Em princípio, o casamento pela Igreja Católica é eterno e inviolável. Contudo, existe um Tribunal Eclesiástico (Sacra-Rota) que, em circunstâncias excepcionais e a pedido dos interessados pode declarar a nulidade do matrimónio. Assim, as pessoas podem de novo casar-se pela Igreja. Os pedidos estão a crescer de ano para ano. Os motivos mais frequentes das sentenças de nulidade em 2005 foram os seguintes: excessiva dependência do marido em relação à mãe, tendência patológica para a mentira, abuso de droga e alcool, aversão ao sexo, distúrbios congénitos ao orgasmo masculino.
Bento XVI apresentou ontem o relatório estatístico das causas de anulação de matrimónios em 2005 por ocasião da abertura do novo ano judicial da Sacra-Rota. Dos 1679 pedidos apresentados, 262 casos foram objecto de uma decisão e 69 decisões foram favoráveis à nulidade.
domingo, janeiro 28, 2007
sábado, janeiro 27, 2007
É justo bater nas mulheres porque não têm alma...
O texto que se segue é uma tradução livre do artigo publicado na edição de hoje do "Corriere della Sera". Eloquente...
"Os homens são preferidos às mulheres, porque Deus privilegiou alguns seres em relação a outros (...); quanto àquelas de quem temeis actos de desobediência, deveis repreendê-las, depois deixá-las sózinhas nas suas camas, depois bater-lhes".
Corão, versículo IV, 34
"Ouviste o que nos disse o Imam? Que devemos bater nas mulheres! Porque as mulheres são estúpidas, são como as ovelhas que devem ser guiadas por um pastor. Vocês homens têm razão em bater-lhes porque é o Islão que o diz. O Corão ordena-o". No dia 26 de Agosto de 2005, no final da reza do crepúsculo, o pregador do ódio islâmico Wagdy Ghoneim falava aos fiéis reunidos na mesquita de Verona. Leader dos Irmãos Muçulmanos, esteve preso no Egipto, foi expulso dos Estados Unidos e do Canadá por apologia do terrorismo, Ghoneim conseguiu obter um visto para entrar em Itália.
Entre os que escutavam o Imam, encontrava-se o marroquino Moustapha Ben Har, 46 anos, um homem violento que tinha obrigado a mulher, a murro e a pontapé, a abortar duas vezes, tendo-a mandado para as Urgências três vezes com a cara desfigurada; tinha também sido denunciado por esfaqueamento de um compatriota que vivia no mesmo prédio; está desempregado por causa de repetidos litígios no local de trabalho. Regressado a casa depois da reza, Moustapha, convencido da legitimação islâmica do seu comportamento brutal, dirigiu ameaças graves a Amal El Bourfai, 33 anos, que tinha conhecido e com quem se tinha casado em Casablanca: "O Imam disse-nos que as mulheres não têm alma. Servem apenas para fazer crianças, cuidar da casa e satisfazer os desejos do marido. As mulheres não podem elevar a voz. Quem manda é apenas o marido. Se a mulher erra, é normal castigá-la. Este é o ensinamento do profeta".
Nessa noite, Amal teve realmente medo. Apertou contra si os dois filhos, Aiman, hoje com 4 anos, e Elias, que terá 3 anos em Maio deste ano. Recordou os primeiros dias do matrimónio, quando Moustapha a tratava bem. E como inesperadamente, dois meses depois da chegada a Itália em 2000, ele lhe começou a bater porque ainda não tinha ficado grávida: "És como a terra seca, não dás fruto!". Amal sentia-se culpada e suportava a violência. Até que análises clinicas mostraram que o problema era do marido. Fez uma terapia hormonal que teve sucesso. Mas, de facto, ele não amava os filhos. Pelo menos duas vezes, a sua fúria criminosa levou a que a mulher abortasse por causa dos murros no ventre. Mesmo depois do nascimento de Aiman, agrediu-a, atirando-a ao chão e saltando-lhe em cima da barriga. Estava grávida de 4 meses, perdia sangue, foi ao hospital e conseguiu salvar a gravidez até ao nascimento de Elias. Depois, Amal teve de abortar pela terceira vez no hospital porque ele não queria mais filhos: "Não tenho dinheiro para os manter".
(...)
Amal sentia-se impotente porque Moustapha tirou-lhe todos os documentos: o passaporte, a autorização de permanência em Itália, os cartões de contribuinte e do serviço nacional de saúde. Depende dele para tudo porque, formalmente, reside em Itália por motivo de reagrupamento familiar. Tudo mudou, no entanto, com a denúncia que fez, depois da mais recente ída ao Pronto-Socorro, denúncia que Amal não tenciona retirar. Ele, por vingança, decidiu fugir para Marrocos, pretendendo levar os filhos consigo. Já mandou as malas num autocarro para a sua família em Casablanca. Desde então, Amal fechou-se em casa com os filhos. Pediu ajuda ao Centro de Assistência Social de San Giovanni Lupatoto, o municipio da residência na provincia de Verona, obtendo como resposta que, para usufruir de acolhimento, deveria pagar 95 euros por dia... Ontem, voltou ao tribunal, pedindo, através da sua advogada, Rosanna Credendino, uma decisão urgente de expulsão de Moustapha da sua habitação. Segunda-feira, irá à polícia para pedir a proibição de saída do território nacional do marido e dos filhos.
Esta é a história dramática de uma "mãe-coragem", que luta com todas as suas forças para permanecer em Itália com os dois filhos, e de um marido violento, que já pediu a cidadania italiana, residindo no país desde 1989. Marido que pensa comportar-se de um modo islâmicamente correcto em virtude das rezas aberrantes dos chamados Irmãos Muçulmanos. Um deles, Hamza Roberto Piccardo, comenta da seguinte forma o versículo IV, 34 do Corão, num dos documentos mais divulgados nas mesquitas de Itália: "Pode-se compreender porque é que o Corão fornece ao marido os instrumentos para enfrentar a insubordinação da mulher antes de chegar ao remédio extremo do divórcio: admoestação, exclusão da afectividade e da relação conjugal, punição física. Em relação a esta última, deve notar-se que os documentos sagrados ["Sunna dell'Inviato" (?)] a desaconselham com firmeza, mas, em caso extremo, a permitem, desde que não atinja o rosto e que os golpes sejam curados com um lenço ou com uma pinça". Este detalhe técnico, sobre o modo islâmicamente correcto de bater nas mulheres, deve ter escapado a Moustapha... E a milhares de maridos violentos que, em Itália, invocam o Corão para agredir as suas mulheres. Este é o apelo de Amal: "Ajudem-me a ficar na minha casa com os meus filhos, ajudem-me a manter o mais longe possível o meu marido violento! Quero viver em Itália como uma mulher livre e quero que os meus filhos possam crescer como pessoas livres!".
