quarta-feira, novembro 30, 2005

Lagartos, homens e outros machos

Extractos de um artigo interessantíssimo publicado hoje no jornal "Le Monde" que pode reforçar a posição das feministas e ilustrar como os machos se podem assemelhar e arruinar a evolução das respectivas espécies.
"Lorsque les mâles sont en surnombre au sein d'une population, l'extinction rapide du groupe est prévisible. C'est, en substance, la conclusion de travaux que publient des chercheurs français et britanniques dans l'édition du lundi 28 novembre de la revue américaine Proceedings of the National Academy of Science (PNAS). Pour parvenir à ces résultats, les auteurs ont étudié la dynamique démographique de petits groupes de lézards communs (Lacerta vivipara), dans lesquels le taux d'individus mâles a été artificiellement augmenté.

Les observations laissent peu de place au doute. En situation de "sexe ratio" biaisé en faveur des mâles, le taux de survie d'une année sur l'autre des femelles se situe aux alentours de 20 %. Alors qu'en moyenne, chez cette espèce, le même indicateur est situé autour de 70 % à 80 %. Quant à leur fécondité, elle est divisée par deux, la portée annuelle de chaque femelle passant de 4 à 5 petits, en moyenne, à un peu plus de 2. Un cercle vicieux s'enclenche alors — plus il y a de mâles, moins les femelles survivent, plus la proportion de mâles augmente, etc. —, aboutissant rapidement à l'extinction du groupe, sans qu'aucun mécanisme de rétroaction se mette en place.

Du point de vue de la théorie de l'évolution, ces observations suggèrent qu'en situation de compétition très intense, l'énergie déployée par les individus pour assurer la pérennité de leurs gènes peut porter un lourd préjudice à l'espèce entière.

L'explication tient, selon les chercheurs, au fort accroissement de l'agressivité des mâles vis-à-vis des femelles, notamment au cours des accouplements, au point de diviser par 4 leur taux de survie d'une année sur l'autre. C'est en effet seulement au cours de la période de reproduction que la survie des femelles est affectée.

Ces observations sont-elles transposables aux autres espèces ? Les comportements de "coercition sexuelle" — susceptibles d'être exacerbés en cas de surpeuplement mâle — sont en tout cas largement partagés dans le règne animal. On dispose d'un faisceau d'indices tendant à montrer que ce mécanisme est à l'oeuvre chez un grand nombre d'invertébrés et de vertébrés, comme certains reptiles, des rongeurs et même des primates.

Aucune étude n'établit pour l'heure, chez Homo sapiens, de liens entre la modification artificielle du "sexe ratio" en faveur des mâles — pratiquée en Inde ou en Chine pour des raisons culturelles — et la dynamique des populations. Pas plus qu'avec le taux de fertilité ou la fréquence d'agressions à caractère sexuel. Mais il y a peu de raisons pour que ces phénomènes ne soient pas également présents chez les humains."

terça-feira, novembro 29, 2005

A BATATA (I)

Farto de tanto derrotismo e depois de cogitar longamente àcerca do remédio para as maleitas da Nação, cheguei à conclusão de que a solução está na BATATA. Na BATATA, sim senhor! Para quê tanto diagnóstico, tanto debate, tanta queixa, tanto desespero, tanta acusação e tanta crítica? A BATATA dá-nos um futuro radioso, põe um ponto final na decadência secular que nos tem atrofiado, esconjura todas as ansiedades e, sobretudo, irradica a nossa falta de auto-estima. A nossa querida e proverbial falta de auto-estima que tentamos debelar através de uma procura peregrina de uma identidade e de um destino que valham a pena, que galvanizem a Nação.

Adoro a palavra galvanizar. Faz-me lembrar tubos galvanizados, operários que aconselham, dentro de oficinas a cheirar a óleo, a metais e a sanitas mal higienizadas (!), a melhor solução para o parapeito da sacada com vista maravilhosa sobre a linha do combóio... Tubos galvanizados à parte - dizia eu - a solução está na BATATA.

