segunda-feira, dezembro 04, 2006

Alguém me explica...

... o que raio é o TLEBS?


Já li muita coisa à volta disto, mas ainda não percebi em que consiste exactamente. Agradecia se uma alminha caridosa me pudesse explicar.

Quem é esta gente?

Quem é esta gente de pele lisa, olhos precisos, cabelos orgulhosamente grisalhos, que desdenha o ar que respira, que cheira a perfumes inacessíveis?
Quem é esta gente que envelhece com cara de menino, que morre de tédio com o bem-estar que os avós lhe deixaram, que odeia a mediania e vomita bom gosto?
Quem é esta gente que se permite parecer o que não é para ser exactamente o que é?
Quem é esta gente tão indecentemente erudita que paga fortunas por uma surpresa irrisória?
Quem é esta gente que tem a àrvore genealógica estampada no focinho - sem querer?
Quem são estes eternos colegiais que cedem misturar-se por alguns instantes com as ninharias do povo?
Quem são estes velhos com cara impecável de publicidade a curas de beleza e a hospitais privados a cheirar a rosas?

domingo, dezembro 03, 2006

Tanguy

O Governo divulgou hoje um estudo sobre a juventude cujas conclusões essenciais são as seguintes: os jovens saem mais tarde de casa, adiam casamento e têm emprego precário. Todas as análises que tenho lido e ouvido enfatizam os factores económicos por detrás do fenómeno, que são sobejamente conhecidos. Não vi ainda realçadas as razões sociológicas que prolongam o "edílio" adolescencial em que muita gente teima em viver e que se transforma, frequentemente, em pesadelo, tais como: a resistência da família nuclear ao seu desmembramento; a hegemonia do princípio do prazer e do conforto sobre o princípio da realidade; a sociedade de sedução e de alergia à decepção em que vivemos; as condições difíceis e ambíguas em que se exercem a maternidade e a paternidade, as quais são ameaçadas por outras prioridades durante muitos anos da vida familiar; o autêntico sequestro a que se submetem reciprocamente pais e filhos; a imaturidade desses actores num mundo em que a responsabilidade, o risco e o esforço são autênticos papões.

Esta situação de maturidade e separação tardias parece mais visível nas sociedades do sul da Europa, em que a transição da família alargada para uma família nuclear se tem feito mais penosamente. Diria que em Itália, por exemplo, o fenómeno é ainda mais pertinente. Apesar de não dispor de estatísticas comparadas, estou quase certo de que nos países de cultura anglo-saxónica, em que o individualismo e a autonomia e responsabilidade dos filhos são muito mais encorajados, a tendência acima descrita não se tem manifestado da mesma maneira, nem tão rapidamente.

Para aligeirar o tema, aconselho o filme Tanguy, uma paródia divertidíssima (apesar dalgumas passagens a puxar para o riso amarelo) sobre o drama de um filho único de 28 anos, rico e bem sucedido, que insiste em permanecer no bem-bom da casa dos pais para grande desespero destes últimos que inventam todo o tipo de estratégias para se desembaraçar do dito "mammóne"...

007 - Casino Royale


O novo James Bond, Daniel Craig, é um 007 com personalidade, mas uma personalidade diferente daquela a que estamos habituados. Talvez não seja só por ser um actor diferente, mas também porque este filme conta a história inicial do agente secreto do MI6. Vemos a sua ascenção à categoria de "double 0", a sua ingenuidade e inexperiência de prinicipiante, o seu desleixo com a aparência, etc, etc. e isso tudo ajuda-nos a perceber a razão de ser do James Bond que conhecemos dos filmes anteriores.
Este Bond:
  • conduz um Ford
  • é confundido com um arrumador de carros
  • está constantemente a ganhar cicatrizes
  • tem falhas
  • não se deixa seduzir facilmente por um rabo de saias
  • é capaz de largar tudo para seguir o amor
Ou seja, é exactamente o oposto do que estamos acostumados a ver. Mas, no fim do filme, um desfecho inesperado muda a sua personalidade, para aquela que tão bem conhecemos.

Um filme a não perder.

sábado, dezembro 02, 2006

Conversas de Autocarro II

No outro dia ia eu no autocarro e à minha frente estavam duas meninas entre os 13 e os 14 anos. Claramente aparentavam ser mais velhas que isso, mas calculei a idade pelos livros escolares que tinham (do 8ºano). A conversa era daquele género típico de autocarro e de miúdas, sem substância, fútil e desinteressante.

