domingo, abril 29, 2007

O cúmulo da solidão

Um japonês que vivia sózinho em Tóquio morreu no seu apartamento. Dez anos depois, a polícia entrou, finalmente, no apartamento e encontrou o esqueleto do desgraçado. Os exames efectuados levaram à conclusão de que se tratou de um "simples" ataque cardíaco.

Dez anos de solidão de um morto. Quantos anos de extrema solidão de um vivo, no meio de uma enorme cidade de um dos países mais "desenvolvidos" do mundo...

sábado, abril 28, 2007

Portugal - um retrato social

O programa da RTP "Portugal - um retrato social" da autoria de António Barreto com música magnífica de Rodrigo Leão não se deve perder. É simples, consiste numa recolha extensa de documentos de antanho e representa bem as mudanças que este país viveu nos últimos 50 anos. António Barreto é um sociólogo prestigiado, com várias facetas políticas, nem sempre convivendo bem com o(s) poder(es), um exemplo de rigor, elevação intelectual e honestidade. O único senão do programa poderá ser um excesso de pessimismo e uma certa propensão para relevar os aspectos negativos das mudanças (que os há e, infelizmente, são tantos). Mas, o programa é muito útil para nos alertar, de uma forma visual e com base num texto acessível e persuasivo, para as enormes transformações que ocorreram na nossa sociedade e de que, emersos num quotidiano urgente, tendemos a esquecer-nos. Espero com impaciência a edição em DVD porque não gravei...

quinta-feira, abril 26, 2007

Felicidade II

Lembram-se quando disse que a felicidade não existe enquanto estado permanente, mas apenas momentâneo? (Acerca disso referi a história dos peixes que comprei à minha afilhada...)

Ontem tive a prova disso: um dos peixes morreu. (Cabrão do animal, nem uma semana se aguentou)

25 DE ABRIL

Ontem foi 25 de Abril e, todos os anos, essa data me faz sentir, ao mesmo tempo, velho, triste e feliz.

O tempo é assassino e 33 anos são tantos. A memória dilui-se, as imagens de alegria e de vontade de mudança tornam-se cada vez mais amarelas. Tive sorte de viver esse período escaldante, entre 1974 e 1976, durante o qual as convicções se defendiam com força e inocência e se pensava que a sociedade e as pessoas podiam mudar de um dia para o outro. Depois, a realidade (ou o realismo dos interesses...) começaram a galgar e as coisas entraram nos eixos e os sonhos evaporaram-se. Os grandes poderes chamaram os « meninos traquinas » à ordem e toda a gente voltou à gestão das suas vidinhas, com algumas poucas, « patéticas » ou dramáticas excepções.

A revolução de 25 de Abril de 1974 desbloqueou um sistema podre e anacrónico, criou as condições para que Portugal se alinhasse, finalmente, com o modelo de desenvolvimento e com a democracia parlamentar dominantes na Europa Ocidental. A posteriori, parece claro que a revolução se transformou numa revolução do incipiente capitalismo português com um breve interregno de euforia popular e de excentricidade esquerdista. E é esta constatação que me faz sentir triste e algo resignado.

quarta-feira, abril 25, 2007

Esta é a música que mais me faz sentir o que foram realmente as vitórias do 25 de Abril



Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar
Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar

Zeca Afonso/ Reinaldo Ferreira

terça-feira, abril 24, 2007

Um artigo para reavivar a memória do país...