Mas, por que carga de àgua a BATATA. Logo a BATATA, esse tubérculo insignificante que já foi planta ornamental em palácios da nobreza renascentista, antes de substituir a saborosa castanha à mesa dos europeus. As razões são múltiplas e fundadas. Direi, mesmo, estruturantes... Aqui está outra palavra magnífica que enche a boca de eloquência e de credibilidade. Uma palavra que subentende leituras sofisticadas, pesquisas laboriosas, vistas largas. Só pessoas inteligentes, como o Gabriel Alves ou o António Esteves Martins, incluem “estruturante” no seu vocabulário. Para o Gabriel Alves a estratégia do Koeman é estruturante. Para o Esteves Martins, quando fala de Bruxelas em frente à sede da Comissão Europeia, são necessárias medidas estruturantes. Estruturante é qualquer coisa de amplo, ambicioso, global que inclui todas as vertentes do assunto, mesmo que não se saiba quais são. “Vertentes”: outra de se lhe tirar o chapéu...

Enfim, estruturante é fixe, não tão fixe quanto o Mário Soares, a seu tempo, mas anda lá perto. Mais uma divagação periférica em relação à BATATA e apesar da “vacuidade” das eleições presidenciais (para utilizar a feliz expressão de António Barreto): decididamente, o Soares já não é fixe, ou melhor, tenta ser pateticamente fixe. Parece uma velhota que, depois de vários anos rodeada de naftalina, a venerar o crucifixo, passa noites a fio na discoteca a ouvir os Duran Duran até cair cansada e rendida ao seu destino atroz.

Esta introdução é mais um exemplo da incapacidade de certos portugueses em ir ao âmago da questão. A malta precisa de preparar o terreno, de guarnecer o tema com floreados, de sobrevoar o problema antes de o escalpelizar (nem pensar em resolvê-lo – o gozo acabaria depressa demais – é como os preliminares...).

Também adoro "escalpelizar". Essa faz-me lembrar peles vermelhas e as carnifícinas no grande Oeste Americano que os putos da minha idade aceitavam com ignorância e bonomia, se protagonizadas pelo nosso grande herói Bufalo Bill nos pequenos quadradinhos a preto e branco dos livros de cóbois que custavam vinte e cinco tostões (colecção "Falcão").

Desculpem, mas por hoje estou farto. Contudo, asseguro-vos que a solução está mesmo na BATATA. Desvendá-la-ei nos próximos episódios, prometendo menos devaneios e contando com a vossa putativa paciência. Também adoro "putativa". Adivinhem porquê... É melhor ficar hoje mesmo por aqui!

(...)

Como o Eça continua SEMPRE actual....

Das duas, uma:
  1. Ou o Eça de Queiroz tinha poderes premonitórios.
  2. Ou a política portuguesa está na mesma desde o século XIX.

Quem me dera acreditar na primeira.

De qualquer modo, este texto faz-me lembrar um candidato específico às próximas eleições. Tentem adivinhar quem...

_______

«Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.

A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.

À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.»

Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora' (1867)

Texto de Eça de Queiroz retirado de: Citador

Esclareçam-me uma dúvida...

Se, supostamente, Deus criou cada ser humano individualmente e tem um plano especial e único para cada um, então porque é que a bíblia nos diz que temos de o seguir como ovelhas em rebanho seguem um pastor?



Uma ovelha confunde-se no rebanho, seguindo o seu caminho, cegamente, como lhe é indicado pelo Pastor, abdicando, assim, da sua individualidade e do seu juízo crítico.



Então, Deus cria cada homem enquanto ser único e especial e diz-lhe para ser ovelha num rebanho.



Não há aqui uma contradição?

segunda-feira, novembro 28, 2005

As Intermitências da Morte

A minha leitura do último romance de Saramago (“As Intermitências da Morte”, Editorial Caminho, Outubro 2005) começou mal, continuou pior e acabou em apoteose. Para dizer tudo em poucas palavras: tive de perseverar contra o tédio e a sonolência durante cerca de 170 páginas para gozar as últimas 40 páginas que realmente merecem a pena: nada mais, nada menos do que uma história de amor entre a morte e uma das suas vítimas, um violoncelista que vive sózinho com um cão. Naturalmente, não vos digo se o final é feliz ou infeliz. A não perder !

