domingo, janeiro 22, 2006

Ridículo

TODAS AS TELEVISÕES INTERROMPERAM EM DIRECTO O DISCURSO DE UM CANDIDATO PRESIDENCIAL (MANUEL ALEGRE) PARA MOSTRAREM O DE JOSÉ SÓCRATES.

1ª OBSERVAÇÃO: A comunicação social perdeu a noção das prioridades.
2ª OBSERVAÇÃO: José Sócrates lembrou-me um puto mimado que foi contrariado e decide ocupar o tempo e a atenção de quem o venceu.

Primeira reacção aos resultados finais:

Merda.


Foi por um triz... Ou melhor dizendo, por uns ridículos e desesperantes 0,6% !!!

Para mim só houve uma coisa boa: a clara derrota de Mário Soares relativamente a Manuel Alegre. Não só para ver se o velho sai da cena política, como também para o PS mudar. Sim, porque, com isto, o PS ficou concerteza abalado (e ainda bem).

Um cidadão independente teve melhores resultados que um candidato com apoio partidário. Quer dizer qualquer coisa, não? Será que os partidos políticos ainda representam a maioria dos portugueses?

Primeira reacção aos resultados provisórios:

Merda.

Resultados das eleições...

Imagem encontrada aqui.

Venham eles!


(Espero que haja segunda volta... Embora não acredite muito)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

O "Financial Times" vota Cavaco, obviously... e manda Soares às urtigas

Extractos do jornal de hoje:

If dancing could win votes, Mário Soares, the veteran socialist who steered Portugal from dictatorship to democracy, would waltz to victory in the country's presidential election on Sunday.

At 81, the former prime minister and president is still twirling delighted women round village squares as he rallies voters with impressive energy long after his campaigning days were thought to have ended.

But Portugal is in little mood for dancing. Polls indicate a clear majority of voters, dejected by economic stagnation and political instability, prefer the austere but respected figure of Aníbal Cavaco Silva, the country's centre-right prime minister from 1985 to 1995.

Mr Cavaco Silva, 66, rose from a humble background to become a distinguished economist and crisply determined prime minister, often compared to the UK's Margaret Thatcher. Dismissed by opponents as a "technocrat", he lacks Mr Soares's common touch, often appearing awkward and aloof.

Mr Cavaco Silva's tough-minded focus on fiscal rigour and business competitiveness is finding greater favour with voters than the broader social values espoused by Mr Soares and Mr Alegre.

Peter Wise, o veterano jornalista do periódico que segue Portugal há muitos anos, parece estar de acordo com "analistas" que acham mesmo que Cavaco pode facilitar a vida a Sócrates:

Pressure from Mr Cavaco Silva to press ahead with difficult reforms, analysts argue, would make it easier for Mr Sócrates to face down criticism from the left against unpopular measures to cut the budget deficit.

E termina sentenciando:

Unless Mr Soares can achieve another spectacular comeback in a career marked by unexpected victories, he will bow out of public life as a man who, even into old age, so loved the dance of politics he would rather lose than sit out a challenge.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

A cultura é um luxo?


Há uns dias fui a uma loja de música e apercebi-me do elevado preço de um simples instrumento musical.

Um saxofone, por exemplo, nunca fica abaixo dos 700 €, coisa que me chocou verdadeiramente.

Conversando com ele, fiquei a saber que, ao contrário do que se passa noutros países, em Portugal um instrumento musical é considerado um bem de luxo e, como tal, é cobrado, na sua aquisição um imposto elevadíssimo.

Acho ridículo que se dificulte tanto a compra de objectos como estes que, muito antes de serem itens de luxo, são instrumentos de criação e reprodução musical.

Através deles apercebemo-nos de melodias tão diversas, despertam-nos sentimentos tão variados, ensinam-nos tanto… São objectos bonitos, cúmplices e de inequívoco valor cultural.

Então…

Serão mesmo objectos de luxo? (não me parece)
Imposto máximo sobre a cultura?