Nem tudo era mau
Não se pense que tudo era mau. Até final dos anos 60, Portugal manteve-se, em muitos aspectos, na «pole position» dos países europeus ocidentais (ver António Barreto, "Mudança Social em Portugal: 1960-2000", in “Portugal Contemporâneo”, coordenação de António Costa Pinto, Dom Quixote, 2004). Assim: era o único império colonial sobrevivente; podia orgulhar-se do ditador com mais anos no poder; apresentava as mais altas taxas de analfabetismo e mortalidade infantil; o menor número de médicos e enfermeiros por habitante; o mais baixo rendimento por habitante; a menor produtividade no trabalho; o menor número de estudantes no ensino básico e superior; o menor número de pessoas abrangidas pelos sistemas de segurança social, a menor industrialização e a maior população agrícola. No fundo, no fundo, números à parte, tratava-se de um paraíso verde. Além das paisagens bucólicas e das viúvas de portentos buços, havia Fátima, havia fado e havia futebol. E no que toca a futebol, Eusébio era o mais que tudo.
Tão mais que tudo, que Salazar lhe vetou a carreira internacional, informando-o, tão simplesmente, de que ele era “património do Estado”.
Só os portugueses em crise de meia-idade, ou já refeitos dela, se podem lembrar de como era antes. E a verdade é que tinha pouca graça. Antes. Claro que nos podemos rir hoje da licença de isqueiro, obrigatória desde os anos 30 e só abolida em Maio de 1970 pelo decreto-lei 237/70. Claro que mesmo os incondicionais de Chomsky ou Michael Moore já não terão de ir ao Ultramar para beber um gole pecaminoso de Coca-Cola, só comercializada entre nós a partir de 1977. Em Portugal Continental, como se dizia, fora proibida nos anos 30, dela só sobrando a prova dos dotes publicitários de Pessoa que lhe inventara um slogan: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
Podemo-nos rir, ainda, do Decreto-Lei nº 31247 de Maio de 1941, que regulava o uso do fato de banho, zelando “pela moralidade pública (...) no sentido de evitar a corrupção dos costumes”, e que obrigava, para elas, a fato inteiro “sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido na axilas”, e para eles a “calção com corte inteiro, justo à perna e reforço da parte da frente, e justo à cintura cobrindo o ventre”, regras a que os “cabos de mar” tiveram de começar a fechar os olhos quando, na década de 60, turistas bem menos atafulhados de roupa desataram a invadir o Estoril e o Algarve.
Continuamo-nos a rir desta obsessão moralista e bafienta (que fez do iconoclasta José Vilhena o autor mais censurado antes do 25 de Abril), com as calças proibidas às raparigas nos liceus e as gravatas obrigatórias para os rapazes, mais as portarias camarárias em prole do decoro vigente. O escritor Luís Sttau Monteiro, cujo pai foi embaixador em Londres até 1943, ano em que bateu com a porta a Oliveira Salazar, contava que, criança, numa audiência a que assistira, o ditador reparara nas suas botas e lhe perguntara onde as comprara. Quando lhe respondeu que fora em Londres, este comentara: “Modernices! Modernices!”

Para ler o artigo completo, clicar no título.

Eduardo Sá...Um retrato fiel

Nunca pensei voltar a rir-me tanto com algo do Herman José!

segunda-feira, abril 23, 2007

Não batam mais no ceguinho...


Démocratie à la française

A taxa de abstenção na primeira volta das eleições presidenciais francesas (cerca de 15%) foi a mais baixa desde 1965. Quase todos os analistas celebram entusiasticamente o retorno dos cidadãos à política assim como a vitalidade da democracia, pelo menos, naquele país.

A política fulanizada é mais acessível e popular. A democracia torna-se mais próxima com as campanhas que falam mais de pessoas do que de ideias. Os cidadãos estão fartos das mesmas ideias entoadas por diferentes trovadores que, de qualquer modo, não fazem grande diferença às suas vidas. As pessoas preferem falar dos casamentos, traições, bebedeiras, gostos desportivos e musicais dos políticos. As pessoas adoram entrar na privacidade, de preferência picante, dos candidatos (síndrome "big brother"). Adoram, sobretudo, contos de fadas: o homem ou a mulher que há pouco tempo era um dos nossos, um semelhante, e que agora ocupa as páginas das revistas e dos jornais e que pode chegar ao mais alto cargo da Nação. Essa é a democracia que mobiliza as pessoas e que as faz discutir interminavelmente os resultados das eleições, no dia seguinte. Estão-se nas tintas para o programa político (se existe...), mas demonstram um conhecimento enciclopédico da maneira como o candidato passou as últimas 24 ou 48 horas, com quem almoçou, como se relacionou com os filhos, a que igreja foi rezar pelos resultados, etc. Adeus às grandes análises, aos artigos de opinião, às grandes opções de sociedade. Coisas de intelectuais e analistas chatos... O que conta é o eco da vida dos políticos nas revistas Hola ou Gente ou quejandas. O que está na moda é a política do mexerico, dos óculos de sol, das invectivas, da imprensa exacerbada e invasiva, dos escândalos, do fait-divers. O que está na moda é a política de que se fala como se fosse um festival da Eurovisão, uma final de taça. A política que se aprende na sala de espera do dentista...