Noto, porém, um certo esgotamento na veia criativa de Saramago. Os últimos romances (digamos, desde “Ensaio sobre a Cegueira” que é, em absoluto, o meu preferido) contam, fundamentalmente, a mesma história: uma sociedade fechada e cínica com uma minoria de pessoas sensíveis que, em dado momento, é ameaçada por um acontecimento insólito e generalizado (a cegueira, o voto em branco, a intermitência da morte). O governo é calculista e distante dos cidadãos. A minoria de pessoas sensíveis consegue preservar a sua integridade e sair mais ou menos incólume da ameaça colectiva.

Depois, o estilo de Saramago é o que é : parágrafos longuíssimos e compactos, divagações de oportunidade duvidosa no contexto da história. Contudo, a diversidade e a qualidade do vocabulário e da construção das frases são intocáveis na minha, bem modesta, opinião.

Transcrevo dois trechos do “As Intermitências da Morte”, mostrando o enfado do próprio escritor, quase pedindo desculpa pelo labirinto em que se transformou a narrativa…

“Os amantes da concisão, do modo lacónico, da economia de linguagem, decerto se estarão perguntando porquê, sendo a ideia assim tão simples, foi preciso todo este arrazoado para chegarmos enfim ao ponto crítico. A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando um termo actual, moderníssimo, com o qual gostariamos de ver compensados os arcaismos com que, na provável opinião de alguns, hemos salpicado de mofo este relato, Por mor do background.” (pg. 71)

“É possivel que só uma educação esmerada, daquelas que já se vêm tornando raras, a par, talvez, do respeito mais ou menos supersticioso que nas almas timoratas a palavra escrita costuma infundir, tenha levado os leitores, embora motivos não lhes faltassem para manifestar explícitos sinais de mal contida impaciência, a não interromperem o que tão profusamente viemos relatando e a quererem que se lhes diga o que é que, entretanto, a morte andou a fazer (...)”. (pg. 129)
"Abaixo os crucifixos"
ou
"Viva a religiosidade (cristã)"

sublinhei o "mais importante".


(...)
O "Diário de Notícias" noticiou no passado sábado que o Ministério da Educação está a enviar ofícios para as escolas onde foi detectada a presença de crucifixos nas salas de aula, ordenando a sua retirada.

No entanto, o Governo esclareceu que a eventual remoção de símbolos religiosos de escolas públicas só se efectivará no seguimento de queixas, que serão estudadas pelas autoridades competentes, caso a caso.

(...)

"O CDS quer acreditar que não estamos, de facto, diante de qualquer súbito totalitarismo burocrático, mas diante de simples manobras de grupos de pressão ultraminoritários, que merecem ser repudiadas e inteiramente afastadas", considera o partido, em comunicado da direcção.

Para os democratas-cristãos, qualquer limitação da expressão da religiosidade "não pode deixar de ser entendida como atentado à liberdade religiosa e combatida enquanto violação de direitos fundamentais".

"O CDS revê-se no entendimento de que o Estado é laico, mas a sociedade não", sublinha no comunicado, defendendo que as escolas devem manifestar livremente "os traços, os registos, as memórias, os sinais, os símbolos da comunidade em que se inserem".

e agora, a parte melhor:

A direcção do CDS-PP lamenta ainda que a polémica em torno dos crucifixos nas escolas tenha sido lançada no tempo de preparação para o Natal, "ferindo ainda mais a sensibilidade dos cristãos e o sentir comum dos portugueses".

Campanha II

"[Cavaco Silva é como um] macaco sábio, que não vê, não ouve e não fala, mas tira partido do silêncio"

Jerónimo de Sousa, em comício no Cacém, 27-11-2005

domingo, novembro 27, 2005

Campanha

"Fica-nos, a todos, a sensação da inutilidade democrática e da vacuidade da eleição presidencial"
António Barreto, 27-11-2005, in publico.pt

Bem aventurança

sábado, novembro 26, 2005

Crença, carência, careta - Uma nova teoria/divagação

Numa conversa acerca de Deus, um dos intervenientes de uma tertúlia de café diz a palavra "Crença", que outro interveniente percebe como "Carência". Aqui está lançada a base para a nova teoria que revolucionará (ou não) as religiões/ideais do mundo...

