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sábado, janeiro 13, 2007
sexta-feira, janeiro 12, 2007
A doença mental ao longo da história
Peço desculpa pela inclusão de assuntos demasiado "psicológicos" no blog, mas ando a estudar umas coisinhas que achei que podiam ser do interesse de alguns leitores, por isso aqui vai uma parte da matéria de psicopatologia...
A doença mental gera posições defensivas da sociedade, sendo a atitude de uma cultura relativamente a esta tradutora do seu estado evolutivo. Pelo seu carácter enigmático, desde cedo se procuram as causas do comportamento anormal. Esta busca começa com a demonologia primitiva, que remonta às antigas culturas chinesa, egípcia e babilónia. Nestas, a causa da doença mental era atribuída a um ser maléfico, como o diabo, que “entrava” nas pessoas, controlando-lhes corpo e mente. Entre os hebreus, por exemplo, acreditava-se que a anormalidade se devia à possessão de maus espíritos devido ao facto de Deus ter tirado a sua protecção ao doente.
A esta perspectiva segue-se a somatogénese, adoptada na Grécia antiga com a emergência do humanismo, que passa a procura das causas da anormalidade para o próprio Homem. Neste contexto destaca-se Hipócrates que separa a medicina da religião, da magia e das superstições, encarando o cérebro, pela primeira vez, como o órgão da consciência, da vida intelectual e da emoção. Encara, então, as doenças mentais como patologias cerebrais, classificando-as em três categorias: mania, melancolia e febre cerebral.
Com a idade média recua-se à perspectiva demonológica (!), com a crescente influência e poder das igrejas, que passam a assumir o trabalho de “curandeiros dos doentes mentais”, recorrendo a tratamentos como orações e poções sagradas. No século XIII, portanto, os europeus passam a viver obcecados com a ideia do diabo e amedrontados com a bruxaria (vista como “fruto de Satanás”, heresia e negação de Deus), pelo que, todos os que dela eram acusados, acabavam por ser torturados e executados. A psicopatologia também era explicada, neste contexto, como bruxaria, portanto, o “tratamento” para os doentes mentais era o mesmo. Curioso o retrocesso abismal.
A partir dos séculos XV e XVI, muitos hospitais de leprosos são substituídos por asilos para abrigar e tratar doentes mentais, o que marcou a inclusão dos comportamentos anormais no domínio hospitalar. No entanto, em muitos casos, estes eram misturados com mendigos e pedintes, não recebendo quaisquer cuidados de que necessitavam. A dignificação dos doentes mentais só ocorre pouco depois da Revolução Francesa quando Pinel fica responsável por um asilo parisiense e pede à comuna da cidade autorização para “desagrilhoar os loucos”. Este episódio que marca o nascimento da psiquiatria, é também o início do tratamento moral, pois os doentes passam a ser tratados como tal e passam de celas a quartos, com condições para o tratamento ser possível e digno.
A esta perspectiva segue-se a somatogénese, adoptada na Grécia antiga com a emergência do humanismo, que passa a procura das causas da anormalidade para o próprio Homem. Neste contexto destaca-se Hipócrates que separa a medicina da religião, da magia e das superstições, encarando o cérebro, pela primeira vez, como o órgão da consciência, da vida intelectual e da emoção. Encara, então, as doenças mentais como patologias cerebrais, classificando-as em três categorias: mania, melancolia e febre cerebral.
Com a idade média recua-se à perspectiva demonológica (!), com a crescente influência e poder das igrejas, que passam a assumir o trabalho de “curandeiros dos doentes mentais”, recorrendo a tratamentos como orações e poções sagradas. No século XIII, portanto, os europeus passam a viver obcecados com a ideia do diabo e amedrontados com a bruxaria (vista como “fruto de Satanás”, heresia e negação de Deus), pelo que, todos os que dela eram acusados, acabavam por ser torturados e executados. A psicopatologia também era explicada, neste contexto, como bruxaria, portanto, o “tratamento” para os doentes mentais era o mesmo. Curioso o retrocesso abismal.
A partir dos séculos XV e XVI, muitos hospitais de leprosos são substituídos por asilos para abrigar e tratar doentes mentais, o que marcou a inclusão dos comportamentos anormais no domínio hospitalar. No entanto, em muitos casos, estes eram misturados com mendigos e pedintes, não recebendo quaisquer cuidados de que necessitavam. A dignificação dos doentes mentais só ocorre pouco depois da Revolução Francesa quando Pinel fica responsável por um asilo parisiense e pede à comuna da cidade autorização para “desagrilhoar os loucos”. Este episódio que marca o nascimento da psiquiatria, é também o início do tratamento moral, pois os doentes passam a ser tratados como tal e passam de celas a quartos, com condições para o tratamento ser possível e digno.
