Finalmente, rendi-me. Comprei uma máquina digital Sony Cybershot. Tem tudo o que é preciso para passar a ver o mundo através de um ecrã. Através do qual se tem a impressão de fazer parar a vida e o mundo, de guardar instantes que valem sobretudo pelo seu efémero. Agora sinto-me mais japonês. Eles andam por todo o lado, franéticos com aquela coisa em riste. Deixam de ver a realidade para se concentrar na captura (para sempre) da realidade. A Europa, para eles, é uma sucessão de pequenas janelas de não sei quantos mílímetros de diâmetro. Passei a ser japonês com a minha Sony Cybershot, caçador de imagens para mais tarde recordar, sempre deslocado em relação ao agora, sempre para trás, na pasta do meu computador que guardará centenas de imagens mais ou menos anónimas, ou para a frente, na ânsia de captar uma imagem futura que passará rapidamente à arqueologia das coisas que passaram depressa demais e que não se gozaram como se devia porque, com a minha Cybershot, permanecerão para sempre na mais irrisória insignificância dos arquivos inúteis.
Mas, por que carga de àgua é que comprei a Cybershot. Talvez porque, como dizia a minha avózinha, "quem tem muita manteiga, assa-a na ponta de um espeto". Também por esse desperdício sinto-me culpado...
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