma música inspiradora...




Donna Maria - Sempre, Para Sempre

Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele

Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante

Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão

Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado

Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue bem quente

Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca tocado

Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso

Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada mas nada
Te faz contente me faz contente

Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido

Há amor eterno
Sem nunca talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez

Meanwhile

Aqui vai um belo dum blog sugerido por um amigo, ideal para as pausas na queima de neurónios... Isto sim, é um tesourinho deprimente! Espero que seja do agrado de todos.

sexta-feira, junho 15, 2007

A cotação do Benfica na Bolsa

O que acontece quando um produto tem um preço abaixo do seu valor real ? Naturalmente, torna-se atraente comprá-lo porque é elevada a probabilidade de o vender mais tarde a um preço superior. Assim se criarão mais-valias com relativa facilidade. Pois bem, foi apenas isto que guiou Joe Berardo ao propôr a compra a 3.50 euros das acções do Benfica. Essas acções estavam simplesmente sub-avaliadas. Esta é uma situação típica de imperfeição de mercado momentânea favorável aos chamados "take-over". Tudo o resto que se anda por aí a dizer é treta: "amor ao Benfica", "só para ajudar", etc, etc. O que é verdade é que o Benfica vale mais do que o que tem sido expresso pela cotação das suas acções. E a prova é que os investidores acordaram imediatamente e a cotação subiu hoje mais de 50%, excedendo mesmo o valor oferecido por Berardo.

O valor de uma empresa pode ser calculado de várias maneiras. A que melhor exprime a realidade (apesar de se basear em parâmetros previsionais, portanto, discutíveis e sujeitos a uma margem de erro significativa), é a do "discounted cashflow" ou "valor actualizado dos lucros futuros". Quer isto dizer que Joe Berardo (e o mercado, depois de ter saído da letargia, para não dizer também, os Benfiquistas que "têm estado de costas") consideram que o Glorioso vai gerar no futuro mais lucros do que aquilo que tem sido traduzido pelo preço baixo das acções. Ou seja: quem diz lucros, diz vitórias desportivas, porque essa é a mercadoria essencial que vende um clube profissional de futebol. A subida das acções quer, pois, dizer que os investidores crêem que o SLB vai ser campeão muitas vezes nos próximos anos e demonstram-no com o seu próprio dinheiro. Bem hajam e que tenham razão... para bem da própria carteira e do contentamento deste Benfiquista que o será sempre independentemente do valor do clube em Bolsa.

Viva o Benfica. Viva. Pim!

quarta-feira, junho 13, 2007

Soltas e breves

A minha geração (i.e. nascidos nos anos 60), em Portugal, foi um bocado problemática: com "pais da ditadura" e "filhos da democracia". E nós, ali no meio, espremidos como um limão, a fazer contas às ideias e, sobretudo, à vida...

Em França os carteiros ameaçam com a greve se os Correios não pagarem os 10 minutos a mais que gastam por dia a vestir e a despir as fardas novas que a direcção decidiu distribuir...

Ainda na Gália, nas laranjas, melões e tomates do sul do país, os supermercados, em colaboração com as associações de agricultores, colam fotografias do lavrador de onde sairam os ditos produtos como prova iniludível da sua qualidade e origem local... "O que é nosso é bom. Nada de legumes e hortaliças espanhóis" como dizia uma indígena entrevistada pela TF1.

No Japão o metropolitano inventou um sistema que manda automaticamente um SMS aos pais, quando os filhos entram e saem das estações...

terça-feira, junho 12, 2007

Je ne resiste pas



Encontrado aqui

Agora vamos para Alcochete

Acho no mínimo estranho esta coisa de Alcochete como paraíso para a localização do novo aeroporto. De repente, após tanta cacofonia, tira-se da cartola o coelho mágico : um sítio que custa menos, com maiores possibilidades de expansão futura, com menor impacto ambiental, mais perto de Lisboa, menos propenso à especulação imobiliária, um investimento que se conclui mais depressa. Enfim, uma maravilha. Mas, se assim é, porque é que se concentrou a discussão durante tanto tempo sobre más localizações como a Ota e Rio Frio ? Ou fala a minha ignorância e Alcochete já tinha sido algo, timidamente, referida por alguém antes ? Também não deixa de ser curioso que esta « nova » localização seja « descoberta » pela confederação patronal e por um estudo de uma empresa de um ex-ministro de um governo socialista. Seja como for (não obstante ficar mais longe de Coimbra – com desculpas pelo interesse privado que exprimo), se Alcochete for efectivamente a melhor solução, devidamente e finalmente validada por técnicos credíveis em tempo útil, que seja Alcochete e que se faça a obra e que se poupem os palpites.

