quarta-feira, janeiro 31, 2007

Berlusconi strikes again

O ex-primeiro ministro de Itália, a certa altura, num jantar de gala no último fim-de-semana, onde se encontrava grande parte do jet-set italiano, disse à bela senhora que se encontrava a seu lado: "Se não fosse casado, concerteza que a pediria em casamento imediatamente". Esta foi apenas uma das muitas saídas coloridas de Berlusconi. Também disse a uma outra que o costureiro tinha poupado no tecido do seu vestido. A uma outra, que lhe propôs ir a uma ilha deserta, respondeu que com ela iria a todo o lado... [No meio dessas brejeirices também propôs formar governo com várias pessoas da sua oposição...]

Aquelas saídas, que se sucedem a um período de depressão (segundo o próprio...) após a derrota nas últimas eleições legislativas, porém, desencadearam um conflito conjugal que acabou nas páginas de todos os jornais da pensinsula. A sua esposa dos últmos 27 anos, Veronica, de quem tem 3 filhos (tem mais 2 de um matrimónio anterior), enviou uma carta à imprensa, desvendando as suas agruras conjugais, a sua ofensa pelo comportamento do marido e pedindo que se desculpe em público. Tudo isso também para defender os princípios e a boa educação dos filhos. Vejamos como reagirà o impagável Berlusconi, putativo homem mais rico de Itália.

Frustração às 5 da manhã...

Não é suposto um exame avaliar conhecimentos e não memória?
A avaliação na universidade deveria apurar se os estudantes sabem o fundo da matéria no seu todo, certo?

Então expliquem-me por que raio é que eu vou ter um exame daqui a um dia com 60 escolhas múltiplas cujos conteúdos avaliados são as notas de rodapé dos livros, os detalhes mais refundidos das teorias e o nosso conhecimento (marranço) de 20 obras das quais temos de saber o autor e o ano de publicação, mas não o que dizem...

É frustrante estudar assim para uma cadeira que, de outro modo, seria interessantíssima.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Mas este homem não tem mesmo noção da realidade...

Anda uma pessoa a estudar sexualidade em Psicologia Social para depois ler estas barbaridades...

«O cardeal patriarca, D. José Policarpo, considera que a educação sexual "é bem-vinda e necessária", mas para ser "verdadeira" tem que ser feita na "perspectiva da castidade".»
...
«Tanto "em termos religiosos como culturais" a castidade surge como uma "vivência generosa e responsável da própria sexualidade"»
(mais aqui)

A paixão do poker

MURMANSK - Tatiana e Serghei sorriem felizes perante os fotógrafos. Acabam de se casar, no município de Murmansk, próximo do Círculo Polar Ártico. Selam uma história de amor que começou com um bluff. Um bluff do primeiro marido de Tatiana, Viktor, que, nos últimos dois anos e meio, jogava poker com o seu amigo Serghei e já tinha perdido tudo. "Paramos com isto", tinha sugerido Serghei. "Não! Quero continuar. Posso recuperar!". "Com que dinheiro? Não tens nem mais um rublo!". "Mas tenho a minha mulher. Vou jogá-la: concedo-te uma noite com ela se perder". "Estás maluco!". Viktor perde mais uma vez. No dia seguinte, telefona a Tatiana que é contabilista e que se encontra no escritório: "Tanja, vai para casa. Terás uma surpresa. Não te espantes com nada".

O que aconteceu é que naquela noite nada aconteceu... salvo ter sido recebida na sua própria casa por Serghei como se fosse uma princesa, com jantar ao lume, incenso e velas acesas; ter sabido que contava muito pouco para o marido, ao ponto de a ter jogado às cartas; ter andado a passear platonicamente com Serghei nos jardins da cidade. O que aconteceu vários meses depois é que Tatiana pediu o divórcio a Viktor (que o aceitou com um sorriso malicioso) e pediu o casamento a Serghei (que lhe confessou estar apaixonado por ela há muito tempo).

Tudo acabou bem, como nas lendas do Grande Norte, à volta de uma lareira e com uma promessa: "Quero três filhos teus". Asseguram-nos que não se trata da trama de uma nova telenovela na Russia.

Déjà Vu

Já vi este filme há uns dias mas só agora tive tempo para falar nele aqui...

