domingo, dezembro 11, 2005

Pequena burguesia

Li este fim de semana o livro representado aqui ao lado. Trata-se de uma síntese interessante da história e da sociedade alemãs, propondo uma chave de leitura (para mim) original para o pior do que se tem passado naquele país. Em resumo, o mal terá sido provocado pela pequena burguesia, criada no seio das pequenas cidades onde as pessoas se protegiam da Peste Negra no século XIV, e reforçada nessas mesmas pequenas cidades depois da Paz de Vestefália que pôs fim à Guerra dos 30 Anos em 1648.

A pequena burguesia alemã, odiada por Nietzcshe, é acusada de tacanhez, de conservadorismo, de gostar acima de tudo dos pequenos privilégios, da protecção corporativa, de desconfiar de tudo o que é moderno, exterior e diferente e de ser anti-semita, de enaltecer cegamente a autoridade, a propriedade e a família. Essa pequena burguesia ama o "pequeno" conforto, a estabilidade hipócrita, a segurança, o respeito da moral, das hierarquias e das normas. A pequena burguesia vive angustiada com medo de tantas coisas: do futuro, da mudança, da intranquilidade, do crime, da doença.

Foi essa classe que apoiou o expansionismo do Imperador que resultou na I Guerra Mundial. Foi ela que, profundamente desiludida e prejudicada durante o período que se seguiu à Guerra (nomeadamente, com a Républica de Weimar) se colocou nos braços do Nacional-socialismo constituindo, de facto, a sua base social de apoio. É essa mesma classe que, na Alemanha de Leste, aturdida pela ruptura do "equilíbrio" da RDA, onde era rainha e senhora, desconfia de tudo o que é estrangeiro e assiste impávida, para não dizer contente, aos ataques incendiários a residências de imigrantes e refugiados políticos. É essa classe, habituada a protecções de natureza profissional (uma lei que reintroduziu as velhas corporações de artesãos foi aprovada pelo Bundestag após a II Guerra Mundial, durante o governo de Adenauer), ciosa de regulamentos que salvaguardam a sua tranquilidade medíocre, é essa classe que se revolta contra as reformas necessárias ao desbloqueamento da proverbial, mas obsoleta, "economia social de mercado", uma espécie de bolsa de interesses e de tráficos, levada ao extremo da corrupção por Helmut Kohl. Já diziam Marx e Engels no Manifesto Comunista: "A classe dos pequenos-burgueses, legada pelo século XIV e que, a partir dessa altura, renasce sem cessar sob formas diversas, constitui na Alemanha a verdadeira base social da ordem estabelecida".

Mas que classe é esta? É um grupo numeroso, maioritário que se situa entre o proletariado e a grande burguesia. Esta última controla o poder económico e financeiro e, por consequência, tendencialmente, todos os outros poderes. O proletariado não é, actualmente, um conceito vazio ou uma realidade caduca. Hoje, essa classe aumenta de novo, alimentando-se de milhares de trabalhadores precários que trabalham nos serviços e na indústria, muitos deles "working poors" (sabiam que em França muitos sem-abrigo são empregados?). Seja como for, a pequena burguesia foi reforçada pelo crescimento económico do pós-guerra (na Europa) e pela expansão que se verificou após a Revolução (em Portugal).

Essa classe, cheia de tiques e manias, para caricaturar a descrição de Johannes Willms, representa um imenso centro, volátil e, por vezes, caprichoso, que ganha eleições e que, portanto, é cobiçado por todos os partidos da esquerda e da direita que, assim, caem numa não-ideologia, numa mensagem "à la carte", num discurso falacioso de interesse geral e de prosperidade para todos. A pequena burguesia odeia o conflito e os partidos que lhe cantam a canção do bandido também, ou pelo menos, disso fazem de conta. Romantizam o consenso. A pequena burguesia é o alicerce da estabilidade, mas reage muito mal quando lhe apertam os calos, fazendo valer todo o tipo de interesses imediatos e de prerrogativas.

Temo que, para o melhor e para o pior, sejamos (quase) todos pequeno-burgueses ou pretendentes a pequeno-burgueses: médicos, enfermeiros, professores, empregados de comércio, advogados e juizes, pequenos comerciantes, industriais e agricultores, empregados bancários, funcionários judiciais, etc., etc.. Cada uma destas corporações tem as suas afinidades, angústias e "legítimas" reivindicações em relação à partilha do bolo social.

