sábado, julho 29, 2006

Parábola da gestão em Portugal (recebido por e-mail)

Todos os dias, a formiga chegava cedinho à oficina e desatava a trabalhar. Produzia e era feliz.

O gerente, o leão, estranhou que a formiga trabalhasse sem supervisão. Se ela produzia tanto sem supervisão, melhor seria supervisionada? Então, contratou uma barata que tinha muita experiência como supervisora e fazia belíssimos relatórios. A primeira preocupação da barata foi a de estabelecer um horário para entrada e saída da formiga. De seguida, precisou de uma secretária para a ajudar a preparar os relatórios e contratou uma aranha que além do mais, organizava os arquivos e controlava as ligações telefónicas.

O leão ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com índices de produção e análise de tendências, que eram mostrados em reuniões específicas para o efeito. Foi então que a barata comprou um computador e uma impressora laser e admitiu a mosca para gerir o departamento de informática.

A formiga de produtiva e feliz, passou a lamentar-se com todo aquele universo de papéis e reuniões que lhe consumiam o tempo!
O leão concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga operária trabalhava. O cargo foi dado a uma cigarra cuja primeira medida foi comprar uma carpete e uma cadeira ortopédica para o seu gabinete. A nova gestora, a cigarra, precisou ainda de computador e de uma assistente (que trouxe do seu anterior emprego) para ajudá-la na preparação de um plano estratégico de optimização do trabalho e no controlo do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se mostrava mais enfadada. Foi nessa altura que a cigarra convenceu o gerente, o leão, da necessidade de fazer um estudo climático do ambiente. Ao considerar as disponibilidades, o leão deu-se conta de que a unidade em que a formiga trabalhava já não rendia como antes; e contratou a coruja, uma prestigiada consultora muito famosa, para que fizesse um diagnóstico e sugerisse soluções.

A coruja permaneceu três meses nos escritórios e fez um extenso relatório, em vários volumes que concluía: "Há muita gente nesta empresa".
Adivinhem quem começou por ser despedido?

A formiga, claro, porque "andava muito desmotivada e aborrecida".

sexta-feira, julho 28, 2006

Alguém me consegue explicar... (II)

...que carnaval foi aquele à volta da reforma do Manuel Alegre?

(Qual infâmia? O homem tem culpa do sistema? Metem-me nojo certas mesquinhices/sensacionalismos que procuram notícias onde não existem, insinuando corrupções que nunca se deram... Mete-me nojo o "prazerzinho" de alguns com estas tretas.)

Alguém me consegue explicar...

...como se resgatam soldados bombardeando um território?
...como se obtém a paz matando civis e agentes de paz?
...como se pode achar que a culpa de uma guerra é só de uma das partes?
...como se mantem a inércia da comunidade internacional perante uma guerra?
...como se desculpam descaradamente os ataques israelitas?

...como se repetem incessantemente os mesmos erros há séculos e séculos?

quinta-feira, julho 27, 2006

In Cold Blood

O livro "A Sangue Frio" de Truman Capote (1966) lê-se de um fôlego só. Não vi o filme “Capote” que se inspirou no livro e que foi galardoado este ano com o Óscar para o melhor actor (Philip Seymour Hoffman).

O livro conta a história do assassinato de uma família de 4 pessoas no final dos anos 50 numa pequena cidade do Estado do Kansas por dois rapazes perdidos na vida e na morte. O crime ocorre em circunstâncias rocambolescas e quase incompreensíveis, na sequência da tentativa de roubo de um cofre que, afinal de contas, nunca existiu. No fim, os ladrões-assassinos levam consigo apenas cerca de 50 dólares e um medo tépido de serem apanhados e condenados à morte, o que acaba por acontecer.

Truman Capote era jornalista e escreveu o livro em estilo jornalístico. O vocabulário é simples e escorreito, as frases fulgurantes. O que prende é o interesse da história e o ritmo em que é contada. As 370 páginas da edição "Livros do Brasil" devoram-se, cada página pedindo a leitura imediata da seguinte.

Trata-se de um retrato impiedoso da América daquele período, da coexistência de mundos incrivelmente diferentes num mesmo, imenso território, onde os foragidos se movem sem descanso à procura de uma paz impossível. O puritanismo e a rigidez religiosa embatem estrondosamente na extrema miséria dos falidos de um sistema que não tolera o fracasso nem a transgressão.