No princípio parece que estamos a ter um déjà vu, porque o filme começa carregadinho de estereótipos e americanismos. Contudo, à medida que vai avançando torna-se cada vez melhor, mais interessante e cativante.

Déjà vu é um filme de ficção com um toque de policial, que nos coloca as seguintes questões: o que é o passado, o que é o presente, o que é o futuro? Podemos controlar o tempo? - As respostas resultam num puzzle muito bem baralhado.

A ver.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

"Papá, o que é a filosofia?"

Esta é uma das minhas preferidas da Mafaldinha.

Para quem ainda não viu ou quer rever...

Heresias

Antigamente, os pobres nasciam pobres e sabiam que deviam continuar pobres e morriam pobres. Os ricos nasciam ricos, tentavam aumentar a sua riqueza ou podiam permitir-se esbanjar a riqueza que herdavam e, algumas vezes, morriam pobres. Havia pouquíssimos do que se pode chamar a classe média e esses remediavam-se, geriam a sua vidinha de maneira a não ir para baixo, quer dizer, a não empobrecer. As ambições eram ordeiras e disciplinadas. Ninguém tentava despudoradamente invadir o terreno da outra classe (que, aliás, se chamou, durante muito tempo, "ordem"). Um pobre não roia as unhas a pensar como, algum dia, podia ficar rico porque as barreiras a que isso acontecesse eram intransponíveis. Viviam todos, portanto, mais ou menos tranquilos, acomodados, respeitosos, resignados... salvo quando as condições dos pobres eram insuportavelmente miseráveis. Enfim, não havia grande stress. Cada macaco no seu galho...

Depois veio a industrialização, a urbanização e a democracia. Então, os pobres começaram a acreditar que podiam enriquecer, que através do trabalho, da inteligência, da educação escolar (que se popularizou), da astúcia ou da vigarice podiam ascender ao galho dos ricos. Os ricos começaram a temer a invasão dos seus privilégios pela escumalha. Organizaram-se para defender a élite, cada vez com menos sucesso. Deram a volta ao texto acolhendo os pobres e remediados com valor e obedientes para os ajudar a fazer dinheiro. A classe média foi aumentando, tornou-se obsessiva com a sua pequena propriedade, muito sensível ao mínimo sinal de instabilidade. Aconteceu a mobilidade social ascendente. E então, sendo excepções, os exemplos de pobres que chegaram a ricos foram proclamados como regra pela imprensa e pela literatura apologética do sucesso. De repente, toda a gente esperta e empreendedora podia transformar-se em Bill Gates, Belmiro de Azevedo, Richard Branson ou Cavaco Silva. Todos mas mesmo todos podiam ascender ao Olimpo da riqueza, da visibilidade e do poder...

Esta ficção, contudo, provoca agressividade e stress porque, para ficar com as migalhas que sobram dos que continuam protegidos, é necessário progredir à cotovelada, por cima dos semelhantes que cultivam idênticas ambições. A isto também se chama mérito. A democracia e a ilusão da igualdade de oportunidades são fontes de ansiedade e de pequenas guerras quotidianas, numa sociedade em que os projectos colectivos perderam no confronto com os percursos individuais. A isto também se chama liberdade.

No parágrafo anterior é preciso sublinhar as palavras "ficção" e "ilusão" que, ignoradas, conduzem a tantos défices de auto-estima e a tantas doenças do foro psiquiátrico. Porque disso se trata: de ficção e de ilusão. As élites, de várias cores e filiações a que se acede através de "qualidades" inacessíveis à maioria ou de probidade moral discutível, defendem-se com exímia competência e deixam à neo-plebe as migalhas para lhe dar a impressão de que também ela é convidada ao banquete do sucesso democrático.

Não quero deixar a impressão de que a alternativa seria regressar aos "bons velhos tempos" da aristocracia, tão cara a Nietzsche. De facto, ele odiava a mediocridade da mediania gerada pela democracia. A alternativa é a ousadia das utopias, gastas por executantes desonestos e, por fim, assassinadas em Berlim na noite de 9 de Novembro de 1989.