A política fulanizada é a política que minimiza o abstencionismo, que leva as pessoas às urnas com a impressão de decidir qualquer coisa, provavelmente a alegria ou a raiva do candidato que tem os olhos mais bonitos ou que fala com a voz mais decidida (para os homens) ou mais aveludada (para as mulheres).

E por trás do espectáculo jogam-se interesses, grandes interesses e decisões que acabam por ter impacto sobre a nossa vida de todos os dias.

PS:

A segunda volta das presidenciais francesas, que tem lugar dentro de 2 semanas, vai-se decidir, portanto, entre Royal e Sarkozy, basicamente, com base nos votos de Bayrou, o outsider do centro-direita que recolheu 18% na 1ª volta e que sonha já com um novo partido de centro e com promessas de participação no governo daquele que vier a apoiar. De facto, Bayrou já só pensa nas legislativas... De salientar que todas as “esquerdas” somadas não chegaram aos 40% (Royal teve sózinha 25%).

Outra observação interessante é que o esvaziamento da extrema-direita ter-se-à devido, essencialmente, à apropriação por Sarkozy dos temas favoritos de Le Pen (segurança interna, patriotismo, restrições à emigração). Digamos que o sistema (protagonizado por Sarkozy e por uma direita mais “civilizada”) soube assimilar e digerir as mensagens populistas da extrema-direita.

sábado, abril 21, 2007

Tristezas vãs

Se da cabeça nascesse uma àrvore
Frondosa
Com ramos imensos e flores encarnadas
Uma àrvore sem sombra cuja madeira não aleijasse

Se da cabeça nascesse um rio
Largo
Azul como o céu
De àguas tranquilas
Um rio sem foz

Se da cabeça nascesse uma vontade
Grande como a esperança de um recém-nascido
Pura como um deus sem nome
Uma vontade sem dor
Porque querer é sofrer

Se se soubesse querer...
Se não fosse preciso querer...

sexta-feira, abril 20, 2007

Se eu soubesse que voando...




Se eu soubesse que voando
Ai, alcançava o que desejo
Mandava fazer umas asas
Ai, que as penas são de sobejo

As penas leva-as o vento
Ai, de tão leves que elas são
Ainda me não levou uma
Ai, que trago em meu coração

Cantando, cantei, cantava
Cantava, cantei, cantando
Chorando, chorei, chorava
Chorava, chorei, chorando

Que fui, tu foste, nós fomos
Ambos iguais nas vontades
Eu 'stou tu 'stás, nós estamos
Ambos matando saudades

Esses olhos têm meninas
Ai, essas meninas têm olhos
Porque os olhos dessas meninas
Ai, são meninas dos meus olhos

Fui ao jardim do teu peito
Ai, para colher uma flor
Não achei um amor perfeito
Ai, achei só perfeito amor

Cantando, cantei, cantava
Cantava, cantei, cantando
Chorando, chorei, chorava
Chorava, chorei, chorando

Que fui, tu foste, nós fomos
Ambos iguais nas vontades
Eu 'stou tu 'stás, nós estamos
Ambos matando saudades