"Os homens são preferidos às mulheres, porque Deus privilegiou alguns seres em relação a outros (...); quanto àquelas de quem temeis actos de desobediência, deveis repreendê-las, depois deixá-las sózinhas nas suas camas, depois bater-lhes".
Corão, versículo IV, 34
"Ouviste o que nos disse o Imam? Que devemos bater nas mulheres! Porque as mulheres são estúpidas, são como as ovelhas que devem ser guiadas por um pastor. Vocês homens têm razão em bater-lhes porque é o Islão que o diz. O Corão ordena-o". No dia 26 de Agosto de 2005, no final da reza do crepúsculo, o pregador do ódio islâmico Wagdy Ghoneim falava aos fiéis reunidos na mesquita de Verona. Leader dos Irmãos Muçulmanos, esteve preso no Egipto, foi expulso dos Estados Unidos e do Canadá por apologia do terrorismo, Ghoneim conseguiu obter um visto para entrar em Itália.
Entre os que escutavam o Imam, encontrava-se o marroquino Moustapha Ben Har, 46 anos, um homem violento que tinha obrigado a mulher, a murro e a pontapé, a abortar duas vezes, tendo-a mandado para as Urgências três vezes com a cara desfigurada; tinha também sido denunciado por esfaqueamento de um compatriota que vivia no mesmo prédio; está desempregado por causa de repetidos litígios no local de trabalho. Regressado a casa depois da reza, Moustapha, convencido da legitimação islâmica do seu comportamento brutal, dirigiu ameaças graves a Amal El Bourfai, 33 anos, que tinha conhecido e com quem se tinha casado em Casablanca: "O Imam disse-nos que as mulheres não têm alma. Servem apenas para fazer crianças, cuidar da casa e satisfazer os desejos do marido. As mulheres não podem elevar a voz. Quem manda é apenas o marido. Se a mulher erra, é normal castigá-la. Este é o ensinamento do profeta".
Nessa noite, Amal teve realmente medo. Apertou contra si os dois filhos, Aiman, hoje com 4 anos, e Elias, que terá 3 anos em Maio deste ano. Recordou os primeiros dias do matrimónio, quando Moustapha a tratava bem. E como inesperadamente, dois meses depois da chegada a Itália em 2000, ele lhe começou a bater porque ainda não tinha ficado grávida: "És como a terra seca, não dás fruto!". Amal sentia-se culpada e suportava a violência. Até que análises clinicas mostraram que o problema era do marido. Fez uma terapia hormonal que teve sucesso. Mas, de facto, ele não amava os filhos. Pelo menos duas vezes, a sua fúria criminosa levou a que a mulher abortasse por causa dos murros no ventre. Mesmo depois do nascimento de Aiman, agrediu-a, atirando-a ao chão e saltando-lhe em cima da barriga. Estava grávida de 4 meses, perdia sangue, foi ao hospital e conseguiu salvar a gravidez até ao nascimento de Elias. Depois, Amal teve de abortar pela terceira vez no hospital porque ele não queria mais filhos: "Não tenho dinheiro para os manter".
(...)
Amal sentia-se impotente porque Moustapha tirou-lhe todos os documentos: o passaporte, a autorização de permanência em Itália, os cartões de contribuinte e do serviço nacional de saúde. Depende dele para tudo porque, formalmente, reside em Itália por motivo de reagrupamento familiar. Tudo mudou, no entanto, com a denúncia que fez, depois da mais recente ída ao Pronto-Socorro, denúncia que Amal não tenciona retirar. Ele, por vingança, decidiu fugir para Marrocos, pretendendo levar os filhos consigo. Já mandou as malas num autocarro para a sua família em Casablanca. Desde então, Amal fechou-se em casa com os filhos. Pediu ajuda ao Centro de Assistência Social de San Giovanni Lupatoto, o municipio da residência na provincia de Verona, obtendo como resposta que, para usufruir de acolhimento, deveria pagar 95 euros por dia... Ontem, voltou ao tribunal, pedindo, através da sua advogada, Rosanna Credendino, uma decisão urgente de expulsão de Moustapha da sua habitação. Segunda-feira, irá à polícia para pedir a proibição de saída do território nacional do marido e dos filhos.
Esta é a história dramática de uma "mãe-coragem", que luta com todas as suas forças para permanecer em Itália com os dois filhos, e de um marido violento, que já pediu a cidadania italiana, residindo no país desde 1989. Marido que pensa comportar-se de um modo islâmicamente correcto em virtude das rezas aberrantes dos chamados Irmãos Muçulmanos. Um deles, Hamza Roberto Piccardo, comenta da seguinte forma o versículo IV, 34 do Corão, num dos documentos mais divulgados nas mesquitas de Itália: "Pode-se compreender porque é que o Corão fornece ao marido os instrumentos para enfrentar a insubordinação da mulher antes de chegar ao remédio extremo do divórcio: admoestação, exclusão da afectividade e da relação conjugal, punição física. Em relação a esta última, deve notar-se que os documentos sagrados ["Sunna dell'Inviato" (?)] a desaconselham com firmeza, mas, em caso extremo, a permitem, desde que não atinja o rosto e que os golpes sejam curados com um lenço ou com uma pinça". Este detalhe técnico, sobre o modo islâmicamente correcto de bater nas mulheres, deve ter escapado a Moustapha... E a milhares de maridos violentos que, em Itália, invocam o Corão para agredir as suas mulheres. Este é o apelo de Amal: "Ajudem-me a ficar na minha casa com os meus filhos, ajudem-me a manter o mais longe possível o meu marido violento! Quero viver em Itália como uma mulher livre e quero que os meus filhos possam crescer como pessoas livres!".
sexta-feira, janeiro 26, 2007
Referendo sobre o aborto
Acho que a igreja portuguesa tem sorte com o seu mais alto dignitário, D. José Policarpo. Trata-se de uma pessoa extremamente culta, equilibrada e atenta ao que se passa no mundo, um sério e discreto defensor do Não no referendo do aborto.Eu sou pelo Sim, mas devo confessar que fiquei impressionado ontem com a moderação, sensatez e perspicácia com que D. José defendeu (no programa Grande Entrevista da RTP) o Não, no quadro ético da Igreja Católica (que absolutiza, não apenas a vida, mas também a potencialidade de vida), sem radicalismo, nomeadamente, em relação a métodos contraceptivos e à penalização das mulheres que praticam ilegalmente o aborto. Mostrou-se tolerante quanto a certos argumentos do campo oposto, propondo cooperação na luta contra as circunstâncias que levam ao aborto, mesmo no caso de o Sim ganhar. Mas, foi intelectualmente honesto ao afirmar que, na realidade, a Igreja se opõe mesmo à lei actual porque, em consonância com a moral cristã, não aceita quaisquer circunstâncias que possam justificar a interrupção da gestação da vida, incluindo mal-formação do feto ou risco de vida para a mulher...
