quinta-feira, dezembro 29, 2005

Descubra as diferenças...III




E a isto, junto a seguinte "Declaração de não-voto" escrita pela Encandescente no blog Erotismo na Cidade, que eu subscrevo inteiramente:


O Cavaco nao me aquece
Arrefece-me
O Cavaco nao me estimula
Adormece-me
O Cavaco é mais teso
Que a minha carteira
O Cavaco seca a imaginação
De qualquer um
O Cavaco nem merece um pim
Pro Cavaco viro o cu
E faço PUM.

2006

Àparte dos desejos habituais que todos pedimos e que, ou são obviamente realizáveis ou então completamente impossíveis, acho que não há mais nada a desejar...
Apenas os mesmos clichés de sempre: saúde, paz, dinheiro, amor, felicidade, sucesso, etc...
Mas, apesar de já saber que é sempre assim, começo cada novo ano com um espírito renovado e optimista, acreditando que vai mudar o que eu quero que mude. No fundo é o que acontece, paulatinamente, de ano para ano, e não repentinamente como desejaríamos... A verdade é que vamos mudando um bocadinho, construíndo-nos à medida que o tempo passa com mais firmeza e certeza. Nada muda em termos práticos, mas fica-nos a sensação que algo cessa para a chegada de novidades.
Por agora, chega da velha "filosofia barata" que tanto detesto e desejo a todos, não um bom ano de 2006, mas sim uma boa passagem de ano.
HAVE FUN :)

ATÉ PARA O ANO...

quarta-feira, dezembro 28, 2005

ESPINOZA ou a razão como instrumento de felicidade

Baruch d'Espinoza viveu na Holanda entre 1632 e 1677. Pertencia à comunidade judaica de Amesterdão de origem portuguesa, que foi criada após a expulsão dos judeus de Portugal em 1496. Foi excomungado em 1656 pela Sinagoga e foi para Haia, onde se dedicava, também, ao polimento de vidros ópticos que eram muito apreciados em toda a Europa. A sua principal obra foi "Ética".

A filosofia de Espinoza conduz à sabedoria que dá alegria e felicidade através do conhecimento racional dos afectos, sem necessidade de um Deus transcendente (não é que Deus não exista em Espinoza, mas trata-se de um Deus-Natureza, infinito, não de um Deus pessoal). Depois de ter constatado como os fins triviais da vida são decepcionantes (pela sua inconsistência, fragilidade e relatividade em relação à nossa afectividade e à nossa subjectividade), Espinoza procurou qualquer coisa que fosse um "bem verdadeiro", isto é, um bem, ao mesmo tempo, sólido e extremo, qualquer coisa cuja descoberta e posse provoquem uma alegria permanente e soberana.

Espinoza diferencia o Desejo e as paixões. O Desejo, isto é, o desejo de alegria e de felicidade, é a essência da totalidade da vida afectiva. A paixão é apenas uma parte dessa vida afectiva. A paixão não é definida pelo afecto em geral, mas apenas pelo afecto passivo. Nós «agimos» quando a nossa obra se explica por nós mesmos e resulta apenas da nossa natureza. Pelo contrário, somos «passivos» quando a nossa obra resulta principalmente de causas exteriores a nós mesmos e à nossa essência. A afectividade não é um mal: o que se deve combater não é a afectividade (dado que todo o sentimento de crescimento de força é essencial e bom), mas apenas a afectividade passiva (dado que esta gera uma tristeza que é um sentimento de empobrecimento e de destruição).

Uma vez bem identificado o domínio e a essência da paixão como afecto passivo, envolvendo ideias inadequadas, não pertinentes, parciais e falsas, pode-se designar Servidão a situação de um indivíduo vivendo principalmente segundo as paixões: agindo por motivos e causas que não provêm dele próprio, de facto, o individuo é dependente e, portanto, escravo das suas paixões.

Por natureza, os homens são de tal modo constituídos que sentem comiseração pelos infelizes, invejam os felizes e odeiam estes últimos tanto mais quanto maior for o seu amor por um objecto que imaginam estar na posse deles. Aqui, não existe nenhum pecado, nenhum vício da natureza, mas apenas um encadeamento de motivações devido ao primado atribuído à imaginação, ao pensamento ilusório.

Referência: "Spinoza" de Robert Misrahi, Éditions Médicis-Entrelacs, Setembro 2005

terça-feira, dezembro 27, 2005

A solidariedade do livre-cambismo

Concluiu-se recentemente mais uma ronda de negociações sobre comércio internacional no âmbito da OMC (Organização Mundial de Comércio), organismo multilateral que sucedeu ao GATT (Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio). Esta ronda, iniciou-se em Doha, no Qatar, em 2001 e seguiu-se à chamada Uruguay Round (1986-94). Como vai sendo habitual, as negociações prolongaram-se por vários anos e meteram em confronto, essencialmente, os interesses dos países menos desenvolvidos (liderados pelo Brasil) com os dos países industrializados. Mas, os atritos entre os Estados Unidos e a Europa também fizeram correr muita tinta. Os temas de debate vão-se repetindo, de ronda em ronda: subsídios à agricultura dos países ricos, subsídios às exportações, redução das tarifas sobre o comércio de produtos industriais, liberalização dos serviços e das transacções envolvendo propriedade intelectual, etc. O que continua a impressionar-me é a hipocrisía e a duplicidade dos representantes dos países ricos. De facto, um discurso apoteótico do livre-câmbio e da solidariedade com os países pobres contrasta com práticas altamente proteccionistas dos próprios mercados e uma defesa intransigente das quotas de exportação dos países industrializados. A subordinação a interesses poderosos, cristalizados em vários sectores da economia desses países, é óbvia e, de certa maneira, inevitável.