Uma putativa lucidez, inspirada por um livro heterodoxo sobre a Alemanha, levou-me, por caminhos ínvios, a tirar conclusões que não são certamente politicamente correctas...

Prémios Inimigo Público


Votem aqui, para as várias categorias de prémios do Inimigo Público.



Pela segunda vez desde a sua fundação, O INIMIGO PÚBLICO vai distinguir as personalidades/acontecimentos nacionais que durante o ano se destacaram nas páginas deste jornal.
Mas, num ano em que os portugueses foram diversas vezes chamados às urnas para decidir o destino da Nação, não tínhamos, infelizmente, como evitar uma democratização deste processo. Assim, e durante um mês, os leitores do INIMIGO estão convocados para decidir quem merece ser premiado.

sábado, dezembro 10, 2005

"Nunca tive consultor de imagem" ...



...diz a Maria José Ritta. Francamente!

Dá para rir.

Desculpem a maldade, mas HAVERIA ALI ALGUMA COISA A FAZER?

sexta-feira, dezembro 09, 2005

2005 - As Minhas Opiniões

O Melhor:

Filme: In My Country , John Boorman
CD: Piece by piece, Katie Melua
Livro: Anjos e Demónios, Dan Brown
Programa de Televisão: Estes difíceis amores, Júlio Machado Vaz, Gabriela Moita e Leonor Ferreira, RTP
Realizador: Quentin Tarantino, Sin City
Descoberta Cinematográfica: "The Omen (I/II/III)", Richard Donner/Don Taylor/Graham Baker
Descoberta Literária: Nietzsche
Descoberta Musical: Tom Waits
Espectáculo: Fanfare Ciocarlia, TAGV
Mês: Maio


O Pior:

Filme: "House of Wax”, Jaume Collet – Sera
CD: D’ZRT, D’ZRT
Livro: ….
Programa de Televisão: Fiel ou Infiel, João Kleber, TVI
Realizador: Jaume Collet – Sera, House of Wax
Descoberta Cinematográfica: "Club Dread", Jay Chandrasekhar
Descoberta Literária: Cesário Verde
Descoberta Musical: David Hasselhoff
Espectáculo: Orishas, Latada de Coimbra
Mês: Março


Os meus maiores agradecimentos a quem me apresentou a grande parte das descobertas feitas, principalmente, na segunda metade deste ano.

Curiosidades económico-espaciais

Este animal pode carregar até 10 toneladas de satélites para o espaço. Chama-se Ariane 5 ECA e é lançado pelas equipas da empresa Arianespace a partir da base de Kourou na Guiana francesa. É um produto da cooperação tecnológica entre universidades, centros de pesquisa e empresas do sector aero-espacial de diferentes países europeus, incluindo, numa modesta proporção, Portugal. A entidade que assegura a coordenação desses esforços bem como uma grande parte do seu financiamento chama-se Agência Espacial Europeia, com sede em Paris. Os americanos investem no sector cerca de 5 a 10 vezes mais do que a União Europeia a qual gastou cerca de 2500 milhões de euros em 2004.

Mais rápidas e avulsas

I

"Em Portugal, em vez de se resolver os problemas, fazem-se leis sobre os problemas e, depois, fica-se descansado por algum tempo, até se culparem as leis pelo facto de os problemas não serem resolvidos" citação livre de declarações do Prof. Costa Andrade à RTP, à saída de um encontro em Coimbra àcerca de uma nova lei sobre política criminal.

II

Cavaco Silva, num encontro com apoiantes na sua terra natal, manifesta perplexidade por causa de a Espanha estar a crescer a mais de 3% ao ano, enquanto Portugal estagna. Deveria ser a pessoa mais bem colocada para perceber as razões de tal divergência. Também exprimiu estranheza por a confiança dos portugueses andar tão por baixo num contexto de governo maioritário e acrescentou que a confiança é meio caminho andado para investir e para progredir. A confiança também se aprende...

III

Soares demonstrou alguns sinais preocupantes de desatino e de sobranceria durante o debate com Jerónimo, em particular, à chegada aos estúdios da RTP. O PREC já lá vai, meu caro, e Cunhal só houve um... Além disso, as eleições presidenciais contam o que contam!