Brokeback Mountain

Um filme cuja chegada a Coimbra espero com grande expectativa!

Outras presidenciais...



Então não é que Chirac anunciou hoje que poderia utilizar armas nucleares contra os agressores da França... O homem anda mesmo taralhouco... depois de se ter calado enquanto a cólera explodia nas periferias urbanas, depois de ter repetido a fantochada dos votos de Ano Novo aos pequenos e grandes serventuários do Estado, depois de ter dito que o grande desígnio da política tecnológica da França era o de liderar um Google europeu...

Quem se ri de tudo isto é o pequeno/grande Sarkozy (Ministro do Interior do governo Villepin) que, de farpa em farpa, vai reforçando a sua candidatura a candidato à Presidência francesa, como representante da direita. Sarkozy é um daqueles homens com um ego incomensurável, convicto e obstinado, que sonha com o Palácio do Eliseu e que proclama esse sonho sem qualquer hesitação.

À esquerda, perfila-se a Senhora Ségolène Royal como candidata às próximas presidenciais que terão lugar em meados de 2007. È muito culta, distinta, já foi ministro e é casada com François Hollande, o (contestado) lider do Partido Socialista. Também em França, o PS está num caos. Laurent Fabius (antigo Primeiro-ministro e Ministro da Saúde, enredado num escândalo de sangue contaminado) é um dos principais opositores a Hollande. Mas, as facções internas são mais do que muitas, lideradas por personagens como Henri Emmanuelli ou Dominique Strauss-Kahn. Ségolène Royal pode beneficiar de uma certa dinâmica mundial a favor das mulheres-Presidente (casos recentes do Chile, Libéria, Alemanha e Finlândia).

E depois, há o carismático Senhor Le Pen, mais populista e xenófobo do que nunca, que vai lentamente capitalizando a raiva e as frustrações do "peuple d'en bas" e que já provocou alguns calafrios nas últimas presidenciais de 2002 ao apresentar-se como uma alternativa "séria" a Chirac. Aliás, se teve algum mérito, o mandato de Chirac teve o de ajudar a travar a progressão da extrema-direita.

Como se pode ver, também em França, as presidenciais são coloridas e os franceses têm amplas razões de queixa da sua caríssima "classe política". "À suivre".

Deste despeço-me já.

Sempre mais tarde...

Tendências gerais ilustradas por dados demográficos franceses recentemente publicados (estimativas para 2005):
  • A idade média das mulheres no momento de terem o primeiro filho era de 30 anos (1994: 28 anos).
  • Idade média do primeiro casamento: homens, 31 anos (1994: 29); mulheres, 29 anos (1994: 27).
  • Esperança de vida à nascença: homens, 77 anos (1994: 74); mulheres, 84 anos (1994: 82).
Fonte: INSEE- Institut National de la Statistique et des Études Économiques (França).

Feel-bad factor

Para além da fragmentação da esquerda, o "problema" é esse imenso centro (híbrido e multicolor) que salta da esquerda para a direita (e vice-versa) como um catavento. Na verdade, quem ganhou as últimas eleições legislativas não foi a esquerda, não foi o PS: foi o descontentamento! E vai ser de novo o descontentamento a ganhar as presidenciais... Portanto, Soares não pode ganhar!

Change. It Feels Good

A GAP, inteligentemente, lançou esta forma de publicidade, divertida, original e interactiva:


"Change you shirt.
Change your pants.
Change your look.
Change you mind.
Change one thing.
It could change everything."



Cliquem na imagem, e experimentem mudar;)

Novo link

Mais uma melga amiga entra na lista deste blog...

Desta vez, trata-se do recém-criado blog do Núcleo de Estudantes da minha Faculdade (Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra) .

Porque foi feito por um tipo 5 estrelas.
Porque o visitarei muito regularmente.
Porque há conteúdos que também interessam a quem não pertence à FPCEUC.

Aconselho

Descobri esta reflexão neste blog. Não deixem de ver!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Que seria de nós, sem as eleições presidenciais ?