O crescimento dos países pobres implica, também, a industrialização com base nos factores de competitividade de que esses países inicialmente dispôem, ou seja, mão-de-obra numerosa e pouco qualificada, baixos salários (directos e indirectos), longas jornadas de trabalho, recursos naturais abundantes, normas de protecção ambiental inexistentes ou menos rigorosas do que nos países centrais. A partir de uma certa escala, essa industrialização orienta-se para os mercados externos (casos da Coreia nos anos 60/70 e da China a partir dos anos 80/90). Os sectores ditos convencionais dos países mais ricos, naturalmente, sofrem com essa concorrência. Resistir nos mesmos sectores e/ou produtos significa adoptar medidas proteccionistas, baixar salários reais e degradar as condições de trabalho e de protecção social. No limite, poder-se-ia criar uma espécie de economia dual com um sector moderno de altos salários e de elevadas qualificações e um sector tradicional com baixos salários e desemprego latente. Mas, a médio/longo prazo essa situação não seria sustentável porque a concorrência gera a perequação das condições de produção.

A alternativa, a longo prazo, consiste em ajustar o padrão de especialização das economias mais desenvolvidas, apostando em sectores ou actividades menos expostos aos factores de concorrência dos países mais pobres: tecnologia, R&D, actividades intensivas em capital e em conhecimento, produção em pequenas séries com elevado valor acrescentado, serviços de vanguarda, investimento directo nos países mais pobres gerador de dividendos e royalties. Em resumo, trata-se de continuar a subir na cadeia de criação de valor.

Este discurso aparentemente ortodoxo conduz-nos, todavia, a vários problemas. Primeiro, os problemas relacionados com a gestão das transições, a dos países pobres e a dos países ricos. No primeiro caso, como compatibilizar industrialização e crescimento económico com protecção dos direitos mais elementares dos trabalhadores, com a defesa do ambiente, com uma distribuição mais equitativa da riqueza? Quanto tempo dura a transição, ou seja, quanto tempo é necessário para se passar de um "sweat system" (veja-se a situação miserável de muitos trabalhadores na China ou na India) a uma situação mais avançada de desenvolvimento social e económico? Que nova especialização desses países é compatível com o desenvolvimento e que novas ameaças daí resultarão para os países centrais? A Coreia passou dos têxteis e da química de base aos bens de elevada tecnologia no espaço de uma geração... Esse país começou a comprar TGVs à Alstom e agora exporta TGVs com a tecnologia absorvida da Alstom. A India já começa a competir (por enquanto, principalmente, através de subcontratação) na àrea do software... A China impõe transferência de tecnologia e de fábricas de montagem de aviões para comprar Airbus...

Depois, a transição nos países ricos. O padrão de especialização muda-se a médio/longo prazo. Mas, como dizia Keynes, a longo prazo estamos todos mortos. Que fazer dos operários têxteis que vão (já) para o desemprego? A requalificação leva tempo e é necessário realizar novos investmentos que necessitem das novas competências. A formação profissional, os subsídios de desemprego e as reformas anticipadas não são gratuitos para a colectividade. Engenheiros de novas tecnologias não brotam de geração espontânea. Empresários dinâmicos que percebam que o futuro passa por outro lado não são como os cogumelos. Que fazer de regiões de mono-produção atingidas pela concorrência dos produtos asiáticos ou latino-americanos? Estas preocupações conduzem à defesa das chamadas cláusulas de salvaguarda, isto é, de um proteccionismo, em princípio, temporário. Mas, quanto temporário? E com que eficácia?

Depois ainda, o problema da permanente descoberta de novas fronteiras para a expansão do capitalismo "central" compativel com o desenvolvimento do capitalismo (cada vez menos) "periférico". Tendencialmente, o capitalismo "central", enquanto modelo global de criação e de distribuição de riqueza, torna-se vítima do seu proprio sucesso. Quando os países menos desenvolvidos subirem na escala do valor e da inovação, concorrendo com os países de desenvolvimento mais antigo em actividades cada vez mais sofisticadas, o que restará para justificar a superioridade destes últimos países? Resposta: o livre mercado fará com que todos os países sejam, mais ou menos, igualmente ricos ou igualmente pobres. Ou melhor: os países actualmente ricos talvez tenham de ser algo mais pobres e os países actualmente pobres talvez venham a ser mais ricos. Ou melhor ainda: tratar-se-à, de facto, de uma causalidade: os países actualmente ricos talvez tenham de ser mais pobres para que os países actualmente pobres passem a ser mais ricos... Esta será uma conclusão justa de uma globalização inspirada pelo livre comércio e pela lógica das vantagens comparativas. Justa, porém, não significa facilmente aceitável ou indolor para os cidadãos (ainda) privilegiados dos países ricos do centro. E é precisamente por essa razão que existe tanta hipocrisia entre o discurso e a prática dos representantes dos países industrializados na OMC. E é também por essa razão que os resultados dos sucessivos "rounds" de negociações são cada vez mais magros, ao ponto de algumas pessoas temerem a falência da própria OMC, como organismo de concertação multilateral, e o regresso ao bilateralismo e, no fim de contas, ao proteccionismo...

Modéstia à parte


Este blog está citado no "2005 em Blogs", no mês de Dezembro, nomeadamente a análise aqui feita sobre o debate entre Cavaco e Soares.


