terça-feira, junho 24, 2008

Eldorado



Mais um filme sobre a tragédia belga, ou melhor: sobre a desgraça da Valónia. Mas, é um filme cheio de ressonâncias americanas. Às vezes, parece estarmos no Texas ou no Arkansas. Grandes Cadillacs ou Chevrolets, dois tipos completamente perdidos, sem referências, desprezados, enormes campos de cereais debaixo de um céu ora azul, como a cor dos brinquedos de lata de outros tempos, ora cinzento e ameaçador, como nos filmes aziagos ou nos romances de Truman Capote. Até há uma bomba de gasolina no meio de nada, sem ninguém. Faz lembrar "Paris-Texas". A música rima com tudo aquilo, triste e fatal. Mas, atenção, aquilo é a Bélgica francófona, pobre, abandonada, marginal, angustiada, auto-destrutiva.

A história começa com um comerciante de automóveis americanos de segunda-mão (gordo, barbudo e porcalhão, o próprio Bouli Lanners, realizador/actor) que regressa a casa e descobre que foi roubado. O ladrão refugia-se debaixo da cama. O roubado, condescendente, adormece no sofá à espera que o ladrão dali saia. Acaba por sair e apanha uma pancada algo benevolenta, seguida de uma boleia até um sítio onde não passa viv'alma. O roubado tem pena do pobre diabo e ambos fazem uma viagem surrealista até à fronteira com a França onde vivem os pais do ladrão.

Nem sequer a ternura que parece nascer entre aquelas almas penadas resiste à fatalidade da tragédia belga.

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