Amor, com amor se paga

"Não declarei, nem declaro, qualquer apoio a Cavaco Silva. Mas também não o ataquei, nem ataco. Aliás Cavaco Silva será o primeiro a compreender que se tenha esta posição porque também não declarou qualquer apoio em Fevereiro de 2005."

Santana Lopes, in DN

terça-feira, janeiro 17, 2006

Uma mulher fascinante

O jogo do stress

Nos tempos que correm, é cada vez mais usual a apologia e (o que é pior) a prática da cultura do stress. Muitas organizações estimulam a pressão sobre o pessoal, alegadamente, para manter a concentração na performance e na prossecução dos supremos objectivos institucionais. A competição é estimulada das formas mais diversas e exuberantes : os prémios são amplamente publicados ("emulação capitalista"), as promoções festejadas com folclore, o sucesso emoldurado em "histórias felizes", sucessivos planos de reestruturação são anunciados (mesmo que as empresas continuem a exibir resultados invejáveis), faz-se constar que certo número de postos de trabalho poderá ser suprimido e que apenas os "melhores" poderão continuar, aumenta-se a componente variável das remunerações, isto é, a que depende da "produtividade" e que, quase sempre, não conta para efeitos de descontos para a segurança social (e cada um depois que se governe), contrata-se pessoal qualificado com contratos a prazo a troco de um salário algo acima da média, etc.

Trata-se muitas vezes de stress artificial, construido, programado, não determinado por ameaças exteriores à empresa ou pela vontade de aproveitar novas oportunidades.

É stress ex-nihilo.

Por exemplo, muda-se o ambiente informático, quase obrigatoriamente, todos os dois anos, mesmo que o existente funcione bem e o novo tenha uma superioridade duvidosa e custe um horror de dinheiro. Actualiza-se os procedimentos, sempre por putativas razões de eficiência, apesar da instabilidade e das disfunções que isso possa provocar durante períodos mais ou menos longos. Redistribuem-se as pessoas por unidades velhas ou novas, obrigando-as a adaptar-se, a aprender (também o que é desnecessário), a lutar por um novo "lugar ao sol" que, de qualquer modo, se sabe à partida, durará bem pouco.

Emprego para a vida e horário da 9 às 5? That's over... Finito... Fini...

A primeira coisa que um novo chefe deve fazer é mudar, não importa o quê. Disso depende a constatação (e a "utilidade") da sua chegada... Tive um patrão que, com um sorriso impiedoso nos lábios, costumava dizer: "Os quadros das empresas são como os violinos: as cordas devem estar sempre bem esticadas - senão, não vibram como deve ser!". Sacana do caraças.

E os dogmas ideológicos que sustentam esse frenesim da mudança pela mudança são: a contínua ameaça da "globalização" (que asfixiou as conquistas do pós-guerra na Europa), a "flexibilidade", a "capacidade de adaptação" (ou "versatilidade"), a crescente "velocidade para responder aos desafios competitivos", etc, etc. Acabaram a paz, a tranquilidade, a descontracção, a preguiça, a solidariedade. Os indíviduos encontram-se cada vez mais atomizados, partes de contratos individuais com entidades muito mais poderosas e, muitas vezes, opacas.

Todos tensos como as cordas de um violino, até ao dia em que as cordas se partem de tanta tensão e o violino deixa de tocar e a vida passou depressa, depressa demais. E há investigadores que tentam provar (pagos por quem?) que o stress faz bem, que a sua quebra pode provocar um perigoso esmorecimento dos sistemas imunitários... Que vão àquele sítio!

E depois, há todos os imensos milhões de seres humanos (quase todos) que vivem como se não houvesse alternativa, que não podem senão jogar o jogo do stress (que para eles se torna, infelizmente, bem real)... por uma questão de SOBREVIVËNCIA. O jogo da bio-economia e da bio-política, que se infiltra nos nervos, nos raciocínios e nas emoções. Divinização do Homo Oeconomicus. Fatalidades insalúbres. Tomar o que parece pelo que é.