Repito as razões pelas quais votarei Sim e que, apesar de tudo, D. José não conseguiu desfeitear. Voto Sim porque, sendo contra o aborto, como a esmagadora maioria das mulheres que abortam, também sou contra a hipocrisia (que leva, nomeadamente, a não punir criminalmente as mulheres fora da lei actual e a fazer de conta que não se aborta), contra os negócios escuros ligados ao aborto clandestino, a favor da saúde e da vida das mulheres.
Em vez de mudar a lei, D. José chega a defender claramente a tolerância em relação à maior parte das mulheres que abortam. De facto – recorda - quantas mulheres é que foram até agora condenadas pela prática do aborto? Portanto, a hipocrisia fica travestida de tolerância. Mas, nesse caso, porque não, simplesmente, alinhar a lei com a situação de facto? Leis que resistem excessivamente à realidade social e que deixam de exercer um papel pedagógico devem ser mudadas.
Sou um fervoroso defensor da vida, mas fico algo perplexo com a equiparação de vida a potencialidade de vida. Quando é que um embrião/feto é um ser humano ? Antes das 10 semanas ? No preciso momento da concepção ? Parece-me exagerado ir até à potencialidade de vida, porque nesse caso o aborto seria ubíquo. D. José responde dizendo que, de facto, a Igreja se opõe a todas as formas de violação da vida, sem excepção (isto é, - presumo - sem excluir a possibilidade de vida)...
Obviamente, o ideal será evitar as condições económicas, sociais e morais que descambam na maior parte dos abortos. Isso implica desenvolvimento (no sentido mais abrangente da palavra) e planeamento familiar, coisas de que sempre se falou e se continuará a falar. Coisas que, espero, se realizarão na prática com meios adequados e maior determinação, designadamente, da parte do Estado. Estamos a falar de questões gerais de sociedade que também influenciam o debate sobre o aborto. Na verdade, poder-se-ia pensar que o aborto é do foro da consciência de cada um e que, portanto, talvez não se justificasse um debate público nem um referendo. Estes últimos são plenamente justificados pela inscrição do problema na sociedade, nos usos e costumes, na moral colectiva.
O aborto mais odioso é o da irresponsabilidade e da incúria, é o aborto transformado em método de contracepção. Isto é, pessoas com cultura e educação, com acesso a todos os métodos anti-concepcionais e que se encontram sistematicamente na “obrigação” de fazer aborto para evitar uma maternidade / paternidade indesejada, naturalmente, com custos psicológicos e físicos elevadíssimos para as mulheres que caem nesses esquemas. Esses abortos “da facilidade”, talvez se devessem punir, mas reconheço que é difícil, do ponto de vista ético e factual, fazer a distinção entre um aborto esporádico e desculpável e um aborto doloso, no sentido que acabo de definir. Também é preciso não esquecer a percentagem provavelmente marginal que esse chamado aborto doloso representa em relação ao total.
Portugal seria um dos últimos países da Europa a legalizar o aborto até às 10 semanas, o que é expressivo da nossa posição na escala dos valores e do desenvolvimento social.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Manel, um gajo porreiro
Se tu soubesses o que penso de ti Manel… És um gajo porreiro, divertido, fanfarrão. Mas – Manel – tens qualquer coisa que me perturba. Aquele olhar dúbio de quem fode o parceiro às escondidas, de quem cobiça o alheio com uma simpatia que se descompõe ao mínimo incidente. Manel: tu até és "nice", esforças-te por dizer sempre aquela frase que dispõe bem e que faz de ti um gajo porreiro. Mas, só um gajo porreiro... E disso anda o mundo farto, não é? Anda-se pela rua, dá-se um pontapé numa pedra e descobre-se, ali mesmo, um gajo porreiro. É pouco de mais ser-se um gajo porreiro. É um bocadito melhor ser-se "boa pessoa", mas não se acrescenta grande coisa aos incómios que enchem os cemitérios. Dizes anedotas com um à-vontade de artista de circo. Às vezes, dou contigo a olhar de soslaio, a não disfarçar o ódio pelo teu semelhante, a franzir a testa como se estivesses farto de fazer de conta que és um gajo porreiro. Ai Manel, Manel, ainda um dia te hei-de dizer o que penso de ti. O que verdadeiramente penso de ti e que, no fundo, nos torna parecidos. Somos quase da mesma estirpe. Sabes Manel: pensar em ti leva-me a olhar para mim com menos respeito ou, se quiseres, com menos prurido... Mas, eu sou um perfeccionista ético. Tenho a mania de ser boa pessoa, mas, ao fim e ao cabo, não sou muito diferente de ti. Tu és um "sacana". Eu talvez seja um "bom malandro" que ousa dizer a verdade a si próprio... e que, portanto, não se engana, nem se conta histórias da carochinha. Sabes Manel: acabaremos amigos, apesar de seres um "sacana". Amigos de verdade, sem o contrabando dos "gajos porreiros", sem ficções de bondade.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Homens com gripe
De António Lobo Antunes:
Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses como me sinto
Já vejo a morte nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas, diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a Santinha à cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus no cobertor
Chama o Doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada
Faz-me tisana e pão de ló
Não te levantes que fico só
Aqui sózinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses como me sinto
Já vejo a morte nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas, diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a Santinha à cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus no cobertor
Chama o Doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada
Faz-me tisana e pão de ló
Não te levantes que fico só
Aqui sózinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
O melhor que pode acontecer quando se cresce é perder as ilusões,
ganhando tranquilidade.
Perder ilusões não significa perder sonhos.
Perder sonhos é meio caminho andado para uma morte em vida, uma vida no abismo.
Há muita gente morta que parece viver, mas só parece.
A tranquilidade dos sonhos que resistem ao tempo prepara os velhos para uma morte serena.
ganhando tranquilidade.
Perder ilusões não significa perder sonhos.
Perder sonhos é meio caminho andado para uma morte em vida, uma vida no abismo.
Há muita gente morta que parece viver, mas só parece.