Permitam-me o orgulho e a imodéstia;)

2005 em Imagens

Imagens do ano, com citações de blogues. Aconselho vivamente.

Incêndio florestal em redor de Coimbra, em Agosto

(Para vistar, cliquem na imagem ou aqui)

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Ontologia do tempo presente

És o que aparentas ter.

LumpenCoimbra

Os Portugueses aprenderam rapidamente a consumir à moda europeia. Ele é marcas de topo de gama, centros comerciais, shoppings, factory outlets, hipermercados, etc. etc.. Há cidades de província em Portugal com lojas mais sofisticadas do que o que se pode encontrar em grandes cidades do centro da Europa. Há uns meses, passei por Vila Real e avistei um mega edíficio ao longe que, presumi, fosse um teatro, um pavilhão gimno-desportivo, uma sala de exposições… Qual quê! Era o Dolce Vita de Vila Real. O próprio nome (Dolce Vita) diz (quase) tudo. Lá dentro, encontrei pessoas com aspecto rural que se passeavam deslumbrados, que comiam nos fast-food, que entravam na Massimo Dutti ou Sphera extasiados, descobrindo uma nova "dignidade".

Dizia eu que os Portugueses aprenderam rapidamente a consumir de forma cara e requintada, adquiriram uma familiaridade surpreendente com modelos de consumo e estéreotipos normalmente associados a níveis superiores de rendimento e de "cultura". E isso não tem mal nenhum. Afinal, tem de se começar por algum lado... Agora, o problema é a sustentabilidade desses hábitos, dado o atraso do modo de produção e a fragilidade dos rendimentos que sustentam o consumo. Mas, esse é um outro debate que nos conduz, talvez, ao cerne do modelo de crescimento da economia portuguesa nos últimos anos, baseado em endividamento, subsídios, expedientes, importações e baixos salários.

De facto, queria simplesmente falar do comércio de Coimbra e do destino da Baixa. (Mas, como se sabe, a conversa é como os cerejas…) Primeiro, foi o Shopping Coimbra, depois os Retail Park e o Dolce Vita e brevemente será o Forum. As pessoas perguntam como se justificam todos estes investimentos numa cidade com uma indústria incipiente e moribunda, com uma dependência quase absoluta relativamente a um sector terciário convencional e pouco eficiente, com um poder de compra médio que, em princípio, não cresce ao mesmo rtimo da oferta. As respostas para este aparente paradoxo são variadas, incluindo a atracção de novas clientelas (pessoas residentes que mudam de padrão de consumo, pessoas de fora de Coimbra que afluem à cidade atraídas pelas novas catedrais do consumo) e, sobretudo, a decadência inexorável do chamado pequeno comércio tradicional. Ora esse é o comércio que se concentra na Baixa. Passeando por ali nesta quadra natalícia, pude verificar o tipo de consumidores e de mercadorias que caracterizam esse comércio. Há uma mistura "harmoniosa" de pequenas lojas de arquitectura degradada com produtos a baixo preço e de qualidade duvidosa, com ciganos barulhentos e coloridos que, de facto, atraíam a maior parte dos passantes, gente modesta, seguramente da periferia de Coimbra, que, de passagem, entre uma urgência e outra, arranjavam tempo e (pouco) dinheiro para inventar alguma prenda de Natal.

Esse comércio está condenado por algumas boas razões (os consumidores vão tendo mais poder de compra e aumentando as suas exigências de qualidade e sofisticação) e outras más razões (os pequenos comerciantes não conseguem reinventar a sua actividade e adaptar-se aos novos tempos, as autoridades não tomam iniciativas no sentido de encorajar os comerciantes e os proprietários dos imóveis a modernizar-se). Se nada for feito, digamos, dentro de 10 anos, a Baixa de Coimbra será uma mancha urbana sempre mais degradada e com frequência cada vez mais problemática.

O que se pode fazer para evitar essa tendência ? Temo que os novos espaços comerciais sejam o futuro do grande comércio, do comércio de massas. A Baixa não pode lutar com sucesso nesse mesmo terreno. Na Baixa, haverá lugar para um comércio alternativo, de pequenos volumes e de clientelas mais ou menos "marginais", por exemplo, um comércio de artesanato, de productos étnicos, de antiguidades. A exemplo do que se passa nos centros históricos renovados de outras cidades europeias, a Baixa também poderá ser um espaço de actividades culturais, sociais e lúdicas, incluindo galerias, salas de exposição, cafés-concerto, pubs, restaurantes alternativos, pequenos teatros. A Baixa deve também ser repovoada, isto é, a habitação também tem uma função a desempenhar nesse processo de renascimento, de refundação da vida social dessa àrea histórica da cidade. Obviamente, tudo isso, implica uma mobilização de recursos, públicos e privados, bem como muita vontade, sensibilidade e cultura por parte dos agentes da renovação urbana necessária. Será que todas essas pré-condições existem em Coimbra ou toda esta lenga-lenga não passa de uma utopia irrealizável e a Baixa está condenada a transformar-se num feio testemunho de uma lumpenCoimbra de outros tempos.

domingo, dezembro 25, 2005

Danny Elfman


Conforme um pedido de um comentário deixado dois posts atrás, fiz uma pesquisa acerca de Danny Elfman, o responsável pelas músicas (muito boas) de “Corpse Bride”.