O génio e o resto


A génese do Requiem de Mozart, uma das obras mais fantásticas da música clássica, para côro e orquestra, foi rodeada de circunstâncias algo misteriosas e rocambolescas que demonstram como o génio, a cupidez e a avareza se podem misturar.

Em 1791, o Conde von Walsegg Stuppach encomendou um Requiem (a Mozart) para homenagear a memória de sua esposa que tinha falecido em Fevereiro desse ano. A encomenda, porém, foi feita por interposta pessoa e em anonimato, porque o Conde pretendia apropriar-se da obra e fazê-la passar por sua. Na verdade, não seria a primeira vez que plagiava peças de música. Tinha a mania da composição, a ambição de ser um grande músico, mas não era absolutamente dotado para o efeito. Então, a sua "composição" limitava-se a apôr o nome em trabalho alheio. Mozart aceitou o "desafio", essencialmente, porque lhe pagavam 50 ducados adiantados (metade do preço total) e as suas dificuldades financeiras eram mais do que muitas, como acontecia com frequência. Deve acrescentar-se que a vocação de Mozart para escrever peças religiosas não era evidente, até porque eram conhecidas as suas tendências maçónicas.

Mozart faleceu em 5 de Dezembro de 1791... sem terminar a obra. De facto, faltava cerca de uma terça parte e, portanto, a viúva não podia entregá-la ao “cliente” pelo dinheiro combinado. Assim, pediu a Franz Süssmayr que acabasse o trabalho. Este compositor tentou assegurar a homogeneidade do conjunto, inspirando-se também em esboços deixados por Mozart. No entanto, nota-se ainda um certo desequílibrio entre vários trechos. A viúva pôde finalmente receber os 50 ducados que faltavam do intermediário do Conde e este apresentou o “seu” Requiem ao público no dia 14 de Dezembro de 1793.

Celebram-se dentro de poucos dias os 250 anos do nascimento de Mozart (27 de Janeiro 1756).

Pink Martini


(Clicar na imagem)

Requisitei um CD deste grupo (Sympathique) e estou a adorar. Recomendo vivamente.


Amado mio
Love me forever
And let forever begin tonight
Amado mio
When we're together
I'm in a dream world of sweet delight

Many times I've whispered
"Amado mio"
It was just a phrase
That I heard in plays
I was acting a part
But now when I whisper
"Amado mio"
Can't you tell I care
By the feeling there
'Cause it comes from my heart

I want you ever
I love my darling
Wanting to hold you
And holf you tight
Amado mio
Love me forever
And let forever begin tonight

Amado Mio, Pink Martini

segunda-feira, janeiro 16, 2006

A Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra


Um edifício lindíssimo, um espaço muito agradável.... Uma faculdade onde costumava ser um convento. O local de convívio é um privilégio para os alunos, visto que se trata dos claustros, com azulejos antigos, muito bonitos, imenso sol, etc.
O ambiente é óptimo, e nele convivem imensas pessoas, na realidade, mais do que devia ser, pois o edifício é demasiado pequeno para tanta gente.
A reprografia é um cubículo minúsculo onde, para se fotocopiar um B.I. são precisos, no mínimo, 10 minutos, tal é a confusão de gente a tentar conseguir o que quer num espaço tão pequeno e a fila descomunal que se cria, mal aparecem 5 pessoas.
A biblioteca não oferece espaço suficiente para uma percentagem mínima de alunos aí poder estudar, nem existe um espaço alternativo para o fazer.
As casas de banho e o bar têm excelentes condições, mas nos intervalos, estes espaços são invadidos por filas de gente.
Não há salas em número e tamanho suficientes para garantir o decurso mais adequado das aulas práticas, obrigando professores e alunos a uma exigente "ginástica" no que diz respeito a horários para garantir que não há mais de 35/40 alunos por sala, pois se esse número for superior, é quase impossível dar ou assistir à aula.
Por fim, como se trata de um antigo convento, faz um frio impressionante durante o inverno.
Há anos que se fala na construção de um novo edifício para a Faculdade de Psicologia, supostamente no Pólo II da Universidade de Coimbra, mas a verdade é que nada se fez ainda... Correm rumores de que as propinas dos actuais estudantes nesse pólo vão/estão a ser canalizadas para isso, mas ainda não há nada concretizado.
No meio disto tudo, este ano foi criado um novo curso: Serviço Social, aumentando o número de estudantes naquele espaço.
Não é um bocado inapropriada o aumento do número de alunos numa Faculdade nestas condições? Acho bem a criação desse curso no ensino superior público, mas não nestas condições.
Porém, a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra é das mais prestigiadas do país.