A tranquilidade dos sonhos que resistem ao tempo prepara os velhos para uma morte serena.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
Abbé Pierre
Morreu Abbé Pierre, fundador de Emmaüs, homem de fé e sobretudo de acção, muito respeitado em França, especialmente pelos mais desfavorecidos. Tenho pena. Era um homem bom, um visionário a favor dos pobres e dos marginais. Leiam os artigos publicados hoje pelo Le Monde.
Sábios conselhos do Blogger
Aqui vai um exemplo:
Do you blog about stuff that you would never tell your Mom? Does your Mom surf the web? Don't panic, we've got answers. Deleting your blog and abandoning your loyal readers is a last resort and should only be undertaken under dire circumstances. Our experts here at Blogger Support have come up with a list of suggestions to help you navigate around the dreaded 'Mom Scenario' (or prevent it altogether).
Para este e outros conselhos, clicar no título.
domingo, janeiro 21, 2007
Todo o cuidado é pouco...
No final de Fevereiro vou à Disneyland de Paris e acho que vou levar capacete, joelheiras e talvez um taco de baseball...
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Os cristãos que vão votar 'sim' no referendo serão alvo de excomunhão automática, a mais pesada das censuras eclesiásticas
(quanta actualidade)
E já agora, se o voto é secreto, como é que se decide quem é que vai ser excomungado?
Referendo ao aborto - Um pensamento
Os argumentos a favor do SIM e do NÃo já foram/estão tão (de)batidos que se arriscam seriamente a tornar-se clichés sem qualquer valor.
Se isto acontecer (se é que não está já a acontecer), as convicções perderão a força, o interesse diminuirá e uma questão como a despenalização de algo tão importante como o aborto será vista e abordada com uma leveza que não merece.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Belmiro strikes again
Acabei de ouvir o Eng° Belmiro de Azevedo na "Grande Entrevista" da RTP. A hora da verdade para a OPA sobre a PT aproxima-se (princípio de Março). O Eng° jura a pés juntos que não sobe o preço acima dos 9.5 euros, o que valoriza a PT em qualquer coisa como 11 mil milhões de euros. A cotação hoje fechou a 10.43 euros (+0.77% em relação a ontem), mas o Eng° diz que isso é o "mini-mercado da especulação". Diz também que depois da bolha e caso a sua OPA falhar, o preço da PT seguramente atingirá um valor inferior aos 9.5 euros da OPA, porque reflectirá o valor intrinseco do grupo e não a febre especulativa e o efeito de reboque do sector em alta na Europa. Por isso, os accionistas devem vender a 9.5 euros em Março em vez de recusarem a OPA. Em tudo isto não percebi se o Eng° está a fazer chantagem (tipo: depois de mim o dilúvio...), a comportar-se simplesmente como bom comprador que prefere pagar menos do que mais, se é ele próprio (e não propriamente a PT) que não vale mais do que 9.5 euros?
Também disse que espera que o Estado seja neutro, que estima muitíssimo o outro Eng° (o Sócrates) e a sua colaboração com o Presidente, e que, por isso, estão reunidas condições únicas para melhorar o estado do país (e provavelmente das suas finanças). Chegou a chamar ao Eng° Sócrates um excelente CEO (chief executive officer, expressão inglesa que designa o administrador executivo de topo de uma empresa e que em português vernáculo quer dizer "patrão") - acrescento, da empresa Portugal que iria muito longe se fosse gerida segundo o modelo de trabalho, disciplina e eficácia da Sonae, pois claro!
Disse que Portugal é demasiado pequeno para o seu grupo e que, portanto, o crescimento orgânico não lhe chega. Por isso se virou para o estrangeiro, especialmente, na àrea industrial (aglomerados de madeira) e se aventurou a comprar em Portugal a maior empresa, exactamente a PT. E se perder a PT (o que acha improvável a 99%), continuará a lutar, também nas telecomunicações, para libertar a Optimus das barreiras à concorrência e conquistar, finalmente, uma quota de mercado acima dos 25%.
Também disse que construiu o seu "império" essencialmente com o dinheiro dos bancos e que nunca faltou a nenhuma das suas dívidas porque investe o dinheiro (seu e principalmente dos credores) em negócios rentáveis. O seu grupo constitui garantias a favor dos bancos mas, a título pessoal, nunca hipotecou nenhum património. Chegou a dizer em surdina que - ele Belmiro de Azevedo - não devia nada a ninguém. Portanto, uma coisa é o Eng° outra é o grupo Sonae, naturalmente...
E está disposto a enfrentar os espanhóis da Telefónica, quer como potenciais vendedores no âmbito da OPA, quer para negociar posteriormente a operadora de telefones móveis Vivo do Brasil.
Grande Eng°. Ainda não fechou o concurso de "Melhor Português de Sempre"? Quase, quase não voto em D. João II.
Também disse que espera que o Estado seja neutro, que estima muitíssimo o outro Eng° (o Sócrates) e a sua colaboração com o Presidente, e que, por isso, estão reunidas condições únicas para melhorar o estado do país (e provavelmente das suas finanças). Chegou a chamar ao Eng° Sócrates um excelente CEO (chief executive officer, expressão inglesa que designa o administrador executivo de topo de uma empresa e que em português vernáculo quer dizer "patrão") - acrescento, da empresa Portugal que iria muito longe se fosse gerida segundo o modelo de trabalho, disciplina e eficácia da Sonae, pois claro!
Disse que Portugal é demasiado pequeno para o seu grupo e que, portanto, o crescimento orgânico não lhe chega. Por isso se virou para o estrangeiro, especialmente, na àrea industrial (aglomerados de madeira) e se aventurou a comprar em Portugal a maior empresa, exactamente a PT. E se perder a PT (o que acha improvável a 99%), continuará a lutar, também nas telecomunicações, para libertar a Optimus das barreiras à concorrência e conquistar, finalmente, uma quota de mercado acima dos 25%.
Também disse que construiu o seu "império" essencialmente com o dinheiro dos bancos e que nunca faltou a nenhuma das suas dívidas porque investe o dinheiro (seu e principalmente dos credores) em negócios rentáveis. O seu grupo constitui garantias a favor dos bancos mas, a título pessoal, nunca hipotecou nenhum património. Chegou a dizer em surdina que - ele Belmiro de Azevedo - não devia nada a ninguém. Portanto, uma coisa é o Eng° outra é o grupo Sonae, naturalmente...
E está disposto a enfrentar os espanhóis da Telefónica, quer como potenciais vendedores no âmbito da OPA, quer para negociar posteriormente a operadora de telefones móveis Vivo do Brasil.
Grande Eng°. Ainda não fechou o concurso de "Melhor Português de Sempre"? Quase, quase não voto em D. João II.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Eu sou a favor do Sim...