Gaiteiros de Lisboa

Felicidade

Quando penso em felicidade penso em algo de complexo, inatingível. E, de facto, enquanto estado permanente creio que assim é. Contudo, um momento de felicidade pode ser algo de surpreendentemente simples e puro. Hoje assisti a um desses pequenos momentos fantásticos. A razão: um aquário redondo com dois peixes.
Ofereci à minha afilhada, como prenda de Páscoa atrasada dois peixinhos vermelhos. Fui buscá-la à escola e disse-lhe que já tinha comprado um aquário com pedrinhas e plantas (e comida, etc, etc, etc.) e que só faltava mesmo que ela escolhesse os peixes. O sorriso foi imediato e o abraço a dizer "obrigada! obrigada! obrigada!" foi quase instantâneo. Fomos à loja de animais, ela lá escolheu dois peixes e quando chegámos a casa passou meia hora fascinada a olhar para o seu novo aquário com os seus dois novos peixinhos. Quando finalmente afastou o olhar deles, olhou para mim com um sorriso de orelha a orelha e disse-me: "Estou feliz!"

Presidenciais francesas


Este domingo realiza-se a primeira volta das eleições presidenciais em França. Deve dizer-se que se trata das eleições mais importantes nesse país dado o seu sistema presidencial. O presidente tem reais poderes executivos. Os principais candidatos são Sarkozy (centro-direita), Bayrou (centro-direita "dissidente"), Royal (socialista) e Le Pen (extrema-direita). As sondagens dizem que passam à 2a. volta Sarkozy e Royal, mas as surpresas são perfeitamente possiveis dadas as percentagens de abstenção e de eleitores que se dizem hesitantes. Nas anteriores eleições, a 2a. volta foi disputada entre Chirac e um surpreendente Le Pen que ultrapassou o socialista e ex-primeiro ministro Jospin na 1a. volta. Assim, para combater a extrema-direita, a esquerda fartou-se de engolir sapos ao votar... Chirac.

A campanha eleitoral tem sido disputadíssima com níveis de agressividade inauditos e com golpes baixos de todo o tipo. O que parece mais em causa são as desmedidas ambições pessoais. As ideias são relegadas para um plano secundário com os candidatos "convencionais" a optar por um centrismo eclético. Nunca a política foi tão fulanizada e os projectos políticos tão caricaturados. E isso é preocupante num país com a importância da França, nos contextos europeu e mundial, sofrendo de vários impasses que o bloqueiam e que são focos de permanente e crescente conflitualidade. Uma grande parte da população alheia-se da palhaçada da política tradicional e é tentada pelo discurso simplista e demagógico da extrema-direita. Le Pen continua à espreita como reserva de protesto populista.

A França é um país que se move no fio da navalha entre o culto proverbial do Estado (absolutismo, colbertismo) e o liberalismo. O primeiro está inscrito nos genes de todos os políticos de topo. O segundo é perfilhado por uma minoria de políticos sem reais possibilidades de ascender ao poder (caso de Alain Madelin) e praticado agressivamente pelos campeões da economia e da finança francesas. Esses grandes grupos económicos são extremamente bem sucedidos na economia global: casos dos grandes bancos e seguradoras como o BNP Paribas, Société Générale ou AXA ou dos grandes grupos industriais como a Renault, a Peugeot, a Airbus, a Total ou a Bouygues. Depois, há o imenso e omnipresente sector público com os seus milhões de "fonctionnaires" acusados de privilégios indevidos. E há uma classe política nacional que mexe os cordelinhos, mas que está cada vez mais distante das múltiplas fracturas da sociedade francesa e da mobilidade social "en panne" que afecta milhões de pessoas.