Questão:

Como é que se entende isto tudo?

domingo, janeiro 15, 2006

A (falta de) guerra

Fui ver o filme "Jarhead" do realisador de origem portuguesa Sam Mendes, o mesmo de "American Beauty". Um filme àcerca do non-sense da guerra e do non-sense da sua falta... para quem foi preparado para a combater. Uma visão justamente impiedosa sobre a primeira guerra do Iraque, a do Bush-pai. As cumplicidades e os códigos específicos que se criam entre militares perdidos na vida e na (falta de) guerra. Um filme interessante que nos deixa com um misto de surpresa, riso amarelo e amargura.

http://www.jarheadmovie.com/welcometothesuck.html

Não gosto de Domingos...

...passam demasiado rápido!


PPP

Problemas orçamentais e a rendição à (axiomática) eficiência da iniciativa privada e ao chamado "government failure", colocaram na moda as chamadas parcerias público-privado (PPP) como mecanismo para realizar, financiar e gerir projectos que, tradicionalmente, eram executados pelo sector público. A moda não é só portuguesa: espalhou-se por todo o mundo, com maior ou menor contágio, para gáudio de consultores de todo o tipo. A lógica consiste em transferir para o "privado" certos riscos (e benefícios) para obter uma infraestrutura e um serviço de superior qualidade. Estamos a falar de estradas, hospitais, escolas, prisões, abastecimento de àgua ou de energia, etc. O objectivo (mágico) consistiria em compatibilizar o interesse público com o lucro privado. Não se pode acusar o parceiro privado de pretender lucros da participação nesses projectos, porque essa é a sua "razão de ser", a sua motivação. Mas, o lucro deve ser a contrapartida de uma tomada de riscos proporcional. Maiores riscos deverão traduzir-se numa expectativa de taxa de lucro mais elevada. Ora, aqui é que está o "busílis", porque, nas negociações com o parceiro público, o parceiro privado consegue, frequentemente, uma tal protecção contra os riscos que a taxa de lucro se torna quase garantida. Isto é: o lucro descaracteriza-se em renda (para não lhe chamar simplesmente subsídio).

A chave da pertinência e do sucesso das PPP é a afectação e gestão dos riscos entre os parceiros. Estou a falar de riscos típicos de projecto, como por exemplo, os riscos de concepção, de construção, de tráfego ou de mercado, de performance do operador, de variação de preços, de "force majeure", etc. O sector público deve ter capacidade negocial para obter um binómio equilibrado "riscos-benefícios" e para evitar a concessão ao sector privado de privilégios indevidos. A regra clássica, de natureza geral, que se encontra em todos os compêndios sobre a matéria é a seguinte: um determinado risco deve ser tomado pela parte que se encontra melhor colocada para gerir e mitigar esse mesmo risco. É óbvio que a aplicação concreta dessa regra é tudo menos fácil, dada a complexidade e aleatoriedade dos riscos, bem como a natural resistência das partes a correr riscos... a não ser que obtenham compensações generosas. Por exemplo: o construtor de uma auto-estrada tentará encontrar todos os alibis, no seio dos contratos de construção e de concessão, para fazer o Estado pagar a derrapagem dos custos ou o atraso na conclusão da obra; o operador, suposto tomar um risco de mercado significativo, tentará obter do Estado o compromisso de pagar compensações caso o tráfego seja inferior às previsões de uma pequena %.