A certa altura começam a falar nas novas calças amarelas que uma delas comprou e sai o seguinte comentário:


"As calças são lindas, ficam bué bem. E ainda estive indecisa se comprava o meu tamanho, mas o tamanho abaixo fica muito melhor! Custa um bocado a mexer-me, principalmente quando me sento, mas vale a pena porque ficam mesmo bem!"


Não, não estou a inventar!

New look

Como dá para ver, mudei o look aqui da melga.

O que acham?

CO2

O ambiente é uma daquelas micro-causas muito na berra nos tempos que correm. À falta de grandes ideologias, as pessoas agora exercem a cidadania e tranquilizam a consciência, aderindo emotivamente a micro-causas, como o ambiente, a igualdade entre homens e mulheres, os direitos dos homosexuais, a filantropia a favor do Terceiro Mundo, o voluntariado nos hospitais e na rua para ajudar os sem-abrigo, etc. E muito bem. Contra isso, nada! Digamos que se passou de um individualismo egoísta moderno a um individualismo pós-moderno cheio de boas intenções, em que o hedonismo se mistura com uma solidariedade "soft", isto é, pouco consumidora de empenho pessoal e pouco arriscada, porque não colide com outras prioridades como a carreira profissional, o sucesso material e a competição.

O ambiente passou a ser "mainstream". Ex-presidentes, vice-presidentes e ex-candidatos a presidentes pugnam pela defesa do planeta, os directores de grupos económicos e financeiros juram respeitar o ambiente. O ambiente é parte integrante da chamada "corporate social responsibility". Forma-se uma estranha aliança (ambiental) entre "green peace", "no global" e sacerdotes do capitalismo. E quando se trata de escolher entre criação de postos de trabalho e desenvolvimento económico, por um lado, e protecção do ambiente, por outro, defende-se, muitas vezes, acaloradamente, a segunda contra os primeiros. Esquecendo que a pior das poluições é a pobreza. Como dizia um poeta do Terceiro Mundo, "quem me dera o fumo de uma fábrica para combater o mal da minha alma e da minha fome".

A hipocrisia raia o absurdo quando os maiores poluidores fazem propaganda da defesa do ambiente na terra dos outros, sem mexer uma palha para cortar a poluição nos seus próprios países. Porque não querem prejudicar os interesses económicos que produzem poluição. Basta pensar nos Estados Unidos e na Austrália que recusaram subscrever o Protocolo de Kyoto. Chega-se ao ponto de utilizar os standards ambientais como argumento de "fair competition" ou "level playing field". Isto é, quem tem menos custos de protecção ambiental consegue produzir a custo mais baixo e, portanto, ser mais competitivo no mercado mundial. Claramente, o futuro do ambiente e o desenvolvimento sustentável (que bonita expressão!) dependem da conciliação do ambiente com o lucro e com a lógica de mercado. Como tantas outras coisas neste mundo de "livre iniciativa".

Um dos passos mais concretos nesse sentido foi a criação na Europa do chamado mercado dos "carbon rights", ou seja, direitos a produzir CO2. Quem polui mais do que uma certa norma pré-definida deve comprar o direito de poluir a quem polui menos do que essa mesma norma. O pressuposto é que a norma implica uma redução global e tendencial das emissões de CO2. As empresas de sectores menos poluentes e/ou que investem na protecção do ambiente podem portanto cobrir esses custos de investimento e gerar receitas adicionais, vendendo direitos de produção de CO2 às empresas mais poluentes. Trata-se, portanto, de uma bolsa da poluição supervisionada pela União Europeia. O início desse mercado foi atribulado pela simples razão de que se emitiram demasiados títulos de poluição, quer dizer, as autoridades sobrestimaram as necessidades de poluição dos agentes económicos, provocando uma oferta de direitos a poluir superior à procura. O que aconteceu foi, naturalmente, uma quebra acentuada das cotações e uma perda de credibilidade do mercado e das metas de redução das emissões de CO2.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Pai Natal nazi

A polémica explodiu na Alemanha por causa da venda de estatuetas do Pai Natal, alegadamente, a fazer a saudação nazi...

quinta-feira, novembro 30, 2006

Suicidio de jovens no Japão

Citado de FT on-line de hoje:

"Last month a 13-year-old Japanese boy wrote a simple suicide note on a piece of crumpled paper. “Dear Mom and Dad,” it read, “Sorry I was an inadequate child. Thank you for everything. I cannot live while being bullied.” Over the past two months, at least seven children in Japan have taken their own lives after being tormented by school bullies. The problem of ijime, or bullying, has long been a problem in Japan. But the spate of recent suicides, coupled with unyielding media coverage, has turned ijime into a national epidemic."

quarta-feira, novembro 29, 2006

Modéstia à parte, n' est ce pas?