Os candidatos às eleições presidenciais de domingo não prestam. Sarkozy é um pequeno ambicioso sem escrúpulos, preparado a tudo (mas mesmo a tudo) para ocupar o palácio do Eliseu. Um "proxy" português seria... Paulo Portas. Ségolene Royal tem uma carinha bonita, é mulher (e isso talvez conte num ambiente politicamente correcto de discriminação positiva), mas é falsa como um camaleão e, sobretudo, não tem uma única ideia digna desse nome na cabeça. Também ela é obsecada pela presidência para redimir um passado com alguns traumas familiares. Bayrou é um homem do sistema que acordou agora para denunciar os vícios do sistema e para inaugurar uma nova era de leite e de mel. Le Pen é um crápula que diz resolver todos os problemas da França privilegiando os franceses contra os imigrantes e aumentando a cacetada dos polícias contra os marginais.

Francamente, se fosse francês teria um sério problema no próximo domingo, como tem tantos gauleses cansados da cacofonia de uma política que se auto-alimenta dos seus putativos dramas e que trata os cidadãos como meros espectadores de um show com uma audiência decrescente. Um fenómeno de resto interessante (e que vira os argumentos do Sr Le Pen do avesso) é o aumento da emigração dos franceses, principalmente jovens e com elevados níveis de formação, que se fartaram do "malaise français". Um dos destinos preferidos é... a Inglaterra. Quem diria...

quinta-feira, abril 19, 2007

Breaking and Entering

Fui ver o filme "Breaking and Entering" de Anthony Minghella (o realizador de "O Paciente Inglês" ou de "Cold Mountain") com Jude Law e Juliette Binoche, produzido por Sydney Pollack. Um filme sobre o romantismo num clima urbano e multicultural do princípio do século XXI. Um filme sobre a fragilidade e a tolerância de homens e mulheres. Um filme optimista àcerca da absorção pelo sistema de uma marginalidade nascente. A atmosfera é a de uma àrea "devastada" de uma grande cidade (King's Cross em Londres) em fase de renovação e onde contactam - pelos sentimentos entre homens e mulheres, entre pais e filhos - classes, culturas e linguas diferentes. A arquitectura urbana em pano de fundo, uma música muito bonita, uma bela fotografia e montagem, um ritmo certo, nem lento nem rápido. Um filme a não perder.

terça-feira, abril 17, 2007

A tragédia de Virginia Tech

O que se passou na Universidade da Virginia nos Estados Unidos era perfeitamente prevísivel. Estou a ler o livro "Como Havemos de Viver? A Ética numa Época de Individualismo" de Peter Singer, publicado pela Dinalivro em Março de 2006 (1a. edição de 1993). Aí quase se anuncia o morticínio de ontem. Alguns excertos:

"O crime na América constitui a indicação mais viva da direcção que uma sociedade de indivíduos centrados em si próprios pode tomar".

"Em 1973, depois de ter sido criado na América e ter passado quatro anos em Oxford, cheguei a Nova Iorque para ocupar um lugar de professor convidado no departamento de filosofia da Universidade de Nova Iorque. Ao entrar pela porta da frente do edifício principal da Universidade, em Washington Square, deparou-se-me um espectáculo chocante: guardas de segurança da Universidade com armas a balouçar junto às coxas. No final do ano, já tomava como adquirida a presença de armas letais num cenário universitário".

"Nos Estados Unidos de hoje em dia, o tecido social degradou-se a ponto de ser legítimo temer que tenha atingido o ponto de não retorno. O problema é que as pessoas (...) [encaram] cada novo conhecimento com suspeição e quanto mais se tem esta atitude, mais difícil é os esforços cooperativos funcionarem para o bem comum (...). Não há precedentes para a cessação da degradação de uma sociedade tão populosa, tão egoista e tão fortemente armada com armas letais como a actual sociedade norte-americana".

"Após anos a saltar obstáculos sobre corpos em estações ferroviárias, a ser empurrados por mendigos nas ruas, muitos habitantes urbanos passaram da piedade ao desprezo e já não são afectados pelo sofrimento a que assistem".

"É aterrador pensar que podemos estar a testemunhar, nos Estados Unidos actuais, a primeira sociedade em grande escala na qual as 'redes morais' se tornaram demasiado fracas para sustentar modos de vida éticos".