Non sense
Um tipo hospedado num hotel de luxo abeirou-se de uma piscina e viu um peixe. Hesitou antes de mergulhar.
"Uma piscina é para os humanos, apesar de a àgua ser para os peixes. E o cloro da àgua das piscinas deve tornar a vida do peixe efémera... Ou não haverá cloro naquela piscina e, nesse caso, não será prudente mergulhar? Digamos, mais por causa da presumível má qualidade da àgua do que da presença do animal que, seguramente, não faria mal a ninguém... Também com um tamanho daqueles... Valha-nos Deus!"
O peixe lá continuava a dar voltas graciosas no fundo azul da piscina, não demonstrando o menor indício de mal-estar ou agressividade.
"Outra possibilidade: o peixe seria de uma tal espécie ou calibre que seria resistente ao cloro. Mas, nesse caso poderia não ser muito amigável com os humanos... Talvez se tratasse de uma criatura geneticamente modificada para resistir ao ambiente hostil das piscinas e assim poder conviver com os humanos harmoniosamente. Digamos que se poderia tratar de um novo ornamento para piscinas de topo de gama."
Inclinou-se e molhou a mão. A àgua estava tépida, mesmo apetecível para um mergulho.
"Com uma temperatura da àgua assim tão alta, provavelmente, o peixe será de origem tropical e tinha ouvido dizer que há várias espécies de peixes dessas paragens que atacam os humanos."
No fim de todas esses reflexões e dada a sua proverbial aversão ao risco, decidiu voltar para o quarto do hotel e tomou um banho de imersão bem quente e perfumado. Que beleza... Quando, mais tarde, voltou à casa de banho, a banheira estava vazia e no fundo encontrava-se uma PIRANHA moribunda, certamente envenada pelo sabão e pelos sais com que tinha condimentado a àgua. Despiu-se todo imediatamente e olhou-se ao espelho em pormenor: nenhum sinal de mordedura letal...
Pelo sim, pelo não, foi às urgências do hospital. Já mesmo a chegar, ao atravessar a rua, foi atropelado por uma ambulância. O prognóstico continua reservado...
"Uma piscina é para os humanos, apesar de a àgua ser para os peixes. E o cloro da àgua das piscinas deve tornar a vida do peixe efémera... Ou não haverá cloro naquela piscina e, nesse caso, não será prudente mergulhar? Digamos, mais por causa da presumível má qualidade da àgua do que da presença do animal que, seguramente, não faria mal a ninguém... Também com um tamanho daqueles... Valha-nos Deus!"
O peixe lá continuava a dar voltas graciosas no fundo azul da piscina, não demonstrando o menor indício de mal-estar ou agressividade.
"Outra possibilidade: o peixe seria de uma tal espécie ou calibre que seria resistente ao cloro. Mas, nesse caso poderia não ser muito amigável com os humanos... Talvez se tratasse de uma criatura geneticamente modificada para resistir ao ambiente hostil das piscinas e assim poder conviver com os humanos harmoniosamente. Digamos que se poderia tratar de um novo ornamento para piscinas de topo de gama."
Inclinou-se e molhou a mão. A àgua estava tépida, mesmo apetecível para um mergulho.
"Com uma temperatura da àgua assim tão alta, provavelmente, o peixe será de origem tropical e tinha ouvido dizer que há várias espécies de peixes dessas paragens que atacam os humanos."
No fim de todas esses reflexões e dada a sua proverbial aversão ao risco, decidiu voltar para o quarto do hotel e tomou um banho de imersão bem quente e perfumado. Que beleza... Quando, mais tarde, voltou à casa de banho, a banheira estava vazia e no fundo encontrava-se uma PIRANHA moribunda, certamente envenada pelo sabão e pelos sais com que tinha condimentado a àgua. Despiu-se todo imediatamente e olhou-se ao espelho em pormenor: nenhum sinal de mordedura letal...