É um livro naturalmente angustiante e triste que nos coloca perante a crueza e o "non-sense" de uma maldade que quase apetece desculpar. Maldade que se explica por uma acumulação de traumas, fantasmas e fracassos que a sociedade ajuda a produzir, mas que não perdoa.

Perry - um dos criminosos - é um rapaz sensível, meio poeta, que transporta consigo uma mala cheia de recordações e de abandonos. Filho de um cowboy e de uma índia belíssima que passam o princípio da sua vida em comum, muito felizes, a participar em "rodeos" pelas planícies da América profunda. O idílio acaba e o casal separa-se. A Índia fica com os quatro filhos e torna-se alcoólica. O cowboy foge para o Alasca e lança negócios condenados à falência. Dois dos filhos suicidam-se, uma filha faz de esposa irrepreensível para resgatar o passado maldito da família e Perry transforma-se em assassino… por acaso…

Capote era jornalista, intelectual, homossexual, também ele abandonado na infância pela mãe. Permaneceu no Kansas 5 anos a seguir o caso muito de perto e a recolher material para o romance. Entrevistou os criminosos e acabou por ter relações intensas e profundas com Perry, com quem se identificou psicologicamente. Uma possível amizade sincera cedeu rapidamente o lugar ao puro interesse de Capote em extrair de Perry o máximo de informações antes da execução da personagem central do livro.

Capote viveu tão fortemente o romance e meteu tanto de si próprio (e da sua moralidade) na sua elaboração que, após a publicação em 1966, escreveu pouco mais, deixou-se cair em histórias mais ou menos sórdidas de jet-set e morreu alcoólico em 25 de Agosto de 1984 em Los Angeles, com 60 anos. "In Cold Blood" é um dos mais famosos "best-sellers" internacionais.

Isto por aqui é giro!



(Passei no exame de condução.)

Volto no domingo... Até ao meu regresso.


quarta-feira, julho 26, 2006

Comércio e desenvolvimento

O último round de negociações para a liberalização do comércio mundial no seio da Organização Mundial de Comércio (OMC) – dito de Doha, capital do Qatar onde se iniciaram as negociações há cerca de 6 anos – está para terminar no meio de um rotundo fracasso. Um dos principais responsáveis terá sido o governo dos Estados Unidos da América por se recusar a acabar com os subsídios maciços à sua agricultura. Países como a UE, o Japão, a Suiça, a India e o Brasil estariam dispostos a reduzir as tarifas aduaneiras e outras restrições às importações de produtos agrícolas na condição de os EUA baixarem ou eliminarem os subsídios.

Toda a gente se diz favorável ao desenvolvimento, mas uns dizem que o comércio internacional é bom e outros dizem que é mau. Também parece não existir consenso acerca da própria definição de desenvolvimento. O que é certo é que os países mais ricos tentam por todos os modos, não obstante a demagogia “desenvolvimentista” e de “free trade”, defender os interesses dos seus grupos mais poderosos.

Os países mais pobres da África, América Latina e Ásia continuam essencialmente à margem do debate e do comércio que lhes poderia interessar, um outro comércio baseado no principio da discriminação positiva, incluindo: acesso facilitado aos mercados mais ricos, protecção nas fases iniciais do processo de industrialização, investimento directo estrangeiro sem pilhagem de recursos nem expatriação de valor acrescentado, protecção da propriedade intelectual e cessação da hemorragia de “massa cinzenta”.

Mas, o comércio é apenas uma variável de uma equação muito complexa (a do desenvolvimento) que integra também o sistema político, a honestidade e qualidade dos governantes e restrições de natureza histórica, sociológica e jurídica.

terça-feira, julho 25, 2006

Sibilino

Sibilas são figuras femininas da mitologia grega e romana e estão na base da etimologia da palavra "sibilino".

Resíduos de personagens ligadas a cultos arcaicos (essencialmente, de fertilidade), as Sibilas continuaram por muito tempo a povoar as culturas mediterrânicas. A persistência da sua presença responde, no mundo clássico, ao perdurar de questões às quais os cultos e ritos "diurnos" em honra dos deuses do Panteão patriarcal, seja romano ou grego, não queriam (não podiam ? não sabiam ?) dar respostas.