IV

Mais uma grande refinaria... em Sines. Onde havia de ser? Os III e IV Planos de Fomento do Estado Novo já previam o mesmo (período 1963-73). O Ministro da Economia aparece radiante ao lado de um rico empresário. O renascer dos elefantes brancos, grandes obras que teriam efeitos mágicos. Pela sua escala, compensariam rapidamente as deficiências estruturais da economia e da sociedade portuguesas. Mas, a matéria prima é importada, o output é uma convencional e poluente fonte de energia, a tecnologia é banalizada e os equipamentos serão importados. Dito isto, é verdade que existe um défice mundial de capacidade de refinação, que estará parcialmente por trás do recente aumento do preço dos derivados de petróleo, mas os países mais ricos estão a transferir essa capacidade para países periféricos, também por razões ambientais.

V

Portugal joga no grupo do México, Angola e Irão, na primeira fase do Campeonato do Mundo de Futebol que se realiza na Alemanha em Junho do próximo ano. E depois, queixem-se da sorte...

quinta-feira, dezembro 08, 2005

homens - mulheres

a não perder...

http://www.bozzetto.com/flash/fem_male.htm

rápidas e avulsas

I

Morreu ontem em Roma, com 85 anos, o economista Sylos Labini, adepto de Adam Smith, investigador, essencialmente, nas àreas de desenvolvimento económico e inflação. Empenhou-se politicamente a favor da legalidade e do civismo em Itália. Para Labini, a ética deve estar antes da economia.

II

Hoje, o Primeiro-ministro francês Dominique de Villepin disse numa entrevista à radio "France Info": "vous savez, l'économie c'est la vie". No início da semana, o mesmo de Villepin vendeu mais de 100 aviões Airbus à China numa sintese "virtuosa" entre finança, indústria e política.

III

Há quem diga que a Ryanair já fez mais pela integração europeia do que a Comissão Europeia (actual Presidente incluido...). Naturalmente, também tem feito muito pelos lucros do seu patrão, Michael O'Leary. A Ryanair é uma vitrina da soberania do consumidor e da primazia do mercado à custa de alguns dos mecanismos tradicionais de protecção dos trabalhadores na Europa (continental) http://www.ryanair.com/site/PT/

IV

A Autoeuropa tosse e a economia portuguesa constipa-se. As decisões tomam-se na Alemanha, para defender os interesses dos accionistas da VW. Os sindicatos, em Palmela, limitam as suas reivindicações salariais, o governo grita "ò da guarda" e vai à pressa à Alemanha pedir clemência, a oposição diz que é preciso preservar os interesses nacionais. Tudo isto porque se pagaram demasiados subsídios para convencer a Ford e a VW a instalar a fábrica em Portugal (mas isso são custos afundados), porque ela representa demais em termos de exportações, investimento e emprego e, sobretudo, porque o investimento não terá induzido tantas actividades a montante quanto previsto, tendencialmente autónomas da própria Autoeuropa.

V

Para intelectualizar o tema, aconselho a leitura do clássico de Desmond Morris "A Tribo do Futebol" (Edições Europa-América, 1981). Mas, o melhor do futebol é a sua irracionalidade.

VI

Universidade de Coimbra exibe exposição dos "Dez livros que abalaram o mundo".

http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1241291

Faz hoje 25 anos que John Lennon morreu.

«GOD»

God is a Concept by which
we measure our pain
I'll say it again
God is a Concept by which
we measure our pain
I don't believe in magic
I don't believe in I-ching
I don't believe in Bible
I don't believe in Tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in Kings
I don't believe in Elvis
I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles
I just believe in me...and that reality

The dream is over
What can I say? - T
he Dream is Over
Yesterday
I was the Dreamweaver
But now I'm reborn
I was the Walrus
But now I'm John
and so dear friends
you'll just have to carry on
The Dream is over

John Lennon

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O reflexo de Pavlov

O post anterior era mais prevísivel do que o nascer do sol todos dias. O efeito seguiu a causa como a manteiga segue o pão... Sabia que FINALMENTE haveria debate neste blog. Neste país, só mesmo o futebol é que suscita grandes e violentas emoções. Bem hajas SLB... à falta de melhor... VIVA O BENFICA!!!

Pedido de Desculpa

Venho, por este meio, pedir desculpa aos leitores deste blog pelo último post aqui publicado pelo meu inconsciente e alucinado Pai.

Nunca foi minha intenção que aqui entrasse esse vírus que profunda alergia causa a uns e que deturpa mentes a outros. Pessoas que até poderiam ser inteligentes caso não tivessem sido infectados por essa epidemia de seu nome Benfica.....

Peço, portanto, perdão pela imagem que veio políur estes ares saudáveis e lúcidos (ou não...) e pela demontração claramente alucinada de alegria pela maior proliferação dessa coisa.´

Prometo que o autor daquele post verá o seu texto sem razão severamente criticado por mim.