Pelo sim, pelo não, foi às urgências do hospital. Já mesmo a chegar, ao atravessar a rua, foi atropelado por uma ambulância. O prognóstico continua reservado...
terça-feira, janeiro 09, 2007
Uma toxicomania sem droga
Tradução de um artigo publicado hoje pelo jornal francês "La Tribune":
Segundo o Dr. Michel Hautefeuille do Centro Médico Marmottan, especializado em toxicomania, "certas formas de ciber-dependência, como a dos jogos em rede, tornaram-se reconhecidas. Outras como a dependência dos e-mails, do 'chat' e de todas as formas de 'conversação assistida por computador' não o são ainda. O ciber-dependente verifica constantemente a chegada de e-mails, tem uma sensação de prazer intenso quando os recebe e sofre de ansiedade quando os não recebe. Este tipo de 'habituação' encontra-se ligado à necessidade de controle permanente e à fobia de passar ao lado de qualquer coisa. Como toda a dependência, gera auto-centramento, ausência de socialização e sofrimento."
Segundo o Dr. Michel Hautefeuille do Centro Médico Marmottan, especializado em toxicomania, "certas formas de ciber-dependência, como a dos jogos em rede, tornaram-se reconhecidas. Outras como a dependência dos e-mails, do 'chat' e de todas as formas de 'conversação assistida por computador' não o são ainda. O ciber-dependente verifica constantemente a chegada de e-mails, tem uma sensação de prazer intenso quando os recebe e sofre de ansiedade quando os não recebe. Este tipo de 'habituação' encontra-se ligado à necessidade de controle permanente e à fobia de passar ao lado de qualquer coisa. Como toda a dependência, gera auto-centramento, ausência de socialização e sofrimento."
A ilusão do destino
Acabei de ler o último livro de Amartya Sen (prémio Nobel de Economia 1998) "Identity and Violence". Um bom livro àcerca do potencial destrutivo de uma visão distorcida da identidade dos indíviduos. A tese do autor parece-me evidente i.e. cada indíviduo é uma pluralidade de identidades (política, religiosa, sexual, linguistica, cultural, racial, etc.) e a violência resulta essencialmente da absolutização de uma dessas identidades, ou seja, da homologação dos indíviduos segundo modelos restritos, rígidos e baseados em preconceitos. Um católico ou um muçulmano são muito mais do que isso mesmo, isto é, são seres humanos inteiros, com escolhas e sensibilidades que vão muito para além das respectivas filiações religiosas. São de esquerda ou de direita, ricos ou pobres, eruditos ou analfabetos, tolerantes ou intolerantes, homosexuais ou heterosexuais, etc, etc. O subtítulo do livro é particularmente elucidativo da tese defendida: "the illusion of destiny". Muita da violência e da intolerância reinantes resultam precisamente da ficção de que as pessoas estão condenadas a um certo destino por causa de uma apenas das suas múltiplas vinculações. Um muçulmano não poderia ser mais nada senão um muçulmano, segundo um esquema pré-estabelecido que implicaria, por exemplo, a aceitação da violência. O Ocidente seria, por definição, superior a outras culturas, o campeão da liberdade e da democracia. Et ainsi de suite... Ideias comuns com que se hiper-simplifica uma realidade que é complexa e variável. Com base nessas ideias tomam-se decisões, designadamente de política internacional, que desestabilzam o mundo e causam sofrimento a milhões de seres humanos.
domingo, janeiro 07, 2007
Este é o Dakar...
"Não fomos em cantigas. Já sabíamos que este ano o caos seria pior que no ano passado. Estamos aqui como em casa, trouxemos o grelhador e as grades de cerveja... até mesa", atirou o professor António Rodrigues, que organizou com os seus amigos um "raide" até Grandola . "O importante é a festa... depois logo oiço na rádio quem ganhou ", dizia, sentado sobre uma geleira portátil, ostentando numa mão uma mini e na outra uma bifana.
"Só é pena que as pessoas não respeitem os concorrentes e ocupem a pista da prova ... olhem para aquele gajo no meio do caminho... é maluco... ó senhor guarda, tire aquele tipo dali, se não ainda há um acidente."
"Só é pena que as pessoas não respeitem os concorrentes e ocupem a pista da prova ... olhem para aquele gajo no meio do caminho... é maluco... ó senhor guarda, tire aquele tipo dali, se não ainda há um acidente."