De facto, vale a pena perder um bocado a olhar para o impressionante historial deste homem, que começou em 1985 e, desde então, não deixou passar um único ano sem, pelo menos, uma banda sonora. Já tem, inclusivamente, três projectos para lançar em 2006.

Corpse Bride, Charlie and the Chocolate Factory, Spider Man 1 e 2, Hulk, Chicago, Big Fish, Men in Black, Red Dragon, Psycho, Mission Impossible e Batman, são apenas alguns dos imensos títulos com o nome de Danny Elfman na Banda Sonora. É de referir, também que a famosa música dos Simpsons é da sua autoria, bem como muitas outras conhecidas composições.

Não posso deixar de falar na longa parceria entre este compositor e o realizador Tim Burton, que tem dado grande sucesso a ambos e, claro, alguns prémios. Além disso, Danny Elfman não se distingue apenas como compositor, mas também como produtor, escritor, actor, etc.

Já vi alguns filmes da lista em que Elfman participou e, desses, não posso deixar de destacar a música de Corpse Bride, Charlie and the Chocolate Factory, Chicago e Red Dragon.

Mais informações e links aqui e aqui.

(Este post deu-me um trabalho enorme...não o desprezem :P)

Ah Benfica!

Qual não é o meu espanto quando, no telejornal da SIC, ouço uma senhora junto à maior árvore de Natal do Mundo, em Lisboa a proferir os seguintes votos de Natal:

"Desejo muita paz, muita saúde e o Benfica que ganhe!"
NO COMMENTS!

Um bom filme



"Corpse Bride", um filme de animação não feito a pensar em crianças. Em termos musicais é bastante bom e o próprio conceito da história não fica atrás, para não referir os próprios desenhos. É um filme que une, mais uma vez, a fantástica dupla de filmes como "Edward Scissorhands", "Sleepy Hollow", "Big Fish" ou "Charlie and the Chocolate Factory", ou seja, a realização de Tim Burton, com a participação de Johnny Depp, desta vez como voz do protagonista.

Era uma vez dois jovens que não se conheciam e entre os quais os respectivos pais arranjaram casamento: Victor e Victoria, mal se vêem apaixonam-se e acabam por desejar passar a vida lado a lado. No ensaio para o casamento, o noivo esquece-se dos votos que tem de proferir no dia seguinte e é mandado decorá-los. Assim, vai para o meio da floresta treinar, até que os consegue dizer com um sentimento e uma entoação perfeitos... O problema é que há alguém que os recebe, nada mais nada menos que um cadáver.

Mais não vou contar, como é óbvio... A única coisa que tenho a apontar é que o final da história foi, para mim, infelizmente imprevisível, pois já estava à espera de um certo desenlace que depois não se verificou.

De qualquer forma, a minha opinião global é positiva. Vão ver.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Em véspera de véspera...


Desejo a todos (devem ser imensos :P) os leitores deste blog um bom Natal.

Mas não é um bom Natal cheio de prendinhas compradas só porque sim, é um Natal isento de consumismos desenfreados, um Natal em que as prendas, mais do que o seu valor monetário, tenham valor simbólico.

Um Natal sem aquele senhor inventado pela Coca - Cola, um Natal sem moralismos estúpidos de paz e amor, pois isso deve manter-se todo o ano e não durante dois simples dias.

Soa muito a cliché? Peço desculpa. Estou farta dos Natais normais. Por exemplo, porque é que se tem de comer Perú ou Bacalhau e não se come uma Pizza e uns Hamburguers? Porque é que as decorações têm de ser sempre as mesmas? Porque é que o espírito de Natal o é só porque sim? Porque é que o Natal tem de ser o mesmo para todos e não algo diferente para cada um?

Depois disto, só desejo um Feliz-Não-Hipócrita-Natal, um Natal não-automático em que todos temos de cumprir deveres sem lógica.

Ass. Alice-sem-paciência-para-o-espírito-natalício-de-sempre.

Desencontro

Junto de mim para sempre,
numa real eternidade,
sem anjos nem demónios,
olhando o rio que passa
juncado de flores vermelhas.

Parado numa estrada sem fim
à espera de um socorro desnecessário,
ouvindo apenas o vento misturado com uma chuva de desejos.

Perto de ti num planeta imaginário
onde não posso ir
(onde não quero ir)
por não saber regressar,
com medo de me perder da minha cara perdição.

Prendas de Natal

Extractos do jornal "Publico" de hoje (última página):

"Os presentes de Natal para as mulheres norte-americanas incluem este ano propostas tão surpreendentes como um nariz novo, um peito mais generoso ou, num registo mais ousado, uma 'reconstrução vaginal' e até uma nova virgindade. 'As mulheres recebem cada vez mais dos maridos, como presente, um envelope com um vale para pagar uma consulta ou uma operação de cirurgia estéctica há muito sonhada'. (...) 'As reconstruções do himen ou da vagina são particularmente pedidas (...). [Alguns maridos] fantasiam com a ideia de ter relações com uma virgem, ou porque depois de vários partos, e com a idade a avançar, precisam de apertar as paredes vaginais para sentir mais prazer e dar mais ao parceiro' (...). Os anuncios deste tipo de operação, que custa cerca de 1700 euros são directos: 'ofereça novas sensações à sua parceira, aumente as suas zonas erógenas, desenvolva o seu ponto G'".