Na antiguidade clássica, a Sibila era uma virgem dotada de virtudes proféticas, dado inspirar-se num deus, quase sempre Apolo. As Sibilas forneciam normalmente respostas ínvias e obscuras (ou seja: sibilinas). Platão refere-se apenas a uma Sibila; em seguida, apareceram mais 16, todas pertencentes a épocas míticas. Uma das mais famosas foi Eritreia.

Traduzido daqui.

segunda-feira, julho 24, 2006

Armando

Armando é um cínico. Não sei se, à sua maneira, sofreu muito, se apanhou muitas ou poucas desilusões, se foi traído por amigos e familiares, se teve de se erguer das cinzas várias vezes… A verdade é que é um cínico. Vê tudo negro ou cinzento, não acredita em coisa alguma, está sempre à procura de explicações conspirativas para as situações mais triviais. Para ele, ninguém vai à procura do que quer que seja sem um interesse egoista bem definido. Armando recusa a inocência, as boas intenções, a possibilidade de uma visão ou de um projecto que leve as pessoas a agir de um certo modo. Com os seus olhitos felinos embutidos no meio de uma cabeça em forma de proa de navio, está sempre à procura do mínimo vestígio de "santa ingenuidade". O ser humano é por definição mau. É preciso não construir castelos de cartas àcerca dos sentimentos ou das grandes ideias porque, no fim de contas, emergirá sempre a cupidez e a perversidade. E a decepção. Quanto mais se aceitar esta "verdade" e mais se anticiparem os seus efeitos melhor se estará preparado para enfrentar os dissabores da vida, as trafulhices e os golpes baixos. Porque a vida é feita só disso. Para lhe resistir sem cair na loucura ou no crime é preciso observá-la do alto de uma colina de desprezo.

Armando acha-se injustiçado, perseguido, incompreendido, maltratado. Mas, é de família abastada, sempre viveu à sombra de protecções poderosas, nunca arriscou o que quer que fosse. Saiu directamente da casa da mãe para um colégio prestigioso e desse colégio para uma instituição que lhe paga estupidamente acima do seu trabalho e da sua competência (que não se sabe qual seja). Apesar de se aproximar da idade da reforma é um eterno "enfant gaté" que espezinha o tempo que lhe resta a jogar golfe com outros ricos inúteis e fastidiosos. Acho vergonhosa e intolerável essa sua amargura em relação ao mundo de que é simplesmente um rentista sem carácter.

Depois da morte restará bem pouco de Armando. Os filhos apenas se lembrarão dele, com um sorriso de desdém, pelo dinheiro e as casas que lhes vai deixar. A mulher continuará a pintar as unhas no salão forrado a damasco, imperturbável, sem se aperceber do vazio da poltrona ao lado.

sábado, julho 22, 2006

A contabilidade do amor

Quando a àgua que nasce e a que cai do céu é superior à que desagua no mar, se consome e se infiltra na terra existem enchentes nos rios. A situação inversa conduz às secas. Com o amor é a mesma coisa. O que se dá deve ser idêntico ao que se recebe, caso contrário há sarilho... Não dá bom resultado esperar receber mais do que o que se pode dar. Quando não há equilíbrio, há uma parte que se sente frustrada ou traída e outra que se sente investida de demasiado poder.

quinta-feira, julho 20, 2006

Ainda aqui não cheguei, mas já faltou mais...

Até ao meu regresso!

Deixo já a minha despedida até ao fim do mês. A partir de amanhã vou andar por estas bandas:




E amanhã de manhã tenho exame de condução. (Wish me luck!)

quarta-feira, julho 19, 2006

No seguimento do post anterior...


Este spot publicitário também não fica nada atrás.

UM ANÚNCIO FANTÁSTICO

Não percam - podemos pôr tudo numa caixinha de sonhos...

Déjà vu

Em Itália o governo de centro-esquerda tenta combater interesses corporativos que lesam o "interesse geral". Taxistas, farmacêuticos e advogados figuram entre os alvos e reajem com greves. Link

terça-feira, julho 18, 2006

Mais uma melga amiga



Desta vez é um blog chamado Gallery of The Absurd, que se dedica a fazer ilustrações a gozar com celebridades. Recomenda-se.