Aproveitando o facto de a citação de hoje: "Os homens não são importantes. O que conta é quem os comanda" ser de Charles de Gaulle, aqui vos deixo duas outras citações dele com que me deparei em Paris por debaixo de uma estátua em sua honra.

Um homem nada Chauvinista nem modesto...

terça-feira, novembro 28, 2006

Carta (antecipada) ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

Este ano vou-te escrever duas cartas, sendo que esta é a primeira e vem antecipadamente. Isto porque tenho dois pedidos muito importantes a fazer-te e que gostava de ver satisfeitos antes do Natal propriamente dito.

Fui uma menina muito bem comportada durante todo o ano, uma menina que cumpriu os seus deveres e é por isso que preciso da tua ajuda. É que, meu querido Pai Natal, com a carga de trabalho com que estou na faculdade, preciso desesperadamente que me ofereças os dois presentes antes do tempo, para que eu possa recuperar a minha vida social, a minha sanidade mental e a minha capacidade de organização.

Assim, Pai Natal, os meus pedidos são tempo para dormir e uma agenda para gerir o meu escasso tempo para tanto trabalho. E já agora, se fosses muito fofo e querido, podias arranjar-me umas horinhas extra por dia para eu poder ter vida social.

Um beijinho,

Alice

domingo, novembro 26, 2006

Vai e vem

Ultimamente este blog tem sido demasiado necrológico. Morreu fulano e sicrano e beltrano, tudo gente famosa que deixou um traço mais ou menos inesquecível em vários sectores de actividade, economia, cinema, arte, literatura.

Mas, também morreram os outros, na maioria anónimos, que chegaram menos alto na escala mediática, que se distinguiram menos no que fizeram, cuja memória não sobreviverá à segunda geração das pessoas mais próximas. Toda essa gente que morreu hoje amou, fez bem e fez mal, sofreu e foi feliz, fez filhos e matou, transgrediu e obedeceu, aprendeu e desaprendeu, acertou e errou. Toda essa gente foi para a cova com meia dúzia de gatos pingados atrás sussurando que o defunto até era boa pessoa. Porque ninguém é mau depois de morrer. Todos nós conseguimos sempre encontrar uma centelha de bondade na mais hedionda criatura que passa para o Além.

Hoje anuncio o nascimento de milhares de pessoas que serão felizes, divertidas, criativas, bondosas, saudáveis, honestas, fortes, obstinadas, competentes, bons pais, boas mães, bons filhos, gente interessada pelo que sucede no mundo e que se empenha para o melhorar, cidadãos de corpo inteiro destinados a melhorar o estado das coisas e que não pensam só no próprio umbigo. Todos esses nascem hoje...

E os outros também... Os outros são os outros que compõem o bouquet de que é feita a vida.

Passe o tom prosélito e moralista. Boa semana para todos os que cá continuam (incluindo os que nasceram hoje)!

Mário Cesariny

Morreu o expoente máximo do surrealismo português.

Por um novo nacionalismo

Hoje, um amigo francês disse-me que a maior parte dos portugueses que conhecia eram tímidos, tristonhos, demasiado discretos, defensivos, parecendo pouco orgulhosos de ser portugueses. Como é que se pode ser assim quando se pertence a uma Nação que deu tanto ao mundo, um pequeno país que tanto contribuiu para o avanço da Humanidade num período histórico decisivo. Como se explica essa nostalgia, a que chamam saudade, bem traduzida pelo fado e por uma parte significativa da literatura e arte portuguesas? [Enquanto isso, os espanhóis são raivosos de ser espanhóis e os franceses incham de arrogância... De Gaule dizia que o mundo inteiro sempre tinha ganho com a "grandeur de la France"...]

Admitindo que essa análise (ainda) descreva um número significativo de portugueses e que os estereótipos da saudade, tristeza e profundidade representem de alguma maneira a alma portuguesa, como explicar tudo isso? Porque é que os portugueses seriam tristes (ou mais tristes do que outros povos)?

A minha explicação foi mais ou menos clássica... O pequeno país que construiu um império tinha pés de barro e em pouco tempo perdeu tudo aquilo que tinha conquistado com grande coragem, engenho e liderança esclarecida. O apogeu teria coincidido com os reinados de D. João II e D. Manuel. Depois, foi o declínio inexorável e permanente durante séculos, incluindo o desastre de Alcácer Quibir, a perda da independência entre 1580 e 1640, o afastamento dos movimentos de ideias que sacudiam a Europa, o desperdício dos recursos coloniais, a insipiência da industrialização, a ausência de uma burguesia progressista e visionária, o desastre dos primeiros anos da Républica e a "longa noite fascista" com o culto da ignorância, do vinho e da modéstia, o "orgulhosamente sós", uma tardia e custosa guerra colonial, a hemorragia emigratória, etc. Digamos que, depois da grandiosidade dos séculos XV e XVI, Portugal não tem grande coisa de que se gabar. A nostalgia dos portugueses e o seu putativo défice de auto-estima talvez estejam associados a uma raiva contida por terem perdido tanto (um império global...) de forma tão clamorosa e irreversível. E esse sentimento de perda permaneceria inscrito nos genes dos portugueses.