BABEL

Fui ver o filme Babel do realizador mexicano Iñarritu. Gostei! É uma bela parábola da globalização. Acontecimentos mais ou menos fortuitos, no meio de um mundo hiper-sensível a lugares comuns e a preconceitos, colocam inesperadamente em contacto pessoas e civilizações díspares. No fim de contas, todos têm a mesma capacidade de amar, sofrer e raciocinar. São esses atributos que configuram a natureza humana, na sua maior universalidade, e que derrubam barreiras culturais, religiosas e linguisticas. Vejam.

domingo, janeiro 28, 2007

Aborto (para variar)

Hoje ouvi uma Eurodeputada espanhola a explicar que desde que a IVG foi despenalizada em Espanha, o número de abortos aumentou, principalmente porque as mulheres portuguesas passaram a atravessar a fronteira para poderem abortar sem o risco de prisão.

Compro ou vendo?

E se fosse a PT a comprar a Sonaecom? Dado o preço demasiado baixo que Belmiro quer pagar (passe o bluff e sem excluir a possibilidade de uma oferta mais alta...), talvez se exponha a um contra-ataque, que até talvez lhe conviesse, dada a fragilidade em que a Optimus se encontraria no caso de um fracasso da OPA sobre a PT. Mais uma vez, seria tudo uma questão de preço, mas Belmiro talvez tivesse de saldar a Optimus e, portanto, a PT poderia até fazer um bom negócio.

À suivre...

Sacra-Rota

Em princípio, o casamento pela Igreja Católica é eterno e inviolável. Contudo, existe um Tribunal Eclesiástico (Sacra-Rota) que, em circunstâncias excepcionais e a pedido dos interessados pode declarar a nulidade do matrimónio. Assim, as pessoas podem de novo casar-se pela Igreja. Os pedidos estão a crescer de ano para ano. Os motivos mais frequentes das sentenças de nulidade em 2005 foram os seguintes: excessiva dependência do marido em relação à mãe, tendência patológica para a mentira, abuso de droga e alcool, aversão ao sexo, distúrbios congénitos ao orgasmo masculino.

Bento XVI apresentou ontem o relatório estatístico das causas de anulação de matrimónios em 2005 por ocasião da abertura do novo ano judicial da Sacra-Rota. Dos 1679 pedidos apresentados, 262 casos foram objecto de uma decisão e 69 decisões foram favoráveis à nulidade.

sábado, janeiro 27, 2007

É justo bater nas mulheres porque não têm alma...

O texto que se segue é uma tradução livre do artigo publicado na edição de hoje do "Corriere della Sera". Eloquente...

"Os homens são preferidos às mulheres, porque Deus privilegiou alguns seres em relação a outros (...); quanto àquelas de quem temeis actos de desobediência, deveis repreendê-las, depois deixá-las sózinhas nas suas camas, depois bater-lhes".

Corão, versículo IV, 34

"Ouviste o que nos disse o Imam? Que devemos bater nas mulheres! Porque as mulheres são estúpidas, são como as ovelhas que devem ser guiadas por um pastor. Vocês homens têm razão em bater-lhes porque é o Islão que o diz. O Corão ordena-o". No dia 26 de Agosto de 2005, no final da reza do crepúsculo, o pregador do ódio islâmico Wagdy Ghoneim falava aos fiéis reunidos na mesquita de Verona. Leader dos Irmãos Muçulmanos, esteve preso no Egipto, foi expulso dos Estados Unidos e do Canadá por apologia do terrorismo, Ghoneim conseguiu obter um visto para entrar em Itália.

Entre os que escutavam o Imam, encontrava-se o marroquino Moustapha Ben Har, 46 anos, um homem violento que tinha obrigado a mulher, a murro e a pontapé, a abortar duas vezes, tendo-a mandado para as Urgências três vezes com a cara desfigurada; tinha também sido denunciado por esfaqueamento de um compatriota que vivia no mesmo prédio; está desempregado por causa de repetidos litígios no local de trabalho. Regressado a casa depois da reza, Moustapha, convencido da legitimação islâmica do seu comportamento brutal, dirigiu ameaças graves a Amal El Bourfai, 33 anos, que tinha conhecido e com quem se tinha casado em Casablanca: "O Imam disse-nos que as mulheres não têm alma. Servem apenas para fazer crianças, cuidar da casa e satisfazer os desejos do marido. As mulheres não podem elevar a voz. Quem manda é apenas o marido. Se a mulher erra, é normal castigá-la. Este é o ensinamento do profeta".