Uma questão a montante é a de determinar o porquê do recurso a uma PPP, em vez de executar o projecto segundo o mecanismo tradicional de empreitada exclusivamente pública. Alguns países, como o Reino Unido e a Holanda, desenvolveram metodologias sofisticadas para, caso a caso, avaliar as vantagens e desvantagens de cada uma das fórmulas. Trata-se do chamado "Public Sector Comparator", quer dizer, a PPP é comparada à alternativa "pública", designadamente, em termos económicos e financeiros. Uma decisão é tomada à luz dos resultados desse exercício de avaliação e não de acordo com modas ou com dogmas.

Souto Moura


"Não me perguntem porque é que ainda aqui estou, depois de tanta trapalhada."

sábado, janeiro 14, 2006

"Podem matar uma, duas ou até três rosas, mas jamais poderão deter a Primavera"

Pablo Neruda

Ooooh

Qual foi a surpresa desta vez, professor?
Foto retirada d' A Ilha do Dia Antes

SALDOS

Antes de mais nada, devo precisar que detesto fazer compras, principalmente, para mim próprio. Acho uma perda de tempo, não tenho pachorra para passar um tempo infinito a fazer escolhas súbtis, entre côres e feitios. Quando verdadeiramente preciso, demoro pouco a decidir-me e um dos critérios da minha satisfação é o tempo que gastei no exercício. O outro, importantíssimo, é o preço. Não me importo que me chamem semítico... porque não é verdade. E já agora, estou-me positivamente nas tintas para as marcas. Conta apenas a relação intrínseca qualidade-preço. Também aprecio o ambiente da loja, o bom gosto da decoração, e a gentileza dos empregados e o facto de não se intrometerem, de não forçarem o que quer que seja. Abomino vendilhões ou vendilhonas que andam à minha volta como abútres e que, ainda por cima, acham que têm graça, que são competentes, muito comerciais e simpáticos. Quero ser livre de olhar e de tocar a mercadoria que me apetece e... basta. Não quero que me digam que isto ou aquilo é muito mau e não se deve comprar, porque, então, não compreendo o que diabo é que aquela coisa está ali a fazer. Também não suporto ignorância primária em relação ao ofício. Com as moças e os moços que se encontram no comércio a título precário, por vezes, só umas semanas ou nem isso, para fazer uns trocos, é frequente receber respostas caricatas às mais triviais questões. Já me aconteceu ter de inserir eu próprio o cartão de crédito na máquina porque a menina não sabia como funcionava...

Tudo isto vem a propósito da experiência traumática que vivi hoje na abertura dos saldos numa cidade próxima do sítio onde vivo. As ruas estavam apinhadas de gente, as lojas a abarrotar. Notava-se um empenhamento militante das pessoas em encontrar a pechincha mais incrível. Digamos, que se respirava um certo stress, como se se tratasse de uma competição aguerrida para chegar ao melhor negócio. Inicialmente, disse a mim mesmo que me estava nas tintas, que não iria entrar naquela vertigem, que seria um simples observador da gula alheia, talvez um presunçoso mirone dos mais básicos instintos dos seres humanos enquanto "consumidores racionais". Porém, ao passar por uma loja de roupa que tem, normalmente, coisas que me agradam, não resisti e entrei. Fui contagiado. Peguei em 2 camisas e dirigi-me à caixa. Estava na fila, olhando em torno, e vi um pullover a alguns metros dali. Saí da fila e fui ver o dito pullover. Apoiei as camisas num pequeno balcão que ali havia e, eis senão quando, um indíviduo com aspecto bronco agarra nas camisas e começa a investigá-las, abrindo-lhes os botões, como se quisesse ir a uma cabina experimentá-las. Eu disse que aquelas camisas eram minhas e apontei-lhe o sítio da loja onde talvez pudesse encontrar outras parecidas. Ele perguntou-me se já as tinha pago. Como não era o caso, não podiam ser minhas. Olhou-me com insolência e desprezo e continuou, imperturbável, a observar as camisas em detalhe. Disse-lhe que ficasse com a merda das camisas e, já agora, que também podia analisar com a mesma minúcia a treta do pullover que me fez desviar a atenção das camisas durante a fracção de segundo que foi suficiente para as perder (porque não estava disposto a armar escândalo numa loja cheia de gente sob o efeito de uma estranha droga, ainda por cima, não estando convicto, desde o princípio, da participação naquela orgia). O tipo agradeceu com a maior naturalidade do mundo, sem sequer desviar os olhos das "minhas" camisas.