Obrigada pela compreensão e, mais uma vez, as minhas sinceras e profundas desculpas.

;)

O que faz falta é animar a malta, o que faz falta...

GRANDE JOGO CONTRA O MANCHESTER. Exibições magistrais de Giovanni e Luisão. Emoção e sofrimento até ao fim. O Benfica é uma síntese deste país. Uma Nação. A Nação...

Mais uma vez "4:48 Psychosis"

« J’écris la vérité et ça me tue. »
« Imaginez qu’on vous dise une fois la vérité à la télévision, le choc que ça produirait. »

Sarah Kane dixit

« Sarah Kane stigmatise l’hypocrisie selon laquelle nous sommes des gens bien pensants et moraux. C’est tellement important que cette vérité-là éclate dans le monde médiatique dans lequel nous vivons. »

Claude Régy (encenador de 4 :48 Psychosis) dixit

I'm still here - Tom Waits

You haven't looked at me that way in years
You dreamed me up and left me here
How long was I dreaming for
What was it you wanted me for

You haven't looked at me that way in years
Your watch has stopped and the pond is clear
Someone turn the lights back off
I'll love you til all time is gone

You haven't looked at me that way in years
But I'm still here

terça-feira, dezembro 06, 2005

A BATATA (III)

Abordarei neste terceiro episódio o mercado da BATATA. Antes de mais o mercado interno.

Por cá, a BATATA tem múltiplas e variadas aplicações. Há BATATAS a murro, BATATAS cozidas, BATATAS fritas, BATATAS alouradas, BATATAS no forno, puré de BATATA... As BATATAS a murro são as minhas preferidas. Permitem metabolizar tensões (durante o seu processo de transformação) e, ao mesmo tempo, são saborosíssimas (durante o seu processo de consumo), em especial, com bacalhau na brasa. Estas são, apenas, algumas das aplicações culinárias da BATATA. A BATATA é omnipresente à mesa dos portugueses, tanto ou mais do que o arroz à mesa dos chineses ou a massa à mesa dos italianos. A BATATA (ou nuances mais ou menos banalizadas da mesma) é o acompanhamento de quase tudo.

Depois, há variantes da BATATA que tocam outros domínios da vida nacional. Por exemplo, a BATATADA. Muita gente anda por aí à BATATADA. Ora é preciso fornecer BATATAS para que não falte o ingrediente aos gladiadores. O produto para esse fim deve ser razoavelmente rijo e de grandes dimensões para surtir o efeito desejado, isto é, para agredir com eficácia os adversários. De preferência, a BATATA da BATATADA deverá exibir pretuberâncias ou saliências potencialmente cortantes. Estão a ver a BATATA grelada? Acho que essa será a mais adequada ao desempenho da função em apreço apesar de, nessa fase, a consistência não ser a melhor... Já viram o que seria jogar à BATATADA com BATATAS moles e pequenas? Dava qualquer coisa parecido com a porrada dos tomates que se realiza todos os anos numa cidade espanhola de que não me lembro o nome. (Será Pamplona? Ou essa é só a dos toiros que mandam para o hospital ou para a morgue alguns daqueles jovens, voluntariosos e visionários, que trocam a vida por alguns minutos de adrenalina exacerbada? Ando com falhas de memória - é a velhice...) Muito sumo, muita nódoa, muita risada, mas nada que fizesse mal. Ora, com a BATATADA, apesar de sermos um povo de brandos costumes, quer-se deixar vestígios de dor dignos de recordação. A BATATA da BATATADA deve deixar o vencedor claramente por cima e o vencido convenientemente humilhado.

Outro mercado potencial para a BATATA é o da lógica da BATATA. Este é um tipo de lógica muito em voga no país e que precisa de fornecimento adequado de matéria-prima. Os mentores da lógica da BATATA necessitam do objecto da dita-cuja para se concentrarem nos temas que os dilaceram. Diria que, para esta finalidade, a BATATA deve ser volumosa e redondinha, deve ter uma curvatura harmoniosa e uniforme, enfim, deve ser o mais esférica possivel. E sabem porquê? Porque, antes de mais, a BATATA deve ser bem visível, mesmo quando o mentor da respectiva lógica se distancia nas infinitas deambulações pelo espaço físico onde se perdem os seus silogismos. Por outro lado, a BATATA da lógica-com-o-mesmo-nome deve ser bem circular para permitir ao “artista” a quadratura do círculo. A quadratura do círculo, sim senhor ! Essa famosa e suprema realização da lógica da BATATA, elixir de todo o exercício intelectual centrado na BATATA. Penso que a lógica da BATATA deva ser o paradigma fundamental para (re)pensar toda a problemática económica, social, política e científica despoletada pela colocação da BATATA no centro das prioridades necionais.