Nessa noite, Amal teve realmente medo. Apertou contra si os dois filhos, Aiman, hoje com 4 anos, e Elias, que terá 3 anos em Maio deste ano. Recordou os primeiros dias do matrimónio, quando Moustapha a tratava bem. E como inesperadamente, dois meses depois da chegada a Itália em 2000, ele lhe começou a bater porque ainda não tinha ficado grávida: "És como a terra seca, não dás fruto!". Amal sentia-se culpada e suportava a violência. Até que análises clinicas mostraram que o problema era do marido. Fez uma terapia hormonal que teve sucesso. Mas, de facto, ele não amava os filhos. Pelo menos duas vezes, a sua fúria criminosa levou a que a mulher abortasse por causa dos murros no ventre. Mesmo depois do nascimento de Aiman, agrediu-a, atirando-a ao chão e saltando-lhe em cima da barriga. Estava grávida de 4 meses, perdia sangue, foi ao hospital e conseguiu salvar a gravidez até ao nascimento de Elias. Depois, Amal teve de abortar pela terceira vez no hospital porque ele não queria mais filhos: "Não tenho dinheiro para os manter".

(...)

Amal sentia-se impotente porque Moustapha tirou-lhe todos os documentos: o passaporte, a autorização de permanência em Itália, os cartões de contribuinte e do serviço nacional de saúde. Depende dele para tudo porque, formalmente, reside em Itália por motivo de reagrupamento familiar. Tudo mudou, no entanto, com a denúncia que fez, depois da mais recente ída ao Pronto-Socorro, denúncia que Amal não tenciona retirar. Ele, por vingança, decidiu fugir para Marrocos, pretendendo levar os filhos consigo. Já mandou as malas num autocarro para a sua família em Casablanca. Desde então, Amal fechou-se em casa com os filhos. Pediu ajuda ao Centro de Assistência Social de San Giovanni Lupatoto, o municipio da residência na provincia de Verona, obtendo como resposta que, para usufruir de acolhimento, deveria pagar 95 euros por dia... Ontem, voltou ao tribunal, pedindo, através da sua advogada, Rosanna Credendino, uma decisão urgente de expulsão de Moustapha da sua habitação. Segunda-feira, irá à polícia para pedir a proibição de saída do território nacional do marido e dos filhos.

Esta é a história dramática de uma "mãe-coragem", que luta com todas as suas forças para permanecer em Itália com os dois filhos, e de um marido violento, que já pediu a cidadania italiana, residindo no país desde 1989. Marido que pensa comportar-se de um modo islâmicamente correcto em virtude das rezas aberrantes dos chamados Irmãos Muçulmanos. Um deles, Hamza Roberto Piccardo, comenta da seguinte forma o versículo IV, 34 do Corão, num dos documentos mais divulgados nas mesquitas de Itália: "Pode-se compreender porque é que o Corão fornece ao marido os instrumentos para enfrentar a insubordinação da mulher antes de chegar ao remédio extremo do divórcio: admoestação, exclusão da afectividade e da relação conjugal, punição física. Em relação a esta última, deve notar-se que os documentos sagrados ["Sunna dell'Inviato" (?)] a desaconselham com firmeza, mas, em caso extremo, a permitem, desde que não atinja o rosto e que os golpes sejam curados com um lenço ou com uma pinça". Este detalhe técnico, sobre o modo islâmicamente correcto de bater nas mulheres, deve ter escapado a Moustapha... E a milhares de maridos violentos que, em Itália, invocam o Corão para agredir as suas mulheres. Este é o apelo de Amal: "Ajudem-me a ficar na minha casa com os meus filhos, ajudem-me a manter o mais longe possível o meu marido violento! Quero viver em Itália como uma mulher livre e quero que os meus filhos possam crescer como pessoas livres!".

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Referendo sobre o aborto

Acho que a igreja portuguesa tem sorte com o seu mais alto dignitário, D. José Policarpo. Trata-se de uma pessoa extremamente culta, equilibrada e atenta ao que se passa no mundo, um sério e discreto defensor do Não no referendo do aborto.