...Mas estes argumentos são deliciosos!
"Não decepcionemos a nossa Mãe do Céu"
clicar na foto para aumentar.
Via: Blogotinha
domingo, janeiro 14, 2007
Falsas Acusações - um artigo impressionante
"O pai põe a pilinha na mão." Mafalda, então com três anos, não podia imaginar que aquela frase, repetida com a surpresa típica de quem descobre o sexo oposto, iria provocar a derrocada da sua família.
(...)
Chegou a considerar abuso o facto de pôr as miúdas no colo e fazer 'cavalinho'. Achava que aqueles movimentos tinham uma carga altamente sexual. Para evitar problemas, deixei de lhes mudar as fraldas, deixei de lhes dar banho, e já nem sabia bem o que podia ou não ser considerado estranho. Sentia-me encurralado.
(...)
a mãe das crianças interpôs uma queixa-crime por abuso sexual contra Manuel. O pai ficou impedido de ver as crianças até saírem os relatórios dos especialistas
(...)
Já passaram três anos desde que a mãe da Mafalda e da Francisca interpôs uma queixa-crime por abuso sexual contra Manuel. Já passaram três anos desde que Manuel viu as filhas pela última vez. A queixa-crime acabou de ser arquivada, porque o juiz considerou não ter qualquer fundamento. O julgamento que irá regular o poder paternal está marcado para Fevereiro. Manuel tem saudades das filhas mas sabe que tanto tempo de ausência e de indução de medo quebraram laços que nunca deviam ter sido quebrados. Resta saber se ainda há forma de os recuperar.
Para ler o artigo completo, clicar no título
Caminhar
Adoro caminhar na Natureza, nos pinháis ou através dos campos. Sózinho ou em grupo, distâncias que podem variar entre 5 e 20 quilómetros, durante 1 hora, uma manhá ou um dia. Quando há sol ou nuvens. Quando está frio ou calor. Mais chato é caminhar à chuva, mas, dependendo das circunstâncias e do equipamento, também se pode fazer. Caminhar faz bem à saúde e sobretudo à mente.
Quando caminho sózinho, deixo correr os meus pensamentos mais depressa do que os meus passos. Geralmente, não escolho nenhum tema, os pensamentos apresentam-se sem cerimónia e deixo que eles me ocupem o espírito pelo tempo e com o pormenor que desejam. Nessas deambulações, encontro na minha cabeça pessoas e chego a conclusões, por vezes, inesperadas e úteis. É divertido esse diálogo com a reflexão que se torna interlocutor e que se liberta do seu sujeito. De vez em quando, perco-me dos pensamentos, digo-lhes adeus. Eles ficam por sua conta e olho então a paisagem à volta. Com calma, admirando detalhes que antes me pareciam impossíveis ou irrelevantes. Casas, àrvores, colinas, riachos, subidas e descidas, pontes, pedras. O ritmo de uma caminhada não nos deixa passar pelos sítios de repente. Os sítios não são apenas cenário, como quando se vai de carro ou de combóio. Os sítios passam a ser protagonistas, companhia. E parecem sempre diferentes, como as pessoas interessantes de que nunca nos cansamos.
Caminhar em grupo é divertidíssimo. Fala-se, fala-se, fala-se, dribla-se o cansaço, ri-se, pára-se para comer uma bucha ou para comentar um pormenor do percurso, perde-se a noção da distância e do tempo. Fazem-se autênticas cimeiras e assinam-se tratados para decidir, em caso de dúvida, num cruzamento mal assinalado no mapa, qual o caminho a seguir. Discute-se o estado do mundo, os filmes e os livros do momento, esgrime-se política, resolvem-se os grandes problemas da Humanidade, penetra-se nos meandros da filosofia e da natureza humana, explica-se a proverbial e impagável saudade dos portugueses, passa-se por Jean-Marie Le Pen e o populismo na Europa, teoriza-se o futebol inglês e o papel dos russos ricos e do Mourinho, etc, etc. E no fim de várias horas e de músculos doridos quanto baste, chega-se ao ponto de partida onde, normalmente, há um bar ou um restaurante onde se faz questão de restabelecer o stock de calorias.
Caminhar é um divertimento a não perder. Não lhe quero chamar filosofia de vida ou metodologia para viver bem e para pensar melhor, para não parecer pretensioso e para não exagerar a coisa. Não gosto de absolutizações nem de excitações espúrias. Mas, é verdade que grandes expoentes da política, da arte e da ciência, como Rousseau ou Proust ou Churchill, tiveram grande parte das suas mais brilhantes ideias, precisamente, enquanto caminhavam. Eram grandes entusiastas e praticantes da "randonnée", como lhe chamam os franceses. Em França e noutros países europeus como a Alemanha, a "randonnée" tornou-se uma espécie de modalidade desportiva, uma cultura, um hobby de pessoas apaixonadas pela Natureza e pelo bem-estar. Nalguns casos, institucionalizou-se, talvez demais. Mas, não é preciso chegar a esses extremos. Caminhar pode ser apenas uma actividade livre, individual ou de grupo, de puro divertimento, sem grandes regras.
Caminhem e descubram a mística, o prazer e o fascínio de uma das mais elementares expressões da motricidade humana.
Quando caminho sózinho, deixo correr os meus pensamentos mais depressa do que os meus passos. Geralmente, não escolho nenhum tema, os pensamentos apresentam-se sem cerimónia e deixo que eles me ocupem o espírito pelo tempo e com o pormenor que desejam. Nessas deambulações, encontro na minha cabeça pessoas e chego a conclusões, por vezes, inesperadas e úteis. É divertido esse diálogo com a reflexão que se torna interlocutor e que se liberta do seu sujeito. De vez em quando, perco-me dos pensamentos, digo-lhes adeus. Eles ficam por sua conta e olho então a paisagem à volta. Com calma, admirando detalhes que antes me pareciam impossíveis ou irrelevantes. Casas, àrvores, colinas, riachos, subidas e descidas, pontes, pedras. O ritmo de uma caminhada não nos deixa passar pelos sítios de repente. Os sítios não são apenas cenário, como quando se vai de carro ou de combóio. Os sítios passam a ser protagonistas, companhia. E parecem sempre diferentes, como as pessoas interessantes de que nunca nos cansamos.