Por hoje, já me estendi demais. Fica para o próximo episódio a abordagem do mercado externo da BATATA, essa varinha mágica da salvação nacional que ainda não vi debatida, com rigor e seriedade, durante a campanha para as presidenciais.

Sim, porque depois de várias décadas a bater na mesma tecla (mas, o piano parece mudo...), o pessoal descobriu agora que é um imperativo nacional promover as exportações (obviamente da BATATA). Exportações ou morte! - diz o Prof. António Borges do alto da sua cátedra de economista omnisciente e, ainda por cima, bem pago e admirado pelos trogloditas do seu partido. Mas, ele terá algum partido, além do partido do seu próprio umbigo? Borges ao poder, já! Ele sim, que já percebeu tudo. Deixem o homem dar a volta a isto. Qual Marques Mendes, qual carapuça... Esse é só um pequenates a aquecer o lugar onde se sentará, mais tarde ou mais cedo, seráfico, o Prof. Borges. O Mendes só está a gerir a transição, enquanto os socialistas continuam a afundar-se no meio dos elogios do Prof. Cavaco que se rende, generosamente, à coragem política do Eng. Sócrates para tirar privilégios a quem os não tem e para parecer que tira a quem os continuará a ter...

Sem título

Apetece-me olhar pela janela e ver outro mundo
no meio da noite reflectida no chão molhado.

Assim, os olhos deixariam de doer de cansaço
e o sono passava a ser apenas uma outra forma de descansar acordado.

Estar atento sem medo de amanhã,
sem cair na monotonia dos ritmos sem sentido.
Pensar que o sentido está já ali,
ao virar da esquina,
e que o mundo é apenas aquilo que dele eu quiser fazer.

Deixar-me andar por aqui abaixo,
nesta torrente de pensamentos vagabundos,
nesta lógica automática que me leva não sei aonde.
Nem quero saber aonde,
desde que seja a outro sítio,
onde tenha que me descobrir outro,
renovado e renascido,
sem depender do olhar de nenhuma fera
que me ponha à defesa.

Os olhos ardem-me e o corpo verga-se ao tempo implacável,
espécie de tortura vagarosa com espasmos e ilusões de alegria.

What do you want for Christmas?

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Short selling

Bem sei que, actualmente, as expectativas são de subida dos preços. Na semana passada, o BCE decidiu aumentar a taxa de desconto em 0.25%. A Bolsa de Paris valorizou-se em mais de 20% desde o ínicio do ano. O petróleo e a maior parte das matérias-primas é o que se sabe. Não obstante o receio de bolha especulativa no mercado imobiliário, na maior parte dos países europeus, o preço das casas continua a crescer a bom ritmo. A taxa média de inflação, contudo, parece não acompanhar estas tendências, talvez porque os salários continuam a pagar as favas e os sindicatos deixaram de ter o poder de outros tempos. O euro tem-se desvalorizado contra o dólar, também por causa do diferencial das taxas de juro que tem favorecido a moeda norte-americana, e esta terá sido uma das principais razões pelas quais o BCE decidiu aumentar a taxa de desconto, pois a inflação subjacente não justificaria, só por si, uma tal decisão, como sublinham em coro os políticos europeus, preocupados com a fragilidade da retoma, que poderá ser prejudicada por este ajustamento monetário. Um euro cada vez mais fraco pode alimentar a inflação importada, mas também é verdade que favorece as exportações.

Mas, eu queria falar de uma outra coisa: de "short selling" que é uma estratégia para ganhar dinheiro quando a expectativa é de baixa dos preços. Por isso, este comentário vem claramente contra a corrente. Pode ser que os leitores tenham boa memória e que esta dica sirva num futuro mais ou menos próximo em que a conjuntura seja oposta àquela que agora se presencia. Em economia, a força da gravidade funciona... e como: não há nada que suba que não desça e (quase) tudo o que desce acaba por subir. O "short selling" também poderá aplicar-se (já) a mercados específicos que sejam dissonantes em relação à tendência geral...