Eu sou pelo Sim, mas devo confessar que fiquei impressionado ontem com a moderação, sensatez e perspicácia com que D. José defendeu (no programa Grande Entrevista da RTP) o Não, no quadro ético da Igreja Católica (que absolutiza, não apenas a vida, mas também a potencialidade de vida), sem radicalismo, nomeadamente, em relação a métodos contraceptivos e à penalização das mulheres que praticam ilegalmente o aborto. Mostrou-se tolerante quanto a certos argumentos do campo oposto, propondo cooperação na luta contra as circunstâncias que levam ao aborto, mesmo no caso de o Sim ganhar. Mas, foi intelectualmente honesto ao afirmar que, na realidade, a Igreja se opõe mesmo à lei actual porque, em consonância com a moral cristã, não aceita quaisquer circunstâncias que possam justificar a interrupção da gestação da vida, incluindo mal-formação do feto ou risco de vida para a mulher...

Repito as razões pelas quais votarei Sim e que, apesar de tudo, D. José não conseguiu desfeitear. Voto Sim porque, sendo contra o aborto, como a esmagadora maioria das mulheres que abortam, também sou contra a hipocrisia (que leva, nomeadamente, a não punir criminalmente as mulheres fora da lei actual e a fazer de conta que não se aborta), contra os negócios escuros ligados ao aborto clandestino, a favor da saúde e da vida das mulheres.

Em vez de mudar a lei, D. José chega a defender claramente a tolerância em relação à maior parte das mulheres que abortam. De facto – recorda - quantas mulheres é que foram até agora condenadas pela prática do aborto? Portanto, a hipocrisia fica travestida de tolerância. Mas, nesse caso, porque não, simplesmente, alinhar a lei com a situação de facto? Leis que resistem excessivamente à realidade social e que deixam de exercer um papel pedagógico devem ser mudadas.

Sou um fervoroso defensor da vida, mas fico algo perplexo com a equiparação de vida a potencialidade de vida. Quando é que um embrião/feto é um ser humano ? Antes das 10 semanas ? No preciso momento da concepção ? Parece-me exagerado ir até à potencialidade de vida, porque nesse caso o aborto seria ubíquo. D. José responde dizendo que, de facto, a Igreja se opõe a todas as formas de violação da vida, sem excepção (isto é, - presumo - sem excluir a possibilidade de vida)...

Obviamente, o ideal será evitar as condições económicas, sociais e morais que descambam na maior parte dos abortos. Isso implica desenvolvimento (no sentido mais abrangente da palavra) e planeamento familiar, coisas de que sempre se falou e se continuará a falar. Coisas que, espero, se realizarão na prática com meios adequados e maior determinação, designadamente, da parte do Estado. Estamos a falar de questões gerais de sociedade que também influenciam o debate sobre o aborto. Na verdade, poder-se-ia pensar que o aborto é do foro da consciência de cada um e que, portanto, talvez não se justificasse um debate público nem um referendo. Estes últimos são plenamente justificados pela inscrição do problema na sociedade, nos usos e costumes, na moral colectiva.

O aborto mais odioso é o da irresponsabilidade e da incúria, é o aborto transformado em método de contracepção. Isto é, pessoas com cultura e educação, com acesso a todos os métodos anti-concepcionais e que se encontram sistematicamente na “obrigação” de fazer aborto para evitar uma maternidade / paternidade indesejada, naturalmente, com custos psicológicos e físicos elevadíssimos para as mulheres que caem nesses esquemas. Esses abortos “da facilidade”, talvez se devessem punir, mas reconheço que é difícil, do ponto de vista ético e factual, fazer a distinção entre um aborto esporádico e desculpável e um aborto doloso, no sentido que acabo de definir. Também é preciso não esquecer a percentagem provavelmente marginal que esse chamado aborto doloso representa em relação ao total.

Portugal seria um dos últimos países da Europa a legalizar o aborto até às 10 semanas, o que é expressivo da nossa posição na escala dos valores e do desenvolvimento social.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Certos americanos

Cliquem e não se riam. A coisa é mais séria do que parece.