E quanto a dizer que as dúvidas que, finalmente, o governo tem em relação à Ota seriam uma prova da sua fraqueza, é uma grande treta e revela desonestidade intelectual de certa oposição. Só os suícidas continuam a acelerar à medida que se aproxima o abismo, só os estúpidos teimam em negar as evidências.

domingo, junho 10, 2007

Dia 10 de Junho (votar com os pés...)

Talvez o voto mais eloquente seja aquele que se faz com os pés, isto é: partindo, saindo de um lugar onde se está mal para outro onde se espera estar melhor. É um voto qualitativamente superior porque implica muito mais do que apenas depositar um pedaço de papel numa urna. Implica arriscar, mudar completamente de contexto, agir de uma forma radical. Trata-se de substituir fisicamente o sítio onde se nasceu e onde se cresceu. Trata-se de exprimir uma opinião clara àcerca do estado do país, dadas as suas repercussões sobre a vida concreta das pessoas. É uma decisão forte que não se toma de ânimo leve... salvo no caso dos aventureiros puros e duros que - não creio - sejam muitos. Pois bem, considerando o aumento, nos últimos anos, da emigração portuguesa para países como a Inglaterra, a Suiça, os Países Baixos e o Luxemburgo, acho que se devem retirar conclusões pesadas e nada abonatórias para o rumo que o país está a tomar (não obstante os discursos apologéticos e redentores do "establishment").

É evidente que emigrar é uma decisão relativa, implica uma comparação, nem sempre objectiva e correcta, entre o que se deixa e aquilo para que se vai. Supõe-se que a diferença entre o que se obterá no destino e o que se tem na origem é superior aos custos e aos riscos da mudança. A posteriori, o resultado pode divergir significativamente da expectativa com que se partiu e, então, (a) ou se regressa, (b) ou se fica com teimosia e por orgulho, (c) ou se fica com sucesso... Presumo que a taxa de regresso, pelo menos a curto prazo, seja baixa. Estou a falar de emigração por duração indeterminada, porque também há aquela que se faz por prazos curtos de acordo com contratos específicos. E depois também há a outra emigração, o novo "salto", em desrespeito das mais elementares regras do direito e da dignidade, a nova escravatura da mobilidade do trabalho...

A emigração resulta de uma decisão individual. Cada caso é um caso, mas há determinantes sociais e económicas relacionadas com o estado geral do país ou da região de origem. A maior parte das pessoas emigra por razões económicas, porque não encontra oportunidades de emprego, nem condições para melhorar as suas vidas e as das suas famílias no lugar onde nasceram e cresceram. O recrudescimento recente da emigração, em tendência inversa à que se vinha desenvolvendo desde o 25 de Abril, é um indicador evidente do mal-estar do país, também das camadas mais jovens. É interessante constatar que esse fenómeno começa a tocar pessoas com níveis de instrução média ou superior, o que é representativo da situação do mercado de trabalho nesses estractos de formação...

Portugal está, curiosamente, a transformar-se num país duplo, de transição, quer dizer, de acolhimento de africanos, brasileiros e leste-europeus e de (nova) partida dos cidadãos nacionais, especialmente, em direcção à Europa. É pena. Porque se desperdiçam energias e talentos, porque a Pátria não dá aos cidadãos as oportunidades e a estima que merecem. Se as pessoas se sentem maltratadas ou deixaram de acreditar no seu país, ao ponto de o deixar, essa é a prova mais concludente do fracasso das políticas de desenvolvimento. E as dificuldades não podem ser consideradas conjunturais nem associadas, apenas, a um imperativo de saneamento financeiro, pois o fenómeno já se produz há vários anos e as pessoas emigram porque consideram que a sua situação actual não é reversível a curto prazo.

Que grande espectáculo...


Gal Costa e uma viola apenas. Uma voz indescritivelmente límpida e bela, uma mulher imensamente simpática e carinhosa... Houve alturas arrepiantemente bonitas e emocionantes.
Valeu a pena, sem qualquer sombra de dúvida!