Um post desesperado

Dia 18 de Julho de 2006

  • 9h45 - Saio de casa cheia de sono para ter uma aula de condução. O dia está chuvoso e abafado e a vontade é pouca, mas como o exame está próximo, ganho motivação.
  • 11h05 - Acaba a aula, apetece-me ir para casa, mas dirijo-me à faculdade para me inscrever nos exames de Setembro e para ver uma nota cuja publicação está anunciada para esta manhã.
  • 11h20 - Chego à Faculdade. A nota ainda não saíu. Vou à secretaria inscrever-me e passo pelas informações para perguntar pela professora. A resposta é: "A sôtora está cá. Não sei onde, mas sei que já chegou."
  • 11h25 - Depois de ficar indecisa quanto a esperar pela nota, decido ficar pois se a professora já está na faculdade, deve demorar pouco a afixar as notas. Sento-me no bar e espero.
  • 11h50 - Continuo à espera.
  • 12h10 - Cruzo-me com a professora e ela justifica o atraso: "Ai desculpe... Já tenho as pautas completas mas esqueci-me delas em casa. Vou pegar nas notas que tenho no meu computador de cá e vou preencher novas pautas. Espere só um bocadinho que não demoro nada a fazer isso e a afixá-las."
  • 12h11 - Ok. Espero. Não deve demorar mais de meia hora/três quartos de hora e como já cá estou, não vou dar a minha espera por perdida.
  • 12h40 - Nem sinais da professora. Espero.
  • 13h20 - Continuo à espera. Cheia de fome, decido almoçar e compro uma salada no bar da faculdade. Pode ser que entretanto ela afixe as notas.
  • 13h40 - Tomo um café. Ainda não há sinal da professora.
  • 13h45 - Estou farta, mas continuo à espera. Quem já cá está há quase duas horas e meia não vai desistir ao último minuto...
  • 13h50 - Para passar o tempo e desabafar as minhas raivas venho para os computadores do Núcleo de Estudantes ver o e-mail e escrever este post desesperado...
  • 14h00 - Saio do computador para continuar a minha demanda em busca da tão sofrida nota do exame. Apetece-me esganar alguém...

segunda-feira, julho 17, 2006

A "mãe" do rock português

José Cid está de volta...

"Se Elton John tivesse nascido na Chamusca, não teria tido tanto êxito como eu."

"Tentaram e conseguiram pôr-me na prateleira. Mas a verdade é que os outros artistas estão na prateleira e eu estou cá."

"A nova geração tem de descobrir qual é o seu dinossauro Todos os países têm o seu dinossauro. Os franceses têm o Johnny Halliday, os espanhóis o Miguel Rios. Ambos são uma porcaria ao pé de mim. Sou infinitamente melhor do que eles e tenho uma melhor estética."

"Usem e abusem de mim. Estou cá, canto e bem ao vivo. Façam de mim o que quiserem. Estou com uma grande voz."

"Adoro o «Cantor da TV», a canção menos comercial daquele álbum [Nasci prà música]. Dificilmente conseguiria escrever [outro] tema daquela maneira. É muito bem esgalhado e muito bem tocado."

"Essa canção [Como o macaco gosta de banana] foi um escândalo. As pessoas julgaram que era uma canção ordinária. (...) Divirto-me à brava quando a oiço, porque é uma canção que não se pode levar a sério. Tem um sentido de humor de abandalhar o sistema."

"Olá malta! Tudo bem? Tá-se?"

"Dá-me favas com chouriço."

"Se o Rui Veloso é o pai do rock português, eu sou a mãe."



Comemorando o 40º aniversário da sua carreira este monárquico anarquista, crente em Deus e Fátima, mas não na igreja, lançou um novo cd, de seu nome, Baladas da Minha Vida.

Por tudo o que gira à sua volta, impõe-se esta homenagem!
Face ao já ocupado lugar de pai do rock português, José Cid considera-se a mãe do rock português. Com efeito, não nos podemos esquecer do começo da carreira deste homem, aos 14 anos, com uma banda que actuava em festas e bailes e que, ao contrário das outras, interpretava temas do rock internacional (Elvis e afins) em vez do nosso típico fadinho e das nossas músicas de bailarico. Até depois, com o Quarteto 1111, ficou conotado com uma música de qualidade com mensagens fortes (tão fortes que foram censuradas). Só mais tarde é que vieram aquelas músicas que agora marcam este macho latino como "Um grande grande amor", "Como o macaco gosta da banana" e "A pouco e pouco (favas com chouriço)".