A revolução de 1974 e a adesão à Europa interromperam esse longo processo de decadência. Porém, em termos de tempo histórico, o choque ainda é recente. Apenas uma geração não viveu directamente o trauma fascista. Os portugueses foram expostos às suas fraquezas e tiveram de descobrir as suas forças para ombrear com os outros povos na luta pelo desenvolvimento. Os jovens podem exprimir livremente a sua criatividade, a sua qualidade, a sua ambição. Não sentem a "obrigação", consciente ou inconsciente, de redimir quaisquer culpas ou complexos, não são reféns de quaisquer sebastianismos.

Penso que os portugueses, principalmente os mais jovens, já não correspondem a esse paradigma da tristeza e da saudade. Penso que um novo espírito nacional se está a desenvolver, que começa a fazer sentido ter orgulho de ser português ou, pelo menos, não sentir o handicap de ser português. É verdade que, às vezes, esse orgulho se exprime das formas menos auspiciosas, tipo: adesão patética a glórias desportivas efémeras. Outro aspecto que talvez não ajude é a qualidade das élites e dos dirigentes do país nesta fase de erupção da energia nacional. Mas, também nesta área, tem de se viver com o que se tem ou apesar do que se tem... E um país tão fortemente traumatizado como aquele que emergiu do fascismo há uma geração talvez não pudesse ter melhor élite.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Philippe Noiret

Faleceu esta noite Philippe Noiret, um grande do cinema francês e europeu. Lembro-me dele com ternura em "Il Postino" no qual contracenou com o também saudoso Massimo Troisi, ou em "Nuovo Cinema Paradiso" no qual desempenhou o papel do inesquecível e carinhoso Alfredo.

Morte e mercado de capitais

Já se sabia que a criatividade dos financeiros não tem limites. Já se sabia que dinheiro e ética dialogam com uma certa dificuldade. Já se sabia que, para lá do romantismo e das boas intenções, é preciso tratar das coisas práticas da vida, o que significa, frequentemente, gerir bem o "vil metal". Para ilustrar tudo isto, o Financial Times on-line de hoje descreve os chamados "longevity bonds" ou "mortality bonds". São obrigações cuja taxa de juro é indexada à taxa de mortalidade de uma determinada população. Por exemplo, quando aumenta a mortalidade, aumenta o juro e vice-versa. É um instrumento adequado à cobertura dos riscos de liquidez e de mercado dos fundos de pensão que investem em activos de longo prazo na base de uma certa previsão de esperança de vida dos beneficiários das pensões. Se essa previsão não se concretiza, os fundos ficam ou com um excesso de financiamento ou com um défice durante um certo período, expondo-se às flutuações de rendimento dos activos subjacentes. Os "longevity bonds" ou "mortality bonds" permitem cobrir esse risco.

Link, link.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Bibendum

Uma das figuras do mundo do marketing mais famosas, bem sucedidas e simpáticas. Chama-se Bibendum e naturalmente faz propaganda a pneus Michelin. Passe a publicidade gratuita...

The Departed

Vale a pena mentir para manter o equilíbrio?


É a questão que este filme nos coloca. Com um elenco de luxo, composto por Jack Nicholson, Leonardo DiCaprio e Matt Damon, com um realizador que já deu provas de qualidade (Martin Scorcese) e produção de Brad Pitt, The Departed retrata a zona sul de Boston, onde se encontram imensos emigrantes irlandeses, entre os quais, as três personagens principais. O filme retrata, então essa realidade específica daquela parte da cidade, principalmente, no que diz respeito a certas máfias e suas relações frágeis de (des)equilíbrio com a polícia. Há ambiguidade, traição, mentira, crime, traumas de infância, drogas e outros elementos que fazem deste filme uma ida compensadora ao cinema.

De destacar o papel, mais uma vez, genialmente representado por Jack Nicholson, que desta vez é o chefe da organização mafiosa.

A ver.