Normalmente, quando se pensa em especular, pensa-se em comprar (agora) barato para vender (mais tarde) caro. Ora, pode-se vender (agora) caro para comprar (mais tarde) barato. Basta pedir (agora) emprestado o que se vende (agora) caro, reembolsando (mais tarde) o bem anteriormente pedido emprestado, indo ao mercado comprá-lo (mais tarde) barato (dado que o preço terá baixado). Isto é o "short selling". Exemplo: vendo hoje uma acção (que não possuo) ao Sr. Fulano por 20 €, pedindo-a emprestada por 6 meses ao Sr. Sicrano. Se o preço da dita acção, dentro de 6 meses, for de 15 €, vou ao mercado comprá-la por esse preço e devolvo-a ao Sr. Sicrano, realizando um ganho de 5 € (mais exactamente: 5 € menos o juro que me pediu o Sr. Sicrano mais o rendimento do dinheiro que recebi pela venda durante 6 meses).

Voilà. Contas de merceeiro ou... esperteza saloia de que se alimentam os mercados financeiros.

Janela

Uma lágrima caiu de uma janela.
Pesada como um corpo morto.
Rude como uma bofetada no mundo.

Da janela saiu um rosto de animal ferido.
Uma pintura funda como uma caverna num deserto de gente.
Um rosto sem nada dentro.
Um esboço de angústia incurável.

Depois, a janela fechou-se.
Lacónica.
E a casa ruiu com eloquência.
Sem rumor.

Discover Music

Através do desBlogueador de conversa cheguei a um site para descobrir músicas.
Põe-se um nome de uma música e o software procura músicas com sonoridades semelhantes à introduzida e toca-as. Ouvem-se imensas coisas, dos mais variados géneros.
Aconselho vivamente: PANDORA (http://www.pandora.com)

Portugal

Procurei encontrar os lados positivos do nosso país…
Descobri que somos um país dito desenvolvido, que somos membros do agrupamento político-económico que se segue aos gloriosos EUA, ou seja, a EU, descobri que a nossa língua é uma das mais faladas a nível mundial e descobri que temos um passado a ser exaltado pois somos um país antigo (século XII) e, em tempos, fomos a principal potência mundial, pelo nosso desejo de descobrir o incógnito. Sem dúvida que Portugal tem um espírito muito positivo, um passado extremamente rico e, a nível das artes, também tem um enorme valor (não esqueçamos a literatura de qualidade, a pintura, a escultura e muita música também).
E agora? O que fazer com o espírito, com a história e com a arte e a cultura? O espírito é para cultivar a ignorância e o orgulho de se ser básico. É para manter o povinho ignorante para que os mais inteligentes decidam o que fazer pelo país. A história é para continuar, para exaltar, mas desta vez com o futebol, glorificando os feitos dos nossos heróis da bola, da nossa selecção que leva Portugal ao mundo, conquistando-o tal como há séculos. A cultura, essa… é para ficar fechada na gaveta, para não ser difundida pela maioria dos portugueses, para estar apenas disponível para os que a procuram incansavelmente, ou que sabem da sua existência, porque é difícil chegar a ela.
Actualmente estamos, de facto, com muitas razões para orgulho, mas esse orgulho é todo baseado no passado. É ridículo como vivemos à sombra do que já temos, dos monumentos, das praias, da gastronomia tradicional e não procuramos construir novas coisas das quais nos orgulharmos. Afinal, quando um turista nos pergunta pelas riquezas do nosso país, pelos locais e factos a não perder, falamos apenas nas praias, nas florestas (que ardem agora), nas riquezas naturais em geral e nos monumentos. E, pior… Quando perguntamos a um estrangeiro que nunca visitou Portugal, o que sabe dele, as palavras são “Eusébio”, “Figo” (já começa também a aparecer “Cristiano Ronaldo”), “Benfica” e “Fátima”… Se bem que ultimamente há quem fale também em “Durão” e em “Irmã Lúcia”. Bela impressão que damos ao exterior, e mesmo a nós próprios.
Há que mudar… “É a hora, Valete Frates!”

Texto já publicado por mim, aqui.

Palavras de Natal

Gostaria de propor-vos um jogo linguistico. Agarrem numa caneta e, durante 4-5 minutos, escrevam palavras avulsas que vos venham à cabeça, rapidamente, ao acaso, relacionadas com o Natal. No meu caso, eis o resultado do jogo.