Concluíndo, a fase mais fácil do rally será a parte africana do percurso.
sábado, janeiro 06, 2007
Breves e sortidas sobre o estado da Nação
O Dakar (que só nós sabemos que é o Lisboa-Dakar) é azeiteiro. A sua relevância mediática por cá (lá fora ninguém fala do evento...) apenas demonstra a falta de coisas de interesse neste princípio de ano insípido e a maneira incolor como se passa horas à frente do ecran a ver as patetices com que meninos ricos se divertem Àfrica abaixo. Aquilo tudo custa uma estupidez de dinheiro que até aleija quem faz a comparação com a pobreza dos sítios por onde passa... Leiam o artigo de Helena Matos na página 5 do "Publico" de hoje: excelente.
No outro dia, estive 2 horas e meia num hospital público para me tirarem umas gotas de sangue e para poder ter o privilégio de mictar para dentro dum frasco de plástico de tampa encarnada. Aquilo funciona solenemente mal e os sacerdotes da burocracia levam tudo tão a sério que até dói. Simplificar a vida aos utentes do sistema nacional de saúde é um acto de inacessível generosidade, que depende do humor com que acordam aquelas senhoras, ali por trás do computador. Na parede ao lado duma dessas dedicadas criaturas de bata branca podia ler-se a seguinte frase: "o maior prazer de um indíviduo inteligente é fazer de conta que é imbecil à frente de um imbecil que faz de conta que é inteligente". Boa... Gostei - particularmente, no contexto.
Os comentários torrenciais e contraditórios ao discurso de ano novo (ou será de fim-de-ano?) de Cavaco evidenciam os enigmas de que se alimenta a política portuguesa, cada vez mais centrada na relação entre o presidente e o primeiro-ministro. O homem criticou ou não criticou? Adivinha-se borrasca? Cavaco está apenas a preparar com devida e prudente antecedência a (sua) vida pós-Socrates? Está a marcar diferenças onde elas não existem para salvar as aparências? Que credibilidade tem pedir resultados no espaço de 1 ano relativamente a putativas reformas em áreas tão pesadas como a justiça, a saúde e o desenvolvimento económico? Como não se cansa de lembrar o despenteado mental Pulido Valente, o problema de Portugal são apenas os portugueses e o governo pode fazer bem pouco por isto...
Abençoada seja a meteorologia neste começo de ano, neste querido país. Apesar das ameaças e de alguns curtos interregnos algo cinzentos e chuvosos, o sol e o frio aí estão a pintar-nos a alma de boas cores. Se olharem os mapas do tempo por essa Europa fora vão ver a sorte que temos. Mar e sol é o que sempre pudemos vender com alguma eficácia.
E por hoje por aqui me fico.
No outro dia, estive 2 horas e meia num hospital público para me tirarem umas gotas de sangue e para poder ter o privilégio de mictar para dentro dum frasco de plástico de tampa encarnada. Aquilo funciona solenemente mal e os sacerdotes da burocracia levam tudo tão a sério que até dói. Simplificar a vida aos utentes do sistema nacional de saúde é um acto de inacessível generosidade, que depende do humor com que acordam aquelas senhoras, ali por trás do computador. Na parede ao lado duma dessas dedicadas criaturas de bata branca podia ler-se a seguinte frase: "o maior prazer de um indíviduo inteligente é fazer de conta que é imbecil à frente de um imbecil que faz de conta que é inteligente". Boa... Gostei - particularmente, no contexto.
Os comentários torrenciais e contraditórios ao discurso de ano novo (ou será de fim-de-ano?) de Cavaco evidenciam os enigmas de que se alimenta a política portuguesa, cada vez mais centrada na relação entre o presidente e o primeiro-ministro. O homem criticou ou não criticou? Adivinha-se borrasca? Cavaco está apenas a preparar com devida e prudente antecedência a (sua) vida pós-Socrates? Está a marcar diferenças onde elas não existem para salvar as aparências? Que credibilidade tem pedir resultados no espaço de 1 ano relativamente a putativas reformas em áreas tão pesadas como a justiça, a saúde e o desenvolvimento económico? Como não se cansa de lembrar o despenteado mental Pulido Valente, o problema de Portugal são apenas os portugueses e o governo pode fazer bem pouco por isto...
Abençoada seja a meteorologia neste começo de ano, neste querido país. Apesar das ameaças e de alguns curtos interregnos algo cinzentos e chuvosos, o sol e o frio aí estão a pintar-nos a alma de boas cores. Se olharem os mapas do tempo por essa Europa fora vão ver a sorte que temos. Mar e sol é o que sempre pudemos vender com alguma eficácia.