Caminhar em grupo é divertidíssimo. Fala-se, fala-se, fala-se, dribla-se o cansaço, ri-se, pára-se para comer uma bucha ou para comentar um pormenor do percurso, perde-se a noção da distância e do tempo. Fazem-se autênticas cimeiras e assinam-se tratados para decidir, em caso de dúvida, num cruzamento mal assinalado no mapa, qual o caminho a seguir. Discute-se o estado do mundo, os filmes e os livros do momento, esgrime-se política, resolvem-se os grandes problemas da Humanidade, penetra-se nos meandros da filosofia e da natureza humana, explica-se a proverbial e impagável saudade dos portugueses, passa-se por Jean-Marie Le Pen e o populismo na Europa, teoriza-se o futebol inglês e o papel dos russos ricos e do Mourinho, etc, etc. E no fim de várias horas e de músculos doridos quanto baste, chega-se ao ponto de partida onde, normalmente, há um bar ou um restaurante onde se faz questão de restabelecer o stock de calorias.
Caminhar é um divertimento a não perder. Não lhe quero chamar filosofia de vida ou metodologia para viver bem e para pensar melhor, para não parecer pretensioso e para não exagerar a coisa. Não gosto de absolutizações nem de excitações espúrias. Mas, é verdade que grandes expoentes da política, da arte e da ciência, como Rousseau ou Proust ou Churchill, tiveram grande parte das suas mais brilhantes ideias, precisamente, enquanto caminhavam. Eram grandes entusiastas e praticantes da "randonnée", como lhe chamam os franceses. Em França e noutros países europeus como a Alemanha, a "randonnée" tornou-se uma espécie de modalidade desportiva, uma cultura, um hobby de pessoas apaixonadas pela Natureza e pelo bem-estar. Nalguns casos, institucionalizou-se, talvez demais. Mas, não é preciso chegar a esses extremos. Caminhar pode ser apenas uma actividade livre, individual ou de grupo, de puro divertimento, sem grandes regras.
Caminhem e descubram a mística, o prazer e o fascínio de uma das mais elementares expressões da motricidade humana.
sábado, janeiro 13, 2007
sexta-feira, janeiro 12, 2007
A doença mental ao longo da história
Peço desculpa pela inclusão de assuntos demasiado "psicológicos" no blog, mas ando a estudar umas coisinhas que achei que podiam ser do interesse de alguns leitores, por isso aqui vai uma parte da matéria de psicopatologia...
A doença mental gera posições defensivas da sociedade, sendo a atitude de uma cultura relativamente a esta tradutora do seu estado evolutivo. Pelo seu carácter enigmático, desde cedo se procuram as causas do comportamento anormal. Esta busca começa com a demonologia primitiva, que remonta às antigas culturas chinesa, egípcia e babilónia. Nestas, a causa da doença mental era atribuída a um ser maléfico, como o diabo, que “entrava” nas pessoas, controlando-lhes corpo e mente. Entre os hebreus, por exemplo, acreditava-se que a anormalidade se devia à possessão de maus espíritos devido ao facto de Deus ter tirado a sua protecção ao doente.
A esta perspectiva segue-se a somatogénese, adoptada na Grécia antiga com a emergência do humanismo, que passa a procura das causas da anormalidade para o próprio Homem. Neste contexto destaca-se Hipócrates que separa a medicina da religião, da magia e das superstições, encarando o cérebro, pela primeira vez, como o órgão da consciência, da vida intelectual e da emoção. Encara, então, as doenças mentais como patologias cerebrais, classificando-as em três categorias: mania, melancolia e febre cerebral.
Com a idade média recua-se à perspectiva demonológica (!), com a crescente influência e poder das igrejas, que passam a assumir o trabalho de “curandeiros dos doentes mentais”, recorrendo a tratamentos como orações e poções sagradas. No século XIII, portanto, os europeus passam a viver obcecados com a ideia do diabo e amedrontados com a bruxaria (vista como “fruto de Satanás”, heresia e negação de Deus), pelo que, todos os que dela eram acusados, acabavam por ser torturados e executados. A psicopatologia também era explicada, neste contexto, como bruxaria, portanto, o “tratamento” para os doentes mentais era o mesmo. Curioso o retrocesso abismal.
A partir dos séculos XV e XVI, muitos hospitais de leprosos são substituídos por asilos para abrigar e tratar doentes mentais, o que marcou a inclusão dos comportamentos anormais no domínio hospitalar. No entanto, em muitos casos, estes eram misturados com mendigos e pedintes, não recebendo quaisquer cuidados de que necessitavam. A dignificação dos doentes mentais só ocorre pouco depois da Revolução Francesa quando Pinel fica responsável por um asilo parisiense e pede à comuna da cidade autorização para “desagrilhoar os loucos”. Este episódio que marca o nascimento da psiquiatria, é também o início do tratamento moral, pois os doentes passam a ser tratados como tal e passam de celas a quartos, com condições para o tratamento ser possível e digno.
A esta perspectiva segue-se a somatogénese, adoptada na Grécia antiga com a emergência do humanismo, que passa a procura das causas da anormalidade para o próprio Homem. Neste contexto destaca-se Hipócrates que separa a medicina da religião, da magia e das superstições, encarando o cérebro, pela primeira vez, como o órgão da consciência, da vida intelectual e da emoção. Encara, então, as doenças mentais como patologias cerebrais, classificando-as em três categorias: mania, melancolia e febre cerebral.
Com a idade média recua-se à perspectiva demonológica (!), com a crescente influência e poder das igrejas, que passam a assumir o trabalho de “curandeiros dos doentes mentais”, recorrendo a tratamentos como orações e poções sagradas. No século XIII, portanto, os europeus passam a viver obcecados com a ideia do diabo e amedrontados com a bruxaria (vista como “fruto de Satanás”, heresia e negação de Deus), pelo que, todos os que dela eram acusados, acabavam por ser torturados e executados. A psicopatologia também era explicada, neste contexto, como bruxaria, portanto, o “tratamento” para os doentes mentais era o mesmo. Curioso o retrocesso abismal.
A partir dos séculos XV e XVI, muitos hospitais de leprosos são substituídos por asilos para abrigar e tratar doentes mentais, o que marcou a inclusão dos comportamentos anormais no domínio hospitalar. No entanto, em muitos casos, estes eram misturados com mendigos e pedintes, não recebendo quaisquer cuidados de que necessitavam. A dignificação dos doentes mentais só ocorre pouco depois da Revolução Francesa quando Pinel fica responsável por um asilo parisiense e pede à comuna da cidade autorização para “desagrilhoar os loucos”. Este episódio que marca o nascimento da psiquiatria, é também o início do tratamento moral, pois os doentes passam a ser tratados como tal e passam de celas a quartos, com condições para o tratamento ser possível e digno.
Non sense
Um tipo hospedado num hotel de luxo abeirou-se de uma piscina e viu um peixe. Hesitou antes de mergulhar.