Darwin ou Jeová

Actualmente, nos Estados Unidos, um grande tema de debate (Iraque à parte...) é o da escolha entre o criacionismo e o evolucionismo como modelos de explicação do mundo e da vida nas escolas. Em certos Estados, associações de pais e outras organizações defendem o regresso à versão pura e dura do Antigo Testamento, em detrimento do darwinismo, cuja validade científica seria discutível. Com um golpe de magia, Deus teria criado o dia e as trevas, a Terra e o universo, Adão e Eva... E depois queixam-se do fundamentalismo islâmico!

Seja como for, o dramatismo e a mediatização desse debate revelam a importância do fenómeno religioso naquele país e, designadamente, o poder que as facções mais conservadoras e vernáculas do cristianismo têm naquele país. Não esqueçam as opções religiosas do próprio Bush que diz ter saído do alcoolismo e da perdição por ordem divina, que terá renascido das trevas do pecado para espalhar a bondade e a democracia por todo o planeta.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

De regresso

“God is dead.”

- Nietzsche on God

“Nietzsche is dead!”

- God on Nietzsche

in Uncyclopedia

BIOPOLÍTICA

Quando as próprias pessoas não se concebem sem subordinação ao "sistema", quando a sua escravatura é assumida e indispensável à sobrevivência (mais do que imposta por qualquer poder), quando as pessoas não conseguem raciocinar fora dos padrões e valores dominantes, quando consideram que a sua tristeza é intrinseca à vida, inevitável e fatal, quando se resignam à obediência aos ritmos e às transcendências do Império, da máquina do consumo, do lucro e do interesse, quando as pessoas valorizam as paixões como simples objectos de contrabando individualista, quando a utopia e o sonho são considerados sinónimos de estupidez ou inconsequente ingenuidade... quando tudo isso acontece, estamos no universo da BIOPOLÍTICA, da má política que se introduz no mais pequeno interstício da vida, que aliena e distancía do conhecimento racional da realidade e dos afectos. Na BIOPOLÍTICA, a escravatura é felicidade e as pessoas temem sobretudo a liberdade, porque não sabem o que fazer dela, porque não conseguem ficar sózinhas a debater as suas ilusões e fraquezas, porque se submetem a mitos, esfinges e figuras de talha dourada a pingar "bondade".

A inspiração desta elocubração subversiva (!) veio-me do livro "Império", escrito por Michael Hardt e Antonio Negri. Leiam. Leiam também e sobretudo "Ética" de Espinoza (porque o bem e o mal contam). Faz bem. Areja as ideias. Faz pensar diferente e dá energia para percorrer o caminho da felicidade, concebida como sabedoria que conduz ao conhecimento dos afectos e à Alegria. Que conduz ao espírito positivo, não ao cinismo nem à revolta estúpida e violenta de que saem queimados os próprios revoltosos bem como inocentes que se encontram no sítio errado à hora errada. E que se lixe o Nietzsche que dizia que a felicidade é um projecto dos fracos. A gente sabe o que fizeram e continuam a fazer os "fortes"...

Feliz Natal (não estavam à espera desta cedência ao sistema!...). As contradições não antagónicas (Marx dixit) são inerentes à dialéctica da vida.

;-)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Soares, Cavaco, Alegre e os outros

I

O debate de ontem confirmou plenamente os perfis dos beligerantes. Soares procurou incansavelmente o confronto, a cacetada. Ele é bom nisso. Gosta da picardia, do embate olhos nos olhos a raiar o insulto. Soares tem a eloquência e a frase certeira para ganhar nesse tabuleiro. Contudo, precisa de incomodar o adversário, de lhe tocar no nervo. E foi precisamente isso que Cavaco evitou com eficácia, refugiando-se no seu discurso habitual, técnico, pragmático, positivo e, sobretudo, enfadonho. Cavaco continua a falar como um executivo, não como um Presidente. Mas, dessa maneira, não entra na armadilha de Soares que saiu frustrado por não ter quebrado o gêlo de Cavaco e não o ter feito perder o controlo e cometer "gaffes".

Fiquei impressionado quando, na sua dissertação final, Cavaco se dirigiu às pessoas que "têm a sua vida organizada" e que, portanto, pensam, não tanto nos seus próprios problemas, mas nos dos filhos. Penso que nesta frase está a descrição dele mesmo, Cavaco. Cavaco poderá ter uma "vida organizada" de pequeno-burguês, mas privilegiar, enquanto alvos do seu discurso, os portugueses e portuguesas que têm a "vida organizada" parece-me revelador da sua estatura social e política e quase insultuoso para os milhares de cidadãos que não têm uma "vida organizada", que sofrem de desemprego ou de precaridade, que vivem de reformas miseráveis. Esta foi para mim a "gaffe" de Cavaco que ele próprio produziu, sem ser arrastado pela cacetada histérica de Soares, porque corresponde à substância da sua candidatura e da sua pessoa.

II

Dado que o Presidente decide pouco, tem uma função essencialmente representativa (decorativa do sistema político), não precisa de ser competente, de conhecer a fundo "dossiers" técnicos. O PR deve ser uma referência moral, um moderador com convicções. Deve ser uma boa pessoa, uma reserva de inocência e de utopia. Para tudo o resto de que é feita a política (calculismo, negociação, conflito, decisões técnicas, luta por e contra certos interesses, etc.) lá estão o Primeiro-ministro e o executivo. O PR deve formar consensos em torno da Nação, transmitir valores positivos, compensar o cinismo ambiente com uma postura mais afectiva e ética. Tudo isto me leva a um nome: ALEGRE.

