Hoje, um amigo francês disse-me que a maior parte dos portugueses que conhecia eram tímidos, tristonhos, demasiado discretos, defensivos, parecendo pouco orgulhosos de ser portugueses. Como é que se pode ser assim quando se pertence a uma Nação que deu tanto ao mundo, um pequeno país que tanto contribuiu para o avanço da Humanidade num período histórico decisivo. Como se explica essa nostalgia, a que chamam saudade, bem traduzida pelo fado e por uma parte significativa da literatura e arte portuguesas? [Enquanto isso, os espanhóis são raivosos de ser espanhóis e os franceses incham de arrogância... De Gaule dizia que o mundo inteiro sempre tinha ganho com a "grandeur de la France"...]
Admitindo que essa análise (ainda) descreva um número significativo de portugueses e que os estereótipos da saudade, tristeza e profundidade representem de alguma maneira a alma portuguesa, como explicar tudo isso? Porque é que os portugueses seriam tristes (ou mais tristes do que outros povos)?
A minha explicação foi mais ou menos clássica... O pequeno país que construiu um império tinha pés de barro e em pouco tempo perdeu tudo aquilo que tinha conquistado com grande coragem, engenho e liderança esclarecida. O apogeu teria coincidido com os reinados de D. João II e D. Manuel. Depois, foi o declínio inexorável e permanente durante séculos, incluindo o desastre de Alcácer Quibir, a perda da independência entre 1580 e 1640, o afastamento dos movimentos de ideias que sacudiam a Europa, o desperdício dos recursos coloniais, a insipiência da industrialização, a ausência de uma burguesia progressista e visionária, o desastre dos primeiros anos da Républica e a "longa noite fascista" com o culto da ignorância, do vinho e da modéstia, o "orgulhosamente sós", uma tardia e custosa guerra colonial, a hemorragia emigratória, etc. Digamos que, depois da grandiosidade dos séculos XV e XVI, Portugal não tem grande coisa de que se gabar. A nostalgia dos portugueses e o seu putativo défice de auto-estima talvez estejam associados a uma raiva contida por terem perdido tanto (um império global...) de forma tão clamorosa e irreversível. E esse sentimento de perda permaneceria inscrito nos genes dos portugueses.
A revolução de 1974 e a adesão à Europa interromperam esse longo processo de decadência. Porém, em termos de tempo histórico, o choque ainda é recente. Apenas uma geração não viveu directamente o trauma fascista. Os portugueses foram expostos às suas fraquezas e tiveram de descobrir as suas forças para ombrear com os outros povos na luta pelo desenvolvimento. Os jovens podem exprimir livremente a sua criatividade, a sua qualidade, a sua ambição. Não sentem a "obrigação", consciente ou inconsciente, de redimir quaisquer culpas ou complexos, não são reféns de quaisquer sebastianismos.
Penso que os portugueses, principalmente os mais jovens, já não correspondem a esse paradigma da tristeza e da saudade. Penso que um novo espírito nacional se está a desenvolver, que começa a fazer sentido ter orgulho de ser português ou, pelo menos, não sentir o handicap de ser português. É verdade que, às vezes, esse orgulho se exprime das formas menos auspiciosas, tipo: adesão patética a glórias desportivas efémeras. Outro aspecto que talvez não ajude é a qualidade das élites e dos dirigentes do país nesta fase de erupção da energia nacional. Mas, também nesta área, tem de se viver com o que se tem ou apesar do que se tem... E um país tão fortemente traumatizado como aquele que emergiu do fascismo há uma geração talvez não pudesse ter melhor élite.