"Uma piscina é para os humanos, apesar de a àgua ser para os peixes. E o cloro da àgua das piscinas deve tornar a vida do peixe efémera... Ou não haverá cloro naquela piscina e, nesse caso, não será prudente mergulhar? Digamos, mais por causa da presumível má qualidade da àgua do que da presença do animal que, seguramente, não faria mal a ninguém... Também com um tamanho daqueles... Valha-nos Deus!"
O peixe lá continuava a dar voltas graciosas no fundo azul da piscina, não demonstrando o menor indício de mal-estar ou agressividade.
"Outra possibilidade: o peixe seria de uma tal espécie ou calibre que seria resistente ao cloro. Mas, nesse caso poderia não ser muito amigável com os humanos... Talvez se tratasse de uma criatura geneticamente modificada para resistir ao ambiente hostil das piscinas e assim poder conviver com os humanos harmoniosamente. Digamos que se poderia tratar de um novo ornamento para piscinas de topo de gama."
Inclinou-se e molhou a mão. A àgua estava tépida, mesmo apetecível para um mergulho.
"Com uma temperatura da àgua assim tão alta, provavelmente, o peixe será de origem tropical e tinha ouvido dizer que há várias espécies de peixes dessas paragens que atacam os humanos."
No fim de todas esses reflexões e dada a sua proverbial aversão ao risco, decidiu voltar para o quarto do hotel e tomou um banho de imersão bem quente e perfumado. Que beleza... Quando, mais tarde, voltou à casa de banho, a banheira estava vazia e no fundo encontrava-se uma PIRANHA moribunda, certamente envenada pelo sabão e pelos sais com que tinha condimentado a àgua. Despiu-se todo imediatamente e olhou-se ao espelho em pormenor: nenhum sinal de mordedura letal...
Pelo sim, pelo não, foi às urgências do hospital. Já mesmo a chegar, ao atravessar a rua, foi atropelado por uma ambulância. O prognóstico continua reservado...
"Uma piscina é para os humanos, apesar de a àgua ser para os peixes. E o cloro da àgua das piscinas deve tornar a vida do peixe efémera... Ou não haverá cloro naquela piscina e, nesse caso, não será prudente mergulhar? Digamos, mais por causa da presumível má qualidade da àgua do que da presença do animal que, seguramente, não faria mal a ninguém... Também com um tamanho daqueles... Valha-nos Deus!"
O peixe lá continuava a dar voltas graciosas no fundo azul da piscina, não demonstrando o menor indício de mal-estar ou agressividade.
"Outra possibilidade: o peixe seria de uma tal espécie ou calibre que seria resistente ao cloro. Mas, nesse caso poderia não ser muito amigável com os humanos... Talvez se tratasse de uma criatura geneticamente modificada para resistir ao ambiente hostil das piscinas e assim poder conviver com os humanos harmoniosamente. Digamos que se poderia tratar de um novo ornamento para piscinas de topo de gama."
Inclinou-se e molhou a mão. A àgua estava tépida, mesmo apetecível para um mergulho.
"Com uma temperatura da àgua assim tão alta, provavelmente, o peixe será de origem tropical e tinha ouvido dizer que há várias espécies de peixes dessas paragens que atacam os humanos."
No fim de todas esses reflexões e dada a sua proverbial aversão ao risco, decidiu voltar para o quarto do hotel e tomou um banho de imersão bem quente e perfumado. Que beleza... Quando, mais tarde, voltou à casa de banho, a banheira estava vazia e no fundo encontrava-se uma PIRANHA moribunda, certamente envenada pelo sabão e pelos sais com que tinha condimentado a àgua. Despiu-se todo imediatamente e olhou-se ao espelho em pormenor: nenhum sinal de mordedura letal...
Pelo sim, pelo não, foi às urgências do hospital. Já mesmo a chegar, ao atravessar a rua, foi atropelado por uma ambulância. O prognóstico continua reservado...
terça-feira, janeiro 09, 2007
Uma toxicomania sem droga
Tradução de um artigo publicado hoje pelo jornal francês "La Tribune":
Segundo o Dr. Michel Hautefeuille do Centro Médico Marmottan, especializado em toxicomania, "certas formas de ciber-dependência, como a dos jogos em rede, tornaram-se reconhecidas. Outras como a dependência dos e-mails, do 'chat' e de todas as formas de 'conversação assistida por computador' não o são ainda. O ciber-dependente verifica constantemente a chegada de e-mails, tem uma sensação de prazer intenso quando os recebe e sofre de ansiedade quando os não recebe. Este tipo de 'habituação' encontra-se ligado à necessidade de controle permanente e à fobia de passar ao lado de qualquer coisa. Como toda a dependência, gera auto-centramento, ausência de socialização e sofrimento."
Segundo o Dr. Michel Hautefeuille do Centro Médico Marmottan, especializado em toxicomania, "certas formas de ciber-dependência, como a dos jogos em rede, tornaram-se reconhecidas. Outras como a dependência dos e-mails, do 'chat' e de todas as formas de 'conversação assistida por computador' não o são ainda. O ciber-dependente verifica constantemente a chegada de e-mails, tem uma sensação de prazer intenso quando os recebe e sofre de ansiedade quando os não recebe. Este tipo de 'habituação' encontra-se ligado à necessidade de controle permanente e à fobia de passar ao lado de qualquer coisa. Como toda a dependência, gera auto-centramento, ausência de socialização e sofrimento."
A ilusão do destino
Acabei de ler o último livro de Amartya Sen (prémio Nobel de Economia 1998) "Identity and Violence". Um bom livro àcerca do potencial destrutivo de uma visão distorcida da identidade dos indíviduos. A tese do autor parece-me evidente i.e. cada indíviduo é uma pluralidade de identidades (política, religiosa, sexual, linguistica, cultural, racial, etc.) e a violência resulta essencialmente da absolutização de uma dessas identidades, ou seja, da homologação dos indíviduos segundo modelos restritos, rígidos e baseados em preconceitos. Um católico ou um muçulmano são muito mais do que isso mesmo, isto é, são seres humanos inteiros, com escolhas e sensibilidades que vão muito para além das respectivas filiações religiosas. São de esquerda ou de direita, ricos ou pobres, eruditos ou analfabetos, tolerantes ou intolerantes, homosexuais ou heterosexuais, etc, etc. O subtítulo do livro é particularmente elucidativo da tese defendida: "the illusion of destiny". Muita da violência e da intolerância reinantes resultam precisamente da ficção de que as pessoas estão condenadas a um certo destino por causa de uma apenas das suas múltiplas vinculações. Um muçulmano não poderia ser mais nada senão um muçulmano, segundo um esquema pré-estabelecido que implicaria, por exemplo, a aceitação da violência. O Ocidente seria, por definição, superior a outras culturas, o campeão da liberdade e da democracia. Et ainsi de suite... Ideias comuns com que se hiper-simplifica uma realidade que é complexa e variável. Com base nessas ideias tomam-se decisões, designadamente de política internacional, que desestabilzam o mundo e causam sofrimento a milhões de seres humanos.
domingo, janeiro 07, 2007
Este é o Dakar...