Ora bem, pela associação expontânea de "crença" e "carência" apercebemo-nos que os dois conceitos estão initmamente relacionados, pois quem precisa de uma crença senão uma pessoa carente? Só quem sente falta de algo que lhe é necessário é que precisa de se apoiar na fé absoluta da existência de algo (seja lá o que for). Quem não encontra explicações imediatas e universais para o que quer perceber, naturalmente, procura a sua própria explicação.

E onde vem a palavra "careta" aqui no meio? Pois bem, vem de todos os carentes crentes que transformam a sua crença/carência na única razão de ser. Ou melhor, em todos os que permitem que outros lhes façam isso. Porque se a crença é um meio de completar uma carência não deve chegar à caretice de absorver todo o sentido da existência de a quem ela recorre.

E assim está enunciada a teoria da crença/carência/careta.

Aceitam-se sugestões.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Violência doméstica matou 33 mulheres desde o início do ano

"Foram alvejadas a pistola ou caçadeira, golpeadas com faca ou machado, mortas à vassourada, à paulada, ao murro ou pontapé. Desde o início do ano, 29 mulheres foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-companheiros, mais quatro por familiares. Hoje é Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres."

in Publico on-line de hoje

quinta-feira, novembro 24, 2005

Cavaco eucalipto?

Cavaco eucalipto? Lá que o homem é hirto e teso... lá isso é! Agora, valha-nos deus, EUCALIPTO ?!

Mas, é o que o Cadilhe diz. Diz que o Cavaco é como um eucalipto: seca todo o terreno à volta dele. Zangam-se os compadres...

Divergências e equilíbrios de baixo nível

O PIB per capita de Portugal representava, em 1991, 66% do PIB per capita médio da União Europeia a 15 (EU 15, isto é, antes do último alargamento). O Eurostat prevê que, em 2005, esse valor seja precisamente o mesmo. No período 1991-2005, houve uma melhoria até 2000, ano em que o indicador atingiu um máximo de 73%, seguido de uma degradação contínua entre 2001 e 2005.

Segundo a minha estimativa, para que dentro de 10 anos, o PIB per capita português fosse igual ao PIB per capita da UE 15, seria necessário que esse indicador crescesse em Portugal, em média anual, 4.3% acima do crescimento da Europa. É obra! O Eurostat estima que o PIB português cresça 1.1% em 2005 e 1.7% em 2006. Esses valores para a UE 15 seriam, respectivamente, de 1.9% e 2.2%. Convergência? Qual convergência?

Quanto ao PIB por hora trabalhada (indicador de produtividade), em Portugal, passou de 56% da média da UE 15, em 1993, para apenas 59%, em 2003, quer dizer: cresceu somente 3 pontos percentuais em 10 anos. Esta é uma das explicações para a evolução acima apresentada.

Mas, a despesa das famílias (consumo e investimento, particularmente, em habitação) cresceu... também porque a dívida financeira das famílias passou de 44% do PIB em 1995 para 93% em 2003, enquanto os activos financeiros das famílias passaram, no mesmo período, de 191% para 209% do PIB. Já a poupança global passou de 23% do rendimento nacional disponível em 1991 para 15% em 2004.

Conclusão: Portugal estagna e as famílias gastam com base em menor propensão à poupança e em maior endividamento. O cenário não é muito diferente no que se refere às empresas e ao Estado. Quanto às relações com o exterior, Portugal tem andado num "equilibrio de corda bamba" com o défice da balança comercial a oscilar entre os 7% e os 10% do PIB nos últimos 10 anos.

Fonte de inspiração: http://epp.eurostat.cec.eu.int/cache/ITY_OFFPUB/KS-CZ-05-002/EN/KS-CZ-05-002-EN.PDF

Prova do aquecimento do planeta ("efeito tanguinha")

quarta-feira, novembro 23, 2005

De que são feitos os sonhos?

Um site engraçado...

Pus a palavra Alice, este foi um dos resultados:

Experimentem, aqui.

Via: The Presurfer

Manuel Vieira candidato... Outra vez

«A candidatura do candidato Vieira é um espaço de cidadania aberto de participação cívica de todos os eleitores e eleitoras de todos os sexos, religiões, crenças e outras coisas do género.»

Concerteza se lembrarão da tentativa de candidatura do vocalista dos Ena Pá 2000, para as últimas eleições presidenciais....