"Estamos a caminho da criação de cidades que são meras agregações de indivíduos mutuamente hostis, vacilando no limite da guerra hobbesiana de todos contra todos".

Se a tudo isto se acrescentar a influência de um dos lobbies mais poderosos nos Estados Unidos (o dos vendedores de armas, fortemente relacionado com o Partido Republicano) que se opõe desde sempre às restrições ao comércio de armas, temos grande parte dos ingredientes para compreender o que se passou. E para compreender também a hipocrisia de George e Laura, os Bush. No país da Estátua da Liberdade circulam mais de 250 milhões de armas de fogo para uma população total de cerca de 300 milhões de almas.

Guerra civil no Iraque ? Qual quê !

segunda-feira, abril 16, 2007

O Eng°

Eu sei que já chateia, mas aqui vai o meu palpite sobre a engenharia do nosso Primeiro-ministro. Basicamente, estou-me nas tintas para saber se o homem é engenheiro ou não, se é engenheiro de primeira ou de segunda ou de categoria nenhuma. A única coisa que é clara é que há várias coisas que não são claras em todo este folhetim... O que é chato é a dúvida que se instalou sobre a honestidade de uma criatura que não é nada menos do que o chefe do governo de Portugal. Ter um primeiro-ministro mentiroso, digamos que não cai bem. Quando o homem voltar a abrir a boca seremos tentados a olhar-lhe para o nariz, à espera que cresça. Mas, também é verdade que, entre os políticos, atire uma pedra quem não tiver telhados de vidro. Por isso, mentiroso por mentiroso, ou malabarista por malabarista, que fique o que lá está...

domingo, abril 15, 2007

O caos e o caso

(...) Há este caso da Independente - o terceiro, depois da Livre e da Moderna - em que importa minorar, na medida do possível, a situação e o futuro dos estudantes. Mas há muito mais. Há que tentar remediar os resultados da incúria de sucessivas políticas - porque o alheamento e a omissão também fazem políticas - para com o ensino superior privado. O trigo aqui, o joio ali. Com uma regulação assumida, uma fiscalização eficaz e avaliações credíveis. Como ao Estado cumpre. E criando novos instrumentos de prestação pública de contas. Porque doravante os cidadãos vão querer saber quais são as universidades e quais são as vendas de enchidos de pronto-a-exercer. E até, mais prosaicamente, quais as que têm o ensino como vocação e actividade principal. (...)

Para ver o artigo na íntegra clicar no título.

Post a pedido de um leitor...

sexta-feira, abril 13, 2007

Mudanças

Este post surge na sequência de alguma reflexão pessoal que tenho tido nos últimos tempos e foi finalmente passado a escrito devido ao texto negativista que a outra melga aqui pôs há bocado.

Quando se entra no curso de Psicologia, ou lendo algumas coisinhas credíveis, das primeiras coisas que se aprende é que não há curas milagrosas. Isto é, não se resolve um problema, de que natureza for, com um estalar de dedos. O problema é que todos temos um pouco essa fantasia... De que podemos mudar de um momento para o outro, de que podemos apagar o que é mau e transformá-lo em bom sem passar por todo um processo de mudança que pode durar mais ou menos tempo. Estas fantasias são alimentadas pelo desejo de não sofrer, de não passar por coisas que não queremos, mas também pelos próprios meios de comunicação (tome-se como exemplo as publicidades para "emagrecer sem esforço" e as igrejas milagreiras).