Calor
Frio
Azul
Branco
Doce
Gordo
Carro
Pacote
Alice
Família
Árvore
Menino Jesus
Lâmpadas
Luz
Cheiro
Frio
Chuva
Voz
Mãe
Pai
Meninos
Padre
Igreja
Estrela
Ontem
Jamais
Passado
Foi
Sorriso
Beijo
Fogueira
Tarde
Neve
Húmido
Fumo
Lojas
Consumo
Amanhã
Bolo
Vinho
Alice
Alice
Alice
Alice

Pornografia Felina

Neste site, para maiores de 18 meses, encontram-se fotos de gatos nus para todos os gostos e fantasias.

(clicar na foto)

domingo, dezembro 04, 2005

«There is always some madness in love. But there is also always some reason in madness.»

Friedrich Nietzsche

4:48 Psychosis


Assisti ontem à noite a um espectáculo perturbante, inesquecível, magistral, deprimente, profundo, inquietante, corajoso, violento, louco, incompreensível, enigmático, suicidário. É tudo isso e muito mais a peça de teatro “4:48 Psychosis” escrita por Sarah Kane e interpretada por... Isabelle Huppert! Ela mesma, em carne e osso, sózinha no centro do palco, estática, durante mais de uma hora e meia, vertendo lágrimas continuamente, os olhos vidrados numa expressão impassível (de resignação? de sofrimento? de raiva?), recitando o poema de quem está à beira do suicídio. Uma interpretação extremamente intimista, certamente esgotante, quer no plano fisico, quer no plano psicológico. No fim, quando recebe, quase indiferente, os aplausos do público, parece não ter ainda saído da peça. Será que sai? Onde é que começa Sarah Kane e acaba Isabelle Huppert (e vice-versa)? A interpretação é de tal maneira genial que permanece a dúvida quanto a uma fusão actriz/autora... Aliás, Isabelle Huppert tem feito cinema e teatro que desafiam a normalidade (p.ex. “O Pianista”). Os espectadores têm dificuldade em seguir o “non-sense” da maior parte do texto, um “non-sense” típico da psicose, onde se misturam números e palavras avulsos. Talvez as únicas passagens onde existe um discurso coerente sejam aquelas em que a personagem se queixa da família, do mundo e do médico, um psiquiatra que aparece episodicamente por trás de um ecrã translúcido que, na minha opinião, representa a barreira entre a realidade e a doença, não obstante a simbiose entre ambas que conduz, precisamente, à auto-destruição. Mas, o papel do médico é o de levar a paciente a fazer a distinção. Por isso, diz que ela não tem culpa, que está (apenas) doente. Por isso, diz que ela precisa de amigos, mas que ele não pode ser seu amigo, porque é um profissional. Os psiquiatras não são amigos dos seus doentes. São apenas técnicos. Também por isso se fazem pagar. Existe uma crítica implícita na peça a este dogma da profissão. A certa altura, o médico confessa à paciente que odeia o seu trabalho, que precisa de ir para casa descansar, estar bem com a sua família e os amigos. Dizendo isto, está a criar uma cumplicidade de "amigo" com a paciente e, quando se apercebe desta transgressão, pateticamente, pede desculpa...

"4:48 Psychosis" é uma espécie de espelho onde o espectador é, ao mesmo tempo, agredido e tranquilizado, porque reflecte brutalmente a distância entre a sua normalidade (do espectador) e a loucura (representada). É claro que este é um espectáculo não aconselhável a quem esteja deprimido ou, ainda menos, a quem tenha tendências suicidas... Porque, nesse caso, o espelho devolve apenas uma violenta confirmação do próprio mal-estar... Oups!

“4:48 Psychosis” é uma experiência dura, como foi dura a vida e a obra de Sarah Kane que acabou por se suicidar pouco depois de escrever a peça, nunca chegando a ver a sua representação. Foi em 20 de Fevereiro de 1999. Tinha 28 anos. Tirou um curso de dramaturgia em Bristol com nota máxima, fez um “Master” na Universidade de Birmingham. Inspirando-se nomeadamente em Samuel Beckett, escreveu várias peças que foram inicialmente recebidas com frieza (senão com desprezo) pela crítica (“the naughtiest girl in the class”). Hoje é considerada um expoente da dramaturgia britânica e europeia. É actualmente um dos autores com maior número de peças em cena na Europa. Os cemitérios estão cheios de génios e de boas pessoas...

http://www.iainfisher.com/kane.html
http://mjf.missouristate.edu/faculty/wang/ih/index.htm

William Lawson's

Se ainda não repararam, na publicidade da William Lawson's, percam uns minutos a vê-la quando passar na televisão...
Com a Sharon Stone, um ciumento e um escocês.
5 estrelas!

sábado, dezembro 03, 2005

Salários mínimos na Europa

http://europa.eu.int/abc/doc/off/bull/pt/200304/p103008.htm#tbl01pt

Citações

"(...) toute vie est une plus ou moins lente façon de se résigner à ce qu'on est."