E, para rematar, eis um novo conceito muito interessante:

José-Cidismo

s. m. contracção por justaposição de José+Cid.
1. Elocução de frases ou ideias ilógicas;

2. Militância ou defesa de argumentos sem sustentação;

3. Situação surreal e sem graça;

Gíria popular: baboseira;

Gíria informática: defeito lógico no código-fonte de um programa informático.

Situações de uso:
«Isto é um caso de lavar os dentes a pardais, passe o josé-cidismo»;
«O senhor doutor vai-me desculpar, mas esse argumento é um autêntico josé-cidismo»;
«Estive a tarde toda a saltar de repartição em repartição num josé-cidismo interminável»;
«Devias actualizar o Windows. A nova versão trás imensas correcções de josé-cidismos que criavam conflitos no computador».

Conceito retirado daqui

Os papagaios da Economia

Tradução livre de um excerto de "Economês" (só mais do mesmo)...

The speed and easiness of structural adjustment processes (i.e. passar de empresas em sectores sensíveis que vão à falência para empresas prósperas em sectores com futuro) will depend on the flexibility of domestic factor markets (i.e. nomeadamente, a facilidade com que se despede pessoal) in facilitating factor migration from shrinking to expanding sectors. As a consequence of well-documented rigidities in the European labour markets (i.e. trabalhadores “demasiadamente” protegidos pela legislação laboral e de segurança social) – and assuming that it is impossible to remove those rigidities at least in the short term (i.e. nomeadamente, por causa da teimosia dos sindicatos que persistem em “defender o indefensável”) – intervention by the public sector may be warranted to smooth the structural changes and to lessen the associated economic and social costs (i.e. recurso a um keynesianismo de socorro).

A senhora e o cão

Há uma senhora que há mais de 14 anos passeia pelas mesmas ruas, no mesmo bairro, com o mesmo cão. De Verão e de Inverno, com frio ou com calor, com chuva ou com sol. Sempre sózinha com o mesmo cão. Há mais de 14 anos...

Vejo-a passar, alta, branca e magra, com os passos largos e decididos de sempre, passos de quem cumpre um ritual de que a vida precisa para continuar... igual. Tenho a impressão de que o tempo parou. Não me parece que tenham envelhecido, a senhora e o cão de pêlo castanho claro e olhos doces. Parecem espectros de um passado que resiste. Eremitas de uma cidade fria e vazia. Apenas uma coisa mudou: no ínicio havia uma trela. Agora, o cão segue a dona de perto, voluntariamente. Olham-se de vez em quando. Talvez com ternura. A ternura que só eles percebem, de que só eles precisam. Continuam no seu destino invariável e obrigatório, fechando o circuito do bairro. A senhora olha de vez em quando para o lado, rapidamente, com desdém, para as casas e os jardins que conhece de cór, como se fossem velhas pinturas, cheias de pó, penduradas na sala de estar que é o bairro onde se passeia há mais de 14 anos, às mesmas horas, todos os dias, com o mesmo cão. Só ela e o cão.

Quando algum deles morrer, vou sentir-lhe a falta. Não posso imaginar a senhora às voltas no bairro sem o cão. Não posso imaginar o sofrimento do cão se a dona desaparecer. Não posso imaginar o bairro sem esses peregrinos do tempo que parou e da vida que se repete como um disco riscado de música triste.

domingo, julho 16, 2006

O Cristianismo

Fiquei imensamente surpreendida ao ler este texto, sabendo que foi escrito por um padre. Este Homem já não me devia surpreender, porque cada vez que leio algo dele denoto uma enorme lucidez e abertura de espírito. Apesar de não ser religiosa, respeito e partilho muitas das coisas que este homem diz.

Desta vez, o Anselmo Borges tenta fazer uma homenagem a um amigo: José María Mardones, resumindo o que este pensava sobre a religião. Deixo-vos aqui os excertos mais interessantes:

(O texto integral está aqui)


«Vimos de um cristianismo de cristandade, com pretensões hegemónicas sobre a cultura, a sociedade e a política, que se julgou detentor exclusivo da revelação de Deus e com o monopólio da salvação: "fora da Igreja não há salvação". Nesse cristianismo, aninhava-se uma concepção objectivista da verdade, que implicava a intolerância frente ao erro e a perseguição e liquidação das pessoas sob o pretexto de erradicar doutrinas falsas. Era um cristianismo de coloração fundamentalista e integrista.

(...)