"Não fomos em cantigas. Já sabíamos que este ano o caos seria pior que no ano passado. Estamos aqui como em casa, trouxemos o grelhador e as grades de cerveja... até mesa", atirou o professor António Rodrigues, que organizou com os seus amigos um "raide" até Grandola . "O importante é a festa... depois logo oiço na rádio quem ganhou ", dizia, sentado sobre uma geleira portátil, ostentando numa mão uma mini e na outra uma bifana.
"Só é pena que as pessoas não respeitem os concorrentes e ocupem a pista da prova ... olhem para aquele gajo no meio do caminho... é maluco... ó senhor guarda, tire aquele tipo dali, se não ainda há um acidente."
"Só é pena que as pessoas não respeitem os concorrentes e ocupem a pista da prova ... olhem para aquele gajo no meio do caminho... é maluco... ó senhor guarda, tire aquele tipo dali, se não ainda há um acidente."
Concluíndo, a fase mais fácil do rally será a parte africana do percurso.
sábado, janeiro 06, 2007
Breves e sortidas sobre o estado da Nação
O Dakar (que só nós sabemos que é o Lisboa-Dakar) é azeiteiro. A sua relevância mediática por cá (lá fora ninguém fala do evento...) apenas demonstra a falta de coisas de interesse neste princípio de ano insípido e a maneira incolor como se passa horas à frente do ecran a ver as patetices com que meninos ricos se divertem Àfrica abaixo. Aquilo tudo custa uma estupidez de dinheiro que até aleija quem faz a comparação com a pobreza dos sítios por onde passa... Leiam o artigo de Helena Matos na página 5 do "Publico" de hoje: excelente.
No outro dia, estive 2 horas e meia num hospital público para me tirarem umas gotas de sangue e para poder ter o privilégio de mictar para dentro dum frasco de plástico de tampa encarnada. Aquilo funciona solenemente mal e os sacerdotes da burocracia levam tudo tão a sério que até dói. Simplificar a vida aos utentes do sistema nacional de saúde é um acto de inacessível generosidade, que depende do humor com que acordam aquelas senhoras, ali por trás do computador. Na parede ao lado duma dessas dedicadas criaturas de bata branca podia ler-se a seguinte frase: "o maior prazer de um indíviduo inteligente é fazer de conta que é imbecil à frente de um imbecil que faz de conta que é inteligente". Boa... Gostei - particularmente, no contexto.
Os comentários torrenciais e contraditórios ao discurso de ano novo (ou será de fim-de-ano?) de Cavaco evidenciam os enigmas de que se alimenta a política portuguesa, cada vez mais centrada na relação entre o presidente e o primeiro-ministro. O homem criticou ou não criticou? Adivinha-se borrasca? Cavaco está apenas a preparar com devida e prudente antecedência a (sua) vida pós-Socrates? Está a marcar diferenças onde elas não existem para salvar as aparências? Que credibilidade tem pedir resultados no espaço de 1 ano relativamente a putativas reformas em áreas tão pesadas como a justiça, a saúde e o desenvolvimento económico? Como não se cansa de lembrar o despenteado mental Pulido Valente, o problema de Portugal são apenas os portugueses e o governo pode fazer bem pouco por isto...
Abençoada seja a meteorologia neste começo de ano, neste querido país. Apesar das ameaças e de alguns curtos interregnos algo cinzentos e chuvosos, o sol e o frio aí estão a pintar-nos a alma de boas cores. Se olharem os mapas do tempo por essa Europa fora vão ver a sorte que temos. Mar e sol é o que sempre pudemos vender com alguma eficácia.
E por hoje por aqui me fico.
No outro dia, estive 2 horas e meia num hospital público para me tirarem umas gotas de sangue e para poder ter o privilégio de mictar para dentro dum frasco de plástico de tampa encarnada. Aquilo funciona solenemente mal e os sacerdotes da burocracia levam tudo tão a sério que até dói. Simplificar a vida aos utentes do sistema nacional de saúde é um acto de inacessível generosidade, que depende do humor com que acordam aquelas senhoras, ali por trás do computador. Na parede ao lado duma dessas dedicadas criaturas de bata branca podia ler-se a seguinte frase: "o maior prazer de um indíviduo inteligente é fazer de conta que é imbecil à frente de um imbecil que faz de conta que é inteligente". Boa... Gostei - particularmente, no contexto.
Os comentários torrenciais e contraditórios ao discurso de ano novo (ou será de fim-de-ano?) de Cavaco evidenciam os enigmas de que se alimenta a política portuguesa, cada vez mais centrada na relação entre o presidente e o primeiro-ministro. O homem criticou ou não criticou? Adivinha-se borrasca? Cavaco está apenas a preparar com devida e prudente antecedência a (sua) vida pós-Socrates? Está a marcar diferenças onde elas não existem para salvar as aparências? Que credibilidade tem pedir resultados no espaço de 1 ano relativamente a putativas reformas em áreas tão pesadas como a justiça, a saúde e o desenvolvimento económico? Como não se cansa de lembrar o despenteado mental Pulido Valente, o problema de Portugal são apenas os portugueses e o governo pode fazer bem pouco por isto...
Abençoada seja a meteorologia neste começo de ano, neste querido país. Apesar das ameaças e de alguns curtos interregnos algo cinzentos e chuvosos, o sol e o frio aí estão a pintar-nos a alma de boas cores. Se olharem os mapas do tempo por essa Europa fora vão ver a sorte que temos. Mar e sol é o que sempre pudemos vender com alguma eficácia.
E por hoje por aqui me fico.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
quarta-feira, janeiro 03, 2007
As faces do poder
Antes o poder era uma puta. Caiu na rua. A principal meretriz era Santana Lopes. Agora o poder é um padre. Um dos raros sucessos de Sócrates (para além do de ser cabeça de cartaz deste blog nos últimos tempos...) foi o de re-sacralizar o poder, dar-lhe distância em relação à rua e ao povo. O poder tem de ser respeitado, senão mesmo, temido... Sócrates é o supremo sacerdote da nova igreja do poder que decide e que corta a direito, forte da legitimidade que resulta do voto.
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