"(...) bien plus que par nos faits, nos gestes, nos songes, nous vivons par le regard."

in "Le Goût des Femmes Laides", Richard Millet (Éd. Gallimard, Julho 2005)

A. Lobo Antunes


Aconselho a leitura da entrevista publicada pelo jornal Le Monde no dia 1 de Dezembro (ver link).

http://www.lemonde.fr/web/article/0,1-0,36-716274,0.html

A BATATA (II)

Retomando o tema da BATATA… reitero que esta é a solução para os problemas nacionais. Começo, verdadeiramente, a explicar porquê.

Em primeiro lugar, Portugal tem condições naturais e sociais ímpares para a cultura da BATATA. Os terrenos são apropriados, o clima é clemente, o produto é de excelente calibre e qualidade. Existe uma mão-de-obra altamente qualificada que pode utilizar tecnologias de ponta, desenvolvidas ao longo dos séculos, através de um « mix » harmonioso de ciência, tradição e sabedoria popular. Os laboratórios de investigação científica de elevada qualidade que proliferam neste país poderão concentrar os seus esforços na procura de soluções inovadoras para aumentar a produtividade e a qualidade da produção de BATATA. Eis um campo onde a ligação entre a investigação fundamental e a investigação aplicada será muito importante. Cientistas, lavradores e camponeses darão as mãos numa aliança virtuosa de culturas e de sensibilidades para alcançar as melhores soluções técnicas para a BATATA. Com o seu « cluster » da BATATA, Portugal passará a ocupar uma posição cimeira no panorama tecnológico mundial e a venda de patentes ao estrangeiro poderá ser uma fonte inesgotável de receitas, diversificando a estrutura das nossas exportações de bens e serviços.

Proprietários rurais e camponeses darão as mãos para implementar novos modos de produção e de organização do trabalho e da propriedade. Um novo contrato social, no âmbito do qual a conflitualidade será gerida de forma inteligente e sensata, verá a luz do dia, dado o consenso alargado em torno da BATATA. A BATATA pode, assim, contribuir para a estabilização da população rural e para o combate ao envelhecimento dessa população, porque os jovens se entregarão com alegria e entusiasmo ao desenvolvimento da cultura da BATATA. O processo de desertificação dos campos será contido e será, finalmente, promovido o crescimento equilibrado de todo o território nacional, sem zonas ou populações de segunda, sem favorecimento do litoral, sem necessidade de atapetar o interior de auto-estradas semi-desertas. A BATATA será um factor de desenvolvimento endógeno, inscrito na dinâmica mais profunda das pessoas e das suas motivações. Os ancestrais e genuínos valores positivos do mundo rural serão preservados do ataque da urbanidade e da industrialização desenfreada que se fazem acompanhar de toda uma série de vícios e da disseminação do mal-estar e da solidão entre as pessoas (poluição, criminalidade, congestionamento, perda do elo social, etc.). Poderá mesmo haver um refluxo da população, da cidade em direcção aos campos, descobrindo os encantos e a qualidade de vida das paisagens verdejantes em que predominará, naturalmente, a bem-aventurada BATATA. Modos alternativos de produção e de socialização, amigos do ambiente e das pessoas, farão brotar um novo modelo de sociedade, o modelo que faltava, alternativo ao neo-liberalismo esmagador e ao marxismo defunto. Um modelo em que a solidariedade suscitada pela BATATA andará a par da eficiência e da afectação racional de recursos.

Depois, a BATATA permitirá conciliar a modernidade e a abundância com a preservação ou, mais propriamente, com o retorno aos mais autênticos e vernáculos valores da raça Lusitana, associados inextricavelmente ao mundo rural e à cultura dos campos e da sucessão perpétua das estações do ano. Teixeira de Pascoaes será revisitado com absoluta pertinência, enquanto ideólogo do novo Tempo Português, do renascimento da Nação, após um período de decadência e de diluição numa Europa aviltada pela globalização uniformizadora, activamente promovida pelas transnacionais de origem norte-americana, o verdadeiro império do mal.

Por hoje fico-me por aqui. No próximo episódio aprofundarei a análise das condições económicas e de mercado que sustentam a tese em favor da BATATA. Se alguém tem ideias em relação aos modos de potenciar este novo desígnio nacional será naturalmente acolhido com simpatia nestas “páginas”.