(O trailler está disponível aqui.)

terça-feira, novembro 21, 2006

Miolos

Há pessoas que raciocinam com uma tal solenidade e lentidão que quase se ouve os miolos a bater uns nos outros, à medida que alguma lógica se vai compondo, penosamente.

domingo, novembro 19, 2006

Vergonhosas...


... são as campanhas eleitorais para a direcção geral da Associaçao Académica de Coimbra que estão a ser levadas a cabo pelas listas D e V (supostamente as mais fortes). Isto porque andam literalmente a poluir a cidade de Coimbra com cartazes por todo o lado, principalmente na zona da Universidade. Experimentem passar pelas escadas monumentais e vão encontrá-las revestidas de folhas a dizer "Aceita o Desafio" ou "Vive a AAC". Passem também pela fachada das faculdades e vejam o património completamente poluído por cartazes de duas listas que se propõem a representar os estudantes de Coimbra.

Querem defender os estudantes da Universidade e estragam-lhes os espaços em que eles mais circulam? Querem dinamizar a Universidade e poluem património de interesse cultural, histórico e turístico?

Borat

Borat é um filme (aparentemente cómico) que me deixou com uma sensação estranha, com a boca amarga. É um filme demasiado crú e realista sobre a pobreza dos pobres e sobre a pobreza dos ricos. Sai-se dali com um sorriso amarelo de quem não consegue rir sem pena. Mesmo a ternura (?!) é de tal modo misturada com o feio e com o prosaico que se torna pouca demais, espectral. É um filme que apresenta pornograficamente a diferença cultural e a pobreza do corpo e da alma.

sábado, novembro 18, 2006

O hiper-modernismo

Citações de "L'ère du vide, essais sur l'individualisme contemporain" de Giles Lipovetsky (1983).

"Don Juan morreu. Uma nova figura, muito mais inquietante, irrompeu, Narciso, subjugado por si próprio na sua cápsula de vidro."

"E no entanto, o sistema funciona, as instituições reproduzem-se e desenvolvem-se, mas em roda livre, no vazio, sem aderência nem sentido, cada vez mais controladas por "especialistas", os últimos sacerdotes, como diria Nietzsche, os únicos a querer ainda injectar sentido, valor, onde não existe mais nada senão um deserto apático."

Ler também Foucault, Delheuze, Antonio Negri, Michael Hardt, Richard Sennett, ...

O último de Woody Allen

Depois de "Match Point", "Scoop". Este último, não muito longe de uma treta (ressalve-se a belíssma Scarlett Johansson). Às vezes, faz lembrar a "Maldição do Escorpião de Jade" que é muito mais giro. "Scoop": para mastigar e deitar fora. O nosso Woody esgotou as potencialidades da sua veia cómico-psi.

terça-feira, novembro 14, 2006

Auto-biografia

Jogando no terreiro da escola primária, descobri que nunca seria um grande jogador de futebol. Divertia-me e coisa e tal, correndo atrás do esférico de borracha desbotada, deslumbrava-me com as proezas dos outros, chegava a ter inveja deles. Caía em mim e percebia que nunca seria um às da bola. Cada um é para o que nasce, n'est-ce-pas? Seguindo os discursos dos políticos lá da terra, em tempo de eleições autárquicas, descobri que nunca seria presidente da câmara nem político de qualquer circunscrição. Tinha ideias àcerca do que estava mal e da maneira de mudar o mundo, mas achava que existia qualquer coisa de imoral na política e, por isso, dei o fora. Depois, fui para a universidade e, assistindo incrédulo às guerras de alecrim e manjerona que se travavam entre os doutores, conclui que também aquilo não era para mim. Fui para a tropa e fui tratado abaixo de cão por tipos orgulhosos da sua má educação e ignorância que tratavam a mãe de todos os recrutas de meretriz, com a convicção dos profetas. Depois da recruta, ensinaram-nos as técnicas mais rebuscadas da malandrice e do desenrascanço. Não, aquilo não era para mim. Contei, um a um, os dias que faltavam para sair daquele campo de concentração dos maus costumes. A seguir, fui para o mundo dos grandes, dos sérios, dos profissionais, dos ambiciosos e endinheirados. Talvez por não ser essencialmente diferente deles, apanhei o combóio e fui andando, andando, andando. Parei nalguns apeadeiros para ver a paisagem em volta, para ver o combóio que partia, mas nunca perdi o combóio seguinte. Quero convencer-me de que não sei qual é o destino final e mantenho um certo espírito crítico, quer dizer, continuo a fazer de "enfant terrible", sem pôr em causa a arquitectura do sistema que me paga os caprichos... No fundo, soube poucas vezes o que queria, mas soube sempre, mais ou menos bem, o que não queria.