E por hoje por aqui me fico.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
quarta-feira, janeiro 03, 2007
As faces do poder
Antes o poder era uma puta. Caiu na rua. A principal meretriz era Santana Lopes. Agora o poder é um padre. Um dos raros sucessos de Sócrates (para além do de ser cabeça de cartaz deste blog nos últimos tempos...) foi o de re-sacralizar o poder, dar-lhe distância em relação à rua e ao povo. O poder tem de ser respeitado, senão mesmo, temido... Sócrates é o supremo sacerdote da nova igreja do poder que decide e que corta a direito, forte da legitimidade que resulta do voto.
sábado, dezembro 30, 2006
Sabemos que está quase a chegar o ano novo quando...
- as lojas esgotam os stocks de amuletos
- o euromilhões, totoloto, totobola, lotaria e afins têm uma procura muito superior ao normal
- recebemos mensagens escritas e e-mails de 5 em 5 minutos
- as televisões fazem retrospectivas do ano que está a acabar
- há cartazes de festas por todo o lado
- começamos a pensar onde estávamos há um ano
- aparece um gato a beber martini na barra direita do blog
- (...)
Comentários
«A execução de Saddam Hussein não vai acabar com a violência no Iraque, mas é uma etapa importante no caminho do Iraque para uma democracia que pode ser governada, ser auto-suficiente e defender-se, e ser um aliado na guerra contra o terrorismo»
George W. Bush
«A execução de Saddam Hussein não é uma forma de reconstruir a justiça no Iraque, mas pode alimentar o espírito de vingança e semear novas sementes de violência»
Federico Lombardi
«Saddam Hussein foi responsável por terríveis e numerosas violações dos direitos do homem, mas os seus actos, por mais brutais que sejam, não podem justificar a sua execução, uma punição cruel e desumana»
Richard Dicker, membro da Human Rights Watch
«Congratulo-me com o facto de Saddam Hussein ter sido julgado por um tribunal iraquiano por alguns dos crimes horríveis que cometeu contra o povo iraquiano»
Margaret Beckett
mais comentários aqui.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Incompleteness & sadness
Recentemente, uns amigos estrangeiros visitaram Portugal, passando por Coimbra e pelo Porto. Regressaram dizendo que duas palavras sintetizam as suas impressões da viagem: "incompleteness" e "sadness". Isto é: este país seria triste e inacabado... Ora porra! Eu pensava que isso fossem apenas estereótipos com os quais os portugueses costumam auto-flagelar-se. Afinal, parece que esses adjectivos se respiram por aqui.
É claro que eles não viram o outro lado da "coisa", as maneiras, tão nossas, como nos sabemos divertir: os passeios ao Sábado à tarde nos centros comerciais, as noitadas à frente de Telejornais que nunca mais acabam a contar as histórias mais desgraçadas da noite de Natal, as barrigadas de chanfana e de bacalhau à Braz regadas com vinho maduro a saber a vinagre, as ultrapassagens "à queima" que fazem inchar a testosterona dos nossos automobilistas, a escarreta orgulhosa a mais de 2 metros fazendo tangentes e secantes a incautos transeuntes. E a Floribela. E o Gato Fedorento. E a neve na Serra da Estrela. E o fim-de-ano nas Caraíbas. E o espectáculo dos prédios da Baixa que caem como papel amarrotado. E os Morangos com Açucar. E os BMW que levantam a poeira com que se penteiam os sem-abrigo. E o crédito ao consumo. E o Figo das Arábias que nos faz roer de orgulho e de longínqua inveja.
É assim que nos divertimos. É disso que enchemos o nosso quotidiano e a nossa querida originalidade. Com tudo isso aconchegamos a nossa diferença. Somos portugueses como se é do Benfica: não precisamos de ganhar... Estamo-nos nas tintas para a alegria e para a tristeza dos outros. Os estranjas não perceberam nada, não penetraram nas subtilezas da alma portuguesa.
É claro que eles não viram o outro lado da "coisa", as maneiras, tão nossas, como nos sabemos divertir: os passeios ao Sábado à tarde nos centros comerciais, as noitadas à frente de Telejornais que nunca mais acabam a contar as histórias mais desgraçadas da noite de Natal, as barrigadas de chanfana e de bacalhau à Braz regadas com vinho maduro a saber a vinagre, as ultrapassagens "à queima" que fazem inchar a testosterona dos nossos automobilistas, a escarreta orgulhosa a mais de 2 metros fazendo tangentes e secantes a incautos transeuntes. E a Floribela. E o Gato Fedorento. E a neve na Serra da Estrela. E o fim-de-ano nas Caraíbas. E o espectáculo dos prédios da Baixa que caem como papel amarrotado. E os Morangos com Açucar. E os BMW que levantam a poeira com que se penteiam os sem-abrigo. E o crédito ao consumo. E o Figo das Arábias que nos faz roer de orgulho e de longínqua inveja.