O cristianismo de cristandade, ao colocar no centro o institucional, o jurídico, o doutrinal e dogmático, marginalizou o primado do experiencial, pessoal e místico.

(...)

A desvalorização dos elementos institucionais e doutrinais deslocará o acento para o Mistério vivo, a interiorização e o sentido pessoal da vida.

(...)»

Há anúncios geniais II

Há anúncios geniais I

Clicar na imagem para aumentar

Há coisas assustadoras

sábado, julho 15, 2006

Os descobrimentos portugueses




Os portugueses acabam de descobrir as mamas. Ou assim parece, a julgar pelos anúncios, que apareceram quase ao mesmo tempo, à água das pedras com sabor a melão e à super bock. A água das pedras apresenta como slogan «melões de dar água na boca» e tem um spot televisivo centrado numa rapariga em biquini a jogar raquetes na praia; aliás, centrado no biquini, com referência aos melões. O anúncio da superbock fala de «wonderbeer» e apresenta dois copos redondos de cerveja vistos de cima, evocando o par.Nada me move contra a descoberta das mamas, nem contra o erotismo na publicidade. Aliás, o que está aqui é o contrário do erotismo. Faz-me lembrar um colega dos primeiros anos do liceu que tinha o caderno inteiramente decorado com fotos de mamas - mas só as mamas, recortadas, destacadas, sem enquadramento. Os publicitários portugueses parecem estar naquela fase em que não podem conter o riso perante qualquer alusão, mesmo que muito vaga e remota, às ditas. Podia ser uma tara de publicitários; é mais provável que se baseie nalgum estudo que diga que assim, em Portugal, se conseguem vender bebidas. Chunga, chungaria.
Retirado daqui

sexta-feira, julho 14, 2006

War as usual

Desde que me conheço (e já lá vão umas 4 décadas...), lembro-me de notícias sobre a guerra no Médio Oriente. As imagens do conflito naquela região têm-me entrado quase diariamente pelos olhos dentro. Já assisti a inúmeras declarações de paz e de guerra na sequência de incontáveis cimeiras e incidentes. Já vi diversos Presidentes de não sei quantos países "empenharem-se" na resolução do problema. Cansei-me de seguir o desenrolar dos acontecimentos. A morte, a miséria, os atentados, o terrorismo tornaram-se uma espécie de rotina a que se assiste, de longe, no extremo ocidental da Europa, com sobranceria e crescente indiferença. De vez em quando, o braseiro intensifica-se, países vizinhos como o Libano são atingidos, as primeiras páginas dos jornais enchem-se de fotografias de sangue, uma certa preocupação emerge por causa dos eventuais efeitos mundiais da "coisa" (terrorismo islâmico, falta de petróleo, ameaças de guerra de países árabes temíveis, o "Eixo do Mal" que o Sr Bush nos tenta vender, etc.). Os Estados Unidos voltam a confirmar o seu incondicional apoio ao Estado Hebreu no meio de declarações sibilinas sobre a necessidade de negociações e sobre a aceitação do Estado Palestiniano... e é tudo ou quase tudo... Depois da enésima retaliação, a situação parece acalmar-se, os jornais enchem-se de Campeonatos do Mundo e a guerra continua sem grandes novidades: "war as usual".

Maldita e complicadíssima guerra de religião, terra, petróleo e dinheiro cujas raízes se fundam provavelmente na noite dos tempos.

quinta-feira, julho 13, 2006

Os resultados dos exames nacionais saíram hoje...

Espantam-me resultados destes! Não é possível que a esmagadora maioria dos alunos sejam incapazes e que não haja professores competentes. Há aqui algo errado, seja nos conteúdos programáticos, seja nos exames, seja nos critérios de correcção... Algo tem de mudar. Não sei o quê, nem como, mas isso também não é tarefa minha.

quarta-feira, julho 12, 2006

Futebol: A minha vingança em relação à euforia do mundial

Adeus Super-Homem

Era uma vez um rapazinho que nasceu em Marselha. Os pais argelinos chegaram a França numa tarde sombria e húmida de Inverno. Aquele sítio não tinha nada a ver com os grandes espaços do Norte de África, com o cheiro a especiarias da aldeia de onde vinham, com o pó que se levantava em dias de vento do deserto.

O rapaz cresceu a desconfiar da generosidade das pessoas grandes e louras que o rodeavam. Aprendeu que se sobe na vida também à dentada. Era forte e orgulhoso. Prometeu a si mesmo que um dia saciaria a sua fome de sucesso.