E assim se terminou a minha aventura nos saldos. Fiquei furioso durante uns minutos (poucos). Mais comigo próprio do que com o troglodita que me roubou as camisas. Que não eram muito bonitas, mas que eram uma pechincha do caraças. E ando mesmo a precisar de camisas... A seguir, fui a uma loja de discos e comprei (sem ser em saldo) um CD com o Requiem de Mozart, interpretado pela Orquestra Filarmónica de Viena e dirigido pelo maestro Karl Böhm. É o que estou a ouvir agora, enquanto escrevo este insignificante desabafo.

The Constant Gardener



Um filme sobre África, sobre o que se passa lá, sobre o que fazemos por ela e com ela.

Um filme que comove, choca, apaixona, confunde e fascina.

Um diplomata Inglês aceita uma missão no Quénia e leva a mulher consigo, lá, ela encontra um facto chocante do qual as vítimas não têm consciência. Todos os que podem mudá-lo não o fazem, ou por conveniência, ou por acomodação, ou por mera crueldade. Pelo contrário, silenciam todas as vozes que o denunciam.

Aconselho vivamente!

Um bom filme, com uma boa fotografia, com um bom elenco e um excelente argumento.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Ligações perigosas

Os acontecimentos de hoje àcerca das escutas telefónicas de várias dezenas de titulares de cargos políticos, no mais alto nível da Administração, são indubitavelmente preocupantes e revelam a dimensão da Caixa de Pandora em que se transformou o caso Casa Pia. Por trás desse processo, estão a levantar-se muitos demónios que mostram até que ponto a classe dirigente portuguesa está poluída de má-fé, de perseguição, de vingança, de métodos baixos para saldar novas ou velhas contas. E tudo, essencialmente, no interior do círculo estreito em que se movimentam PS e PSD. Estou seguro de que a verdade inteira nunca será conhecida, de que se continuará a urdir todo o tipo de armadilhas e ecrãs para esconder responsabilidades, de que se utilizará o caso para fazer intermináveis chantagens, para se demonizar a Justiça e para vender comunicação social pouco escrupulosa. O sofrimento das vítimas e os imperativos de verdade e de justiça de uma sociedade que se diz de Direito parecem quase nada em confronto com os interesses que se degladiam em contexto tão viscoso.

Outro aspecto que emerge de tudo isto é, evidentemente, a legitimidade da Justiça e da Investigação Criminal para agir com base em métodos menos ortodoxos. Que fins justificam meios tão audaciosos como as escutas telefónicas do Presidente da Républica ou do Primeiro-Ministro? De onde vem o poder do Procurador-geral da Républica e da investigação para levar tão longe as suas actividades, ao ponto de devassar a privacidade de figuras eminentes do poder eleito? Esse é o debate extremamente pertinente àcerca do alcance da independência (em relação aos orgãos democraticamente eleitos) do poder judicial e do cabimento de um controlo supra-democrático da democracia.

Não se deve pensar que estes são problemas únicos de Portugal. Ainda há pouco tempo, um escândalo idêntico (escutas telefónicas) rebentou em Itália no âmbito da investigação das ligações perigosas do Governador do Banco de Itália (António Fazio), que levou à sua demissão. E a discussão àcerca dos critérios de escolha dos Juizes, de vez em quando, aquece em França.