É assim que nos divertimos. É disso que enchemos o nosso quotidiano e a nossa querida originalidade. Com tudo isso aconchegamos a nossa diferença. Somos portugueses como se é do Benfica: não precisamos de ganhar... Estamo-nos nas tintas para a alegria e para a tristeza dos outros. Os estranjas não perceberam nada, não penetraram nas subtilezas da alma portuguesa.
terça-feira, dezembro 26, 2006
Babilónia
Há histórias que, por serem tão verdadeiras, não se devem contar (pelo menos, com clareza...).
Estou a ler "Ontem não te vi em Babilónia", o último romance de A. Lobo Antunes. A escrita de Lobo Antunes torna-se simplesmente hipnótica. O sentido não se apresenta, tem de descobrir-se. No princípio, parece apenas uma amálgama de palavras combinadas de forma original, mas é preciso perseverar, não se deixar abater pela loucura das frases interrompidas, e o sentido aparece como um castelo fantástico emergindo de uma bruma densa. É preciso deixar-se andar, ligar A com B (nem sequer é preciso paciência...), entrar na linguagem própria do autor, no seu labirinto de implícitos e mal-entendidos. Lobo Antunes inventou uma outra lingua portuguesa, feita também de um português alucinante e alucinado que se apodera do leitor como um estupefaciente. Página a página, chega-se a dormitar ao som das palavras que se sucedem, algumas vezes doces, quase sempre cruéis, evocando histórias pesadas e traumáticas. Ainda não sei bem do que se trata (há tema, concerteza... para além da forma compulsiva e meteórica), mas há muitos traumas no meio daquela floresta de palavras, passados que se erguem violentos e insuportáveis para angustiar presentes que teimam em não acabar. Infâncias arruinadas, famílias e casamentos e terras e casas e cães e Marias Emílias e criadas e docinhos do tio do Luxemburgo, com a amargura de uma inocência quebrada abruptamente. E por aqui me fico. Leiam ou melhor: deixem-se controlar por essa torrente de pensamentos escritos como quem conta uma história embriagado. Alucinem-se.
Estou a ler "Ontem não te vi em Babilónia", o último romance de A. Lobo Antunes. A escrita de Lobo Antunes torna-se simplesmente hipnótica. O sentido não se apresenta, tem de descobrir-se. No princípio, parece apenas uma amálgama de palavras combinadas de forma original, mas é preciso perseverar, não se deixar abater pela loucura das frases interrompidas, e o sentido aparece como um castelo fantástico emergindo de uma bruma densa. É preciso deixar-se andar, ligar A com B (nem sequer é preciso paciência...), entrar na linguagem própria do autor, no seu labirinto de implícitos e mal-entendidos. Lobo Antunes inventou uma outra lingua portuguesa, feita também de um português alucinante e alucinado que se apodera do leitor como um estupefaciente. Página a página, chega-se a dormitar ao som das palavras que se sucedem, algumas vezes doces, quase sempre cruéis, evocando histórias pesadas e traumáticas. Ainda não sei bem do que se trata (há tema, concerteza... para além da forma compulsiva e meteórica), mas há muitos traumas no meio daquela floresta de palavras, passados que se erguem violentos e insuportáveis para angustiar presentes que teimam em não acabar. Infâncias arruinadas, famílias e casamentos e terras e casas e cães e Marias Emílias e criadas e docinhos do tio do Luxemburgo, com a amargura de uma inocência quebrada abruptamente. E por aqui me fico. Leiam ou melhor: deixem-se controlar por essa torrente de pensamentos escritos como quem conta uma história embriagado. Alucinem-se.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Niazov
Morreu de ataque cardíaco o Presidente do Turkmenistão, Niazov (66 anos), um déspota absolutamente inverosímil. Com o desmembramento da URSS e a independência deste país muçulmano muito rico em gaz que faz fronteira com o Irão e com o Afeganistão, Niazov chega à Presidência e, imediatamente, decide mudar o seu próprio nome para Turkmenbachi, auto-proclamando-se "Pai de todos os Turkmenos" e "Profeta nacional". Assim, prometeu o paraíso a todos os súbditos na condição de lerem o seu livro pelo menos 3 vezes, uma espécie de bíblia ("Roukhnama" ou "mensagem espiritual"). Mandou encerrar a maior parte dos hospitais, uma instituição que lhe parecia inútil, e reduziu o número de estudantes de medicina, bem como a duração dos seus estudos. Mudou o nome dos meses do calendário, dando o seu nome a um dos meses e o de sua mãe a outro. Ordenou o encerramento dos teatros, autorizando apenas a dança e a música tradicionais, e proibiu o bigode. Foi de certeza absoluta o único Presidente em todo o mundo a dar o seu nome a um melão de grandes dimensões e de aroma especial.