Descobriu que tinha jeito para jogar à bola. Fugia da escola para jogar com os amigos no terreno pelado por trás do bairro modesto onde vivia. Começou a participar em campeonatos regionais e um dia foi descoberto pelo "olheiro" de um clube nacional. A troco de pouca coisa foi para Cannes. Conquistou a cidade, o país, a Europa e o mundo. Passou a ser uma referência de talento, força e obstinação. Fizeram dele uma espécie de paradigma do sucesso. Como estava longe o dia triste e cinzento em que os seus pais tinham desembarcado em França, provenientes de uma África que lhes continuava, apesar de tudo, colada à pele ! Também se disse que, por trás do seu ar convicto, tranquilo e simpático, se escondia um autêntico “tueur”, isto é, um predador sempre à caça de glória e de reconhecimento. Era de facto insaciável e, de forma discreta e inteligente, foi fazendo tudo para deixar indelevelmente escrito o seu nome nos livros de história do desporto e, talvez, de muito mais. O rapazinho de origem argelina tinha-se transformado num ícone, recebido por ministros e presidentes, o que não o impedia de vender automóveis e desodorizantes na televisão.

Um dia, quando pensava acabar a sua carreira em apogeu, conquistando o segundo título de campeão do mundo, transportando a sua equipa às costas até à final, depois de um início de prova desastrado, viu-se confrontado com uma daquelas situações que podem fazer do mais comum dos cidadãos um assassino temível.

[conheço um Juiz que acha que quase todos os seres humanos se podem tornar assassinos, dependendo das circunstâncias extremas que possam enfrentar]

Debaixo da pressão de um estádio imenso e eufórico, de um resultado que não atava nem desatava, de um cansaço insuportável, raivosamente consciente dos seus limites, ouvindo insultos em catadupa de um adversário, o nosso rapazinho que se tornou Estrela do Universo borrou a pintura e ferrou uma cabeçada no peito de um Italiano insidioso perante centenas de milhões de espectadores, sendo expulso do jogo. Na vertigem de um segundo, passou de herói a criminoso, de cavalheiro a vilão. Apagou-se uma auréola que estava destinada a ficar para a posteridade. O nosso quase-Super-Homem, a máquina de sucessos, tornou-se apenas homem...

A sua equipa perdeu nas grandes penalidades e a linha finíssima que divide os extremos da vida tornou-se ainda mais fina e incompreensível nesses minutos fatídicos da final do Campeonato do Mundo de Futebol.

terça-feira, julho 11, 2006


Um livro interessante àcerca da infindável adolescência dos "jovens" de 25 a 35 anos. Link

Só futebol...

Poder-se-ia pensar que é só futebol.

Mas, não !

É muito mais.

É orgulho e exaltação de uma identidade, é campo de batalha, é confronto de valores e de estilos, são os supremos interesses da unidade nacional, é geo-estratégia, é auto-estima dos Povos, é contribuição para o crescimento do PIB e para a melhoria das expectativas. Tudo isso com 11 jogadores de cada lado - gladiadores modernos, concentrando as virtudes de uma Nação, resgatando os seus defeitos - durante 90 minutos de êxtase colectiva. À falta de outras guerras, seguramente mais letais, o futebol é uma guerra (em princípio, benigna) do tempo de paz.

O futebol é cada vez menos uma "brincadeira": mobiliza chefes de estado (p/ex. link), partidos políticos, poderes financeiros e os media. O futebol é uma fonte enorme de poder porque apela a emoções muito fortes junto de amplas camadas da população. Um bocado como a religião (passe a heresia). E por trás desses impulsos pouco racionais, de uma saudável vontade de divertimento ou de uma necessidade de alienação, jogam-se grandes interesses que têm bem pouco de emocional ou ingénuo. O futebol é um terreno de articulação (e de promiscuidade clara, p/ex. link) entre os interesses “público” e privado.

É cada vez mais um elemento essencial das Ordens nacional e mundial.

Nada a fazer…

As federações nacionais de futebol e o seu areópago global (a FIFA) são centros incontornáveis de poder sobre importantes domínios das sociedades modernas. Em consequência, talvez se devesse revisitar o modo de regulação dessas instituições que não exprimem apenas interesses profissionais ou corporativos.