Alegre tem ainda uma outra vantagem. Fractura saudavelmente o PS em dois: o do socialismo e o do oportunismo e da subserviência. Alegre poderá ter a aritmética suficiente para passar à 2a. volta e permitir a derrota de Cavaco e, ao mesmo tempo, a do totalitarismo soarista. É a aritmética eleitoral que fragiliza as outras duas candidaturas de esquerda e que faz com que os seus votos, apesar de absolutamente respeitáveis e pertinentes, sejam menos úteis do que o voto em Alegre. A reflectir... Honestamente ainda não decidi em quem voto!

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Timóteo

Timóteo era um gato que se divertia a passear de telhado em telhado. Dali observava o frenesim da cidade e o colorido das casas e da vida que existia dentro delas. No 2o. andar do No. 20 da Rua das Generosas vivia a Senhora Inácia. Era uma deliciosa velhota, redonda como um alguidar, que lhe oferecia espinhas tenras de peixes baratos. Senhora Inácia customava ter à janela uma gaiola com um periquito anafado que cantava o dia inteiro. O pássaro era uma insolente tentação, muito melhor do que todas as espinhas tenras. Mas, a robustez da gaiola e os olhos doces de Senhora Inácia dissuadiam Timóteo de qualquer malvadez. Senhora Inácia vivia quase sempre sózinha. De vez em quando, aparecia um padre à moda antiga, com uma longa batina preta encimada por um colar branco, muito apertado no pescoço. Diziam que era o filho. Trazia-lhe sempre santinhos de cores estridentes que se espalhavam pelas paredes e por cima dos móveis. Não ficava muito tempo porque outras almas esperavam impacientemente a sua consolação. Estranhamente, o periquito deixava de cantar quando aparecia o filho da Senhora Inácia. Mal saía o padre, o periquito desatava numa berraria infernal. Depois, cansado, retomava a lenga-lenga do costume, seguro do seu lugar na rotina do 2o. andar do No. 20 da Rua das Generosas.

No prédio em frente vivia Sandra, uma bela rapariga de 20 anos, com cabelos longos e contornos fulminantes. Trocava frequentemente o dia com a noite e não dava descanso aos vizinhos com a música que punha a girar. Vivia também ela sózinha, mas era visitada, de vez em quando, por amigos que não vestiam longas batinas pretas encimadas por colares brancos. O maior prazer de Timóteo era o de ser acariciado por Sandra. As mãos dela desapareciam no mais fundo do seu pêlo iriçado. Algumas vezes, encostava o focinho à pele alva e esférica do peito de Sandra. Timóteo passou a identificar o paraíso de uma das suas sete vidas com aquela candura. Sandra não pousava os pés nas pedras da rua. Simplesmente flutuava. Era um fantasma de tantos desejos, a prova de que a tentação pode voar para lá da imaginação. O segredo da sua graciosidade residia em comportar-se como se não soubesse que era assim, que suscitava emoções tão intensas. Disso resultava uma inocência ambígua, quase insuportável. Só Timóteo tinha o privilégio de aceder às revelações do seu íntimo. As visitas à casa de Sandra eram uma peregrinação que se tornara quase obsessiva. Timóteo tinha pesadelos nos quais assistia desgraçadamente à partida de Sandra do bairro. Acordava alagado em suor e só tinha descanso depois de confirmar – altas horas da noite – que Sandra tinha a luz do seu quarto acesa por trás das cortinas encarnadas. Os dias íam correndo como se o presente fosse um futuro sem sombras. Timóteo saltava de telhado em telhado, olhando o mundo lá do alto. Senhora Inácia envelhecia tranquilamente no meio de espinhas tenras de peixes baratos, embalada pelo canto do periquito e cada vez mais afogada nos santinhos que o filho lhe trazia. Sandra perdia-se no seu fascínio e Timóteo temia acima de tudo que partisse.

Um dia, o padre foi a casa de Sandra. Por ali ficou, por trás das cortinas encarnadas, três dias e três noites. Sabe Deus que sobressaltos redimiram. Dali saiu, sem a longa batina preta, de mãos dadas com Sandra. A felicidade pingava dos seus rostos e Timóteo ficou triste e perdido como o mais traído dos amantes. Pensou em abandonar aqueles telhados. Chegou mesmo a admitir a possibilidade de pôr termo a uma das suas sete vidas. Por fim, resignou-se. De vez em quando, punha-se a olhar para a janela de cortinas encarnadas que já lá não estavam e parecia-lhe ver o vulto sinuoso de Sandra a dançar ao som de uma daquelas músicas quentes de que tanto gostava. Mas, agora vivia lá um viúvo, reformado dos caminhos de ferro, que acabou por se juntar à Senhora Inácia para a ajudar a tratar dos móveis, dos santinhos e do periquito.

Anos depois, Sandra voltou toda vestida de negro, um fantasma da beleza de outrora, rugas cavadas numa pele de rosa murcha. Foi viver na casa de sempre, sem as cortinas encarnadas. Foi-se tornando redonda como um alguidar. Voltou a acariciar Timóteo, mas as suas mãos eram agora pesadas, tão pesadas como a melancolia dos seus olhos. O padre tinha sido pendurado a preto e branco na parede, de fronte à janela, sem as cortinas encarnadas, por onde entrava Timóteo. Vestia uma camisa às riscas com o colarinho escancarado no pescoço. Senhora Inácia e o reformado dos caminhos de ferro morreram numa certa noite, extenuados. Foram encontrados nús sobre a cama com um leve sorriso nos lábios. Timóteo e Sandra resignaram-se até ao fim.