O Turkmenistão é um dos maiores exportadores mundiais de gaz e um dos países mais miseráveis da Ásia Central. Existem milhares de presos políticos e as mais elementares liberdades cívicas são esmagadas. Niazov auto-intitulou-se Presidente vitalício. Certas grandes empresas de países ocidentais beneficiaram da excentricidade do Pai da Pátria (construção de palácios faraónicos, importação de automóveis topo de gama, aviões de luxo, etc.). A Rússia já se posiciona para controlar a sucessão de modo a não perder esse manancial de energia e para evitar uma vizinhança inconveniente.
O Turkmenistão é um dos maiores exportadores mundiais de gaz e um dos países mais miseráveis da Ásia Central. Existem milhares de presos políticos e as mais elementares liberdades cívicas são esmagadas. Niazov auto-intitulou-se Presidente vitalício. Certas grandes empresas de países ocidentais beneficiaram da excentricidade do Pai da Pátria (construção de palácios faraónicos, importação de automóveis topo de gama, aviões de luxo, etc.). A Rússia já se posiciona para controlar a sucessão de modo a não perder esse manancial de energia e para evitar uma vizinhança inconveniente.
Christmas is all around us
Estou oficialmente de férias por uma semana... Muito pouco para conseguir descansar um bocado e, ao mesmo tempo, estudar para as frequências e exames que se avizinham a passos largos. No entanto, como cheguei a um ponto em que só o facto de já ter alguns (poucos) dias sem aulas e, consequentemente, trabalhos para apresentar e apontamentos para passar, é algo de maravilhoso.
Além disso, espero que o espírito natalício que era suposto eu ter a dois dias da véspera de Natal surja com o fim das aulas. De qualquer modo, se não vier naturalmente, há sempre meios de se conseguir incutir algum bocadinho deste espírito de outros modos, como esta encantadora música retirada do filme Love Actually, por exemplo:
Além disso, espero que o espírito natalício que era suposto eu ter a dois dias da véspera de Natal surja com o fim das aulas. De qualquer modo, se não vier naturalmente, há sempre meios de se conseguir incutir algum bocadinho deste espírito de outros modos, como esta encantadora música retirada do filme Love Actually, por exemplo:
quarta-feira, dezembro 20, 2006
É complicado...
Miguel Esteves Cardoso publicou há pouco tempo o livro "A minha andorinha" (Assírio & Alvim), uma colectânea das crónicas que foi escrevendo para o DNa. Há textos divertidos, outros menos inspirados, outros pretensiosos, outros super-lúcidos, outros que metem o MEC no seu contexto paroquial, isto é, o de um eterno jovem, excêntrico e híbrido (mãe inglesíssima e pai lisboeta de excelentes famílias), que passeia os seus plebiscitados superlativos no meio do pobre maralhal de Lisboa.
Depois da picada no etílico e desregrado MEC, gostaria de chamar a atenção para uma das crónicas do referido livrinho. Chama-se "É complicado". Achei-a simplesmente deliciosa... Começa assim:
"Estarão os portugueses a ficar mais estúpidos ou apenas mais incompetentes? É que ultimamente tenho verificado com desolação que é cada vez maior o número de coisas e tarefas, que são caracterizadas como sendo de grande complexidade. Pergunta-se a um amigo se ele quer vir beber um café - até há pouco tempo um empreendimento relativamente fácil - e ele responde logo 'É complicado...' Vai-se sózinho beber o café, pede-se o troco para a máquina dos cigarros e o empregado desde logo confessa a complexidade daquela operação: 'É complicado, amigo...' Claro que acaba por dar o troco, mas entrega as moedas como se tivesse acabado de resolver o teorema de Fermat (...)"
Leiam o dito livrinho que não se arrependem. É divertido. Parece quase uma pastilha elástica com sabor a tutti-fruti que dura mais do que o das outras...