Gal Costa - É luxo só

sexta-feira, junho 08, 2007

O Homem de 2050


Tradução de excertos do livro acima representado editado pela "Fayard" em Janeiro de 2007 (páginas 271, 272 e 283):
"Enquanto o nómada das primeiras sociedades, como o cidadão das democracias de mercado, obedecia a um conjunto de regras complexas, expressão de ambições colectivas múltiplas, o cidadão do hiper-império não será enquadrado por qualquer contracto social. Numa situação de ubiquidade nómada, o Homem de amanhã tomará o mundo como uma totalidade ao seu serviço, no limite das garantias do comportamento individual; não verá o outro senão como instrumento da sua própria satisfação, um meio de obter prazer ou dinheiro ou, de preferência, os dois. Nada o levará a importar-se com o outro. Para quê partilhar quando é necessário bater-se incessantemente? Porquê fazer em conjunto quando se é concorrente? Mais ninguém pensará que a felicidade do outro possa ser-lhe útil. Ainda menos se procurará a felicidade na felicidade do outro. Toda a acção colectiva parecerá impensável, toda a mudança política, portanto, será inconcebível.
A solidão começará desde a infância. Ninguém poderá forçar os pais, biológicos ou adoptivos, a respeitar e amar os seus filhos o tempo suficiente para os educar. Adultos precoces, os mais jovens sofrerão de uma solidão que não compensará quaisquer redes das sociedades anteriores. Da mesma maneira, um número crescente de pessoas de idade, vivendo cada vez mais e, portanto, cada vez mais tempo sózinhas, não conhecerá quase ninguém entre os vivos. O mundo será apenas uma justaposição de solidões e o amor uma justaposição de masturbações.
(...)
O casal deixará de ser a sua principal base de vida e de sexualidade; escolherão, na maior transparência, amores simultâneos, poligâmicos ou poliândricos. Coleccionadores, homens e mulheres, mais interessados pela caça do que pelas predas, acumulando e exibindo troféus, serão filhos de famílias voláteis, reconstituidas, sem base geográfica ou cultural. Não serão leais senão a eles mesmos, interessar-se-ão, mais pelas suas conquistas, pelas suas adegas de vinhos caros, pelas suas colecções de arte, pela organização da sua vida erótica, pelo seu suicídio, do que pelo futuro da sua progenitura à qual não transmitirão nem fortuna nem poder."

Psicopatologia

Como é possível estudar
  • ataques de pânico
  • agorafobia
  • perturbação de pânico
  • fobia específica
  • fobia social
  • perturbação obsessiva-compulsiva
  • stress pós-traumático
  • perturbações de ansiedade
  • perturbação depressiva major
  • perturbação distímica
  • perturbação bipolar I e II
  • perturbação ciclotímica
  • perturbações de humor
  • anorexia nervosa
  • bulimia nervosa
tudo para um só exame semestral sem ficar com uma psicopatologia qualquer???

quinta-feira, junho 07, 2007

Notícias de quem não tem internet

Continuo sem internet em casa... Aproveitei o wireless de um amigo para passar por este cantinho para dizer que estou viva e de boa saúde.
O Sapo ADSL é um bicho de 7 cabeças e não há maneira de cancelarem o contrato para poder ter contrato com outra rede. Entretanto, a minha participação aqui ficará limitada. A juntar a este facto, os exames estão aí à porta e o estudo roubar-me-à imenso tempo portanto até meados de Julho a minha vida social e bloguística estará claramente diminuída.
Mas nem tudo é mau... O blog está em muito boas mãos.

Outra coisa... Amanhã vou ao concerto da Gal Costa no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz e conto ganhar um novo ânimo para enfrentar esta vaga de estudo que, de tão excessiva, faz mal aos neurónios ;). Deixo-vos com um vídeo desta mulher fantástica que é um marco da história da música brasileira.

Até ao meu regresso.

quarta-feira, junho 06, 2007

Sítios

Há sítios que são não-sítios. Meros suportes físicos de actividades, pensamentos e emoções que se passam, efectivamente, noutro lado. São espaços a que a alma não se pega. São superfícies lisas, estritamente bi-dimensionais que se poderiam encontrar em qualquer lado. São como folhas brancas em que se fazem esboços que acabam no caixote do lixo. Não têm memória nem futuro. São ubíquos e vazios, simples receptáculos de uma realidade que não deixa rastos, que se troca por outra fungível. Os sítios a que não pertencemos e com que não nos fundimos são efémeros e estranhos. Os únicos sítios reais e duráveis são aqueles em que cresceu o nosso coração ou em que deixámos pedaços do coração. Tudo o resto é global como o que não existe porque está demasiado longe e porque não nos pertence. Os sítios que contam são aqueles que chamamos de amigos ou de amantes. São os sítios com que temos uma relação humana. Amar um sítio faz dele parte da nossa vida, da nossa história. Um sítio onde vivemos longamente mas que não acariciamos com o pensamento e com as emoçóes é como um velho casamento, gasto, que se atura por falta de alternativa à solidão.

segunda-feira, junho 04, 2007

Notícias de Itália

Em Itália as coisas aquecem.