Prof. Louçã

O Prof. Louçã não fala - lê! A sua fluência mete impressão. Parece que tem sempre um guião à frente. A sinusóide do seu discurso é de uma perfeição desconcertante. Depois, permanece com aquele ar intacto de menino bem comportado de escola primária, mesmo quando destila demagogia radical. O Prof. Louçã protagoniza melhor do que ninguém o esquerdismo higiénico das micro-causas.

No fundo, o Prof. Louçã e a sua agremiação são úteis porque mobilizam uma franja do eleitorado (isto é, uma certa pequena burguesia urbana e jovens universitários com pretensões intelectuais) que não se reconhece no PS nem no PCP.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Vacanze romane

Golden boy



O jornal francês "La Tribune" de hoje elogia o Plano Tecnológico e diz que José Sócrates é um... "GOLDEN BOY". Fantástico, Melga!

O debate Soares-Alegre

O debate de ontem entre Soares e Alegre foi preocupante, principalmente, pelas seguintes razões:

Ambos os candidatos revelaram uma confrangedora (e talvez inesperada) ignorância relativamente a temas fundamentais da nossa sociedade. Houve momentos quase hilariantes de confusão e de "conversa de café". Alegre não sabe o que é o "pensamento estratégico", diz que o TGV entre Lisboa e Porto será muito caro e terá muitas paragens. Soares mete os pés pelas mãos em relação às privatizações, não sabe o que é que, no sector eléctrico, é público e privado, diz que precisa de estudar (!) os dossiers antes de se pronunciar sobre a Ota, defende com unhas e dentes os políticos. A ingenuidade de Alegre veio ao de cima. A experiência e a habilidade de Soares para a resposta caceteira foram mais uma vez evidentes.

Ambos reconheceram a substancial incapacidade do Presidente da Républica para resolver o que quer que seja, a tal ponto, que os eleitores se podem perguntar porque diabo é que são chamados a votar numa figura quase só decorativa. A única arma efectiva de poder será a "bomba atómica" da dissolução que ambos prometem não utilizar, salvo em circunstâncias verdadeiramente excepcionais, em nome da estabilidade e da legitimidade democrática. Confessaram não poder lutar contra o desemprego, não poder resolver o estado caótico da justiça, etc., etc. porque tudo isso é da competência do Governo. Podem vetar leis mas, em caso de maioria absoluta no Parlamento, essas mesmas leis podem acabar por ser ratificadas. Aparentemente, a única coisa que o Presidente pode fazer é conversar com a malta, pedir ao Primeiro-Ministro para se comportar como deve ser, percorrer o país a distribuir sorrisos, coragem e boas intenções, representar o país no estrangeiro, efectuando viagens a sítios mais ou menos exóticos, à custa do erário público, porque o interesse nacional a isso "obriga".

Outra consequência do debate é o facto de Cavaco, apesar de tudo, sair mais credibilizado por não se envolver em tricas partidárias e por demonstrar um conhecimento mais técnico e estruturado dos problemas. Acho que Cavaco foi o vencedor do debate de ontem... infelizmente!

Férias


Interrompo aqui a minha actividade bloguística até dia 22.
(Este blog fica a teu cargo, Miguel, não o deixes à deriva.)

Boas Férias (para mim, claro)

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Match point

Não percam o filme mais recente de Woody Allen. Uma história envolvente e muito bem contada. Uma espécie de "Crime e Castigo" à Woody Allen.

http://www.tfmdistribution.com/matchpoint/home_flash.html

"Excluídas e Invisíveis"


Discriminação positiva


Ao longo da história, as mulheres têm sido profundamente prejudicadas, designadamente, do ponto de vista social e econòmico. No meio laboral, em geral, ocupam posições inferiores às dos homens, recebem salários mais baixos para executar tarefas idênticas, são vítimas de várias formas de marginalização e de violência, a sua posição de mães não é justamente contemplada nos contratos de trabalho ou respeitada pelas entidades patronais. Existem estatísticas abundantes que ilustram a dimensão destes problemas, dando, porém, uma pálida ideia dos dramas que as mulheres, por vezes, têm de enfrentar.

Dada a crescente sensibilidade de variadas correntes de opinião em relação à situação descrita, tem-se desenvolvido um movimento a favor da sua correcção. Os direitos das mulheres passaram a pertencer ao universo das causas politicamente correctas, a par de muitas outras (a homosexualidade, o combate ao tabagismo, a ecologia, etc.) que revelam um desejo de evolução da Humanidade no sentido do progresso, da igualdade, dos direitos humanos e da qualidade de vida. [A defesa de "micro-causas" (aliás, absolutamente respeitáveis...) passou a ser um escape à ausência de um paradigma alternativo ao neo-liberalismo. Que o diga o Prof. Francisco Louçã...]

Um dos conceitos que tem inspirado medidas concretas para rectificar a situação das mulheres é o de "discriminação positiva" (DP), de resto, também aplicado em vários outros contextos, como por exemplo, o da defesa dos direitos dos negros nos Estados Unidos. A DP consiste em favorecer, particularmente, todas as vítimas de discriminação (negativa) no acesso a determinadas posições ou benefícios sociais. Por exemplo, a criação de um contingente mínimo para estudantes de raça negra nas universidades americanas, o acesso privilegiado de certas minorias a habitações de renda económica, a prioridade dos reformados na utilização de certos serviços colectivos, são medidas de DP.