Depois da picada no etílico e desregrado MEC, gostaria de chamar a atenção para uma das crónicas do referido livrinho. Chama-se "É complicado". Achei-a simplesmente deliciosa... Começa assim:
"Estarão os portugueses a ficar mais estúpidos ou apenas mais incompetentes? É que ultimamente tenho verificado com desolação que é cada vez maior o número de coisas e tarefas, que são caracterizadas como sendo de grande complexidade. Pergunta-se a um amigo se ele quer vir beber um café - até há pouco tempo um empreendimento relativamente fácil - e ele responde logo 'É complicado...' Vai-se sózinho beber o café, pede-se o troco para a máquina dos cigarros e o empregado desde logo confessa a complexidade daquela operação: 'É complicado, amigo...' Claro que acaba por dar o troco, mas entrega as moedas como se tivesse acabado de resolver o teorema de Fermat (...)"
Leiam o dito livrinho que não se arrependem. É divertido. Parece quase uma pastilha elástica com sabor a tutti-fruti que dura mais do que o das outras...
terça-feira, dezembro 19, 2006
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Parece que o corpinho de David Bekham - o jogador de porcelana britânico, ícone da mais indigesta patetice, casado com uma desnatada Spicy, que se passeia pelos estádios como um cão S. Bernardo - vale 140 milhões de dólares. Pelo menos, foi por quanto uma "undisclosed" companhia de seguros aceitou cobrir o risco de tal corpinho se estragar ou desfigurar...
segunda-feira, dezembro 18, 2006
domingo, dezembro 17, 2006
Natal

Natal - do Lat. natale, substantivo masculino (p. ex° dia do nascimento) ou adjectivo (p. ex° natalício ou pátrio) - pode referir-se a:
- festa cristã na qual se se comemora o nascimento de Jesus Cristo
- antigo nome da actual província de KwaZulu-Natal, na África do Sul
- capital do estado do Rio Grande do Norte
- microrregião brasileira do Rio Grande do Norte
- rio brasileiro do estado do Acre
- território australiano
- festa cristã na qual se se comemora o nascimento de Jesus Cristo
- antigo nome da actual província de KwaZulu-Natal, na África do Sul
- capital do estado do Rio Grande do Norte
- microrregião brasileira do Rio Grande do Norte
- rio brasileiro do estado do Acre
- território australiano
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Uma abordagem ético-business da "coisa"
"Moralism kills hope of less vicious vice" in Financial Times de hoje.
Estilos e culturas
Há pessoas, particularmente de cultura anglo-saxónica e protestantes, que se relacionam com os outros de forma tão aparentemente racional, neutra e eficaz que se chega a duvidar do sítio onde guardam as emoções. Não, não se trata só de boa educação, de requinte ou de respeito pelas outras pessoas. É um recato quase perturbante, uma austeridade estranha, decididamente estranha para um típico latino. Essas criaturas, para além de anglo-saxónicas e protestantes, discretas e putativamente bem-educadas, também são seres humanos e, por conseguinte, têm emoções. Como, quando e onde as exprimem? São vulcões ambulantes com erupção permanentemente adiada? Concentram as emoções num estado de letargia até ao ponto em que só podem explodir de modo violento e inesperado, provocando efeitos colaterais indesejados?
Prefiro a saudável extroversão dos latinos apesar de, frequentemente, ser incomodativa e causar embaraço. De facto, o ideal seria uma mistura equilibrada entre os dois estilos, mas o ideal é inimigo do bom e o que existe são pessoas concretas, não criações "OGM" que conviriam a uma Humanidade supostamente perfeita.
Prefiro a saudável extroversão dos latinos apesar de, frequentemente, ser incomodativa e causar embaraço. De facto, o ideal seria uma mistura equilibrada entre os dois estilos, mas o ideal é inimigo do bom e o que existe são pessoas concretas, não criações "OGM" que conviriam a uma Humanidade supostamente perfeita.
Espírito Natalício
Quando era pequena vivia o Natal com grande intensidade. Era um momento especial preparado minuciosamente em sonhos e divagações com as amiguinhas na escola e com as bonecas em casa. Fazia prendas para todos os familiares, que embrulhava com um cuidado cirúrgico e contava os minutos para a chegada de todos para a ceia de Natal. Depois, cada segundo era aproveitado momento a momento até ao fim do dia 25 de Dezembro.Tenho tantas saudades de sentir esse espírito de Natal... Acho que o facto de crescer faz-nos perder essa magia.
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