Manel, um gajo porreiro

Se tu soubesses o que penso de ti Manel… És um gajo porreiro, divertido, fanfarrão. Mas – Manel – tens qualquer coisa que me perturba. Aquele olhar dúbio de quem fode o parceiro às escondidas, de quem cobiça o alheio com uma simpatia que se descompõe ao mínimo incidente. Manel: tu até és "nice", esforças-te por dizer sempre aquela frase que dispõe bem e que faz de ti um gajo porreiro. Mas, só um gajo porreiro... E disso anda o mundo farto, não é? Anda-se pela rua, dá-se um pontapé numa pedra e descobre-se, ali mesmo, um gajo porreiro. É pouco de mais ser-se um gajo porreiro. É um bocadito melhor ser-se "boa pessoa", mas não se acrescenta grande coisa aos incómios que enchem os cemitérios. Dizes anedotas com um à-vontade de artista de circo. Às vezes, dou contigo a olhar de soslaio, a não disfarçar o ódio pelo teu semelhante, a franzir a testa como se estivesses farto de fazer de conta que és um gajo porreiro. Ai Manel, Manel, ainda um dia te hei-de dizer o que penso de ti. O que verdadeiramente penso de ti e que, no fundo, nos torna parecidos. Somos quase da mesma estirpe. Sabes Manel: pensar em ti leva-me a olhar para mim com menos respeito ou, se quiseres, com menos prurido... Mas, eu sou um perfeccionista ético. Tenho a mania de ser boa pessoa, mas, ao fim e ao cabo, não sou muito diferente de ti. Tu és um "sacana". Eu talvez seja um "bom malandro" que ousa dizer a verdade a si próprio... e que, portanto, não se engana, nem se conta histórias da carochinha. Sabes Manel: acabaremos amigos, apesar de seres um "sacana". Amigos de verdade, sem o contrabando dos "gajos porreiros", sem ficções de bondade.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Homens com gripe

De António Lobo Antunes:

Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses como me sinto
Já vejo a morte nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas, diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a Santinha à cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus no cobertor
Chama o Doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada
Faz-me tisana e pão de ló
Não te levantes que fico só
Aqui sózinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
O melhor que pode acontecer quando se cresce é perder as ilusões,
ganhando tranquilidade.
Perder ilusões não significa perder sonhos.
Perder sonhos é meio caminho andado para uma morte em vida, uma vida no abismo.
Há muita gente morta que parece viver, mas só parece.
A tranquilidade dos sonhos que resistem ao tempo prepara os velhos para uma morte serena.

Começaram os exames

...e até 19 de Fevereiro, a minha contribuição neste blog não vai poder ser tão frequente.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Abbé Pierre

Morreu Abbé Pierre, fundador de Emmaüs, homem de fé e sobretudo de acção, muito respeitado em França, especialmente pelos mais desfavorecidos. Tenho pena. Era um homem bom, um visionário a favor dos pobres e dos marginais. Leiam os artigos publicados hoje pelo Le Monde.

Sábios conselhos do Blogger

Aqui vai um exemplo:

Do you blog about stuff that you would never tell your Mom? Does your Mom surf the web? Don't panic, we've got answers. Deleting your blog and abandoning your loyal readers is a last resort and should only be undertaken under dire circumstances. Our experts here at Blogger Support have come up with a list of suggestions to help you navigate around the dreaded 'Mom Scenario' (or prevent it altogether).
Para este e outros conselhos, clicar no título.

domingo, janeiro 21, 2007

Todo o cuidado é pouco...

No final de Fevereiro vou à Disneyland de Paris e acho que vou levar capacete, joelheiras e talvez um taco de baseball...

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Os cristãos que vão votar 'sim' no referendo serão alvo de excomunhão automática, a mais pesada das censuras eclesiásticas

(quanta actualidade)

E já agora, se o voto é secreto, como é que se decide quem é que vai ser excomungado?