Pois bem, ele está de volta;)


(clicar na imagem)

Pier Paolo Pasolini


Fez 30 anos no passado dia 2 de Novembro que Pier Paolo Pasolini foi encontrado morto no Idroscalo di Ostia, uma praia da costa Romana, alegadamente assassinado por um jovem com quem teria mantido uma relação sexual. Tinha 53 anos. Um tribunal de Roma decidiu, recentemente, reabrir o processo na sequência de declarações do suposto assassino que continua a reclamar a sua inocência, apontando novas pistas.

Pier Paolo foi um "monstro" da cultura italiana e europeia, um herético, maldito em todos os sentidos do termo: na vida, na arte, na política... Realizou dezenas de filmes, incluindo "Teorema", "Decameron", "Os Contos de Canterbury" e... "Saló ou os 120 Dias de Sodoma" (filme extremamente violento que esteve interdito em Itália durante muitos anos). Escreveu poesia (p. ex. "As Cinzas de Gramsci"), romance (p. ex. "Os Rapazes"), teatro, ensaios (p. ex. "Escritos Corsários"). Foi militante do Partido Comunista Italiano, do qual foi expulso em 1949, também por causa das suas tendências sexuais.

Ficou famosa a posição (obviamente!) polémica de Pier Paolo a favor dos polícias que enfrentaram os estudantes durante os tumultos de 68, alegando que aqueles estudantes eram meninos mimados, saídos de uma nova burguesia arrogante, enquanto os polícias eram filhos de gente pobre dos campos e dos subúrbios das grandes cidades que cresciam como cogumelos no pós-guerra.

Decidi transcrever o seguinte trecho (em tradução livre) de "Escritos Corsários" que me parece elucidativo do pensamento político, visionário e pós-moderno, de Pasolini. "Escritos Corsários" é uma colectânea de artigos publicados entre 1973 e 1975, essencialmente, no "Corriere della Sera". Foi publicado a título póstumo no final de 1975.

"O centralismo fascista nunca conseguiu fazer o que fez o centralismo da sociedade de consumo. O fascismo propunha um modelo, reaccionário e monumental, que, no entanto, permaneceu letra morta. As diferentes culturas particulares (camponesa, proletária, operária) continuaram a obedecer aos seus próprios modelos antigos: a repressão limitava-se a obter dos camponeses, proletários e operários uma adesão simplesmente verbal. Hoje, pelo contrário, a adesão aos modelos impostos pelo Centro é total e sem condições. Os modelos culturais reais são renegados. A abjuração é completa. Pode-se, portanto, afirmar que a "tolerância" da ideologia hedonista, defendida pelo novo poder, é a mais terrivel das repressões da história humana. Como foi possivel exercer uma tal repressão? A partir de duas revoluções no seio da organisação burguesa: a revolução das infra-estruturas e a revolução dos sistemas de informação. As estradas, a motorização, etc. passaram a unir estreitamente a periferia ao Centro, abolindo toda a distância material. Mas, a revolução dos sistemas de informação foi ainda mais radical e decisiva. Através da televisão, o Centro assimilou, no seu modelo, o país inteiro, este país que era tão diverso e rico de culturas originais. Começou uma obra de homologação, destruidora de toda a autenticidade. O Centro impôs - como eu dizia - os seus modelos: esses modelos são aqueles que convêm à nova industrialização, a qual não se contenta, apenas, com o "homem-consumidor", mas postula que as ideologias diferentes da ideologia hedonista do consumo deixaram de ter cabimento. Um hedonismo neo-laico, cego e ignorante de todos os valores humanistas, cego e estranho às ciências humanas."

Permito-me apenas relativizar um aspecto: os sistemas de informação de que fala Pasolini, actualmente, servem também para disseminar o desacordo e as alternativas aos modelos dominantes.

Para iniciar (ou continuar) uma viagem (perturbante?!) pela vida e obra de Pier Paolo Pasolini aconselho o seguinte link:

http://www.pasolini.net/

Petróleo

Recentemente uma agência de rating anunciou as seguintes previsões para o preço (em dólares) do barril de crude de petróleo (a cotação anda actualmente nos 55-60 dólares):

2006: 40
2007: 30
2008: 28

Acreditam?

