domingo, março 14, 2010

Tinha 12 anos

Não fazia a mínima ideia de ter escrito aquelas coisas... Em 1973, eu tinha 12 anos. Estranhamente, é um período de que não tenho recordações excitantes. Lembro-me de me levantar cedo para apanhar a camioneta das 7h45 que nunca mais chegava a Coimbra, às curvas pela estrada velha, fazendo um barulho de engenhoca que podia escangalhar-se a qualquer momento. Lembro-me dos putos a cheirar a pão com manteiga e de roupas com nódoas eloquentes, e de algumas mães e avós a dizer adeus à partida da camioneta na escuridão das manhãs de Inverno. Lembro-me dos mais rufías que gazetavam para fumar às escondidas enquanto jogavam às cartas a dinheiro. Eu, não! Portava-me bem. Sempre me portei bem. Lembro-me da mudança para a casa nova, do meu pai que me levava com ele a visitar os clientes nos tempos livres, e que me oferecia groselha em Miranda e um galão com torrada (mais a última revista do Tintin) em Cantanhede aos dias de feira (salvo erro, 6 e 20 de cada mês). E lembro-me de, no carro, quando regressavamos a casa, sempre tarde, cantar o fado ("quando o Hilário cantava, altas horas no Choupal"). E lembro-me da minha avó que misturava ternura, protecção, devoção e pitadas condescendentes de autoridade. As palmadas dela nunca doiam...

Eram assim esses tempos, sem grande história. Logo depois, veio o 25 de Abril e muitas confusões que me fizeram crescer mais depressa, entre a alegria e a tristeza, entre a poesia mais ou menos obscura e a prosa contestatária, entre o querer e o hesitar, entre a ambição e o coração. Mas, essencialmente, continuei a portar-me bem. Exemplarmente bem, procurando não me perder de mim próprio e prosseguindo por um dos vários caminhos do labirinto da vida. A propósito, vem-me à ideia a história da "Alice no País das Maravilhas" que representa bem as dúvidas, as ameaças, as escolhas, as alegrias, a realidade e a ficção disto tudo.

1 comentário:

Anónimo disse...

Bem comportado, respeitador, belissimo aluno, super inteligente, humilde, consciente, visionario...e com um vocabulario de se lhe tirar o chapeu!

Um verdadeiro prazer te-lo tido como amigo, "one in a million".

"...procurando não me perder de mim próprio..." -- ate nisso ja mostravas maturidade.

Teresa,
(tua colega no D.Duarte)