Referendo ao aborto - Um pensamento

Os argumentos a favor do SIM e do NÃo já foram/estão tão (de)batidos que se arriscam seriamente a tornar-se clichés sem qualquer valor.
Se isto acontecer (se é que não está já a acontecer), as convicções perderão a força, o interesse diminuirá e uma questão como a despenalização de algo tão importante como o aborto será vista e abordada com uma leveza que não merece.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Belmiro strikes again

Acabei de ouvir o Eng° Belmiro de Azevedo na "Grande Entrevista" da RTP. A hora da verdade para a OPA sobre a PT aproxima-se (princípio de Março). O Eng° jura a pés juntos que não sobe o preço acima dos 9.5 euros, o que valoriza a PT em qualquer coisa como 11 mil milhões de euros. A cotação hoje fechou a 10.43 euros (+0.77% em relação a ontem), mas o Eng° diz que isso é o "mini-mercado da especulação". Diz também que depois da bolha e caso a sua OPA falhar, o preço da PT seguramente atingirá um valor inferior aos 9.5 euros da OPA, porque reflectirá o valor intrinseco do grupo e não a febre especulativa e o efeito de reboque do sector em alta na Europa. Por isso, os accionistas devem vender a 9.5 euros em Março em vez de recusarem a OPA. Em tudo isto não percebi se o Eng° está a fazer chantagem (tipo: depois de mim o dilúvio...), a comportar-se simplesmente como bom comprador que prefere pagar menos do que mais, se é ele próprio (e não propriamente a PT) que não vale mais do que 9.5 euros?

Também disse que espera que o Estado seja neutro, que estima muitíssimo o outro Eng° (o Sócrates) e a sua colaboração com o Presidente, e que, por isso, estão reunidas condições únicas para melhorar o estado do país (e provavelmente das suas finanças). Chegou a chamar ao Eng° Sócrates um excelente CEO (chief executive officer, expressão inglesa que designa o administrador executivo de topo de uma empresa e que em português vernáculo quer dizer "patrão") - acrescento, da empresa Portugal que iria muito longe se fosse gerida segundo o modelo de trabalho, disciplina e eficácia da Sonae, pois claro!

Disse que Portugal é demasiado pequeno para o seu grupo e que, portanto, o crescimento orgânico não lhe chega. Por isso se virou para o estrangeiro, especialmente, na àrea industrial (aglomerados de madeira) e se aventurou a comprar em Portugal a maior empresa, exactamente a PT. E se perder a PT (o que acha improvável a 99%), continuará a lutar, também nas telecomunicações, para libertar a Optimus das barreiras à concorrência e conquistar, finalmente, uma quota de mercado acima dos 25%.

Também disse que construiu o seu "império" essencialmente com o dinheiro dos bancos e que nunca faltou a nenhuma das suas dívidas porque investe o dinheiro (seu e principalmente dos credores) em negócios rentáveis. O seu grupo constitui garantias a favor dos bancos mas, a título pessoal, nunca hipotecou nenhum património. Chegou a dizer em surdina que - ele Belmiro de Azevedo - não devia nada a ninguém. Portanto, uma coisa é o Eng° outra é o grupo Sonae, naturalmente...

E está disposto a enfrentar os espanhóis da Telefónica, quer como potenciais vendedores no âmbito da OPA, quer para negociar posteriormente a operadora de telefones móveis Vivo do Brasil.

Grande Eng°. Ainda não fechou o concurso de "Melhor Português de Sempre"? Quase, quase não voto em D. João II.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Eu sou a favor do Sim...


...Mas estes argumentos são deliciosos!
"Não decepcionemos a nossa Mãe do Céu"

clicar na foto para aumentar.

domingo, janeiro 14, 2007

Falsas Acusações - um artigo impressionante

"O pai põe a pilinha na mão." Mafalda, então com três anos, não podia imaginar que aquela frase, repetida com a surpresa típica de quem descobre o sexo oposto, iria provocar a derrocada da sua família.
(...)
Chegou a considerar abuso o facto de pôr as miúdas no colo e fazer 'cavalinho'. Achava que aqueles movimentos tinham uma carga altamente sexual. Para evitar problemas, deixei de lhes mudar as fraldas, deixei de lhes dar banho, e já nem sabia bem o que podia ou não ser considerado estranho. Sentia-me encurralado.
(...)
a mãe das crianças interpôs uma queixa-crime por abuso sexual contra Manuel. O pai ficou impedido de ver as crianças até saírem os relatórios dos especialistas
(...)
Já passaram três anos desde que a mãe da Mafalda e da Francisca interpôs uma queixa-crime por abuso sexual contra Manuel. Já passaram três anos desde que Manuel viu as filhas pela última vez. A queixa-crime acabou de ser arquivada, porque o juiz considerou não ter qualquer fundamento. O julgamento que irá regular o poder paternal está marcado para Fevereiro. Manuel tem saudades das filhas mas sabe que tanto tempo de ausência e de indução de medo quebraram laços que nunca deviam ter sido quebrados. Resta saber se ainda há forma de os recuperar.