PS: agências de rating são empresas que avaliam a capacidade dos devedores de reembolsarem pontualmente as dívidas que contrairam. É atribuida uma nota aos devedores que pode variar entre um máximo de AAA (capacidade indubitável de pagamento das dívidas) até um mínimo de D ("default" ou "em situação de incumprimento"). As 3 principais agências de rating são a Standard & Poors, Moody's e Fitch, todas originárias dos Estados Unidos, mas tendo escritórios em todo o mundo.

terça-feira, novembro 22, 2005

Diagonal do tempo que passa

Caminhando sobre o mar agitado das minhas ilusóes
Julguei possuir o mundo
Perdendo-me de mim
Fugindo para perto demais
Para o quarto escuro do desejo
Àvido do futuro que se foi tornando passado
Depressa demais
Na penumbra de um olhar de puto alucinado

A lua chega furtiva
Espalhando uma calma fria no meu corpo

Gostava de passar incógnito pelas gotas de chuva
De não ser espelho de coisa alguma

MAFALDINHA


Clicar na foto para aumentar.

A brincar, a brincar...

Por vezes, brincando, com ironia ou malícia, dizem-se coisas que deveriam descrever situações indesejáveis ou inverosímeis. Ora, frequentemente, apenas se está a dizer a verdade, a descrever aquilo que mais tarde ou mais cedo se realizará e em que aparentemente não se acreditava. Premonições involuntárias? A brincar a brincar...

Estando mal,
há quem não queira mudar
por ter medo de não conseguir gerir
aquilo em que se poderia transformar.

Saramago dixit


Segundo Saramago, "hoje já não existem ideias de esquerda": "Estamos numa situação em que se combina o domínio do sistema capitalista de rosto neo-liberal com uma esquerda que não soube reorientar-se depois do colapso da União Soviética".

"Por isso, o que a esquerda fez, ou pelo menos o que fizeram os partidos socialistas, foi aproximar-se do centro, esquecendo que, quando a esquerda se aproxima do centro, aproxima-se da direita", opinou. “Quando a direita se aproxima do centro, não começa com políticas de centro, mas continua sim com políticas de direita. Ou seja, tudo se move para a direita, e qualquer outra coisa é retórica, são canções para fazer dormir as crianças”, afirmou.

in Publico on-line 22.11.05

Iguaizinhos....Ou não.

Um site que aponta certas semelhanças entre figuras ilustres...




E o melhor, indiscutivelmente, para o fim.




segunda-feira, novembro 21, 2005

Regras elementares e causalidades "maléficas"

Regras elementares ou banalidades por vezes esquecidas

- Só se pode gastar mais do que se ganha caso se peça emprestado.
- Se as aplicações da dívida não criarem receitas que permitam o seu reembolso, ele só será possivel se passar a existir poupança (se se gastar menos do que se ganha...) e se essa poupança for destinada ao reembolso.

Causalidades "maléficas"

Fase 1 : Cavaco + Guterres = o delírio

Introdução do euro -> redução das taxas de juro -> endividamento -> crescimento da despesa pública e privada (principalmente consumo e investimento pouco reprodutivo).

Fase 2: Durão + Santana + Sócrates = a realidade

Dívida a pagar (excluem-se os calotes...) -> despesa menor que o rendimento -> recessão / reembolso.

Notícias de Itália

Ficam a saber que em Itália:
  • Dois dos maiores êxitos editoriais deste momento envolvem autores portugueses; nos escaparates das livrarias podem ver-se "Equatore" de M. Sousa Tavares (editora: Cavallo di Ferro) e "Le Intermittenze della Morte" de J. Saramago (editora: Einaudi).
  • Mariza e Madredeus são autênticos objectos de culto musical.
  • As obras de Fernando Pessoa têm sido editadas repetidamente, também devido ao trabalho excelente de tradução e de "promoção" de Antonio Tabucchi.
  • Por sua vez, Figo tem estado bastante apagado na Inter, Rui Costa já deu o que tinha a dar no Milan, Fernando Couto desapareceu da Lazio...

Precisamos de ser bons no que verdadeiramente merece a pena. É claro que nem todos têm a mesma opinião àcerca do que vale a pena... De vez em quando, é necessário sair de Portugal para nos apercebermos da qualidade de Portugal e para quebrar a onda de pessimismo e de auto-flagelação de que alguns Portugueses, em certos periodos, são tão pródigos.