Todos estamos habituados a pensar no que é mais fácil, mais seguro, mais rápido, mais benéfico a curto-prazo e isso impede-nos de, sequer, ponderar no facto de que qualquer mudança implica tempo, esforço e, por vezes, dor e sofrimento. É por isso que, quando surge a necessidade ou inevitabilidade de mudar alguma coisa na nossa vida (do mais profundo ao mais superficial), ficamos paralisados por momentos, a pensar como vai ser diferente, como não vai ser como antes como vamos lidar com a mudança. Aqui, podemos tomar várias atitudes: ou tentamos recorrer às tais curas milagrosas e continuamos a viver na fantasia até que alguma coisa mude e fiquemos outra vez atordoados com o facto de a vida não ser assim tão simples/fácil; ou percebemos que temos de passar por um processo de mudança que implica dissabores e nos sentimos com pena de nós próprios e ficamos inertes a pensar na nossa miséria; ou então, percebemos que temos de passar por um processo de mudança e, perante a dificuldade, metemos "mãos à obra" e empenhamo-nos em passar por tempos complicados para os ultrapassar e tornar a nossa vida e os projectos futuros melhores.
(Pessoalmente, embora seja a mais complicada a curto-prazo, acho que a atitude mais construtiva a adoptar é a última).

Estação de Coimbra B

Nas estações de combóios das grandes cidades há quase sempre um ar de campo de batalha afectivo e social. Circulam almas danadas com o olhar perdido sabe deus aonde, entre passados de merda e futuros sem futuro. Gente que tem a má vida esculpida na cara, rugas fundas e uma cor amarela de vícios que há muito perderam o prazer. Homens e mulheres em trânsito, entre origens e destinos amaldiçoados. E ficam para ali, encostados a paredes escuras de tanta espera ou sentados em bancos gastos de desespero, olhando as linhas horrivelmente paralelas que levam a lado nenhum. Os combóios passam, uns devagar outros rapidamente, alguns param, mas o destino fica. Teimosamente. Puxam por malas cobertas de nódoas e de fome e cheias de vazio e de tristeza. E sempre aquele olhar fixo e gelatinoso. E sempre uma revolta impotente nos gestos e nos passos. Parecem espectros do que também eu podia ser. Os horários não contam. A partida é irrelevante porque, de facto, já partiram. Confundem-se com o pó levantado por mais um combóio que passa sem parar, indiferente. Como sempre.

quinta-feira, abril 12, 2007

Julgamento em Directo

Depois do Major Valentim Loureiro ter exigido um julgamento em directo numa televisão em substituição da sala de audiências, acabando por se contentar com uma grande entrevista gentilmente concedida por Judite Sousa, acabou por ser Sócrates a escolher o palco da televisão para realizar o julgamento da sua conduta universitária..

Em relação ao seu currículo académico Sócrates disse o que se esperava, ainda que se saiba que durante algum tempo os jornalistas possam encontrar mais umas dúzias de erros administrativos feitos pelas universidades por onde passou. Em toda esta história nunca foi a verdade que esteve em causa, pelo que não é um suposto esclarecimento da verdade que interrompe o processo, este morrerá quando não houver nada para dizer ou quando os patrões da comunicação social não quiserem enfurecer mais o primeiro-ministro porque entretanto surge um novo negócio em que dependem da boa-vontade governamental.

A entrevista acabou por ser um espectáculo triste com um primeiro-ministro de um país cheio de problemas a explicar questões menores como a fórmula com que termina as suas cartas pessoais ou as notas que teve nalgumas cadeiras que, diga-se de passagem, nem foram tão brilhantes quanto isso nem justificam desconfianças quanto ás suas capacidades como estudante.

Por fim, Sócrates portou-se muito mal na forma como caracterizou a blogosfera, num gesto de grande falta de respeito pelos cidadãos que têm o seu blogue e não se enquadram na definição de malfeitores que lhes foi atribuída. Sócrates está esquecido quando o PS andava com o rabo entre as pernas por causa do Processo Casa Pia e foi a blogosfera que ajudou a quebrar o medo que se instalou no país. Não foi graças à actividade política do seu partido que ganhou as eleições.