Para ler o artigo completo, clicar no título

Caminhar

Adoro caminhar na Natureza, nos pinháis ou através dos campos. Sózinho ou em grupo, distâncias que podem variar entre 5 e 20 quilómetros, durante 1 hora, uma manhá ou um dia. Quando há sol ou nuvens. Quando está frio ou calor. Mais chato é caminhar à chuva, mas, dependendo das circunstâncias e do equipamento, também se pode fazer. Caminhar faz bem à saúde e sobretudo à mente.

Quando caminho sózinho, deixo correr os meus pensamentos mais depressa do que os meus passos. Geralmente, não escolho nenhum tema, os pensamentos apresentam-se sem cerimónia e deixo que eles me ocupem o espírito pelo tempo e com o pormenor que desejam. Nessas deambulações, encontro na minha cabeça pessoas e chego a conclusões, por vezes, inesperadas e úteis. É divertido esse diálogo com a reflexão que se torna interlocutor e que se liberta do seu sujeito. De vez em quando, perco-me dos pensamentos, digo-lhes adeus. Eles ficam por sua conta e olho então a paisagem à volta. Com calma, admirando detalhes que antes me pareciam impossíveis ou irrelevantes. Casas, àrvores, colinas, riachos, subidas e descidas, pontes, pedras. O ritmo de uma caminhada não nos deixa passar pelos sítios de repente. Os sítios não são apenas cenário, como quando se vai de carro ou de combóio. Os sítios passam a ser protagonistas, companhia. E parecem sempre diferentes, como as pessoas interessantes de que nunca nos cansamos.

Caminhar em grupo é divertidíssimo. Fala-se, fala-se, fala-se, dribla-se o cansaço, ri-se, pára-se para comer uma bucha ou para comentar um pormenor do percurso, perde-se a noção da distância e do tempo. Fazem-se autênticas cimeiras e assinam-se tratados para decidir, em caso de dúvida, num cruzamento mal assinalado no mapa, qual o caminho a seguir. Discute-se o estado do mundo, os filmes e os livros do momento, esgrime-se política, resolvem-se os grandes problemas da Humanidade, penetra-se nos meandros da filosofia e da natureza humana, explica-se a proverbial e impagável saudade dos portugueses, passa-se por Jean-Marie Le Pen e o populismo na Europa, teoriza-se o futebol inglês e o papel dos russos ricos e do Mourinho, etc, etc. E no fim de várias horas e de músculos doridos quanto baste, chega-se ao ponto de partida onde, normalmente, há um bar ou um restaurante onde se faz questão de restabelecer o stock de calorias.

Caminhar é um divertimento a não perder. Não lhe quero chamar filosofia de vida ou metodologia para viver bem e para pensar melhor, para não parecer pretensioso e para não exagerar a coisa. Não gosto de absolutizações nem de excitações espúrias. Mas, é verdade que grandes expoentes da política, da arte e da ciência, como Rousseau ou Proust ou Churchill, tiveram grande parte das suas mais brilhantes ideias, precisamente, enquanto caminhavam. Eram grandes entusiastas e praticantes da "randonnée", como lhe chamam os franceses. Em França e noutros países europeus como a Alemanha, a "randonnée" tornou-se uma espécie de modalidade desportiva, uma cultura, um hobby de pessoas apaixonadas pela Natureza e pelo bem-estar. Nalguns casos, institucionalizou-se, talvez demais. Mas, não é preciso chegar a esses extremos. Caminhar pode ser apenas uma actividade livre, individual ou de grupo, de puro divertimento, sem grandes regras.

Caminhem e descubram a mística, o prazer e o fascínio de uma das mais elementares expressões da motricidade humana.