Quanto às mulheres, a DP consiste, por exemplo, em facilitar-lhes a promoção profissional, o acesso a cargos de chefia, a flexibilização dos horários de trabalho para permitir a conciliação da vida familiar com a vida laboral. Neste domínio, a igualdade também pode passar pelo direito dos homens a ficar em casa durante um certo período após o nascimento dos filhos, permitindo a continuação do trabalho das mulheres e dividindo melhor as responsabilidades nos primeiros anos de vida dos filhos. Há organizações que consideram a percentagem de mulheres em lugares de chefia como um indicador de performance social, cuja melhoria se espera que conduza a uma maior popularidade e "correcção social" dessas mesmas organizações.

Para bem das próprias mulheres, porém, a DP não pode significar favorecê-las, especificamente, em situações em que sejam claramente inferiores, não por serem mulheres, mas de acordo com critérios objectivos. Explico-me. Se se escolhe uma mulher, só por causa do seu sexo, para ocupar um lugar de responsabilidade para o qual manifestamente não tem aptidões, em detrimento de um homem claramente mais competente, não se estará a prestar um bom serviço à causa das mulheres. A previsível má prestação dessa pessoa no cargo só descredibilizará o critério através do qual foi seleccionada (isto é, a DP), provocará mal-estar, chacota, talvez mesmo rancor, ineficiência. A DP deve traduzir-se na preferência de uma mulher apenas no caso de igualdade em relação a outros critérios objectivos de avaliação. Naturalmente, se a mulher for simplemsente superior, a sua escolha deve ser automática, sem ser necessário invocar a DP. Em suma, a DP não pode significar injustiça de sinal contrário. A injustiça não se combate com a injustiça, mas através, tão somente, da defesa da justiça.

"Quem sabe?
Talvez o super-homem venha nos salvar
Mudando como um deus o rumo da história
Por causa da mulher..."

(Gilberto Gil)

Um site que me faz inveja, muita inveja!


Khajuraho, Índia

Telemóveis para cães

Li n'A Cabra, jornal da Universidade de Coimbra a seguinte notícia:

O telemóvel para cães vai ser posto à venda, a partir de Março, nos Estados Unidos A companhia americana PetsMobility vai lançar, em Março, o Pet Cell, primeiro telemóvel para cães. O objectivo consiste nos donos poderem falar com os animais a qualquer momento, como se estivessem junto deles. A ideia partiu do norte–americano Cameron Robb quando, numa convenção, reparou que um dos assistentes, com quem partilhava o quarto, falava com o seu cão por telefone, isto enquanto a mulher segurava o auscultador junto à orelha do animal. O novo telefone custa entre 300 e 350 euros, tem a forma de osso e usa- –se na coleira do animal. É resistente ao choque e à água, tem o seu próprio número e trabalha com as redes habituais de telemóvel. Uma das particularidades do Pet Cell é o GeoFence (cerca geográfica), no qual os donos impõem limites geográficos aos animais e são avisados se estes os passam. No caso do cão se perder, o telemóvel vem com um dispositivo GPS, para localizar o animal, e com três botões, que permitem chamar o dono, no caso de alguém encontrar o canídeo na rua.
(...)
O PetCell surge como uma invenção que pode combinar com o tradutor de latidos. Esta criação, designada de Bowlingual, foi criada em 2004 pela empresa japonesa Takara, que afirma conseguir traduzir os latidos dos cães para linguagem humana. O instrumento consiste num microfone de oito centímetros, que se coloca na coleira do cão e transmite os sons para uma consola do tamanho de uma mão, ligada a uma base de dados. A consola classifica os latidos em seis categorias: alegria, tristeza, frustração, ira, indiferença ou desejo, traduzindo o estado emocional do animal em frases comuns.

(NO COMMENTS!)

Divagações filosóficas

Em vários contextos, é-nos impingido que cada cultura/sociedade tem uma ordem própria. Contudo, para mim (e sublinho: para mim), isso não podia estar mais errado. Basta pensarmos que as tradições, os hábitos, as instituições, os ideais, etc, são compostos por pessoas, cada uma com um objectivo diferente, com conceitos e valores próprios. Cada pessoa tem uma visão da sociedade nos seus vários jugos muito individual. Por exemplo, enquanto apoiante de uma determinada corrente de pensamento, tenho um conceito diferente de “perfeição” (sim, porque aquilo que todos procuramos é a perfeição, embora nunca a encontremos) de outro apoiante da mesma. Ou seja, apesar de me identificar com uma determinada ideologia, mais ninguém a interpreta como eu e, é aqui que entram os conceitos de intersubjectividade e subjectividade, já que nada é objectivo e tudo é relativo (uma frase feita que faz sentido).

Assim, todos procuramos coisas diferentes (não necessariamente opostas, podendo mesmo ser complementares) na sociedade em que estamos inseridos, todos a tentamos transformar segundo a nossa ideologia e plano e, é importante referir, não certos ou errados. Então, embora a maioria das pessoas se reveja mais nas sociedades democráticas (para exemplificar), a forma como estas são postas em prática/encaradas, depende da visão de cada um, de cada ser social. Deste modo, como podemos garantir a coesão de qualquer sistema social? Como podemos afirmar que existe (ou alguma vez pode existir) uma ORDEM social, na plena acepção do termo?
Concluindo, o (des) equilíbrio de qualquer sociedade não se fundará na sua própria e inevitável desordem? As sociedades a que chamamos democráticas, ou mesmo ditatoriais, não serão, na prática, anárquicas?

Esta é a minha perspectiva (discutível, claro, não fosse este texto sobre a subjectividade). Deixem a vossa.

Já publicado aqui.