A luta entre um ministro (Vincenzo Visco) e o comandante da Guardia di Finanza (super-equivalente à nossa Guarda Fiscal) revela os tentáculos de um enorme Polvo que cruza a máfia, várias outras « seitas », a finança e a política. Uma espécie de nova P2, a tristemente famosa loja maçónica que esteve no centro dos escândalos dos anos 80 e 90 que envolveram também o Vaticano e de que resultou, nomeadamente, o assassinato em Londres de Calvi, o patrão do falido Banco Ambrosiano. À sombra de Berlusconi regressaram esses espectros do poder paralelo que não tem rosto nem convicções e que atravessa todo o topo da sociedade italiana. E o governo de centro-esquerda parece pactuar mais ou menos silenciosamente com a situação.

O presidente da confederação patronal (Confindustria) e também presidente da Fiat, Luca di Montezemolo, bota discurso, dizendo que a burocracia da política custa demasiado caro aos contribuintes. O aparelho político italiano custaria mais do que os de França, Alemanha, Espanha e Reino Unido, todos juntos. Só a presidência da República custaria mais de 220 milhões de euros por ano e empregaria mais de 2 100 pessoas. O Parlamento, onde tem assento 23 partidos, dos quais 17 com menos de 3% dos votos, custaria 1 600 milhões de euros por ano. O número de viaturas oficiais supera 570 000… enquanto em França existem 65 000.

Slogans insultuosos aparecem na parede da casa de Marco Biaggi, uma vítima do terrorismo de extrema-esquerda. Sergio Coferatti, ex-secretário-geral da principal central sindical (CGIL) e actual presidente da Câmara de Bolonha recebe ameaças. Na prisão, os bombistas fazem desfraldar bandeiras vermelhas e reivindicam a libertação. Existem, portanto, sérios indícios de que o terrorismo se reactiva.

sábado, junho 02, 2007

Neo-nazismo e emigração feminina

Largos sectores da economia e da sociedade da Alemanha de Leste sofreram com a reunificação. Chamam a isso o custo da transição do socialismo da pobreza para o capitalismo do leite e do mel. O desemprego é elevadíssimo, a criminalidade cresceu e a emigração para a Alemanha Ocidental também aumentou. Cerca de 1 milhão e meio de pessoas deixaram a parte oriental do país desde 1990, o ano da reunificação. A maior parte dessa emigração compõe-se de jovens do sexo feminino com um nível significativo de escolaridade e de formação. Foi recentemente efectuado um estudo sobre a demografia e a sociologia da reunificação que revela que, em várias zonas urbanas da Alemanha de Leste, mais de 75% dos emigrantes têm exactamente essas características. O que significa que permanecem muitos homens, sem instrução, desempregados, jovens e revoltados. E são esses indíviduos que alimentam o NPD, o partido neo-nazi que tem tido um grande crescimento e que se exprime com uma violência crescente. O estudo pretende assim estabelecer uma relação entre a partida das mulheres jovens e o surto do fenómeno neo-nazi... que também seria uma forma de exorcizar um certo tipo de frustração masculina...

sexta-feira, junho 01, 2007

Perfume de Mulher


Acabei de rever em DVD depois de muitos anos. E mais uma vez, faltam-me as palavras...

Ausência

Aqui a vizinha do lado anda ausente há algum tempo, deixando-me sózinho com a àrdua tarefa de actualizar o "jornal". Parece que há razões técnicas para a ausência. Noutras palavras: um mau serviço de banda larga da caríssima PT. Caríssima, sobretudo, no preço... (mas isto não significa que o panorama fosse muito diferente se lá estivesse a Sonae.com do Eng° Belmiro). Não se tratará, por conseguinte, de puro absentismo, preguiça, má vontade ou falta de inspiração. Que fique claro que ela não me pediu que a defendesse (?) ou representasse. O que é verdade é que escasseia por aqui o bom gosto dos "posts" da minha estimada sócia blogueira, abundando talvez coisas demasiado sérias e pesadas do signatário.

Espero, portanto, com grande interesse o regresso da "foragida", sob pena de continuar a chatear a rara audiência até ao bocejo.

quinta-feira, maio 31, 2007

Socialistas...

Imagino o moral das tropas no PSD... Ver as suas políticas « bem » realizadas por um Partido « Socialista » a que deveria fazer oposição, não deve ser nada fácil ! Que oposição ? Que políticas de direita alternativas ?

O PS está a seguir fielmente o caminho que outros partidos « socialistas » na Europa já trilharam, isto é : em nome do pragmatismo, da eficácia, da globalização e do « bem comum » praticam políticas tipicamente de direita. E fazem-no ainda melhor do que os próprios partidos de direita porque contam, pelo menos a priori, com alguma inocente expectativa e menos resistência dos trabalhadores.

E o sofisma supremo consiste em dizer que ser-se mais « flexivel » e individualista e perder direitos sociais não é de direita nem de esquerda. É do interesse de todos e é imposto pelas exigências da competitividade global… Ora porra !