E enquanto se discutiram coisas menores tudo ficou por esclarecer, em vez de saber em que dia os professores lançavam as notas nos livros de termos eu preferi ter ficado a saber que medidas Sócrates vai adoptar para evitar que a construção de um novo aeroporto não venha a ser um manjar para a corrupção. Em vez de saber como termina as suas cartas eu teria preferido ouvir de Sócrates que os critérios para colocar funcionários públicos na mobilidade são isentos, contrariando o que por aí se vai ouvindo de que o cartão do partido assegura o lugar. Em vez de saber quantas cadeiras fez na UNI eu gostaria de ouvir Sócrates assegurar que a reestruturação dos serviços públicos não obedece a critérios oportunistas, preservando os serviços chefiados por amigos como eu já tive a oportunidade de assistir.


Encontrado aqui.

Desabafo de um pequenates

"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

Poema VII, Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

Portugal excelente

Actualmente, existem, pelo menos, duas àreas de excelência em Portugal: arquitectura e futebol. Tenha-se, naturalmente, em conta as dimensões e a importância internacional do país...

Quanto à arquitectura, as obras de artistas como Siza Vieira e Souto Moura motivam um autêntico "arquitecturismo", isto é, um fluxo crescente de pessoas que vêm a Portugal (provenientes, por exemplo, de Itália, onde os expoentes na disciplina não escasseiam - caso emblemático de Renzo Piano), essencialmente para visitar os espaços criados por esses e outros arquitectos portugueses de excepção. É um filão a explorar e a desenvolver cada vez mais.

Quanto ao futebol, goste-se ou não, basta ir ao estrangeiro e falar em nomes como Cristiano Ronaldo, Figo, Ricardo Carvalho ou Mourinho e a cultura futebolística sai a rodos das bocas mais insuspeitas. O efeito do futebol é a meu ver mais popular e reputacional (aumenta a notoriedade de um pequeno país junto de vastas camadas da população de outros países que aderem ao fenómeno futebol), enquanto o da arquitectura é mais qualitativo, substancial e durável.

quarta-feira, abril 11, 2007

O vírus está a espalhar-se...

Ironia do Destino

Hoje tropecei, e como não tinha onde cair morto, sobrevivi.

Música

Há músicas que, não sendo AS músicas da nossa vida, descrevem completamente a nossa vida num momento específico. Muitas vezes surge uma música, out of the blue, com a qual nos identificamos profundamente. Nunca a tínhamos ouvido, ou já ouvimos mas nunca prestámos muita atenção, e de um momento para o outro, parece que narra a nossa história actual...

Nunca vos aconteceu não ter palavras para descrever uma situação, sentimento ou estado de espírito e aparecer de repente uma música que faz um "click" e traduz por completo tudo? Por um lado é arrepiante, por outro é confortante, pois não nos sentimos tão sozinhos no que vivemos, sentimos que há mais alguém que já pensou ou viveu o mesmo que nós.

domingo, abril 08, 2007

Butterfly Effect

É bom poder acreditar em histórias como a de "Butterfly effect".
Era bom que existissem vários mundos paralelos no tempo e no espaço: um para cada "possível destino" de cada um de nós. Assim, estaríamos no mundo para o qual teríamos sido conduzidos pelas nossas acções e decisões passadas. E que tal a possibilidade de regressar ao passado e mudar escolhas para mudar de mundo, para um os muitos mundos paralelos ao que conhecemos? E que tal reescrever a nossa história e mudar para uma realidade melhor?
É bom ver o "Butterfly Effect" e acreditar nessa possibilidade durante duas horas... Mas quando acaba o filme voltamos ao nosso único mundo e à nossa impotência para mudar o passado. Apercebemo-nos que cada decisão, cada acção, cada palavra tem uma consequência que não se pode acabar. Não podemos mudar o passado, mas podemos emendá-lo ou aceitá-lo.

(Estes filmes que puxam para a filosofia são óptimos para exercitar os neurónios!)

domingo, abril 01, 2007

Domingo de sol

Impressões de um passeio de domingo à tarde num centro comercial de uma cidade portuguesa: o país está aparentemente mais gaiteiro, consumista (e endividado?) e gordo. E a malta goza com o Salazar e o Glorioso empata com o Porto e o tempo está de dor de garganta...